Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

domingo, 15 de março de 2009

Nasce poesia

Se a minha alma chora e lágrimas solta
O coração se aperta e a dor o sufoca
Se qualquer coisa me abala e me perco na rota
Me gelo no Verão e na noite fria
Em murmúrios ou gritos
Nasce poesia

Se a mulher é humilhada quando passo na rua
E a criança é violada e implora ajuda
A dor corta-me o peito dessa aguarela crua
Ergo-me com força pego a folha vazia
Lanço-me em revolta
Nasce poesia

Se por ser mal amada uma pessoa sofre
Eu passo para mim todo o sofrimento
Ergo a minha voz e com o seu lamento
A minha alma fala o que ela sentia
Em dolorosas palavras
Nasce poesia

Se do peito transbordo a felicidade
Por te ver ó botão a abrir em flor
Se a alegria existe e predomina o amor
E todo o universo vive em harmonia
Canto feliz agradeço
Nasce poesia

Se a planura me encanta mesclada de flores
Malmequeres papoilas urzes violetas
Os pássaros voam em enleados amores
E a árvore esvoaça com a ventania
Persigo borboletas
Nasce poesia

Se o sol me aquece e a lua me inspira
Em noite estrelada e num dia qualquer
Se vejo num homem alma de mulher
Que a sofrer chora e enfim suspira
Me compreende e me contagia
Eu canto com os dedos
Nasce poesia...

sábado, 14 de março de 2009

Prolongue-se a noite

Noite...
Prolongue-se a noite
A noite estrelada

Mágica
Bela, serena, amada
Onde te sinto
E pressinto

Noite...
Oferece-me as estrelas
Olha para mim!...
Estou de mãos abertas
Para recebê-las

Noite...
Prolongue-se a noite
Prolonguem-se as estrelas

Escuta-me
Em suave lamento
Traz a minha estrela
A mais doce e bela
Do teu firmamento

Brisa...
Leva contigo a quimera
Traz o etéreo aroma
Para eu o sentir
Tal e qual ele era

Noite...
Prolongue-se a noite
Olha para mim!...
Tem que haver mais estrelas
E, estou de mãos abertas
Para recebê-las

sexta-feira, 13 de março de 2009

Mudam de cor, se preciso for


Deslumbrou-se na escalada
para subir mais alto
Na recta da ganância
E cego de poder despistou-se
E derrapou no asfalto

De honestidade perdida
E de alma impura
Segue a velocidade excessiva
O que ele era
(será que foi?)
Ficou em rua sem saída

Os ideais que defendeu
Selou-os em tumba
De pedra enegrecida

Poderoso…
Compra silêncios
Para negociatas
Move influências
Compra mentiras
Prova Inocências.

Muda de cor
Se preciso for…

quinta-feira, 12 de março de 2009

Flor Fonte

Tu és beija flor
De voo intenso
Eu sou flor
De jardim imenso

Vem!...
Vem planar no meu jardim
Deserto dourado escaldante
E rega-o com o teu oceano
De maré transbordante

A flor estonteada
Com o voo permanente
Tão hábil e eloquente
Será a tua amada

Nela crescerá vida
Suave guarida
Oásis sem fim

A flor será fonte
E a fonte será flor
Cândida de vida
Repleta de amor

quarta-feira, 11 de março de 2009

Procura-me


Dou-me como se dá o rio ao mar
em tumultuosas tempestades
Dou-me como se dá o vento às folhas das camélias
em suaves afagos
Dou-me como se dá a lua às estrelas
em pestanejar insinuante
Dou-me como se dá a flor ao beija flor inconstante
em doce néctar
Dou-me na insegurança de certas verdades
que me confundem
Dou-me nas palavras que me exiges
e que não me balbucias

Encontro-me no silêncio da noite escura
à espera de te encontrar
Encontro-me em encruzilhada labiríntica
duma teia tecida com fio resistente
que me desorienta

Procuro uma bússola
que mostre o caminho que me leve a ti
neste universo confuso
Procuro um farol que me faça encontrar
o caminho liso
e orlado de jasmim

Pois tu não vês
que os meus olhos são duas fontes de água cristalina
que não vislumbram na penumbra
Pois tu não vês
que o meu coração e a minha alma são canoas
que não navegam em água turva

Procura-me…

Neste Mundo...


