Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Como me dói



Sinto um cansaço terrível que me tolhe os passos.
Tenho os músculos com espasmos que me contraem os tendões.
Quero caminhar, mas esta inércia de vagalume gelado prende-me, os pés estão frios, a boca dormente, a língua presa.
Quero chamar-te mas tu não olhas para trás, não ouves. É que da minha boca sai uma brisa leve, tão leve, tão gasta e o som das minhas palavras que fica retido no meu peito, não chega a ti.
Quero lançar as palavras numa folha branca para ta mandar pelo vento, mas a tinta não adere, esguicha e mancha-me o vestido, mancha-me o corpo.
Quero compor uma melodia com o som das palavras que não saem, mas a pauta ficou desfeita num vendaval e as teclas do piano estão partidas.
Como me dói esta impotência, como me dói o tempo!
O tempo, sempre o tempo!...
O tempo que não tenho, o tempo que me mata, o tempo que há-de vir, sempre o tempo.
Tenho uma nuvem de poeira branca depositada pelo tempo, em cima dos ombros, no xaile negro. Soprei a poeira para com ela te mandar, em neblina, o aroma do meu corpo. A poeira petrificou e não fez neblina e eu tenho os ombros doridos, cansados.
Onde estás, condor de asas fortes para me levares para longe?
Onde estás tu, águia de bico forte, para me partires os pedragulhos que me imobilizam o corpo?
O condor não veio, a águia também não.
Luz difusa inundou-me o quarto e acordei do pesadelo.
Abri a janela, o veda luz e saudei o sol radioso que prometia um dia quente.
Saudei a vida, saudei o tempo, cantei!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Reflexos

Porque me enganas, espelho
E me mostras diferente
Daquilo que sou?
És fútil, indiferente
Vives de aparências
Pedes-me cosmética
Que não sei usar
E nem mesmo transmites
A essência
Do meu verdadeiro olhar.
Mentes-me
Incorrigível mentiroso.
Asno, vaidoso
Que me tira o sonho
Que me faz agitar.
Porquê que manhoso
Não mostras a pureza
Da minha alma
Do meu olhar?
Contigo
Sinto-me intimidada
Faço caretas
De envergonhada.
Criticas-me
O mau humor do acordar
Os papos, as remelas
O sono a cambalear
Se ando vestida
Ou despida
Se ando descalça
Ou calçada
Se sou careca
Ou tenho cabeleira
Grisalha ou pintada.

Gostas de me minimizar
E não vales nada.
Vou-te mandar bugiar.

sábado, 23 de maio de 2009

Reage, gaivota!


De olhar triste e fixo
Olhas o horizonte
Mas para além das tuas penas
Nada vislumbras.
Olhas para ti
mas o que vês
não te pertence.
Gaivota solitária
Que habitas o mastro
De um barco à deriva no mar
Reage
E voa para aquele rochedo!
Não vês que vais naufragar
Nesse mar imenso
Que te tragará
E que depressa te lançará
Nas ondas, a flutuar?
Vai gaivota!
Sai dessa inércia de morte
Não te entregues à tua sorte
Pesca, come, ganha coragem
Deixa o mastro
Parte em viagem!
Voa gaivota!
Rasga o oceano, pára num coral
Olha as águas de puro cristal.
Vai para aquela praia
De águas mansas
Onde brincam crianças
Que te esperam, no areal.
Canta gaivota!
Canta com a tua voz rouca
E bate as asas com força
Vai a terra, volta ao mar.
Vai gaivota!
Vai com as crianças sonhar!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Canta, luta


Canta velho, canta novo,
a dor alivia a cantar
quanto mais acabrunhado,
mais ficas desanimado
e impotente para lutar.

Canta velho,
contra a injustiça,
o abandono, a indiferença,
contra aqueles que te dão
a esmola com uma mão,
para nas urnas mostrares
a tua fiel presença.

E tu jovem canta,
sempre, sempre, sem parar
e luta para mais saber
pare dares a lição a valer
àqueles que te estão a enganar,
na escolha que não escolheste
seguiste o que nunca quiseste
para contrariado falhar.

Canta contra o estratagema
das novas oportunidades
que te querem dar, sem estudar
e que mais não são,
que para justificar
as falhas de todo o sistema,
que te fez fracassar.

Luta jovem, canta e dança
e com toda a seriedade,
com trabalho,justiça e verdade,
constrói uma sociedade,
de completa mudança.

Vem!


Vem sol!
Derreter a geada
que se formou na noite
e gelou os sonhos de tanta gente.

Vem lua!
Trazer magia, luz, alegria
à noite escura,
onde perdura
a dor,
e a fome que se sente.

Vem mar!
Recolher o sal das lágrimas
vertidas,
em rios de tumultos
de desilusões, de insultos,
de incertezas, de verdade ausente.

Vem tu!
Grita bem alto em cada rua,
em cada esquina,
tira a mordaça
e grita a razão que é minha e tua.
Defende-te
de tudo o que nos ameaça,
a ti, a nós, a toda a gente

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Silêncio


Silêncio, porque te escondes
em cada esquina?
Porque te entranhas na minha mente
e me roubas os sons da noite?
Venham sapos e grilos
Transponham a barreira
Entrem na minha casa
Na minha lareira
E cantem para mim
A noite inteira

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Chuva de Maio




A chuva, puxada pelo vento, forma gotículas que se assemelham a pequenas pérolas. À medida que o vento traz mais água, essas gotículas vão engrossando e deslizam vidros abaixo, como se fossem estrelas cadentes.
O céu está carregado de nuvens escuras que vão despejando a chuva que há uns tempos era pedida. De tal forma era desejada que os habitantes, crentes nos milagres de Fátima, rezaram uma novena. Não me interessa se por milagre ou não, a chuva veio e veio fria, miudinha.

O vento sibila de encontro aos pilares de granito. Sentada, a ouvir esse sibilar, os meus pensamentos vagueiam à velocidade do vento, à medida que os meus olhos olham os campos verdejantes, o céu cinzento carregado, com pequenas manchas de azul celeste junto à linha do horizonte.
Olho através de janelas rasgadas e desnudas, viradas a nascente, sul e poente. Desnudas como convém no campo.
As cortinas, por mais leves e transparentes que sejam, são para mim como que nuvens escuras que tapam o luar de Agosto.
Janelas desnudas são canais abertos à cor, à beleza, à divagação, ao sonho.

Os pássaros, esses reduziram os cânticos. Só de vez em quando passa um ou outro mais afoito a desafiar a chuva fria. Meteram-se nos ninhos para protegerem os ovos ou os pequenos filhos.
As árvores balançam e a localização estratégica do ninho,deixou de o ser, pela mudança da posição dos ramos embalados pelo vento, o que confere uma maior vulnerabilidade aos pequeninos pássaros.
Os grilos recolheram-se nas profundezas dos buracos e calou-se a orquestra.
A azáfama da toupeira contrasta com o estado de sonolência da maioria dos outros; fura em estado de quase loucura, túneis intermináveis para drenar os terrenos. Está a exercer com elevado profissionalismo a sua função, embora seja mal interpretada e frequentemente recebida com um golpe de morte, quando à superfície emerge com o montão de terra molhada.

Também eu sinto uma sonolência leve, um torpor hipnótico, causado pelos sons em surdina da natureza, do ruído da chuva que agora cai mais forte e, por esta luz difusa que me chega de um sol escondido, perdido no firmamento.
Uma sonolência que me convida a fechar os olhos, ouvir o silêncio e, quem sabe, a uma soneca reconfortante, numa tarde primaveril com laivos de Inverno…

domingo, 10 de maio de 2009

Evade-te, poema!


Poema, porque te escondes
Se os teus olhos são estrelas
Em noite escura?
Porque te escondes atrás da nuvem negra
Na penumbra, no engano, na amargura?

Evade-te, poema
Dessa nuvem, espuma dissipada
Das vagas,
Contra a areia molhada.

Insinua-te poema
E à tua amada mostra a luz
Dos teus olhos, seduz!

Sai da masmorra em que te encontras
Labirinto de pesadelos, terror
Onde confundes dever com amor
Onde lentamente cavas a tua sepultura.

Perfura a nuvem negra, poema
Sai em liberdade, doçura!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Vem, chuva!



Vem, chuva!
Quero receber-te na rua
Abraçar-me às tuas gotas frescas
Molha-me
Recebo-te como se estivesse nua.
Como uma árvore gotejante
Peço vento e sol bastante
Brilhante
Para secar-me na rua.

