Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

SOU


Sou uma alma inquieta
Nos restos de uma quimera
Sou uma ave que migra
Em busca de Primavera

Sou chegada, sou partida
Sou silêncio, multidão
Sou um cometa que brilha
Na noite de escuridão


Sou mar revolto, tempestade
Sou calmaria e bonança
Sou sonhos e realidade
Sou mulher e sou criança


Sou os destroços do mundo
Banhado em violência
Sou o grito que sai fundo
Da minha pobre impotência


Sou uma alma inquieta
Nos restos de uma quimera


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Vamos Indo... (Parte 1)



Estamos na época do Carnaval. O tempo é solarengo e simultaneamente gelado, aqui no Nordeste.
Durante dia o sol é radioso; à noite, a geada continua teimosamente a formar-se, mostrando pela manhã uma camada branca que, com o sol, toma brilho de cristal mas que depressa derrete. Nas encostas viradas a Norte, teima e vai ficando.
É cedo. O sol começou a espreguiçar-se e depressa subirá sobre o monte sobranceiro e iluminará a encosta da aldeia.
Mantenho-me em casa e, através dos vidros, a lavar a vista com a paisagem de um cinza acastanhado, numa mistura de terra adormecida e de árvores despidas, remexidas pelo vento sibilante que lhes congela as entranhas e lhes faz encolher os rebentos desejosos de nascer.


As árvores, em fim de gestação, têm gomos que em breve gritarão de alegria em rebentos tenros e mais tarde em folhagem de um encerado e verde deslumbrante.
Estiveram a cumprir o tempo em hibernação, num Inverno rigoroso que teimosamente lançou camadas de neve e gelo deslizante.

Também eles cumprem o tempo e hibernam, os idosos!...

Corpos empedernidos, mãos trémulas, geladas, contam os dias e as longas noites, como quem reza a passar as contas de um rosário de martírios, em ladainha de murmúrios, em gestos e palavras repetidos.

Como vai, tio António?
O mesmo de sempre, cá vamos indo!...

O cá vamos indo que se repete todos os dias, o cada vez pior que se repete sempre, como sempre se repete o regresso das cegonhas e das andorinhas, mensageiras da Primavera.
Aquele... "cá vamos indo," sem sonhos !...

Morre-se quando se perde a vida e morre-se também, quando se perde a capacidade de sonhar!...

É um morrer mais doloroso, lento, num desgastar constante de quem vai morrendo por dentro.

É um viver a morrer e um morrer num não viver.


Depois, o olhar vazio e distante percorre os dias e as noites, as estações e os anos, num vamos indo!…
Vamos indo,... enquanto Deus quiser!...

Um vamos indo à espera dos filhos que emigraram!...

Um vamos indo!...





terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Conto Infantil-A rã Berta, O lagarto Piteiras e o rato Pinxas