O povo vive faminto
E não consegue aforrar
O pouco que tem é gasto
Para mal se alimentar

Quem consegue, vive inquieto
Para guardar seu suor
Venham venham, diz o Banco
Venham o dinheiro aqui pôr.

Na ânsia de mais ganhar
Vende-lhe gato por lebre
O povo fica a chupar
No dedo cheio de febre

Cheio de febre e de raiva
Por tanto ter sido enganado
Ele mirrado, os outros gordos…
Neste mundo malfadado

Mas então o que fazer?
Pergunta-se com razão
Notas afundadas na crise
Ao ouro vem o ladrão

Até que por fim se decide
O que fazer então
O ouro põ-se no cofre
O dinheiro no colchão…

E depois? Mas que maçada!...
Dá logo para pensar
O ouro desvaloriza
E as notas irão mudar...

Pensando melhor eu decido
Em irreflectidas miragens
Derreto o ouro e as notas
Em cultura, em viagens

segunda-feira, 9 de março de 2009

Porquê, ó mar?



Olho-te...
E vejo-te de nuvens negras
Que me impedem
De ver a luz do teu olhar
Que me assustam me sufocam
Me mostram papões
E não me deixam navegar

Porquê que há dias
Em que tens águas transparentes
Em que a brisa é perfumada
E os teus monstros inocentes?

Como golfinho salto as tuas vagas
Mato a sede, sorvo o teu sal
Respiro o teu perfume
E com olhar ausente
Me perco no horizonte.

Sentada
Partilho contigo os meus segredos
E depois apaixonada
Viajo em ti, ó mar!...


Porquê que hoje
Te vejo de águas turvas
Me sinto triste, mal amada
E os teus polvos gigantes me prendem
Me asfixiam e dominada
Me lançam contra os rochedos
E me matam?

Porquê, ó mar?!...
A quem contei meus segredos!...

O mesmos rochedos
O mesmo jornal
O mesmo mar!...

quinta-feira, 5 de março de 2009

Eu que sou Mulher

Fui feita por acaso
Sobrevivi por acaso
Nasci de um rompante rude e destemido
Rasguei as entranhas aos montes onde mamei pão amargo
Atravessei rios com os pés descalços e saí em gelados gemidos
Fui castrada por uma sociedade insana e cortei as amarras
Reconstitui-me, juntei as peças roubadas
E … aqui estou eu!...
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!...

Vivo neste Cosmos estirada por forças opostas
Que me distendem os tendões e músculos
Uma parte de mim é Terra, regida por Marte
Que me prende ao chão
Outra parte é Vénus e Lua
Que me desprende
Liberta e me lança em sonhos
E… aqui estou eu!...
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!...

Com dedos de pincéis e teclas
Corto as amarras do chão
Liberto os meus pés sangrentos
E sou mulher, sou sonho e criança
Elevo-me e a levitar
Abraço Vénus e a Lua
Deixo Marte a descansar
Nas estrelas escrevo poemas
E nas nuvens pinto o mar
E… aqui estou eu!...
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Tirem-me daqui

Quando olho para trás
E vejo as montanhas que trepei
As escarpas que escalei
Os vales que percorri
O que aprendi e ensinei

Quando olho para trás
E vejo os amigos que conquistei
As paixões que senti
Em batalhas que travei
Nos caminhos que percorri

Quando olho para trás
E vejo as terras que semeei
Os saberes que transmiti
Que em heras bravas fixei
E os frutos sãos que colhi

Quando olho...
Sinto-me moribunda
Grito e imploro...
Tirem-me daqui!...

