Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Canta, luta


Canta velho, canta novo,
a dor alivia a cantar
quanto mais acabrunhado,
mais ficas desanimado
e impotente para lutar.

Canta velho,
contra a injustiça,
o abandono, a indiferença,
contra aqueles que te dão
a esmola com uma mão,
para nas urnas mostrares
a tua fiel presença.

E tu jovem canta,
sempre, sempre, sem parar
e luta para mais saber
pare dares a lição a valer
àqueles que te estão a enganar,
na escolha que não escolheste
seguiste o que nunca quiseste
para contrariado falhar.

Canta contra o estratagema
das novas oportunidades
que te querem dar, sem estudar
e que mais não são,
que para justificar
as falhas de todo o sistema,
que te fez fracassar.

Luta jovem, canta e dança
e com toda a seriedade,
com trabalho,justiça e verdade,
constrói uma sociedade,
de completa mudança.

Vem!


Vem sol!
Derreter a geada
que se formou na noite
e gelou os sonhos de tanta gente.

Vem lua!
Trazer magia, luz, alegria
à noite escura,
onde perdura
a dor,
e a fome que se sente.

Vem mar!
Recolher o sal das lágrimas
vertidas,
em rios de tumultos
de desilusões, de insultos,
de incertezas, de verdade ausente.

Vem tu!
Grita bem alto em cada rua,
em cada esquina,
tira a mordaça
e grita a razão que é minha e tua.
Defende-te
de tudo o que nos ameaça,
a ti, a nós, a toda a gente

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Silêncio


Silêncio, porque te escondes
em cada esquina?
Porque te entranhas na minha mente
e me roubas os sons da noite?
Venham sapos e grilos
Transponham a barreira
Entrem na minha casa
Na minha lareira
E cantem para mim
A noite inteira

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Chuva de Maio




A chuva, puxada pelo vento, forma gotículas que se assemelham a pequenas pérolas. À medida que o vento traz mais água, essas gotículas vão engrossando e deslizam vidros abaixo, como se fossem estrelas cadentes.
O céu está carregado de nuvens escuras que vão despejando a chuva que há uns tempos era pedida. De tal forma era desejada que os habitantes, crentes nos milagres de Fátima, rezaram uma novena. Não me interessa se por milagre ou não, a chuva veio e veio fria, miudinha.

O vento sibila de encontro aos pilares de granito. Sentada, a ouvir esse sibilar, os meus pensamentos vagueiam à velocidade do vento, à medida que os meus olhos olham os campos verdejantes, o céu cinzento carregado, com pequenas manchas de azul celeste junto à linha do horizonte.
Olho através de janelas rasgadas e desnudas, viradas a nascente, sul e poente. Desnudas como convém no campo.
As cortinas, por mais leves e transparentes que sejam, são para mim como que nuvens escuras que tapam o luar de Agosto.
Janelas desnudas são canais abertos à cor, à beleza, à divagação, ao sonho.

Os pássaros, esses reduziram os cânticos. Só de vez em quando passa um ou outro mais afoito a desafiar a chuva fria. Meteram-se nos ninhos para protegerem os ovos ou os pequenos filhos.
As árvores balançam e a localização estratégica do ninho,deixou de o ser, pela mudança da posição dos ramos embalados pelo vento, o que confere uma maior vulnerabilidade aos pequeninos pássaros.
Os grilos recolheram-se nas profundezas dos buracos e calou-se a orquestra.
A azáfama da toupeira contrasta com o estado de sonolência da maioria dos outros; fura em estado de quase loucura, túneis intermináveis para drenar os terrenos. Está a exercer com elevado profissionalismo a sua função, embora seja mal interpretada e frequentemente recebida com um golpe de morte, quando à superfície emerge com o montão de terra molhada.

Também eu sinto uma sonolência leve, um torpor hipnótico, causado pelos sons em surdina da natureza, do ruído da chuva que agora cai mais forte e, por esta luz difusa que me chega de um sol escondido, perdido no firmamento.
Uma sonolência que me convida a fechar os olhos, ouvir o silêncio e, quem sabe, a uma soneca reconfortante, numa tarde primaveril com laivos de Inverno…

domingo, 10 de maio de 2009

Evade-te, poema!


Poema, porque te escondes
Se os teus olhos são estrelas
Em noite escura?
Porque te escondes atrás da nuvem negra
Na penumbra, no engano, na amargura?

Evade-te, poema
Dessa nuvem, espuma dissipada
Das vagas,
Contra a areia molhada.

