Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

quarta-feira, 13 de março de 2019




Na inquietude
 
Leva-me às veredas
onde ainda a saudade me caiba,
às fontes onde à sede me bondem,
ao açude onde à loucura
me seja espelho.
Há céus que não me chegam
ao desejo de voar
e há caminhos que me sobram
à pressa de caminhar.
 
Leva-me ao ponto
em que as asas me nasciam,
deixa-me planar como papagaio
em mão inocente,
deixa-me ficar
na quietude dos regressos...
 
Na inquietude ,
onde os desejos se me fazem
aves de arribação
acontece-me por vezes
um voo frustrado
não por falta do balanço certo
mas talvez por falta de horizonte
onde a rota caiba.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Um Olhar




Era fim de tarde no meu olhar,

olhar de contemplação e espera.

Fim de tarde de dias longos,

de sol lânguido,

de pôr-do-sol lento e sedutor.

Bastaria um leve pestanejar  

para que as folhas se agitassem no meu olhar.

 Espreito a quietude e entro nela.

O entardecer abraça os meus pensamentos,

a noite a deixar-se cair lentamente

 beija as minhas loucuras.

Era fim de tarde no meu olhar

e foi assim que em ti me detive.

Desci  dele lentamente

como quem quer ver mais perto,

planei, e, logo que vi com nitidez

os contornos do teu corpo,

como que em voo picado e

águia com golpe certeiro à presa,

lancei-me sobre os teus perfumes e,

com um estremeção os pensamentos

em que me tinha detido despertaram,

e ali estava eu a fitar-te com enlevo,

a sorver cada momento.

Então sentii que no meu olhar

Já não morava o fim de tarde.

Como horta regada, era manhã. 







UN MIRAR (mirandés)




Era fin de tarde ne l miu mirar,

mirar de ouserbaçon i spera.  

Fin de tarde de dies lhargos,

de sol abatido,

de çponer debagaroso i atiradiço.

Bundarie un lebe piçtanhar

para que las fuolhas se alborotássen ne l miu mirar.

Spreito la medorra i entro neilha.

L antardecer abraça ls mius pensares,

la nuite a deixar-se cair a pouco 

beisa las mies chocheiras.

Era fin de tarde ne l miu mirar

i fui nel que me ambaí.

Abaixei del debagarico cumo quien quier ber

de mais acerca, suberti, i,

assi que bi cun clareza ls lhemites

de l tou cuorpo, cumo an bolo relhistro

i águila certeira a la caça,

botei-me subre ls tous cheiros 
i, cun un stremeçon

ls pensares adonde m´habie ambarado spertórun

i alhá staba you ancandilada a mirar-te,

a sorber sfregante a sfregante.

 Fui assi que bi que ne l miu mirar

yá nun moraba la fin de tarde.

Cumo huorta regada, era manhana.

sábado, 14 de abril de 2018

Circuito pela Grécia e Cruzeiro por Ilhas gregas

Foi uma boa opção de marcação de férias, com começo no dia 13. Setembro teve temperaturas altas e há muito menos enchente nas visitas programadas. Mesmo assim as guias marcavam a hora de despertar muito cedo, a maior parte das vezes na ordem de seis e meia a sete horas.
Na parte continental tivemos a Helena como guia. Excelente guia e muito simpática. Mulher madura. À  excepção do intervalo da sesta de fim de almoço, para descansarmos um pouco e dormir quem fosse capaz,  passava o tempo das deslocações a explicar tudo e claro, com muita mitologia à mistura.
O primeiro dia, cada um por si, foi passado em Atenas, cuja primeira abordagem foi do terraço do Hotel Stanley, com vistas a trezentos e sessenta graus e situado Junto à Praça Ícaro, muito central, diga-se, embora os quartos não fossem de grande qualidade.

