Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Agradeceu-me com um sorriso

Descalcei-me dos medos e caminhei no escuro da noite. Gelada noite, vento a entrar-me por entre os buracos de um xaile de renda.
Tremia e a minha pele arrepiava-se. Passei as mãos pelo corpo, com força, para acalmar a sementeira de pele de galinha que se espalhava.
Por um instante parei e reflecti: Que faço aqui? Porquê que teimo e continuo enfrentando temporais gélidos se eu não tenho agasalho? Porquê que simulo descalçar-me do medo se trago o medo agarrado a botas de cano alto?
O vento sibilava cada vez mais, cada vez mais frio e o céu cada vez mais escuro. Nem uma única estrela, nada reluzia que não fosse o meu cigarro que me fez companhia em grandes bufaradas de quem travou o fumo, até o fundo dos infernos de si, pulmões negros de alcatrão, olhos raiados de sangue da tosse que asfixia.
Olhei para o cigarro que ardia quando lhe batia o vento à medida que ia gritando:
Para quê que acendi esta merda que só me faz merda cá dentro!? Quero lá saber, que se lixe o dentro e o fora, que se lixe a noite escura que me assusta, o frio que me mata. Tenho um cigarro por companhia, por agasalho, por lamparina.
Meti a mão num bolso dos buracos do xaile, de onde tirei outro cigarro. Acendi-o, aspirei-o com força para dele tirar sustento, mastiguei-lhe o fumo, como se fosse um pão que me matasse a fome.

Continuei reclamando:
Quero lá saber do cigarro, da porra do pão, do frio, do gelo das minhas entranhas, das minhas rotações descompassadas, das putas das pernas presas... Tenho um medo do caraças, do escuro, das sombras, aqui neste ermo escuro onde nem eu própria faço sombra…

Aspirei uma vez mais o cigarro para ver os dedos trémulos.

Foi por causa do cigarro aceso que me descobriste na noite.

...

Pareceu-me ouvir vozes lá fora, de alguém que falava agitada.
Abri a porta, mandei-a entrar e dei-lhe guarida. Embrulhei-a numa manta de lã para que se descongelasse ao pé da fogueira enquanto me foi contando a sua história, aquela história.
Aos poucos, ganhou brilho e força e depois dormitou.
A seguir, peguei nela, lancei-a no escuro e, com um sopro, ajudei-a a elevar-se no céu.
Quando olhei para cima, lá estava ela, cheia, resplandecente de luz e, aos poucos, a noite deixou de ser noite escura.
Fui-me deitar.

Indiscreta olhou-me através da cortina de seda, acenou-me e agradeceu com um sorriso.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Sim, eu sei!




Sim, eu sei
que depois do ocaso,
outro dia vem.

Sim, eu sei
que depois do vermelhão
com que se despede o dia,
outro dia virá,
outra luz voltará,
roxa, laranja em clarão.

Sim, eu sei…
Mas também sei que há noites
em que o corpo
me treme de frio
e tenho medo da escuridão.

Sabes sol da tarde?
Não posso contar com o luar
porque de fases é a lua.
Umas vezes doce a amar,
outras vezes dura e crua.

Por isso sol do poente,
tão vermelho de paixão,
não me deixes entregue à noite
tira-me desta escuridão.

Dizes-me
que tens pouca luz,
sol poente?


De pouca,
eu estou carente!
Amanhã,

ao amanhecer
prometo que te vou ver,
bem cedinho a nascente.


sábado, 13 de fevereiro de 2010

Docemente




Nos olhos de avelãs onde me vejo
há reflexo da sede que se sente.
Tu nos meus a beber ensejos,
para mais beberes na minha sede,
a chuva dos nossos desejos.

Os corpos que se juntam
na pele que sabe a mar.
Os braços que se encontram,
mãos inquietas, rodopiar
em sufoco dos nossos beijos.

