Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Enxurradas de sentires



Enxurradas de sentires te acordam
Nas orvalheiras do Outono
Te levam
Para granizos doutras trovoadas
E te banham
Nas águas de outras marés.


És um pássaro
Que vai e que vem
À procura do que tem
E nunca tem
E que nem na Primavera
Respirou o ar que chegasse
Nos remoinhos de vento
Desse tempo
Sem a ousadia para respirar
Em invencíveis ciclones
Que o revigorassem…
Que o enlouquecessem…


Amedrontavas-te
Com a ideia de que a colheita
Pudesse ficar desfeita.
Acabaste por respirar
Apenas uma doce brisa
Sonhando com remoinhos
Ciclones, enxurradas,
Ventos Norte, vendavais.


As folhas secas do Outono
Nos caminhos, em remoinho
Fazem os teus passos débeis.
O ar cortante a anunciar o Inverno
Arrefece o forno que te aquecia
E enregela o teu respirar.


Enxurradas de sentires te embalam…

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Voo



Sou aquela que procura paz
E que nem sempre a encontra.
Sou um puzzel onde há uma peça
Que não encaixa.

Resvalo…
A custo levanto-me e continuo a resvalar.
Em tudo resvalo
No tempo que não tenho e no tempo que me sobra
Nos caminhos tortuosos e nas alamedas perfeitas
Nos rios limpos e nos lagos lamacentos
Nos pisos gelados e nos caminhos secos.
Resvalo...
E embato contra mim própria.

Vasculho…
Há sempre algo que não encontro
Algo que se perdeu
Numa núvem de poeira.

Os olhos procuram, lacrimejantes
Em pestanejar constante.
Fixos e ausentes deixam de pestanejar
E de repente
Algo vislumbram
Num canto esquecido, amarelecido.
Será essa a peça que procuro
Aquela que me falta encaixar?
Tento arrancá-la à força
Mas não a posso despegar.
Desvio o olhar
E não há nada.


Caminho...
Continuo a minha vida
A paisagem onde falta
Um pedacinho de azul no céu.

Voo ...
Em direcção ao azul.

sábado, 3 de outubro de 2009

Não!!!!


....indecisa, segue um carreiro, sem saber o destino...
Caminha,... caminha e vacila.
Arrefece
É maresia
Pegajosa e húmida.
Estremece...
Com o ronco que vem do fundo
Da falésia gigantesca
Pára assustada e treme.
As vertingens enrolam-lhe o cérebro
E reclina-se para o abismo!
Não!!!!
A custo, recua...
A escarpa a pique
As pernas a tremer
O suor frio
O mar enraivecido

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Na minha cegueira



Quero mergulhar no verde dos teus olhos
Cobrir-me com o algodão das tuas pálpebras
Ser em ti barco à vela
Entregue ao sabor das tuas danças.
Quero mergulhar nas tuas lágrimas salgadas
Banhar o meu corpo no teu leito, esquecida
Perdida no tempo e no espaço, acariciar-te
Em leve vaivém, entrega apetecida.


Depois, quero ficar em contemplação
Seguir os teus contornos no horizonte
De olhar fixo, ausente, sem destino
Percorrer-te à deriva, entregue à sorte.
E, encandeada pelos clarões dos espelhos
Que me apontas e me cegam
Perder-me na minha cegueira, …..sem norte.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Outono


Amarelecem árvores
Escapam-se pássaros
Arrefecem corpos
Das paixões de Verão.

Amarelecem vidas
Da vida gastas
Envelhecem sonhos
Em sonhos que não vão

Árvores que se despem
Corpos que se abrigam
Cabeleiras de prata
Folhas sobre o chão

Outono é descanso
Em tons das castanhas
Corpos que se amparam
Nada é em vão

sábado, 26 de setembro de 2009

Onde estou


Nas memórias das savanas
Procuro-me e não me encontro.

Procuro no vermelho do sol
Procuro nas queimadas
Algo que me leve a mim
Algo que me leve a ti.

Onde estou
Que não me encontro
Onde vou
Que nem eu sei
Que caminho foi
O que trilhei.

As imagens estão esbatidas
As memórias desbotadas
As fogueiras apagadas
Dos caminhos nada sei.

Nas memórias do cacimbo
Procuro-me e não me vejo
Envolta na areia do mar
À noite mais ao fresquinho
Procuro-me nesse luar.

