Já lhe mandei um sms que já terá lido em Milão onde chegou ontem, de avião, para passar o Natal em Sienna, mais precisamente em Santa Colomba, uma pequena localidade. Irá hoje de autocarro, ainda a restabelecer-se de febrões que teve no dia anterior e toda a noite. Aconselhei-o a adiar o voo por mais um dia. Mas não! Seguiu.
Seguiu para Santa Colomba, para uma casa edificada numa colina defronte a uma mata, onde pássaros cantam alegremente e onde as corsas se passeiam emitindo sons, linguagem que só elas entendem e que nos fazem companhia noite e dia. Um lugar paradisíaco daquele país que adoro.
A companheira só chega hoje ao fim da tarde, não lhes foi possível viajar no mesmo voo.
Eu não me importo por não ter a família toda reunida, uma vez que para mim o Natal não tem mais valor que qualquer outro dia. No próximo ano será na Especiosa, todos juntos, portugueses e italianos; assim esperamos.
Hoje faz trinta e quatro anos, o meu menino mais velho. Sempre meninos para a mãe...
Fui tratá-lo para que pudesse alimentar-se o melhor possível. Suspeitámos inicialmente de que se tratásse de gripe A, mas em breve nos apercebemos de que, pelos sintomas que apresentava, não seria.
São sempre meninos, os nossos meninos. Passamos a encarar as reacções das nossas mães com outros olhos depois da experiência da maternidade.
Estava sózinho, a arder em febre de quarenta graus. A companheira, a italianita, trabalha em Coimbra de onde regressa todas as semanas às quinta à noite ou sextas de manhã, para voltar na terça de manhã.
Deitei-me no sofá da sala e deitei-me preocupada, pensando que iria dormir a sono solto e não tinha com que despertar. Mas não, uma mãe não dorme a sono solto.
Qualquer movimento, o antipirético e o antibiótico a horas e, a mãe, quase que por magia, acorda sem despertador.
Voltei pelo menos trinta e quatro anos atrás, ao tempo que cheirava a bébé em casa, àquele aroma inconfundível, àquele choro ao meio da noite, o biberão, a mama dada num curto período de tempo, porque curta foi a licença de maternidade que só durou até cinco de Janeiro.
Hoje, estou de parabéns eu também, por aquela experiência fantástica, um musgo verde, veludo de seda de Dezembro.
Acerca de mim
- Adelaide Monteiro
- Sintra/Miranda do Douro, Portugal
- Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Veludo de seda de Dezembro
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Adelaide Monteiro
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12/18/2009 11:32:00 da manhã
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Com macieza...
Com golpes de palavras
Sente o frio
De perdidos no deserto
Moribundos
Em dunas gélidas.
Vacila
Mete-se num casulo
Protege-se.
Reconstitui-se
Em metamorfoses
Sai
Enfrenta a noite
Vai.
Agita o corpo
E a amoreira
De que se alimenta.
Reinventa
Não esmorece
Tece
Um manto de seda.
Em macieza...
Aquece.
Sente o frio
De perdidos no deserto
Moribundos
Em dunas gélidas.
Vacila
Mete-se num casulo
Protege-se.
Reconstitui-se
Em metamorfoses
Sai
Enfrenta a noite
Vai.
Agita o corpo
E a amoreira
De que se alimenta.
Reinventa
Não esmorece
Tece
Um manto de seda.
Em macieza...
Aquece.
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12/15/2009 02:44:00 da tarde
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domingo, 13 de dezembro de 2009
A quem importará???!!!
Porque te lançaste num bote
Que sabias rebentado?
Desejo de morte
Por suicídio premeditado?
Ou pensaste
Que o bote não transbordaria
E que a água sairia?
Ao invés
Mais água entrou
Pelo rombo.
Sentiste-te perdida
Sem bússola
Sem norte
Sem bomba para esvaziar o bote.
Reflectiste
E, antes do naufrágio
Com a última réstia de coragem
Saíste
E, deixando-te levar pelas correntes
Boiaste sobre as águas
Sem ao menos saberes
A direcção do vento.
Que me importa??!!
A quem importará, pensate!!...
A mim, respondo-te
Enquanto junto os destroços
Do teu bote naufragado
E que encontrei naquela praia
Onde me fortaleço.
Trago comigo fio resistente
Para bordar a ponto de grilhão
Pontos firmes.
E trago seda
Para abrir guaritas para a alma
E bordar a ponto de crivo
Transparentes e leves
Para que possas receber o sol
Que te fortaleça
Para que recebas o canto leve das ondas
Que te restabeleça
A minha manta
Que te aqueça.
Trago comigo uma bússola
Para que orientes os teus passos
Débeis passos
E para que firme
Sigas.
Tu sabes,…
A mim importa!...
Que sabias rebentado?
Desejo de morte
Por suicídio premeditado?
Ou pensaste
Que o bote não transbordaria
E que a água sairia?
Ao invés
Mais água entrou
Pelo rombo.
Sentiste-te perdida
Sem bússola
Sem norte
Sem bomba para esvaziar o bote.
Reflectiste
E, antes do naufrágio
Com a última réstia de coragem
Saíste
E, deixando-te levar pelas correntes
Boiaste sobre as águas
Sem ao menos saberes
A direcção do vento.
Que me importa??!!
A quem importará, pensate!!...
A mim, respondo-te
Enquanto junto os destroços
Do teu bote naufragado
E que encontrei naquela praia
Onde me fortaleço.
Trago comigo fio resistente
Para bordar a ponto de grilhão
Pontos firmes.
E trago seda
Para abrir guaritas para a alma
E bordar a ponto de crivo
Transparentes e leves
Para que possas receber o sol
Que te fortaleça
Para que recebas o canto leve das ondas
Que te restabeleça
A minha manta
Que te aqueça.
Trago comigo uma bússola
Para que orientes os teus passos
Débeis passos
E para que firme
Sigas.
Tu sabes,…
A mim importa!...