Insinua-te poema
E à tua amada mostra a luz
Dos teus olhos, seduz!

Sai da masmorra em que te encontras
Labirinto de pesadelos, terror
Onde confundes dever com amor
Onde lentamente cavas a tua sepultura.

Perfura a nuvem negra, poema
Sai em liberdade, doçura!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Vem, chuva!



Vem, chuva!
Quero receber-te na rua
Abraçar-me às tuas gotas frescas
Molha-me
Recebo-te como se estivesse nua.
Como uma árvore gotejante
Peço vento e sol bastante
Brilhante
Para secar-me na rua.

Vem, chuva!
Molha-me o meu cabelo
Perfuma-o com desvelo
Com cheiro a terra que trazes.
Quero sentir o aroma
Das flores molhadas
Rosas, lírios, lilazes
Delírios
Para perfurmar-me na rua

Vem, chuva!
Traz-me frescura de Outono
Na Primavera estival.
Contigo eu quero dançar
Quero que sejas meu par
Melodia sem igual
Abandono
Numa dança minha e tua

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Velejando


Quando falaste, fui toda ouvidos
Quando me olhaste, olhei para ti
Fogos cruzados, olhares perdidos
Num barco à vela, numa viagem.
Vento soprando, mais do que aragem
As velas enchem, o barco desliza
E o mastro sobe, sempre em crescendo.
Sopra mais forte, ao vento pedi.
Com as velas cheias, o barco avança
Sobem as ondas e ele balança.
O vento amaina, o mastro descansa
O barco desliza, em brisa mansa.

terça-feira, 5 de maio de 2009

De Sapinho Feio a Príncipe

……logo que os arados sulcavam o solo, caminhava na terra remexida, indiferente ao barulho produzido pelo tractor.
O tio Zé, homem para os seus setenta e muitos Invernos, artroses a condizer com os anos, não se lembrava de cegonha assim. Caminhava imediatamente a seguir, sem sequer manifestar o mínimo receio de ser atropelada, quando para lavrar a pequena propriedade ele metia a marcha atrás. Desviava-se ligeiramente e sempre a espreitar na terra mais húmida, de onde retirava os seus pitéus de minhocas e outros bichos tais.
Aquela cegonha era de uma voracidade assustadora.
O tempo secou e, com a secura, os arados não conseguem penetrar na terra; o tio Zé deixou de lavrar.
A cegonha voraz teve que procurar outro sítio para satisfazer a sua gula. Sobrevoou os terrenos adjacentes à aldeia e lá do alto avistou uma lagoa coberta de flores brancas de uma beleza incomparável. De patas na vertical, desceu e ficou com elas, quase submersas.
Com o longo bico dentro da água e de encontro ao fundo, remexia aquele lodo cinzento à procura de qualquer coisa que fosse que lhe preenchesse o vazio que sentia no estômago. A certa altura pressentiu algo a mexer no meio daquele lamaçal. Estava pronta para lhe apertar as mandíbulas assassinas, não fosse ter ouvido um som, numa mistura de gemido e grito que lhe dizia:

Senhora cegonha, a senhora sempre tão elegante e esbelta, não me coma; eu sou apenas um sapinho feio, tão feio, olhe para mim! Houve quem me tivesse confessado que eu à nascença era como todos os outros sapos são, mas a minha mãe e os meus irmãos começaram a chamar-me feio, eu convenci-me disso e sou muito infeliz. A senhora cegonha se me comer vai ficar também mais feia!...

A cegonha que era vaidosa, reflectiu nestas palavras e como não queria de modo algum por em risco o seu porte e rosto perfeitos, não apertou as mandíbulas. Puxou o sapinho cá para fora e colocou-o em cima das flores brancas. Na verdade, emoldurado com aquela verdura matizada de branco, não lhe pareceu aquele sapo diferente dos que já tinha visto. Olhou-o naqueles olhos pestanejantes e suplicantes por clemência e pensou:
Mas porque carga de água uma mãe pode achar que o filho é feio, e mais do que isso tê-lo feito acreditar que assim é?
Olhou-o nos olhos mais demoradamente, reparou na boca, nas manchas da pele húmida e achou que o sapinho era perfeitamente normal, dentro dos parâmetros de beleza dos sapinhos.
Continuou a conversar e para seu espanto, a fome desaparecera. Achava o sapinho, de tão simpático e puro, cada vez mais bonito e quanto mais conversava, mais beleza lhe achava.
Ele, perante o olhar fixo da cegonha, começou a tremer e de tanto medo que sentia, não conseguia dizer mais nada.
A tua mãe onde está, perguntou-lhe a cegonha.
A minha mãe partiu para outra lagoa com os meus irmãos, eu não quis ir com eles e fiquei aqui.
Se eu te disser que tu és o sapinho mais bonito que alguma vez vi, tu acreditas?
És um verdadeiro príncipe. Gosto muito de ti e vou levar-te comigo, para junto do meu ninho.
Segurou-o cuidadosamente e voou.
O sapinho nem queria acreditar.
Eu príncipe!
Eu que sempre pensei que era o Sapinho Feio, agora sou Príncipe!
Como eu sou feliz!...

