Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Libertei as palavras


Desatei as palavras
e deitei-as a voar…

As palavras assim libertas
juntaram-se a uma nuvem branca,
nun poema.

Declamei o poema com vigor
para tu o ouvires,
para fazer sair da tua alma
um sorriso,
ainda que triste…

Mas não!
A tua alma não ouviu o meu poema,
mesmo em gotas duma nuvem…

Esboça um sorriso...
Quero ver os teus olhos a brilhar
ainda que seja com uma luz ténue,
como a luz de uma candeia
que com uma brisa
se possa apagar.

Apagou-se a luz...
Apagou-se o poema...

Procurei-o na noite…
mas o poema voltou para a nuvem branca
e, desiludido...
por falta do teu sorriso,
como uma estrela cadente,
…calou-se para sempre...



.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sem saberes a razão




Menina!
Lâminas penetraram o teu corpo íntimo,
houvem-se gritos de dor e morte.
Há sangue na terra vermelha,
derramado pelo teu corpo pequenino.
Quem sabe se a insensibilidade
que te impuseram com aquele golpe
não será o golpe de morte?
Ouço os gritos da menina,
ouço o desalento da mulher.
A cultura e o tribalismo,
a ignorância e o egoísmo
querem-te mulher submissa,
cumpridora do dever de mulher,
mas tu menina és menos mulher
desde que a tua mãe te entregou a carrascos,
facas cortantes, lâminas que castram, costuras,
no ritual de passagem.
Menina!
Menina, mulher mutilada,
não uses tu a bandeja,
não entregues o frutos das tuas sementes ao carrasco!
Menina tão pequenina, que poderás tu fazer?
Menina, mulher mutilada,
exige que a tua filha possa ser mulher!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Noite sem fim


Fugiram-me as estrelas
na palidez da lua.
Sustenho gritos de dor,
lamentos,
tenho o coração ferido,
partido.
Instalou-se a noite,
a noite fria.
O céu está vazio,
foram-se as estrelas
na palidez da lua.
Ficou a noite.
Levem-me esta noite,
tirem-me da escuridão,
eu morro de frio.
Os meus sonhos!
Devolvam-me os sonhos!
As minhas estrelas!
Devolvam-me as estrelas!
Ah, esta noite sem fim!…

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Danço-te


Danço-te…
Em valsa
Sala dourada
Leveza
Flutuando
Embalada
Danço-te…
Em tango
Paixão
Quando me empurras
Me afastas
Me puxas
E com o olhar
Sedução
Me bebes
Desejada
Danço-te…
No ritmo do samba
Quando vibro
Em movimento
Livre
Extasiada

Danço-te…

Que há para além...




Abro a minha paisagem
Passagem
Para além do agora
Porta aberta
Janela aberta
Silêncio
Aurora
Que há para além do rio
Feito de lágrimas
Dos justos
Que há para além do rio
Feito de favores
Dos corruptos
Que há para além do rio
Dos que morrem
Indefesos
Dos que vivem
Amordaçados
Dos que são
Injustiçados
Que há para além do meu rio
Feito de alegrias e penas
De sonhos
Feitos poemas
Em mim
Que conheço
E do que
Desconheço
Em mim...
que há para além...

domingo, 19 de julho de 2009

Os filhos que tu pariste

Carregas nos ombros,
um fardo que não pediste,
carregas na tua alcofa,
desdita que não pariste.

Curvada sobre ti mesma,
não dobrada na tua sina,
hás-de vencer a batalha,
hás-de vencer, destemida!

E vais-te livrar do fardo,
da vida que agora carregas,
da servidão, da fome
e da injustiça que renegas.

A enfrentar a multidão,
seguirás de punho em riste,
para da tua servidão
para sempre te libertares
e na alcofa só carregares,
os filhos que tu pariste.

sábado, 18 de julho de 2009

No meio de nada

Dores...
Dores de não te ter,
me trespassaram,...
dores de te ter e te perder,
me esvaziaram...
Caminho,
sem rumo,
sem destino e,
procuro-te...
no meio de nada:
Numa fonte,
no fundo dum copo
de bebida inacabada,
na flor a brir,
no orvalho da manhã,
na borra de café que secou,
no gin tónico que evaporou,
na lágrima que deslizou
e me inundou.
Procuro no fundo da minha essência,
algo me preecha este vazio...
...penosa ausência.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Falo de amor


Falo de amor
como quem compõe uma sonata
ou toca piano, dedilhando teclas.
Falo de amor
como quem toca guitarra
e lhe rouba sons
para uma serenata.

Falo de amor
como quem toca violino,
encostado ao ouvido,
junto ao coração;
vibração de cordas,
vibração de sentidos,
sons tristes, alegres,
sons que são gemidos,
melodia de amor,
dor, perda,paixão.

Falo de amor
como quem lê a partitura,
como quem rege a orquestra,
sempre em vibração;
melodias suaves,
sons que são loucura,
olhos que se olham,
movimentos,
cordas, teclas,
sopro, percussão.

Paleta cromática de letras


É nas tintas que mergulho
e esqueço
tempestades de areia
que me incendeiam os sentidos.
É em ti paleta de cores
da terra que piso
que me liberto e prossigo.
Ah tela branca
que me amedrontas
quando te penso,
és folha branca
em que me meto
e liberto!
Acerquem-se de mim
e libertas,
vivamos a vida,
esperança renascida.
É nas palavras que navego,
e luto
contra os uivos do vento
que me secam a pele,
me secam a boca,
me lançam
contra mim própria.
É nas tintas do poema,
nesta paleta de letras cromáticas
que me encontro,
amo, vivo
e me perco...

Paraísos celestes

Mergulho na música dos violinos…
O som dos violinos
faz-me esquecer o mundo;
por momentos deixo de existir.
Ausente, com aquela música divina
que me entra pelos ouvidos,
pelos poros e me arrepia,
faz-me caminhar
por mundos que desconheço,
por paraísos celestes.
Depois, os violinos esvaem-se
e quase que perecem
em sons de agonia,
e se despedem;
sons tão ténues,
quase imperceptíveis,
como que presos à vida
por uma linha de teia,
um fio de seda!…
Aos poucos ganham fôlego,
recomeçam e,
rapidamente o som se eleva
tão fortemente
que o meu corpo se agita,
o coração bate descompassado
e os violinos gritam,
choram,
gritam,
em desespero,
em delírio,
em euforia.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Que sabes tu?



Que sabes tu da miséria,
se vives alienado?
Passas,
de coração engravatado,
pontapeias o papelão
que me serve de colchão,
e continuas apressado.
Que sabes tu da fome,
da fome e raiva que sinto,
se vives empanturrado?
Raiva das intenções,
fome de oportunidade,
de justiça,
raiva da podridão,
da maldade,
dos empresários
que por ganância,
querem mão de obra barata
e vão.
Que sabes tu de mim,
deste andrajo que tu vês?
Pensas tu que eu era assim
e sou preguiçoso talvez?
Roubaram-me tudo:
O trabalho, a casa,
o meu mundo, a dignidade,
a água para me lavar;
e a idade
é pouca ou muita,
conforme lhes interessar.
Que sabes tu de mim,
deste monte de farrapos,
nas arcadas da tua rua?
Eu que era bem vivido,
bem falante
e tal como tu, pedante,
nesta verdade crua,
agora virei sem abrigo.

Que sabes tu?
Nem eu sabia!...
Um dia!...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Rasga!


Rasga o caminho
rasga a calçada
rasga-me os pés,
para que não pise
e voa comigo.

Rasga-me o peito
amargurado,
o coração bata
descompassado
e bate comigo.

Rasga-me a alma
aprisionada,
para que se solte,
que se liberte
e solta-te comigo.

Rasga-me a roupa
rasga-me a pele
com os teus beijos,
os teus abraços
e fica comigo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O silêncio das palavras


Esperneio as palavras,
empurro-as contra a parede,
para definir-me;
quero corrigir-me,
mas as palavras
remetem-se ao silêncio,
nada me dizem.

Porque serei eu aquilo
que não quero
e trilho
os caminhos gretados,
pés descalços,
cansados?!!

Porquê que
quando quero,
a seguir não quero,
porque não devo?!!

Porquê que
o poder da razão
se sobrepõe
à leveza do coração
e o faz sangrar perdido
desvanecido,
golpeado de morte,
entregue à sua sorte?!!

Agito as palavras
num frenesim de loucura,
numa ânsia de afogado,
mas as palavras,
fechadas em clausura,
em pacto com o não querer
que me aprisiona
e não me deixa ser,
remetem-se ao silêncio,
a este silêncio...
ao meu silêncio,
o silêncio das palavras.




Vem à noitinha!




Não te despediste, rouxinol
E partiste sem mais nem menos.
Sinto que te perdi!
Falta-me o teu canto pela madrugada,
Pela manhã, pela tardinha;
Volta para mim
Vem visita-me ao menos, à noitinha.

