Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A medida do amor



Perguntaste-me um dia
Quanto o amor media.

Não te soube responder.
Seja lá com que for
Eu não tenho nada
Com que meça o amor.

O amor é céu.
O amor é oceano
Um verde de esperança
Em ondas tecido.

Mas também há dor
Delírio e loucura
Nas danças do amor.

A medida do amor
Eu não ta sei dar.
O que te posso dizer
É que o amor é uma flor
E para não morrer
O tens que regar.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Fico-me pela sangria



Um pouco de sal, água e vinho branco; alho e coentros para dar aroma, um pouco de aguardente para dar coragem e frontalidade, um naco.

Deixei-o cozer em fogo esperto, como convém, para não se perderem os sucos, afim de que ficasse tenro e terno.

Segui à risca a receita para que tudo saísse na perfeição para depois escrever um conto.

Tanto quiz que apurado ficasse, o cozinhado esturrou-se e na cozinha tresandou a alho e coentros.

Do álcool da aguardente nem a mais pequenina porção de vapores!
A água e o vinho secaram e o molho ficou excessivamente salgado.

É no silenço que as palavras me saiem dos poros.
O ruído do esturricar roubou-me as condições para a escrita. Além disso, julgo que de tudo isto um conto não sairia, ficando-se tão somente por um dia sem almoço.
Desisti e fiquei-me pela sangria.

...Vou merendar!
Até já.

...Caminha







Hoje,
mesmo que o dia seja triste
falo-te de esperança.
Hoje,
mesmo que o dia esteja escuro,
falo-te de confiança.
Hoje,
mesmo que no campo haja gelo,
falo-te de aconchego.
Vai!
Vai ao jardim e
lá encontrarás as magnólias,
flores sedutoras de insectos,
só elas,
amores primeiros sem rivais
que chamam a Primavera,
tempo antes das demais.
Só elas!
Serás magnólia se quiseres.
Única.
Coragem a brotar dos caules despidos,
calor sem agasalhos.
Depois, acende as centelhas
que moram nos seus olhos felinos
e, com elas,
hás-de derreter a geada dos dias,
dos insensatos dias,
das escorregadias noites.
Única,
...caminha.




Agradeceu-me com um sorriso

Descalcei-me dos medos e caminhei no escuro da noite. Gelada noite, vento a entrar-me por entre os buracos de um xaile de renda.
Tremia e a minha pele arrepiava-se. Passei as mãos pelo corpo, com força, para acalmar a sementeira de pele de galinha que se espalhava.
Por um instante parei e reflecti: Que faço aqui? Porquê que teimo e continuo enfrentando temporais gélidos se eu não tenho agasalho? Porquê que simulo descalçar-me do medo se trago o medo agarrado a botas de cano alto?
O vento sibilava cada vez mais, cada vez mais frio e o céu cada vez mais escuro. Nem uma única estrela, nada reluzia que não fosse o meu cigarro que me fez companhia em grandes bufaradas de quem travou o fumo, até o fundo dos infernos de si, pulmões negros de alcatrão, olhos raiados de sangue da tosse que asfixia.
Olhei para o cigarro que ardia quando lhe batia o vento à medida que ia gritando:
Para quê que acendi esta merda que só me faz merda cá dentro!? Quero lá saber, que se lixe o dentro e o fora, que se lixe a noite escura que me assusta, o frio que me mata. Tenho um cigarro por companhia, por agasalho, por lamparina.
Meti a mão num bolso dos buracos do xaile, de onde tirei outro cigarro. Acendi-o, aspirei-o com força para dele tirar sustento, mastiguei-lhe o fumo, como se fosse um pão que me matasse a fome.

Continuei reclamando:
Quero lá saber do cigarro, da porra do pão, do frio, do gelo das minhas entranhas, das minhas rotações descompassadas, das putas das pernas presas... Tenho um medo do caraças, do escuro, das sombras, aqui neste ermo escuro onde nem eu própria faço sombra…

Aspirei uma vez mais o cigarro para ver os dedos trémulos.

Foi por causa do cigarro aceso que me descobriste na noite.

...

Pareceu-me ouvir vozes lá fora, de alguém que falava agitada.
Abri a porta, mandei-a entrar e dei-lhe guarida. Embrulhei-a numa manta de lã para que se descongelasse ao pé da fogueira enquanto me foi contando a sua história, aquela história.
Aos poucos, ganhou brilho e força e depois dormitou.
A seguir, peguei nela, lancei-a no escuro e, com um sopro, ajudei-a a elevar-se no céu.
Quando olhei para cima, lá estava ela, cheia, resplandecente de luz e, aos poucos, a noite deixou de ser noite escura.
Fui-me deitar.

Indiscreta olhou-me através da cortina de seda, acenou-me e agradeceu com um sorriso.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Sim, eu sei!