À primeira impressão a cidade não nos agradou. Achámos de lá do nono andar que seria uma cidade muito compacta e pouco atractiva. Quando a sentimos com os pés no chão e mais tarde em percurso turístico para assentar ideias de localização, mudámos de opinião. Na verdade trata-se duma cidade que circunda na totalidade a Acrópole, de prédios baixos, daí a sua extensão, de bairros comerciais de ruas estreitas onde se pode encontrar tudo quanto se possa imaginar, o bairro Kolonaki, muitas lojinhas, muitas ourivesarias, muito tudo. À noite uma caminhada pela cidade é sempre indispensável para assentar orientações.

Uma visita guiada à Acrópole com toda a sua história e mitologia, assistir ao render da guarda em frente ao Parlamento na Praça Sintagma que para além de tudo nunca esquecerei pelo trambolhão que dei. Visita a museus de arte. Depois, partida para as ilhas, nem sei qual mais interessante quer pela paisagem, pelo mar , quer pela riqueza histórica. regresso e passeios a pé sentindo a cidade. No regresso das ilhas passámos novamente um dia em Atenas com projecto livre e cada um por si, sentimos a cidade e fizemos a despedida.

Adorei esta viagem. Uma semana pelo Peleponeso, com especial referência aos mosteiros no cimo de rochas altíssimas, ( os Mosteiros de Meteora) próximo de Calambaca. Olímpia e muito próximo o local onde nasceram e se realizaram os primeiros jogos olímpicos.

A outra semana em Cruzeiro, visitando seis ou sete ilhas e uma pequena cidade costeira na Turquia e daí, visita a Éfeso com deslocação em autocarro.

Uma brevíssima descrição pois estou a fazê-la, quase quatro anos mais tarde e sem qualquer cábula, o que denota insuficiencia na descrição.

Muitas outras se seguiram, felizmente, mas, nunca tive o hábito de as descrever em publicações. A última foi por nossa conta e com carro alugado para as deslocações. Em quinze dias visitámos Montenegro, a Croácia, Trieste, Eslovénia e Bósnia. Foi fantástica e correu muito bem. Não vou descrevê-la mas se me pedirem poderei fornecer o itenerário e locais visitados. Adorei tudo. Trieste, em Itália, esse pequeno pedaço que não conhecíamos, é absolutamente imponente.

Enfim, é preciso rentabilizar o tempo pois a vida é curta...






segunda-feira, 26 de março de 2018

Os poemas que não disse



De súbito dobraste a curva do caminho
e surgiste como orvalho sobre amoras.
No meu peito esvoaçaram os pássaros,
encheu-se então de gestos,
as mãos de palavras,
a boca de flores.
Queria tanto que acelerasses o passo
para depressa te sussurrar poemas!
Quando a terra me tremeu
debaixo dos grãos de areia
que dos teus pés se soltavam,
emudeci,
as mãos esqueceram os gestos,
os pássaros voaram para fora do peito
e foi então que de súbito
tu colheste as flores da minha boca
e eu me fiz obreira.
Sobraram os poemas,
soltaram-se os gestos,
a manhã secou o orvalho
e junto à berma do caminho de ninguém
perdurou o aroma doce a amoras
e a flores silvestres.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Chegada e espera

 Dói a espera.
 Nem sei se o que dói é a espera
 se é o medo
 de não ter por que esperar.


 Num banco de jardim sentado
 espera o dia saturado
 de pardacento ser noite
 sem horas de noite ser.

 Chega a noite,
 chora o dia
 sem saber o que fazer
 pois que o dia já foi noite
 e a noite,
não deixou o dia ser.

 Dói a espera
 disse a Lua
no seu estado de mingar
 dando voltas e mais voltas,
 sentindo saudades loucas
 da noite, por ela a esperar.

 E quando chega a lua
 com a pontinha a brotar
 diz o dia:
 que afortunada é a noite
 que sendo noite
 às vezes parece dia,
 com poetas para inspirar.