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12/13/2009 12:23:00 da tarde
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sábado, 5 de dezembro de 2009
Disse ela um dia
Chegaste no tempo dos sonhos dourados, das flores em botão, das brisas frescas...
Chegaste numa manhã de orvalho nos meus seios.
Imaginaste-me desnuda no mar fechado, concha viva que não abriste.
Nem sabes por quanto tempo senti o doce dos teus beijos nos meus lábios já dormentes, as dores nas mãos caídas que seguraram o ramo de laranjeira murcho do qual restavam apenas troncos secos, o peso do tule a sair dos cabelos negros, enegrecido pelo tempo, a vergonha pelo vestido bambo na magreza de ossos espetados.
Nem sabes a dor que senti no peito quando me deixaste plantada num vaso de flores ao lado da igreja, o padre com as hóstias no cálice, o livro das promessas na mão à tua espera, os convidados com fome do almoço, as jovens a imaginarem-se, uns e outros a imaginarem-se noivos. Eu plantada no vaso do jardim da igreja,... dá azar o noivo ver a noiva antes da chegada ao altar.
Azar tivera eu dez meses antes, quando te conheci. Tão imbecil que eu fui, irresponsável tu por teres acreditado no herói que te confessou já ter dormido comigo. Mentira, grande mentira, agora te digo, macho ignorante a cheirar a cavalo. Nem sei porque te maltrato enquanto olho para as cinzas do ramo de laranjeira esquecidas no canto do quintal, daquele ramo que ao contrário de ti, eu merecia. Queria oferecê-lo à virgem, ali no altar, todos a testemunhar a virgindade perante a Senhora Virgem.
Parva que eu fui por ter ficado plantada na vida, a chorar-te durante anos, a chorar o único amor, o primeiro amor, como se o primeiro fosse o mais intenso, o único, o único possível.
Agora te digo, nem sei porque falei hoje nisto,... que o melhor amor é o último, aquele que nos segura as mãos até um dia, até um dia qualquer...
Que já tinha dormido com outro,... referiu ela mais uma vez na carta que mentalmente lhe escreveu.
E se tivesse??!! Eras tu por acaso casto???!!
Chegaste numa manhã de orvalho nos meus seios.
Imaginaste-me desnuda no mar fechado, concha viva que não abriste.
Nem sabes por quanto tempo senti o doce dos teus beijos nos meus lábios já dormentes, as dores nas mãos caídas que seguraram o ramo de laranjeira murcho do qual restavam apenas troncos secos, o peso do tule a sair dos cabelos negros, enegrecido pelo tempo, a vergonha pelo vestido bambo na magreza de ossos espetados.
Nem sabes a dor que senti no peito quando me deixaste plantada num vaso de flores ao lado da igreja, o padre com as hóstias no cálice, o livro das promessas na mão à tua espera, os convidados com fome do almoço, as jovens a imaginarem-se, uns e outros a imaginarem-se noivos. Eu plantada no vaso do jardim da igreja,... dá azar o noivo ver a noiva antes da chegada ao altar.
Azar tivera eu dez meses antes, quando te conheci. Tão imbecil que eu fui, irresponsável tu por teres acreditado no herói que te confessou já ter dormido comigo. Mentira, grande mentira, agora te digo, macho ignorante a cheirar a cavalo. Nem sei porque te maltrato enquanto olho para as cinzas do ramo de laranjeira esquecidas no canto do quintal, daquele ramo que ao contrário de ti, eu merecia. Queria oferecê-lo à virgem, ali no altar, todos a testemunhar a virgindade perante a Senhora Virgem.
Parva que eu fui por ter ficado plantada na vida, a chorar-te durante anos, a chorar o único amor, o primeiro amor, como se o primeiro fosse o mais intenso, o único, o único possível.
Agora te digo, nem sei porque falei hoje nisto,... que o melhor amor é o último, aquele que nos segura as mãos até um dia, até um dia qualquer...
Que já tinha dormido com outro,... referiu ela mais uma vez na carta que mentalmente lhe escreveu.
E se tivesse??!! Eras tu por acaso casto???!!
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12/05/2009 10:34:00 da tarde
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Contos no feminino
Ainda hoje...
Hoje decidi não esperar pelo o silêncio da madrugada para escrever. Hoje, sob uma atmosfera pardacenta de uma tarde de sábado, nuvens a ensombrar o sol, nevoeiro leve que me impede de ver o Palácio da Pena mas que eu imagino rodeado de árvores, numa mistura de verde e amarelo, gotas de orvalho a deslizar pelos troncos seculares, assim escrevo. Alma desnuda, como desnuda está a pereira aqui ao lado, no quintal.
Hoje sinto a quietude da madrugada nesta tarde que me convida a ficar enroscado junto à lareira, a cheirar a fumo, gato friorento da minha infância encostado à cinza aconchegada com brasas e que em breve chamuscava o pelo.
Hoje falo com a quietude de quem está de bem com o mundo, ainda que o mundo o não mereça.
Não vou falar de ódios, nem de fomes nem de prendas; não vou falar de excentricidades de quem quer ir à lua numa viagem de egocentrismo, quando ao seu lado e à sua frente há crianças sem pão, sem água, sem sabão.
Também não vou falar do Natal de hoje em dia, o Natal em que se venera um redentor carregado de opulência e consumismo, um redentor vencido pela ganância e vendido por um carro de alta cilindrada e uma conta choruda num qualquer paraíso fiscal.
Também não me cansarei com a conversa esfarrapada da urgência de que outro redentor nasça, por não acreditar que alguém seja capaz de redimir coisa nenhuma nem ninguém, senão a ele próprio, se para isso se esforçar. Acredito que o redentor deste século se tornaria corrupto em menos de nada, tão ou mais corrupto que outros...
