Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Porquê


Porquê que não te achei amor
Há muitos dias
E os meus pés
Não trilharam os teus passos.
Porquê que não te achei amor
No volátil das artérias
E os meus braços
Não encontraram
Os teus abraços.
Porquê que não te achei amor
No cimo da montanha
Trepada a sete fôlegos
Quando os rios eram lava
A escorrer em vales fundos.
Porquê que não te acho
Em cada esquina
Em cada madrugada
Em cada sombra
Em cada sol
Em cada estrela
Em cada rua
Em cada viela
Em cada fio de água morna
A percorrer-me as veias
A encher-me a alma.
Acho-te no cansaço
Dos dias escassos
Das noites despertas
Dos rios mansos.

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Pablo Neruda
É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.


Pablo Neruda

sábado, 31 de outubro de 2009

Dai-me talento



Tenho tanta coisa dentro do peito
Em forte ebulição, pronta a sair.
As coisas estão alvoroçadas
Como está a terra na água do rio
Que corre veloz, com as trovoadas.

Quero soltar as palavras
Para que a enxurrada decante
Para que o meu rio amanse
Mas falta-me a coragem, a arte
E o engenho para construir frases

Dai-me sabedoria se a tiverdes
Para que o meu grito seja vosso
E para que quando me ouvirdes
Seja de todas, seja nosso.

Sem compreender a razão
As palavras não se libertam
E os remoínhos da minha alma
Que tudo agitam, amansam.

E as minhas palavras aconchegadas
Formam aluvião no fundo
Na espera de serem semeadas
E com a luz despertas
Aquecidas, germinadas.

Dai-me talento
Para deitar para fora as palavras
Na minha alma aconchegadas
Inúteis, caladas.

Quero que gritem o desespero
Das mães esfomeadas
Que assistem à morte dos filhos
Ossos com as barrigas inchadas.

Quero que gritem a humilhação
Das mulheres aprisionadas
Das crianças violadas
E a sua carne vendida
Para prazeres, mas não amadas.

Quero gritar por aquelas
Que de tanta violência sofrerem
Já não sentem o corpo nem a alma.
Impotentes, deprimidas
Já não têm auto estima
Nem forças para reagirem.

Quero gritar por todas aquelas
Com salários de mulheres
E duplicados os seus afazeres
Se escapam sempre a correr.
Embalando os filhos, dormem de pé
E voltam e correm
Ao seu salário desigual, de mulher.

Dai-me talento.
A escrever, quero gritar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Meto-vos na cadeia




Não te escondas atrás da máscara branca
Que mostras ingénua, pura, divinal.
Já não enganas ninguém
A máscara com que te escondes
É feita do vil metal.

Despe-te
Desce
Aos calabouços dos mortais.

O que é isso?
Perguntas com desdém.
Os calabouços para mim
Não são iguais aos demais.
Os crimes de que me acusam
Usam camisa alva pura
Tão branca como a minha máscara
Que me impedem a clausura.

O vil metal?
Mas que injúria!
Eu processarei quem me acusar
Nestes cargos que comprei
Muito me custou a ganhar.

Demitir-me eu?
Mas nem pensar.

O povo que se esmifre
Que se cosa, que se lixe
Que trabalhe sol a sol
E neste alto paiol
Cá estou eu para o roubar.

Não me insultem ou difamem
Não me teçam nenhuma teia
Porque olhem que daqui onde estou
Meto-vos a todos na cadeia.

Guardo


Esboçaste um sorriso triste mesmo quando falaste de coisas que aparentemente te dariam alegria.
Agora vejo que estavas triste. Tarde de mais eu vi!...
Sempre foste reservado.
Torpe, não pressenti.
Quando me envolveste nos teus braços e me disseste sem palavras o adeus, não sabia que seria um adeus, pensei que fosse um até qualquer dia.
Também tu não sabias; dois meses depois o soubeste.
Precipitaste-te para o abismo, ninguém sabe ao certo a razão...
Tantos porquês proferi, outros tantos ouvi.
Cerrei os lábios, rangi os dentes, numa mistura de raiva e desespero. Firmei os pés ao chão trémulo e sem te olhar, saí.
Tu guerreiro, desististe de lutar. Desististe com a tua razão mas que afinal seria insignificante se a tivesses partilhado.
Poderias ter vivido ainda tanto tempo!
Quão precioso tempo, quão necessário tempo!
Guardo no cofre dos meus sentires a tua voz, das conversas do que foi o nosso último almoço.
Guardo no meu corpo o calor do teu último abraço.
Não preciso de te dizer o quanto era teu amigo; tu sábe-lo.
Se a energia que tinhas vaguear junto aos meus passos, acerca-te de mim... para nos unir-mos em abraços.
Até um dia, meu amigo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Aos meus filhos


Cortei-te o cordão para te soltar
Quero livre tudo o que amo.
Cortei-te o cordão
Rente ao teu umbigo
Para te deixar voar.
Com o primeiro grito
Quando de mim saíste
Foste senhor de ti.
Com o pedaço de cordão
Que em mim ficou
Velo-te de noite em sonhos
Vejo-te através das neblinas
De dia.
Nas tuas pupilas vejo espelhados
Os temporais, as enxurradas.
Nos movimentos das tuas pernas
Adivinho as tuas felizes caminhadas.
Deixo-te livre
E, como a ua andorinha
Que em cada Primavera volta
Pressinto-te no meu beiral
Livre
Sempre.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Depois, regressa firme!


Pronta a levitar
Olhas o céu
Escolhes a nuvem
A mais fofa
Onde te possas deitar

O que vislumbras, mulher
A olhar para o teu céu?
Queres soltar-te
Do mundo que não é teu
Mas os teus pés estão presos
Como preso está
O teu olhar.

Solta-te, vai!
Em sonhos
Parte em viagem.
Mas antes da partida
Grita ao mundo
Destemida
Que o sentes imundo
Para ti injusto
Sem rumo.

Depois voa, mulher!
Solta os pés da rocha fria
Liberta-te dessa friagem
Segue os teus sonhos
Parte em viagem.
A seguir
Regressa firme
E luta.
Nada é impossível
Com o teu querer.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Enxurradas de sentires



Enxurradas de sentires te acordam
Nas orvalheiras do Outono
Te levam
Para granizos doutras trovoadas
E te banham
Nas águas de outras marés.


És um pássaro
Que vai e que vem
À procura do que tem
E nunca tem
E que nem na Primavera
Respirou o ar que chegasse
Nos remoinhos de vento
Desse tempo
Sem a ousadia para respirar
Em invencíveis ciclones
Que o revigorassem…
Que o enlouquecessem…


Amedrontavas-te
Com a ideia de que a colheita
Pudesse ficar desfeita.
Acabaste por respirar
Apenas uma doce brisa
Sonhando com remoinhos
Ciclones, enxurradas,
Ventos Norte, vendavais.


As folhas secas do Outono
Nos caminhos, em remoinho
Fazem os teus passos débeis.
O ar cortante a anunciar o Inverno
Arrefece o forno que te aquecia
E enregela o teu respirar.


Enxurradas de sentires te embalam…

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Voo



Sou aquela que procura paz
E que nem sempre a encontra.
Sou um puzzel onde há uma peça
Que não encaixa.

Resvalo…
A custo levanto-me e continuo a resvalar.
Em tudo resvalo
No tempo que não tenho e no tempo que me sobra
Nos caminhos tortuosos e nas alamedas perfeitas
Nos rios limpos e nos lagos lamacentos
Nos pisos gelados e nos caminhos secos.
Resvalo...
E embato contra mim própria.

Vasculho…
Há sempre algo que não encontro
Algo que se perdeu
Numa núvem de poeira.

Os olhos procuram, lacrimejantes
Em pestanejar constante.
Fixos e ausentes deixam de pestanejar
E de repente
Algo vislumbram
Num canto esquecido, amarelecido.
Será essa a peça que procuro
Aquela que me falta encaixar?
Tento arrancá-la à força
Mas não a posso despegar.
Desvio o olhar
E não há nada.


Caminho...
Continuo a minha vida
A paisagem onde falta
Um pedacinho de azul no céu.

Voo ...
Em direcção ao azul.

sábado, 3 de outubro de 2009

Não!!!!


