Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

... ou o que seria

Tinhas tanta sede
e com a água aí
tão perto!
Gastaste as unhas a cavar,
feriste a ponta dos dedos,
mas a água não brotou
e nela não pudeste molhar,
os teus lábios
que de tão secos,
se gretaram, a sangrar.

Caminhavas por caminhos
que tão bem tu conhecias.
Núvens baixas te mostravam
o céu que tu bem vias,
mas nunca os dedos o tocavam.
Desdita, impotência, má sina,
destino, ou o que seria;
tu nunca chegaste ao céu
e mesmo estando o céu em ti,
nunca esse céu te cobria...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Depois do pequeno almoço

Inês é uma mulher como tantas outras da sua geração: Livre, espírito irreverente, pés bem assentos no chão. Ás vezes não pareçe, dado o seu ar sonhador e ausente, mas tem. Os pés tão assentes no chão tanto quanto o espírito, num misto de sonho e racionalidade.
Caminhava na Avenida 5 de Outubro em Lisboa, numa manhã outonal de meados de Novembro. Vestia uma capa para se protejer da chuva que ameaçava cair, cinzento prateado, de modelo moderno que caía em ligeiro godés sobre calças pretas e a túnica de seda com motivos pretos, bejes, castanhos e roxos. À volta do pescoço, um cachecol de algodão do mesmo tom de roxo. Nos pés, meias arrendadas do mesmo tom do cachecol que os sapatos pretos decotados, de salto alto, deixavam ver. Vestida com chitas ou cetins, para ela, o sentido de estética na combinação das cores, prevalece em relação à qualidade dos materiais e dos preços.
Caminhava com um livro volumoso que aproveita para ler em todos os minutos livres, um romance com seiscentas e onze páginas, escrito por José Rodrigues dos Santos, de leitura fácil. Lê-se duma assentada, diz. Tinha lido outros em que muitas vezes tinha que voltar atrás para melhor entender a linguagem do autor e agora apeteceu-lhe ler algo mais leve e óbvio.
Caminhava com ele na mão esquerda, encostado ao peito; na mão direita, uma carteira pequena, tipo pochete. O som do pisar firme no passo apressado ouvia-se nitidamente, o que é uma característica sua e que denota o seu temperamento firme e seguro, tanto como as rochas que a viram nascer.
Sentiu-se observada.
Um homem com sentido de estética repara para a combinação das cores que uso, pensou.
Constatou que o motivo não era esse, quando ouviu um “desculpe”. Olhou para ele intrigada e parou na continuação da mesa da esplanada que ocupa parte da largura do passeio da avenida.
Teria mais ou menos a mesma idade que ela, sessenta e alguns anos, alto, bem apessoado, com uns olhos transparentes verde esmeralda, do mesmo tom da camisa que usava, impecavelmente engomada. Os olhos, um perfeito mar sereno envolto em pálpebras.
Gosta de ler, perguntou.
Sim, a avaliar pelo volume do livro que estou a ler, claro que sim, respondeu Inês. É que sabe, aconselharam-me este livro, um amigo, um amigo intelectual aconselhou-mo mas acho-o demasiado maçudo, muitos pormenores que quanto a mim não ajudam em nada à história que conta; está a faltar-me paciência.
Inês olhou para o livro que estava em cima da mesa e de relance pensou, em fracção de segundo, o tempo entre dois pestanejares:
Quê que este gajo quer de mim!!? Engatar-me e galar-me, ou foi a um vendedor de livros em segunda mão e quer impingir-me o livro mais caro!!?
Continuou em pé a olhar e, no tempo de outro pestanejo, a pensar que poderia estar a fazer figura de ursa ao pé de um engatatão de meia tijela,sobejamente conhecido como tal no café. Ainda assim, continuou, até porque só é enrolado quem quer, pensou.
Este também é muito pormenorizado disse ela.
Sim, mas esse está cheio de pormenores ligados à história; desculpe, estou a roubar-lhe o seu tempo.
Não, não faz mal, não tenho pressa, disse Inês.
Logo a seguir seguiu-se um sinal com a mão, e o convite para se sentar na cadeira em frente, para conversarem sobre livros e autores que apreciassem. Inês não aceitou, claro.
Não, obrigada; o meu tempo..., mas,...quer que lhe compre o livro?
Não, não! Ofereço-lho.
Foi nesse instante que Inês olhou para a mesa com atenção para ver o autor e o título. Não conhecia.
É espanhol, perguntou.
Não. É chileno. Foi-me aconselhado, mas não me apetece lê-lo. Também não gosto da escrita de Saramago, disse.
Eu também não, respondeu Inês. Comprei o último livro dele, Caim, mais por causa da polémica, para ter uma opinião. Lê-lo-ei logo que acabe este. Pode ser que mude de opinião.
Naqueles escassíssimos momentos chegaram à conclusão que gostavam da escrita de Lobo Antunes.
Li há muitos anos os primeiros livros da sua carreira como escritor, emprestei-os, já não sei a quem e nunca mos devolveram, referiu ela. Depois, seguiram-se outros e agora vou comprar o último, estou curiosa. Ele tem aquele ar de lunático, mas é só ar.
Ah sim, sim, concordou ele. Viu a entrevista dele com a Judite de Sousa?
Inês tinha já na sua mão esquerda os dois volumes encostados ao peito.
Quando endireitou um pouco o corpo para seguir o seu caminho, olhou com mais atenção para a mesa. Um maço de cigarros, um isqueiro em cima, uma chávena com restos de café com leite do pequeno almoço, o espaço vazio do livro e com ar despachado disse-lhe:
Obrigada pelo livro e olhe, deixe de fumar, ...eu já deixei.
Sou um tonto, um parvo! Às vezes fazemos destas coisas.
Deixe e pronto. O fumo faz-lhe mal aos seus bonitos olhos.
Quando acabou a última sílaba, já estava a dar o segundo ou o terceiro passo e não esperou pela resposta. Continuou com o seu pisar firme, como sempre.
Pode ser que um dia o encontre e lhe diga se gostou ou não do livro, se tiver coragem para ler as mil e trinta páginas do romance 2666.
Há coisas,...pensou ela, quando, já sentada no comboio de regresso a casa, acabou de ler as capas e contracapas do livro de Roberto Bolanho.
Alguma vez eu imaginei que um desconhecido me iria oferecer um livro, ainda que fosse um livro rejeitado!
Há coisas!...