Perdi-te meu amor
E perdida fiquei eu.
Mas como pode alguém perder,
O que nunca lhe pertenceu?

Nunca te tive,
Nem te poderia ter.
Tu és livre!

domingo, 12 de julho de 2009

Sabemos nós

Que sabe de nós o mundo
Que sabem de nós?

Dos nossos anseios, dos nossos receios,
das nossas derrotas, das nossas vitórias,
em nós perdidas em nossas memórias ,
em nossos ais,
nas dores i síndromes menstruais,
nas dores maternais,
nas mudanças hormonais,
a menos e a mais!

Dos nossos desejos,
dos nossos prazeres,
sentidos ou não,
perdidos, fingidos,
das nossas culpas,
das nossas desculpas,
do nosso perdão.

Que sabe de nós, o amigo,
o eis e o companheiro,
o patrão?
Que sabem de nós?

Das nossas olheiras,
das nossas canseiras,
das estrias, da celulite,
dum filho que tem uma otite
e da filha que fez asneiras.

Que sabes dela?
Da cintura que escapou,
do verniz que estalou,
do cabelo que não arranjou,
da boutique que não visitou,
do dinheiro que não esticou.

Sabemos nós!...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Com o sal do mar


Fiz um poema
enquanto nadava
na água do mar.

Para o escrever e
à procura de letras,
senti-me tão leve
que eu já flutuava.

Em braçadas de frases,
gravei-lhe emoções,
nas águas liberta,
libertei o poema,
de cadeias, prisões.

Escrevi-o nas conchas,
nas algas marinhas,
nas pedras do mar,
gravei-o no céu
azul a brilhar.

Na onda gigante,
com ele a saltar,
libertei o poema
para ele se secar.

Escrevi um poema
com o sal do mar.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Coitado do poeta!


Não vala a pena estragar a noite,
a madrugada.
O poeta está vazio
e o poema fugiu,
entregue à sua sorte,
em desvario.

Deram um mote ao poeta
mas o poeta não gostou;
deram versos ao poeta
e o poeta não aceitou.

Deixem livre o poeta,
para os seus dedos
parirem o poema...

Musa inspiradora
desce do teu céu,
dá-lhe inspiração!

A musa chegou,
mas o poeta
em abandono,
morto de sono,
à musa disse que não.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Ama-te, mulher


Porque te escondes atrás das grades da prisão em que te enclausuraste?
Porque te escondes numa concha que te asfixia?
Destrói os estores opacos da alma e olha para dentro de ti.
Puxa a cortina que tens nos olhos e olha para fora de ti.
Vês?
Os teus lhos são brilhantes,
o teu corpo é sensual,
a tua alma é cristalina e,
vês mulher, tu és dona do mundo, do teu mundo...
Tu és dona de ti.
Rebenta os muros que te vedam a alma e te tornam escrava dos outros e escrava de ti própria.
Sai da concha da tua clausura!
Não vês que a concha está seca, sem oxigénio e, assim morrerás asfixiada?
Rebenta o ferrolho dessa prisão.
Olha o sol radioso, as flores, os pássaros.
Olha o firmamento em noite estrelada,
elege uma constelação como tua,
brilha com as estrelas e,
depressa serás, a mais brilhante delas.
Do tecido das cortinas que trazes nos olhos,faz as tuas bandeiras: do amor próprio, da auto-confiança, da independência, da liberdade.

Vai mulher, conquista-te e ama-te.
Depois... mulher, ama!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Escolha o título, o leitor


Eu sou brisa, sou vendaval
Nevoeiro, tempestade
Eu sou começo, sou fim
O meio não é para mim
Sou de extremos, na verdade.

Pertenço ao mundo e a mim
E só me dou se eu quero
Sem posse e só assim
Sem cadeias, sem atilhos
Porque a liberdade venero.

Tenho a força da nortada
A fragilidade da maresia
O rubor da rosa encarnada
De açucenas a candura
Do malmequer, a fantasia.

Por muito que a mente
Me diga que não
Ouço a voz do coração
E depois gero um conflito;
O coração fica aflito
Eu imponho-me, eu refilo
Alto lá, eu mando aqui
Eu que sou coração e mente
Eu que sou gente
E no todo, eu decido.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

De avião

Gosto de andar de avião. É certo que caiem, mas eu quase que ignoro esse pormenor. Afinal um dia tenho que morrer…
Custa-me o que antecede a viagem, até fazer o check in. Dá-me ansiedade e muito provavelmente pelo receio de não chegar a horas. Tenho a mania da pontualidade o que em Portugal me causa penosas esperas, mas ainda assim, continuo a ser pontual e apanho grandes fúrias pela falta de pontualidade de muitos outros.

Sentada no avião, um massajar de ouvidos ao subir e descer e tudo o resto decorre em perfeita normalidade. Na verdade nunca apanhei nenhum susto que me tenha causado suores frios e por isso a minha relação com o avião é de perfeita amizade.
De caminho a Istambul, sentada na coxia, primeiro escrevi num bloquinho que me acompanhou na viagem para pequenos apontamentos. Além de outras coisas, escrevi um poema que mais tarde publicarei.
Depois, a hospedeira entregou a cada passageiro uns auscultadores e a partir daí ouvi música clássica, somente interrompendo quando serviram o jantar. Um jantar fantástico de comida turca pois viajei através da Turquish Airlines. Foi a primeira vez desde há muitos, muitos anos que me foi servida numa viagem de avião, uma refeição com qualidade.

Depois, a música de novo até me levantar, para sair em Istambul. Através dela viajei no tempo, em cima de nuvens brancas como aquelas que o avião atravessou. Através dela, revelei fotografias dos negativos arquivados na minha mente, desde há muito tempo. A história de amor e as cenas de paixão do filme fantástico Anna Karenine que vi uma única vez e me provocou um pranto.
Com o Bolero de Ravel transpus para os meus olhos as imagens magníficas do bailarino que encheu com a sua extraordinária interpretação, aquele palco vermelho e redondo, com que terminou o filme espantoso “Les uns et les autres”, cuja história gira em torno de quatro famílias de músicos, durante a segunda guerra mundial.
Outras músicas não menos belas passaram e se repetiram, menos marcantes em termos de emoções à excepção de uma, cujo compositor não consigo identificar. Provavelmente está associada a um filme que vi mas cujo nome não recordo. É uma daquelas músicas que me leva às lágrimas e que desta vez não foi excepção nas várias vezes que de olhos fechados, a ouvi.

Três dias depois assistimos a um concerto de música clássica, na Igreja de Santa Irene, mais tarde mesquita e agora apenas usada para aquele fim (apenas um àparte que poderá servir de informação para quem ler este e texto). Fica junto ao palácio Topkapi.
Um concerto fantástico que culminou na parte final, com a 5ª sinfonia de Beethoven.

A viagem terminou com o tempo a passar depressa. A passagem pelo guiché Visa, por outro para apresentação do passaporte, as malas que chegaram rapidamente, um táxi por dezassete euros, muitíssimo barato em relação à distância e eis-me chegada ao belíssimo apartamento sobranceiro ao Bósforo, na encosta, relativamente próximo da praça Taksim.

Que maravilha, exclamei eu quando subi à sala de paredes de vidro e ao terraço, ao ver as luzes do lado asiático reflectidas no canal, os barcos, as gaivotas que sobrevoavam o céu e que num edifício alto do pico da colina se aglomeravam e com a luz, vistas de baixo, pareciam bailarinas clássicas com vestidos de tules brancos a dançar em bicos, levitando.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Renasce


Mulher de lenço com o corpo tapado
Até aos pés disfarçado.
Mulher de lenço
Com olhos inquietos
E belos
Boca rubra
De batôn, marca o cigarro.
Porque escondes o corpo que tens vibrante
Com vestes que não são as tuas?
Porque tapas os cabelos
Que são de um tom brilhante
Para esvoaçarem pelas ruas?
Porque manténs a alma presa
Se essa prisão não é a tua?