....indecisa, segue um carreiro, sem saber o destino...
Caminha,... caminha e vacila.
Arrefece
É maresia
Pegajosa e húmida.
Estremece...
Com o ronco que vem do fundo
Da falésia gigantesca
Pára assustada e treme.
As vertingens enrolam-lhe o cérebro
E reclina-se para o abismo!
Não!!!!
A custo, recua...
A escarpa a pique
As pernas a tremer
O suor frio
O mar enraivecido

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Na minha cegueira



Quero mergulhar no verde dos teus olhos
Cobrir-me com o algodão das tuas pálpebras
Ser em ti barco à vela
Entregue ao sabor das tuas danças.
Quero mergulhar nas tuas lágrimas salgadas
Banhar o meu corpo no teu leito, esquecida
Perdida no tempo e no espaço, acariciar-te
Em leve vaivém, entrega apetecida.


Depois, quero ficar em contemplação
Seguir os teus contornos no horizonte
De olhar fixo, ausente, sem destino
Percorrer-te à deriva, entregue à sorte.
E, encandeada pelos clarões dos espelhos
Que me apontas e me cegam
Perder-me na minha cegueira, …..sem norte.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Outono


Amarelecem árvores
Escapam-se pássaros
Arrefecem corpos
Das paixões de Verão.

Amarelecem vidas
Da vida gastas
Envelhecem sonhos
Em sonhos que não vão

Árvores que se despem
Corpos que se abrigam
Cabeleiras de prata
Folhas sobre o chão

Outono é descanso
Em tons das castanhas
Corpos que se amparam
Nada é em vão

sábado, 26 de setembro de 2009

Onde estou


Nas memórias das savanas
Procuro-me e não me encontro.

Procuro no vermelho do sol
Procuro nas queimadas
Algo que me leve a mim
Algo que me leve a ti.

Onde estou
Que não me encontro
Onde vou
Que nem eu sei
Que caminho foi
O que trilhei.

As imagens estão esbatidas
As memórias desbotadas
As fogueiras apagadas
Dos caminhos nada sei.

Nas memórias do cacimbo
Procuro-me e não me vejo
Envolta na areia do mar
À noite mais ao fresquinho
Procuro-me nesse luar.

Procuro-me nas tuas histórias
Que tinhas para me contar
Que ficaram inacabadas
Em suspiros desse olhar…

Onde estou eu
Na história que não acabaste
Quando de súbito paraste…
…onde estou…

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Livre




Caiste ao chão, rosa
Ou será que não caíste
E foste tu que saiste
Do laço que te asfixiava
Te diminuía e tirava
A liberdade
Que construíste.

Salta para a minha mão
Fresca, rosa amarela
Eu vou plantar-te no chão
Sem laços e sem enfeite
Livre de alma e coração.
Das rosas, a rosa mais bela
No jardim, o meu deleite.

Acolhe-me


Acolhe-me.
Deixa-me entrar!
Abre-me as portas
Da tua alma
Para que eu possa descansar.

Estou tão exausta
Deste caminhar!

Lá...
Deita o meu corpo
Em lençois de seda
Com água fresca
Lava-me as fontes
Salgadas, do meu chorar.

Embala-me...
Conta-me histórias
As que nunca me contaste
Empresta-me magia
Doçura da tua alma
Preciso de repousar.


Pudesse eu


Pudesse eu ter o sol
e o sol seria teu
para que te aquecesse!
Pudesse eu ter a lua
e eu ta daria
para que mantivesses o sonho,
para que te inspirasse!
Pudesse eu ter magia
e a magia seria tua
para que o teu mundo
fosse de encantamento!

Não tenho nada para te dar,
meu amigo,
nesta pobreza que sinto!

As minhas mãos são escorregadias
e nada seguram;
a minha mente distraída
e nada fixa,
tudo se me escapa
como me escapa o pensar.

Quero que a mente se concentre
mas a minha mente
age como se fosse louca
e de repente,
a mente já está a sonhar!...

E sonha com o que viu,
sonha com o que quer ver,
sonha com o que já conheceu
e com o que nunca há-de conhecer.

E sonha,...
e segue sonhando
e com esses devaneios vai andando,
de febre delirando!...

Sim,... achei algo para ti!

Das acácias flamejantes trago-te o calor,
o calor da paixão da minha África,
quente e enigmática.

A lua inigualável
ofereço-te a do mês de Agosto
do meu céu de menina;
aí, a lua vem ter comigo
e entra-me na cama;
poderei oferecer-ta
nem que seja por um momento.

Dar-te-ei a magia
nas bonecas
de flores ou de trapos
que eu fazia.
Com elas terás uma orquestra,
um bailado,
um recital de poesia…

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Gritos

Há tempestades!...
Há destroços!...
Como me sinto cansada de tantos tumultos e doente de tantos insultos!
Nas praias sedentas há destroços dessas tempestades, nos corações há marcas desses insultos, nas crianças há ventres dessas fomes.
As areias, sedentas de paz, reivindicam calmaria, suplicam amor; os barcos destroçados suplicam restauro para as suas velas esfarrapadas, para os seus cascos cheios de rombos; não querem afundar-se mas de tão doentes, sentem que o seu fim estará perto.
Ó Deuses terrenos, acabem com as tempestades, gritam!
Ó Deuses terrenos tiranos, gritamos nós!
Grita-se com um grito de desespero, como se se estivesse a anunciar aos marinheiros o embate eminente no bloco de gelo.
Grita-se com pavor do naufrágio que se pressente.
Grita-se com a dor dos golpes que dilaceram a carne.
Grita-se com gritos surdos porque matam.
Grita-se com a fome e sede, já sem forças para gritar.
Grita-se com sufoco, sem ar para respirar.

Há tempestades nos corações , há tempestades nas almas, tumultos em todo o mundo, destroços em todos os cais!

domingo, 20 de setembro de 2009

Dança




Dançaram à noite na praia, sob o olhar das estrelas e a vigília das gaivotas.
O mastro erguia-se e aquele barco balançava, ao acaso.
O vestido de papel bordado com búzios desfez-se, como se desfaz a espuma quando bate nos rochedos e, os búzios regressaram ao mar, em bailado de marés vivas.
Soltaram-se pela manhã deixando na areia fofa as marcas dos seus corpos, selo branco sem contrato.
Desceu a bandeira no mastro, o barco já não balança.
As estrelas adormeceram.
As gaivotas tocaram a alvorada e acordaram os peixes, aninhados em cardumes.
Fez-se dia.


Nos cabelos do vento


Peço ao vento
que me leve nos seus cabelos,
em viagem sem destino.
Prefiro ir nos cabelos do vento
do que de avião
porque assim observo tudo de perto.
De barco tampouco me atrai,
tenho medo de me afundar.
Os meus braços
não passam de fracos remos
feitos de cana,
incapazes de vencer o mar.
Contradições dos meus sentimentos:
amo-o e odeio-o, de tanto me amedrontar.
O vento ouviu o meu pedido
e levou-me, em viagem;
primeiro em voo sustido,
depois lá bem alto,
onde nem a águia pode chegar.
Tudo vi
com o pormenor
do filme de longa metragem.
Do mar recebi a aragem,
do sol recebi o calor;
espreitei a lua serena
e suas crateras observei,
perdi-me no cintilar duma estrela
e a um cometa me segurei.
Ele exagerou no seu voo
e de tão rápido, enjoei.
Com um grito de desespero
roguei ao vento então,
que os cabelos em tranças fizesse
para que com elas me prendesse
e me pusesse no chão!
Prendeu-me com suas tranças,
como em braço de guindaste
e em viagem alucinante,
na terra fez voo rasante,
dum sopro abriu a janela
dos meus olhos e do quarto,
e dizendo:
A tua viagem acabaste,
deixo-te aqui e eu parto
aos lugares que visitaste.
Fechei a janela ao vento
e as minhas janelas também
recomecei outra viagem,
no sonho que a vida sustem.

Ficou


Passou
Como semente lançada na lagoa
Que apodreceu debaixo dos nenúfares,
com medo de germinar.

Passou
Como pássaro amedrontado,
despenhado contra o rochedo,
com medo do gavião.

Parou
E não atingiu o oásis
Com medo das dunas.

Ficou.
Abraçou o destino.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Solto as palavras


Solto as palavras
como se soltasse um pássaro, aprisionado
numa gaiola de rede fina, anos a fio.

Solto as palavras
como quem solta o mar a espumar de raiva
contra os paredões de cimento,
marés altas a fio.