 Espera o dia, outro dia,
 espera a noite e outra chega,
 espera a lua, a luz de volta,
 a vida é chegada e espera.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Se não tivesses bebido água noutras fontes,
a tua fonte estaria mais límpida, andorinha! 
O teu beiral estaria mais caiado 
para te receber 
sempre que em cada primavera 
quisesses retocar
os rombos do teu ninho
que sempre a chuva dos invernos
faz no barro amolecido.
Passa agora em voos rasantes
à tona da água
para que o vento das tuas asas
leve as folhas secas que flutuam
e na tua fonte reapareçam,
céu azul e nuvens brancas.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Lembranças poídas



Há as paredes negras
a lembrarem dias
noites com candeia
camuflando vincos
traçados nas vidas

Há a mão ágil
tecendo a meia
e sempre fazendo
os fios da vida
com que vai tecendo

Há o armário enfeitado
com papeis recortados
de jornais não lidos.
Amareleceu-os o tempo
o tempo e o fumo
dos manjares não servidos

Servidos na malga
e num prato
onde todos jejuavam.
Servidos nos campos
em suores amargos
com que se deleitavam

Há o lavatório
à entrada da casa
onde passam mãos
lavadas à pressa
fervendo em brasa

Há a criança
a chorar
nas costas cansadas
e há a fome a minar
em ventres meninos
há a lágrima a secar
no rosto da mãe
esticando vestidos;
e abaixa a baínha
e cose os rasgões
vira o tecido
vira o colarinho
e muda os botões


Muda, muda e troca
de vestido, a saia

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Me perco



Vi-te ao longe quando a minha sombra era sobejamente conhecida dos meus olhos. Eras Atlântico, verde, lindo. Inacessível também embora agora saiba que arrastavas a areia com as tuas ondas, ali bem perto de onde morei. Soube-o quando me passeei o ano passado na marginal de Gaia. 
Na altura nunca imaginei que tivesse o mar não muito distante. Naquele tempo tudo parecia longínquo e inacessível. Era o tempo em que as roupas eram escassas, os pés descalços, os sapatos caros para os gastar em caminhadas inúteis, os automóveis, de ricos, os tostões para o autocarro, muito caros, o conhecimento curto, o mar em imagem.
Tão perto sem que te tenha tocado, sem que me levasses para longe no balançar das ondas, olhos famintos desejosos de horizontes mais distantes. Ouvi o teu som num búzio encostado ao ouvido quando visitei um parente dum marinheiro. É o murmúrio do mar, disse-me e disse-o naquele tom de quem se sente conhecedor do mar só porque tem um búzio sobre a mesa e porque ouviu umas histórias a um marinheiro. O som podia não ser completamente fiel ao bater das ondas, as histórias podiam ser uma hipérbole, mas, na verdade, aquele ancião do interior sabia muito mais de mar do que eu sabia.
Eu sabia! Eu sabia que o meu olhar de centelha, desejoso de outros horizontes havia de poisar nas ondas, viajar pelos horizontes longínquos a confundirem-se com o céu no exacto ponto onde o sol se põe, onde as águas fazem espelho e as gaivotas já nem pontos são no firmamento.
Era Índico. De manhã calmo, agitado à tarde. Às vezes também era raivoso de manhã, mudava de humor frequentemente, umas vezes mais, outras menos, dependendo da praia. Um dia virei-lhe as costas para fugir duma onda; engoliu-me e vomitou-me depois. Eu engoli água, muita água, água e areia. O grupo em grande divertimento a cortar ondas e a saltar ondas em grande euforia não se apercebeu. Lembro-me que me senti enrolada trezentos e sessenta graus não sei quantas vezes e depois fui trazida para a areia como concha vazia, pela onda que me serviu de tábua de salvação. Fui forçada a tossir e a água armazenada finalmente saiu e respirei. Sobrevivi e não mais me aventurei em ondas traiçoeiras e, sobretudo nunca mais virei as costas ao mar. Agora abraço-o. Do Índico tenho uma saudade infinda. Abraço o Atlântico. Fui perdendo o trauma e aos poucos, tornei-me amante do mar. Breves incursões noutros mares mais calmos, dorminhocos mesmo e, para dizer a verdade, é na ondulação que gosto me sentir viva.
Lamento ter que te confessar, Atlântico, a ti que com paixão platónica amei. És para mim uma sombra de uma lenda que vivi num Oriente de costa, onde as águas eram tépidas, onde as praias eram imensas onde o sol ardia não fossem as sombras dos pinheiros que povoavam as dunas e quase se aventuravam mar dentro.
Apesar disso, apesar de seres frio, apinhado de gente e motas de água, aprendi a amar-te e a paixão platónica de início, transformou-se em carnal, não sendo capaz de estar muito tempo sem te visitar.