Calor a fundir-se em arrepios
e as bocas em devaneios.
Dos silêncios aos gemidos,
no brotar das fontes e enleios
dum vai vem de almejos.

Os corpos a escalar ao cimo

para em queda livre virem a descer.
Nos corpos, a nudez vestida
e a tua mão a adormecer
docemente nos meus seios.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Para onde queremos caminhar?




Uns olhos negros pedem ajuda.
Lindos, expressivos numa expressão triste. Uma imensa ilha num rosto negro, corpo de menino marcado pela dor: uma alma tão inocente a sofrer, um corpo tão pequenino a gemer silêncio. Aguenta firme sem que a primeira lágrima engrosse e um rio desça cara abaixo apesar das dores que deve sentir quando, um jovem português lhe faz o penso para lhe tratar e tapar as chagas. Está só, não tem com quem partilhar as lágrimas e talvez por isso não chore. Os pais já não estão para lhas limparem.

Outro, ao colo da mãe sentada no chão da tenda transformada em hospital, chora com dignidade na dor, a de um menino que cedo se habituou a sofrer.
Pronto, já acabou, disse o jovem médico português à medida que ia dizendo à mãe que seria aconselhável fazer uma radiografia ao joelho. O rio de lágrimas evaporou-se de imediato, nem mais uma, nem mais um soluço lhe ficou no peito.
Meninos corajosos, uma coragem que lhe vem de dentro das entranhas e que cresceu como grama em solo seco, como um cacto no deserto.

Espírito de entrega, amor ao próximo, altruísmo e um sem fim de adjectivos que só podem ser usados para definir pessoas com uma formação baseada em valores que infelizmente estão em vias de extinção. Assim é esse médico que, tal como outras pessoas se entregam em doação sem que nada queiram em troca e que mais não recebem senão o sentimento de gratidão dum povo destroçado.
Será que nem catástrofes com0 esta fazem com que as pessoas reflictam quão pequenos somos, perante as forças da natureza ou perante um conflito armado sério.


Depois, comecei a pensar no terramoto e na guerra aberta que se está a travar em Portugal, onde altruísmo e espírito construtivo são coisas em desuso.
Um terramoto causado pelo homem, não um terramoto a abanar o físico, mas a abanar as mentes.
Acontecimentos a exceder os limites do razoável, pessoas a exceder os limites das suas funções... Falta de respeito pelas instituições em que bombardeamentos se cruzam em todas as direcções sem haver respeito algum pelo alvo, seja ele quem for, nem respeiro pelos cidadãos.
Os políticos a agirem levianamente, palavras e actos sem serem previamente ponderados e sem medir as consequências dos mesmos, falta de transparência e rigor, causando desilusão àqueles que os elegeram.
Uma comunicação social sem regras, tendenciosa na sua maioria que, a coberto da liberdade de imprensa comete barbaridades, como se dever público de informar fosse o pôr a nú o que é do domínio privado, atacando e acusando mesmo que nada esteja provado, num desrespeito total pelas instituições.

Em que país vivemos e o que esperamos com estas guerrilhas de emboscada?

Para onde queremos caminhar se já estamos numa situação económica tão débil, com um défice elevadíssimo, com as empresas de rating a colocarem Portugal como um país quase incapaz de honrar os seus compromissos, fazendo com que os juros pagos pelos portugueses aumentem exponencialmente?
Para onde queremos caminhar com querelas que mesmo que pertinentes, nos fazem esquecer os verdadeiros problemas do país, os problemas sociais decorrentes do desemprego, as pensões de miséria, a fragilidade das instituições de segurança social?