Solto as palavras
como quem solta um condenado
por um crime que não lhe pertencia
e que aos poucos se sentiu morrer,
dias a fio.

Solto as palavras
e os meus pobres dedos deslizam no teclado
ou conduzem a caneta,
aprisionados pelos sentires
que saem de uma alma inconformada
e dum coração despedaçado
pelas injustiças e crueldades da humanidade.
Batem com força nas teclas,
marcam vincos no papel,
como se estivessem a gravar a cinzel
para a eternidade.

Solto as palavras, tão frágeis
como um pássaro ferido
que fechado,
ao se querer libertar
bate contra o vidro
e sai a sangrar.

Solto as palavras, inaudíveis
quando gritam
contra os interesses instituídos,
tão difíceis de mudar.

Solto as palavras, impotentes
quando se insurgem
contra a desonestidade,
a incompetência,
a sede de poder,
a maledicéncia,
um sem fim de injustiças
que urge acabar.

Solto as palavras!....

Vestido de folhos


Caminho descontraída
Olhos fitam-me
Sem me verem
Olhos olham-me
Sem me olharem.
Multidão distraída
Ausente
Distante
Dorida
Perdida.

Finjo ser cigana
Vestido de folhos
Cabelos ao vento
De negro pintados
Quero distribuir sonhos
Quero dar alento
Aos desventurados.

Digo à multidão
Senhor, Senhora
Vou-lhe ler a sina
Na palma da mão.

Uma mão aqui
Outra acolá
Leio linha deste
E daquela lá
E das linhas da mão
Eu saco sorrisos
Eu prometo filhos
Trabalho, pão
Saúde, fortuna
Amor, união.

E aquelas gentes
De ar carregado
De passo apressado
Esboçam um sorriso
Pois sabem lá
Se aquela cigana
Que não sendo cigana
Teria acertado.

O seu semblante
Notou-se aliviado
E o seu coração
Passou a bater
Muito mais acertado.

Sou fábrica de sonhos
E mar de sorrisos
Vestida de folhos
Cabelos ao vento
Eu pobre cigana
Não sendo cigana
Eu faço sonhar
E brilho no olhar
E por um momento
Empresto paraísos.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sou tua

Quisera eu fazer sair da minha fonte
as palavras em catadupa, transbordantes
e te dizer que te sinto, te quero
e que é nos teus braços
que me aconchego e,
no cheiro do teu corpo me perco.

A fonte de águas cristalinas secou neste inferno estival
e com ela secaram-me as palavras com que te queria cantar,
meu planalto escaldante.
Os meus lábios não te sorriem de gretados, ao olhar-te
e tu olhas-me, em desespero suplicante.

Reguei-te com o meu suor e com a água fresca
que saiu das tuas entranhas e,
regado, rejubilavas durante a noite
mas quase que perecias durante o dia,
queimado pelo sol, agitado pelo vento seco
e te dobravas sobre ti mesmo em agonia de morte, de desespero,
em pedidos de socorro,
olhando o céu à procura de uma nuvem
que te trouxesse chuva.

Secaram-me as palavras
como te estás a secar, meu planalto…

Queria deixar-te um poema antes de partir,
um poema que te fizesse sorrir.

Saiu mudo, o meu poema!...

É um poema de sentires,
sem palavras nem métricas nem rimas.

Não rima dor, com a falta que me fazes;
não rima amor, com os teus poentes vermelhões,
com os teus nascentes roxos e laranja,
com os teus horizontes em que me deito e sonho,
com a côdea dura do teu pão que amoleço e me mata a fome.
Não rima estontear com os teus cheiros,
emudecer com os teus sons,
sonhar com os teus silêncios,
dormir nas mantas que me estendes, nos lameiros
sentir com os teus sentidos.

Não te deixo palavras em catadupa,
porque as não tenho
nesta fonte que julgo seca.
Entrego-te a fonte…
Sou tua para sempre!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

No dia em que chorei para dentro


No dia em que eu chorei para dentro,
Fez-se um dilúvio na minha alma,
lágrimas secas,
dor que não acalma.

No dia em que eu chorei para dentro
O rio cresceu e transbordou,
a minha alma inundou,
Os meus olhos secou.

Secou com dores tamanhas,
cortou-me o respirar,
tirou-me o gritar
e engoli o sentir,
em vez de chorar.

Nas minhas entranhas
formaram-se cristais de sal,
pedras, tal e qual,
tamanhas…

Enfim houve um dia
que fundo respirei,
os cristais quebrei,
a minha alma restaurei
e, nos meus olhos,
as comportas rebentaram,
as lágrimas saíram,
as minhas dores aliviaram.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Levarei asas e inquietude


Viajo sem mala, apenas uma trouxa leve onde levo as asas com que voo nos meus sonhos para um mundo diferente onde, as gotas eternas de orvalho são pérolas que me ofereces, onde o respeito seja a bandeira, onde a paz impere, trazida por pomba branca, sua mensageira.

Carrego nos bolsos a minha inquietude, a minha esperança, a minha sede de mudança, a minha estrela para acender, para que, nas noites escuras ela possa alumiar em plenitude, o mundo, as mentes.

Não, não me digas que não chego!

Eu sei que quando quero, quase sempre me supero.

Não, não me digas que não vá!

Irei como a formiga seguindo o seu carreiro, carregada de futuro, contornando, circundando, seguindo, nos seus intentos persistindo.

Não levarei rodas, isso não!
Não quero atropelos, levo as minhas asas para não ferir ninguém pelo caminho.
É com elas que viajo, plano sobre o mar, olho-me no espelho da água, falo com as gaivotas e com elas canto e danço.

É com elas que sobrevoo o meu planalto, pare te ver Terra Quente, a suar de cansaço, a morrer de sede, a arder em chamas de promessas, de intentos. Vejo-te Terra Quente, vejo-te a arder em febre, delirante e crédula, manipulada a pobre gente.

Não, não quero rodas e também não quero pés! Não me peças para os levar.
Pois tu não vês que com as rodas eu posso ferir e com os pés eu posso pisar?

Na minha bagagem levarei as minhas asas, envolvidas na minha inquietude!...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Não!


Não tentem amordaçar-me
que a seguir corto a mordaça
Não tentem nunca calar-me,
na mesma gritarei a quem passa.

Gritarei contra o compadrio,
contra a injustiça, a corrupção,
contra quem protege os ricos
e aos pobres tira o pão.

Gritarei contra os promotores
de politiquice bacoca,
maldicencia, caciquismo,
cego partidarismo,
prontos a fazer batota.

Podem cortar as minhas mãos
porque na mesma escreverei,
farei dos cotos a minha arma,
no teclado gritarei.

Gritarei a liberdade,
a justiça social,
nos direitos a igualdade,
nos deveres a obrigatoriedade,
tratamento por igual.

Chamem-me poeta decepada
Poeta maneta, não!
Chamem-me poeta amordaçada
Poeta silenciada, não!


Hei-de escrever em papel,
hei-de escrever na Internet,
hei-de dizer as verdades,
bem alto a toda a gente.

E quando a força me acabar
i eu for para as estrelas,
lá continuarei a lutar
e a escrever junto delas.

domingo, 9 de agosto de 2009

Fugas

Acordei com o olhar indiscreto da lua a entrar-me no quarto através do cortinado fino que tapa a janela, acima da cabeceira da cama. Julguei que se tratasse da luz difusa da aurora e dum amanhecer que se aproximava. Sentei-me na cama, puxei o cortinado e espreitei o céu em direcção a poente, a orientação do quarto. Depressa me apercebi que por cor diferente não se tratava de um amanhecer, mas sim da luz lunar, daquela lua tão solitária quanto bela.

Embora o céu estivesse estrelado, aquela lua de Agosto, tão enigmática e bela sentia-se só. Os habitantes da aldeia não lhe dão a atenção que ela gosta de ter e, em vez de apaixonante passa a lua indiscreta que interfere com as sementeiras, colheitas, corte de madeiras.
Levantei-me e debrucei-me sobre o parapeito duma janela na mesma orientação. A lua olhou-me enigmática, apaixonada, perante a cumplicidade de Vénus. Ali fiquei a contemplar o céu como se fosse a primeira vez que via a lua a pôr-se, no preciso ponto em que todas as tardes de Verão o Sol se põe. Na verdade já não me lembrava do pôr da lua; telo-ia visto muitas vezes em menina quando acordava muito cedo para ir para as ceifas, mas na verdade não me lembrava.
Assim foi descendo gradualmente e com Vénus e as estrelas foi desaparecendo no horizonte, com a dignidade que só uma Lua pode ter. Antes que a luz traiçoeira do Sol lhe retirasse o brilho partiu triunfante para, deslumbrante, reaparecer na noite seguinte, do lado oposto do céu.