Procuro-me nas tuas histórias
Que tinhas para me contar
Que ficaram inacabadas
Em suspiros desse olhar…

Onde estou eu
Na história que não acabaste
Quando de súbito paraste…
…onde estou…

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Livre




Caiste ao chão, rosa
Ou será que não caíste
E foste tu que saiste
Do laço que te asfixiava
Te diminuía e tirava
A liberdade
Que construíste.

Salta para a minha mão
Fresca, rosa amarela
Eu vou plantar-te no chão
Sem laços e sem enfeite
Livre de alma e coração.
Das rosas, a rosa mais bela
No jardim, o meu deleite.

Acolhe-me


Acolhe-me.
Deixa-me entrar!
Abre-me as portas
Da tua alma
Para que eu possa descansar.

Estou tão exausta
Deste caminhar!

Lá...
Deita o meu corpo
Em lençois de seda
Com água fresca
Lava-me as fontes
Salgadas, do meu chorar.

Embala-me...
Conta-me histórias
As que nunca me contaste
Empresta-me magia
Doçura da tua alma
Preciso de repousar.


Pudesse eu


Pudesse eu ter o sol
e o sol seria teu
para que te aquecesse!
Pudesse eu ter a lua
e eu ta daria
para que mantivesses o sonho,
para que te inspirasse!
Pudesse eu ter magia
e a magia seria tua
para que o teu mundo
fosse de encantamento!

Não tenho nada para te dar,
meu amigo,
nesta pobreza que sinto!

As minhas mãos são escorregadias
e nada seguram;
a minha mente distraída
e nada fixa,
tudo se me escapa
como me escapa o pensar.

Quero que a mente se concentre
mas a minha mente
age como se fosse louca
e de repente,
a mente já está a sonhar!...

E sonha com o que viu,
sonha com o que quer ver,
sonha com o que já conheceu
e com o que nunca há-de conhecer.

E sonha,...
e segue sonhando
e com esses devaneios vai andando,
de febre delirando!...

Sim,... achei algo para ti!

Das acácias flamejantes trago-te o calor,
o calor da paixão da minha África,
quente e enigmática.

A lua inigualável
ofereço-te a do mês de Agosto
do meu céu de menina;
aí, a lua vem ter comigo
e entra-me na cama;
poderei oferecer-ta
nem que seja por um momento.

Dar-te-ei a magia
nas bonecas
de flores ou de trapos
que eu fazia.
Com elas terás uma orquestra,
um bailado,
um recital de poesia…

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Gritos

Há tempestades!...
Há destroços!...
Como me sinto cansada de tantos tumultos e doente de tantos insultos!
Nas praias sedentas há destroços dessas tempestades, nos corações há marcas desses insultos, nas crianças há ventres dessas fomes.
As areias, sedentas de paz, reivindicam calmaria, suplicam amor; os barcos destroçados suplicam restauro para as suas velas esfarrapadas, para os seus cascos cheios de rombos; não querem afundar-se mas de tão doentes, sentem que o seu fim estará perto.
Ó Deuses terrenos, acabem com as tempestades, gritam!
Ó Deuses terrenos tiranos, gritamos nós!
Grita-se com um grito de desespero, como se se estivesse a anunciar aos marinheiros o embate eminente no bloco de gelo.
Grita-se com pavor do naufrágio que se pressente.
Grita-se com a dor dos golpes que dilaceram a carne.
Grita-se com gritos surdos porque matam.
Grita-se com a fome e sede, já sem forças para gritar.
Grita-se com sufoco, sem ar para respirar.

Há tempestades nos corações , há tempestades nas almas, tumultos em todo o mundo, destroços em todos os cais!

domingo, 20 de setembro de 2009

Dança




Dançaram à noite na praia, sob o olhar das estrelas e a vigília das gaivotas.
O mastro erguia-se e aquele barco balançava, ao acaso.
O vestido de papel bordado com búzios desfez-se, como se desfaz a espuma quando bate nos rochedos e, os búzios regressaram ao mar, em bailado de marés vivas.
Soltaram-se pela manhã deixando na areia fofa as marcas dos seus corpos, selo branco sem contrato.
Desceu a bandeira no mastro, o barco já não balança.
As estrelas adormeceram.
As gaivotas tocaram a alvorada e acordaram os peixes, aninhados em cardumes.
Fez-se dia.