Sim, eu sei
que depois do ocaso,
outro dia vem.

Sim, eu sei
que depois do vermelhão
com que se despede o dia,
outro dia virá,
outra luz voltará,
roxa, laranja em clarão.

Sim, eu sei…
Mas também sei que há noites
em que o corpo
me treme de frio
e tenho medo da escuridão.

Sabes sol da tarde?
Não posso contar com o luar
porque de fases é a lua.
Umas vezes doce a amar,
outras vezes dura e crua.

Por isso sol do poente,
tão vermelho de paixão,
não me deixes entregue à noite
tira-me desta escuridão.

Dizes-me
que tens pouca luz,
sol poente?


De pouca,
eu estou carente!
Amanhã,

ao amanhecer
prometo que te vou ver,
bem cedinho a nascente.


sábado, 13 de fevereiro de 2010

Docemente




Nos olhos de avelãs onde me vejo
há reflexo da sede que se sente.
Tu nos meus a beber ensejos,
para mais beberes na minha sede,
a chuva dos nossos desejos.

Os corpos que se juntam
na pele que sabe a mar.
Os braços que se encontram,
mãos inquietas, rodopiar
em sufoco dos nossos beijos.

Calor a fundir-se em arrepios
e as bocas em devaneios.
Dos silêncios aos gemidos,
no brotar das fontes e enleios
dum vai vem de almejos.

Os corpos a escalar ao cimo

para em queda livre virem a descer.
Nos corpos, a nudez vestida
e a tua mão a adormecer
docemente nos meus seios.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Para onde queremos caminhar?




Uns olhos negros pedem ajuda.
Lindos, expressivos numa expressão triste. Uma imensa ilha num rosto negro, corpo de menino marcado pela dor: uma alma tão inocente a sofrer, um corpo tão pequenino a gemer silêncio. Aguenta firme sem que a primeira lágrima engrosse e um rio desça cara abaixo apesar das dores que deve sentir quando, um jovem português lhe faz o penso para lhe tratar e tapar as chagas. Está só, não tem com quem partilhar as lágrimas e talvez por isso não chore. Os pais já não estão para lhas limparem.

Outro, ao colo da mãe sentada no chão da tenda transformada em hospital, chora com dignidade na dor, a de um menino que cedo se habituou a sofrer.
Pronto, já acabou, disse o jovem médico português à medida que ia dizendo à mãe que seria aconselhável fazer uma radiografia ao joelho. O rio de lágrimas evaporou-se de imediato, nem mais uma, nem mais um soluço lhe ficou no peito.
Meninos corajosos, uma coragem que lhe vem de dentro das entranhas e que cresceu como grama em solo seco, como um cacto no deserto.

Espírito de entrega, amor ao próximo, altruísmo e um sem fim de adjectivos que só podem ser usados para definir pessoas com uma formação baseada em valores que infelizmente estão em vias de extinção. Assim é esse médico que, tal como outras pessoas se entregam em doação sem que nada queiram em troca e que mais não recebem senão o sentimento de gratidão dum povo destroçado.
Será que nem catástrofes com0 esta fazem com que as pessoas reflictam quão pequenos somos, perante as forças da natureza ou perante um conflito armado sério.


Depois, comecei a pensar no terramoto e na guerra aberta que se está a travar em Portugal, onde altruísmo e espírito construtivo são coisas em desuso.
Um terramoto causado pelo homem, não um terramoto a abanar o físico, mas a abanar as mentes.
Acontecimentos a exceder os limites do razoável, pessoas a exceder os limites das suas funções... Falta de respeito pelas instituições em que bombardeamentos se cruzam em todas as direcções sem haver respeito algum pelo alvo, seja ele quem for, nem respeiro pelos cidadãos.
Os políticos a agirem levianamente, palavras e actos sem serem previamente ponderados e sem medir as consequências dos mesmos, falta de transparência e rigor, causando desilusão àqueles que os elegeram.
Uma comunicação social sem regras, tendenciosa na sua maioria que, a coberto da liberdade de imprensa comete barbaridades, como se dever público de informar fosse o pôr a nú o que é do domínio privado, atacando e acusando mesmo que nada esteja provado, num desrespeito total pelas instituições.

Em que país vivemos e o que esperamos com estas guerrilhas de emboscada?

Para onde queremos caminhar se já estamos numa situação económica tão débil, com um défice elevadíssimo, com as empresas de rating a colocarem Portugal como um país quase incapaz de honrar os seus compromissos, fazendo com que os juros pagos pelos portugueses aumentem exponencialmente?
Para onde queremos caminhar com querelas que mesmo que pertinentes, nos fazem esquecer os verdadeiros problemas do país, os problemas sociais decorrentes do desemprego, as pensões de miséria, a fragilidade das instituições de segurança social?