Eu, ser minúsculo deste universo magnífico, senti-me infinitamente mais pequena, perante tanta beleza!...
Vesti-me à pressa. Decidida a observar o nascer do Sol, subi o monte que mo retarda, no mínimo quinze minutos. Quando o sol me entra pela cozinha já vem quente e com brilho intenso.

Subi apressada e mais à frente, no Serro, no planalto, sentei-me numa pedra de granito no meio de uma terra lavrada, de fronte para aquela luz ainda discreta que se mostrava sobre o monte da Senhora da Luz e ali fiquei, descalça, pronta a receber o sol e a força que ele tinha para me transmitir.

Magnífico, exclamei!...
Assim fiquei a registar as várias tonalidades do céu, como que a captá-las para uma tela. Alaranjado junto ao horizonte, ia esbatendo para esverdeado e acima lilás a fugir para roxo. Estes tons eram reflectidos nas discretas nuvens que se espraiavam no céu o que dava ainda mais beleza àquele nascer do Sol.
O laranja foi gradualmente aumentando e tornando os restantes tons mais discretos até que desapareceram com o intensificar do brilho daquela bola que saiu do horizonte tão distante, neste planalto magnífico.
E assim fiquei, estática, absorta, a pensar na Lua e no receio que ela sentiu em enfrentar aquela luz. Também eu não suportei muito tempo aquela força da natureza que surgiu e depressa os meus pobres olhos começaram a lacrimejar.
Fiz o percurso inverso. Queria chegar ao cimo do monte sobranceiro à aldeia antes da luz do Sol. Aí, sentei-me no chão junto às giestas. O sol foi iluminando gradualmente os telhados da aldeia depois de em primeira mão ter chegado às carvalheiras da Moura, onde a lua se fora. Os telhados dos pontos mais altos em vários locais da aldeia começaram a receber a luz, a torre da igreja, os frondosos freixos de S. Lourenço e finalmente a minha casa que por ser a mais próxima do monte foi a última a ser cumprimentada pelo Sol.
Desci e dirigi-me a casa. O vício do café da manhã chamou-me…

terça-feira, 28 de julho de 2009

De olhos fechados

De olhos fechados, velo-te serena,
como se fosse a lua. Não te vejo mas
imagino os contornos do teu corpo e
tatuo as minhas carícias na tua pele
morena, em sulcos de ternura.

Sinto o calor dos teus beijos
na minha boca sedenta e
aconchego-me nos teus braços,
lianas que me envolvem
e onde leve me balanço.

Desfolho as flores de esteva
e tomilho que colhi no campo
e te ofereço num cesto de vime
para me que me cubras o corpo nu,
para que me perfumes.

Depois, passo para o teu corpo
o perfume do meu, aroma bravio,
o mesmo cheiro onde me perco,
onde nos perdemos os dois,
onde nos encontramos depois.

Sei onde estás e caminho contigo
de mão dada pelas areias brancas
de uma praia, sob o olhar da lua,
reflexo prateado num mar sereno,
em vigília, feitiço, sonho ameno.

Nas águas prateadas daquele mar
molho os pés e com a mão em concha
salpico-te e tu, divertido,
como um menino,
corres atrás de mim,
para me salpicares também.

Alcanças-me. Caímos envolvidos,
embalados pelo som do mar
e aquecidos, esquecidos, os nossos corpos
dançam em sintonia, humedecidos,
em simbiose de calor
e fresco de maresia.

Sussurros doces ao ouvido,
abafados e que de tão abafados
se perdem
e assim ficamos,
ondas de mansinho,
voz de mar,
gaivotas de rochedos,
adormecidos, esquecidos,
corpos cobertos de luar.

Amigo, recupera os teus sonhos


Que fizeste dos teus sonhos,
amigo?
Desiludido, cansado,
entregaste-te à má sorte,
dobrado,
esperas a morte
que sentes como vida,
pela vida que não sentes.

Levanta-te amigo!
Olha a lua!
Por vezes tão enevoada
tão triste e sombria,
reaparece renovada,
resplandecente
e cheia de alegria,
te ilumina os passos.

Vem amigo!
Faz do meu ombro
o teu porto seguro,
faz do meu coração
a tua âncora,
do meu calor
a tua manta,
entrega-me em palavras,
a tua dor.

Abre as janelas da tua alma,
retira todos os cadeados
mesmo aqueles mais cerrados,
faz de ti a porta aberta
por onde te entre a luz
e o calor que te aqueça.

Amigo,
Recupera os teus sonhos
!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Era pouca, a terra!...

…era pouca a terra para tanta gente!…

Fiquei a matutar naquilo que me disse duma forma tão serena e com tanta sabedoria.
Por isso as pessoas se fizeram lutadoras; nada é por acaso, continuava o menino…

Possui muita terra agora, mas continua a ser o mesmo menino como se não tivesse terra nenhuma. Segue sem parar, perseguindo os seus sonhos, caminhante agarrado a um pau para se encostar, deixando transparecer uma inocência cândida do menino que foi.
E assim segue lutando.
Tal como formiga a carregar comida para o formigueiro, segue o menino, sem descansar, como se estivesse a lutar por um bocadinho de terra para que o pão chegue para o ano inteiro, para que possa matar a fome aos filhos.

… é demasiada a terra, agora!
Como?
Se a terra não cresce!!!

Diminuiu a gente, há enxadas a mais, há terras de sobra doentes…

Deseja tirar o sofrimento àquela terra. Ouve-lhe os lamentos e gritos de solidão que não são mais que os lamentos e gritos surdos que do seu peito saem, quando dela se aparta…

Um dia matarão a solidão os dois, ele e a terra e, aquele menino voltará a brincar com a fisga por aqueles campos e fraguedos, perseguindo sonhos , coração renascido, terra outra vez com dono.!...

sábado, 25 de julho de 2009

À espera de um sorriso

Espero.
Uma espera sem tempo,
passos que passam
sem quase passarem,
olhos que me olham
sem me verem,
braços que se movem,
sem me abraçarem.
Cansada desta espera,
quem espera desespera
e neste esperar,
nesta angústia que dói e desatina,
nesta solidão a que o relógio me destina,
na torre da igreja,
sem se importar,
sou…
empurrada, comprimida,
esmagada.
Páro, encosto
e, ao lado da multidão vejo um rosto,
o do menino
que mendiga
e me oferece
O sorriso.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Libertei as palavras


Desatei as palavras
e deitei-as a voar…

As palavras assim libertas
juntaram-se a uma nuvem branca,
nun poema.

Declamei o poema com vigor
para tu o ouvires,
para fazer sair da tua alma
um sorriso,
ainda que triste…

Mas não!
A tua alma não ouviu o meu poema,
mesmo em gotas duma nuvem…

Esboça um sorriso...
Quero ver os teus olhos a brilhar
ainda que seja com uma luz ténue,
como a luz de uma candeia
que com uma brisa
se possa apagar.

Apagou-se a luz...
Apagou-se o poema...

Procurei-o na noite…
mas o poema voltou para a nuvem branca
e, desiludido...
por falta do teu sorriso,
como uma estrela cadente,
…calou-se para sempre...