Enfrenta.
Luta contra a tradição
Contra o machismo, a opressão
Da cultura, da família.
Faz o que os teus olhos mostram
As curvas do teu corpo pedem
Corta as amarras que te amordaçam
E tira as vestes que te prendem.
Rompe com as regras, rasga as roupas, rasga o lenço
Rasga tudo o que te ameace.
Renasce.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Rendida


Está a correr uma brisa fresca a contrastar com o calor húmido que se faz sentir durante o dia. As gaivotas que se passeiam por estes telhados, desde o amanhecer, num rosnar constante e nos despertam, calaram-se com a noite.
Também os Muezzin terminaram o último canto do dia convidando os fieis à oração, nas inúmeras mesquitas de Istambul, cântico que se ouvirá novamente de madrugada e outras vezes ao longo do dia. É um espectáculo fantástico esse dos cânticos dos Muezzin, vozes harmoniosas que me dá a impressão de que respondem uns aos outros, fielmente situados num Minarete da sua Mesquita,nas muitas destas colinas de um e outro lados do canal.
Do sítio em que me encontro a escrever posso contemplar o Bósforo numa extensão considerável, na parte do canal que transporta as águas do mar Negro. Um pouco acima, uma ponte com iluminação azul turquesa, dá passagem para o lado de lá da cidade, já na Ásia, como dá uma outra ponte e os barcos que permanentemente transportam os passageiros. São insuficientes as pontes. Apercebi-me quando passei para o lado de lá, de carro e tive que suportar a extensa fila de trânsito tanto ao fim de semana como em dia de semana.
Vejo vários pontos luminosos que se deslocam para cima e para baixo, cujo formato de barco luminoso é reflectido nas águas calmas e transparentes do canal.
As águas correm calmamente a visitarem outras águas que mais abaixo e igualmente serenas, vêm ao seu encontro para darem um abraço fraterno. Depois, nenhuma delas questiona a sua origem; sempre se sentiram amigas e assistiram com pena aos diversos tumultos e pilhagens que danificaram a cidade ao longo dos tempos, em todas as civilizações que aqui deixaram marcas profundas.
Gosto de viajar a sentir a cidade num todo e por isso não gosto de viajar em grupos turísticos que passam como gato por brasas, com hora marcada para tudo e para nada. Quando não puder orientar-me sozinha irei, que remédio!
De mapa na mão à procura do transporte, dos monumentos, museus, pode-se sentir a cidade doutra forma: O seu povo, as cores das especiarias, das frutas nas bancas primorosamente colocadas que mais parecem paletas de pintor, da comida colorida, do buliço desta gente turca tão laboriosa, os cheiros!
Adoro esta cidade e fiquei muito surpreendida com carácter cosmopolita que possui, assim como fiquei surpreendida por ver muito menos mulheres a usarem lenço na cabeça do que eu imaginava.
Nota-se que houve uma certa libertação da mulher recentemente o que muito me alegrou. Claro que há barreiras que dificilmente, muitas delas conseguirão vencer, com raízes culturais muito fortes e além disso eu estou apenas a ver Istambul que de forma alguma representa a realidade do país neste domínio.
No fim de semana vamos a outra cidade, de autocarro. Estou curiosa por conhecer um pouco a paisagem rural e as realidades das suas gentes.
Quem sabe se não voltarei um dia e com um carro alugado, poderei calcorrear mais paragens deste país que tem tanto de extenso quanto tem de mágico e multicultural

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Que injustiça!!!

Andou sempre
Com vontade de morrer
Desde que nasceu.

Comeu
Água com água
Pão com pão
De tanta fome
Perdeu a razão.

Correu
Muitos invernos
Descalça
Com gripes
Pneumonias
Alergias.

Trabalhou
E tudo aguentou:
Sóis
Anos
Tristezas
Desenganos.

Com uma côdea dura
No bolso roto
Tudo calcorreou
Nem se cansou.

Mas desgraçada
De tanto lutar
Pela água
Que no caldo bebia
Desesperou
E um dia
Alimentou-se com veneno
Para acabar.

Era, mais veneno do que a côdea
Que todos os dias comia
Com a água ao jantar
Mas não morreu!

Levantou-se
Determinada
Com a convicção
E a força que sempre teve
Deitou o pão duro ao chão
Nunca mais o comeu
E passou a comer pão leve.

Um belo dia
Caiu das escadas
E quando não queria
E sem merecer
Com o pão
Leve na mão
Morreu!...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Sou um livro aberto


Sou um livro aberto
De folhas escritas
A tinta vincada
Amarelecidas
De frente assumidas
Nunca letra morta.
A tinta colorida ou negra
Que importa?

Nas primeiras folhas a infância
Escritas em lousa, em folhas de milho
Entre brincadeiras de criança
Aromas de giesta e tomilho.

Seguiram-se outras e tantas
Entre sonhos e dever
De tantas nem eu sei quantas
Amontoaram-se as letras
E as palavras em cascata
Estão lá todas
Podem crer.

As folhas
Brancas e imaculadas
Que com a vida não escrevi
Tão singelas e amadas
Olham para mim
E num fervilhar de sonhos
E emoção
Querem transbordar
De letras
De sabedoria
De gosto pela vida
Sentida
Com amor e paixão.
E de quimeras, porque não?!!!

terça-feira, 16 de junho de 2009

De mansinho



Se nas águas cristalinas
Dos meus olhos quiseres navegar,
Leva um barco sem quilha,
Não lhes rasgues o fundo
Profundo,
Rema de mansinho,
Sem os turvar.
Depois,... tens de parar!
Os peixes multicolores
Que lá vivem em cardumes,
Sem rancores,
Azedumes,
Gostam de silêncio,
Não os vás espantar!
Se na minha alma quiseres entrar,
Naquela nuvem, onde ela habita,
Vai de mansinho,
Em asas brancas, com pés descalços
Leva-lhe abraços,
Dá-lhe carinho.
Vem... de mansinho!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Lembras-te?


Ouvi o uivar do vento e saí apressada a procurar-te na noite fria. No escuro, ouvi os teus passos,
fizeste rolar uma pedra que estava no meio do caminho.
Não te vi e ainda assim pressenti-te, sozinho.
Onde estás? Onde estou?

Lembras-te do ribeiro onde pescávamos com canas improvisadas, frágeis que de tão frágeis, se partiam com a força da brisa,
como que a recusarem-se a uma chacina?
Sem ti, os peixes fugiram, o canavial secou e a brisa, de brisa fresca passou a vendaval.
O ribeiro solitário, amedrontado, perdeu a noção do tempo, do espaço,
está desorientado.
Mudou o sentido da corrente e,
as suas águas cristalinas correm para a nascente, para aquela pequena fonte junto à aldeia.
A fonte transbordou,
a aldeia submergiu,
o povo fugiu.
Moram mais acima, bem no alto da montanha, do lado de lá.
Usam barcaças para vir para cá.
No campanário, no velho ninho encostado ao granito, teimosamente, ficou a cegonha, por cima daquele lago imenso.
O leito está triste, as pedras redondas e brancas perderam o encanto, o lodo toldou a água e, aqueles salgueiros de verde prateado estão secos.
Não conseguem perceber a razão do desnorte do ribeiro e,
deixaram-se morrer aos poucos.
Os sinos do campanário deixaram de tocar; talvez a cegonha não aprecia o toque das trindades pela manhã e ao anoitecer.
Ou será que não é capaz de puxar a corda do badalo?
A cegonha tem todo o ar de gostar de música, mesmo que seja a dos sinos da igreja.
E assim, os sinos calaram-se para sempre...depois, depois de ti.

Lembras-te das flores silvestres, dos passarinhos, das borboletas, das rãs dos charcos, dos pirilampos que nos ensinavam o caminho e nos embelezavam as noites escuras?
Lembras-te do meu sorriso, do meu cabelo, do meu perfume,dos meus nadas e de todas as pequenas coisas e belas que na alma pintávamos, os dois?
Lembras-te?...

Beber do teu copo


Quero beber do teu copo
Tinto, rubi
Saborear taninos,
Encorpado
Vermelho
Transparente
Frutado
Adamado.
Quero beber do teu copo
Vapores quentes
Ardentes
Que me deixem ausente
Em mim
Fora de mim
Assim
Presente

sábado, 13 de junho de 2009

Poeta sonhador e louco




Poeta!
Será que és como te chamam
Sonhador, louco
Ou de tudo um pouco?
Tu que navegas em rios de letras
Às vezes perdes o barco das palavras
Afundas-te com o poema.
Tu que olhas a lua, abraças o sol e as estrelas,
Perdes o firmamento das palavras
Eclipsas-te com o poema.
Tu que te perdes nas cores do arco-íris
Em tardes de tempestade de estrofes
És levado pela corrente, com o poema.
Porque procuras tu, o poema?
O poema está contigo!
Pois não será sonho e loucura
Ter dentro de si um poema?
Então poeta,
Tu és sonhador e louco!...
Tens a loucura e o sonho
De oferecer o céu e as estrelas
Ao teu amor;
Aos pobres com frio,
O sol, o calor;
A lua mágica,
Aos infelizes;
Aos de cinzento vestidos
As cores do arco-íris.
E depois,
Buscas de novo o sol,
As estrelas, a lua,
O orvalho,
A chuva, a luz
E através de ti,
Nascerá o poema.