Hoje vou falar do Natal de uma menina que, como muitos outros meninos nasceu numa cama de palha, colchão de riscas largas aberto ao meio, para que de manhã as palhas fossem remexidas e ficassem uniformemente em toda a cama, partilhada por uns quantos meninos, uns deitados para a cabeceira, outros distribuídos com as cabecitas para o lado dos pés. Telhados que permitiam que se falasse com a lua e as estrelas logo que a torcida da candeia deitasse fumo, luz que rapidamente se apagava para poupar o azeite para as batatas.
...De manhã acordava cedo e corria para ver o sapatinho que tinha deixado na lareira. Um sapatinho cheio de prendas que o Menino Jesus distribuía durante a noite a todos os meninos.
Dois rebuçados, uns figos secos, umas nozes, uns tostões em anos de menor crise.
Sonhava com ele, com ele corria pelos telhados, deslocava uma telha e entrava descendo pelas varas do fumeiro, roupas cheias de fuligem, coração repleto de alegria, saquinhos cheios de mimos para todos os meninos.
Depois, na missa do Galo beijava aquele menino e a rever o sonho mágico olhava as vestes brancas do Menino e admirava-as com as rendas impecavelmente brancas, apesar da fuligem das cozinhas.
Os seus olhos vivos de centelha fizeram filmes mágicos durante uns anos, nesses Natais passados em família, tão puros, tão ricos,... no meio daqueles nadas mas que eram tudo; eram amor, alegria, solidariedade, magia de meninos...
Num Natal, a mãe atrasara-se por qualquer motivo e quando correu para a sapatinho viu-o vazio. Pela reacção da mãe, apercebeu-se de que não seria bem assim como lhe faziam crer e que haveria outra versão da história... Foi o último Natal de magia...
Nunca mais esqueceu aquele momento de atrapalhação da mãe.
Procura viver todos os dias esse mesmo espírito de Natal.
Hoje sinto a quietude da madrugada nesta tarde que me convida a ficar enroscado junto à lareira, a cheirar a fumo, gato friorento da minha infância encostado à cinza aconchegada com brasas e que em breve chamuscava o pelo.
Hoje falo com a quietude de quem está de bem com o mundo, ainda que o mundo o não mereça.
Não vou falar de ódios, nem de fomes nem de prendas; não vou falar de excentricidades de quem quer ir à lua numa viagem de egocentrismo, quando ao seu lado e à sua frente há crianças sem pão, sem água, sem sabão.
Também não vou falar do Natal de hoje em dia, o Natal em que se venera um redentor carregado de opulência e consumismo, um redentor vencido pela ganância e vendido por um carro de alta cilindrada e uma conta choruda num qualquer paraíso fiscal.
Também não me cansarei com a conversa esfarrapada da urgência de que outro redentor nasça, por não acreditar que alguém seja capaz de redimir coisa nenhuma nem ninguém, senão a ele próprio, se para isso se esforçar. Acredito que o redentor deste século se tornaria corrupto em menos de nada, tão ou mais corrupto que outros...
Hoje vou falar do Natal de uma menina que, como muitos outros meninos nasceu numa cama de palha, colchão de riscas largas aberto ao meio, para que de manhã as palhas fossem remexidas e ficassem uniformemente em toda a cama, partilhada por uns quantos meninos, uns deitados para a cabeceira, outros distribuídos com as cabecitas para o lado dos pés. Telhados que permitiam que se falasse com a lua e as estrelas logo que a torcida da candeia deitasse fumo, luz que rapidamente se apagava para poupar o azeite para as batatas.
...De manhã acordava cedo e corria para ver o sapatinho que tinha deixado na lareira. Um sapatinho cheio de prendas que o Menino Jesus distribuía durante a noite a todos os meninos.
Dois rebuçados, uns figos secos, umas nozes, uns tostões em anos de menor crise.
Sonhava com ele, com ele corria pelos telhados, deslocava uma telha e entrava descendo pelas varas do fumeiro, roupas cheias de fuligem, coração repleto de alegria, saquinhos cheios de mimos para todos os meninos.
Depois, na missa do Galo beijava aquele menino e a rever o sonho mágico olhava as vestes brancas do Menino e admirava-as com as rendas impecavelmente brancas, apesar da fuligem das cozinhas.
Os seus olhos vivos de centelha fizeram filmes mágicos durante uns anos, nesses Natais passados em família, tão puros, tão ricos,... no meio daqueles nadas mas que eram tudo; eram amor, alegria, solidariedade, magia de meninos...
Num Natal, a mãe atrasara-se por qualquer motivo e quando correu para a sapatinho viu-o vazio. Pela reacção da mãe, apercebeu-se de que não seria bem assim como lhe faziam crer e que haveria outra versão da história... Foi o último Natal de magia...
Nunca mais esqueceu aquele momento de atrapalhação da mãe.
Procura viver todos os dias esse mesmo espírito de Natal.
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12/05/2009 03:43:00 da tarde
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...sentada no silêncio
Quase, quase cansada,...
neste siléncio que reconforta,
quebrado pelos sons ténues dum violino imaginário.
Sento-me no peito doce desta solidão desejada e aqui, eu sou eu, sou tu, sou tudo, sou nada.
Desejo continuar a conversar com o vazio da sala onde dedilho, teclas que pertubam esta quietude mas que ao mesmo tempo me enfeitiçam;... este som que tantas vezes desejo, este som que desesperadamente procuro, este dedilhar que me evade em asas transparentes, quando em pontas de ballet, me solto.
Tudo dorme à minha volta, o vento recolheu-se na caverna, está cansado de tanto se agitar e as folhas amarelecidas do diospireiro, quase soltas, a agarrarem-se a pequenos nada para não caírem, finalmente sossegaram, com o vento preso.
Também as folhas estão a respirar o mesmo silêncio desta madrugada fria.
Escuta, encosta-te ao lado esquerdo do meu peito, ouve o bater leve, tão leve, passarinho a dormir no ninho, enroscado.
Ouviste silêncio, ouviste o bater do meu pobre coração?
Estou quase cansada... as minhas pálpebras vão-se fechando em pestanejos, espassadamente, para que os meus olhos se deleitem em horizontes longínquos, perdidos...