“Depressa um Príncipe passa a Sapinho Feio, se for tratado com desdém”.
“Depressa um Sapinho Feio passa a Príncipe, se for tratado com amor e compreensão”.
“Nem sempre os pais estão certos em relação aos filhos e por vezes transformam-nos em sapinhos feios, complexados, infelizes”.

domingo, 3 de maio de 2009

Quero

Deixei de lutar
Não porque tenho perdido as forças, mas tão só, porque não quero.
Quero relaxar os músculos e deixar-me levar pelo ritmo da corrente
Das águas de um rio tumultuoso, rápido, espumoso, sem bote
Num percurso onde de tudo, acontece.
Quero emoção,
Quero que aquelas águas me massagem a pele, me beijem
Com a sofreguidão de faminto, sequioso.
Depois, quero desaguar
Num mar calmo, transparente, silencioso.
Quero flutuar nesse mar
E em quietude
Deixar-me arrastar
Sem inseguranças ou medos
Que me obriguem a voltar.

Naquele deserto, onde jaz


À tristeza disse não
Despiu as lágrimas
Engoliu o pranto
Varreu as dores do seu coração.
Fechou a porta a sete chaves, não fosse a tristeza voltar e de mansinho quisesse entrar.
Mandou-a embora. Pôs-lhe a mala à porta, cheia de trastes velhos e de tão cheia, teve que lhe pôr o joelho em cima para a poder fechar.
Vestiu-a com todas as mágoas, lavou-a com as lágrimas, penteou-lhe os cabelos longos e lisos com pentes de angústias. Para a tornar mais elegante, calçou-lhe uns sapatos de salto alto produzidos numa mistura de desencantos e abandono.
Assim aperaltada, a tristeza apanhou o primeiro comboio da manhã. Constava que teria sido deportada para longe. Soube-se mais tarde que o seu destino fora um deserto imenso, de dunas gigantescas, de areias escaldantes que calcorreou descalça.
Procurou um oásis para beber. Morreu de sede.
Foi acometida por uma miragem que a conduziu para dunas cada vez mais altas e intransponíveis. Diz-se que ao morrer, terá emitido um grito estridente que continua a ser ouvido nas noites frias do deserto.
Deportou-a...
Esqueceu-a,... naquele deserto, onde jaz...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Mas não! Ninguém


Ah, mundo cruel, como me oprimes!
Ah, poder fingido, como me enganas!
Ah, patrão de milhões, como me ignoras,
me esvazias e me lanças no beco
do desemprego, das desilusões!
Reclamo, dou opinião.
Mas não!
Ninguém me ouve.
Ninguém me vê, é em vão!

Como heras trepei
e agarrando-me ao que de mim restava,
até aos confins do meu ser, lutei;
de mão erguida exigi,... depois implorei.
Mas não!
Ninguém me dá a mão
Ninguém me vê, constatei!

Se soubesses como me sinto só,
no meio de tanta gente!
Sem pressa, caminho apressada
e para não morrer sufocada,
cruelmente esmagada,
sem destino, corro à frente.
Mas não!
Ninguém me vê,
neste mundo indiferente!

Se soubesses como sinto fome
De justiça, de amor, de pão!
Sento-me… e envergonhada,
estendo a mão.
Estendo a mão ainda jovem,
mas demasiado enrugada
para ter outro patrão.
Peço ajuda
Mas não!
Ninguém me vê,
neste mundo cão!