domingo, 8 de novembro de 2009

Um Domingo cinzento

Acordei com o dia já cinzento, mas nem por isso fiquei triste como era o dia.
O ar húmido que apanho, quando pelo quintal deambulo antes da chegada da chuva, encaracola-me os cabelos, conferindo-lhes um ar de maior rebeldia.

Um almoço a dois. Os filhos hoje não puderam. Um almoço adequado ao dia húmido, um tanto frio, acompanhado com uma salada de azedas, das dos paredões do Douro e que já se habituaram ao clima do quintal, em Sintra; uma outra tacinha de alface e rúcula também do quintal, para que a refeição se tornasse mais leve, pela mistura biológica do verde das saladas e os olhos se sentissem mais fácilmente saciados, com a paleta de cores verdes.

Um fantástico documentário sobre Berlim, na Sic,(quem diria) obrigou-me a mudar de lugar à mesa para que a pudesse acompanhar sem que a cervical me doesse, por olhar para o écran de esguelha.
Excelente! Nos meus olhos formaram-se cortinas de gotículas, diversas vezes, pela emoção. Não é difícil, confesso, mas neste caso justificadas. Berlim destroçada pela guerra, a divisão da cidade, a construção do muro,a polícia Stasi, a separação das famílas por vinte e oito anos em apenas uma noite, finalmente a queda.
Ainda sinto o coração apertado, como aliás já tinha sentido quando visitei a cidade há três ou quaro anos e imaginei o sentir daquela gente. Aquele rectângulo quase perfeito na cidade, que passou a ser a parte ocidental, em mil novecentos e sessenta e um, com arame farpado e apertada vigilância e depois com betão sólido, uma aba saliente ao cimo e algumas partes por um canal.
Morte para quem ousasse tentar transpô-lo.
O Muro da Vergonha! Um dos muros da vergonha, infelizmente, dir-se-á.
No dia nove de Novembro de mil novecentos e oitenta e nove, passados vinte e oito anos fez-se a demolição, a alegria estampada no rosto, o reencontro; o ficar boquiaberto com as coisas ocidentais por mais corriqueiras que fossem.
Dizia-nos uma jovem nascida na parte oriental, criança na altura do derrube: "Fiquei maravilhada com o papel higiénico colorido, só o conhecia branco".

A reportagem fez-me relembrar a cidade que calcorreei durante uma semana, onde pisei várias vezes as marcas do muro no chão.
Uma cidade completa, magnífica e culturalmente imponente, nomeadamente do lado oriental.

Há por todo o lado, nas imediações do que foi o muro e das partes que deixaram intactas,divulgação completa da história, para que a história não se repita...
Assim o desejo.