Nos cabelos do vento


Peço ao vento
que me leve nos seus cabelos,
em viagem sem destino.
Prefiro ir nos cabelos do vento
do que de avião
porque assim observo tudo de perto.
De barco tampouco me atrai,
tenho medo de me afundar.
Os meus braços
não passam de fracos remos
feitos de cana,
incapazes de vencer o mar.
Contradições dos meus sentimentos:
amo-o e odeio-o, de tanto me amedrontar.
O vento ouviu o meu pedido
e levou-me, em viagem;
primeiro em voo sustido,
depois lá bem alto,
onde nem a águia pode chegar.
Tudo vi
com o pormenor
do filme de longa metragem.
Do mar recebi a aragem,
do sol recebi o calor;
espreitei a lua serena
e suas crateras observei,
perdi-me no cintilar duma estrela
e a um cometa me segurei.
Ele exagerou no seu voo
e de tão rápido, enjoei.
Com um grito de desespero
roguei ao vento então,
que os cabelos em tranças fizesse
para que com elas me prendesse
e me pusesse no chão!
Prendeu-me com suas tranças,
como em braço de guindaste
e em viagem alucinante,
na terra fez voo rasante,
dum sopro abriu a janela
dos meus olhos e do quarto,
e dizendo:
A tua viagem acabaste,
deixo-te aqui e eu parto
aos lugares que visitaste.
Fechei a janela ao vento
e as minhas janelas também
recomecei outra viagem,
no sonho que a vida sustem.

Ficou


Passou
Como semente lançada na lagoa
Que apodreceu debaixo dos nenúfares,
com medo de germinar.

Passou
Como pássaro amedrontado,
despenhado contra o rochedo,
com medo do gavião.

Parou
E não atingiu o oásis
Com medo das dunas.

Ficou.
Abraçou o destino.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Solto as palavras


Solto as palavras
como se soltasse um pássaro, aprisionado
numa gaiola de rede fina, anos a fio.

Solto as palavras
como quem solta o mar a espumar de raiva
contra os paredões de cimento,
marés altas a fio.

Solto as palavras
como quem solta um condenado
por um crime que não lhe pertencia
e que aos poucos se sentiu morrer,
dias a fio.

Solto as palavras
e os meus pobres dedos deslizam no teclado
ou conduzem a caneta,
aprisionados pelos sentires
que saem de uma alma inconformada
e dum coração despedaçado
pelas injustiças e crueldades da humanidade.
Batem com força nas teclas,
marcam vincos no papel,
como se estivessem a gravar a cinzel
para a eternidade.

Solto as palavras, tão frágeis
como um pássaro ferido
que fechado,
ao se querer libertar
bate contra o vidro
e sai a sangrar.

Solto as palavras, inaudíveis
quando gritam
contra os interesses instituídos,
tão difíceis de mudar.

Solto as palavras, impotentes
quando se insurgem
contra a desonestidade,
a incompetência,
a sede de poder,
a maledicéncia,
um sem fim de injustiças
que urge acabar.

Solto as palavras!....

Vestido de folhos


Caminho descontraída
Olhos fitam-me
Sem me verem
Olhos olham-me
Sem me olharem.
Multidão distraída
Ausente
Distante
Dorida
Perdida.

Finjo ser cigana
Vestido de folhos
Cabelos ao vento
De negro pintados
Quero distribuir sonhos
Quero dar alento
Aos desventurados.

Digo à multidão
Senhor, Senhora
Vou-lhe ler a sina
Na palma da mão.

Uma mão aqui
Outra acolá
Leio linha deste
E daquela lá
E das linhas da mão
Eu saco sorrisos
Eu prometo filhos
Trabalho, pão
Saúde, fortuna
Amor, união.

E aquelas gentes
De ar carregado
De passo apressado
Esboçam um sorriso
Pois sabem lá
Se aquela cigana
Que não sendo cigana
Teria acertado.

O seu semblante
Notou-se aliviado
E o seu coração
Passou a bater
Muito mais acertado.

Sou fábrica de sonhos
E mar de sorrisos
Vestida de folhos
Cabelos ao vento
Eu pobre cigana
Não sendo cigana
Eu faço sonhar
E brilho no olhar
E por um momento
Empresto paraísos.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sou tua

Quisera eu fazer sair da minha fonte
as palavras em catadupa, transbordantes
e te dizer que te sinto, te quero
e que é nos teus braços
que me aconchego e,
no cheiro do teu corpo me perco.

