Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Coitado do poeta!


Não vala a pena estragar a noite,
a madrugada.
O poeta está vazio
e o poema fugiu,
entregue à sua sorte,
em desvario.

Deram um mote ao poeta
mas o poeta não gostou;
deram versos ao poeta
e o poeta não aceitou.

Deixem livre o poeta,
para os seus dedos
parirem o poema...

Musa inspiradora
desce do teu céu,
dá-lhe inspiração!

A musa chegou,
mas o poeta
em abandono,
morto de sono,
à musa disse que não.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Ama-te, mulher


Porque te escondes atrás das grades da prisão em que te enclausuraste?
Porque te escondes numa concha que te asfixia?
Destrói os estores opacos da alma e olha para dentro de ti.
Puxa a cortina que tens nos olhos e olha para fora de ti.
Vês?
Os teus lhos são brilhantes,
o teu corpo é sensual,
a tua alma é cristalina e,
vês mulher, tu és dona do mundo, do teu mundo...
Tu és dona de ti.
Rebenta os muros que te vedam a alma e te tornam escrava dos outros e escrava de ti própria.
Sai da concha da tua clausura!
Não vês que a concha está seca, sem oxigénio e, assim morrerás asfixiada?
Rebenta o ferrolho dessa prisão.
Olha o sol radioso, as flores, os pássaros.
Olha o firmamento em noite estrelada,
elege uma constelação como tua,
brilha com as estrelas e,
depressa serás, a mais brilhante delas.
Do tecido das cortinas que trazes nos olhos,faz as tuas bandeiras: do amor próprio, da auto-confiança, da independência, da liberdade.

Vai mulher, conquista-te e ama-te.
Depois... mulher, ama!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Escolha o título, o leitor


Eu sou brisa, sou vendaval
Nevoeiro, tempestade
Eu sou começo, sou fim
O meio não é para mim
Sou de extremos, na verdade.

Pertenço ao mundo e a mim
E só me dou se eu quero
Sem posse e só assim
Sem cadeias, sem atilhos
Porque a liberdade venero.

Tenho a força da nortada
A fragilidade da maresia
O rubor da rosa encarnada
De açucenas a candura
Do malmequer, a fantasia.

Por muito que a mente
Me diga que não
Ouço a voz do coração
E depois gero um conflito;
O coração fica aflito
Eu imponho-me, eu refilo
Alto lá, eu mando aqui
Eu que sou coração e mente
Eu que sou gente
E no todo, eu decido.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

De avião

Gosto de andar de avião. É certo que caiem, mas eu quase que ignoro esse pormenor. Afinal um dia tenho que morrer…
Custa-me o que antecede a viagem, até fazer o check in. Dá-me ansiedade e muito provavelmente pelo receio de não chegar a horas. Tenho a mania da pontualidade o que em Portugal me causa penosas esperas, mas ainda assim, continuo a ser pontual e apanho grandes fúrias pela falta de pontualidade de muitos outros.

Sentada no avião, um massajar de ouvidos ao subir e descer e tudo o resto decorre em perfeita normalidade. Na verdade nunca apanhei nenhum susto que me tenha causado suores frios e por isso a minha relação com o avião é de perfeita amizade.
De caminho a Istambul, sentada na coxia, primeiro escrevi num bloquinho que me acompanhou na viagem para pequenos apontamentos. Além de outras coisas, escrevi um poema que mais tarde publicarei.
Depois, a hospedeira entregou a cada passageiro uns auscultadores e a partir daí ouvi música clássica, somente interrompendo quando serviram o jantar. Um jantar fantástico de comida turca pois viajei através da Turquish Airlines. Foi a primeira vez desde há muitos, muitos anos que me foi servida numa viagem de avião, uma refeição com qualidade.