.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sem saberes a razão




Menina!
Lâminas penetraram o teu corpo íntimo,
houvem-se gritos de dor e morte.
Há sangue na terra vermelha,
derramado pelo teu corpo pequenino.
Quem sabe se a insensibilidade
que te impuseram com aquele golpe
não será o golpe de morte?
Ouço os gritos da menina,
ouço o desalento da mulher.
A cultura e o tribalismo,
a ignorância e o egoísmo
querem-te mulher submissa,
cumpridora do dever de mulher,
mas tu menina és menos mulher
desde que a tua mãe te entregou a carrascos,
facas cortantes, lâminas que castram, costuras,
no ritual de passagem.
Menina!
Menina, mulher mutilada,
não uses tu a bandeja,
não entregues o frutos das tuas sementes ao carrasco!
Menina tão pequenina, que poderás tu fazer?
Menina, mulher mutilada,
exige que a tua filha possa ser mulher!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Noite sem fim


Fugiram-me as estrelas
na palidez da lua.
Sustenho gritos de dor,
lamentos,
tenho o coração ferido,
partido.
Instalou-se a noite,
a noite fria.
O céu está vazio,
foram-se as estrelas
na palidez da lua.
Ficou a noite.
Levem-me esta noite,
tirem-me da escuridão,
eu morro de frio.
Os meus sonhos!
Devolvam-me os sonhos!
As minhas estrelas!
Devolvam-me as estrelas!
Ah, esta noite sem fim!…

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Danço-te


Danço-te…
Em valsa
Sala dourada
Leveza
Flutuando
Embalada
Danço-te…
Em tango
Paixão
Quando me empurras
Me afastas
Me puxas
E com o olhar
Sedução
Me bebes
Desejada
Danço-te…
No ritmo do samba
Quando vibro
Em movimento
Livre
Extasiada

Danço-te…

Que há para além...




Abro a minha paisagem
Passagem
Para além do agora
Porta aberta
Janela aberta
Silêncio
Aurora
Que há para além do rio
Feito de lágrimas
Dos justos
Que há para além do rio
Feito de favores
Dos corruptos
Que há para além do rio
Dos que morrem
Indefesos
Dos que vivem
Amordaçados
Dos que são
Injustiçados
Que há para além do meu rio
Feito de alegrias e penas
De sonhos
Feitos poemas
Em mim
Que conheço
E do que
Desconheço
Em mim...
que há para além...

domingo, 19 de julho de 2009

Os filhos que tu pariste

Carregas nos ombros,
um fardo que não pediste,
carregas na tua alcofa,
desdita que não pariste.

Curvada sobre ti mesma,
não dobrada na tua sina,
hás-de vencer a batalha,
hás-de vencer, destemida!

E vais-te livrar do fardo,
da vida que agora carregas,
da servidão, da fome
e da injustiça que renegas.

A enfrentar a multidão,
seguirás de punho em riste,
para da tua servidão
para sempre te libertares
e na alcofa só carregares,
os filhos que tu pariste.

sábado, 18 de julho de 2009

No meio de nada

Dores...
Dores de não te ter,
me trespassaram,...
dores de te ter e te perder,
me esvaziaram...
Caminho,
sem rumo,
sem destino e,
procuro-te...
no meio de nada:
Numa fonte,
no fundo dum copo
de bebida inacabada,
na flor a brir,
no orvalho da manhã,
na borra de café que secou,
no gin tónico que evaporou,
na lágrima que deslizou
e me inundou.
Procuro no fundo da minha essência,
algo me preecha este vazio...
...penosa ausência.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Falo de amor


Falo de amor
como quem compõe uma sonata
ou toca piano, dedilhando teclas.
Falo de amor
como quem toca guitarra
e lhe rouba sons
para uma serenata.

Falo de amor
como quem toca violino,
encostado ao ouvido,
junto ao coração;
vibração de cordas,
vibração de sentidos,
sons tristes, alegres,
sons que são gemidos,
melodia de amor,
dor, perda,paixão.

Falo de amor
como quem lê a partitura,
como quem rege a orquestra,
sempre em vibração;
melodias suaves,
sons que são loucura,
olhos que se olham,
movimentos,
cordas, teclas,
sopro, percussão.

Paleta cromática de letras


É nas tintas que mergulho
e esqueço
tempestades de areia
que me incendeiam os sentidos.
É em ti paleta de cores
da terra que piso
que me liberto e prossigo.
Ah tela branca
que me amedrontas
quando te penso,
és folha branca
em que me meto
e liberto!
Acerquem-se de mim
e libertas,
vivamos a vida,
esperança renascida.
É nas palavras que navego,
e luto
contra os uivos do vento
que me secam a pele,
me secam a boca,
me lançam
contra mim própria.
É nas tintas do poema,
nesta paleta de letras cromáticas
que me encontro,
amo, vivo
e me perco...

Paraísos celestes

Mergulho na música dos violinos…
O som dos violinos
faz-me esquecer o mundo;
por momentos deixo de existir.
Ausente, com aquela música divina
que me entra pelos ouvidos,
pelos poros e me arrepia,
faz-me caminhar
por mundos que desconheço,
por paraísos celestes.
Depois, os violinos esvaem-se
e quase que perecem
em sons de agonia,
e se despedem;
sons tão ténues,
quase imperceptíveis,
como que presos à vida
por uma linha de teia,
um fio de seda!…
Aos poucos ganham fôlego,
recomeçam e,
rapidamente o som se eleva
tão fortemente
que o meu corpo se agita,
o coração bate descompassado
e os violinos gritam,
choram,
gritam,
em desespero,
em delírio,
em euforia.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Que sabes tu?



Que sabes tu da miséria,
se vives alienado?
Passas,
de coração engravatado,
pontapeias o papelão
que me serve de colchão,
e continuas apressado.
Que sabes tu da fome,
da fome e raiva que sinto,
se vives empanturrado?
Raiva das intenções,
fome de oportunidade,
de justiça,
raiva da podridão,
da maldade,
dos empresários
que por ganância,
querem mão de obra barata
e vão.
Que sabes tu de mim,
deste andrajo que tu vês?
Pensas tu que eu era assim
e sou preguiçoso talvez?
Roubaram-me tudo:
O trabalho, a casa,
o meu mundo, a dignidade,
a água para me lavar;
e a idade
é pouca ou muita,
conforme lhes interessar.
Que sabes tu de mim,
deste monte de farrapos,
nas arcadas da tua rua?
Eu que era bem vivido,
bem falante
e tal como tu, pedante,
nesta verdade crua,
agora virei sem abrigo.

Que sabes tu?
Nem eu sabia!...
Um dia!...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Rasga!


Rasga o caminho
rasga a calçada
rasga-me os pés,
para que não pise
e voa comigo.

Rasga-me o peito
amargurado,
o coração bata
descompassado
e bate comigo.

Rasga-me a alma
aprisionada,
para que se solte,
que se liberte
e solta-te comigo.

Rasga-me a roupa
rasga-me a pele
com os teus beijos,
os teus abraços
e fica comigo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O silêncio das palavras


Esperneio as palavras,
empurro-as contra a parede,
para definir-me;
quero corrigir-me,
mas as palavras
remetem-se ao silêncio,
nada me dizem.

Porque serei eu aquilo
que não quero
e trilho
os caminhos gretados,
pés descalços,
cansados?!!

Porquê que
quando quero,
a seguir não quero,
porque não devo?!!

Porquê que
o poder da razão
se sobrepõe
à leveza do coração
e o faz sangrar perdido
desvanecido,
golpeado de morte,
entregue à sua sorte?!!

Agito as palavras
num frenesim de loucura,
numa ânsia de afogado,
mas as palavras,
fechadas em clausura,
em pacto com o não querer
que me aprisiona
e não me deixa ser,
remetem-se ao silêncio,
a este silêncio...
ao meu silêncio,
o silêncio das palavras.




Vem à noitinha!




Não te despediste, rouxinol
E partiste sem mais nem menos.
Sinto que te perdi!
Falta-me o teu canto pela madrugada,
Pela manhã, pela tardinha;
Volta para mim
Vem visita-me ao menos, à noitinha.

Perdi-te meu amor
E perdida fiquei eu.
Mas como pode alguém perder,
O que nunca lhe pertenceu?

Nunca te tive,
Nem te poderia ter.
Tu és livre!

domingo, 12 de julho de 2009

Sabemos nós

Que sabe de nós o mundo
Que sabem de nós?

Dos nossos anseios, dos nossos receios,
das nossas derrotas, das nossas vitórias,
em nós perdidas em nossas memórias ,
em nossos ais,
nas dores i síndromes menstruais,
nas dores maternais,
nas mudanças hormonais,
a menos e a mais!

Dos nossos desejos,
dos nossos prazeres,
sentidos ou não,
perdidos, fingidos,
das nossas culpas,
das nossas desculpas,
do nosso perdão.

Que sabe de nós, o amigo,
o eis e o companheiro,
o patrão?
Que sabem de nós?

Das nossas olheiras,
das nossas canseiras,
das estrias, da celulite,
dum filho que tem uma otite
e da filha que fez asneiras.