Silêncio, consegues sentir??!!
Os dois estamos cansados, eu e tu!!!...
neste siléncio que reconforta,
quebrado pelos sons ténues dum violino imaginário.
Sento-me no peito doce desta solidão desejada e aqui, eu sou eu, sou tu, sou tudo, sou nada.
Desejo continuar a conversar com o vazio da sala onde dedilho, teclas que pertubam esta quietude mas que ao mesmo tempo me enfeitiçam;... este som que tantas vezes desejo, este som que desesperadamente procuro, este dedilhar que me evade em asas transparentes, quando em pontas de ballet, me solto.
Tudo dorme à minha volta, o vento recolheu-se na caverna, está cansado de tanto se agitar e as folhas amarelecidas do diospireiro, quase soltas, a agarrarem-se a pequenos nada para não caírem, finalmente sossegaram, com o vento preso.
Também as folhas estão a respirar o mesmo silêncio desta madrugada fria.
Escuta, encosta-te ao lado esquerdo do meu peito, ouve o bater leve, tão leve, passarinho a dormir no ninho, enroscado.
Ouviste silêncio, ouviste o bater do meu pobre coração?
Estou quase cansada... as minhas pálpebras vão-se fechando em pestanejos, espassadamente, para que os meus olhos se deleitem em horizontes longínquos, perdidos...
Silêncio, consegues sentir??!!
Os dois estamos cansados, eu e tu!!!...
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12/05/2009 03:41:00 da manhã
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Pelo menos esta noite!

Fui dar uma caminhada atravessando o parque da cidade, construído a jeito das pessoas amantes da natureza. Atravessado por um pequeno curso de água, relva bem cuidada, árvores viçosas, bancos de madeira pintados de castanho e com a inclinação adequada às costas, como convém. Gosto daquele sítio, onde pode dar as voltas que quiser em círculos, trinta minutos cada percurso a andar bem. Ainda há Câmaras cujos responsáveis que um dia por lá passaram, fizeram alguma coisa que não fosse atentado à saúde mental e física das pessoas e massacre da natureza em benefício do betão armado.
Apesar do dia a ameaçar chuva saí de casa. O parque era quase exclusivamente meu. Caminhei até me cansar; desci dois degraus e sentei-me no banco virado para o riacho. Na mochila tinha um livro, Istambul, de Orhan Pamuk. Não me apeteceu ler e fiquei em silêncio, de olhar distante sem que aparentemente nada visse daquilo que estava ao alcance dos meus olhos.
O relógio do tempo tirou-me treze anos, naquele preciso momento. Não são muitos, afinal o que são treze anos. Os degraus, os escassos dois degraus multiplicaram-se por dezenas e vi-me naquele preciso momento nas escadarias do Sacré Coeur que subimos duma assentada até lá acima. É certo que ao fim estavamos quase sem fôlego, mas subimos. treze anos feitos em Agosto, um Agosto quente em Paris, a viagem de carro para lhe fazer a rodagem.
Não era essa viagem que desejaria fazer, preferia uma praia onde se recuperasse do cansaço. Depois mudei de ideias e ao fim dos dez dias e de longas caminhadas, a sair aqui do metro, para entrar noutro lado, para ir ver mais isto e mais aquilo na avidez dos quase cinquenta anos, a avidez de viver quando já se sente que se passou da meia idade.
Fui à calista pédicure tratar os pés, massajar os músculos que sentia tão tensos do excesso de trabalho em correrias durante todo o ano e os exames no mês de Julho. Sempre me senti tensa em época de exames. Pensava que a idade me daria mais tranquilidade, mas não!
Comprei sandálias macias. Tenho um toque delicado e as minhas mãos grandes têm uma sensibilidade fora de comum ao toque. Os pés também e de que modo!
E lá fiquei naquele banco de madeira com o livro ao lado a reproduzir a película de há treze anos, a contemplar Paris, do Sacré Coeur. A vista magnífica sobre a cidade que já tínhamos percorrido nos dias anteriores, o jantar num restaurante indiano em Monmartre, o passeio a pé depois de jantar, até o Moulin Rouge. Os convites para entrarmos nos espectáculos porno-eróticos: Parle italiano? Spanhol? Portugais? Não sei porquê, mas na grande parte das vezes éramos considerados italianos. Os convites feitos ao meu marido através de olhares das mulheres sentadas nos bancos ao balcão, nos inúmeros bares desse bairro de prostituição, uma entrada numa sex shop.
Uma volta de carro pela cidade para ficar com ua ideia global da sua beleza nocturna, passagem pelo túnel onde dois dias depois, a Princesa Diana viria a falecer, o regresso ao hotel ali perto.
O calor durante o dia, as idas ao hotel no pico do calor, para descansar. Um banho, cama com os lençóis brancos impecavelmente feita de lavado, o convite para deitar, o amor fresco dos quarenta aos cinquenta, o filme a rebobinar nos corpos refrescados pela climatização, eu a rebobiná-lo agora.
O percurso dos Castelos do Loire, o dia passado no Futuroscópio como crianças na viagem de ida, Chartres na de regresso, com as suas ruas estreitas, os vinhos, a catedral dificilmente captada pela objectiva no retrato, de tão alta.
Decidi que naquele momento e pelo menos até a manhã seguinte teria menos treze anos.
Prometi a mim própria voltar a Paris tenha a idade que tiver, subir ao Sacré Coeur, quiçá de elevador.
Prometi isso a mim própria quando entrei no carro, ao escurecer, para ir para casa. Pelo menos esta noite, pelo menos esta noite quero ter quarenta e sete anos!
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12/03/2009 10:27:00 da tarde
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Arranca-me
Vai!
Arranca-me a lágrima do peito
Antes que cristalize em incenso
E com ele me queime
E me perca no escuro
Onde me deito.
Passeia pela minha rua
Sineta do meu corpo
Nesta noite gélida
Lagoa empedernida
Onde nem gota
A escorrer
Nem sorriso
Ou ai.
Vai!