A fonte de águas cristalinas secou neste inferno estival
e com ela secaram-me as palavras com que te queria cantar,
meu planalto escaldante.
Os meus lábios não te sorriem de gretados, ao olhar-te
e tu olhas-me, em desespero suplicante.

Reguei-te com o meu suor e com a água fresca
que saiu das tuas entranhas e,
regado, rejubilavas durante a noite
mas quase que perecias durante o dia,
queimado pelo sol, agitado pelo vento seco
e te dobravas sobre ti mesmo em agonia de morte, de desespero,
em pedidos de socorro,
olhando o céu à procura de uma nuvem
que te trouxesse chuva.

Secaram-me as palavras
como te estás a secar, meu planalto…

Queria deixar-te um poema antes de partir,
um poema que te fizesse sorrir.

Saiu mudo, o meu poema!...

É um poema de sentires,
sem palavras nem métricas nem rimas.

Não rima dor, com a falta que me fazes;
não rima amor, com os teus poentes vermelhões,
com os teus nascentes roxos e laranja,
com os teus horizontes em que me deito e sonho,
com a côdea dura do teu pão que amoleço e me mata a fome.
Não rima estontear com os teus cheiros,
emudecer com os teus sons,
sonhar com os teus silêncios,
dormir nas mantas que me estendes, nos lameiros
sentir com os teus sentidos.

Não te deixo palavras em catadupa,
porque as não tenho
nesta fonte que julgo seca.
Entrego-te a fonte…
Sou tua para sempre!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

No dia em que chorei para dentro


No dia em que eu chorei para dentro,
Fez-se um dilúvio na minha alma,
lágrimas secas,
dor que não acalma.

No dia em que eu chorei para dentro
O rio cresceu e transbordou,
a minha alma inundou,
Os meus olhos secou.

Secou com dores tamanhas,
cortou-me o respirar,
tirou-me o gritar
e engoli o sentir,
em vez de chorar.

Nas minhas entranhas
formaram-se cristais de sal,
pedras, tal e qual,
tamanhas…

Enfim houve um dia
que fundo respirei,
os cristais quebrei,
a minha alma restaurei
e, nos meus olhos,
as comportas rebentaram,
as lágrimas saíram,
as minhas dores aliviaram.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Levarei asas e inquietude


Viajo sem mala, apenas uma trouxa leve onde levo as asas com que voo nos meus sonhos para um mundo diferente onde, as gotas eternas de orvalho são pérolas que me ofereces, onde o respeito seja a bandeira, onde a paz impere, trazida por pomba branca, sua mensageira.

Carrego nos bolsos a minha inquietude, a minha esperança, a minha sede de mudança, a minha estrela para acender, para que, nas noites escuras ela possa alumiar em plenitude, o mundo, as mentes.

Não, não me digas que não chego!

Eu sei que quando quero, quase sempre me supero.

Não, não me digas que não vá!

Irei como a formiga seguindo o seu carreiro, carregada de futuro, contornando, circundando, seguindo, nos seus intentos persistindo.

Não levarei rodas, isso não!
Não quero atropelos, levo as minhas asas para não ferir ninguém pelo caminho.
É com elas que viajo, plano sobre o mar, olho-me no espelho da água, falo com as gaivotas e com elas canto e danço.

É com elas que sobrevoo o meu planalto, pare te ver Terra Quente, a suar de cansaço, a morrer de sede, a arder em chamas de promessas, de intentos. Vejo-te Terra Quente, vejo-te a arder em febre, delirante e crédula, manipulada a pobre gente.

Não, não quero rodas e também não quero pés! Não me peças para os levar.
Pois tu não vês que com as rodas eu posso ferir e com os pés eu posso pisar?

Na minha bagagem levarei as minhas asas, envolvidas na minha inquietude!...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Não!


Não tentem amordaçar-me
que a seguir corto a mordaça
Não tentem nunca calar-me,
na mesma gritarei a quem passa.

Gritarei contra o compadrio,
contra a injustiça, a corrupção,
contra quem protege os ricos
e aos pobres tira o pão.

Gritarei contra os promotores
de politiquice bacoca,
maldicencia, caciquismo,
cego partidarismo,
prontos a fazer batota.