Vem, chuva!
Molha-me o meu cabelo
Perfuma-o com desvelo
Com cheiro a terra que trazes.
Quero sentir o aroma
Das flores molhadas
Rosas, lírios, lilazes
Delírios
Para perfurmar-me na rua

Vem, chuva!
Traz-me frescura de Outono
Na Primavera estival.
Contigo eu quero dançar
Quero que sejas meu par
Melodia sem igual
Abandono
Numa dança minha e tua

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Velejando


Quando falaste, fui toda ouvidos
Quando me olhaste, olhei para ti
Fogos cruzados, olhares perdidos
Num barco à vela, numa viagem.
Vento soprando, mais do que aragem
As velas enchem, o barco desliza
E o mastro sobe, sempre em crescendo.
Sopra mais forte, ao vento pedi.
Com as velas cheias, o barco avança
Sobem as ondas e ele balança.
O vento amaina, o mastro descansa
O barco desliza, em brisa mansa.

terça-feira, 5 de maio de 2009

De Sapinho Feio a Príncipe

……logo que os arados sulcavam o solo, caminhava na terra remexida, indiferente ao barulho produzido pelo tractor.
O tio Zé, homem para os seus setenta e muitos Invernos, artroses a condizer com os anos, não se lembrava de cegonha assim. Caminhava imediatamente a seguir, sem sequer manifestar o mínimo receio de ser atropelada, quando para lavrar a pequena propriedade ele metia a marcha atrás. Desviava-se ligeiramente e sempre a espreitar na terra mais húmida, de onde retirava os seus pitéus de minhocas e outros bichos tais.
Aquela cegonha era de uma voracidade assustadora.
O tempo secou e, com a secura, os arados não conseguem penetrar na terra; o tio Zé deixou de lavrar.
A cegonha voraz teve que procurar outro sítio para satisfazer a sua gula. Sobrevoou os terrenos adjacentes à aldeia e lá do alto avistou uma lagoa coberta de flores brancas de uma beleza incomparável. De patas na vertical, desceu e ficou com elas, quase submersas.
Com o longo bico dentro da água e de encontro ao fundo, remexia aquele lodo cinzento à procura de qualquer coisa que fosse que lhe preenchesse o vazio que sentia no estômago. A certa altura pressentiu algo a mexer no meio daquele lamaçal. Estava pronta para lhe apertar as mandíbulas assassinas, não fosse ter ouvido um som, numa mistura de gemido e grito que lhe dizia:

Senhora cegonha, a senhora sempre tão elegante e esbelta, não me coma; eu sou apenas um sapinho feio, tão feio, olhe para mim! Houve quem me tivesse confessado que eu à nascença era como todos os outros sapos são, mas a minha mãe e os meus irmãos começaram a chamar-me feio, eu convenci-me disso e sou muito infeliz. A senhora cegonha se me comer vai ficar também mais feia!...

A cegonha que era vaidosa, reflectiu nestas palavras e como não queria de modo algum por em risco o seu porte e rosto perfeitos, não apertou as mandíbulas. Puxou o sapinho cá para fora e colocou-o em cima das flores brancas. Na verdade, emoldurado com aquela verdura matizada de branco, não lhe pareceu aquele sapo diferente dos que já tinha visto. Olhou-o naqueles olhos pestanejantes e suplicantes por clemência e pensou:
Mas porque carga de água uma mãe pode achar que o filho é feio, e mais do que isso tê-lo feito acreditar que assim é?
Olhou-o nos olhos mais demoradamente, reparou na boca, nas manchas da pele húmida e achou que o sapinho era perfeitamente normal, dentro dos parâmetros de beleza dos sapinhos.
Continuou a conversar e para seu espanto, a fome desaparecera. Achava o sapinho, de tão simpático e puro, cada vez mais bonito e quanto mais conversava, mais beleza lhe achava.
Ele, perante o olhar fixo da cegonha, começou a tremer e de tanto medo que sentia, não conseguia dizer mais nada.
A tua mãe onde está, perguntou-lhe a cegonha.
A minha mãe partiu para outra lagoa com os meus irmãos, eu não quis ir com eles e fiquei aqui.
Se eu te disser que tu és o sapinho mais bonito que alguma vez vi, tu acreditas?
És um verdadeiro príncipe. Gosto muito de ti e vou levar-te comigo, para junto do meu ninho.
Segurou-o cuidadosamente e voou.
O sapinho nem queria acreditar.
Eu príncipe!
Eu que sempre pensei que era o Sapinho Feio, agora sou Príncipe!
Como eu sou feliz!...

“Depressa um Príncipe passa a Sapinho Feio, se for tratado com desdém”.
“Depressa um Sapinho Feio passa a Príncipe, se for tratado com amor e compreensão”.
“Nem sempre os pais estão certos em relação aos filhos e por vezes transformam-nos em sapinhos feios, complexados, infelizes”.

domingo, 3 de maio de 2009

Quero

Deixei de lutar
Não porque tenho perdido as forças, mas tão só, porque não quero.
Quero relaxar os músculos e deixar-me levar pelo ritmo da corrente
Das águas de um rio tumultuoso, rápido, espumoso, sem bote
Num percurso onde de tudo, acontece.
Quero emoção,
Quero que aquelas águas me massagem a pele, me beijem
Com a sofreguidão de faminto, sequioso.
Depois, quero desaguar
Num mar calmo, transparente, silencioso.
Quero flutuar nesse mar
E em quietude
Deixar-me arrastar
Sem inseguranças ou medos
Que me obriguem a voltar.

Naquele deserto, onde jaz


À tristeza disse não
Despiu as lágrimas
Engoliu o pranto
Varreu as dores do seu coração.
Fechou a porta a sete chaves, não fosse a tristeza voltar e de mansinho quisesse entrar.
Mandou-a embora. Pôs-lhe a mala à porta, cheia de trastes velhos e de tão cheia, teve que lhe pôr o joelho em cima para a poder fechar.
Vestiu-a com todas as mágoas, lavou-a com as lágrimas, penteou-lhe os cabelos longos e lisos com pentes de angústias. Para a tornar mais elegante, calçou-lhe uns sapatos de salto alto produzidos numa mistura de desencantos e abandono.
Assim aperaltada, a tristeza apanhou o primeiro comboio da manhã. Constava que teria sido deportada para longe. Soube-se mais tarde que o seu destino fora um deserto imenso, de dunas gigantescas, de areias escaldantes que calcorreou descalça.
Procurou um oásis para beber. Morreu de sede.
Foi acometida por uma miragem que a conduziu para dunas cada vez mais altas e intransponíveis. Diz-se que ao morrer, terá emitido um grito estridente que continua a ser ouvido nas noites frias do deserto.
Deportou-a...
Esqueceu-a,... naquele deserto, onde jaz...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Mas não! Ninguém


Ah, mundo cruel, como me oprimes!
Ah, poder fingido, como me enganas!
Ah, patrão de milhões, como me ignoras,
me esvazias e me lanças no beco
do desemprego, das desilusões!
Reclamo, dou opinião.
Mas não!
Ninguém me ouve.
Ninguém me vê, é em vão!

Como heras trepei
e agarrando-me ao que de mim restava,
até aos confins do meu ser, lutei;
de mão erguida exigi,... depois implorei.
Mas não!
Ninguém me dá a mão
Ninguém me vê, constatei!

Se soubesses como me sinto só,
no meio de tanta gente!
Sem pressa, caminho apressada
e para não morrer sufocada,
cruelmente esmagada,
sem destino, corro à frente.
Mas não!
Ninguém me vê,
neste mundo indiferente!

Se soubesses como sinto fome
De justiça, de amor, de pão!
Sento-me… e envergonhada,
estendo a mão.
Estendo a mão ainda jovem,
mas demasiado enrugada
para ter outro patrão.
Peço ajuda
Mas não!
Ninguém me vê,
neste mundo cão!

Mas eis que junto os meus pedaços
com a força que me restou
e de mangas arregaçadas,
enfrento tudo e aí vou.
Grito bem alto ao mundo,
ao patrão e ao poder,
meus senhores hei-de vencer
esta batalha, esta luta;
hei-de-me restabelecer
para não voltar a estender,
a mão, a filhos da puta.
Todos irão ver,
Das cinzas, o meu renascer!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Filhos




Filhos,
frutos da minha flor,
saídos da minha dor,
com força vos lançou ,
vos obrigou ao grito,
e vos emancipou.
Pulmões abertos,
passos incertos,
depois certos,
amparados, libertos.

Filhos,
que só me pertenceram
enquanto permaneceram
no meu ventre.
Assim cresceram,
com obrigações, em liberdade,
em amor, em amizade,
são o meu prolongamento,
a minha eternidade.

Filhos
que eduquei
para um mundo perfeito,
de tolerância, respeito,
de bondade, amizade
e de que não me arrependo.
Com o vosso saber,
vos sabereis defender,
deste mundo horrendo!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

É lá que renasces


Cheiras à terra, daquela planura.
Fechas os olhos, partes em viagem
e em sonhos, respiras-lhe a aragem.
Cheiras a tomilho, a flor de giesta
Enrolas-te em ti, escondida folhagem
de estevas, da infância em festa.

Cheiras às arribas e aos seus rochedos,
mistérios e lendas que tão bem descreves,
nos carreiros trilhados, em histórias tão leves.
Fechas os olhos e é lá que te perdes
nas tuas lembranças.
De olhos abertos
é lá que renasces,
em suaves temperanças.

Voltarei a lutar


Caminho nas nuvens
Com os pés descalços
Em viagem vertiginosa
Tenho medo de tombar.
Caminho na neve fofa e fria
Colada aos meus pés
E tenho medo de me afundar.
As minhas mãos tremem
Os meus pés vacilam
E falta-me a coragem
Para continuar.
Atravesso rios secos
Com medo de me afogar.
Insegura, subo montanhas
Com medo de me desorientar

Onde estou, pergunto-me...
O que resta da minha coragem
E porquê não prosseguir viagem?