Não querendo ser excessivamente dramática, foi num clima semelhante ao que hoje se vive que a primeira República caiu e originou cinquenta anos de ditadura.
Também nesse tempo havia uma situação económico desastrosa, desrespeito pelos Órgãos e Instituições do Estado, desrespeito e descrédito pela Justiça, descontentamento e conflitos sociais.
Para o bem e para o mal, os acontecimentos históricos repetem-se.
A seguir, sabemos bem o que foi a falta de liberdade e a censura. Pelo menos as pessoas da minha geração sabem-no.
Era bom que toda a gente soubesse. Se assim fosse, não se levantariam de ânimo leve as vozes, pelo menos, sem que fosse provado por quem de direito.
Também em democracia tem que haver regras e essas regras têm que ser extensivas à comunicação social. A entidade reguladora da comunicação social tem que ser um organismo actuante para que a troco da liberdade de imprensa não se cometam excessos dessa liberdade. Os excessos são sempre maléficos, venham eles de que lado vierem.

Era bom que, em breve, este clima de crispação em todos os domínios terminasse e que todos arregaçássemos as mangas com vista à construção de um futuro melhor para nós e para as gerações vindouras, para que futuramente não haja meninos com sorrisos tristes.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Para quê tantas palavras?!!!

Queria escrever...
Queria escrever coisas sonantes,
que me enchessem de vitórias,
mas a tinta do tinteiro entornou-se
num terreno
sedento de protagonismo
e a minha pena
não tem fonte de glórias.
Já não tenho palavras!...
Já não quero mais palavras!...

As últimas que desenhei
entupiram-me a caneta,
em teias emaranhadas.
Não foi por censura, não foi por medo
nem em prostituição vendidas,
foram elas mesmas,… as palavras!

Desejaram no seu silêncio,
um respirar suspenso,
gritos calados,
ais sustidos,
sons não pronunciados.
Amadurecidas,
banhadas em bom senso,
passaram a ser muito mais que palavras…



num país que querem fazer com palavras...


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Numa fonte a brotar





Foste-te...
Como se fosses
Um cavalo de corrida
Em arenas sem fim
À procura de vitórias.

A galope te perdeste
Caminhando por bosques
Onde não tinhas cadeado
Para prender memórias.

Caminha...
Agarrada aos teus braços
A que um dia se segurou
Para remar em remoínhos
E em teus beijos se afundou.

Espera-te...
No colo do cansaço
Segurando nas mãos
Os sonhos que restaurou.

Espera-te...
Nas escadas da alma
Para que, degrau a degrau
Vás subindo
Em escalada verdadeira.

Não te importes pela água
Que devagarinho escapou
Pela ribeira.

Espera-te...
Numa nascente a brotar.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Mulheres:

Aos vinte, temos o mundo aos pés
Aos trinta, nas mãos
Aos quarente, em tudo
Aos cinquenta, no coração
Aos sessenta, na sabedoria

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

À distância de um clik

A Internet aproxima as pessoas e de que modo.
Amigos que algures, por algum desencontro da vida se perderam, endereços anotados e telefones que se foram com uma simples mudança de casa, o desalento, as saudades, o sentimento de culpa por não ser suficientemente organizado para que nada se perca. E perde-se, perde-se muitas vezes, o papel e o fio condutor dos encontros, para que a amizade perdure.

Aconteceu o ano passado quando por curiosidade escrevi no Google o nome de uma cidade, daquelas que nos deixam marcas indeléveis e que nunca mais visitei nem sei se um dia voltarei a pisar, o país, os sítios que sinto como berço.
À distância de um clik percorreram-se milhares e milhares de quilómetros, países e mais países, oceanos, desertos.

Os olhos brilharam perante o écran cheio, informação diversa e sites. O site, antigos alunos e professores da escola tal, espicaçou-me a curiosidade. Tinha lá sido professora, o primeiro ano de docência. Ao fim do ano lectivo, foi a separação. Um corte com poucas despedidas, os alunos que ficaram, a maioria dos amigos que não voltei a ver, os colegas que acabei por esquecer, como se, de peças de mobiliário fora de moda se tratasse.