Que sabes dela?
Da cintura que escapou,
do verniz que estalou,
do cabelo que não arranjou,
da boutique que não visitou,
do dinheiro que não esticou.

Sabemos nós!...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Com o sal do mar


Fiz um poema
enquanto nadava
na água do mar.

Para o escrever e
à procura de letras,
senti-me tão leve
que eu já flutuava.

Em braçadas de frases,
gravei-lhe emoções,
nas águas liberta,
libertei o poema,
de cadeias, prisões.

Escrevi-o nas conchas,
nas algas marinhas,
nas pedras do mar,
gravei-o no céu
azul a brilhar.

Na onda gigante,
com ele a saltar,
libertei o poema
para ele se secar.

Escrevi um poema
com o sal do mar.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Coitado do poeta!


Não vala a pena estragar a noite,
a madrugada.
O poeta está vazio
e o poema fugiu,
entregue à sua sorte,
em desvario.

Deram um mote ao poeta
mas o poeta não gostou;
deram versos ao poeta
e o poeta não aceitou.

Deixem livre o poeta,
para os seus dedos
parirem o poema...

Musa inspiradora
desce do teu céu,
dá-lhe inspiração!

A musa chegou,
mas o poeta
em abandono,
morto de sono,
à musa disse que não.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Ama-te, mulher


Porque te escondes atrás das grades da prisão em que te enclausuraste?
Porque te escondes numa concha que te asfixia?
Destrói os estores opacos da alma e olha para dentro de ti.
Puxa a cortina que tens nos olhos e olha para fora de ti.
Vês?
Os teus lhos são brilhantes,
o teu corpo é sensual,
a tua alma é cristalina e,
vês mulher, tu és dona do mundo, do teu mundo...
Tu és dona de ti.
Rebenta os muros que te vedam a alma e te tornam escrava dos outros e escrava de ti própria.
Sai da concha da tua clausura!
Não vês que a concha está seca, sem oxigénio e, assim morrerás asfixiada?
Rebenta o ferrolho dessa prisão.
Olha o sol radioso, as flores, os pássaros.
Olha o firmamento em noite estrelada,
elege uma constelação como tua,
brilha com as estrelas e,
depressa serás, a mais brilhante delas.
Do tecido das cortinas que trazes nos olhos,faz as tuas bandeiras: do amor próprio, da auto-confiança, da independência, da liberdade.

Vai mulher, conquista-te e ama-te.
Depois... mulher, ama!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Escolha o título, o leitor


Eu sou brisa, sou vendaval
Nevoeiro, tempestade
Eu sou começo, sou fim
O meio não é para mim
Sou de extremos, na verdade.

Pertenço ao mundo e a mim
E só me dou se eu quero
Sem posse e só assim
Sem cadeias, sem atilhos
Porque a liberdade venero.

Tenho a força da nortada
A fragilidade da maresia
O rubor da rosa encarnada
De açucenas a candura
Do malmequer, a fantasia.

Por muito que a mente
Me diga que não
Ouço a voz do coração
E depois gero um conflito;
O coração fica aflito
Eu imponho-me, eu refilo
Alto lá, eu mando aqui
Eu que sou coração e mente
Eu que sou gente
E no todo, eu decido.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

De avião

Gosto de andar de avião. É certo que caiem, mas eu quase que ignoro esse pormenor. Afinal um dia tenho que morrer…
Custa-me o que antecede a viagem, até fazer o check in. Dá-me ansiedade e muito provavelmente pelo receio de não chegar a horas. Tenho a mania da pontualidade o que em Portugal me causa penosas esperas, mas ainda assim, continuo a ser pontual e apanho grandes fúrias pela falta de pontualidade de muitos outros.

Sentada no avião, um massajar de ouvidos ao subir e descer e tudo o resto decorre em perfeita normalidade. Na verdade nunca apanhei nenhum susto que me tenha causado suores frios e por isso a minha relação com o avião é de perfeita amizade.
De caminho a Istambul, sentada na coxia, primeiro escrevi num bloquinho que me acompanhou na viagem para pequenos apontamentos. Além de outras coisas, escrevi um poema que mais tarde publicarei.
Depois, a hospedeira entregou a cada passageiro uns auscultadores e a partir daí ouvi música clássica, somente interrompendo quando serviram o jantar. Um jantar fantástico de comida turca pois viajei através da Turquish Airlines. Foi a primeira vez desde há muitos, muitos anos que me foi servida numa viagem de avião, uma refeição com qualidade.

Depois, a música de novo até me levantar, para sair em Istambul. Através dela viajei no tempo, em cima de nuvens brancas como aquelas que o avião atravessou. Através dela, revelei fotografias dos negativos arquivados na minha mente, desde há muito tempo. A história de amor e as cenas de paixão do filme fantástico Anna Karenine que vi uma única vez e me provocou um pranto.
Com o Bolero de Ravel transpus para os meus olhos as imagens magníficas do bailarino que encheu com a sua extraordinária interpretação, aquele palco vermelho e redondo, com que terminou o filme espantoso “Les uns et les autres”, cuja história gira em torno de quatro famílias de músicos, durante a segunda guerra mundial.
Outras músicas não menos belas passaram e se repetiram, menos marcantes em termos de emoções à excepção de uma, cujo compositor não consigo identificar. Provavelmente está associada a um filme que vi mas cujo nome não recordo. É uma daquelas músicas que me leva às lágrimas e que desta vez não foi excepção nas várias vezes que de olhos fechados, a ouvi.

Três dias depois assistimos a um concerto de música clássica, na Igreja de Santa Irene, mais tarde mesquita e agora apenas usada para aquele fim (apenas um àparte que poderá servir de informação para quem ler este e texto). Fica junto ao palácio Topkapi.
Um concerto fantástico que culminou na parte final, com a 5ª sinfonia de Beethoven.

A viagem terminou com o tempo a passar depressa. A passagem pelo guiché Visa, por outro para apresentação do passaporte, as malas que chegaram rapidamente, um táxi por dezassete euros, muitíssimo barato em relação à distância e eis-me chegada ao belíssimo apartamento sobranceiro ao Bósforo, na encosta, relativamente próximo da praça Taksim.

Que maravilha, exclamei eu quando subi à sala de paredes de vidro e ao terraço, ao ver as luzes do lado asiático reflectidas no canal, os barcos, as gaivotas que sobrevoavam o céu e que num edifício alto do pico da colina se aglomeravam e com a luz, vistas de baixo, pareciam bailarinas clássicas com vestidos de tules brancos a dançar em bicos, levitando.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Renasce


Mulher de lenço com o corpo tapado
Até aos pés disfarçado.
Mulher de lenço
Com olhos inquietos
E belos
Boca rubra
De batôn, marca o cigarro.
Porque escondes o corpo que tens vibrante
Com vestes que não são as tuas?
Porque tapas os cabelos
Que são de um tom brilhante
Para esvoaçarem pelas ruas?
Porque manténs a alma presa
Se essa prisão não é a tua?

Enfrenta.
Luta contra a tradição
Contra o machismo, a opressão
Da cultura, da família.
Faz o que os teus olhos mostram
As curvas do teu corpo pedem
Corta as amarras que te amordaçam
E tira as vestes que te prendem.
Rompe com as regras, rasga as roupas, rasga o lenço
Rasga tudo o que te ameace.
Renasce.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Rendida