Depois, a música de novo até me levantar, para sair em Istambul. Através dela viajei no tempo, em cima de nuvens brancas como aquelas que o avião atravessou. Através dela, revelei fotografias dos negativos arquivados na minha mente, desde há muito tempo. A história de amor e as cenas de paixão do filme fantástico Anna Karenine que vi uma única vez e me provocou um pranto.
Com o Bolero de Ravel transpus para os meus olhos as imagens magníficas do bailarino que encheu com a sua extraordinária interpretação, aquele palco vermelho e redondo, com que terminou o filme espantoso “Les uns et les autres”, cuja história gira em torno de quatro famílias de músicos, durante a segunda guerra mundial.
Outras músicas não menos belas passaram e se repetiram, menos marcantes em termos de emoções à excepção de uma, cujo compositor não consigo identificar. Provavelmente está associada a um filme que vi mas cujo nome não recordo. É uma daquelas músicas que me leva às lágrimas e que desta vez não foi excepção nas várias vezes que de olhos fechados, a ouvi.

Três dias depois assistimos a um concerto de música clássica, na Igreja de Santa Irene, mais tarde mesquita e agora apenas usada para aquele fim (apenas um àparte que poderá servir de informação para quem ler este e texto). Fica junto ao palácio Topkapi.
Um concerto fantástico que culminou na parte final, com a 5ª sinfonia de Beethoven.

A viagem terminou com o tempo a passar depressa. A passagem pelo guiché Visa, por outro para apresentação do passaporte, as malas que chegaram rapidamente, um táxi por dezassete euros, muitíssimo barato em relação à distância e eis-me chegada ao belíssimo apartamento sobranceiro ao Bósforo, na encosta, relativamente próximo da praça Taksim.

Que maravilha, exclamei eu quando subi à sala de paredes de vidro e ao terraço, ao ver as luzes do lado asiático reflectidas no canal, os barcos, as gaivotas que sobrevoavam o céu e que num edifício alto do pico da colina se aglomeravam e com a luz, vistas de baixo, pareciam bailarinas clássicas com vestidos de tules brancos a dançar em bicos, levitando.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Renasce


Mulher de lenço com o corpo tapado
Até aos pés disfarçado.
Mulher de lenço
Com olhos inquietos
E belos
Boca rubra
De batôn, marca o cigarro.
Porque escondes o corpo que tens vibrante
Com vestes que não são as tuas?
Porque tapas os cabelos
Que são de um tom brilhante
Para esvoaçarem pelas ruas?
Porque manténs a alma presa
Se essa prisão não é a tua?

Enfrenta.
Luta contra a tradição
Contra o machismo, a opressão
Da cultura, da família.
Faz o que os teus olhos mostram
As curvas do teu corpo pedem
Corta as amarras que te amordaçam
E tira as vestes que te prendem.
Rompe com as regras, rasga as roupas, rasga o lenço
Rasga tudo o que te ameace.
Renasce.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Rendida