Entrei no site. Espasmos percorreram-me o estômago e os intestinos com a ansiedade. É sempre assim, voltas e mais voltas que o nervosismo miudinho me dá nas tripas.
Listagem de pessoas, uma ou outra que conhecia, uma amiga a quem mandei uma mensagem. As mensagens podem ser lidas por toda a gente, o que de certa forma facilita os contactos e o rebuscar de afectos, já que as pessoas que ali entram têm os mesmos objectivos e ao fim ao cabo cria-se uma cadeia de solidariedade.
Uns a viver aqui em Portugal, outros fora do país, fomos chegando uns aos outros, ao todo menos que uma dúzia. Excelente, depois de mais de trinta anos!

Comecei a sentir cheiros que vinham ter comigo: de especiarias, de flores, de frutos, de maresia, de leite de coco que usávamos para um bronzeado mais castanho dourado, o mesmo sem tirar nem por que se usava para aromatizar o caril na hora de servir, exactamente igual, saído do coco fresco ralado e espremido. O Coppertone fazia pouco mais e era muito mais caro.
Vi-me com shorts e uma pequena blusa, reduzidíssima mesmo, as xanatinhas de enfiar o dedo e que ainda agora adoro calçar do mesmo tipo, pela liberdade que os meus pés sentem, a bata branca que tinha que usar na Escola nesse tempo de liberdade restrita, curta, alva, tão alva como a saiínha fresca de cetim com renda na baínha que usava por baixo, para que os alunos não me vissem o que não deviam quando eu, ao levantar o braço para escrever no quadro, a bata também levantava. Para cima era a bata a única peça de roupa que usava, de algodão puro, adequado ao calor húmido que se sentia.
Tantas, tantas lembranças!
O som da noite vindo dos batuques aos fins de semana no Chipangara, sons que me chegavam desse bairro de africanos, nas proximidades do bairro onde eu morava, extraordinariamente melodioso, ritmado e quente, tão quente como a noite tropical.

Telefonemas a seguir, emails trocados, fotos, a mesma voz, os corpos e os rostos diferentes com as marcas dos anos e dos desencontros que fazem com que se mostrem as rugas e os quilos a mais de uma vez só, sem que aos poucos nos habituemos.
Mas ah felicidade, estamos vivos!...
Estamos vivos por dentro e por fora, neste mundo global que a Internet nos proporciona e em que tudo está à distância de um clik.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Abre de par em par

Deixa que eu entre no teu silêncio,
para que no teu cerne,
desvende mistérios e descanse.
Amanheça eu aí,
encostada a uma gota de orvalho,
cristalina, reluzente,
com reflexos lilases e alaranjados
dum amanhecer de Agosto e,
lá ficarei o dia todo, a vida toda.
Abre-me o ferrolho da porta do templo,
esse, onde as gestações são eternas,
as palavras nascem espontaneamente,
as curas se fazem sem milagres e,
de onde brotam mananciais
capazes de regar estepes,
restolhos, desertos.
Abre-me os portões desse jardim de estrelas,
onde constelações são bailarinas
e a Via Láctea uma orquestra.
Abre de par em par
as portas do paraíso que tu és
à minha alma vagabunda.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Este recanto é nosso

Viajo sobre um manto branco de núvens, cama fofa onde me deito embalada pela lua que, mesmo discreta, me envia brilho com o sol a pique.
Deito-me aconchegada naquele berço e acabo por adormecer.
Em sonhos, tu estavas a meu lado e, ao acordar, os meus braços estavam a enlear o infinito, num abraço.
Ainda a sonhar, esfreguei os olhos, desviei uma nuvem e olhei para baixo.
Acenaste-me duma planura dourada; estavas em pé, em cima de um rochedo com algo na mão a agitar, fazendo-me sinais para que eu travasse o vento e a núvem me não levasse para outros mundos.
Pedi aos deuses para que o vento deixasse de soprar, para que a minha viagem terminasse e eu pudesse descer naquele apeadeiro.
Depois, consegui ouvir a tua voz que me dizia que que aquele recanto era o nosso mundo.
Desci da nuvem branca, sentei-me a teu lado e tu ofereceste-me uma folha de papel que manchei com desenhos e frases onde se contavam histórias de mouras encantadas, de gigantes rochas com suas bocas fantasmagóricas, de medos.
Ali ficámos até o dia se deitar e as estrelas virem beber a luz à lua, aquelas estrelas que dormiam enquanto eu dormia na cama suspensa, de algodão.