Me perco…


Bebo-te com as mãos
Beijo-te com os olhos
E acarinho-te com o corpo
Quando por ti adentro
Entro …
Mar de espuma, revolto
Transparente, verde
Aroma de beijos
Força de abraços
Poltrona de seda
Onde me deito.
Mar, mar!
Mar tão imenso
Paquete de cristal feito
Que me leva a viajar…
Contigo vou
Contigo volto
Na tua brisa.
No ondulado de teu cabelo
Mar amado, me perco...


Me perdo…



Bebo-te cun las manos
Beiso-te cun ls uolhos
I acarino-te cun l cuorpo
Quando por ti adrento
Me meto.
Mar de scuma, rebuolto
Transparente, berde
Aroma de beisos
Fuorça de abraços
Scanho de seda
Adonde me deito.
Mar, mar!
Mar tan eimenso
Paquete de cristal feito
Que me lhieba a biajar...
Cuntigo you scapo
Cuntigo you torno
An tou airico lebe.
Nas óndias de l tou pelo
Mar amado, me perdo...

sábado, 10 de dezembro de 2016

E eu...


E eu...
Já a sombra me cobre o chão.
Qual chão, qual sombra?
Como posso ver a sombra 
se não há chão nem lua,
se a noite é breu e eu cega?
Caminho na vereda,
os passos dormem,
a água do ribeiro descansa,
a árvore retrai-se
com o piar do mocho
que lhe pousou em cima.
Sem ver, a árvore assustou-se,
cresceu-lhe um arrepio na raiz,
tremeu o tronco,
balançaram os ramos
e nem uma brisa corria.
Ouvi o som da queda
do gelo que os vestia.
Tive medo, tanto medo!
Ao mesmo tempo
passou-me o gelo na espinha,
o mocho rasou-me o rosto
e muito mais eu tremia.
É mau prenúncio, pensei…
O mocho rasou-me o rosto,
o gelo gelou-me a espinha…
Nem sombra, nem lua nem chão!
Cega, a noite…
E eu…

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016


Gotas



Deslizam gotas do colo
quando te penso.
Serão lágrimas
que se feriram em quedas repentinas,
ou serão pingas de chuva,
 ou serão pérolas de orvalho?

Aí, descanso as penas,
as mãos cansadas,
as gretas que hão-de amaciar,
asperezas  de vidas gastas
 tempo de urgência a passar.

Já o Outono se está a escapar…
e eu que fujo do Inverno
como o diabo da cruz!
Já os rebentos começam a dobrar,
já as vontades enfraquecem,
 já o querer às vezes entorpece,
 já as forças mareiam ao girar.

Segura os minutos às golfadas que dão a frescura!
Prende as horas para que a jornada te renda!
Aprisiona os dias para que a empreitada seja longa
mesmo que a soldada não te seja paga!

Deslizam gotas do colo
 quando te penso.
Cubro de terra as sementes,
 esperança de colheira
vencida que seja a invernada…




(em Mirandês) 
 Pingas 




Sgúbian-se pingas  de l rogaço
quando te penso.
Seran lhágrimas
que se scalabaçórun an caídas repentinas,
ou seran pingas de chúbia,
ou seran pérolas d´ourbalho?

Descanso ende las penas,
las manos cansadas,
 grietas que hán-de amerosar,
coscurones de bidas  a zlir,
tiempo d´ourgéncias a passar.