A seguir à reportagem, a chuva. O convite para ficar em casa.
Não, não vou desta vez obedecer à chuva, mesmo que o som das goteiras seja reconfortante...
Tenho que sair, caso contrário, arriscar-me-ei a ficar melancólica...

sábado, 7 de novembro de 2009

...Faz de mim árvore de Outono
que lentamente perde as vestes.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

E,... prossigo


Viajo em cima das palavras
a descansar do tempo que me pesa.
Deambulo por sinuosas veredas
para me encontrar com o que fui,
embrenho-me em florestas densas,
em bosques perfumados,
a mendigar frescura para os meus passos.
Viajo sonâmbula,
por entre giestas e espinheiros
que me tolhem os movimentos,
me confundem o destino,
me estonteiam com o odor forte,
me cravam espinhos na carne
que me dilaceram a alma.
Quero encontrar uma fonte com água fresca
que me mate a secura dos meus sonhos,
que me hidrate a pele franzida.
Quero sair desta secura imensa
que me esgota o rio das palavras brancas
e me impele para becos sem saída.
Viajo em palavras e assim me reeencontro
e me embalo em ondas leves
de mares serenos.
O que fui,
que interessa!!?
O que serei,
quem sabe!!?
Desço das palavras
e, revigorada,
escalo torres de marfim,
lanço um olhar sobre o mundo hostil,
espreito as artérias do rio
onde o meu sangue pulsa, doce...
e,... prossigo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Caíste num poema




Caíste num poema
e foi lá que te achei.
Com hipérbole o enfeitaste
e disseste que gostaste,
mas eu não acreditei.

Saltitaste em vogais e consoantes.
Descobriste as palavras,
entre metáforas escondidas.
Paraste um pouco nas vírgulas,
hesitaste no ponto e vírgula,
partiste no ponto final.
Declamaste-o
e não te saíste mal.

Leste partes com calor,
outras percorreram-te a espinha.
Outras causaram-te dor,
num céu de neblina.

Caíste no poema
mas não o levaste contigo.
As metáforas extravasaram
do rio onde nasceram.
As vogais e consoantes
choraram de tristeza,
solitárias, sem abrigo.

O poeta partiu.
O poeta é errante.
É o seu destino
e vai.
Vai para outro poema,
a sonhar com outro tema.

O poema ficou.
Sozinho chorou.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Tudo ao contrário


Não!
Que engano!
Porque te peço para sorrir e contemplar uma flor,
se há tantas crianças sem amor.
Porque te peço para olhares o veleiro a balançar no mar,
se há tanta gente sem cais.
Por que te digo para fixares a lua, a Via Látea,
se há tanta gente sem luz em suas vidas,
cegos de esperança.
Vai lua!
Vai alumiar quem deves,
lua selectiva, sempre a olhar quem te contempla,
quem de ti quer inspiração para escrever sonhos.
Vai lua e alumia
e aclara os sonhos medonhos.
E tu estrela do céu!
Porquê que o teu cintilar não penetra
nas mentes obscuras daqueles
que maltratam, que violam,
dos governantes tiranos,
em vez de inspirares poetas.
Ó céus, até o céu anda às avessas!...
Ó mundo, o mundo gira ao contrário!...
Ó homens, distribuam bem o pão,
a fome, a miséria, a desdita,
para que a sina bendita,
não seja sempre dos mesmos!...
Homem,... abre o coração!

Acordo, ressuscito!


Sou flor hipnotizada e,
Por momentos morro.
Ressuscito
E vejo o beija flor a sorver-me o néctar,
O nectar todo.
Ressuscito do torpor com violéncia.
Dos meus olhos jorram rios
Dos meus poros enxurradas
No meu peito pulsa o mar.
Ondas gigantes percorrem-me
Em vai-vem
Nun arredar para ganhar balanço.
O meu sangue recua
E ao contrário das ondas,
Recua sem avanço.
Estremeço
Empalideço
Descanço...
Acordo do pesadelo
Ressuscito
Troco a almofada
Molhada
Limpo os poros
Seco os rios
Esqueço...
E sigo.


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Porquê


Porquê que não te achei amor
Há muitos dias
E os meus pés
Não trilharam os teus passos.
Porquê que não te achei amor
No volátil das artérias
E os meus braços
Não encontraram
Os teus abraços.
Porquê que não te achei amor
No cimo da montanha
Trepada a sete fôlegos
Quando os rios eram lava
A escorrer em vales fundos.
Porquê que não te acho
Em cada esquina
Em cada madrugada
Em cada sombra
Em cada sol
Em cada estrela
Em cada rua
Em cada viela
Em cada fio de água morna
A percorrer-me as veias
A encher-me a alma.
Acho-te no cansaço
Dos dias escassos
Das noites despertas
Dos rios mansos.