Do lado de baixo do cemitério, no ribeiro da Fontázia, vivia a rã Berta com o marido, filhos e netos.
O ribeiro só recebia a água que vinha das chuvas durante o Inverno e a Primavera. A família continuava feliz o resto do ano, para delícia dos moradores que ouviam o seu cantar, nas noites quentes de Verão.
Havia um poço com grandes pias à volta, onde as mulheres lavavam a roupa, logo que a água escasseava no ribeiro. Assim, a água das pias escoava para o charco e deste modo a família vivia naquele lamaçal e com a água suficiente para tomarem banho antes de se deitarem a apanhar sol. A água do sabão azul não faz mal a ninguém, antes cura as feridas.
Com a mudança veio a infelicidade para a rã Berta.
Certo dia de calor estival, enquanto ela tratava do almoço, toda a família se aventurou. Atravessou um túnel de cimento, a partir do qual se avistava vegetação alta e verde, numa mistura de agrião e rabaças. Foram à procura de uma vida melhor.
Há mais à frente sinal de haver charcos melhores, vejo eu quando me deito na rocha alta. Temos que mudar para lá, Berta!... Isto aqui já é pequeno, para uma família tão numerosa e depois como vês a água cada vez é mais escassa. Mal podemos refrescar a pele!...
Não demorem, disse a rã Berta! O almoço está quase pronto!
Nunca mais regressaram!...
A pobre ia aventurar-se para ver o que teria acontecido, não fosse o lagarto Piteiras.
Não vá lá, senhora rã Berta!... Lamento muito ter de lhe dizer, mas estão todos mortos!...
Estão todos a boiar, de barriga para cima que até dá dó!
Mesmo assim, desejava ir. Infeliz, só, de idade avançada, já preferia ficar também ela no mesmo charco, a boiar de barriga para cima. Não fosse o lagarto Piteiras, teria ido.
Para quê, senhora? Quer ficar também lá?
Ela ainda hoje agradece àquele amigo e cada vez que fala com ele sente-se envergonhada. Já lho confessou. Achava-o pedante e emproado, quando o via ao sol, sem falar com a vizinhança. Achava-lhe um olhar de superioridade quando os olhava por cima daquelas escamas cinzentas e se esgueirava para dentro da silveira, ao menor ruído que ela fizesse quando pretendia com ele encetar conversa.
Afinal, julgou-o injustamente!...
Está profundamente arrependida e por isso sente vergonha, quando lhe fala!...É um ser extraordinário!...
O que ela achava que era vaidade e altivez, não passava de medo, timidez e profunda tristeza. Também ele perdera a esposa, atropelada, quando atravessava a estrada.
Através dele, ficou a saber a razão pela qual o seu pequeno charco está cada vez mais seco, o que inevitavelmente a levará à morte. A sua pele está cada vez mais ressequida, o seu canto já parece mais um gemido quase inaudível. O som de quem quer dizer, estou aqui.
O lagarto Piteiras esgueirou-se para dentro de uma casa de habitação para ver se percebia porquê que tinha deixado de haver roupa a corar nas partes relvadas da margem do ribeiro.
Descobriu então uma caixa branca onde girava roupa em sabonária, também ela de espuma muito branca, o que demonstrava não se tratar do mesmo sabão de antigamente.
O rato Pinxa que rói tudo, segredou-lhe já ter roído os fios dessa caixa e dizia:
Amigo, a vida está a tornar-se insuportável. Os fios fizeram-me uma úlcera no estômago que me provoca dores horríveis. Já não são os gatos os nossos inimigos, com esses sim, a luta era aventura porque os fintávamos e a maior parte das vezes metíamo-nos em buracos e não nos caçavam. Agora dão-nos uns grãos apetitosos, mas envenenados e morremos secos!...Já só há veneno, neste planeta!... A comida é veneno, o sabão é veneno, a água tem veneno, tudo..tudo, tem veneno!...
O Rato Pinxas acrescentou ainda: Eu que me meto em qualquer buraco das casas, já vi os donos a fazer as necessidades fisiológicas numas caixas altas onde depois corre água.Tudo bem, o pior é que essa água vai parar àquele charco lá em baixo, juntamente com a água das lavagens!...
O que fizeram aos charcos fazem também aos rios e ao mar!...
A ETAR que construíram, até me dá vontade de rir!...
Ouvi eu a conversa de que seria para purificar a água. Qual purificar? A água tem um cheiro nauseabundo e se estivesse purificada, não tinham morrido todas as rãs e os sapos que lá viviam. Pobrezinhos, ficaram lá todos a boiar de barriga para cima!...Estes humanos, com a mania das grandezas perderam o juízo!...
E foi assim que rã Berta e lagarto Piteiras ficaram a saber a causa da mortandade e do seu charco seco.
O lagarto Piteiras carregou-a às costas e levou-a para um poço do lado de cima das eiras onde ela pudesse encontrar amigos que decerto a tratarão como família, para que todos juntos possam alegrar as noites de Verão, com o seu cantar.
Ele mudou para um silveirão próximo, condição da rã Berta. Sem ele, não iria para lugar nenhum.
O rato Pinxas passa lá várias vezes para lhes fazer uma visita de cortesia.
São solidários, felizes e pedem aos humanos que não destruam o planeta Terra…


sábado, 14 de fevereiro de 2009

À Procura de Mim

Procuro-me em ti…

No teu ventre de menina, nos teus sonhos desfeitos, nas lágrimas que secavas no lençol mordido pela tua raiva e, com o teu orgulho não as mostravas.
No teu crescimento interrompido, para que eu pudesse crescer em ti…

E o que foi que eu te disse, enquanto acariciava os tecidos do teu ventre?