Por momentos
As minhas águas são assoladas
Por correntes de conflitos
As minhas pérolas são roubadas
De conchas violadas.
Ventos gigantescos rompem
As velas do meu veleiro
E eu, à deriva
Peço ajuda à gaivota
Ao albatroz
Para que me levem nas asas
Me ponham na rota
E me tirem
Este medo atroz.

Ah, este medo…
Este medo que me gela o sangue
Que me tolhe os passos
Me controla a mente
E me impede de continuar!

... Mas amanhã é outro dia!...
Em mim, o sol voltará a brilhar
E eu, determinada
Alegre,firme, renascida,
Voltarei a lutar!...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Versos da treta

Pego na caneta
Bato no teclado
Esta grande treta
Não me está a sair
Como planeado

Eu quero escrever
Mas não sou capaz
O que hei-de fazer
Já nada me inspira
E nada me apraz

Inspiração eu peço
Mas ninguém ma dá
Será que não mereço
Ou será que não sei
Onde a musa está

Como não faço nada
Já vou acabar
Com esta charada
Que mais não é
Que morte anunciada

Vou-me já embora
Ponho-me na alheta
Já sem mais demora
Pois estes versos são
Só versos da treta...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Poema sem abrigo


Ah, Poema!
Como eu queria libertar-te
Dessas roupas andrajosas!

Ah, Poema!
Como eu queria dar-te
O pão
A ti
E ao teu irmão!

Vives no mundo
Que não é teu
Despido de letras de esperança
Em sílabas de indiferença.
Dormes em buracos
De livros não lidos
Declamas-te em gritos não ouvidos
És letra de canção não cantada
És resto duma vida amaldiçoada

Ah, Poema!
Junta a tua voz
À de todos os infelizes
Que surgiram
De letras
Deste mundo atroz.
Insurjam-se bem alto
Em voz bem colocada
Comigo
E com todos os poetas
Que vos pariram
E lançaram no asfalto
De rua amaldiçoada

Ah Poema, maltrapilho
Neste mundo de egoísmo
Que não te liberta
Não te dá o pão
Não te dá nada!

sábado, 18 de abril de 2009

E partiu!


Chovia torrencialmente!
Ficou dentro do carro a olhar o mar, como ela gosta.
Não viu as horas nem ao chegar, nem quando foi embora.
Ela não vê as horas; há momentos de felicidade em que não há nenhum relógio capaz de os captar: umas vezes tão pequenos mas que valem uma eternidade, outras , sendo uma eternidade, parecem-nos infinitamente pequenos!...

Aqui ficou, com o corpo preso a uma argola do carro .
A alma, essa começou por perto, enquanto observava o rebentar forte das ondas. Formavam espuma branca quando sacudiam os rochedos e apaixonadamente deitavam-se com a areia.
Depois, perdida no tempo e no espaço, voou numa nuvem, numa nuvem negra.
Que importa se a nuvem é negra e não é uma nuvem de algodão?
Não são as nuvens negras que nos dão a vida e nos refrescam o coração?

E partiu!...
Partiu naquela turbulência tão forte que chegou a ter medo, naquela viagem tão aventureira.
As nuvens negras abriram uma guerra, uma guerra no céu!....
Juntou-se-lhes a outra nuvem, em guerra aberta, numa tempestade tropical sem igual.
Lutou ao seu lado, no meio daqueles trovões e relâmpagos com uma bravura e emoção nunca sentidas.
Às vezes é necessário sentirmos emoções fortes, para que nos possamos sentir vivos!

Em breve a nuvem se desfez em água quente e naquele sonho foi cair na terra vermelha, a ferver, onde já fora imensamente feliz.

Mas voltou!...
Voltou, enrolada em tule branco, como em véu de noiva, naquela nuvem que se formou na terra vermelha.
Levitou.
Juntou-se ao corpo.
Soltou-o da argola.

O corpo sorriu para a alma, como que a dizer:
“ Não precisas de me pedir perdão por me teres deixado sozinho, vai sempre que queiras; eu já estou habituado a que me deixes só, alma sonhadora!...”

Ligou a chave da ignição e despediu-se do mar e daquela praia, onde foi tantas vezes feliz.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

E veio!....


...Diziam-na benvinda!.... E veio!
Fria,tão fria que é capaz de refrescar qualquer mente entorpecida seja qual for a razão do entorpecimento.Não parece a chuva da Primavera a passos largos do Verão.
Apanhei-os de frente, à chuva e ao vento!
O vento forte!... Não consigo ter uma relação amistosa com o vento forte; enlouquece-me,…como me enlouquece a chuva que tapa por completo o vidro do carro e me tira a visão.
O condutor estava atento à condução; eu nem por isso. A minha atenção estava mais centrada na paisagem e nas nuvens que saltitavam entre o brilhante no meio de rajadas de luz e o escuro, quando prenhas de água, bem fundamental à vida.
Com frequência ao longe, pareciam cabelos de cigana que depois da última enxaguadela pingavam para a terra até que o sol viesse, os secasse e carregasse de brilho.
Vi nuvens de algodão a beijar os picos da Serra da Estrela em beijos roubados, entre os raios de sol que por momentos lhes mostrava o caminho da luxúria. Depressa se tornavam negras e a estas sim, a Serra se abria em sorrisos marotos, espera desejada, namoro consentido.
Nas nuvens escrevi, desenhei, pintei, como quem desenha escreve e pinta sonhos, tão ténues, tão etéreos, tão lamentavelmente impossíveis de concretizar, tão… eternamente sonhos!...
No dia em que alguém me retirar a capacidade de sonhar, considerem-me biologicamente viva, mas mentalmente,... irremediavelmente morta!...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Olho-me ao espelho


Olho-me ao espelho
e vejo
os vincos dos anos, dos dias
passados com tristezas e alegrias.
Não quero tirar as minhas rugas
e as manchas também não;
elas existem por alguma razão.
São passagens de uma vida,
são amores e desamores,
são uma vida vivida, por vezes
em esperança perdida
e logo renascida.
Olho-me ao espelho
e vejo realidades, segurança e auto-estima;
vejo a esperança que domina
nos dias que correm mais devagar;
vejo os lugares para onde não quero ir
e aqueles onde quero ficar.
Olho-me ao espelho
Sem nostalgias do que perdi e
sem vaidades do que ganhei.
Ganhei calma, perdi beleza
e vejo agora com clareza
que a maior beleza
é a beleza da alma
e estar viva é a maior vaidade.

Olho-me ao espelho, com serenidade!...

domingo, 12 de abril de 2009

Andorinha de asas negras

Andorinha de asas negras
que regressas na primavera
para o beiral
daquela casinha de pedra
com telhado escurecido pelo tempo,
onde mora a velhinha
com os cabelos embranquecidos
pelo saber e pela solidão.
Todas as tardes se senta contigo
para te dizer
que voltes sempre
e para te agradecer
a companhia que lhe fazes.
Andorinha de asas negras,
companheira, mensageira
e de doce coração.

sábado, 11 de abril de 2009

O vento da Semana Santa

…o vento da Semana Santa calou-se! Vá lá que se calou!
Este vento seca-me a pele, encarde-me a alma, deixa-me o coração ressequido, como se fosse caruma no mês de Agosto!
Que me importa que me digam que é o vento da Semana Santa? Não gosto, e pronto!
Não gosto, porque não gosto de vento a uivar e não gosto deste que hoje soprou porque me arrastou precocemente para longe, as flores da cerejeira que tenho em frente à cozinha.
Eu tinha ainda o meu cordão umbilical ligado àquelas flores e está a doer-me por mo terem arrancado à força.
Não gosto eu e não gosta a minha querida Jomba que na sua mente que cadela esperta não percebe a razão daquele tumulto de força e de barulho que lhe causam um remoinho de confusões. Até o pelo brilhante da Jomba fica também seco e arrepiado!
Também o cordão umbilical que a liga à bola e às brincadeiras lhe são arrancados à força, sem dó nem piedade e é empurrada para a casota, em pleno dia. A ela, viciada em bola, em Especiosa e em brincadeira!...
A ela, pobre cadela que nem sabe o que é a Semana Santa!...
É bom ter aliados; nisto eu tenho uma aliada fiel, a minha querida Jomba. Aliás, ela é minha aliada e amiga incondicional. Ela compreende-me melhor do que a maior parte dos humanos!...
Não gostamos de muitas outras coisas, como também não gostamos deste maldito vento, santo ou não!...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Vestida de Primabera

Do Inverno tirei a boina
Pus uma flor no cabelo
Larguei aquele ar de estroina
Arranjei-me com desvelo

Vesti-me com mantos
De violetas e rosas
Colhi perfume nos campos
Calcei sandálias mimosas

Corri por campos sem fim
Entre tomilhos, giestas
Carquejas, alecrim
Na natureza em festa

Voei com as andorinhas
E com as rolas cantei
Ensaiei o canto do cuco
E com as cegonhas dancei