Está a correr uma brisa fresca a contrastar com o calor húmido que se faz sentir durante o dia. As gaivotas que se passeiam por estes telhados, desde o amanhecer, num rosnar constante e nos despertam, calaram-se com a noite.
Também os Muezzin terminaram o último canto do dia convidando os fieis à oração, nas inúmeras mesquitas de Istambul, cântico que se ouvirá novamente de madrugada e outras vezes ao longo do dia. É um espectáculo fantástico esse dos cânticos dos Muezzin, vozes harmoniosas que me dá a impressão de que respondem uns aos outros, fielmente situados num Minarete da sua Mesquita,nas muitas destas colinas de um e outro lados do canal.
Do sítio em que me encontro a escrever posso contemplar o Bósforo numa extensão considerável, na parte do canal que transporta as águas do mar Negro. Um pouco acima, uma ponte com iluminação azul turquesa, dá passagem para o lado de lá da cidade, já na Ásia, como dá uma outra ponte e os barcos que permanentemente transportam os passageiros. São insuficientes as pontes. Apercebi-me quando passei para o lado de lá, de carro e tive que suportar a extensa fila de trânsito tanto ao fim de semana como em dia de semana.
Vejo vários pontos luminosos que se deslocam para cima e para baixo, cujo formato de barco luminoso é reflectido nas águas calmas e transparentes do canal.
As águas correm calmamente a visitarem outras águas que mais abaixo e igualmente serenas, vêm ao seu encontro para darem um abraço fraterno. Depois, nenhuma delas questiona a sua origem; sempre se sentiram amigas e assistiram com pena aos diversos tumultos e pilhagens que danificaram a cidade ao longo dos tempos, em todas as civilizações que aqui deixaram marcas profundas.
Gosto de viajar a sentir a cidade num todo e por isso não gosto de viajar em grupos turísticos que passam como gato por brasas, com hora marcada para tudo e para nada. Quando não puder orientar-me sozinha irei, que remédio!
De mapa na mão à procura do transporte, dos monumentos, museus, pode-se sentir a cidade doutra forma: O seu povo, as cores das especiarias, das frutas nas bancas primorosamente colocadas que mais parecem paletas de pintor, da comida colorida, do buliço desta gente turca tão laboriosa, os cheiros!
Adoro esta cidade e fiquei muito surpreendida com carácter cosmopolita que possui, assim como fiquei surpreendida por ver muito menos mulheres a usarem lenço na cabeça do que eu imaginava.
Nota-se que houve uma certa libertação da mulher recentemente o que muito me alegrou. Claro que há barreiras que dificilmente, muitas delas conseguirão vencer, com raízes culturais muito fortes e além disso eu estou apenas a ver Istambul que de forma alguma representa a realidade do país neste domínio.
No fim de semana vamos a outra cidade, de autocarro. Estou curiosa por conhecer um pouco a paisagem rural e as realidades das suas gentes.
Quem sabe se não voltarei um dia e com um carro alugado, poderei calcorrear mais paragens deste país que tem tanto de extenso quanto tem de mágico e multicultural

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Que injustiça!!!

Andou sempre
Com vontade de morrer
Desde que nasceu.

Comeu
Água com água
Pão com pão
De tanta fome
Perdeu a razão.

Correu
Muitos invernos
Descalça
Com gripes
Pneumonias
Alergias.

Trabalhou
E tudo aguentou:
Sóis
Anos
Tristezas
Desenganos.

Com uma côdea dura
No bolso roto
Tudo calcorreou
Nem se cansou.

Mas desgraçada
De tanto lutar
Pela água
Que no caldo bebia
Desesperou
E um dia
Alimentou-se com veneno
Para acabar.

Era, mais veneno do que a côdea
Que todos os dias comia
Com a água ao jantar
Mas não morreu!

Levantou-se
Determinada
Com a convicção
E a força que sempre teve
Deitou o pão duro ao chão
Nunca mais o comeu
E passou a comer pão leve.

Um belo dia
Caiu das escadas
E quando não queria
E sem merecer
Com o pão
Leve na mão
Morreu!...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Sou um livro aberto


Sou um livro aberto
De folhas escritas
A tinta vincada
Amarelecidas
De frente assumidas
Nunca letra morta.
A tinta colorida ou negra
Que importa?

Nas primeiras folhas a infância
Escritas em lousa, em folhas de milho
Entre brincadeiras de criança
Aromas de giesta e tomilho.

Seguiram-se outras e tantas
Entre sonhos e dever
De tantas nem eu sei quantas
Amontoaram-se as letras
E as palavras em cascata
Estão lá todas
Podem crer.

As folhas
Brancas e imaculadas
Que com a vida não escrevi
Tão singelas e amadas
Olham para mim
E num fervilhar de sonhos
E emoção
Querem transbordar
De letras
De sabedoria
De gosto pela vida
Sentida
Com amor e paixão.
E de quimeras, porque não?!!!

terça-feira, 16 de junho de 2009

De mansinho



Se nas águas cristalinas
Dos meus olhos quiseres navegar,
Leva um barco sem quilha,
Não lhes rasgues o fundo
Profundo,
Rema de mansinho,
Sem os turvar.
Depois,... tens de parar!
Os peixes multicolores
Que lá vivem em cardumes,
Sem rancores,
Azedumes,
Gostam de silêncio,
Não os vás espantar!
Se na minha alma quiseres entrar,
Naquela nuvem, onde ela habita,
Vai de mansinho,
Em asas brancas, com pés descalços
Leva-lhe abraços,
Dá-lhe carinho.
Vem... de mansinho!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Lembras-te?


Ouvi o uivar do vento e saí apressada a procurar-te na noite fria. No escuro, ouvi os teus passos,
fizeste rolar uma pedra que estava no meio do caminho.
Não te vi e ainda assim pressenti-te, sozinho.
Onde estás? Onde estou?

Lembras-te do ribeiro onde pescávamos com canas improvisadas, frágeis que de tão frágeis, se partiam com a força da brisa,
como que a recusarem-se a uma chacina?
Sem ti, os peixes fugiram, o canavial secou e a brisa, de brisa fresca passou a vendaval.
O ribeiro solitário, amedrontado, perdeu a noção do tempo, do espaço,
está desorientado.
Mudou o sentido da corrente e,
as suas águas cristalinas correm para a nascente, para aquela pequena fonte junto à aldeia.
A fonte transbordou,
a aldeia submergiu,
o povo fugiu.
Moram mais acima, bem no alto da montanha, do lado de lá.
Usam barcaças para vir para cá.
No campanário, no velho ninho encostado ao granito, teimosamente, ficou a cegonha, por cima daquele lago imenso.
O leito está triste, as pedras redondas e brancas perderam o encanto, o lodo toldou a água e, aqueles salgueiros de verde prateado estão secos.
Não conseguem perceber a razão do desnorte do ribeiro e,
deixaram-se morrer aos poucos.
Os sinos do campanário deixaram de tocar; talvez a cegonha não aprecia o toque das trindades pela manhã e ao anoitecer.
Ou será que não é capaz de puxar a corda do badalo?
A cegonha tem todo o ar de gostar de música, mesmo que seja a dos sinos da igreja.
E assim, os sinos calaram-se para sempre...depois, depois de ti.

Lembras-te das flores silvestres, dos passarinhos, das borboletas, das rãs dos charcos, dos pirilampos que nos ensinavam o caminho e nos embelezavam as noites escuras?
Lembras-te do meu sorriso, do meu cabelo, do meu perfume,dos meus nadas e de todas as pequenas coisas e belas que na alma pintávamos, os dois?
Lembras-te?...

Beber do teu copo


Quero beber do teu copo
Tinto, rubi
Saborear taninos,
Encorpado
Vermelho
Transparente
Frutado
Adamado.
Quero beber do teu copo
Vapores quentes
Ardentes
Que me deixem ausente
Em mim
Fora de mim
Assim
Presente

sábado, 13 de junho de 2009

Poeta sonhador e louco




Poeta!
Será que és como te chamam
Sonhador, louco
Ou de tudo um pouco?
Tu que navegas em rios de letras
Às vezes perdes o barco das palavras
Afundas-te com o poema.
Tu que olhas a lua, abraças o sol e as estrelas,
Perdes o firmamento das palavras
Eclipsas-te com o poema.
Tu que te perdes nas cores do arco-íris
Em tardes de tempestade de estrofes
És levado pela corrente, com o poema.
Porque procuras tu, o poema?
O poema está contigo!
Pois não será sonho e loucura
Ter dentro de si um poema?
Então poeta,
Tu és sonhador e louco!...
Tens a loucura e o sonho
De oferecer o céu e as estrelas
Ao teu amor;
Aos pobres com frio,
O sol, o calor;
A lua mágica,
Aos infelizes;
Aos de cinzento vestidos
As cores do arco-íris.
E depois,
Buscas de novo o sol,
As estrelas, a lua,
O orvalho,
A chuva, a luz
E através de ti,
Nascerá o poema.