Não chores mãe, pois tu não vês que eu serei a Estrela que iluminará os teus passos?
Enquanto flutuo na tua dor, eu sonho!...
Não sabes que a cada gesto teu, enquanto puxas a foice ou o arado, eu navego em ti para outros mundos, para onde te levarei?

Procuro-me no teu grito... engolido pela dor que encobriste quando saí de ti e gritei bem alto…estou aqui!

Procuro-me no meu choro,... interrompido pelo teu seio quente ou pela água da cântara, que eu ensolada bebia, sempre que a sombra do castanheiro, teimosa de mim fugia.

Procuro-me em cada gesto teu... no campo de trigo dourado, esventrado pela tua mão, enquanto eu, com grilos e joaninhas brincava e dormia.

Procuro-me na tua beleza de mulher… que cresceu enquanto eu crescia.

Procuro-me nos meus amores de adolescente... escondidos em recados no meio dos livros e nos beijos dados à pressa, que de ti escondia.

Procuro-me na semente do imbondeiro,... tão bondosa e bela como aquela que tão cedo germinou em ti.

E Vês!…
Cumpri as promessas…

Levei-te aos mundos que dentro de ti tinha descoberto.
Ouviste o riso traiçoeiro das hienas e o rugido do leão a rasgar o silêncio das noites quentes, na floresta.
Cheiraste a terra molhada e secaste no teu corpo a roupa, também ela molhada pela chuva quente.
Respiraste ar puro, partilhado com gente honesta.

Procuro-me na minha vida a correr... e é a correr que te encontro, que vos encontrava aos dois!…

Procuro-me agora... em cada vinco do teu já marcado rosto e culpo-me, por te mostrar tão pouco, os vincos que vão surgindo no meu.

Procuro-me em ti... e tenho medo de não te encontrar!...


De Azul me Pintaste

De azul me pintaste
Tão forte era a tinta
Do lápis azul
Que me amordaçaste

Tão forte era o lápis
Da tinta azul
Que a minha alma vincaste
E com vincos profundos
Me transformaste

Os vincos e manchas
Com lágrimas esfreguei
Tão fortes e tantos
Em dolorosos prantos
As lágrimas esgotei

De zul me pintaste...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Não me peças Palavras


Não me peças palavras!
A minha voz é um murmúrio
De letras aglutinadas
Em palavras sem sentido
Que não ouves

Ouve-me com o coração
E só assim sentirás
O que tenho para ti
Neste fogo de paixão
Que ouvirás

Olha-me...
Vê-me com as mãos
E ferve-as no meu desejo
Escalda-te no meu sangue
Em ardente beijo
E verás...

Chegaremos à Lua e a Marte
E em labareda ondulante
Voltaremos a nós.
Em letras aconchegadas
Em palavras com sentido
Ouvirei...
Ouvirás...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Ribeiro da minha Infância




Ribeiro onde brinquei e com quem partilhei em surdina, os segredos de menina.
Elegi-te meu rio mágico e das tuas águas cristalinas surgiam as mouras encantadas, de histórias para mim reais, contadas por uma doce avó, ao serão.
Contigo corri atrás de borboletas coloridas e com grinaldas de flores das tuas verdes margens, corri atrás de sonhos.
Fui rainha e princesa do teu moinho, meu castelo, mó em movimento de magia.Foste espelho das minhas vaidades e foste confidente dos beijos apaixonados de amores proibidos. Sorriste feliz, nas juras de amor eterno e elegeste-te padrinho desse amor.