Arranca-me um querer
Deste mar de indiferença
Onde adormeço.
Agita-me as águas
Levanta-me as ondas
Atinge-me as fendas
Parte os glaciares
Dos meus olhos
Neste mundo sem estrelas...
Arranca-me a lágrima do peito
Antes que cristalize em incenso
E com ele me queime
E me perca no escuro
Onde me deito.
Passeia pela minha rua
Sineta do meu corpo
Nesta noite gélida
Lagoa empedernida
Onde nem gota
A escorrer
Nem sorriso
Ou ai.
Vai!
Arranca-me um querer
Deste mar de indiferença
Onde adormeço.
Agita-me as águas
Levanta-me as ondas
Atinge-me as fendas
Parte os glaciares
Dos meus olhos
Neste mundo sem estrelas...
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12/02/2009 04:05:00 da tarde
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Ainda hoje

Inês irritava-se que assim fosse.
Porquê que havia de ser concha fechada no fundo do Oceano, bicho a hibernar à espera de crescer, para ser a delícia da gula num piquenique qualquer.
Ela era concha sim, mas de asas abertas, a esvoaçar, ela era uma borboleta colorida. Tão colorida, santo Deus!
Porquê que há-de uma borboleta ficar de asas fechadas no fundo do oceano, uma borboleta de asas fechadas ao frio, com cores esbatidas por falta de luz, uma borboleta anémica e despigmentada.
Ela tinha na alma o céu com o voo dos pássaros, nos olhos as flores com o tactear constante das borboletas, no ventre o pólen com o rodopiar das abelhas em luta renhida, no coração o néctar com o trepidar nervoso do beija-flor em busca de mel em luta de loucura a bater as asas e o bico a penetrar no gineceu das flores, até à mais íntima das entranhas.
Porque havia de ser assim, aquela castração de menina mulher poema, mulher viola em serenata, só porque qualquer cor ofuscava o negro de que se vestiam, de que se vestia todo aquele tempo!...
Porque havia de ser assim, só porque um beija-flor pudesse agitar o doce no gineceu das suas entranhas ou tocasse no botão de rosa e em sensualidade, uma rosa desabrochasse.
Um olhar, um convite para dançar...
Um olhar imenso, do tamanho do prado verde na Primavera, da doçura da calmaria das searas de trigo loiro no mês de Julho.
O olhar tremeu, o corpo muito mais, ramo agitado pelo vento.
O que faço, perguntou-se uma parte dela? Não, o que dirão!...
Estás parva, respondeu a outra metade com as pernas bambas e o coração a bater em golfadas de sangue quente, descompassado.
Envolveram-se em braços, arfares em pleno Inverno ao mínimo toque de olhares e de dedos. Mãos que tacteavam, rostos próximos a misturar os perfumes dos cabelos, perfumes bravios a carqueja e esteva, tão bravios como os seus corpos, tão docemente bravios e pungentes. Corpos entumecidos na melodia que já não ouviam, na música dos passos, os passos dos corpos em canção, corpos que tocavam, que tremiam.
Depois um olhar vigilante e uma quase vergonha de qualquer coisa que vergonha não seria á luz dos impulsos. Um braço esticado, um desapegar, um resfriar, um céu interrompido, um purgatório não merecido.
Irritava-se que assim fosse, mas tinha que ser. Porque havia de ser!?
Ainda hoje se irrita que assim tivesse sido!...
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12/01/2009 05:17:00 da tarde
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Contos no feminino
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Faltas-me (de Mia Couto)
Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés
Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas
Seja eu de novo tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta
Traz
de novo, meu amor,
a transparência das águas
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.
Mia Couto
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés
Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas
Seja eu de novo tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta
Traz
de novo, meu amor,
a transparência das águas
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.
Mia Couto
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11/27/2009 11:40:00 da manhã
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quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Nun recanto do tempo
Sentada num recanto do tempo, sou tarde de temporal.
No regaço coloco as mãos frias como que a esperar que a chuva passe, o vento deixe de sibilar, as ondas alterosas deixem de me atormentar.
Ponho as mãos no regaço, perdidas, cansadas, inertes, à espera, neste cais que se desintegra, numa espera inútil, onde nenhum barco atraca, farol que não dá sinais.
De repente o crepúsculo cai, a noite fria surge, a noite de naufrágios, a minha noite. Sento-me nos destroços, as ondas rebentam aos meus pés, fortes, gigantescas e a minha alma chora ao ritmo da rebentação.
Sinto-me perdida, sem pontos cardeais, sem bússola, tentando encontrar as ruelas da madrugada que anelo, a que tenha a frescura da hortelã, o cheiro da madressilva, o gosto da amora, a brandura e a macieza do linho gasto.
A noite tapou as ranhuras à madrugada e, asfixiada pela impotência de nascer, recolheu-se atrás de nuvens densas, castelos de fumo.
Lá ao longe, um farol a mostrar-me outro rumo, um barco que se volta, o meu regaço que se inunda, as minhas mãos que submergem, o meu peito que agoniza, o cais a desintegrar-se, e eu, noite de naufrágios,... no recanto do tempo onde me sento...
No regaço coloco as mãos frias como que a esperar que a chuva passe, o vento deixe de sibilar, as ondas alterosas deixem de me atormentar.
Ponho as mãos no regaço, perdidas, cansadas, inertes, à espera, neste cais que se desintegra, numa espera inútil, onde nenhum barco atraca, farol que não dá sinais.
De repente o crepúsculo cai, a noite fria surge, a noite de naufrágios, a minha noite. Sento-me nos destroços, as ondas rebentam aos meus pés, fortes, gigantescas e a minha alma chora ao ritmo da rebentação.
Sinto-me perdida, sem pontos cardeais, sem bússola, tentando encontrar as ruelas da madrugada que anelo, a que tenha a frescura da hortelã, o cheiro da madressilva, o gosto da amora, a brandura e a macieza do linho gasto.