Podem cortar as minhas mãos
porque na mesma escreverei,
farei dos cotos a minha arma,
no teclado gritarei.

Gritarei a liberdade,
a justiça social,
nos direitos a igualdade,
nos deveres a obrigatoriedade,
tratamento por igual.

Chamem-me poeta decepada
Poeta maneta, não!
Chamem-me poeta amordaçada
Poeta silenciada, não!


Hei-de escrever em papel,
hei-de escrever na Internet,
hei-de dizer as verdades,
bem alto a toda a gente.

E quando a força me acabar
i eu for para as estrelas,
lá continuarei a lutar
e a escrever junto delas.

domingo, 9 de agosto de 2009

Fugas

Acordei com o olhar indiscreto da lua a entrar-me no quarto através do cortinado fino que tapa a janela, acima da cabeceira da cama. Julguei que se tratasse da luz difusa da aurora e dum amanhecer que se aproximava. Sentei-me na cama, puxei o cortinado e espreitei o céu em direcção a poente, a orientação do quarto. Depressa me apercebi que por cor diferente não se tratava de um amanhecer, mas sim da luz lunar, daquela lua tão solitária quanto bela.

Embora o céu estivesse estrelado, aquela lua de Agosto, tão enigmática e bela sentia-se só. Os habitantes da aldeia não lhe dão a atenção que ela gosta de ter e, em vez de apaixonante passa a lua indiscreta que interfere com as sementeiras, colheitas, corte de madeiras.
Levantei-me e debrucei-me sobre o parapeito duma janela na mesma orientação. A lua olhou-me enigmática, apaixonada, perante a cumplicidade de Vénus. Ali fiquei a contemplar o céu como se fosse a primeira vez que via a lua a pôr-se, no preciso ponto em que todas as tardes de Verão o Sol se põe. Na verdade já não me lembrava do pôr da lua; telo-ia visto muitas vezes em menina quando acordava muito cedo para ir para as ceifas, mas na verdade não me lembrava.
Assim foi descendo gradualmente e com Vénus e as estrelas foi desaparecendo no horizonte, com a dignidade que só uma Lua pode ter. Antes que a luz traiçoeira do Sol lhe retirasse o brilho partiu triunfante para, deslumbrante, reaparecer na noite seguinte, do lado oposto do céu.

Eu, ser minúsculo deste universo magnífico, senti-me infinitamente mais pequena, perante tanta beleza!...
Vesti-me à pressa. Decidida a observar o nascer do Sol, subi o monte que mo retarda, no mínimo quinze minutos. Quando o sol me entra pela cozinha já vem quente e com brilho intenso.

Subi apressada e mais à frente, no Serro, no planalto, sentei-me numa pedra de granito no meio de uma terra lavrada, de fronte para aquela luz ainda discreta que se mostrava sobre o monte da Senhora da Luz e ali fiquei, descalça, pronta a receber o sol e a força que ele tinha para me transmitir.

Magnífico, exclamei!...
Assim fiquei a registar as várias tonalidades do céu, como que a captá-las para uma tela. Alaranjado junto ao horizonte, ia esbatendo para esverdeado e acima lilás a fugir para roxo. Estes tons eram reflectidos nas discretas nuvens que se espraiavam no céu o que dava ainda mais beleza àquele nascer do Sol.
O laranja foi gradualmente aumentando e tornando os restantes tons mais discretos até que desapareceram com o intensificar do brilho daquela bola que saiu do horizonte tão distante, neste planalto magnífico.
E assim fiquei, estática, absorta, a pensar na Lua e no receio que ela sentiu em enfrentar aquela luz. Também eu não suportei muito tempo aquela força da natureza que surgiu e depressa os meus pobres olhos começaram a lacrimejar.
Fiz o percurso inverso. Queria chegar ao cimo do monte sobranceiro à aldeia antes da luz do Sol. Aí, sentei-me no chão junto às giestas. O sol foi iluminando gradualmente os telhados da aldeia depois de em primeira mão ter chegado às carvalheiras da Moura, onde a lua se fora. Os telhados dos pontos mais altos em vários locais da aldeia começaram a receber a luz, a torre da igreja, os frondosos freixos de S. Lourenço e finalmente a minha casa que por ser a mais próxima do monte foi a última a ser cumprimentada pelo Sol.
Desci e dirigi-me a casa. O vício do café da manhã chamou-me…

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