Abandonei-te em correrias loucas, deste mundo louco, sempre correndo sem chegar a lugar nenhum. Ah!...Mas a saudade foi-me matando e regresso agora, na esperança que me reconheças.
Abraço-te, aconchego-te, meu amado fio de águas limpas. Também tu tens menos pressa de chegar à foz. Também as tuas frondosas árvores de outrora estão menos espessas e os troncos cobertos de musgo prateado, igual ao meu cabelo. Tal como a minha alma as tuas águas continuam cristalinas.

Venho dizer-te que te amo, que amo a vida e tudo o que foi para além dos nossos segredos guardados em baús dourados que ficaram no depósito do teu leito.

Venho segredar-te que há injustiças que me fazem sofrer e pedir-te que me recebas de novo no teu leito mágico, em histórias de menina.Quero voltar a brincar ao faz de conta, para fazer de conta que nada disto existe.

Quero voltar para ti, ribeiro da minha infância!...

Boas Vindas





Deixei Portugal em Fevereiro. Um dia gelado e um vento tão forte que mais parecia que as forças da natureza me queriam empurrar para um lugar distante.
Ah! Como eu odeio o frio e o vento a uivar! Agita-me, faz-me estremecer e enlouquece-me!
O cheiro a terra molhada senti-o no dia em que cheguei a África. Aquele perfume indescritível inebriou-me.
A Beira recebeu-me em festa e presenteou-me com uma daquelas trovoadas tropicais que só pode imaginar quem as viveu.
Os relâmpagos e os trovões eram o fogo de artifício para me darem as boas vindas àquela terra abençoada; a chuva quente e o vapor que se formava quando batia no chão, aqueceram-me e aconchegaram-me, qual berço de veludo e plumas aquece um filho desejado.
Na varanda da casa da família Vieira, na Manga, onde nos reunimos com amigos do meu pai, eu apreciava aquele espectáculo e mergulhava naquele perfume que jamais esquecerei.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Morre, ignóbil ser!




Querendo matar
Morres sem saber!...

Com as tuas maldades
Ateias fogo
E ardes nas labaredas do ódio
Das tuas vinganças
E das tuas verdades.

Estás enrugado, bacilento
Oco, corroído por dentro
E há momentos
Em que sentes vergonha de ti.

Sim vergonha
Por escassos momentos.

Mas depressa lançarás
As flechas impregnadas
Do veneno do ódio e da vitória
E a ti próprio vencerás.

Justiça!...
Aqui sim, faz-se justiça!...
O teu inimigo sofre, mas não morre.
O alvo és tu
E és tu que vais perecendo.

Vives...
De alma suja e coração corroído
Pelo ódio que te vai comendo.

Como estames murchos, secas!...
Mataste o Outono
E sem passares o Verão e a Primavera
Vives soterrado no Inverno.

Em nome da tua honra e do teu ódio
Lazarento, vais morrendo.

Morre, ignóbil ser!...
Afoga-te nas tuas vinganças!...





terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Ao Kubi, meu pai e guia profissional de Safaris




Kubi, Juan Morera Muntadas e equipa, em Moçambique. Era a equipa que com ele trabalhava, quando era caçador de crocodilos e que depois transitou para a Safrique.


Safari de Andrea Tronconi. Kubi e Anna Tronconi


O elefante só tinha um dente. Gigantesco como se pode ver.

Este era um elefante de Moçambique. Os dentes são mais arqueados do que os dos elefantes da República Centro Africana, que sendo mais longos e direitos, permitem que o animal penetre na floresta equatorial mais facilmente.

_________________ _____ _____ __ _

Seu nome António Augusto Monteiro; entre os amigos passou a ser Kubitchek, devido ao Português abrasileirado que falava quando chegou à Beira.
Depois Kubi, por ser mais fácil e, sinceramente mais doce e musical.
Foi caçador de crocodilos e posteriormente guia de safaris.
Nesta actividade trabalhou na empresa de Francisco Salzone e na Safrique.
Em resultado de um ataque terrorista na pista de aviões do campamento de Inhamacala que vitimou uma figura importante de Espanha, o turismo cingético de Moçambique extinguiu-se. Os caçadores guia tiveram de partir para outros destinos cinegéticos.
Apaixonado e aventureiro com sempre foi, trabalhou várias épocas de caça na República Centro Africana e no Sudão.
Era um exímio contador de histórias e foi a ouvir as suas aventuras em África que os meus filhos cresceram e, tal como ele, aventureiros, corajosos, honestos.
O neto mais velho e eu ouvimo-lo naquela que foi a sua última tarde de narrativas das suas vivências no Sudão.
Quando penso nessa tarde sinto uma saudade imensa e um nó muito grande no peito, num misto de revolta e perda.
Poder-se-iam ter repetido essas histórias por mais tenpo se ele tivesse tido a assistência médica adequada e oportuna e por isso a dor é mais intensa.