A terra que me dão é infecunda
A norma aplicada é insana
E a semente não germina

E eu...semeando...
Choro de dor...
E digo gritando
Tirem-me daqui
Por favor!...

domingo, 1 de março de 2009

Sons e Imagens do Silêncio


Olho…
Mas não vejo
Libertei-me
Voei com asas de anjo, leve e celestial
Em pensamento sou levada por uma brisa
E quero seguir uma andorinha que deixou o meu beiral
Com as asas de sonho, elevo-me… mais leve
Já cansada, a ave pára num rochedo, no mar de calmaria
Plano, endireito as pernas e paro com ela também
Diz-me:
Respira fundo, mas em surdina!
Ouve o som leve do mar que nos quer falar com o silêncio.
Vai longe, em sonhos de menina!
Sabes:
Há momentos em que nos devemos calar
E deixar o nosso coração falar em surdina
Não há palavras para um sentimento ímpar

Fecha os olhos, ouve o sussurro do mar, olha o horizonte
E o reflexo do sol nas águas cristalinas
Lindo!... Exclamei!
Olhei e vi aquela planície de águas verdes com reflexos dourados
Daquele sol quente com que me bronzeei
Cheirei a maresia que a brisa em salva, me oferecia
E regressei ao tempo, a ti e amei
Leva-me mais longe, andorinha do meu beiral!
Quero sobrevoar o deserto escaldante
Revirar-me nas dunas, em rebolar extasiante
Não, não podes ir!
Pois tu não vês que as tuas asas
São de espuma de mar e de quimeras?
E voltei…!
À realidade que por instantes deixei
Em silêncio, sonhei!...

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Lua




Lua sensual
Que tímida surges
A Vénus seduzes
Ao entardecer
Em volúpias celestiais
O abraças e beijas
Tu, lua mulher

Lua indiscreta
Feitiço dos namorados
Que iluminados
E mais enleados
Se entregam
Em juras de amor

Lua solidária
Com os infelizes
Que vagueiam
Em escuridão
E tu lua amiga
Guias seus passos
Com dedicação

Lua mágica
Que vais e que vens
E com incerteza
Num truque perfeito
Reapareces
Renascida cresces
Influencias marés e natureza


Lua musa
Inspiração dos poetas
Que noite e dia te anelam
De alma e coração
E nas tuas crateras
E vales delicados
Procuram coitados, inspiração

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Vamos Indo...(Parte 2)


Acorda, come, corre ,… pega a pá e a picareta
Perde o comboio que foge, no meio da multidão
Pega a esfregona, o pano, ou o livro e a caneta
Num viver a não viver, a correr em servidão.

E nesse correr, vivem os que partem.
Sonhos de uma vida melhor, de realização profissional, de mais ter.
E o que é feito do ninho que os fez crescer?
Está vazio! ... Encheu-se de penas brancas!...
Querem levar essas penas brancas consigo, mas os passarinhos de penas brancas definham e morrem quando metidos em gaiolas.
Como rolas enclausuradas, perdem o cantar.
Aí, de olhar triste e a espreitar em janelas fechadas que não deixam ver a cor do céu, os dias são ainda mais longos e tristes.
O jantar com a família é breve, o dormir é breve, para em breve acordar.
Um correr que se repete em dias, estações e anos!...
Os que não têm pressa ficam em casa, com pressa de partir.
Procuram um vizinho que não têm e contam as esperas como quem conta um a um feijões, num saco de tristezas!...
Pedem aos filhos que os levem ao ninho.
Querem estar no seu vamos indo.
Depois, uns e outros contam os dias que faltam para o Natal e mês de Agosto, em calendário infindo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

SOU


Sou uma alma inquieta
Nos restos de uma quimera
Sou uma ave que migra
Em busca de Primavera

Sou chegada, sou partida
Sou silêncio, multidão
Sou um cometa que brilha
Na noite de escuridão


Sou mar revolto, tempestade
Sou calmaria e bonança
Sou sonhos e realidade
Sou mulher e sou criança


Sou os destroços do mundo
Banhado em violência
Sou o grito que sai fundo
Da minha pobre impotência


Sou uma alma inquieta
Nos restos de uma quimera


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Vamos Indo... (Parte 1)



Estamos na época do Carnaval. O tempo é solarengo e simultaneamente gelado, aqui no Nordeste.
Durante dia o sol é radioso; à noite, a geada continua teimosamente a formar-se, mostrando pela manhã uma camada branca que, com o sol, toma brilho de cristal mas que depressa derrete. Nas encostas viradas a Norte, teima e vai ficando.
É cedo. O sol começou a espreguiçar-se e depressa subirá sobre o monte sobranceiro e iluminará a encosta da aldeia.
Mantenho-me em casa e, através dos vidros, a lavar a vista com a paisagem de um cinza acastanhado, numa mistura de terra adormecida e de árvores despidas, remexidas pelo vento sibilante que lhes congela as entranhas e lhes faz encolher os rebentos desejosos de nascer.