Está a correr uma brisa fresca a contrastar com o calor húmido que se faz sentir durante o dia. As gaivotas que se passeiam por estes telhados, desde o amanhecer, num rosnar constante e nos despertam, calaram-se com a noite.
Também os Muezzin terminaram o último canto do dia convidando os fieis à oração, nas inúmeras mesquitas de Istambul, cântico que se ouvirá novamente de madrugada e outras vezes ao longo do dia. É um espectáculo fantástico esse dos cânticos dos Muezzin, vozes harmoniosas que me dá a impressão de que respondem uns aos outros, fielmente situados num Minarete da sua Mesquita,nas muitas destas colinas de um e outro lados do canal.
Do sítio em que me encontro a escrever posso contemplar o Bósforo numa extensão considerável, na parte do canal que transporta as águas do mar Negro. Um pouco acima, uma ponte com iluminação azul turquesa, dá passagem para o lado de lá da cidade, já na Ásia, como dá uma outra ponte e os barcos que permanentemente transportam os passageiros. São insuficientes as pontes. Apercebi-me quando passei para o lado de lá, de carro e tive que suportar a extensa fila de trânsito tanto ao fim de semana como em dia de semana.
Vejo vários pontos luminosos que se deslocam para cima e para baixo, cujo formato de barco luminoso é reflectido nas águas calmas e transparentes do canal.
As águas correm calmamente a visitarem outras águas que mais abaixo e igualmente serenas, vêm ao seu encontro para darem um abraço fraterno. Depois, nenhuma delas questiona a sua origem; sempre se sentiram amigas e assistiram com pena aos diversos tumultos e pilhagens que danificaram a cidade ao longo dos tempos, em todas as civilizações que aqui deixaram marcas profundas.
Gosto de viajar a sentir a cidade num todo e por isso não gosto de viajar em grupos turísticos que passam como gato por brasas, com hora marcada para tudo e para nada. Quando não puder orientar-me sozinha irei, que remédio!
De mapa na mão à procura do transporte, dos monumentos, museus, pode-se sentir a cidade doutra forma: O seu povo, as cores das especiarias, das frutas nas bancas primorosamente colocadas que mais parecem paletas de pintor, da comida colorida, do buliço desta gente turca tão laboriosa, os cheiros!
Adoro esta cidade e fiquei muito surpreendida com carácter cosmopolita que possui, assim como fiquei surpreendida por ver muito menos mulheres a usarem lenço na cabeça do que eu imaginava.
Nota-se que houve uma certa libertação da mulher recentemente o que muito me alegrou. Claro que há barreiras que dificilmente, muitas delas conseguirão vencer, com raízes culturais muito fortes e além disso eu estou apenas a ver Istambul que de forma alguma representa a realidade do país neste domínio.
No fim de semana vamos a outra cidade, de autocarro. Estou curiosa por conhecer um pouco a paisagem rural e as realidades das suas gentes.
Quem sabe se não voltarei um dia e com um carro alugado, poderei calcorrear mais paragens deste país que tem tanto de extenso quanto tem de mágico e multicultural

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Que injustiça!!!

Andou sempre
Com vontade de morrer
Desde que nasceu.

Comeu
Água com água
Pão com pão
De tanta fome
Perdeu a razão.

Correu
Muitos invernos
Descalça
Com gripes
Pneumonias
Alergias.

Trabalhou
E tudo aguentou:
Sóis
Anos
Tristezas
Desenganos.

Com uma côdea dura
No bolso roto
Tudo calcorreou
Nem se cansou.

Mas desgraçada
De tanto lutar
Pela água
Que no caldo bebia
Desesperou
E um dia
Alimentou-se com veneno
Para acabar.

Era, mais veneno do que a côdea
Que todos os dias comia
Com a água ao jantar
Mas não morreu!

Levantou-se
Determinada
Com a convicção
E a força que sempre teve
Deitou o pão duro ao chão
Nunca mais o comeu
E passou a comer pão leve.

Um belo dia
Caiu das escadas
E quando não queria
E sem merecer
Com o pão
Leve na mão
Morreu!...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Sou um livro aberto


Sou um livro aberto
De folhas escritas
A tinta vincada
Amarelecidas
De frente assumidas
Nunca letra morta.
A tinta colorida ou negra
Que importa?

Nas primeiras folhas a infância
Escritas em lousa, em folhas de milho
Entre brincadeiras de criança
Aromas de giesta e tomilho.

Seguiram-se outras e tantas
Entre sonhos e dever
De tantas nem eu sei quantas
Amontoaram-se as letras
E as palavras em cascata
Estão lá todas
Podem crer.

As folhas
Brancas e imaculadas
Que com a vida não escrevi
Tão singelas e amadas
Olham para mim
E num fervilhar de sonhos
E emoção
Querem transbordar
De letras
De sabedoria
De gosto pela vida
Sentida
Com amor e paixão.
E de quimeras, porque não?!!!

terça-feira, 16 de junho de 2009

De mansinho



Se nas águas cristalinas
Dos meus olhos quiseres navegar,
Leva um barco sem quilha,
Não lhes rasgues o fundo
Profundo,
Rema de mansinho,
Sem os turvar.
Depois,... tens de parar!
Os peixes multicolores
Que lá vivem em cardumes,
Sem rancores,
Azedumes,
Gostam de silêncio,
Não os vás espantar!
Se na minha alma quiseres entrar,
Naquela nuvem, onde ela habita,
Vai de mansinho,
Em asas brancas, com pés descalços
Leva-lhe abraços,
Dá-lhe carinho.
Vem... de mansinho!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Lembras-te?