Saltei por colinas e prados
Alegremente corri
Vestida de Primavera
Em felicidade renasci

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O teu poema

Quero esculpir-te com as palavras
Para te escrever
Passo a mão levemente
Pelos contornos perfeitos do teu rosto
Pelo cheiro do teu corpo
E as palavras saltitam em rios de ternura
Desaguando num mar de calmaria
Mas as palavras não chegam para te escrever
A caneta é demasiado leve para te esculpir
As sonatas não têm voz para te cantar
E a mim não me chega a fantasia
Para com pobres versos te elevar
Pedi à musa inspiração
Mas ela disse-me que não!
Pedi à lua em luar de Agosto
A luz para me inspirar
Mas ela disse-me que não!
Então, só e triste
Refugiei-me na simplicidade
Das letras que me afloram
À alma e ao coração
Para te oferecer este poema
Este poema que saiu da minha mão
Trémula, frágil, quase fria
Este poema que não é escultura
Que não é sonata
E que da lua não herdou magia…
É só um simples poema
O meu poema, o teu poema!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Primavera sensual



Está tudo em delicioso namoro
Nesta linda temporada
Cheia de flores e de pólenes
Onde abelhas sem decoro
Se enroscam se tocam e amam
Sem se importarem por nada

O Cupido anda à solta
No beiral das andorinhas
E nos ninhos das cegonhas
Ouvem-se belas ladainhas
A matracarem com os bicos;
Para quê sentir vergonhas?

A natureza ávida de vida
Na Primavera, a estação do amor
As ervas ficam à cata
Para ter espaço de saída
As plantas rebentam em flor

Anda aqui um rouxinol
De mansinho a cortejar-me
Na vedação do jardim
A planar ele fica a olhar-me
Enamoramento doce de jasmim

Não faço nada nem resisto
A esse olhar penetrante
Que ele continua a ter
O rouxinol cantante
É atraente a valer
E na sedução
Tudo pode acontecer

Pediste-me um poema


Pediste-me um poema
Que fosse luz, ternura
Que fosse amizade, candura

Vasculhei
E nas bielas do meu ser
Encontrei sentimentos
Para o escrever

Compilei letras
Formei palavras
De alegria e doçura.
Fiz um poema
Flor de açucena, candura

Pediste-me um poema
Que tivesse estrelas, alegria
Que tivesse lua
Cheia de magia

Compilei luz
Em constelações
E com elas formei
Muitos corações

Procurei laços
Para o enfeitar
Coloquei voz doce
Para o declamar
Pedi à brisa fresca
Para to entregar

sábado, 4 de abril de 2009

Feno Seco

Procuro no lameiro de feno alto,
sementes por fecundar;
de primaveras, lírios,
fel da terra, gladíolos,
para comigo levar.

Procuro no lameiro de erva fresca
acabada de cortar,
os cheiros que me inebriam
os sentidos e me enternecem;
quero nele rebolar,
de verde a roupa pintar.

Procuro no lameiro de fenos secos,
o tempo que um dia ganhei,
em sonhos e devaneios,
em êxtases e anseios,
de quimeras que ousei.

Quando tudo ou nada
me restar,
voltarei a ti, feno seco.
Deito-me no teu colchão,
que importa se fofo ou não,
para em ti descansar,
feno seco, acariciar.

terça-feira, 31 de março de 2009

Não quero

Não quero flores no meu enterro
Não me ponham vasos na campa
Não me chorem ou engrandeçam
Quando já não sorvo o sal
Desse choro que não me levanta

É agora que preciso do aroma
Da rosa e do jasmim
É agora que quero banhar-me
Em estevas e alecrim

Não quero estátua
Na rua da indiferença
Não quero honras
Já sem a minha presença

É agora que preciso de estar
Em estátua edificada
Não quero depois ficar
No jardim ou no museu
Só, fria e desolada

Não quero as flores depois
Não estraguem vosso jardim
Ofereçam-mas todas agora
Rosas silvestres sem fim
Presas em laços de cetim

segunda-feira, 30 de março de 2009

Isso não!

Não verto lágrimas,
isso não!
Com raiva,
fazem-me rugas na pele
e na alma fazem-me gretas.
As lágrimas fazem-me falta
para tudo o que é doce ou triste;
para as alegrias
e as gargalhadas abertas,
quando a rir me liberto
e quando me rio de mim.
Não verto lágrimas assim!

Fure!

Só o desenrascanço impera!
O resto são fraquezas e utopias
Fure os obstáculos.

Tenho metas

Não me venham com tretas
Não me minimizem, eu sou gente
Que eu enfrento, tenho metas
E pego o touro de frente

Toureio cara a cara
Faço pega de cernelha
Aposto com muita gente
Que ao touro corto uma orelha

Não me venham com tretas
E não me impeçam
De alcançar minhas metas!

Sabe sim!

Caminha descalça
Sobre tojos e rochedos
Enfrentando seus segredos
Nos degredos do seu mundo
Para onde vai?
Sabe lá!

É levada
Pela força do vento
E atirada contra tormentos
É desfeita em desalentos
Espalhada por rios secos
Nos desertos do seu mundo
Para onde foi?
Sabe lá!

Mas eis que junta os pedaços
Do mundo que a substima
Ergue-se, não desanima
Pega o vento de feição
No outono da sua vida
De onde vem?
Sabe lá!
Para onde vai, sabe sim!

Que importa??!!!

Faço um poema sem rima
Faço um poema rimado
Que importa se rima ou não rima
Que importa se atina
Ou não atina com a vida que lhe dão!
Faço uma peça onde não há ovação
Que importa se faço ou não!

Faço-me à vida
De mangas arregaçadas
Pés descalços ou calçados
Que importa se me faço ou não!
Sou peça de museu com pó cristalizado
Sou prenúncio de mal anunciado
Que importa se sou ou não!

domingo, 29 de março de 2009

Pule!...

Só a felicidade impera!
O resto são buracos e desvios...
Pule os obstáculos.

Poema/Dedicatória

Para os alunos da turma de 11º ano de Informática de Gestão


Bem vindos, disse-lhes eu,
Vou ser vossa professora
de OEAG,
disciplina de Gestão.
No início perdi a calma,
depois, o coração.

Irrequietos, faladores,
cá vieram eles parar
a Informática de Gestão,
com o prof. Luís a comandar,
professores em união
e com muito para estudar.

Não estavam habituados,
pensavam que era a brincar
e andavam atrapalhados.
Dizia-lhes eu,
vocês têm que se organizar!...

Lá foram eles crescendo,
com namoricos à mistura;
as meninas emagrecendo,
os rapazes, barba dura.

Cansados, os computadores
para o programa Primavera,
do software de Gestão,
enquanto uns criavam a empresa,
outros alunos à espera
e eu, com irritação.

Para eles eu era “Avózinha,”
esses grandes brincalhões;
quando da pintura e poesia
vieram a saber
passei a ser,
” Setora Multifunções”.

Muito mais teria a referir,
aos futuros programadores,
mas só lhes vou pedir
que sejam honestos
e trabalhadores.

Levo-vos comigo….
Deixo-vos um beijo aqui e agora…
Vocês alunos foram a razão,
da minha paixão,
de ser PROFESSORA…


2009/03/25
Última aula da minha carreira, de 35 anos de docência.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Atraída por ti

Atraída,
admiro-te, cheiro o teu perfume
e deixo-me transportar esquecida,
deitada, aquecida,
nos tapetes bejes e quentes
que me estendes.
Entro com arrepios na tua frescura
abraço-te, sorvo o teu sal,
refresco-me em ti.

Recebes-me nas ondas do teu cabelo
que fortes me desnudam quando louca
submirjo em ti.
Olhas-me como a peixe faminto,
levas-me ao sabor das marés
e eu encantada
pela frescura e prazer que me dás,
deixo-me levar, corpo leve, flutuante,
pleno de prazer e liberdade.

Quando não te tenho,
morro de saudade.
Encosto o búzio ao ouvido
e deixo-me pelos teus sons levar.
Ouço o teu gemido
e depois, morta de saudade,
vou-te visitar, ó mar.

Encontro-me... mas não!


Sonho
com as lianas frescas trepando árvores,
como quem trepa sonhos.
Sonho
com o calor húmido das tempestades,
a sentir a pele molhada.
Sonho
com as gargalhadas espontâneas
que me saíam do peito
e me alegravam a alma.
Revejo-me
nos filhos que ajudei a ser
e que me eternizam,
com a dureza de diamantes.
Revejo-me
nos jovens que ajudei a crescer
e que me orgulha o seu saber.
Encontro-me...
no crepúsculo da minha alma
quando me afloram letras em poemas,
perdidos no fundo do meu ser.
Encontro-me
no silêncio das madrugadas
comigo,
vazia de letras e de mim.
Encontro-me
em tortuosas encruzilhadas
deste mundo corrupto, impuro
que responde com insultuosas gargalhadas,
às misérias sem fim.
Encontro-me
no fogo cruzado entre povos, continentes;
entre lágrimas, mortes,
fomes, choros inocentes.