Yá l outonho se stá a scapar…
I you que fujo de eimbierno cumo diabo de la cruç!
Yá las fronças s´ampéçan a drobar,
yá las ganas se debélgan,
 yá l querer a las bezes s´angaramona,
yá las fuorças maréian a barimbar…

Sigura ls minutos a las golfiadas que dan l tempeiro!
Prende las horas para que la jeira te rinda!
Apeia ls dies para que l´ampreitada seia lharga
anque la soldada nun te seia paga!

Sgúbian-se pingas de l rogaço
 quando te penso.
Acubro semientes,
 sprança de muolo

bencida que seia l´ambernada…

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Contigo digo-me, eu mesma!





Quando me digo contigo,
É como nadar nas águas limpas dum ribeiro,
mexer as pernas sem agitação
para que as águas não turvem,
o cantar dos pássaros  não se perturbe,
os peixinhos venham em cardume às minhas mãos,
me façam cócegas
e tu língua minha,
com palavras me venhas a curar do riso.

Deitada  nesse ribeiro, sobre o céu,
Vejo o céu real por cima,
azul infinito com castelos brancos
onde vou escrevendo com tinta
que dele sorvo.
 Assim fico.
Palavra atrás de palavra
que tu me vais ditando,
orquestra afinada de letras,
sensível som,
equilibrada entoação,
música de palavras que me embala
me faz dançar por dentro.

Uma nuvem está já cheia.
Passo para outra.
Uma partitura acabada.
Vira-se a folha.
Mais um violino a fingir que chora,
rouxinol na ponta dum ramo dum salgueiro,
mais sons, mais palavras,
mais cantares doutros passarinhos,
a água a correr,
o sangue a aquecer,
as palavras a nascer.
Mais peixes a espreitar o meu corpo nú,
eu escrevendo o céu,
deitada sobre o céu,
ribeiro de águas cristalinas de palavras,
contigo.

Uma brisa sacode as nuvens,
as palavras vêm voando em carreirinha,
fazem cascatas ao chegar,
ajeitam-se,
tomam o seu lugar,
juntam-se em escada,
caiem,
reorganizam-se,
umas vezes são de seda,
outras vezes de cantaria
e terra enregelada.

Contigo  digo-me,

 eu mesma!

sábado, 15 de outubro de 2016

Contigo




Rio Douro em Miranda do Douro-  Portugal


Na quietude do teu leito
faço a cama
e descanso das rotinas
que não suporto.

Há horas
que de tão inúteis me deslaçam
e há momentos
que me tonificam os sentidos.

No correr tumultuoso das tuas águas,
a poesia agita-se,
urge correr atrás de ti,
ás vezes tropeço, outras avanço,
outras há em que me perco.

Depois,
apanho-te dianteira na corrida,
cortaram-te o caminho,
de susto espumas
mas segues depois calmo, sonolento.

Enlaçam-te as pontes,
as gaivotas saúdam-te,
o mar abraça-te e vai-te levando
e é nesse ir que eu vou...
Contigo.
Mar fora,
agitando horas mortas...

Foto de Eduardo Domingues

Voo












Sou aquela que procura paz
E que nem sempre a encontra.
Sou um puzzel onde há uma peça
Que não encaixa.

Resvalo…
A custo levanto-me e continuo a resvalar.
Em tudo resvalo
No tempo que não tenho e no tempo que me sobra
Nos caminhos tortuosos e nas alamedas perfeitas
Nos rios limpos e
Nos pisos gelados e nos caminhos secos.
Resvalo...
E embato contra mim própria.
nos lagos lamacentos
Vasculho…
Há sempre algo que não encontro
Algo que se perdeu
Numa núvem de poeira.
Os olhos procuram, lacrimejantes
Em pestanejar constante.
Fixos e ausentes deixam de pestanejar
E de repente
Algo vislumbram
Num canto esquecido, amarelecido.
Será essa a peça que procuro
Aquela que me falta encaixar?
Tento arrancá-la à força
Mas não a posso despegar.
Desvio o olhar
E não há nada.
Caminho...
Continuo a minha vida
A paisagem onde falta
Um pedacinho de azul no céu.
Voo ...
Em direcção ao azul.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Cheiro com cores de especiarias