Televisão

Preciso de silêncio
Desligo o botão
Mas ela segue-me
Maldita perseguição

Ponho-lhe um pano em cima
Uma mordaça
Mas ela sobrevive, respira
Maldita ameaça

Desligo-a da corrente
E ela teimosa, raivosa
Liga-se novamente

Eu já irritada digo,
Acaba-me com isso
Mas que peçonha, parece feitiço

Ignorante, aculta, não ensinas nada
Impedes as conversas
Quero-te desligada

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Folha branca


Os meus dedos secaram
Já não têm brilho
Já não têm palavras
E esta folha branca saltita
Pula, refila,
Quer ficar escrita.
E eu, que faço eu?
As letras que liberto não se aglutinam
São independentes.
As ideias que me afloram à mente
São frágeis, desconcertantes.
Vem tu, junta-te a mim
Traz-me a tua alma para que me ilumine
E junta-te à lua, minha companheira
Traz-me o teu corpo que me aqueça
E junta-te ao meu sol
Em perfeita fogueira.
E as palavras?
Quero palavras coloridas
Quero que os meus dedos te tirem
Magia, a ti, à lua
E que me caiam em cascatas de luz e esplendor
As letras, as palavras, os poemas.
Folha branca, voa para mim!
Olha o que tenho para te oferecer!
Vem que te quero encher de amor
De luz
Esplendor
Quero colar-te no escaparate do tempo
Onde não haverá dor
E assim,
Terás o meu poema de amor
Um poema
Com a luz que vem do sol, da gente
Com a magia que vem da lua e de todas as estrelas
Com a imensidão que vem do mar
Com o encanto das sereias.
Plana, folha branca!
Folha branca, de alma inquieta
Irreverente
Poisa nos meus dedos
Sem receios, sem medos
E dar-te-ei poesia.

terça-feira, 9 de junho de 2009

De ti

Quero fazer de ti o meu jardim
Regar-te com água fresca pela tardinha
Passear por ti, pelos teus canteiros
De mão dada contigo, à noitinha

Quero fazer de ti a minha rosa
Para te trazer junto ao peito, na lapela
Cheirar o te perfume o dia inteiro
Ter-te no quarto à noite, na janela

Quero fazer de ti a minha lua
Que me alumie nas noites escuras
Me proteja, me inspire, me dê alento
Para vencer e esquecer as amarguras

Quero fazer de ti o meu mundo
Onde se respire amor, fraternidade
Fazer de ti um escudo, protecção
União, concórdia e irmandade

O bom senso

Procurei-te por todo o lado, bom senso
Mas não fui capaz de te encontrar
O bom senso anda perdido, esquecido
Por pouco, o bom senso imperar

Faz-se aquilo que vem à cabeça
Sem nunca o bom senso aplicar
Neste mundo de faz e desfaz
Passa-se o tempo a remendar

Diz-se tudo o que vem à cabeça
Depois diz-se que não se disse
Diz-se que a intenção não era essa
Em conversa fiada de idiotice

É urgente encontrar o bom senso
Para as nossas vidas, para o mundo inteiro
E neste comércio de favores vendidos
O bom senso vendeu-se por muito dinheiro

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Contigo música

Percorres-me o corpo, fazes-me vibrar
Música de som forte, suave e leve,
Te sinto e me sentes nos poros da pele
Me percorres em ondas, fazes-me sonhar.

Dás-me o compasso para a minha dança
De ritmos frenéticos e suores quentes
De abraços apertados, de beijos ardentes
Em ti música comungo, em perfeita aliança.

Fazes-me levitar, percorres-me a alma
E contigo música, eu parto em viagem
Perseguindo um sonho, perfeita miragem
Que me enternece, aquece e acalma.

Contigo música, eu sou mulher, sou criança
De alma e corpo leve, perfeita união
De ternura, candura, loucura, paixão,
Realidade, magia, amor, confiança.

Rouxinóis cantantes

Às vezes o rouxinol do jardim canta uma melodia mais triste.
Ou será que a tristeza está em mim e não na melodia do rouxinol? De uma forma ou de outra, hoje acordou-me muito cedo com a melodia.
Cantava sozinho e aquela música entrou-me no quarto, entrou-me na alma.
De repente a multidão de pardais com a camarata montada na laranjeira de folhagem mais densa, começou a cantar, sempre no mesmo tom de voz e ritmo repetitivo. O rouxinol quis ser maestro, mas não foi capaz. A multidão caótica tolheu-lhe os braços, as asas. Sentiu-se impotente, mas ainda assim a sua voz de barítono soava afinada acima do tom do ruído das vozes dos pardais.

A madrugada fresca e sombria trouxe chuva forte que ao bater com violência nos vidros, me fez mudar a atenção e por breves instantes deixei de ouvir o bando e o rouxinol. De repente o ruído da chuva que caía a pique nas janelas do sótão transportou-me para o mundo da gente que entretanto começava a passar, a ir para o trabalho, cortando com os escapes dos carros, o silêncio.

Como as pessoas acordam cedo e partem para o ganha pão ou ganha fome, sem sequer terem ouvidos, para o rouxinol cantante!
Parece impossível que haja tanta gente a cujos ouvidos não chegue outro som que não o da sua voz e o das suas rotinas alienantes!
Foi no meio destes pensamentos que transpus a orquestra caótica dos pardais, para o mundo dos humanos.

Os pardais deixaram de cantar e partiram para o saque diário de tudo o que de valioso e comestível encontram. No caos da sua madrugada, em vez de cantarem, emitiam sons de conjecturas, de golpes baixos, de entrujices que estavam a planear.
O rouxinol bem intencionado não foi capaz de lhes acertar o ritmo e o tom para que os pudesse demover dos seus vis intentos. Continua a cantar sozinho, uma canção já mais triste mas igualmente melodiosa e bela, numa sonoridade de soprano.
Está cansado, mas não desiste e tem ainda esperança que mais rouxinóis se lhe juntem para que, sendo muitos, se sintam mais fortes.

Cada vez mais proliferam pardais sequiosos, famintos de riquezas,sempre prontos para golpes sujos, neste mundo dos humanos. Cada vez mais os rouxinóis sentem mais impotência.
Os gaviões, chefes de todos, poderiam meter os pardais nas gaiolas,mas não, são ainda piores que os pardais. Planam e preparam a melhor ocasião para calar a voz dos rouxinóis cantantes, não vão estes com o seu belo cantar, espantar as suas preciosas presas.

No meio disto tudo onde estou eu, simples mortal, que não sou nem gavião, nem pardal, mas que de tão frágil ter a voz, também não sou rouxinol?
Estou nesta insignificante parte do cosmos, a levantar a pouca voz que tenho, para a juntar à tua, a de todos os rouxinóis. Todos seremos muitos, teremos mais força, mais determinação e cortaremos aos gavióes, o bico e as garras de ave de rapina.

O que poderemos nós os rouxinóis, fazer aos pardais, àqueles que roubam a torto e a direito o fruto do suor de tanta gente?
Será que temos mais alguma força para além daquela que nos advem da voz?

Fica a questão. Provavelmente temos mais, que aquela que julgamos ter!...

A ti, rouxinol do meu amanhecer, eu peço, continua a cantar!…

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Choveu

Ontem choveu
Aquela chuva fresca
Que refresca a terra queimada
Que dá grão ao trigo
E brilho ao olhar.
Apanhei a chuva numa concha
Para contigo me banhar e
Dar brilho aos meus cabelos
De fogo e de mar.
De manhã colhi o orvalho fresco
Envolto em cantos de pássaros
Voos de sonhos
Para me refrescar.
Da terra colhi o cheiro
Das giestas amargas a cor
Para comigo levar.
Corri pelo campo
De sementes germinadas
Sonhei
Alegre cantei.
Ordenei
A este céu encoberto
Quero mais chuva
Mais plantas
Mais orvalho
Mais odor a terra
Mais festa

Até

Quero navegar no verde dos teus olhos
Caravelas ornadas de flores de primavera
E em águas mansas de muitas marés
Parar em praias cálidas de palmeiras.
O verde turvou
O mar calmo agitou-se
As minhas caravelas frágeis
Perderam o norte
O Nascente e o Sul
E estão em desvario, desnorte
De turvo passou a branco
Glaciar o teu olhar
E eu…
Afundei as caravelas
nesse mar imenso.
Construí barcos de papel
Frágeis e leves
Da infância renascidos
Amolecidos,
Afundam
E eu sinto um frio de morte.
Subi os degraus da minha alma
Para te dizer até breve
Mas tu passaste em silêncio
Não olhaste
Nem me viste
E eu…
Balbuciei com medo
Um até
que não ouviste

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