Encontro-me…
E não me quero encontrar, assim!...

quinta-feira, 26 de março de 2009

Hoje, meu amor

Hoje, meu amor
quero amar-te
com o olhar da lua,
num campo de feno,
orvalho de Agosto
de brisa quente
e eu tua.

Em ziguezagues
quero caminhar,
beber do teu copo
envolto em luar.

Quero girar
com os ponteiros do tempo,
relógio solar
ou noutro sem tempo,
em remoinhos amar.

Quero ficar
nesse relógio
de ponteiros presos,
de badaladas surdas,
quero ir e voltar.

terça-feira, 24 de março de 2009

o Inverno ( divagações ligeiras)

Quando pensamos no Inverno, não podemos pensar necessariamente em tristeza, frio, vento a uivar a noite inteira.
Pois não é no Inverno que os corpos mais se aninham, mais se respiram,
envoltos no cobertor ou se enroscam ao calor da lareira?

O Inverno não pode ser visto como a estação que se segue ao Outono
de folhagens rubras ou amarelecidas,
nem a que antecede a Primavera, fonte de rebentos frescos e flores coloridas.

O Inverno é o mistério da purificação da terra, através da expurgação de males acumulados enquanto mãe produtora,
extermínio de impestantes, pela acção do frio, regeneradora.

É o perdão ao Outono, pela nudez que lhe provocou arrepios.

Só depois de estar o berço preparado
é que a naturaza dá à luz os filhos,
enchendo os nossos olhos de beleza incontestável,
com o ressurgir de folhas,
flores coloridas,
frutos perfumados.

Ninguém dá elevado valor ao que sempre possui.
Só sentimos a premente falta
quando aquilo que amamos nos fugiu.
Que valor daríamos ao abrir de uma flor,
se essa realidade fizesse parte do cenário habitual?!!...

O Inverno é a reflexão da vida;
não é o sinal de impotência, de inutilidade,
de corpos torpes confinados a quatro paredes.
Este Inverno, também este, terá que preparar a terra
para receber os novos rebentos da Primavera,
através da transmissão dos saberes
e da experiência.

É no Inverno que há o perdão das culpas,
das acusações.
É no Inverno, que os amantes são perfeitos,
através das recordações.

É no Inverno que se deita fora
tudo o que é inútil para o tempo
porque,
de tão inútil,
já não se lhe acha tempo.

Inverno,
Aconchego
Purificação
Saber
Perdão

segunda-feira, 23 de março de 2009

Paixões da Alma

Em corpos
Que não se tocam
Não se conhecem
Almas
Vibrantes se aquecem

E dançam
Um bailado
Em harmonia
Passo acertado
Lento
Apressado
Em sintonia

domingo, 22 de março de 2009

Aquela Praia

…era-lhe tão familiar como lhe eram os filhos que cresceram a brincar naquela praia e a saltar as ondas de um verde transparente. Do mesmo verde eram os montes que com ela formavam uma paisagem de sonho.
Passavam férias por essas bandas e, apesar de haver praias mais próximas, era esta a praia preferida.
O monte foi esventrado e nele embutiram um prédio em socalcos, tal pedra tosca embutida em esmeraldas transparentes. As escarpas imponentes davam uma sensação intimista àquela praia; o acesso era feito por escadas ondulantes, monte abaixo, degraus baixinhos.
Despida de preconceitos tirou a blusa, dobrou-a e com ela forrou a escarpa que lhe serviu de encosto, tendo ficado sentada em harmonia com a natureza.Olhou à volta e foi-lhe difícil reconhecer aquela praia que ela considerava ser de sonho.
As escarpas foram tiradas à praia como um filho é arrancado dos braços da sua mãe. Máquinas gigantes escavaram e destruíram o que de belo havia na praia de Vale de Centeanes. Também difícil foi descer a escadaria, decerto construída por mãos toscas e projectada por mentes insensíveis. Ponderou voltar atrás e retomar mais longe o acesso normal. Voltar atrás não é sinal de fraqueza. Deu conta quando ao fundo, sentiu que as pernas lhe tremiam.
Sentada, desligou a música, tirou os fones, desligou o telemóvel, ficou pronta para ouvir os sons magníficos da natureza e fazer a primeira sessão de bronzeado, de certa forma imprudente pelo esquecimento do protector solar.
Fechou os olhos e em estado como que de ausência hipnótica ali ficou virada para o sol.
Fortes ondas vinham rebentar com força junto ao areal e por vezes contra as rochas. Estes sons induziram o estado de quase inconsciência. Era como se fosse uma morte prematura daquele corpo que ficou desligado do mundo e do espírito.
A mente tentava construir um puzzle.
No fundo, com laivos de azul cobalto de mar, as peças encaixaram rapidamente e na perfeição. Já as restantes, monocromáticas, inviabilizaram a construção perfeita. Sobravam umas peças, faltavam outras. As arestas não encaixavam, tais fragmentos de vidas que não combinam e qualquer peça que não encaixe, provoca um oco, um vazio, capaz de conduzir a uma tempestade. Pensou cortá-las, como se de uma árvore se tratasse. A árvore rejubila de frescura, as peças não; a árvore cicatriza a ferida, as peças não. As arestas aguçadas vão-se agredindo mas quando amputadas morrem, morrendo com elas o verdadeiro sentido da sua existência, do seu ser.
Sentiu ardor nos seios pelo efeito do sol.
A mente juntou-se ao corpo, saindo do coma induzido pelos sons do mar.
Abriu os olhos, olhou em frente.
O puzzle estava completo de um azul celeste intenso e brilhante com o sol a aproximar-se da linha do horizonte.

sábado, 21 de março de 2009

O meu Natal

Era uma menina pobre como todos os meninos daquela aldeia do Nordeste Transmontano.
Não pedia bonecas porque ela própria as fazia de trapos.
Para dizer a verdade não conhecia outras!...
Era feliz com as riquezas que tinha, aquela menina.
Na sua aldeia não havia Pai Natal, nem publicidade, nem prendas, nem correrias!...
Havia solidariedade, amor, fraternidade.
Havia um Menino Jesus pequenino, aquele que beijava na Missa do Galo.
Era esse Menino que lhe deixava no sapatinho, junto à lareira, o saquinho com figos secos, amêndoas, rebuçados e às vezes, uma moeda de dez ou vinte e cinco tostões.
Como é possível que aquele Menino desça a todas as lareiras, sem se sujar na fuligem das paredes?
Como é possível que aquele Menino, quase despido, não morra de frio?

Adormeceu e sonhou com aquele Menino que tinha beijado na Missa do Galo.
Correram juntos pelos telhados à procura duma telha partida por onde pudessem descer até ao sapatinho de todos os meninos.
Acordou cedo no dia de Natal e correu até o sapatinho.
Estava vazio!
Desiludida e achando que o Menino já não gostava dela, uma lágrima deslizou-lhe na sua face rosada.
Reflectindo, depressa percebeu que o Menino se tinha atrasado porque tinham nascido mais meninos naquela aldeia!
Instantes depois, como que por magia, lá estava o saquinho com figos secos, amêndoas, rebuçados e uma moeda de vinte e cinco tostões!...

Simplesmente Casa

Ó malditos deuses,porque mandais raios que incendeiam as florestas?
Ó fogo que tantas vezes tentaste penetrar nos meus ramos, sem nunca o conseguires, porque insististe?
Ó vento que tantas vezes embalaste os meus rebentos e refrescaste as minhas entranhas, em dias de calor escaldante,porque me traíste?

Os deuses enlouqueceram, o vento aliou-se-lhes, forte, forte, cada vez mais forte! …
Arrastava as labaredas que voavam de árvore para árvore e depressa me atingiram.
É o meu fim, pensei.
Este fogo vai consumir-me e este maldito vento vai arrastar consigo as minhas cinzas para outros lugares distantes, frios, feios, gelados! ...

Não! Não conseguiste!
Comeste as folhas e os meus ramos mais tenros, mataste os passarinhos que abrigava, queimaste-me muitas energias, mas não me tiraste a força de viver.
Os meus troncos e as minhas raízes fortes enfrentaram-te e venceram-te e depressa terei ramos, terei folhas, terei pássaros, terei força, beleza e alegria.Irei morrer de pé, com aquele orgulho que só pode ter uma árvore secular, que abrigou insectos nas folhas, pássaros nos ramos e famílias pobres no tronco que com os pés gretados a sangrar, vagueavam pelo mundo à procura de um abrigo, de um lar.
Famílias que finalmente poderiam descansar, sentindo-se aconchegadas e acarinhadas.
Nunca mais teriam medo dos deuses, do fogo, do vento, de nada! ...

Pela primeira vez achei que poderia descansar e que os meus ramos tenros poderiam murchar.
Pela primeira vez deixei de amaldiçoar os deuses, o fogo e o vento que tantas vezes tentaram roubar-me a vida.
Pela primeira vez achei que poderia ser menos bela, porque nas minhas entranhas tinha amigos que achariam que mantinha o mesmo encanto, porque era solidária e fraterna.
Pela primeira vez achei que em vez de árvore, poderia ser simplesmente casa! ...

Preciso de Ti


Preciso dos teus silêncios
que às vezes me atormentam
mas que outras me reconfortam.