                                          Imagem da net



Há dias em que a chuva chega sem bater à porta, molha as soleiras e os parapeitos, a roupa do estendal que deixei enfeitado com cores de roupa de verão e leveza de esvoaçantes de festas. Vem e pronto. Quando dou conta já nada há a fazer. Aventuro-me à chuva para salvar algumas peças dos sopros do vento e, antes de concluir o intento, já estou como um pintainho acabado de sair da casca do ovo.

Há dias em que na cidade me faltam coisas que tenho no campo. O contrário também é verdadeiro.
Estivesse eu na aldeia e a chuva não me fintaria desta forma! O chão estava sequioso e, aos primeiros salpicos, despertar-me-ia os sentidos com o cheiro forte a terra molhada. Teria corrido para o estendal e deliciar-me-ia com o gotejar dos primeiros pingos e, passando debaixo do beiral, não levaria ainda com os riozinhos suspensos que me encharcam a cabeça até os miolos e me fazem arrepios nos ossos.

O cheiro a terra seca depois de ter sido salpicada levemente pelo primeiro borrasco,  traz-me a imagem de especiarias garridas, das que se podem ver nos mercados da Grécia, de Marrocos, da Turquia e tantos outros lugares como já vi também em Marselha num mercado de rua. Acho que aquele cheiro, se se pudesse identificar a cor dum cheiro, eu diria que seria vermelho, misturado com terra queimada e um pouco de laranja, de açafrão. Quente, forte, sensual. Da cor da terra em muitos sítios de África. Talvez a minha identificação de cor num cheiro, como muito quente, me venha mais desta terra do que propriamente das bancadas de especiarias que já vi em diversos lugares. Aromas cor de terra. Vermeilhos alaranjados.

Há tantas coisas que na aldeia me fazem tanta falta e que a cidade me dá. Quando chego venho faminta: De cinema, de concertos de música clássica ao ar livre tão frequentes nos jardins de Lisboa e Sintra durante o Verão ou em salas a preços mais convidativos, bailados, museus.
Sou um passarinho livre de campo, mas a cidade fascina-me e faz-me falta e, o mar é ópio que me leva para além dos limites da imaginação.

Há dias em que na cidade não sinto que a chuva me deva trazer o cheiro das cores quentes da terra quente e seca porque simplesmente a acho linda e abençoa e há dias de chuva que me pesam sobre os ombros toneladas.

sábado, 8 de outubro de 2016

Diz-me









Diz-me das brisas
que te fazem acordar
com um sorriso a cheirar a alfazema;
 diz-me dos sonhos
que te despertam o olhar
sem bocejos
a pedirem cafeína.

Caminho cambaleante
e passo pelo dia
sem lhe dar os bons dias.
Depois ele saúda-me
e segura a minha chávena de café
pelo aroma que me vai oferecendo
à medida que os reposteiros dos meus olhos
 se vão abrindo lentamente.

Diz-me porque adormeces
como  o vento a calar-se num sopro
e a vida a parar num momento.
Porque te enrolas na noite
como jasmim  na laranjeira
e nem em pesadelo cais no campo de alfazemas
que o romper do dia te oferece?

Bendita cafeína,
droga concentrada a indicar-me
o invisível caminho da manhã!...