É um pouco disto, a sensação que tenho, quando viajo de avião acima das núvens e vislumbro as paisagens em miniatura que vão ficando para trás. O desejo de dormir naquela cama imaculada.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O professor não morre jamais

»A alegria de ensinar é um livro cujo autor, Rubem Alves, pretende deixar claro que ensinar é um exercício de imortalidade, que de alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra, sendo que, desse modo, o professor não morre jamais, estando a cada dia no pensamento daqueles a quem ele ensinou».

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Com aroma a alfazema

Sentiu-se tensa naquela tarde fria. Há dias em que nem ela sabe porquê que os músculos se retesam em espasmos, tão involuntários quanto indesejáveis. Talvez falta de potássio, quem sabe ou antes uma vida de preocupações e correrias. O corpo a dar sinais de cansaço e que nem sempre se lhe dá a devida atenção.
Chegou tarde do trabalho, às oito mais precisamente; o cuco cantou no relógio antigo que a avó lhe dera e que é uma relíquia da marca Reguladora, hora regulada na verdade, nem um segundo a mais ou menos desde que não se esqueça de lhe dar manualmente corda.
Foi deixando coisas para trás à medida que ia caminhando, afinal que diabo, não tinha que dar satisfações a ninguém desde que há um ano pedira o divórcio após mais de trinta de casamento, trinta e tal anos de tudo um pouco. A balança a dada altura pesou para o lado de querer viver sem que alguém lhe quisesse cobrar fosse o que fosse.
Tirou a chave da porta, bateu-a com força como que a desejar que tudo ficasse definitivamente no exterior. Na cozinha branca e preta deixou a caixa com o jantar, comprado ao virar da esquina, coisa pouca, como convém. Depois largou a mala, o casaco e a boina que habitualmente lhe cobre a cabeça, alternando com boné, ou chapéu. Respirou fundo e murmurou de alívio; finalmente em casa! Que dia, com a breca!...
Preparou o banho de sais e espuma com a aroma a alfazema, acendeu uma vela do mesmo aroma e pô-la junto à banheira. Foi tirando as peças de roupa lentamente, como se esse também fosse um dos truques de relaxamento e colocou-a no cadeirão do quarto. Depois deixou-se estar coberta de espuma, massajando o corpo, saboreando cada toque, respirando o aroma daquele ambiente perfumado e de luz difusa. Respirou de alívio, sentiu-se outra. Secou o corpo, massajou-o com o creme corporal, vestiu o pijama de veludo, calçou umas pantufas quentes. Depois, o roupão azul turquesa, veludo macio e quente. Passa-lhe a mão com frequência e encosta a cabeça na gola volumosa, para lhe sentir a macieza. Veludo por dentro e por fora. Adora roupas macias e bonitas para estar em casa.
O jantar na sala de estar servido num tabuleiro, acompanhado com música calma e um sumo de laranja natural, saboreando cada dentada, cada som, cada toque macio no roupão de veludo, azul turquesa.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Para que hei-de ser

Porque serei letra ou palavra
Se eu frase não sei ser
Porque balbucio os sons
Se eu nada te sei dizer

Procuro nas palavras
Uma forma de chegar
A um destino
De onde acabo por voltar

Das mãos foge-me o afago
Das veias foge a paixão
Da boca foge-me o beijo
Dos pés foge-me o chão

Para que sou eu o que sou
Se o que sou eu não sei ser
Porque me golpeio
Sabendo que vai doer