A noite tapou as ranhuras à madrugada e, asfixiada pela impotência de nascer, recolheu-se atrás de nuvens densas, castelos de fumo.
Lá ao longe, um farol a mostrar-me outro rumo, um barco que se volta, o meu regaço que se inunda, as minhas mãos que submergem, o meu peito que agoniza, o cais a desintegrar-se, e eu, noite de naufrágios,... no recanto do tempo onde me sento...
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11/26/2009 06:03:00 da tarde
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terça-feira, 24 de novembro de 2009
Fui mulher
Eu fui silêncio!...
Por longos dias, longos anos,
eu fui silêncio:
Engolido,
vomitado
aumentado.
Eu fui perdão,
eu fui medo!...
Por longos dias, longos anos,
eu fui perdão consentido,
medo multiplicado
de insultos, dores,
humilhacão.
Como sopa engoli mágoa,
a impotência com água,
a dor com lágrimas,
parti espelhos, estilhacei sonhos,
calei palavras, sequei gestos
ganhei tiques,
construí diques...
Quebrei o silêncio,
a rastejar ergui-me,...
reagi amedrontada.
Depois,
fiz-me a mulher coragem
da penumbra dos meus dias,
pássaro esmiuçado na ponta do bastão,
que indefeso cai ao chão.
E,
aos meus olhos
a noite voraz desceu
em pleno dia
e,
os meus olhos foram noite,...
na paz da noite!...
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Adelaide Monteiro
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11/24/2009 07:21:00 da tarde
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Violéncia doméstica
domingo, 22 de novembro de 2009
Fascínio
Um sábado de Outono com cheiro a Inverno: chuvoso, húmido, frio.
De vez em quando apetece-me ver o mar; quem lê o que escrevo, apercebe-se facilmente do fascínio que o mar exerce sobre mim. Não posso dizer que seja uma paixão embrionária, com cordão umbilical ainda por cortar. Afinal de contas só toquei a água do mar quando tinha dezanove anos. Digamos que foi uma paixão à primeira vista.
A primeira ida à praia valeu-me uma insolação. O fascínio à mistura com a falta de experiência relativamente aos perigos que a minha pele tão branca e rosada corria, chegada a Moçambique pouco tempo antes.
Perdoei-lhe a insolação e no fim de semana seguinte, lá estava eu a chapinhar na água, como uma criança.
O mesmo fascínio ainda hoje sinto, muito embora permaneça na praia pouco tempo, pelos perigos que hoje em dia se correm, incomparavelmente superiores aos de então, tudo devido à forma como temos vindo a tratar o belo planeta azul.
Hoje fiz-lhe uma visita, curta, certa de não correr o risco de insolação.
Fiz um pequeno percurso de carro, não mais que quinze quilómetros, julgo eu, até à praia de S. Julião, atravessando algumas belas e típicas aldeias de Sintra. O dia convidava à lareira, mas ainda assim preferi dar uma voltinha debaixo de uma atmosfera que se assemelhava a Natal.
O limpa pára-brisa do carro andou num rodopio. Apesar disso, fui admirando a paisagem da região saloia.
O céu era prateado, carregado de nuvens desejosas de despejarem a chuva, para logo a seguir se irem abastecer ao mar, ali tão perto.
Mal se podia vislumbrar a paisagem nitidamente para além de curta distância, devido ao manto de fino nevoeiro; as casas mostravam-se esbatidas, quais aguarelas pintadas em cores pastel muito suaves.
A estrada começou a ser em declive e com algumas curvas, sinal que o mar estava perto. Estávamos a contornar o monte que do lado do mar se transforma em falésia escarpada.
Dois bares: um junto à areia, outro, o meu preferido, lá no alto, à altura ideal para ver o mar relativamente perto, sem que se correr o risco de levar com as ondas.
O mar de Sintra, agitado, raivoso, a espumar.
Já o tenho observado em dias de Inverno, que de tão zangado, as suas ondas batem de tal forma contra os rochedos, que, em cima se cria uma chuva miudinha.
As cadeiras da parte exterior, em cor laranja e verde abacate esperam melhores dias, dias sem chuva e soalheiros. Lá dentro, a salinha com vista directa para o mar estava fria; aberta no Verão, o sistema de transformação para o tempo frio não é de todo eficaz.
Um café quente com uma queijada de Sintra, fresquíssima, diga-se, para aquecer um pouco.
Sentada estrategicamente para melhor ver a ondulação, ela vinha de encontro ao meu olhar. A quase imperceptível linha do horizonte era cinzento escuro, tão escuro como era o mar que lhe ficava perto, depois, a ondulação caminhava majestosa, a rebentar de espuma. O mar assemelhava-se a um manto gigantesco de tule branco a remexer em harmonia, tais bailarinas clássicas dançando ballet ao som das ondas.
A chuva ainda caía.
Despedi-me do mar.
Respirei fundo e levei em mim o cheiro a maresia.
De vez em quando apetece-me ver o mar; quem lê o que escrevo, apercebe-se facilmente do fascínio que o mar exerce sobre mim. Não posso dizer que seja uma paixão embrionária, com cordão umbilical ainda por cortar. Afinal de contas só toquei a água do mar quando tinha dezanove anos. Digamos que foi uma paixão à primeira vista.
A primeira ida à praia valeu-me uma insolação. O fascínio à mistura com a falta de experiência relativamente aos perigos que a minha pele tão branca e rosada corria, chegada a Moçambique pouco tempo antes.
Perdoei-lhe a insolação e no fim de semana seguinte, lá estava eu a chapinhar na água, como uma criança.
O mesmo fascínio ainda hoje sinto, muito embora permaneça na praia pouco tempo, pelos perigos que hoje em dia se correm, incomparavelmente superiores aos de então, tudo devido à forma como temos vindo a tratar o belo planeta azul.
Hoje fiz-lhe uma visita, curta, certa de não correr o risco de insolação.