Diz-me…

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Histórias para “nanar” A NUVEM BRANCA



Há uma nuvem branca tão linda no céu e o céu está tão azul!, dizia a menina, quando, deitada com a avó para que esta lhe contasse a história de sonhos, olhou através da janela.
Verdade, Violetta! Lindíssima!
Qual história queres que te conte?
A da nuvem branca,… respondeu.
“Na verdade, a volta ao mundo num mastro dum barco de cruzeiros não é o melhor da vida. Estou tão cansada e desejosa de ver a minha família!” Foram as primeiras palavras da gaivota logo que avistou os penhascos onde sempre tinha passado as noites, com a mãe, pai e irmãos.
Era uma nuvem branca, tão branca e tão fofa que era mais fofa que algodão e mais branca que neve. De onde em onde, uns laivos de azul e cor de rosa, dum tom desbotado.
Uma gaivota queixava-se da sua vida sem interesse: Que vida a minha nesta haste de bandeira, em barco de pescadores! É certo que apanho muito peixe, mas de que me serve andar bem alimentada se não há aventura neste modo de viver? Dizia isto como se estivesse a falar para outras gaivotas afastadas. (Uma vez, tinha decidido voar para longe, mas pouco depois, estava tão fraca!...Certa de que não estaria longe, regressou).
Nisto, a haste mexeu-se, balançou e a nuvem branca aproximou-se, perto, tão perto,… que quase as suas vestes brancas tocavam no mar. A gaivota pestanejou, curiosa… No meio da nuvem abriu-se uma brecha de onde saía uma voz que dizia: Olha, eu posso arranjar-te um barco grande!
A gaivota arregalou os olhos, deixou cair a cabeça para o lado da nuvem para se certificar se era voz de verdade ou se tinha delírios. Nisto, uma fada vestida com um vestido branco até aos pés, agitou a varinha de um lado para o outro e disse: Fada Lylly, vai trazer-te um barco de cruzeiros, aqui!...
Num instante o barco apareceu. Branco, grande e com tantas janelas como o hotel que a gaivota avista do seu penedo.
Agora tenho que ir! Tenho seis filhas na nuvem, a quem ando a ensinar a minha arte.
Entrou, a nuvem subiu e ficou a flutuar no céu, por cima do navio.
A gaivota poisou no mastro e, ainda antes do sol posto, deixou de ver terra e o penhasco.
A nuvem branca seguiu sempre no céu, por cima do navio...
Nisto, a nuvem foi-se abrindo, separando, dividindo, até que se formaram sete pequenas nuvens brancas, tão brancas e fofas como era a primeira.
Uma brisa ligeira foi-as embalando,… levando…
Ao cair da noite fixaram-se parecendo coladas no céu…Sete nuvens. Suspensas do céu. A maior, a da fada Lylly.
As fadinhas dormiam cada uma em sua nuvem para se habituarem a não ser medrosas.
Ao nascer de l sol, a brisa soprava, soprava…
As nuvens voavam em direcção às outras até que se formou novamente a nuvem branca,… grande, fofa,…onde a Lylly ensinava as coisas da vida às fadinhas.
Passaram muitos dias, muitos meses. A gaivota conheceu cidades, enjoou em mares de tormentas, entrou nos salões de festas onde tudo brilhava, vestiu-se de dourado e prateado,… bailou esvoaçando, tocou guitarra, cantou….
Um dia sentiu falta da sua família e ficou triste…
De onde estava, num país de longe,… muito longe… um país lindo, … muito lindo, um país chamado Sol Nascente, avistou o seu rochedo enquanto o diabo esfrega um olho…
Foi a fada Bi, vestida de cor-de-rosa claro, que, com a sua varinha mágica, lhe arranjou forma de regressar a casa, levada por um feixe de luz…

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Poemas à solta

 
Solto uma frase ao acaso
e ela voa ligeira.
Junta-se a outra, e mais outra,
como se a frase fosse gente,
gente que grita em revolta,
criança com fome que chora,
nasce o poema à solta,
mas sem liberdade completa.
Engole o receio, o poema,
de ir parar à rua fria,
caminha livre, quiçá escravo,
esfrangalha-se todos os dias,
no bolso não tem um "chavo",
mas medo de ser despedido.
Sobram-lhe dias ao poema,
faltam letras ao jantar.
Sobra-lhe a raiva ao poema
e a vontade de gritar...
Sai do livro,
vai para a rua,
põe o cravo na lapela
e solta a voz aprisionada.
solta frases, liberta letras,
sobe ao palanque,
fala de Abril, liberdade.
Pois que culpa tem Abril
de que o mundo não avance?!
Poemas!
Poemas somos nós todos,
sejamos com rima ou sem rima!
Temos que acabar com aqueles
que comem a antologia!
A antologia e os livros,
o trabalho e a dignidade,
contra os corruptos gritemos,
por Abril, em liberdade!