Eu tive um pai
Caçador em África
Que tinha o coração
Do tamanho do mundo.
A contar histórias de safaris,
Escapou-me da mão
E voou!...
O espaço está vazio
Nesta mão inerte
Que não sou capaz de fechar.
Perdoa-me Deus,
Porque me privaste?
Eu tive um pai
Que amou
E me ensinou a amar África...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

AO KUBI - Meu pai e caçador de crocodilos




Foi caçador de Crocodilos. Caçava em pequenos barcos, nos rios Pungué e Zambeze, que na época das chuvas se transformavam em autênticos mares. Caçava ainda em zonas pantanosas empestadas de mosquitos. Teve uma vida difícil, perigosa, mas muito emocionante.
Participou como Duplo, nas cenas mais perigosas do filme, Adieu l´Afrique.
O Ricardo, o neto mais velho, meu filho que fez Erasmus em Pisa, terra natal do realizador Jacopetti, conseguiu arranjar uma cópia do filme que guardamos que nem uma relíquia.
Vimo-lo em família e para espanto de todos nós, ouvimos a sua voz e identificá-mo-lo perfeitamente numa das cenas.
Uma vez que nunca passou nos cinemas em Moçambique, nem ele nem eu tínhamos tido a oportunidade de o ver.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Grito




Estou inerte
Tenho fome
Quero caminhar e não posso
Perdi as rotações
Com estilhaços de minas
Crateras de explosões

Já não ouço
O chilrear dos pássaros
Em sonhos trocados
Trocaram estações

Tenho os olhos enevoados
Com lágrimas de sangue
Das mães órfãs de filhos
Em fogos cruzados

Estou sequiosa
Em rios contaminados
Peixes sufocados

Espessos cabelos rapados
Pulmões em fumos colados
Sento-me... exausta
Quero caminhar e vacilo
O grito sai num gemido...

Mas eis que
Enraivecida
Me ergo
Grito a Gorak e então
Sismos tempestades vulcões
Incêndios degelos tufões
Bocifero inundo abano
Arraso queimo congelo
E bem alto gritando
De ódios perdida
Vingando
As destruições

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Silenciadas I e II




As mulheres, aqui e em todo o Mundo, de todas as culturas e níveis sociais, continuam de diversas formas a ser silenciadas.
Estas telas estiveram patentes ao público numa exposição designada "No Feminino", no Centro Cultural de Chaves e em Mirandela, na Casa da Cultura e no Hospital Distrital.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A Porquinha Miss - Conto infantil