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Pablo Neruda
É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.


Pablo Neruda

sábado, 31 de outubro de 2009

Dai-me talento



Tenho tanta coisa dentro do peito
Em forte ebulição, pronta a sair.
As coisas estão alvoroçadas
Como está a terra na água do rio
Que corre veloz, com as trovoadas.

Quero soltar as palavras
Para que a enxurrada decante
Para que o meu rio amanse
Mas falta-me a coragem, a arte
E o engenho para construir frases

Dai-me sabedoria se a tiverdes
Para que o meu grito seja vosso
E para que quando me ouvirdes
Seja de todas, seja nosso.

Sem compreender a razão
As palavras não se libertam
E os remoínhos da minha alma
Que tudo agitam, amansam.

E as minhas palavras aconchegadas
Formam aluvião no fundo
Na espera de serem semeadas
E com a luz despertas
Aquecidas, germinadas.

Dai-me talento
Para deitar para fora as palavras
Na minha alma aconchegadas
Inúteis, caladas.

Quero que gritem o desespero
Das mães esfomeadas
Que assistem à morte dos filhos
Ossos com as barrigas inchadas.

Quero que gritem a humilhação
Das mulheres aprisionadas
Das crianças violadas
E a sua carne vendida
Para prazeres, mas não amadas.

Quero gritar por aquelas
Que de tanta violência sofrerem
Já não sentem o corpo nem a alma.
Impotentes, deprimidas
Já não têm auto estima
Nem forças para reagirem.

Quero gritar por todas aquelas
Com salários de mulheres
E duplicados os seus afazeres
Se escapam sempre a correr.
Embalando os filhos, dormem de pé
E voltam e correm
Ao seu salário desigual, de mulher.

Dai-me talento.
A escrever, quero gritar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Meto-vos na cadeia




Não te escondas atrás da máscara branca
Que mostras ingénua, pura, divinal.
Já não enganas ninguém
A máscara com que te escondes
É feita do vil metal.

Despe-te
Desce
Aos calabouços dos mortais.

O que é isso?
Perguntas com desdém.
Os calabouços para mim
Não são iguais aos demais.
Os crimes de que me acusam
Usam camisa alva pura
Tão branca como a minha máscara
Que me impedem a clausura.

O vil metal?
Mas que injúria!
Eu processarei quem me acusar
Nestes cargos que comprei
Muito me custou a ganhar.

Demitir-me eu?
Mas nem pensar.

O povo que se esmifre
Que se cosa, que se lixe
Que trabalhe sol a sol
E neste alto paiol
Cá estou eu para o roubar.

Não me insultem ou difamem
Não me teçam nenhuma teia
Porque olhem que daqui onde estou
Meto-vos a todos na cadeia.

Guardo


Esboçaste um sorriso triste mesmo quando falaste de coisas que aparentemente te dariam alegria.
Agora vejo que estavas triste. Tarde de mais eu vi!...
Sempre foste reservado.
Torpe, não pressenti.
Quando me envolveste nos teus braços e me disseste sem palavras o adeus, não sabia que seria um adeus, pensei que fosse um até qualquer dia.
Também tu não sabias; dois meses depois o soubeste.
Precipitaste-te para o abismo, ninguém sabe ao certo a razão...
Tantos porquês proferi, outros tantos ouvi.
Cerrei os lábios, rangi os dentes, numa mistura de raiva e desespero. Firmei os pés ao chão trémulo e sem te olhar, saí.
Tu guerreiro, desististe de lutar. Desististe com a tua razão mas que afinal seria insignificante se a tivesses partilhado.
Poderias ter vivido ainda tanto tempo!
Quão precioso tempo, quão necessário tempo!
Guardo no cofre dos meus sentires a tua voz, das conversas do que foi o nosso último almoço.
Guardo no meu corpo o calor do teu último abraço.
Não preciso de te dizer o quanto era teu amigo; tu sábe-lo.
Se a energia que tinhas vaguear junto aos meus passos, acerca-te de mim... para nos unir-mos em abraços.
Até um dia, meu amigo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Aos meus filhos


Cortei-te o cordão para te soltar
Quero livre tudo o que amo.
Cortei-te o cordão
Rente ao teu umbigo
Para te deixar voar.
Com o primeiro grito
Quando de mim saíste
Foste senhor de ti.
Com o pedaço de cordão
Que em mim ficou
Velo-te de noite em sonhos
Vejo-te através das neblinas
De dia.
Nas tuas pupilas vejo espelhados
Os temporais, as enxurradas.
Nos movimentos das tuas pernas
Adivinho as tuas felizes caminhadas.
Deixo-te livre
E, como a ua andorinha
Que em cada Primavera volta
Pressinto-te no meu beiral
Livre
Sempre.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Depois, regressa firme!