sábado, 2 de abril de 2016

Primaveras que tardam, Verões que escaldam





Segredos do Inverno aberto aos quatro ventos
entram Primavera fora e não há quem os detenha.
Esvoaça a neve sobre os rebentos dos freixos,
a neve cobre os chougarços prontos a parir.
A cerejeira encosta o ouvido à pereira e pede-lhe remédio
para segurar a brancura que está quase a assomar-se.
A pereira diz-lhe: Se quiseres que o teu vermelho
sirva de pecado a todos quantos olhos passem,
tens que suster as contracções do parto.
Há ventos que ferem os sentidos,
caiem os frutos por lhe haverem cortado o cordão,
rente ao umbigo,
neblinas que confundem os olhares das flores acabadas d´abrir,
segredos dum tempo que ninguém é capaz de descobrir.


Primaveras que tardam, Verões que escaldam.



(An mirandés)

Primaberas que tárdan, beranos que scáldan


Segredos de l eimbierno abierto als quatro aires
éntram primabera afuora i nun hai quien ls detenga.
Sbolácia la gelada anriba ls gromos de ls freixos,
la niebe cubre ls chougarços cumpridos, prontos a parir.
La cereijeira ancosta l´oureilha a la pereira
i percura-le por malzina para sigurar la brancura
que stá quaije a assomá-se.
La pereira diç-le: Se quieres que l tou burmeilho
sirba de pecado a quantos uolhos pássen,
tenes que sustener ls puxos de la pariçon. 
Hai aires que scadárçan ls sentidos,
cáien ls frutos por le habéren cortado las bides
mui rente als ambeligos,
nubrineiros que cunfúnden ls mirares de las flores
acabadas d´abrir,
segredos dun tiempo que naide ye capaç de çcubrir.

Primaberas que tárdan, beranos que scáldan.


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terça-feira, 29 de março de 2016

Quando me dizes, poema


Quando me dizes mar, poema,
dizes-me vaga em mar alteroso.

Não me digas assim, poema!
Pois tu não sabes que o meu nadar 
é feito de frágeis braçadas, 
respiração descompassada, 
braços e pernas desatentos,
corpo inábil, 
na iminência de afundar.

Se me quiseres dizer, poema, 
diz-me rio, 
apressado
ou calmo, 
vadio, 
ou constante,
esticando com suas águas, 
as ervas que lhe são margens, 
ou dormindo sobre os seixos 
que lhe são leito e
no espelho beijando o céu.

Diz-me também ribeiro,
apressado, 
à beira do precipício, 
suspensa a respiração, 
arrepios na espinha, 
e o abraço a dar-se,
o remoinho a formar-se, 
uma força a sugar
toda a espuma em alvoroço 
e aí sim, 
na loucura do rio, 
eu serei vaga alterosa, 
envolvente, 
apaixonada, 
sem pé 
nem chão.

sexta-feira, 25 de março de 2016

O poema inacabado



Tento segurar  o poema inacabado
e agarro-me às silvas,
ainda que saiba que as mãos ficarão rasgadas
e as pernas trémulas do medo
da fragilidade das hastes
perante o meu peso.
Procuro numa mirada rápida um arbusto
que me sugira ser mais robusto,
mas nada vejo.
Penso: Terá que ser o silvado 
a livrar-me da queda
no chão rochoso do despenhadeiro. 
Assim,
tomo-o como um amigo verdadeiro,
aperto  com força
e ele
tudo faz para me manter o brilho na voz,
a lua no olhar
e, nas mãos
o poema continuará
por  acabar.

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