Preciso do teu olhar vigilante e da tua presença
que me deixa seguir as minhas viagens em sonhos
sem perder o norte, o rumo.

Preciso do espaço que me dás
pela confiança que em mim depositas.

Preciso das tuas mãos desejosas de me beijar
e que me beijam com o que fazes.

Preciso da tua mente sempre presente
para organizar o meu caos.

Preciso do calor do teu corpo
que aquece o meu, nas noites frias.

Preciso da tua calma que equilibre
o meu espírito agitado, irreverente.

Tu és o meu pêndulo, fiel de balança
a minha bússola, termómetro, o meu bálsamo
amargo de giesta ou
inebriante e doce, de jasmim.

Preciso de ti
Em mim

Há Dias

Há dias em que as minhas palavras se digerem, regurgitam e voltam,
como se não fossem minhas.

Há dias em que a minha alma está de luto
e de luto visto as palavras com lenço e xaile de melancolias.

Há outros dias, em que as minhas palavras são cardumes
que vêm à tona da água para respirar o sol ou a neblina e,
a saltar e de olhares sensuais, me fascinam
e me levam à poesia.

Hoje, o sol aqueceu-me a alma, a luz revigorou-me
e sou capaz de vislumbrar o arco íris
no meio de medonhas tempestades.

Hoje, envolvi as melancolias em tules brancos,
com ramos de rosas silvestres e dou-me em palavras frescas,
bandos de pássaros a cantar, borboletas.

Hoje, pinto e descrevo cenários mágicos de crianças a brincar livremente ,
sem que sejam molestadas, raptadas.

Hoje, ofereço-me em palavras de conforto aos pobres, desempregados, infelizes,
em cujas vidas não há poesia.

Hoje que é dia das palavras ditas, em poesia.

quinta-feira, 19 de março de 2009

quarta-feira, 18 de março de 2009

Dedos cativos

Tenho os dedos cativos
Desta alma inquieta
que os leva e me leva
não os deixa ser…
nem nos deixa ter liberdade.

Com a sua cabeça
querem pensar
e usar jóias de rainha

Mas não!
Grávidos de palavras
sofrem de vil moinha
que os inquieta e cativa
os leva e eleva
em papel ou não

Querem cantar liberdade
no refúgio do seu «eu»
para em qualquer idade
serem apenas dedos

Sublevam-se…
Em vão!...
Aprisionados...estão

Questionando


Acordaste porquê
Se dormias com os teus sonhos
Tão alegres e risonhos
E tão senhora de ti

Não foste beijada, porquê
Se estavas a ser beijada
Por maresia fresca, ao luar
Tão amada e desejada

Por posse distorcida
Foste...
Assim sempre será?
Vais fingir que te foste
Hoje ou outro dia qualquer?
Não, não pode ser...
Tu estavas a ser beijada
Ao luar, pela maresia
Mulher!!...

terça-feira, 17 de março de 2009

Dedos Cativos


Tenho os dedos cativos
desta alma inquieta
que os leva e me leva
e não os deixa ser…
nem nos deixa ter
liberdade.

Seres pensantes
querem usar jóias de rainha

Mas não!
Grávidos de palavras
sofrem de vil moinha
que os agita e cativa
os leva e eleva
em papel ou não

Querem cantar liberdade
no refúgio do seu «eu»
para em qualquer idade
serem apenas dedos
Mas não!

Sublevam-se…
em vão!
...Aprisionados...estão

domingo, 15 de março de 2009

Nasce poesia

Se a minha alma chora e lágrimas solta
O coração se aperta e a dor o sufoca
Se qualquer coisa me abala e me perco na rota
Me gelo no Verão e na noite fria
Em murmúrios ou gritos
Nasce poesia

Se a mulher é humilhada quando passo na rua
E a criança é violada e implora ajuda
A dor corta-me o peito dessa aguarela crua
Ergo-me com força pego a folha vazia
Lanço-me em revolta
Nasce poesia

Se por ser mal amada uma pessoa sofre
Eu passo para mim todo o sofrimento
Ergo a minha voz e com o seu lamento
A minha alma fala o que ela sentia
Em dolorosas palavras
Nasce poesia

Se do peito transbordo a felicidade
Por te ver ó botão a abrir em flor
Se a alegria existe e predomina o amor
E todo o universo vive em harmonia
Canto feliz agradeço
Nasce poesia

Se a planura me encanta mesclada de flores
Malmequeres papoilas urzes violetas
Os pássaros voam em enleados amores
E a árvore esvoaça com a ventania
Persigo borboletas
Nasce poesia

Se o sol me aquece e a lua me inspira
Em noite estrelada e num dia qualquer
Se vejo num homem alma de mulher
Que a sofrer chora e enfim suspira
Me compreende e me contagia
Eu canto com os dedos
Nasce poesia...

sábado, 14 de março de 2009

Prolongue-se a noite

Noite...
Prolongue-se a noite
A noite estrelada

Mágica
Bela, serena, amada
Onde te sinto
E pressinto

Noite...
Oferece-me as estrelas
Olha para mim!...
Estou de mãos abertas
Para recebê-las

Noite...
Prolongue-se a noite
Prolonguem-se as estrelas

Escuta-me
Em suave lamento
Traz a minha estrela
A mais doce e bela
Do teu firmamento

Brisa...
Leva contigo a quimera
Traz o etéreo aroma
Para eu o sentir
Tal e qual ele era

Noite...
Prolongue-se a noite
Olha para mim!...
Tem que haver mais estrelas
E, estou de mãos abertas
Para recebê-las

sexta-feira, 13 de março de 2009

Mudam de cor, se preciso for


Deslumbrou-se na escalada
para subir mais alto
Na recta da ganância
E cego de poder despistou-se
E derrapou no asfalto

De honestidade perdida
E de alma impura
Segue a velocidade excessiva
O que ele era
(será que foi?)
Ficou em rua sem saída

Os ideais que defendeu
Selou-os em tumba
De pedra enegrecida

Poderoso…
Compra silêncios
Para negociatas
Move influências
Compra mentiras
Prova Inocências.

Muda de cor
Se preciso for…

quinta-feira, 12 de março de 2009

Flor Fonte

Tu és beija flor
De voo intenso
Eu sou flor
De jardim imenso

Vem!...
Vem planar no meu jardim
Deserto dourado escaldante
E rega-o com o teu oceano
De maré transbordante

A flor estonteada
Com o voo permanente
Tão hábil e eloquente
Será a tua amada

Nela crescerá vida
Suave guarida
Oásis sem fim

A flor será fonte
E a fonte será flor
Cândida de vida
Repleta de amor

quarta-feira, 11 de março de 2009

Procura-me


Dou-me como se dá o rio ao mar
em tumultuosas tempestades
Dou-me como se dá o vento às folhas das camélias
em suaves afagos
Dou-me como se dá a lua às estrelas
em pestanejar insinuante
Dou-me como se dá a flor ao beija flor inconstante
em doce néctar
Dou-me na insegurança de certas verdades
que me confundem
Dou-me nas palavras que me exiges
e que não me balbucias

Encontro-me no silêncio da noite escura
à espera de te encontrar
Encontro-me em encruzilhada labiríntica
duma teia tecida com fio resistente
que me desorienta

Procuro uma bússola
que mostre o caminho que me leve a ti
neste universo confuso
Procuro um farol que me faça encontrar
o caminho liso
e orlado de jasmim

Pois tu não vês
que os meus olhos são duas fontes de água cristalina
que não vislumbram na penumbra
Pois tu não vês
que o meu coração e a minha alma são canoas
que não navegam em água turva

Procura-me…

Neste Mundo...


O povo vive faminto
E não consegue aforrar
O pouco que tem é gasto
Para mal se alimentar

Quem consegue, vive inquieto
Para guardar seu suor
Venham venham, diz o Banco
Venham o dinheiro aqui pôr.

Na ânsia de mais ganhar
Vende-lhe gato por lebre
O povo fica a chupar
No dedo cheio de febre

Cheio de febre e de raiva
Por tanto ter sido enganado
Ele mirrado, os outros gordos…
Neste mundo malfadado

Mas então o que fazer?
Pergunta-se com razão
Notas afundadas na crise
Ao ouro vem o ladrão

Até que por fim se decide
O que fazer então
O ouro põ-se no cofre
O dinheiro no colchão…

E depois? Mas que maçada!...
Dá logo para pensar
O ouro desvaloriza
E as notas irão mudar...

Pensando melhor eu decido
Em irreflectidas miragens
Derreto o ouro e as notas
Em cultura, em viagens

segunda-feira, 9 de março de 2009

Porquê, ó mar?



Olho-te...
E vejo-te de nuvens negras
Que me impedem
De ver a luz do teu olhar
Que me assustam me sufocam
Me mostram papões
E não me deixam navegar

Porquê que há dias
Em que tens águas transparentes
Em que a brisa é perfumada
E os teus monstros inocentes?

Como golfinho salto as tuas vagas
Mato a sede, sorvo o teu sal
Respiro o teu perfume
E com olhar ausente
Me perco no horizonte.

Sentada
Partilho contigo os meus segredos
E depois apaixonada
Viajo em ti, ó mar!...