Era uma porquinha diferente das restantes. Tinha graça, sensualidade e beleza.
A dona que queria que todas ficassem anafadas para fazer os enchidos, andava intrigada sem saber a razão pela qual ela não ganhava peso e estava cada vez mais esguia e esbelta.
Na pia, a pobrezinha escolhia só os legumes e comia-os às escondidas da mãe porca que a certa altura, vendo a magreza da filha, começou a pôr a hipótese de se tratar de anorexia.
Na camarata, mal ouvia os roncos da família, iniciava a sessão de ginástica e massagens, para que nada naquele corpinho, estivesse fora do sítio. A cirurgia plástica estava fora de hipótese, por falta de meios financeiros.
Desde criança que tinha o sonho de ser miss. Queria sair daquela pocilga malcheirosa, usar perfume francês, sapatos de salto alto e vestidos deslumbrantes.
E porque não Estrela de Cinema?
Numa noite de luar, fez as malas, apanhou o autocarro e partiu para a cidade Luz do Império.
Não tardou a ser notada pelos porcos citadinos e num estalar de dedos, foi coroada Miss do ano.
Como sempre acontece na coroação, borrou a pintura com as lágrimas de alegria e emoção. As felicitações das damas de honor ficaram-lhe marcadas no rosto, numa mistura de bâton e de cinismo.
Foi um ano hilariante. Muitos amigos, muitas festas, viagens, deslumbramentos !...
Muitas desilusões a seguir! ...
Quando pediu ajuda, os amigos viraram-lhe as costas. Aproveitaram-se dela enquanto brilhou e a seguir ostracizaram-na.
Não estava preparada e sofreu! ...
Determinada e conjugando todas as forças voltou às origens,com a certeza de que não voltaria à pocilga malcheirosa.
“Que importa se não tenho perfume francês e banho de espuma, se tenho um riacho de águas transparentes e me perfumo com alecrim, urze e tomilho”?
“Não, não volto para aquela pocilga!... Nem por sombras, ponho a hipótese de me sujeitar à humilhação de acabar no fumeiro”!
Tornou-se uma jovem equilibrada e feliz. Subia montes e vales e por fazer uma alimentação saudável, deixou de se preocupar com as gorduras em excesso.
Apaixonou-se por um porco bravio, amante do desporto e tal como ela, com um grande sentido de liberdade.
Foi uma mãe exemplar e, protegendo os filhos de todos os perigos, transmitiu-lhes os valores de honestidade, respeito, tolerância.

Foi feliz.

Pintor


Tu que pintas sonhos
Poemas e abraços
Pinta a paz ao mundo
Desfeito em pedaços

Vais pôr nessa tela
Amor e esperança
Almas cristalinas
Sem ódio e vingança

Porás também pão
Justiça irmandade
Casa para todos
Amor lealdade

Com restos de tinta
Das tuas ilusões
Pinta, pinta, pinta...
Pinta corações



domingo, 11 de janeiro de 2009

Sons de Embalar


Um dia contarei ao meus netos, tal como já contei aos meus filhos, histórias mágicas, que, recriadas e reinventadas, os farão adormecer e sonhar com um país mágico e uma cidade divina.
Na sua mente de meninos ficará o sussurro de uma avó, que os levará em viagens maravilhosas.
Brincarão nos tandos dourados, onde correrão atrás de gazelas saltitantes e zebras velozes.
Serão caçadores e enfrentarão, no meio da floresta, manadas de elefantes.
Com arco e flecha tornar-se-ão guerreiros e perseguirão leões e leopardos.
Já cansados, e nas asas de uma ave, do tamanho de um colibri, irão sobrevoar mares transparentes e avistarão ilhas magníficas.
Já sem fôlego, a ave plana e eles sentem o cheiro da maresia mais perto e mais acentuado.
Pedem-lhe que os leve àquela ilha verde, de beleza incomparável.
Querem correr naquele areal sem fim!...
Ouvem uma voz que já conhecem e muito meiga: "Meninos, está na hora de acordar, seus dorminhocos"!
E vão!
Em breve estarão no infantário ou na escola, onde terão a aventura da aprendizagem.
À noite ouvirão outra história fantástica que os levará ainda mais longe....
Crescerão bondosos, felizes, criativos...
Um dia contarão aos filhos, aos netos, bisnetos......