Televisão

Preciso de silêncio
Desligo o botão
Mas ela segue-me
Maldita perseguição

Ponho-lhe um pano em cima
Uma mordaça
Mas ela sobrevive, respira
Maldita ameaça

Desligo-a da corrente
E ela teimosa, raivosa
Liga-se novamente

Eu já irritada digo,
Acaba-me com isso
Mas que peçonha, parece feitiço

Ignorante, aculta, não ensinas nada
Impedes as conversas
Quero-te desligada

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Folha branca


Os meus dedos secaram
Já não têm brilho
Já não têm palavras
E esta folha branca saltita
Pula, refila,
Quer ficar escrita.
E eu, que faço eu?
As letras que liberto não se aglutinam
São independentes.
As ideias que me afloram à mente
São frágeis, desconcertantes.
Vem tu, junta-te a mim
Traz-me a tua alma para que me ilumine
E junta-te à lua, minha companheira
Traz-me o teu corpo que me aqueça
E junta-te ao meu sol
Em perfeita fogueira.
E as palavras?
Quero palavras coloridas
Quero que os meus dedos te tirem
Magia, a ti, à lua
E que me caiam em cascatas de luz e esplendor
As letras, as palavras, os poemas.
Folha branca, voa para mim!
Olha o que tenho para te oferecer!
Vem que te quero encher de amor
De luz
Esplendor
Quero colar-te no escaparate do tempo
Onde não haverá dor
E assim,
Terás o meu poema de amor
Um poema
Com a luz que vem do sol, da gente
Com a magia que vem da lua e de todas as estrelas
Com a imensidão que vem do mar
Com o encanto das sereias.
Plana, folha branca!
Folha branca, de alma inquieta
Irreverente
Poisa nos meus dedos
Sem receios, sem medos
E dar-te-ei poesia.

terça-feira, 9 de junho de 2009

De ti

Quero fazer de ti o meu jardim
Regar-te com água fresca pela tardinha
Passear por ti, pelos teus canteiros
De mão dada contigo, à noitinha

Quero fazer de ti a minha rosa
Para te trazer junto ao peito, na lapela
Cheirar o te perfume o dia inteiro
Ter-te no quarto à noite, na janela

Quero fazer de ti a minha lua
Que me alumie nas noites escuras
Me proteja, me inspire, me dê alento
Para vencer e esquecer as amarguras

Quero fazer de ti o meu mundo
Onde se respire amor, fraternidade
Fazer de ti um escudo, protecção
União, concórdia e irmandade

O bom senso

Procurei-te por todo o lado, bom senso
Mas não fui capaz de te encontrar
O bom senso anda perdido, esquecido
Por pouco, o bom senso imperar

Faz-se aquilo que vem à cabeça
Sem nunca o bom senso aplicar
Neste mundo de faz e desfaz
Passa-se o tempo a remendar

Diz-se tudo o que vem à cabeça
Depois diz-se que não se disse
Diz-se que a intenção não era essa
Em conversa fiada de idiotice

É urgente encontrar o bom senso
Para as nossas vidas, para o mundo inteiro
E neste comércio de favores vendidos
O bom senso vendeu-se por muito dinheiro

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Contigo música

Percorres-me o corpo, fazes-me vibrar
Música de som forte, suave e leve,
Te sinto e me sentes nos poros da pele
Me percorres em ondas, fazes-me sonhar.

Dás-me o compasso para a minha dança
De ritmos frenéticos e suores quentes
De abraços apertados, de beijos ardentes
Em ti música comungo, em perfeita aliança.

Fazes-me levitar, percorres-me a alma
E contigo música, eu parto em viagem
Perseguindo um sonho, perfeita miragem
Que me enternece, aquece e acalma.

Contigo música, eu sou mulher, sou criança
De alma e corpo leve, perfeita união
De ternura, candura, loucura, paixão,
Realidade, magia, amor, confiança.

Rouxinóis cantantes

Às vezes o rouxinol do jardim canta uma melodia mais triste.
Ou será que a tristeza está em mim e não na melodia do rouxinol? De uma forma ou de outra, hoje acordou-me muito cedo com a melodia.
Cantava sozinho e aquela música entrou-me no quarto, entrou-me na alma.
De repente a multidão de pardais com a camarata montada na laranjeira de folhagem mais densa, começou a cantar, sempre no mesmo tom de voz e ritmo repetitivo. O rouxinol quis ser maestro, mas não foi capaz. A multidão caótica tolheu-lhe os braços, as asas. Sentiu-se impotente, mas ainda assim a sua voz de barítono soava afinada acima do tom do ruído das vozes dos pardais.

A madrugada fresca e sombria trouxe chuva forte que ao bater com violência nos vidros, me fez mudar a atenção e por breves instantes deixei de ouvir o bando e o rouxinol. De repente o ruído da chuva que caía a pique nas janelas do sótão transportou-me para o mundo da gente que entretanto começava a passar, a ir para o trabalho, cortando com os escapes dos carros, o silêncio.

Como as pessoas acordam cedo e partem para o ganha pão ou ganha fome, sem sequer terem ouvidos, para o rouxinol cantante!
Parece impossível que haja tanta gente a cujos ouvidos não chegue outro som que não o da sua voz e o das suas rotinas alienantes!
Foi no meio destes pensamentos que transpus a orquestra caótica dos pardais, para o mundo dos humanos.

Os pardais deixaram de cantar e partiram para o saque diário de tudo o que de valioso e comestível encontram. No caos da sua madrugada, em vez de cantarem, emitiam sons de conjecturas, de golpes baixos, de entrujices que estavam a planear.
O rouxinol bem intencionado não foi capaz de lhes acertar o ritmo e o tom para que os pudesse demover dos seus vis intentos. Continua a cantar sozinho, uma canção já mais triste mas igualmente melodiosa e bela, numa sonoridade de soprano.
Está cansado, mas não desiste e tem ainda esperança que mais rouxinóis se lhe juntem para que, sendo muitos, se sintam mais fortes.

Cada vez mais proliferam pardais sequiosos, famintos de riquezas,sempre prontos para golpes sujos, neste mundo dos humanos. Cada vez mais os rouxinóis sentem mais impotência.
Os gaviões, chefes de todos, poderiam meter os pardais nas gaiolas,mas não, são ainda piores que os pardais. Planam e preparam a melhor ocasião para calar a voz dos rouxinóis cantantes, não vão estes com o seu belo cantar, espantar as suas preciosas presas.

No meio disto tudo onde estou eu, simples mortal, que não sou nem gavião, nem pardal, mas que de tão frágil ter a voz, também não sou rouxinol?
Estou nesta insignificante parte do cosmos, a levantar a pouca voz que tenho, para a juntar à tua, a de todos os rouxinóis. Todos seremos muitos, teremos mais força, mais determinação e cortaremos aos gavióes, o bico e as garras de ave de rapina.

O que poderemos nós os rouxinóis, fazer aos pardais, àqueles que roubam a torto e a direito o fruto do suor de tanta gente?
Será que temos mais alguma força para além daquela que nos advem da voz?

Fica a questão. Provavelmente temos mais, que aquela que julgamos ter!...

A ti, rouxinol do meu amanhecer, eu peço, continua a cantar!…

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Choveu

Ontem choveu
Aquela chuva fresca
Que refresca a terra queimada
Que dá grão ao trigo
E brilho ao olhar.
Apanhei a chuva numa concha
Para contigo me banhar e
Dar brilho aos meus cabelos
De fogo e de mar.
De manhã colhi o orvalho fresco
Envolto em cantos de pássaros
Voos de sonhos
Para me refrescar.
Da terra colhi o cheiro
Das giestas amargas a cor
Para comigo levar.
Corri pelo campo
De sementes germinadas
Sonhei
Alegre cantei.
Ordenei
A este céu encoberto
Quero mais chuva
Mais plantas
Mais orvalho
Mais odor a terra
Mais festa

Até

Quero navegar no verde dos teus olhos
Caravelas ornadas de flores de primavera
E em águas mansas de muitas marés
Parar em praias cálidas de palmeiras.
O verde turvou
O mar calmo agitou-se
As minhas caravelas frágeis
Perderam o norte
O Nascente e o Sul
E estão em desvario, desnorte
De turvo passou a branco
Glaciar o teu olhar
E eu…
Afundei as caravelas
nesse mar imenso.
Construí barcos de papel
Frágeis e leves
Da infância renascidos
Amolecidos,
Afundam
E eu sinto um frio de morte.
Subi os degraus da minha alma
Para te dizer até breve
Mas tu passaste em silêncio
Não olhaste
Nem me viste
E eu…
Balbuciei com medo
Um até
que não ouviste