Porquê que hoje
Te vejo de águas turvas
Me sinto triste, mal amada
E os teus polvos gigantes me prendem
Me asfixiam e dominada
Me lançam contra os rochedos
E me matam?

Porquê, ó mar?!...
A quem contei meus segredos!...

O mesmos rochedos
O mesmo jornal
O mesmo mar!...

quinta-feira, 5 de março de 2009

Eu que sou Mulher

Fui feita por acaso
Sobrevivi por acaso
Nasci de um rompante rude e destemido
Rasguei as entranhas aos montes onde mamei pão amargo
Atravessei rios com os pés descalços e saí em gelados gemidos
Fui castrada por uma sociedade insana e cortei as amarras
Reconstitui-me, juntei as peças roubadas
E … aqui estou eu!...
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!...

Vivo neste Cosmos estirada por forças opostas
Que me distendem os tendões e músculos
Uma parte de mim é Terra, regida por Marte
Que me prende ao chão
Outra parte é Vénus e Lua
Que me desprende
Liberta e me lança em sonhos
E… aqui estou eu!...
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!...

Com dedos de pincéis e teclas
Corto as amarras do chão
Liberto os meus pés sangrentos
E sou mulher, sou sonho e criança
Elevo-me e a levitar
Abraço Vénus e a Lua
Deixo Marte a descansar
Nas estrelas escrevo poemas
E nas nuvens pinto o mar
E… aqui estou eu!...
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Tirem-me daqui

Quando olho para trás
E vejo as montanhas que trepei
As escarpas que escalei
Os vales que percorri
O que aprendi e ensinei

Quando olho para trás
E vejo os amigos que conquistei
As paixões que senti
Em batalhas que travei
Nos caminhos que percorri

Quando olho para trás
E vejo as terras que semeei
Os saberes que transmiti
Que em heras bravas fixei
E os frutos sãos que colhi

Quando olho...
Sinto-me moribunda
Grito e imploro...
Tirem-me daqui!...

A terra que me dão é infecunda
A norma aplicada é insana
E a semente não germina

E eu...semeando...
Choro de dor...
E digo gritando
Tirem-me daqui
Por favor!...

domingo, 1 de março de 2009

Sons e Imagens do Silêncio


Olho…
Mas não vejo
Libertei-me
Voei com asas de anjo, leve e celestial
Em pensamento sou levada por uma brisa
E quero seguir uma andorinha que deixou o meu beiral
Com as asas de sonho, elevo-me… mais leve
Já cansada, a ave pára num rochedo, no mar de calmaria
Plano, endireito as pernas e paro com ela também
Diz-me:
Respira fundo, mas em surdina!
Ouve o som leve do mar que nos quer falar com o silêncio.
Vai longe, em sonhos de menina!
Sabes:
Há momentos em que nos devemos calar
E deixar o nosso coração falar em surdina
Não há palavras para um sentimento ímpar

Fecha os olhos, ouve o sussurro do mar, olha o horizonte
E o reflexo do sol nas águas cristalinas
Lindo!... Exclamei!
Olhei e vi aquela planície de águas verdes com reflexos dourados
Daquele sol quente com que me bronzeei
Cheirei a maresia que a brisa em salva, me oferecia
E regressei ao tempo, a ti e amei
Leva-me mais longe, andorinha do meu beiral!
Quero sobrevoar o deserto escaldante
Revirar-me nas dunas, em rebolar extasiante
Não, não podes ir!
Pois tu não vês que as tuas asas
São de espuma de mar e de quimeras?
E voltei…!
À realidade que por instantes deixei
Em silêncio, sonhei!...

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Lua




Lua sensual
Que tímida surges
A Vénus seduzes
Ao entardecer
Em volúpias celestiais
O abraças e beijas
Tu, lua mulher

Lua indiscreta
Feitiço dos namorados
Que iluminados
E mais enleados
Se entregam
Em juras de amor

Lua solidária
Com os infelizes
Que vagueiam
Em escuridão
E tu lua amiga
Guias seus passos
Com dedicação

Lua mágica
Que vais e que vens
E com incerteza
Num truque perfeito
Reapareces
Renascida cresces
Influencias marés e natureza


Lua musa
Inspiração dos poetas
Que noite e dia te anelam
De alma e coração
E nas tuas crateras
E vales delicados
Procuram coitados, inspiração

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Vamos Indo...(Parte 2)


Acorda, come, corre ,… pega a pá e a picareta
Perde o comboio que foge, no meio da multidão
Pega a esfregona, o pano, ou o livro e a caneta
Num viver a não viver, a correr em servidão.

E nesse correr, vivem os que partem.
Sonhos de uma vida melhor, de realização profissional, de mais ter.
E o que é feito do ninho que os fez crescer?
Está vazio! ... Encheu-se de penas brancas!...
Querem levar essas penas brancas consigo, mas os passarinhos de penas brancas definham e morrem quando metidos em gaiolas.
Como rolas enclausuradas, perdem o cantar.
Aí, de olhar triste e a espreitar em janelas fechadas que não deixam ver a cor do céu, os dias são ainda mais longos e tristes.
O jantar com a família é breve, o dormir é breve, para em breve acordar.
Um correr que se repete em dias, estações e anos!...
Os que não têm pressa ficam em casa, com pressa de partir.
Procuram um vizinho que não têm e contam as esperas como quem conta um a um feijões, num saco de tristezas!...
Pedem aos filhos que os levem ao ninho.
Querem estar no seu vamos indo.
Depois, uns e outros contam os dias que faltam para o Natal e mês de Agosto, em calendário infindo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

SOU


Sou uma alma inquieta
Nos restos de uma quimera
Sou uma ave que migra
Em busca de Primavera

Sou chegada, sou partida
Sou silêncio, multidão
Sou um cometa que brilha
Na noite de escuridão


Sou mar revolto, tempestade
Sou calmaria e bonança
Sou sonhos e realidade
Sou mulher e sou criança


Sou os destroços do mundo
Banhado em violência
Sou o grito que sai fundo
Da minha pobre impotência


Sou uma alma inquieta
Nos restos de uma quimera


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Vamos Indo... (Parte 1)



Estamos na época do Carnaval. O tempo é solarengo e simultaneamente gelado, aqui no Nordeste.
Durante dia o sol é radioso; à noite, a geada continua teimosamente a formar-se, mostrando pela manhã uma camada branca que, com o sol, toma brilho de cristal mas que depressa derrete. Nas encostas viradas a Norte, teima e vai ficando.
É cedo. O sol começou a espreguiçar-se e depressa subirá sobre o monte sobranceiro e iluminará a encosta da aldeia.
Mantenho-me em casa e, através dos vidros, a lavar a vista com a paisagem de um cinza acastanhado, numa mistura de terra adormecida e de árvores despidas, remexidas pelo vento sibilante que lhes congela as entranhas e lhes faz encolher os rebentos desejosos de nascer.


As árvores, em fim de gestação, têm gomos que em breve gritarão de alegria em rebentos tenros e mais tarde em folhagem de um encerado e verde deslumbrante.
Estiveram a cumprir o tempo em hibernação, num Inverno rigoroso que teimosamente lançou camadas de neve e gelo deslizante.

Também eles cumprem o tempo e hibernam, os idosos!...

Corpos empedernidos, mãos trémulas, geladas, contam os dias e as longas noites, como quem reza a passar as contas de um rosário de martírios, em ladainha de murmúrios, em gestos e palavras repetidos.

Como vai, tio António?
O mesmo de sempre, cá vamos indo!...

O cá vamos indo que se repete todos os dias, o cada vez pior que se repete sempre, como sempre se repete o regresso das cegonhas e das andorinhas, mensageiras da Primavera.
Aquele... "cá vamos indo," sem sonhos !...

Morre-se quando se perde a vida e morre-se também, quando se perde a capacidade de sonhar!...

É um morrer mais doloroso, lento, num desgastar constante de quem vai morrendo por dentro.

É um viver a morrer e um morrer num não viver.


Depois, o olhar vazio e distante percorre os dias e as noites, as estações e os anos, num vamos indo!…
Vamos indo,... enquanto Deus quiser!...

Um vamos indo à espera dos filhos que emigraram!...