Para que hei-de ser palavra
Se palavra não sei escrever
Para que serei amanhã
Se eu o hoje não sei ter

Para que escrevo
Se nem sequer eu vou ler

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O colete de forças

São profundos os vales, são íngremes e escarpadas as encostas. A escassa brisa que tímida corre não lhe chega aos pulmões, na quantidade desejável. Nestes sítios sente-se como no Metro em hora de ponta.
Quer ver um campo aberto onde os seus olhos se espraiem, onde a luz lhe cegue os olhos, onde o céu se mostre na sua plenitude.
Sempre lhe faltou o ar nestes vales profundos. Ainda se lembra da tarde húmida em que teve a sensação de que o mundo lhe cairia em cima como um torpedo, lhe esmagaria a cabeça, naqueles lugares da ilha da Madeira que achou espantosos no cimo mas que odiou quando lá no fundo, só viu montes com uma pequena nesga de céu por cima.

Quero céu, quero terra a perder de vista no planalto ou que seja no pico mais alto do monte onde os meus olhos possam caminhar livremente. Que faço aqui eu neste fim de mundo? Quem me lançou neste inferno que abomino, perguntou Inês furiosa.

Gritou. O mais alto que as cordas vocais puderam e os pulmões lhe deram fôlego.
Nos locais fundos, a sua mente sente que o ar é rarefeito. A sua mente, sim, tudo está na sua cabeça, porque afinal o ar é cada vez mais rarefeito à medida que subimos. Como pode faltar o ar só porque se está no fundo?
Gritou e, aquele grito fez ecos e mais ecos de encontro às montanhas que, dispostas em círculo imperfeito, poderia muito bem, estar ali uma lagoa. Antes estivesse, ao menos chapinhava na água. Ecos, muitos ecos da sua voz, em ondas de som cada vez mais fraco. Gritou mais vezes, gritos espaçados de poucos segundos e, os ecos multiplicados pareciam gritos de almas que haviam sido deportadas para aquele buraco, para se redimirem dos pecados.
Tantas, tantas almas a gritar!
Não sentiu medo, antes sufoco. Arrancou da sebe um pau liso que lhe serviu de apoio para subir o monte e, sem olhar para trás, galgou-o o mais rápido que pode.
Finalmente o céu aberto, as árvores a esvoaçar livremente, o ar a entrar nos pulmões até o fundo, as cigarras a descansarem as asas, ela a livrar-se do colete de forças que lhe apertava as costelas e aos poucos a asfixiava.

Há dias

Há dias em que sou tudo
Outros há
Em que não sou nada

Há dias em que o meu peito
Por tudo vibra
De tanto amar
Há dias em que desfeito
Triste
Sem jeito
É frio glaciar

Há dias sim
Há dias não

Há dias em que me olho ao espelho
E me apetece olhar
Mas outros há
Porque será
Que sendo eu a mesma
Eu me volto
Para não olhar

Há dias luminosos
Há dias escuros

Há dias em que abraço a vida
Com risos e cantares
Loucuras e ousadias
Mas ah, tenho dias
Em que a vida me sufoca
E me amordaça
Quero cantar
E quando a voz se solta
Solta-se a chorar

Há dias que são momentos
E há momentos que são dias!...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Reflicto, Haiti