Fiz um pequeno percurso de carro, não mais que quinze quilómetros, julgo eu, até à praia de S. Julião, atravessando algumas belas e típicas aldeias de Sintra. O dia convidava à lareira, mas ainda assim preferi dar uma voltinha debaixo de uma atmosfera que se assemelhava a Natal.
O limpa pára-brisa do carro andou num rodopio. Apesar disso, fui admirando a paisagem da região saloia.
O céu era prateado, carregado de nuvens desejosas de despejarem a chuva, para logo a seguir se irem abastecer ao mar, ali tão perto.
Mal se podia vislumbrar a paisagem nitidamente para além de curta distância, devido ao manto de fino nevoeiro; as casas mostravam-se esbatidas, quais aguarelas pintadas em cores pastel muito suaves.
A estrada começou a ser em declive e com algumas curvas, sinal que o mar estava perto. Estávamos a contornar o monte que do lado do mar se transforma em falésia escarpada.
Dois bares: um junto à areia, outro, o meu preferido, lá no alto, à altura ideal para ver o mar relativamente perto, sem que se correr o risco de levar com as ondas.
O mar de Sintra, agitado, raivoso, a espumar.
Já o tenho observado em dias de Inverno, que de tão zangado, as suas ondas batem de tal forma contra os rochedos, que, em cima se cria uma chuva miudinha.
As cadeiras da parte exterior, em cor laranja e verde abacate esperam melhores dias, dias sem chuva e soalheiros. Lá dentro, a salinha com vista directa para o mar estava fria; aberta no Verão, o sistema de transformação para o tempo frio não é de todo eficaz.
Um café quente com uma queijada de Sintra, fresquíssima, diga-se, para aquecer um pouco.
Sentada estrategicamente para melhor ver a ondulação, ela vinha de encontro ao meu olhar. A quase imperceptível linha do horizonte era cinzento escuro, tão escuro como era o mar que lhe ficava perto, depois, a ondulação caminhava majestosa, a rebentar de espuma. O mar assemelhava-se a um manto gigantesco de tule branco a remexer em harmonia, tais bailarinas clássicas dançando ballet ao som das ondas.
A chuva ainda caía.
Despedi-me do mar.
Respirei fundo e levei em mim o cheiro a maresia.
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11/22/2009 12:59:00 da manhã
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sábado, 21 de novembro de 2009
Ai!!! Solta-me os nós...

Não me acorrentes!!
Quer queiras ou não, partirei.
Terás a certeza do que te digo quando olhares o mar.
Lá estarei nesse mar, na crista da onda.
Não me vês??
Estou no meio daquela espuma.
Quer queiras ou não, partirei.
Terás a certeza do que te digo quando olhares o mar.
Lá estarei nesse mar, na crista da onda.
Não me vês??
Estou no meio daquela espuma.
Tu não me vês!...
Fecha os olhos, abre o coração, depois… depois ver-me- ás!
Não me prendas!!
Na mesma correrei.
Olha os lameiros. Não me vês a rebolar na erva cortada de fresco, com o vestido manchado de verde? É lá que estou.
Não vês os gafanhotos a saltar à minha frente?
Não me vês!!!
Na mesma correrei.
Olha os lameiros. Não me vês a rebolar na erva cortada de fresco, com o vestido manchado de verde? É lá que estou.
Não vês os gafanhotos a saltar à minha frente?
Não me vês!!!
Fecha os olhos, abre a alma ao sonho e vem saltar comigo no lameiro ceifado de fresco, onde as gadanhas foram orquestra, interpretando sinfonias que só serão ouvidas por alguém que alguma vez perseguiu gafanhotos num lameiro acabado de ceifar.
Solta-te…
O sonho não tem limites. Em sonho podes chegar ao que quiseres, onde quiseres.
Só tu és dono dos teus sonhos, mais ninguém. Aliás, se bem pensares, para além dos dias que já viveste, não és dono de mais nada.
Não vens?
O sonho não tem limites. Em sonho podes chegar ao que quiseres, onde quiseres.
Só tu és dono dos teus sonhos, mais ninguém. Aliás, se bem pensares, para além dos dias que já viveste, não és dono de mais nada.
Não vens?
Ai!!!
Então desata-me esses nós que me prendem ao chão!!!
Já os desataste?
O lado sonhador acaba por vencer o lado racional, e...
Adeus!!!...
Adeus!!!...
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11/21/2009 07:16:00 da tarde
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Solto-me do meu cais

Solto-me do meu cais,
envolvo-me nos teus rubros e dourados,
cubro-me com as folhagens do tempo,
ausente te contemplo
e contigo sou brisa, ventania,
calor e invernada.
Às vezes sou música que te anima,
outras,
sou a solidão que cresce nos apeadeiros
duma linha sem comboios.
Contigo quero chamar-me esperança,
renhida luta,
insistente luta, feroz...
Luta com as imagens que me ocupam,
a saudade faz-se rio...
Quero uma foz para esse rio,
de modo a que o caudal não cresça...
O mar está longe
e a foz,
é uma lagoa pantanosa
onde a água,
devagar, tão devagar, vai indo...
Visto-me de folhas de carvalho e freixo
quando o vento as leva,
ao aconchego
onde me deito,
refúgio adoçado pela brisa,
onde me escondo
das neblinas dos meus dias,
e, nesse aconchego,
sou esperança, descrença,
sou ermo, multidão;
sou tudo,...
e não sou nada!...
Sou herói duma batalha;
poeiras de uma estrela cadente
que se despenha, se espalha;
um minúsculo grão de areia,
que se escapa dos demais!!!....
Visto-me de tudo e de nada,
neste cosmos,
...solta do meu cais.
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11/20/2009 03:55:00 da tarde
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O Destino - Pintura de Salvador Dalí
Devolvo-me...

Devolvo-me...
Devolvo-me
À origem do meu ser.
Barro amassado
Estátua por modelar
Poema adiado
Palavras por rimar.
Devolvo-me...
Devolvo-me intacta
Eu mesma...
Devolvo-me à raiz
Que me segure
E forte me prenda.
Devolvo-me...