Mas eis que junto os meus pedaços
com a força que me restou
e de mangas arregaçadas,
enfrento tudo e aí vou.
Grito bem alto ao mundo,
ao patrão e ao poder,
meus senhores hei-de vencer
esta batalha, esta luta;
hei-de-me restabelecer
para não voltar a estender,
a mão, a filhos da puta.
Todos irão ver,
Das cinzas, o meu renascer!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Filhos




Filhos,
frutos da minha flor,
saídos da minha dor,
com força vos lançou ,
vos obrigou ao grito,
e vos emancipou.
Pulmões abertos,
passos incertos,
depois certos,
amparados, libertos.

Filhos,
que só me pertenceram
enquanto permaneceram
no meu ventre.
Assim cresceram,
com obrigações, em liberdade,
em amor, em amizade,
são o meu prolongamento,
a minha eternidade.

Filhos
que eduquei
para um mundo perfeito,
de tolerância, respeito,
de bondade, amizade
e de que não me arrependo.
Com o vosso saber,
vos sabereis defender,
deste mundo horrendo!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

É lá que renasces


Cheiras à terra, daquela planura.
Fechas os olhos, partes em viagem
e em sonhos, respiras-lhe a aragem.
Cheiras a tomilho, a flor de giesta
Enrolas-te em ti, escondida folhagem
de estevas, da infância em festa.

Cheiras às arribas e aos seus rochedos,
mistérios e lendas que tão bem descreves,
nos carreiros trilhados, em histórias tão leves.
Fechas os olhos e é lá que te perdes
nas tuas lembranças.
De olhos abertos
é lá que renasces,
em suaves temperanças.

Voltarei a lutar


Caminho nas nuvens
Com os pés descalços
Em viagem vertiginosa
Tenho medo de tombar.
Caminho na neve fofa e fria
Colada aos meus pés
E tenho medo de me afundar.
As minhas mãos tremem
Os meus pés vacilam
E falta-me a coragem
Para continuar.
Atravesso rios secos
Com medo de me afogar.
Insegura, subo montanhas
Com medo de me desorientar

Onde estou, pergunto-me...
O que resta da minha coragem
E porquê não prosseguir viagem?

Por momentos
As minhas águas são assoladas
Por correntes de conflitos
As minhas pérolas são roubadas
De conchas violadas.
Ventos gigantescos rompem
As velas do meu veleiro
E eu, à deriva
Peço ajuda à gaivota
Ao albatroz
Para que me levem nas asas
Me ponham na rota
E me tirem
Este medo atroz.

Ah, este medo…
Este medo que me gela o sangue
Que me tolhe os passos
Me controla a mente
E me impede de continuar!

... Mas amanhã é outro dia!...
Em mim, o sol voltará a brilhar
E eu, determinada
Alegre,firme, renascida,
Voltarei a lutar!...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Versos da treta

Pego na caneta
Bato no teclado
Esta grande treta
Não me está a sair
Como planeado

Eu quero escrever
Mas não sou capaz
O que hei-de fazer
Já nada me inspira
E nada me apraz

Inspiração eu peço
Mas ninguém ma dá
Será que não mereço
Ou será que não sei
Onde a musa está

Como não faço nada
Já vou acabar
Com esta charada
Que mais não é
Que morte anunciada

Vou-me já embora
Ponho-me na alheta
Já sem mais demora
Pois estes versos são
Só versos da treta...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Poema sem abrigo


Ah, Poema!
Como eu queria libertar-te
Dessas roupas andrajosas!

Ah, Poema!
Como eu queria dar-te
O pão
A ti
E ao teu irmão!

Vives no mundo
Que não é teu
Despido de letras de esperança
Em sílabas de indiferença.
Dormes em buracos
De livros não lidos
Declamas-te em gritos não ouvidos
És letra de canção não cantada
És resto duma vida amaldiçoada

Ah, Poema!
Junta a tua voz
À de todos os infelizes
Que surgiram
De letras
Deste mundo atroz.
Insurjam-se bem alto
Em voz bem colocada
Comigo
E com todos os poetas
Que vos pariram
E lançaram no asfalto
De rua amaldiçoada

Ah Poema, maltrapilho
Neste mundo de egoísmo
Que não te liberta
Não te dá o pão
Não te dá nada!

sábado, 18 de abril de 2009

E partiu!


Chovia torrencialmente!
Ficou dentro do carro a olhar o mar, como ela gosta.
Não viu as horas nem ao chegar, nem quando foi embora.
Ela não vê as horas; há momentos de felicidade em que não há nenhum relógio capaz de os captar: umas vezes tão pequenos mas que valem uma eternidade, outras , sendo uma eternidade, parecem-nos infinitamente pequenos!...