As árvores, em fim de gestação, têm gomos que em breve gritarão de alegria em rebentos tenros e mais tarde em folhagem de um encerado e verde deslumbrante.
Estiveram a cumprir o tempo em hibernação, num Inverno rigoroso que teimosamente lançou camadas de neve e gelo deslizante.

Também eles cumprem o tempo e hibernam, os idosos!...

Corpos empedernidos, mãos trémulas, geladas, contam os dias e as longas noites, como quem reza a passar as contas de um rosário de martírios, em ladainha de murmúrios, em gestos e palavras repetidos.

Como vai, tio António?
O mesmo de sempre, cá vamos indo!...

O cá vamos indo que se repete todos os dias, o cada vez pior que se repete sempre, como sempre se repete o regresso das cegonhas e das andorinhas, mensageiras da Primavera.
Aquele... "cá vamos indo," sem sonhos !...

Morre-se quando se perde a vida e morre-se também, quando se perde a capacidade de sonhar!...

É um morrer mais doloroso, lento, num desgastar constante de quem vai morrendo por dentro.

É um viver a morrer e um morrer num não viver.


Depois, o olhar vazio e distante percorre os dias e as noites, as estações e os anos, num vamos indo!…
Vamos indo,... enquanto Deus quiser!...

Um vamos indo à espera dos filhos que emigraram!...

Um vamos indo!...





terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Conto Infantil-A rã Berta, O lagarto Piteiras e o rato Pinxas




Do lado de baixo do cemitério, no ribeiro da Fontázia, vivia a rã Berta com o marido, filhos e netos.
O ribeiro só recebia a água que vinha das chuvas durante o Inverno e a Primavera. A família continuava feliz o resto do ano, para delícia dos moradores que ouviam o seu cantar, nas noites quentes de Verão.
Havia um poço com grandes pias à volta, onde as mulheres lavavam a roupa, logo que a água escasseava no ribeiro. Assim, a água das pias escoava para o charco e deste modo a família vivia naquele lamaçal e com a água suficiente para tomarem banho antes de se deitarem a apanhar sol. A água do sabão azul não faz mal a ninguém, antes cura as feridas.
Com a mudança veio a infelicidade para a rã Berta.
Certo dia de calor estival, enquanto ela tratava do almoço, toda a família se aventurou. Atravessou um túnel de cimento, a partir do qual se avistava vegetação alta e verde, numa mistura de agrião e rabaças. Foram à procura de uma vida melhor.
Há mais à frente sinal de haver charcos melhores, vejo eu quando me deito na rocha alta. Temos que mudar para lá, Berta!... Isto aqui já é pequeno, para uma família tão numerosa e depois como vês a água cada vez é mais escassa. Mal podemos refrescar a pele!...
Não demorem, disse a rã Berta! O almoço está quase pronto!
Nunca mais regressaram!...
A pobre ia aventurar-se para ver o que teria acontecido, não fosse o lagarto Piteiras.
Não vá lá, senhora rã Berta!... Lamento muito ter de lhe dizer, mas estão todos mortos!...
Estão todos a boiar, de barriga para cima que até dá dó!
Mesmo assim, desejava ir. Infeliz, só, de idade avançada, já preferia ficar também ela no mesmo charco, a boiar de barriga para cima. Não fosse o lagarto Piteiras, teria ido.
Para quê, senhora? Quer ficar também lá?
Ela ainda hoje agradece àquele amigo e cada vez que fala com ele sente-se envergonhada. Já lho confessou. Achava-o pedante e emproado, quando o via ao sol, sem falar com a vizinhança. Achava-lhe um olhar de superioridade quando os olhava por cima daquelas escamas cinzentas e se esgueirava para dentro da silveira, ao menor ruído que ela fizesse quando pretendia com ele encetar conversa.
Afinal, julgou-o injustamente!...
Está profundamente arrependida e por isso sente vergonha, quando lhe fala!...É um ser extraordinário!...
O que ela achava que era vaidade e altivez, não passava de medo, timidez e profunda tristeza. Também ele perdera a esposa, atropelada, quando atravessava a estrada.
Através dele, ficou a saber a razão pela qual o seu pequeno charco está cada vez mais seco, o que inevitavelmente a levará à morte. A sua pele está cada vez mais ressequida, o seu canto já parece mais um gemido quase inaudível. O som de quem quer dizer, estou aqui.
O lagarto Piteiras esgueirou-se para dentro de uma casa de habitação para ver se percebia porquê que tinha deixado de haver roupa a corar nas partes relvadas da margem do ribeiro.
Descobriu então uma caixa branca onde girava roupa em sabonária, também ela de espuma muito branca, o que demonstrava não se tratar do mesmo sabão de antigamente.
O rato Pinxa que rói tudo, segredou-lhe já ter roído os fios dessa caixa e dizia:
Amigo, a vida está a tornar-se insuportável. Os fios fizeram-me uma úlcera no estômago que me provoca dores horríveis. Já não são os gatos os nossos inimigos, com esses sim, a luta era aventura porque os fintávamos e a maior parte das vezes metíamo-nos em buracos e não nos caçavam. Agora dão-nos uns grãos apetitosos, mas envenenados e morremos secos!...Já só há veneno, neste planeta!... A comida é veneno, o sabão é veneno, a água tem veneno, tudo..tudo, tem veneno!...
O Rato Pinxas acrescentou ainda: Eu que me meto em qualquer buraco das casas, já vi os donos a fazer as necessidades fisiológicas numas caixas altas onde depois corre água.Tudo bem, o pior é que essa água vai parar àquele charco lá em baixo, juntamente com a água das lavagens!...
O que fizeram aos charcos fazem também aos rios e ao mar!...
A ETAR que construíram, até me dá vontade de rir!...
Ouvi eu a conversa de que seria para purificar a água. Qual purificar? A água tem um cheiro nauseabundo e se estivesse purificada, não tinham morrido todas as rãs e os sapos que lá viviam. Pobrezinhos, ficaram lá todos a boiar de barriga para cima!...Estes humanos, com a mania das grandezas perderam o juízo!...
E foi assim que rã Berta e lagarto Piteiras ficaram a saber a causa da mortandade e do seu charco seco.
O lagarto Piteiras carregou-a às costas e levou-a para um poço do lado de cima das eiras onde ela pudesse encontrar amigos que decerto a tratarão como família, para que todos juntos possam alegrar as noites de Verão, com o seu cantar.
Ele mudou para um silveirão próximo, condição da rã Berta. Sem ele, não iria para lugar nenhum.
O rato Pinxas passa lá várias vezes para lhes fazer uma visita de cortesia.
São solidários, felizes e pedem aos humanos que não destruam o planeta Terra…