Olho as nuvens espessas, distantes, escuras.
Amaldiçoo o céu porque o sol me esconde e me deixa prostrada nesta cadeira húmida, onde o baloiço se prendeu nas dobradiças.
O dia faz-me gélido o peito, o meu rosto está inexpressivo, sedento de neve, faminto de prados do planalto que sempre em sua alma brilha.
Como eu me sinto uma egoísta monstruosa!! Preocupada com a falta de sol, quando no mundo impera a escuridão...
Repouso, reflicto.
A penumbra traz-me vermelho sangue, o vento traz-me cheiro a morte, a fome, a injustiças. Olho o horizonte e vejo crianças a arrastarem-se entre os cadáveres, mortas de fome e de sede, a morrer em cima de escombros onde a morte se faz vida, por tão crua a vida ser.
Para onde olhava o mundo, antes de tudo desabar?
Para onde olhamos nós quando nos deliciamos em férias de sonho e nem sequer nos lembramos que a realização dos nossos sonhos em nada contribuem para melhores sonhos daquele povo? Para onde vão os sonhos por nós pagos?
O povo do Haiti não tem nada, os factos o têm dito; o país nada tem, as imagens têm mostrado, as notícias revelado.
Onde tem andado metida a humanidade, surda e cega?
Onde está a justiça divina?
Onde estamos todos?
Andamos entretidos com as nossas vaidades, reclamando o sol e a penumbra, o céu escuro e o estrelado, a chuva e a falta dela,... de tudo reclamando!

domingo, 17 de janeiro de 2010

Que me chegue até Dezembro

Escrevo sobre a neve que guardei, pegadas firmes no desnorte dos dias.
Caminho errante sobre essa manta branca com a certeza de quem tem uma bússola a indicar-lhe o norte e lhe traça os pontos cardeais nos seus destinos incertos.
Paro, inverto o sentido e, para não me desorientar sigo as pegadas e, para que possa sentir o fofo nos pés, ao lado eu piso.
Às vezes faço incursões por outros campos, os campos onde a neve não cai, mas depressa os meus pés retornam às outras pegadas e me levam a ti, céu cinzento de neve fofa, fábrica dos meus sonhos, orquestras de cigarras no calor escaldante do dia, de rãs e grilos à noite, filarmónica de chiares vindos de todos os caminhos e que mesmo que só em arquivos me deliciam.
Escrevo sobre o branco que guardei de um tempo, até o outro tempo que me leve a ti e me dê mais tempo de magia.
Manda-me mais branco, tempo!
Manda-me branco mágico que me chegue até Dezembro!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Comigo serás sol

Achei que não virias
Achei que a nuvem negra te tomaria nos braços
Traiçoeira nuvem que de ti me priva
Como ontem, lembras-te?
Ainda cedo, caminhei sonâmbula
Destapei o lençol que te cobria
Tirei-te as vestes.
Depois, fizeste-te luz
Acalmaste-me o corpo agitado pelo vento
Que soprou na noite fria
Acariciaste-me o rosto
E, sorrindo me pediste:
Deita-te a meu lado
Ilumina comigo o universo
Tira-me o cansaço
Das apeias que me prendem
Dias, anos, milénios
Livra-me da monotonia em que mergulho
Nesta vida onde nada me acontece
Prende-te com os meus cabelos
Fixa-te no meu calor
Fica comigo
E, os dois aqueceremos o mundo.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Cumpriu-se o desejo