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Entre arfares


Era diferente de todas as outras. As próprias brincadeiras tinham outra graça.
Diziam as mães das demais, que a menina da Guiomar nem sequer a terra lhe pegava ao vestido. Parece filha de rainha, aquela menina.
Mas não era, fora concebida no meio dos fenos altos e verdes da Primavera que é a altura dos cios, misturados com os cios da natureza. Já com cinco filhos, o marido sempre adoentado, uma vida de privações a comer o que a terra dava com o suor derramado em cada horta , em cada lameiro e penhasco do fim do mundo, Guiomar trocava as voltas ao marido fingindo dormir, porque mais filhos era coisa que não lhe faria falta naquela idade avançada pare a maternidade.
Jesus, homem, parece que até me envergonhava dos meus outros filhos, não pensassem que ainda andávamos com poucas vergonhas, dizia Guiomar ao homem quando o sentia mais entusiasmado. Com estas palavras não havia entusiasmo que resistisse aos seus cinquenta e cinco anos já feitos, virava-se para o lado e adormecia.
Não adiantou nada! Naquela tarde, de enxada na mão, começou a olhá-la com olhos de carneiro mal morto e quando ela deu conta já a estava a puxar para o chão, atrás de um qualquer arbusto, entre fenos altos. Foi assim que Maria fora concebida, em arfares de gozo e ataques de bronquite que não largavam o homem. Parece que até os olhos lhe iam saltar das órbitas.
Costumava ter esses ataques de tosse, sempre que por qualquer motivo se entusiasmava e se ria e então no Inverno, no meio de uma constipação, de o sentir tão apoquentado, até apetecia tossir por ele para lhe aliviar o sofrimento.
Que menina tão linda, diziam as parteiras, curiosas da aldeia, que de tantos partos assistirem eram autênticas parteiras profissionais. Então não sei a quem se sai, dizia Guiomar ainda cansada do trabalho de parto que durou dois dias.
Foi o presente que o homem lhe quis deixar, uma menina, para que daqui a uns anos tratasse dela. Cansada pela dureza da vida e pelos quase cinquenta anos, não tardaria a ser velha e uma filha tardia é o ancoradouro dos pais.
Parece que adivinhava o Chico; morreu no cair da folha seguinte.
Ao menos ainda conheci a Maria, dizia ele quando, no pouco ar que respirava, ainda arranjou ar para umas palavras, no leito de morte, dirigidas a Guiomar o aos outros filhos, a maioria já casados e com descendência.
Não fosse a grande confiança que depositava em Guiomar, diria que aquela filha não seria das sementes da sua colheita. O mesmo dizia o povo da aldeia e aldeias vizinhas, sempre pronto a dar facadas nas vidas alheias. Não, neste caso ninguém ousou levantar a mínima suspeita. Todos conheciam a pureza de carácter de Guiomar, ninguém ousou nem por sombras, duvidar da paternidade de Maria, apesar do seu ar de princesa.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Como me dói



Sinto um cansaço terrível que me tolhe os passos.
Tenho os músculos com espasmos que me contraem os tendões.
Quero caminhar, mas esta inércia de vagalume gelado prende-me, os pés estão frios, a boca dormente, a língua presa.
Quero chamar-te mas tu não olhas para trás, não ouves. É que da minha boca sai uma brisa leve, tão leve, tão gasta e o som das minhas palavras que fica retido no meu peito, não chega a ti.
Quero lançar as palavras numa folha branca para ta mandar pelo vento, mas a tinta não adere, esguicha e mancha-me o vestido, mancha-me o corpo.
Quero compor uma melodia com o som das palavras que não saem, mas a pauta ficou desfeita num vendaval e as teclas do piano estão partidas.
Como me dói esta impotência, como me dói o tempo!
O tempo, sempre o tempo!...
O tempo que não tenho, o tempo que me mata, o tempo que há-de vir, sempre o tempo.
Tenho uma nuvem de poeira branca depositada pelo tempo, em cima dos ombros, no xaile negro. Soprei a poeira para com ela te mandar, em neblina, o aroma do meu corpo. A poeira petrificou e não fez neblina e eu tenho os ombros doridos, cansados.
Onde estás, condor de asas fortes para me levares para longe?
Onde estás tu, águia de bico forte, para me partires os pedragulhos que me imobilizam o corpo?
O condor não veio, a águia também não.
Luz difusa inundou-me o quarto e acordei do pesadelo.
Abri a janela, o veda luz e saudei o sol radioso que prometia um dia quente.
Saudei a vida, saudei o tempo, cantei!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Reflexos

Porque me enganas, espelho
E me mostras diferente
Daquilo que sou?
És fútil, indiferente
Vives de aparências
Pedes-me cosmética
Que não sei usar
E nem mesmo transmites
A essência
Do meu verdadeiro olhar.
Mentes-me
Incorrigível mentiroso.
Asno, vaidoso
Que me tira o sonho
Que me faz agitar.
Porquê que manhoso
Não mostras a pureza
Da minha alma
Do meu olhar?
Contigo
Sinto-me intimidada
Faço caretas
De envergonhada.
Criticas-me
O mau humor do acordar
Os papos, as remelas
O sono a cambalear
Se ando vestida
Ou despida
Se ando descalça
Ou calçada
Se sou careca
Ou tenho cabeleira
Grisalha ou pintada.

Gostas de me minimizar
E não vales nada.
Vou-te mandar bugiar.

sábado, 23 de maio de 2009

Reage, gaivota!


De olhar triste e fixo
Olhas o horizonte
Mas para além das tuas penas
Nada vislumbras.
Olhas para ti
mas o que vês
não te pertence.
Gaivota solitária
Que habitas o mastro
De um barco à deriva no mar
Reage
E voa para aquele rochedo!
Não vês que vais naufragar
Nesse mar imenso
Que te tragará
E que depressa te lançará
Nas ondas, a flutuar?
Vai gaivota!
Sai dessa inércia de morte
Não te entregues à tua sorte
Pesca, come, ganha coragem
Deixa o mastro
Parte em viagem!
Voa gaivota!
Rasga o oceano, pára num coral
Olha as águas de puro cristal.
Vai para aquela praia
De águas mansas
Onde brincam crianças
Que te esperam, no areal.
Canta gaivota!
Canta com a tua voz rouca
E bate as asas com força
Vai a terra, volta ao mar.
Vai gaivota!
Vai com as crianças sonhar!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Canta, luta


Canta velho, canta novo,
a dor alivia a cantar
quanto mais acabrunhado,
mais ficas desanimado
e impotente para lutar.

Canta velho,
contra a injustiça,
o abandono, a indiferença,
contra aqueles que te dão
a esmola com uma mão,
para nas urnas mostrares
a tua fiel presença.

E tu jovem canta,
sempre, sempre, sem parar
e luta para mais saber
pare dares a lição a valer
àqueles que te estão a enganar,
na escolha que não escolheste
seguiste o que nunca quiseste
para contrariado falhar.

Canta contra o estratagema
das novas oportunidades
que te querem dar, sem estudar
e que mais não são,
que para justificar
as falhas de todo o sistema,
que te fez fracassar.

Luta jovem, canta e dança
e com toda a seriedade,
com trabalho,justiça e verdade,
constrói uma sociedade,
de completa mudança.

Vem!


Vem sol!
Derreter a geada
que se formou na noite
e gelou os sonhos de tanta gente.

Vem lua!
Trazer magia, luz, alegria
à noite escura,
onde perdura
a dor,
e a fome que se sente.

Vem mar!
Recolher o sal das lágrimas
vertidas,
em rios de tumultos
de desilusões, de insultos,
de incertezas, de verdade ausente.

Vem tu!
Grita bem alto em cada rua,
em cada esquina,
tira a mordaça
e grita a razão que é minha e tua.
Defende-te
de tudo o que nos ameaça,
a ti, a nós, a toda a gente

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Silêncio


Silêncio, porque te escondes
em cada esquina?
Porque te entranhas na minha mente
e me roubas os sons da noite?
Venham sapos e grilos
Transponham a barreira
Entrem na minha casa
Na minha lareira
E cantem para mim
A noite inteira

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Chuva de Maio




A chuva, puxada pelo vento, forma gotículas que se assemelham a pequenas pérolas. À medida que o vento traz mais água, essas gotículas vão engrossando e deslizam vidros abaixo, como se fossem estrelas cadentes.
O céu está carregado de nuvens escuras que vão despejando a chuva que há uns tempos era pedida. De tal forma era desejada que os habitantes, crentes nos milagres de Fátima, rezaram uma novena. Não me interessa se por milagre ou não, a chuva veio e veio fria, miudinha.

O vento sibila de encontro aos pilares de granito. Sentada, a ouvir esse sibilar, os meus pensamentos vagueiam à velocidade do vento, à medida que os meus olhos olham os campos verdejantes, o céu cinzento carregado, com pequenas manchas de azul celeste junto à linha do horizonte.
Olho através de janelas rasgadas e desnudas, viradas a nascente, sul e poente. Desnudas como convém no campo.
As cortinas, por mais leves e transparentes que sejam, são para mim como que nuvens escuras que tapam o luar de Agosto.
Janelas desnudas são canais abertos à cor, à beleza, à divagação, ao sonho.