Ouvi o uivar do vento e saí apressada a procurar-te na noite fria. No escuro, ouvi os teus passos,
fizeste rolar uma pedra que estava no meio do caminho.
Não te vi e ainda assim pressenti-te, sozinho.
Onde estás? Onde estou?

Lembras-te do ribeiro onde pescávamos com canas improvisadas, frágeis que de tão frágeis, se partiam com a força da brisa,
como que a recusarem-se a uma chacina?
Sem ti, os peixes fugiram, o canavial secou e a brisa, de brisa fresca passou a vendaval.
O ribeiro solitário, amedrontado, perdeu a noção do tempo, do espaço,
está desorientado.
Mudou o sentido da corrente e,
as suas águas cristalinas correm para a nascente, para aquela pequena fonte junto à aldeia.
A fonte transbordou,
a aldeia submergiu,
o povo fugiu.
Moram mais acima, bem no alto da montanha, do lado de lá.
Usam barcaças para vir para cá.
No campanário, no velho ninho encostado ao granito, teimosamente, ficou a cegonha, por cima daquele lago imenso.
O leito está triste, as pedras redondas e brancas perderam o encanto, o lodo toldou a água e, aqueles salgueiros de verde prateado estão secos.
Não conseguem perceber a razão do desnorte do ribeiro e,
deixaram-se morrer aos poucos.
Os sinos do campanário deixaram de tocar; talvez a cegonha não aprecia o toque das trindades pela manhã e ao anoitecer.
Ou será que não é capaz de puxar a corda do badalo?
A cegonha tem todo o ar de gostar de música, mesmo que seja a dos sinos da igreja.
E assim, os sinos calaram-se para sempre...depois, depois de ti.

Lembras-te das flores silvestres, dos passarinhos, das borboletas, das rãs dos charcos, dos pirilampos que nos ensinavam o caminho e nos embelezavam as noites escuras?
Lembras-te do meu sorriso, do meu cabelo, do meu perfume,dos meus nadas e de todas as pequenas coisas e belas que na alma pintávamos, os dois?
Lembras-te?...

Beber do teu copo


Quero beber do teu copo
Tinto, rubi
Saborear taninos,
Encorpado
Vermelho
Transparente
Frutado
Adamado.
Quero beber do teu copo
Vapores quentes
Ardentes
Que me deixem ausente
Em mim
Fora de mim
Assim
Presente

sábado, 13 de junho de 2009

Poeta sonhador e louco




Poeta!
Será que és como te chamam
Sonhador, louco
Ou de tudo um pouco?
Tu que navegas em rios de letras
Às vezes perdes o barco das palavras
Afundas-te com o poema.
Tu que olhas a lua, abraças o sol e as estrelas,
Perdes o firmamento das palavras
Eclipsas-te com o poema.
Tu que te perdes nas cores do arco-íris
Em tardes de tempestade de estrofes
És levado pela corrente, com o poema.
Porque procuras tu, o poema?
O poema está contigo!
Pois não será sonho e loucura
Ter dentro de si um poema?
Então poeta,
Tu és sonhador e louco!...
Tens a loucura e o sonho
De oferecer o céu e as estrelas
Ao teu amor;
Aos pobres com frio,
O sol, o calor;
A lua mágica,
Aos infelizes;
Aos de cinzento vestidos
As cores do arco-íris.
E depois,
Buscas de novo o sol,
As estrelas, a lua,
O orvalho,
A chuva, a luz
E através de ti,
Nascerá o poema.