Pronta a levitar
Olhas o céu
Escolhes a nuvem
A mais fofa
Onde te possas deitar

O que vislumbras, mulher
A olhar para o teu céu?
Queres soltar-te
Do mundo que não é teu
Mas os teus pés estão presos
Como preso está
O teu olhar.

Solta-te, vai!
Em sonhos
Parte em viagem.
Mas antes da partida
Grita ao mundo
Destemida
Que o sentes imundo
Para ti injusto
Sem rumo.

Depois voa, mulher!
Solta os pés da rocha fria
Liberta-te dessa friagem
Segue os teus sonhos
Parte em viagem.
A seguir
Regressa firme
E luta.
Nada é impossível
Com o teu querer.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Enxurradas de sentires



Enxurradas de sentires te acordam
Nas orvalheiras do Outono
Te levam
Para granizos doutras trovoadas
E te banham
Nas águas de outras marés.


És um pássaro
Que vai e que vem
À procura do que tem
E nunca tem
E que nem na Primavera
Respirou o ar que chegasse
Nos remoinhos de vento
Desse tempo
Sem a ousadia para respirar
Em invencíveis ciclones
Que o revigorassem…
Que o enlouquecessem…


Amedrontavas-te
Com a ideia de que a colheita
Pudesse ficar desfeita.
Acabaste por respirar
Apenas uma doce brisa
Sonhando com remoinhos
Ciclones, enxurradas,
Ventos Norte, vendavais.


As folhas secas do Outono
Nos caminhos, em remoinho
Fazem os teus passos débeis.
O ar cortante a anunciar o Inverno
Arrefece o forno que te aquecia
E enregela o teu respirar.


Enxurradas de sentires te embalam…

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Voo



Sou aquela que procura paz
E que nem sempre a encontra.
Sou um puzzel onde há uma peça
Que não encaixa.

Resvalo…
A custo levanto-me e continuo a resvalar.
Em tudo resvalo
No tempo que não tenho e no tempo que me sobra
Nos caminhos tortuosos e nas alamedas perfeitas
Nos rios limpos e nos lagos lamacentos
Nos pisos gelados e nos caminhos secos.
Resvalo...
E embato contra mim própria.

Vasculho…
Há sempre algo que não encontro
Algo que se perdeu
Numa núvem de poeira.

Os olhos procuram, lacrimejantes
Em pestanejar constante.
Fixos e ausentes deixam de pestanejar
E de repente
Algo vislumbram
Num canto esquecido, amarelecido.
Será essa a peça que procuro
Aquela que me falta encaixar?
Tento arrancá-la à força
Mas não a posso despegar.
Desvio o olhar
E não há nada.


Caminho...
Continuo a minha vida
A paisagem onde falta
Um pedacinho de azul no céu.

Voo ...
Em direcção ao azul.

sábado, 3 de outubro de 2009

Não!!!!


....indecisa, segue um carreiro, sem saber o destino...
Caminha,... caminha e vacila.
Arrefece
É maresia
Pegajosa e húmida.
Estremece...
Com o ronco que vem do fundo
Da falésia gigantesca
Pára assustada e treme.
As vertingens enrolam-lhe o cérebro
E reclina-se para o abismo!
Não!!!!
A custo, recua...
A escarpa a pique
As pernas a tremer
O suor frio
O mar enraivecido

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Na minha cegueira



Quero mergulhar no verde dos teus olhos
Cobrir-me com o algodão das tuas pálpebras
Ser em ti barco à vela
Entregue ao sabor das tuas danças.
Quero mergulhar nas tuas lágrimas salgadas
Banhar o meu corpo no teu leito, esquecida
Perdida no tempo e no espaço, acariciar-te
Em leve vaivém, entrega apetecida.


Depois, quero ficar em contemplação
Seguir os teus contornos no horizonte
De olhar fixo, ausente, sem destino
Percorrer-te à deriva, entregue à sorte.
E, encandeada pelos clarões dos espelhos
Que me apontas e me cegam
Perder-me na minha cegueira, …..sem norte.

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