Os pássaros, esses reduziram os cânticos. Só de vez em quando passa um ou outro mais afoito a desafiar a chuva fria. Meteram-se nos ninhos para protegerem os ovos ou os pequenos filhos.
As árvores balançam e a localização estratégica do ninho,deixou de o ser, pela mudança da posição dos ramos embalados pelo vento, o que confere uma maior vulnerabilidade aos pequeninos pássaros.
Os grilos recolheram-se nas profundezas dos buracos e calou-se a orquestra.
A azáfama da toupeira contrasta com o estado de sonolência da maioria dos outros; fura em estado de quase loucura, túneis intermináveis para drenar os terrenos. Está a exercer com elevado profissionalismo a sua função, embora seja mal interpretada e frequentemente recebida com um golpe de morte, quando à superfície emerge com o montão de terra molhada.

Também eu sinto uma sonolência leve, um torpor hipnótico, causado pelos sons em surdina da natureza, do ruído da chuva que agora cai mais forte e, por esta luz difusa que me chega de um sol escondido, perdido no firmamento.
Uma sonolência que me convida a fechar os olhos, ouvir o silêncio e, quem sabe, a uma soneca reconfortante, numa tarde primaveril com laivos de Inverno…

domingo, 10 de maio de 2009

Evade-te, poema!


Poema, porque te escondes
Se os teus olhos são estrelas
Em noite escura?
Porque te escondes atrás da nuvem negra
Na penumbra, no engano, na amargura?

Evade-te, poema
Dessa nuvem, espuma dissipada
Das vagas,
Contra a areia molhada.

Insinua-te poema
E à tua amada mostra a luz
Dos teus olhos, seduz!

Sai da masmorra em que te encontras
Labirinto de pesadelos, terror
Onde confundes dever com amor
Onde lentamente cavas a tua sepultura.

Perfura a nuvem negra, poema
Sai em liberdade, doçura!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Vem, chuva!



Vem, chuva!
Quero receber-te na rua
Abraçar-me às tuas gotas frescas
Molha-me
Recebo-te como se estivesse nua.
Como uma árvore gotejante
Peço vento e sol bastante
Brilhante
Para secar-me na rua.

Vem, chuva!
Molha-me o meu cabelo
Perfuma-o com desvelo
Com cheiro a terra que trazes.
Quero sentir o aroma
Das flores molhadas
Rosas, lírios, lilazes
Delírios
Para perfurmar-me na rua

Vem, chuva!
Traz-me frescura de Outono
Na Primavera estival.
Contigo eu quero dançar
Quero que sejas meu par
Melodia sem igual
Abandono
Numa dança minha e tua

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Velejando


Quando falaste, fui toda ouvidos
Quando me olhaste, olhei para ti
Fogos cruzados, olhares perdidos
Num barco à vela, numa viagem.
Vento soprando, mais do que aragem
As velas enchem, o barco desliza
E o mastro sobe, sempre em crescendo.
Sopra mais forte, ao vento pedi.
Com as velas cheias, o barco avança
Sobem as ondas e ele balança.
O vento amaina, o mastro descansa
O barco desliza, em brisa mansa.

terça-feira, 5 de maio de 2009

De Sapinho Feio a Príncipe

……logo que os arados sulcavam o solo, caminhava na terra remexida, indiferente ao barulho produzido pelo tractor.
O tio Zé, homem para os seus setenta e muitos Invernos, artroses a condizer com os anos, não se lembrava de cegonha assim. Caminhava imediatamente a seguir, sem sequer manifestar o mínimo receio de ser atropelada, quando para lavrar a pequena propriedade ele metia a marcha atrás. Desviava-se ligeiramente e sempre a espreitar na terra mais húmida, de onde retirava os seus pitéus de minhocas e outros bichos tais.
Aquela cegonha era de uma voracidade assustadora.
O tempo secou e, com a secura, os arados não conseguem penetrar na terra; o tio Zé deixou de lavrar.
A cegonha voraz teve que procurar outro sítio para satisfazer a sua gula. Sobrevoou os terrenos adjacentes à aldeia e lá do alto avistou uma lagoa coberta de flores brancas de uma beleza incomparável. De patas na vertical, desceu e ficou com elas, quase submersas.
Com o longo bico dentro da água e de encontro ao fundo, remexia aquele lodo cinzento à procura de qualquer coisa que fosse que lhe preenchesse o vazio que sentia no estômago. A certa altura pressentiu algo a mexer no meio daquele lamaçal. Estava pronta para lhe apertar as mandíbulas assassinas, não fosse ter ouvido um som, numa mistura de gemido e grito que lhe dizia:

Senhora cegonha, a senhora sempre tão elegante e esbelta, não me coma; eu sou apenas um sapinho feio, tão feio, olhe para mim! Houve quem me tivesse confessado que eu à nascença era como todos os outros sapos são, mas a minha mãe e os meus irmãos começaram a chamar-me feio, eu convenci-me disso e sou muito infeliz. A senhora cegonha se me comer vai ficar também mais feia!...

A cegonha que era vaidosa, reflectiu nestas palavras e como não queria de modo algum por em risco o seu porte e rosto perfeitos, não apertou as mandíbulas. Puxou o sapinho cá para fora e colocou-o em cima das flores brancas. Na verdade, emoldurado com aquela verdura matizada de branco, não lhe pareceu aquele sapo diferente dos que já tinha visto. Olhou-o naqueles olhos pestanejantes e suplicantes por clemência e pensou:
Mas porque carga de água uma mãe pode achar que o filho é feio, e mais do que isso tê-lo feito acreditar que assim é?
Olhou-o nos olhos mais demoradamente, reparou na boca, nas manchas da pele húmida e achou que o sapinho era perfeitamente normal, dentro dos parâmetros de beleza dos sapinhos.
Continuou a conversar e para seu espanto, a fome desaparecera. Achava o sapinho, de tão simpático e puro, cada vez mais bonito e quanto mais conversava, mais beleza lhe achava.
Ele, perante o olhar fixo da cegonha, começou a tremer e de tanto medo que sentia, não conseguia dizer mais nada.
A tua mãe onde está, perguntou-lhe a cegonha.
A minha mãe partiu para outra lagoa com os meus irmãos, eu não quis ir com eles e fiquei aqui.
Se eu te disser que tu és o sapinho mais bonito que alguma vez vi, tu acreditas?
És um verdadeiro príncipe. Gosto muito de ti e vou levar-te comigo, para junto do meu ninho.
Segurou-o cuidadosamente e voou.
O sapinho nem queria acreditar.
Eu príncipe!
Eu que sempre pensei que era o Sapinho Feio, agora sou Príncipe!
Como eu sou feliz!...

“Depressa um Príncipe passa a Sapinho Feio, se for tratado com desdém”.
“Depressa um Sapinho Feio passa a Príncipe, se for tratado com amor e compreensão”.
“Nem sempre os pais estão certos em relação aos filhos e por vezes transformam-nos em sapinhos feios, complexados, infelizes”.

domingo, 3 de maio de 2009

Quero

Deixei de lutar
Não porque tenho perdido as forças, mas tão só, porque não quero.
Quero relaxar os músculos e deixar-me levar pelo ritmo da corrente
Das águas de um rio tumultuoso, rápido, espumoso, sem bote
Num percurso onde de tudo, acontece.
Quero emoção,
Quero que aquelas águas me massagem a pele, me beijem
Com a sofreguidão de faminto, sequioso.
Depois, quero desaguar
Num mar calmo, transparente, silencioso.
Quero flutuar nesse mar
E em quietude
Deixar-me arrastar
Sem inseguranças ou medos
Que me obriguem a voltar.

Naquele deserto, onde jaz


À tristeza disse não
Despiu as lágrimas
Engoliu o pranto
Varreu as dores do seu coração.
Fechou a porta a sete chaves, não fosse a tristeza voltar e de mansinho quisesse entrar.
Mandou-a embora. Pôs-lhe a mala à porta, cheia de trastes velhos e de tão cheia, teve que lhe pôr o joelho em cima para a poder fechar.
Vestiu-a com todas as mágoas, lavou-a com as lágrimas, penteou-lhe os cabelos longos e lisos com pentes de angústias. Para a tornar mais elegante, calçou-lhe uns sapatos de salto alto produzidos numa mistura de desencantos e abandono.
Assim aperaltada, a tristeza apanhou o primeiro comboio da manhã. Constava que teria sido deportada para longe. Soube-se mais tarde que o seu destino fora um deserto imenso, de dunas gigantescas, de areias escaldantes que calcorreou descalça.
Procurou um oásis para beber. Morreu de sede.
Foi acometida por uma miragem que a conduziu para dunas cada vez mais altas e intransponíveis. Diz-se que ao morrer, terá emitido um grito estridente que continua a ser ouvido nas noites frias do deserto.
Deportou-a...
Esqueceu-a,... naquele deserto, onde jaz...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Mas não! Ninguém


Ah, mundo cruel, como me oprimes!
Ah, poder fingido, como me enganas!
Ah, patrão de milhões, como me ignoras,
me esvazias e me lanças no beco
do desemprego, das desilusões!
Reclamo, dou opinião.
Mas não!
Ninguém me ouve.
Ninguém me vê, é em vão!