sábado, 14 de fevereiro de 2009

À Procura de Mim

Procuro-me em ti…

No teu ventre de menina, nos teus sonhos desfeitos, nas lágrimas que secavas no lençol mordido pela tua raiva e, com o teu orgulho não as mostravas.
No teu crescimento interrompido, para que eu pudesse crescer em ti…

E o que foi que eu te disse, enquanto acariciava os tecidos do teu ventre?

Não chores mãe, pois tu não vês que eu serei a Estrela que iluminará os teus passos?
Enquanto flutuo na tua dor, eu sonho!...
Não sabes que a cada gesto teu, enquanto puxas a foice ou o arado, eu navego em ti para outros mundos, para onde te levarei?

Procuro-me no teu grito... engolido pela dor que encobriste quando saí de ti e gritei bem alto…estou aqui!

Procuro-me no meu choro,... interrompido pelo teu seio quente ou pela água da cântara, que eu ensolada bebia, sempre que a sombra do castanheiro, teimosa de mim fugia.

Procuro-me em cada gesto teu... no campo de trigo dourado, esventrado pela tua mão, enquanto eu, com grilos e joaninhas brincava e dormia.

Procuro-me na tua beleza de mulher… que cresceu enquanto eu crescia.

Procuro-me nos meus amores de adolescente... escondidos em recados no meio dos livros e nos beijos dados à pressa, que de ti escondia.

Procuro-me na semente do imbondeiro,... tão bondosa e bela como aquela que tão cedo germinou em ti.