Um vamos indo!...





terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Conto Infantil-A rã Berta, O lagarto Piteiras e o rato Pinxas




Do lado de baixo do cemitério, no ribeiro da Fontázia, vivia a rã Berta com o marido, filhos e netos.
O ribeiro só recebia a água que vinha das chuvas durante o Inverno e a Primavera. A família continuava feliz o resto do ano, para delícia dos moradores que ouviam o seu cantar, nas noites quentes de Verão.
Havia um poço com grandes pias à volta, onde as mulheres lavavam a roupa, logo que a água escasseava no ribeiro. Assim, a água das pias escoava para o charco e deste modo a família vivia naquele lamaçal e com a água suficiente para tomarem banho antes de se deitarem a apanhar sol. A água do sabão azul não faz mal a ninguém, antes cura as feridas.
Com a mudança veio a infelicidade para a rã Berta.
Certo dia de calor estival, enquanto ela tratava do almoço, toda a família se aventurou. Atravessou um túnel de cimento, a partir do qual se avistava vegetação alta e verde, numa mistura de agrião e rabaças. Foram à procura de uma vida melhor.
Há mais à frente sinal de haver charcos melhores, vejo eu quando me deito na rocha alta. Temos que mudar para lá, Berta!... Isto aqui já é pequeno, para uma família tão numerosa e depois como vês a água cada vez é mais escassa. Mal podemos refrescar a pele!...
Não demorem, disse a rã Berta! O almoço está quase pronto!
Nunca mais regressaram!...
A pobre ia aventurar-se para ver o que teria acontecido, não fosse o lagarto Piteiras.
Não vá lá, senhora rã Berta!... Lamento muito ter de lhe dizer, mas estão todos mortos!...
Estão todos a boiar, de barriga para cima que até dá dó!
Mesmo assim, desejava ir. Infeliz, só, de idade avançada, já preferia ficar também ela no mesmo charco, a boiar de barriga para cima. Não fosse o lagarto Piteiras, teria ido.
Para quê, senhora? Quer ficar também lá?
Ela ainda hoje agradece àquele amigo e cada vez que fala com ele sente-se envergonhada. Já lho confessou. Achava-o pedante e emproado, quando o via ao sol, sem falar com a vizinhança. Achava-lhe um olhar de superioridade quando os olhava por cima daquelas escamas cinzentas e se esgueirava para dentro da silveira, ao menor ruído que ela fizesse quando pretendia com ele encetar conversa.
Afinal, julgou-o injustamente!...
Está profundamente arrependida e por isso sente vergonha, quando lhe fala!...É um ser extraordinário!...
O que ela achava que era vaidade e altivez, não passava de medo, timidez e profunda tristeza. Também ele perdera a esposa, atropelada, quando atravessava a estrada.
Através dele, ficou a saber a razão pela qual o seu pequeno charco está cada vez mais seco, o que inevitavelmente a levará à morte. A sua pele está cada vez mais ressequida, o seu canto já parece mais um gemido quase inaudível. O som de quem quer dizer, estou aqui.
O lagarto Piteiras esgueirou-se para dentro de uma casa de habitação para ver se percebia porquê que tinha deixado de haver roupa a corar nas partes relvadas da margem do ribeiro.
Descobriu então uma caixa branca onde girava roupa em sabonária, também ela de espuma muito branca, o que demonstrava não se tratar do mesmo sabão de antigamente.
O rato Pinxa que rói tudo, segredou-lhe já ter roído os fios dessa caixa e dizia:
Amigo, a vida está a tornar-se insuportável. Os fios fizeram-me uma úlcera no estômago que me provoca dores horríveis. Já não são os gatos os nossos inimigos, com esses sim, a luta era aventura porque os fintávamos e a maior parte das vezes metíamo-nos em buracos e não nos caçavam. Agora dão-nos uns grãos apetitosos, mas envenenados e morremos secos!...Já só há veneno, neste planeta!... A comida é veneno, o sabão é veneno, a água tem veneno, tudo..tudo, tem veneno!...
O Rato Pinxas acrescentou ainda: Eu que me meto em qualquer buraco das casas, já vi os donos a fazer as necessidades fisiológicas numas caixas altas onde depois corre água.Tudo bem, o pior é que essa água vai parar àquele charco lá em baixo, juntamente com a água das lavagens!...
O que fizeram aos charcos fazem também aos rios e ao mar!...
A ETAR que construíram, até me dá vontade de rir!...
Ouvi eu a conversa de que seria para purificar a água. Qual purificar? A água tem um cheiro nauseabundo e se estivesse purificada, não tinham morrido todas as rãs e os sapos que lá viviam. Pobrezinhos, ficaram lá todos a boiar de barriga para cima!...Estes humanos, com a mania das grandezas perderam o juízo!...
E foi assim que rã Berta e lagarto Piteiras ficaram a saber a causa da mortandade e do seu charco seco.
O lagarto Piteiras carregou-a às costas e levou-a para um poço do lado de cima das eiras onde ela pudesse encontrar amigos que decerto a tratarão como família, para que todos juntos possam alegrar as noites de Verão, com o seu cantar.
Ele mudou para um silveirão próximo, condição da rã Berta. Sem ele, não iria para lugar nenhum.
O rato Pinxas passa lá várias vezes para lhes fazer uma visita de cortesia.
São solidários, felizes e pedem aos humanos que não destruam o planeta Terra…


sábado, 14 de fevereiro de 2009

À Procura de Mim

Procuro-me em ti…

No teu ventre de menina, nos teus sonhos desfeitos, nas lágrimas que secavas no lençol mordido pela tua raiva e, com o teu orgulho não as mostravas.
No teu crescimento interrompido, para que eu pudesse crescer em ti…

E o que foi que eu te disse, enquanto acariciava os tecidos do teu ventre?

Não chores mãe, pois tu não vês que eu serei a Estrela que iluminará os teus passos?
Enquanto flutuo na tua dor, eu sonho!...
Não sabes que a cada gesto teu, enquanto puxas a foice ou o arado, eu navego em ti para outros mundos, para onde te levarei?

Procuro-me no teu grito... engolido pela dor que encobriste quando saí de ti e gritei bem alto…estou aqui!

Procuro-me no meu choro,... interrompido pelo teu seio quente ou pela água da cântara, que eu ensolada bebia, sempre que a sombra do castanheiro, teimosa de mim fugia.

Procuro-me em cada gesto teu... no campo de trigo dourado, esventrado pela tua mão, enquanto eu, com grilos e joaninhas brincava e dormia.

Procuro-me na tua beleza de mulher… que cresceu enquanto eu crescia.

Procuro-me nos meus amores de adolescente... escondidos em recados no meio dos livros e nos beijos dados à pressa, que de ti escondia.

Procuro-me na semente do imbondeiro,... tão bondosa e bela como aquela que tão cedo germinou em ti.

E Vês!…
Cumpri as promessas…

Levei-te aos mundos que dentro de ti tinha descoberto.
Ouviste o riso traiçoeiro das hienas e o rugido do leão a rasgar o silêncio das noites quentes, na floresta.
Cheiraste a terra molhada e secaste no teu corpo a roupa, também ela molhada pela chuva quente.
Respiraste ar puro, partilhado com gente honesta.

Procuro-me na minha vida a correr... e é a correr que te encontro, que vos encontrava aos dois!…

Procuro-me agora... em cada vinco do teu já marcado rosto e culpo-me, por te mostrar tão pouco, os vincos que vão surgindo no meu.

Procuro-me em ti... e tenho medo de não te encontrar!...


De Azul me Pintaste

De azul me pintaste
Tão forte era a tinta
Do lápis azul
Que me amordaçaste

Tão forte era o lápis
Da tinta azul
Que a minha alma vincaste
E com vincos profundos
Me transformaste

Os vincos e manchas
Com lágrimas esfreguei
Tão fortes e tantos
Em dolorosos prantos
As lágrimas esgotei

De zul me pintaste...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Não me peças Palavras


Não me peças palavras!
A minha voz é um murmúrio
De letras aglutinadas
Em palavras sem sentido
Que não ouves

Ouve-me com o coração
E só assim sentirás
O que tenho para ti
Neste fogo de paixão
Que ouvirás

Olha-me...
Vê-me com as mãos
E ferve-as no meu desejo
Escalda-te no meu sangue
Em ardente beijo
E verás...

Chegaremos à Lua e a Marte
E em labareda ondulante
Voltaremos a nós.
Em letras aconchegadas
Em palavras com sentido
Ouvirei...
Ouvirás...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Ribeiro da minha Infância




Ribeiro onde brinquei e com quem partilhei em surdina, os segredos de menina.
Elegi-te meu rio mágico e das tuas águas cristalinas surgiam as mouras encantadas, de histórias para mim reais, contadas por uma doce avó, ao serão.
Contigo corri atrás de borboletas coloridas e com grinaldas de flores das tuas verdes margens, corri atrás de sonhos.
Fui rainha e princesa do teu moinho, meu castelo, mó em movimento de magia.Foste espelho das minhas vaidades e foste confidente dos beijos apaixonados de amores proibidos. Sorriste feliz, nas juras de amor eterno e elegeste-te padrinho desse amor.

Abandonei-te em correrias loucas, deste mundo louco, sempre correndo sem chegar a lugar nenhum. Ah!...Mas a saudade foi-me matando e regresso agora, na esperança que me reconheças.
Abraço-te, aconchego-te, meu amado fio de águas limpas. Também tu tens menos pressa de chegar à foz. Também as tuas frondosas árvores de outrora estão menos espessas e os troncos cobertos de musgo prateado, igual ao meu cabelo. Tal como a minha alma as tuas águas continuam cristalinas.

Venho dizer-te que te amo, que amo a vida e tudo o que foi para além dos nossos segredos guardados em baús dourados que ficaram no depósito do teu leito.

Venho segredar-te que há injustiças que me fazem sofrer e pedir-te que me recebas de novo no teu leito mágico, em histórias de menina.Quero voltar a brincar ao faz de conta, para fazer de conta que nada disto existe.

Quero voltar para ti, ribeiro da minha infância!...

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