Olho através dos vidros e vejo que muito mais próximo de mim do que é habitual, o céu se deixa cair sobre os carvalhos semi-despidos. Gradualmente, as manchas do arvoredo são nuances cada vez mais ténues, como que encobertas por nevoeiro cerrado, até que desaparecem naquele céu de neve feito, tão lindo, tão extraordinariamente reconfortante.
Há aqui na aldeia quem não compreenda este meu fascínio pela neve e por outras coisas sem significado para a maioria dos mortais e me tome, no mínimo, por excêntrica.
A paisagem está a ficar cada vez mais linda, mais branca. A neve cai miudinha e se o vento não tivesse deixado de soprar com força, seria daquela neve que entra por qualquer orifício e que aqui é designada por neve cisqueira.
Cada vez que deixo de escrever e levanto os olhos sinto a paisagem mais bela.
Em memórias, regresso aos anos da infância e da juventude: O frio que sentia na véspera do nevão, as casas humildes de granito a deixarem entrar o frio por todos os buracos, calafetadas com a neve que caía, o lume mais forte que o habitual, os animais que não podiam sair do estábulo alimentados a palha e grão de centeio, as correrias na neve fofa, as brincadeiras que fazíamos a jogar à bolada na rua dos Palheiros, em Miranda, em vez das aulas por encerrarem as escolas, frio, muito frio.
Sempre o fascínio pela neve. Como pode alguém admirar-se que eu manifestasse vontade de ver nevar, agora que, ainda por cima estou numa sala aquecida, confortável, com janelas amplas e portas rasgadas que me permitem ver a aldeia, os telhados cada vez mais brancos e a nuvem de farrapos brancos que se desprende do céu.
Tivesse eu ouvidos sensíveis para lhe captar a música da queda, tivesse eu pernas para correr pelos campos sem medo de me enterrar, tivesse eu arte para descrever o que sinto, pincéis para passar para uma tela gigante aquilo que me encanta, e tudo captaria nem que só um pouco fosse.
Não se consegue ter tudo ao mesmo tempo, e, o que me falta em pernas, pulmões e ouvido, sobra-me em espanto, neste sentir profundo, neste encantamento. Há coisas que só vemos quando as olhamos com o tempo propício para as ver, há coisas que só as sentimos quando temos sensibilidade bastante para as sentir. São compensações daquilo que perdemos...
Para vós, que estais numa cidade aonde este manto não chega, guardarei um punhado desta brancura, para que também possais relembrar os momentos mágicos das vossas infâncias, vividos aqui neste Planalto, tão vosso quanto meu.
Poderei guardar muito mais do que um punhado, tanta, tanta mais,... por muita a neve ser, já num manto branco, árvores a ficarem cobertas, o céu cada vez mais cinza prateado, o nevoeiro provocado pela queda das farrapos cada vez maiores, muito mais denso, a linha do horizonte cada vez mais próxima, uma noite inteira de neve a cair, prometida pelo céu.
Ponho mais uns troncos de carvalho na fogueira, enrosco-me numa manta e, aqui ficarei a vê-la cair até que a luz do sol me deixe. Depois, será manhã branca, fofo debaixo das botas, luz intensa a confundir os coelhos, a confundir-me nos caminhos que quero percorrer para sentir o som característico da neve fofa ao ser calcada pelos pés.
Aqui, num recanto de mim...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O gelo a derreter

A noite foi fria. Antes das vinte e duas horas já a água estava congelada e, onde a estrada estivesse molhada, os condutores incautos sentiam o carro a fugir-lhes; ao caminhar, os pés escorregavam levando o corpo ao chão ao mínimo descuido. Tivemos que andar com muita precaução em alguns sítios.
Acordei cedo e dirigi-me à janela para verificar se tudo estaria branco. Estava apenas junto ao chão e aparentemente o gelo era pouco. Constatei depois que a geada era medonha, não daquelas ostensivas, mas antes com o gelo acoitado na terra e que por sua causa endureceu.
O sol resplandeceu de luz e calor.
Estou com a janela escancarada para que a sala areje e ao mesmo tempo seque e aqueça, como aquece o lado direito do meu corpo aqui neste ponto onde estrategicamente me sentei. A geada mantém-se nos lugares sombrios à hora em que as badaladas no sino da torre da igreja marcaram o meio dia.
Respira-se silêncio; a betoneira calou-se à hora de almoço, os tractores estão recolhidos porque a terra está ensopada; só de vez em quando se ouve um ou outro pássaro, daqueles pássaros corajosos que enfrentam estes invernos de frio intenso.
As chaminés continuam a expelir fumo, autênticas fábricas de incinerar florestas, para que aqueça o sangue frio a correr nas veias da população idosa que aqui habita.
É altura de dar uma caminhada, o dia convida, as pernas também, para que não fiquem empedernidas precocemente. Os dias curtos têm que ser muito bem aproveitados. Antes de o sol se pôr já o frio começa a entrar no corpo, capaz de congelar qualquer lágrima que se solte e o vapor que sai do nariz, em nuvens brancas.

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