Aqui ficou, com o corpo preso a uma argola do carro .
A alma, essa começou por perto, enquanto observava o rebentar forte das ondas. Formavam espuma branca quando sacudiam os rochedos e apaixonadamente deitavam-se com a areia.
Depois, perdida no tempo e no espaço, voou numa nuvem, numa nuvem negra.
Que importa se a nuvem é negra e não é uma nuvem de algodão?
Não são as nuvens negras que nos dão a vida e nos refrescam o coração?

E partiu!...
Partiu naquela turbulência tão forte que chegou a ter medo, naquela viagem tão aventureira.
As nuvens negras abriram uma guerra, uma guerra no céu!....
Juntou-se-lhes a outra nuvem, em guerra aberta, numa tempestade tropical sem igual.
Lutou ao seu lado, no meio daqueles trovões e relâmpagos com uma bravura e emoção nunca sentidas.
Às vezes é necessário sentirmos emoções fortes, para que nos possamos sentir vivos!

Em breve a nuvem se desfez em água quente e naquele sonho foi cair na terra vermelha, a ferver, onde já fora imensamente feliz.

Mas voltou!...
Voltou, enrolada em tule branco, como em véu de noiva, naquela nuvem que se formou na terra vermelha.
Levitou.
Juntou-se ao corpo.
Soltou-o da argola.

O corpo sorriu para a alma, como que a dizer:
“ Não precisas de me pedir perdão por me teres deixado sozinho, vai sempre que queiras; eu já estou habituado a que me deixes só, alma sonhadora!...”

Ligou a chave da ignição e despediu-se do mar e daquela praia, onde foi tantas vezes feliz.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

E veio!....


...Diziam-na benvinda!.... E veio!
Fria,tão fria que é capaz de refrescar qualquer mente entorpecida seja qual for a razão do entorpecimento.Não parece a chuva da Primavera a passos largos do Verão.
Apanhei-os de frente, à chuva e ao vento!
O vento forte!... Não consigo ter uma relação amistosa com o vento forte; enlouquece-me,…como me enlouquece a chuva que tapa por completo o vidro do carro e me tira a visão.
O condutor estava atento à condução; eu nem por isso. A minha atenção estava mais centrada na paisagem e nas nuvens que saltitavam entre o brilhante no meio de rajadas de luz e o escuro, quando prenhas de água, bem fundamental à vida.
Com frequência ao longe, pareciam cabelos de cigana que depois da última enxaguadela pingavam para a terra até que o sol viesse, os secasse e carregasse de brilho.
Vi nuvens de algodão a beijar os picos da Serra da Estrela em beijos roubados, entre os raios de sol que por momentos lhes mostrava o caminho da luxúria. Depressa se tornavam negras e a estas sim, a Serra se abria em sorrisos marotos, espera desejada, namoro consentido.
Nas nuvens escrevi, desenhei, pintei, como quem desenha escreve e pinta sonhos, tão ténues, tão etéreos, tão lamentavelmente impossíveis de concretizar, tão… eternamente sonhos!...
No dia em que alguém me retirar a capacidade de sonhar, considerem-me biologicamente viva, mas mentalmente,... irremediavelmente morta!...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Olho-me ao espelho


Olho-me ao espelho
e vejo
os vincos dos anos, dos dias
passados com tristezas e alegrias.
Não quero tirar as minhas rugas
e as manchas também não;
elas existem por alguma razão.
São passagens de uma vida,
são amores e desamores,
são uma vida vivida, por vezes
em esperança perdida
e logo renascida.
Olho-me ao espelho
e vejo realidades, segurança e auto-estima;
vejo a esperança que domina
nos dias que correm mais devagar;
vejo os lugares para onde não quero ir
e aqueles onde quero ficar.
Olho-me ao espelho
Sem nostalgias do que perdi e
sem vaidades do que ganhei.
Ganhei calma, perdi beleza
e vejo agora com clareza
que a maior beleza
é a beleza da alma
e estar viva é a maior vaidade.

Olho-me ao espelho, com serenidade!...

domingo, 12 de abril de 2009

Andorinha de asas negras

Andorinha de asas negras
que regressas na primavera
para o beiral
daquela casinha de pedra
com telhado escurecido pelo tempo,
onde mora a velhinha
com os cabelos embranquecidos
pelo saber e pela solidão.
Todas as tardes se senta contigo
para te dizer
que voltes sempre
e para te agradecer
a companhia que lhe fazes.
Andorinha de asas negras,
companheira, mensageira
e de doce coração.

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