Simplesmente Casa


Ó malditos deuses,porque mandais raios que incendeiam as florestas?
Ó fogo que tantas vezes tentaste penetrar nos meus ramos, sem nunca o conseguires, porque insististe?
Ó vento que tantas vezes embalaste os meus rebentos e refrescaste as minhas entranhas, em dias de calor escaldante,porque me traíste?
Os deuses enlouqueceram, o vento aliou-se-lhes, forte, forte, cada vez mais forte! …
Arrastava as labaredas que voavam de árvore para árvore e depressa me atingiram.
É o meu fim, pensei.
Este fogo vai consumir-me e este maldito vento vai arrastar consigo as minhas cinzas para outros lugares distantes, frios, feios, gelados! ...
Não!
Não conseguiste!
Comeste as folhas e os meus ramos mais tenros, mataste os passarinhos que abrigava, queimaste-me muitas energias, mas não me tiraste a força de viver.
Os meus troncos e as minhas raízes fortes enfrentaram-te e venceram-te e depressa terei ramos, terei folhas, terei pássaros, terei força, beleza e alegria.
Irei morrer de pé, com aquele orgulho que só pode ter uma árvore secular, que abrigou insectos nas folhas, pássaros nos ramos e famílias pobres no tronco que com os pés gretados a sangrar, vagueavam pelo mundo à procura de um abrigo, de um lar.
Famílias que finalmente poderiam descansar, sentindo-se aconchegadas e acarinhadas.
Nunca mais teriam medo dos deuses, do fogo, do vento, de nada! ...Pela primeira vez achei que poderia descansar e que os meus ramos tenros poderiam murchar.
Pela primeira vez deixei de amaldiçoar os deuses, o fogo e o vento que tantas vezes tentaram roubar-me a vida.
Pela primeira vez achei que poderia ser menos bela, porque nas minhas entranhas tinha amigos que achariam que mantinha o mesmo encanto, porque era solidária e fraterna.
Pela primeira vez achei que em vez de árvore, poderia ser simplesmente casa! ...

sábado, 10 de janeiro de 2009

Deixo-te



Noites mal dormidas
Feriados inquietos
Paixões desmedidas
Mas deixo-te…

Como se deixa alguém
Que se ama
E nos faz sofrer

Contigo cometi incesto
Minha amante
Minha irmã
Contigo tive filhos
Que amei quase tanto
Quanto os meus

Mas deixo-te…
E deixo-te com dor…

Tu sabes…

Cirurgiões incompetentes
Arrancaram-me de ti
Numa cirurgia
Sem anestesia

E assim deixo-te…
Minha profissão
Meu amor…

Esperança I e II





Tentação Cósmica


Acordes do meu Silêncio


A nossa Caminhada


Caminhámos
Em jardins floridos
Em beijos sentidos
Com promessas sem fim
De amores proibidos

Caminhámos...
Por avenidas
Com acácias flamejantes
Por veredas rochosas
Com espinhos penetrantes
…Mas caminhámos
E caminhámos depressa!...


As tuas sementes
No meu ventre germinaram
E com gritos de dor
Dele brotaram
Rebentos de amor

Ao caminhar, corremos
E amámo-nos à pressa
Entre choros de crianças
E deveres por cumprir
Imensidões percorremos

Amámo-nos com paixão
Num compasso de gemidos
De corpos suados
De paixões escaldantes
Em prazeres merecidos

Caminhamos com a serenidade
Dos deveres cumpridos
E amamo-nos
Em corpos apetecidos
Tantas vezes doridos

Nesta longa caminhada
Voltaremos a meninos
Corpos entorpecidos
E em jogos imaginários
De pião e da apanhada
Com voz trémula
Te direi
Que quero ser
Tua namorada

Por jardins etéreos
De mãos dadas
Seguiremos…
A nossa Caminhada!...

Censurados

"Nuvens de paixão"



Foram retirados de uma Exposição em Mirandela, em Agosto de 2005, pela Vereadora da Educação da Câmara de Mirandela, porque, segundo ela, seriam um atentado ao pudor.
Em seguida desmontei a exposição, por sentir que me tinham desrespeitado e tinham desrespeitado o meu trabalho.



"Sedução"









As tuas mãos

As tuas mãos são vida
Ásperas, gretadas, queimadas
Se tornaram macias
Para me ajudar a nascer


As tuas mãos são magia
Do nada fazendo tudo
Pondo na boca dos filhos
O pão que não têm, para comer


As tuas mãos são carícias
Mesmo que feitas à pressa
Porque depressa tu vives
Sempre, sempre a correr


As tuas mãos são poemas
Que declamas sem saber
Com sensibilidade e força
A força que te faz vencer


As tuas mãos são trabalho
Tanto, tanto e tão diverso
Que as tuas mãos não têm
Tempo para viver


As tuas mãos são tudo.
Nas tuas mãos está tudo, mulher!

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