Como heras trepei
e agarrando-me ao que de mim restava,
até aos confins do meu ser, lutei;
de mão erguida exigi,... depois implorei.
Mas não!
Ninguém me dá a mão
Ninguém me vê, constatei!

Se soubesses como me sinto só,
no meio de tanta gente!
Sem pressa, caminho apressada
e para não morrer sufocada,
cruelmente esmagada,
sem destino, corro à frente.
Mas não!
Ninguém me vê,
neste mundo indiferente!

Se soubesses como sinto fome
De justiça, de amor, de pão!
Sento-me… e envergonhada,
estendo a mão.
Estendo a mão ainda jovem,
mas demasiado enrugada
para ter outro patrão.
Peço ajuda
Mas não!
Ninguém me vê,
neste mundo cão!

Mas eis que junto os meus pedaços
com a força que me restou
e de mangas arregaçadas,
enfrento tudo e aí vou.
Grito bem alto ao mundo,
ao patrão e ao poder,
meus senhores hei-de vencer
esta batalha, esta luta;
hei-de-me restabelecer
para não voltar a estender,
a mão, a filhos da puta.
Todos irão ver,
Das cinzas, o meu renascer!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Filhos




Filhos,
frutos da minha flor,
saídos da minha dor,
com força vos lançou ,
vos obrigou ao grito,
e vos emancipou.
Pulmões abertos,
passos incertos,
depois certos,
amparados, libertos.

Filhos,
que só me pertenceram
enquanto permaneceram
no meu ventre.
Assim cresceram,
com obrigações, em liberdade,
em amor, em amizade,
são o meu prolongamento,
a minha eternidade.

Filhos
que eduquei
para um mundo perfeito,
de tolerância, respeito,
de bondade, amizade
e de que não me arrependo.
Com o vosso saber,
vos sabereis defender,
deste mundo horrendo!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

É lá que renasces


Cheiras à terra, daquela planura.
Fechas os olhos, partes em viagem
e em sonhos, respiras-lhe a aragem.
Cheiras a tomilho, a flor de giesta
Enrolas-te em ti, escondida folhagem
de estevas, da infância em festa.

Cheiras às arribas e aos seus rochedos,
mistérios e lendas que tão bem descreves,
nos carreiros trilhados, em histórias tão leves.
Fechas os olhos e é lá que te perdes
nas tuas lembranças.
De olhos abertos
é lá que renasces,
em suaves temperanças.

Voltarei a lutar


Caminho nas nuvens
Com os pés descalços
Em viagem vertiginosa
Tenho medo de tombar.
Caminho na neve fofa e fria
Colada aos meus pés
E tenho medo de me afundar.
As minhas mãos tremem
Os meus pés vacilam
E falta-me a coragem
Para continuar.
Atravesso rios secos
Com medo de me afogar.
Insegura, subo montanhas
Com medo de me desorientar

Onde estou, pergunto-me...
O que resta da minha coragem
E porquê não prosseguir viagem?

Por momentos
As minhas águas são assoladas
Por correntes de conflitos
As minhas pérolas são roubadas
De conchas violadas.
Ventos gigantescos rompem
As velas do meu veleiro
E eu, à deriva
Peço ajuda à gaivota
Ao albatroz
Para que me levem nas asas
Me ponham na rota
E me tirem
Este medo atroz.

Ah, este medo…
Este medo que me gela o sangue
Que me tolhe os passos
Me controla a mente
E me impede de continuar!

... Mas amanhã é outro dia!...
Em mim, o sol voltará a brilhar
E eu, determinada
Alegre,firme, renascida,
Voltarei a lutar!...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Versos da treta

Pego na caneta
Bato no teclado
Esta grande treta
Não me está a sair
Como planeado

Eu quero escrever
Mas não sou capaz
O que hei-de fazer
Já nada me inspira
E nada me apraz

Inspiração eu peço
Mas ninguém ma dá
Será que não mereço
Ou será que não sei
Onde a musa está

Como não faço nada
Já vou acabar
Com esta charada
Que mais não é
Que morte anunciada

Vou-me já embora
Ponho-me na alheta
Já sem mais demora
Pois estes versos são
Só versos da treta...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Poema sem abrigo


Ah, Poema!
Como eu queria libertar-te
Dessas roupas andrajosas!

Ah, Poema!
Como eu queria dar-te
O pão
A ti
E ao teu irmão!

Vives no mundo
Que não é teu
Despido de letras de esperança
Em sílabas de indiferença.
Dormes em buracos
De livros não lidos
Declamas-te em gritos não ouvidos
És letra de canção não cantada
És resto duma vida amaldiçoada

Ah, Poema!
Junta a tua voz
À de todos os infelizes
Que surgiram
De letras
Deste mundo atroz.
Insurjam-se bem alto
Em voz bem colocada
Comigo
E com todos os poetas
Que vos pariram
E lançaram no asfalto
De rua amaldiçoada

Ah Poema, maltrapilho
Neste mundo de egoísmo
Que não te liberta
Não te dá o pão
Não te dá nada!

sábado, 18 de abril de 2009

E partiu!


Chovia torrencialmente!
Ficou dentro do carro a olhar o mar, como ela gosta.
Não viu as horas nem ao chegar, nem quando foi embora.
Ela não vê as horas; há momentos de felicidade em que não há nenhum relógio capaz de os captar: umas vezes tão pequenos mas que valem uma eternidade, outras , sendo uma eternidade, parecem-nos infinitamente pequenos!...

Aqui ficou, com o corpo preso a uma argola do carro .
A alma, essa começou por perto, enquanto observava o rebentar forte das ondas. Formavam espuma branca quando sacudiam os rochedos e apaixonadamente deitavam-se com a areia.
Depois, perdida no tempo e no espaço, voou numa nuvem, numa nuvem negra.
Que importa se a nuvem é negra e não é uma nuvem de algodão?
Não são as nuvens negras que nos dão a vida e nos refrescam o coração?

E partiu!...
Partiu naquela turbulência tão forte que chegou a ter medo, naquela viagem tão aventureira.
As nuvens negras abriram uma guerra, uma guerra no céu!....
Juntou-se-lhes a outra nuvem, em guerra aberta, numa tempestade tropical sem igual.
Lutou ao seu lado, no meio daqueles trovões e relâmpagos com uma bravura e emoção nunca sentidas.
Às vezes é necessário sentirmos emoções fortes, para que nos possamos sentir vivos!

Em breve a nuvem se desfez em água quente e naquele sonho foi cair na terra vermelha, a ferver, onde já fora imensamente feliz.

Mas voltou!...
Voltou, enrolada em tule branco, como em véu de noiva, naquela nuvem que se formou na terra vermelha.
Levitou.
Juntou-se ao corpo.
Soltou-o da argola.

O corpo sorriu para a alma, como que a dizer:
“ Não precisas de me pedir perdão por me teres deixado sozinho, vai sempre que queiras; eu já estou habituado a que me deixes só, alma sonhadora!...”

Ligou a chave da ignição e despediu-se do mar e daquela praia, onde foi tantas vezes feliz.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

E veio!....


...Diziam-na benvinda!.... E veio!
Fria,tão fria que é capaz de refrescar qualquer mente entorpecida seja qual for a razão do entorpecimento.Não parece a chuva da Primavera a passos largos do Verão.
Apanhei-os de frente, à chuva e ao vento!
O vento forte!... Não consigo ter uma relação amistosa com o vento forte; enlouquece-me,…como me enlouquece a chuva que tapa por completo o vidro do carro e me tira a visão.
O condutor estava atento à condução; eu nem por isso. A minha atenção estava mais centrada na paisagem e nas nuvens que saltitavam entre o brilhante no meio de rajadas de luz e o escuro, quando prenhas de água, bem fundamental à vida.
Com frequência ao longe, pareciam cabelos de cigana que depois da última enxaguadela pingavam para a terra até que o sol viesse, os secasse e carregasse de brilho.
Vi nuvens de algodão a beijar os picos da Serra da Estrela em beijos roubados, entre os raios de sol que por momentos lhes mostrava o caminho da luxúria. Depressa se tornavam negras e a estas sim, a Serra se abria em sorrisos marotos, espera desejada, namoro consentido.
Nas nuvens escrevi, desenhei, pintei, como quem desenha escreve e pinta sonhos, tão ténues, tão etéreos, tão lamentavelmente impossíveis de concretizar, tão… eternamente sonhos!...
No dia em que alguém me retirar a capacidade de sonhar, considerem-me biologicamente viva, mas mentalmente,... irremediavelmente morta!...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Olho-me ao espelho


Olho-me ao espelho
e vejo
os vincos dos anos, dos dias
passados com tristezas e alegrias.
Não quero tirar as minhas rugas
e as manchas também não;
elas existem por alguma razão.
São passagens de uma vida,
são amores e desamores,
são uma vida vivida, por vezes
em esperança perdida
e logo renascida.
Olho-me ao espelho
e vejo realidades, segurança e auto-estima;
vejo a esperança que domina
nos dias que correm mais devagar;
vejo os lugares para onde não quero ir
e aqueles onde quero ficar.
Olho-me ao espelho
Sem nostalgias do que perdi e
sem vaidades do que ganhei.
Ganhei calma, perdi beleza
e vejo agora com clareza
que a maior beleza
é a beleza da alma
e estar viva é a maior vaidade.