Televisão

Preciso de silêncio
Desligo o botão
Mas ela segue-me
Maldita perseguição

Ponho-lhe um pano em cima
Uma mordaça
Mas ela sobrevive, respira
Maldita ameaça

Desligo-a da corrente
E ela teimosa, raivosa
Liga-se novamente

Eu já irritada digo,
Acaba-me com isso
Mas que peçonha, parece feitiço

Ignorante, aculta, não ensinas nada
Impedes as conversas
Quero-te desligada

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Folha branca


Os meus dedos secaram
Já não têm brilho
Já não têm palavras
E esta folha branca saltita
Pula, refila,
Quer ficar escrita.
E eu, que faço eu?
As letras que liberto não se aglutinam
São independentes.
As ideias que me afloram à mente
São frágeis, desconcertantes.
Vem tu, junta-te a mim
Traz-me a tua alma para que me ilumine
E junta-te à lua, minha companheira
Traz-me o teu corpo que me aqueça
E junta-te ao meu sol
Em perfeita fogueira.
E as palavras?
Quero palavras coloridas
Quero que os meus dedos te tirem
Magia, a ti, à lua
E que me caiam em cascatas de luz e esplendor
As letras, as palavras, os poemas.
Folha branca, voa para mim!
Olha o que tenho para te oferecer!
Vem que te quero encher de amor
De luz
Esplendor
Quero colar-te no escaparate do tempo
Onde não haverá dor
E assim,
Terás o meu poema de amor
Um poema
Com a luz que vem do sol, da gente
Com a magia que vem da lua e de todas as estrelas
Com a imensidão que vem do mar
Com o encanto das sereias.
Plana, folha branca!
Folha branca, de alma inquieta
Irreverente
Poisa nos meus dedos
Sem receios, sem medos
E dar-te-ei poesia.

terça-feira, 9 de junho de 2009

De ti

Quero fazer de ti o meu jardim
Regar-te com água fresca pela tardinha
Passear por ti, pelos teus canteiros
De mão dada contigo, à noitinha

Quero fazer de ti a minha rosa
Para te trazer junto ao peito, na lapela
Cheirar o te perfume o dia inteiro
Ter-te no quarto à noite, na janela

Quero fazer de ti a minha lua
Que me alumie nas noites escuras
Me proteja, me inspire, me dê alento
Para vencer e esquecer as amarguras

Quero fazer de ti o meu mundo
Onde se respire amor, fraternidade
Fazer de ti um escudo, protecção
União, concórdia e irmandade

O bom senso

Procurei-te por todo o lado, bom senso
Mas não fui capaz de te encontrar
O bom senso anda perdido, esquecido
Por pouco, o bom senso imperar

Faz-se aquilo que vem à cabeça
Sem nunca o bom senso aplicar
Neste mundo de faz e desfaz
Passa-se o tempo a remendar

Diz-se tudo o que vem à cabeça
Depois diz-se que não se disse
Diz-se que a intenção não era essa
Em conversa fiada de idiotice

É urgente encontrar o bom senso
Para as nossas vidas, para o mundo inteiro
E neste comércio de favores vendidos
O bom senso vendeu-se por muito dinheiro

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Contigo música

Percorres-me o corpo, fazes-me vibrar
Música de som forte, suave e leve,
Te sinto e me sentes nos poros da pele
Me percorres em ondas, fazes-me sonhar.

Dás-me o compasso para a minha dança
De ritmos frenéticos e suores quentes
De abraços apertados, de beijos ardentes
Em ti música comungo, em perfeita aliança.

Fazes-me levitar, percorres-me a alma
E contigo música, eu parto em viagem
Perseguindo um sonho, perfeita miragem
Que me enternece, aquece e acalma.

Contigo música, eu sou mulher, sou criança
De alma e corpo leve, perfeita união
De ternura, candura, loucura, paixão,
Realidade, magia, amor, confiança.

Rouxinóis cantantes

Às vezes o rouxinol do jardim canta uma melodia mais triste.
Ou será que a tristeza está em mim e não na melodia do rouxinol? De uma forma ou de outra, hoje acordou-me muito cedo com a melodia.
Cantava sozinho e aquela música entrou-me no quarto, entrou-me na alma.
De repente a multidão de pardais com a camarata montada na laranjeira de folhagem mais densa, começou a cantar, sempre no mesmo tom de voz e ritmo repetitivo. O rouxinol quis ser maestro, mas não foi capaz. A multidão caótica tolheu-lhe os braços, as asas. Sentiu-se impotente, mas ainda assim a sua voz de barítono soava afinada acima do tom do ruído das vozes dos pardais.