E Vês!…
Cumpri as promessas…

Levei-te aos mundos que dentro de ti tinha descoberto.
Ouviste o riso traiçoeiro das hienas e o rugido do leão a rasgar o silêncio das noites quentes, na floresta.
Cheiraste a terra molhada e secaste no teu corpo a roupa, também ela molhada pela chuva quente.
Respiraste ar puro, partilhado com gente honesta.

Procuro-me na minha vida a correr... e é a correr que te encontro, que vos encontrava aos dois!…

Procuro-me agora... em cada vinco do teu já marcado rosto e culpo-me, por te mostrar tão pouco, os vincos que vão surgindo no meu.

Procuro-me em ti... e tenho medo de não te encontrar!...


De Azul me Pintaste

De azul me pintaste
Tão forte era a tinta
Do lápis azul
Que me amordaçaste

Tão forte era o lápis
Da tinta azul
Que a minha alma vincaste
E com vincos profundos
Me transformaste

Os vincos e manchas
Com lágrimas esfreguei
Tão fortes e tantos
Em dolorosos prantos
As lágrimas esgotei

De zul me pintaste...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Não me peças Palavras


Não me peças palavras!
A minha voz é um murmúrio
De letras aglutinadas
Em palavras sem sentido
Que não ouves

Ouve-me com o coração
E só assim sentirás
O que tenho para ti
Neste fogo de paixão
Que ouvirás

Olha-me...
Vê-me com as mãos
E ferve-as no meu desejo
Escalda-te no meu sangue
Em ardente beijo
E verás...

Chegaremos à Lua e a Marte
E em labareda ondulante
Voltaremos a nós.
Em letras aconchegadas
Em palavras com sentido
Ouvirei...
Ouvirás...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Ribeiro da minha Infância




Ribeiro onde brinquei e com quem partilhei em surdina, os segredos de menina.
Elegi-te meu rio mágico e das tuas águas cristalinas surgiam as mouras encantadas, de histórias para mim reais, contadas por uma doce avó, ao serão.
Contigo corri atrás de borboletas coloridas e com grinaldas de flores das tuas verdes margens, corri atrás de sonhos.
Fui rainha e princesa do teu moinho, meu castelo, mó em movimento de magia.Foste espelho das minhas vaidades e foste confidente dos beijos apaixonados de amores proibidos. Sorriste feliz, nas juras de amor eterno e elegeste-te padrinho desse amor.

Abandonei-te em correrias loucas, deste mundo louco, sempre correndo sem chegar a lugar nenhum. Ah!...Mas a saudade foi-me matando e regresso agora, na esperança que me reconheças.
Abraço-te, aconchego-te, meu amado fio de águas limpas. Também tu tens menos pressa de chegar à foz. Também as tuas frondosas árvores de outrora estão menos espessas e os troncos cobertos de musgo prateado, igual ao meu cabelo. Tal como a minha alma as tuas águas continuam cristalinas.

Venho dizer-te que te amo, que amo a vida e tudo o que foi para além dos nossos segredos guardados em baús dourados que ficaram no depósito do teu leito.

Venho segredar-te que há injustiças que me fazem sofrer e pedir-te que me recebas de novo no teu leito mágico, em histórias de menina.Quero voltar a brincar ao faz de conta, para fazer de conta que nada disto existe.

Quero voltar para ti, ribeiro da minha infância!...

Boas Vindas





Deixei Portugal em Fevereiro. Um dia gelado e um vento tão forte que mais parecia que as forças da natureza me queriam empurrar para um lugar distante.
Ah! Como eu odeio o frio e o vento a uivar! Agita-me, faz-me estremecer e enlouquece-me!
O cheiro a terra molhada senti-o no dia em que cheguei a África. Aquele perfume indescritível inebriou-me.
A Beira recebeu-me em festa e presenteou-me com uma daquelas trovoadas tropicais que só pode imaginar quem as viveu.
Os relâmpagos e os trovões eram o fogo de artifício para me darem as boas vindas àquela terra abençoada; a chuva quente e o vapor que se formava quando batia no chão, aqueceram-me e aconchegaram-me, qual berço de veludo e plumas aquece um filho desejado.
Na varanda da casa da família Vieira, na Manga, onde nos reunimos com amigos do meu pai, eu apreciava aquele espectáculo e mergulhava naquele perfume que jamais esquecerei.

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