Olho-me ao espelho, com serenidade!...

domingo, 12 de abril de 2009

Andorinha de asas negras

Andorinha de asas negras
que regressas na primavera
para o beiral
daquela casinha de pedra
com telhado escurecido pelo tempo,
onde mora a velhinha
com os cabelos embranquecidos
pelo saber e pela solidão.
Todas as tardes se senta contigo
para te dizer
que voltes sempre
e para te agradecer
a companhia que lhe fazes.
Andorinha de asas negras,
companheira, mensageira
e de doce coração.

sábado, 11 de abril de 2009

O vento da Semana Santa

…o vento da Semana Santa calou-se! Vá lá que se calou!
Este vento seca-me a pele, encarde-me a alma, deixa-me o coração ressequido, como se fosse caruma no mês de Agosto!
Que me importa que me digam que é o vento da Semana Santa? Não gosto, e pronto!
Não gosto, porque não gosto de vento a uivar e não gosto deste que hoje soprou porque me arrastou precocemente para longe, as flores da cerejeira que tenho em frente à cozinha.
Eu tinha ainda o meu cordão umbilical ligado àquelas flores e está a doer-me por mo terem arrancado à força.
Não gosto eu e não gosta a minha querida Jomba que na sua mente que cadela esperta não percebe a razão daquele tumulto de força e de barulho que lhe causam um remoinho de confusões. Até o pelo brilhante da Jomba fica também seco e arrepiado!
Também o cordão umbilical que a liga à bola e às brincadeiras lhe são arrancados à força, sem dó nem piedade e é empurrada para a casota, em pleno dia. A ela, viciada em bola, em Especiosa e em brincadeira!...
A ela, pobre cadela que nem sabe o que é a Semana Santa!...
É bom ter aliados; nisto eu tenho uma aliada fiel, a minha querida Jomba. Aliás, ela é minha aliada e amiga incondicional. Ela compreende-me melhor do que a maior parte dos humanos!...
Não gostamos de muitas outras coisas, como também não gostamos deste maldito vento, santo ou não!...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Vestida de Primabera

Do Inverno tirei a boina
Pus uma flor no cabelo
Larguei aquele ar de estroina
Arranjei-me com desvelo

Vesti-me com mantos
De violetas e rosas
Colhi perfume nos campos
Calcei sandálias mimosas

Corri por campos sem fim
Entre tomilhos, giestas
Carquejas, alecrim
Na natureza em festa

Voei com as andorinhas
E com as rolas cantei
Ensaiei o canto do cuco
E com as cegonhas dancei

Saltei por colinas e prados
Alegremente corri
Vestida de Primavera
Em felicidade renasci

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O teu poema

Quero esculpir-te com as palavras
Para te escrever
Passo a mão levemente
Pelos contornos perfeitos do teu rosto
Pelo cheiro do teu corpo
E as palavras saltitam em rios de ternura
Desaguando num mar de calmaria
Mas as palavras não chegam para te escrever
A caneta é demasiado leve para te esculpir
As sonatas não têm voz para te cantar
E a mim não me chega a fantasia
Para com pobres versos te elevar
Pedi à musa inspiração
Mas ela disse-me que não!
Pedi à lua em luar de Agosto
A luz para me inspirar
Mas ela disse-me que não!
Então, só e triste
Refugiei-me na simplicidade
Das letras que me afloram
À alma e ao coração
Para te oferecer este poema
Este poema que saiu da minha mão
Trémula, frágil, quase fria
Este poema que não é escultura
Que não é sonata
E que da lua não herdou magia…
É só um simples poema
O meu poema, o teu poema!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Primavera sensual



Está tudo em delicioso namoro
Nesta linda temporada
Cheia de flores e de pólenes
Onde abelhas sem decoro
Se enroscam se tocam e amam
Sem se importarem por nada

O Cupido anda à solta
No beiral das andorinhas
E nos ninhos das cegonhas
Ouvem-se belas ladainhas
A matracarem com os bicos;
Para quê sentir vergonhas?

A natureza ávida de vida
Na Primavera, a estação do amor
As ervas ficam à cata
Para ter espaço de saída
As plantas rebentam em flor

Anda aqui um rouxinol
De mansinho a cortejar-me
Na vedação do jardim
A planar ele fica a olhar-me
Enamoramento doce de jasmim

Não faço nada nem resisto
A esse olhar penetrante
Que ele continua a ter
O rouxinol cantante
É atraente a valer
E na sedução
Tudo pode acontecer

Pediste-me um poema


Pediste-me um poema
Que fosse luz, ternura
Que fosse amizade, candura

Vasculhei
E nas bielas do meu ser
Encontrei sentimentos
Para o escrever

Compilei letras
Formei palavras
De alegria e doçura.
Fiz um poema
Flor de açucena, candura

Pediste-me um poema
Que tivesse estrelas, alegria
Que tivesse lua
Cheia de magia

Compilei luz
Em constelações
E com elas formei
Muitos corações

Procurei laços
Para o enfeitar
Coloquei voz doce
Para o declamar
Pedi à brisa fresca
Para to entregar

sábado, 4 de abril de 2009

Feno Seco

Procuro no lameiro de feno alto,
sementes por fecundar;
de primaveras, lírios,
fel da terra, gladíolos,
para comigo levar.

Procuro no lameiro de erva fresca
acabada de cortar,
os cheiros que me inebriam
os sentidos e me enternecem;
quero nele rebolar,
de verde a roupa pintar.

Procuro no lameiro de fenos secos,
o tempo que um dia ganhei,
em sonhos e devaneios,
em êxtases e anseios,
de quimeras que ousei.

Quando tudo ou nada
me restar,
voltarei a ti, feno seco.
Deito-me no teu colchão,
que importa se fofo ou não,
para em ti descansar,
feno seco, acariciar.

terça-feira, 31 de março de 2009

Não quero

Não quero flores no meu enterro
Não me ponham vasos na campa
Não me chorem ou engrandeçam
Quando já não sorvo o sal
Desse choro que não me levanta

É agora que preciso do aroma
Da rosa e do jasmim
É agora que quero banhar-me
Em estevas e alecrim

Não quero estátua
Na rua da indiferença
Não quero honras
Já sem a minha presença

É agora que preciso de estar
Em estátua edificada
Não quero depois ficar
No jardim ou no museu
Só, fria e desolada

Não quero as flores depois
Não estraguem vosso jardim
Ofereçam-mas todas agora
Rosas silvestres sem fim
Presas em laços de cetim

segunda-feira, 30 de março de 2009

Isso não!

Não verto lágrimas,
isso não!
Com raiva,
fazem-me rugas na pele
e na alma fazem-me gretas.
As lágrimas fazem-me falta
para tudo o que é doce ou triste;
para as alegrias
e as gargalhadas abertas,
quando a rir me liberto
e quando me rio de mim.
Não verto lágrimas assim!

Fure!

Só o desenrascanço impera!
O resto são fraquezas e utopias
Fure os obstáculos.

Tenho metas

Não me venham com tretas
Não me minimizem, eu sou gente
Que eu enfrento, tenho metas
E pego o touro de frente

Toureio cara a cara
Faço pega de cernelha
Aposto com muita gente
Que ao touro corto uma orelha

Não me venham com tretas
E não me impeçam
De alcançar minhas metas!

Sabe sim!

Caminha descalça
Sobre tojos e rochedos
Enfrentando seus segredos
Nos degredos do seu mundo
Para onde vai?
Sabe lá!

É levada
Pela força do vento
E atirada contra tormentos
É desfeita em desalentos
Espalhada por rios secos
Nos desertos do seu mundo
Para onde foi?
Sabe lá!

Mas eis que junta os pedaços
Do mundo que a substima
Ergue-se, não desanima
Pega o vento de feição
No outono da sua vida
De onde vem?
Sabe lá!
Para onde vai, sabe sim!

Que importa??!!!

Faço um poema sem rima
Faço um poema rimado
Que importa se rima ou não rima
Que importa se atina
Ou não atina com a vida que lhe dão!
Faço uma peça onde não há ovação
Que importa se faço ou não!

Faço-me à vida
De mangas arregaçadas
Pés descalços ou calçados
Que importa se me faço ou não!
Sou peça de museu com pó cristalizado
Sou prenúncio de mal anunciado
Que importa se sou ou não!

domingo, 29 de março de 2009

Pule!...

Só a felicidade impera!
O resto são buracos e desvios...
Pule os obstáculos.

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