Devolvo-me à secura
Para voltar a nascer
Na frincha dum rochedo
Virado a Norte
Para ser
Uma flor
Numa mistura de violeta e cardo
Singela
Forte
Da cor do amor.
Não peço...
Ponto para teatro
Rede para equilibrismo
Cavalo para tourada
Prémios
Palmas
Nada!!...
Basta-me...
Mãos que me aqueçam
Olhos que me bebam
Corações que me amem
Almas que me completem...
Devolvo-me...
Barro
Fraga
Seda
Água
Tronco de madeira
Mas...
Devolvo-me...
Inteira!
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à(s)
11/20/2009 01:46:00 da tarde
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Pintura de Salvador Dalí
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Assim fico... Adormecida.

Aperto-me no gesto contido dum abraço, no silêncio da noite, suspensa, numa cama presa a colunas de granito.
No chão, sardinheiras com aroma acre, rubras, brancas, folhas verdes de veludo,
inebriada estou, nesta envolvência.
Luzes ao longe, quem sabe, de barcos perdidos.
A olhar as estrelas abro as mãos e lhes peço
que desçam
e partilhando a cama,
me entreguem luz, a luz resplandecente.
As estrelas fugiram, antes da madrugada intimista.
Nem uma vela acesa,
luz trémula que fosse, fumo a esvair-se,
juntamente com o fumo do cigarro
que apago com a ânsia de o ter aceso.
Mas ah, como me apetece acendê-lo, soprar o fumo em deleite, vê-lo subir!
A vela terminou, da vela resta o pavio,
na minha alma a solidão,
a solidão que tantas vezes me apetece,
nesse espaço meu onde respiro e me vejo.
Descaíram os braços,
sem que abraçassem aquele abraço.
As estrelas partiram, perseguidas pelo nevoeiro.
Vem agora abraço quente,
com o teu calor,vem condensar o nevoeiro;
tenho tanto frio!...
Quis partir ao teu encontro mas tive medo.
Tive medo que aquele abraço me arrastasse,
em vagas alterosas e me projectasse
para caminhos,
que não são os meus caminhos.
Este nevoeiro confunde-me,
os meus olhos ficam frágeis,
os meus passos lentos,
os meus braços estendidos,
cansados,
tão cansados de esperar.
Quero que a madrugada me beije,
que me abrace e me inspire
para te dizer em poema o que tenho dentro,
o frio que me gela, icebergue nos meus passos.
E, assim fico,
com a caneta na mão,
tentando escrever um poema, em gestação tardia,
neste parto difícil de que resulta,... em nada.
E assim, na rede adormeço,...
na desolação de um filho por parir
ausência de poema,
vontade daquele abraço
E assim fico....
Adormecida.
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11/17/2009 01:50:00 da tarde
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Um conto de afectos
Erguida caminho
À procura de nadas
Que no fundo são tudo
E sem parar procuro.
Vasculho na vida
O sentido
E na vida tropeço
No chão que escorrega.
Avanço
Balanço
Vacilo, não tombo
E assim avanço.
A caminhar encontro
Um conto de afectos
No horizonte perdidos
Esquecidos no conto
Que ninguém contou.
Com os dedos
Desfolho
As folhas coladas
Caladas
Esquecidas
Que ninguém desfolhou.
Onde estão os afectos
Os afectos do conto!?
Os que não foram dados
Os desperdiçados
Os não recebidos
Os não merecidos.
Arranquei ao conto
A ferida dorida
E de tão dorida
Começou a sangrar;
Apertei-a com força
Para o sangue estancar.
Restaurei o conto
Retirei-lhe a brandura
Lancei-a ao mundo
Para lhe dar doçura
À procura de nadas
Que no fundo são tudo
E sem parar procuro.
Vasculho na vida
O sentido
E na vida tropeço
No chão que escorrega.
Avanço
Balanço
Vacilo, não tombo
E assim avanço.
A caminhar encontro
Um conto de afectos
No horizonte perdidos
Esquecidos no conto
Que ninguém contou.
Com os dedos
Desfolho
As folhas coladas
Caladas
Esquecidas
Que ninguém desfolhou.
Onde estão os afectos
Os afectos do conto!?
Os que não foram dados
Os desperdiçados
Os não recebidos
Os não merecidos.
Arranquei ao conto
A ferida dorida
E de tão dorida
Começou a sangrar;
Apertei-a com força
Para o sangue estancar.
Restaurei o conto
Retirei-lhe a brandura
Lancei-a ao mundo
Para lhe dar doçura
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à(s)
11/17/2009 09:10:00 da manhã
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domingo, 15 de novembro de 2009
Sim, sei bem(...)
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.”
Fernando Pessoa
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.”
Fernando Pessoa
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11/15/2009 08:57:00 da tarde
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Na brisa

Achei que estarias perto.
Não preciso telefone, nem carta, nem sinal.
Tu sabes que te reconheço à distância,
na brisa que perfumas.
A flor de jasmim fechou as pétalas,
tão inodora se sentiu, quando por ela passaste.
O ramo da madressilva florida,
que tão decidida trepara o beiral,
envergonhada, deixou-se cair.
O cheiro a tomilho e framboesas que transportas,
neutraliza tudo quanto no ar exista;
bom ou mau, acredita.
É por isso que te digo, meu amor,
que tu és o bálsamo que perfuma os meus dias,
o ar que dá alento à minha vida.
Caminha!
Apressa mais o passo.
Quero rapidamente ver surgir a tua silhueta,
lá ao longe, sombra ténue,
como que desenhada pela linha imaginária
do movimento dos meus dedos,
quando ávidos te percorrem.
Os meus dedos,
tão famintos dedos!...
Vem!
Quero sentir o aroma mais intenso,
o aroma do teu corpo
a misturar-se no meu, em profundo enlace.
Caminha!
Vou partir ao teu encontro,
para que os meus braços,
mais depressa te abracem.
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Adelaide Monteiro
à(s)
11/15/2009 04:46:00 da tarde
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