A madrugada fresca e sombria trouxe chuva forte que ao bater com violência nos vidros, me fez mudar a atenção e por breves instantes deixei de ouvir o bando e o rouxinol. De repente o ruído da chuva que caía a pique nas janelas do sótão transportou-me para o mundo da gente que entretanto começava a passar, a ir para o trabalho, cortando com os escapes dos carros, o silêncio.

Como as pessoas acordam cedo e partem para o ganha pão ou ganha fome, sem sequer terem ouvidos, para o rouxinol cantante!
Parece impossível que haja tanta gente a cujos ouvidos não chegue outro som que não o da sua voz e o das suas rotinas alienantes!
Foi no meio destes pensamentos que transpus a orquestra caótica dos pardais, para o mundo dos humanos.

Os pardais deixaram de cantar e partiram para o saque diário de tudo o que de valioso e comestível encontram. No caos da sua madrugada, em vez de cantarem, emitiam sons de conjecturas, de golpes baixos, de entrujices que estavam a planear.
O rouxinol bem intencionado não foi capaz de lhes acertar o ritmo e o tom para que os pudesse demover dos seus vis intentos. Continua a cantar sozinho, uma canção já mais triste mas igualmente melodiosa e bela, numa sonoridade de soprano.
Está cansado, mas não desiste e tem ainda esperança que mais rouxinóis se lhe juntem para que, sendo muitos, se sintam mais fortes.

Cada vez mais proliferam pardais sequiosos, famintos de riquezas,sempre prontos para golpes sujos, neste mundo dos humanos. Cada vez mais os rouxinóis sentem mais impotência.
Os gaviões, chefes de todos, poderiam meter os pardais nas gaiolas,mas não, são ainda piores que os pardais. Planam e preparam a melhor ocasião para calar a voz dos rouxinóis cantantes, não vão estes com o seu belo cantar, espantar as suas preciosas presas.

No meio disto tudo onde estou eu, simples mortal, que não sou nem gavião, nem pardal, mas que de tão frágil ter a voz, também não sou rouxinol?
Estou nesta insignificante parte do cosmos, a levantar a pouca voz que tenho, para a juntar à tua, a de todos os rouxinóis. Todos seremos muitos, teremos mais força, mais determinação e cortaremos aos gavióes, o bico e as garras de ave de rapina.

O que poderemos nós os rouxinóis, fazer aos pardais, àqueles que roubam a torto e a direito o fruto do suor de tanta gente?
Será que temos mais alguma força para além daquela que nos advem da voz?

Fica a questão. Provavelmente temos mais, que aquela que julgamos ter!...

A ti, rouxinol do meu amanhecer, eu peço, continua a cantar!…

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Choveu

Ontem choveu
Aquela chuva fresca
Que refresca a terra queimada
Que dá grão ao trigo
E brilho ao olhar.
Apanhei a chuva numa concha
Para contigo me banhar e
Dar brilho aos meus cabelos
De fogo e de mar.
De manhã colhi o orvalho fresco
Envolto em cantos de pássaros
Voos de sonhos
Para me refrescar.
Da terra colhi o cheiro
Das giestas amargas a cor
Para comigo levar.
Corri pelo campo
De sementes germinadas
Sonhei
Alegre cantei.
Ordenei
A este céu encoberto
Quero mais chuva
Mais plantas
Mais orvalho
Mais odor a terra
Mais festa

Até

Quero navegar no verde dos teus olhos
Caravelas ornadas de flores de primavera
E em águas mansas de muitas marés
Parar em praias cálidas de palmeiras.
O verde turvou
O mar calmo agitou-se
As minhas caravelas frágeis
Perderam o norte
O Nascente e o Sul
E estão em desvario, desnorte
De turvo passou a branco
Glaciar o teu olhar
E eu…
Afundei as caravelas
nesse mar imenso.
Construí barcos de papel
Frágeis e leves
Da infância renascidos
Amolecidos,
Afundam
E eu sinto um frio de morte.
Subi os degraus da minha alma
Para te dizer até breve
Mas tu passaste em silêncio
Não olhaste
Nem me viste
E eu…
Balbuciei com medo
Um até
que não ouviste

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