Não querendo ser excessivamente dramática, foi num clima semelhante ao que hoje se vive que a primeira República caiu e originou cinquenta anos de ditadura.
Também nesse tempo havia uma situação económico desastrosa, desrespeito pelos Órgãos e Instituições do Estado, desrespeito e descrédito pela Justiça, descontentamento e conflitos sociais.
Para o bem e para o mal, os acontecimentos históricos repetem-se.
A seguir, sabemos bem o que foi a falta de liberdade e a censura. Pelo menos as pessoas da minha geração sabem-no.
Era bom que toda a gente soubesse. Se assim fosse, não se levantariam de ânimo leve as vozes, pelo menos, sem que fosse provado por quem de direito.
Também em democracia tem que haver regras e essas regras têm que ser extensivas à comunicação social. A entidade reguladora da comunicação social tem que ser um organismo actuante para que a troco da liberdade de imprensa não se cometam excessos dessa liberdade. Os excessos são sempre maléficos, venham eles de que lado vierem.

Era bom que, em breve, este clima de crispação em todos os domínios terminasse e que todos arregaçássemos as mangas com vista à construção de um futuro melhor para nós e para as gerações vindouras, para que futuramente não haja meninos com sorrisos tristes.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Para quê tantas palavras?!!!

Queria escrever...
Queria escrever coisas sonantes,
que me enchessem de vitórias,
mas a tinta do tinteiro entornou-se
num terreno
sedento de protagonismo
e a minha pena
não tem fonte de glórias.
Já não tenho palavras!...
Já não quero mais palavras!...

As últimas que desenhei
entupiram-me a caneta,
em teias emaranhadas.
Não foi por censura, não foi por medo
nem em prostituição vendidas,
foram elas mesmas,… as palavras!

Desejaram no seu silêncio,
um respirar suspenso,
gritos calados,
ais sustidos,
sons não pronunciados.
Amadurecidas,
banhadas em bom senso,
passaram a ser muito mais que palavras…



num país que querem fazer com palavras...


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Numa fonte a brotar





Foste-te...
Como se fosses
Um cavalo de corrida
Em arenas sem fim
À procura de vitórias.

A galope te perdeste
Caminhando por bosques
Onde não tinhas cadeado
Para prender memórias.

Caminha...
Agarrada aos teus braços
A que um dia se segurou
Para remar em remoínhos
E em teus beijos se afundou.

Espera-te...
No colo do cansaço
Segurando nas mãos
Os sonhos que restaurou.

Espera-te...
Nas escadas da alma
Para que, degrau a degrau
Vás subindo
Em escalada verdadeira.

Não te importes pela água
Que devagarinho escapou
Pela ribeira.

Espera-te...
Numa nascente a brotar.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Mulheres:

Aos vinte, temos o mundo aos pés
Aos trinta, nas mãos
Aos quarente, em tudo
Aos cinquenta, no coração
Aos sessenta, na sabedoria

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

À distância de um clik

A Internet aproxima as pessoas e de que modo.
Amigos que algures, por algum desencontro da vida se perderam, endereços anotados e telefones que se foram com uma simples mudança de casa, o desalento, as saudades, o sentimento de culpa por não ser suficientemente organizado para que nada se perca. E perde-se, perde-se muitas vezes, o papel e o fio condutor dos encontros, para que a amizade perdure.

Aconteceu o ano passado quando por curiosidade escrevi no Google o nome de uma cidade, daquelas que nos deixam marcas indeléveis e que nunca mais visitei nem sei se um dia voltarei a pisar, o país, os sítios que sinto como berço.
À distância de um clik percorreram-se milhares e milhares de quilómetros, países e mais países, oceanos, desertos.

Os olhos brilharam perante o écran cheio, informação diversa e sites. O site, antigos alunos e professores da escola tal, espicaçou-me a curiosidade. Tinha lá sido professora, o primeiro ano de docência. Ao fim do ano lectivo, foi a separação. Um corte com poucas despedidas, os alunos que ficaram, a maioria dos amigos que não voltei a ver, os colegas que acabei por esquecer, como se, de peças de mobiliário fora de moda se tratasse.

Entrei no site. Espasmos percorreram-me o estômago e os intestinos com a ansiedade. É sempre assim, voltas e mais voltas que o nervosismo miudinho me dá nas tripas.
Listagem de pessoas, uma ou outra que conhecia, uma amiga a quem mandei uma mensagem. As mensagens podem ser lidas por toda a gente, o que de certa forma facilita os contactos e o rebuscar de afectos, já que as pessoas que ali entram têm os mesmos objectivos e ao fim ao cabo cria-se uma cadeia de solidariedade.
Uns a viver aqui em Portugal, outros fora do país, fomos chegando uns aos outros, ao todo menos que uma dúzia. Excelente, depois de mais de trinta anos!

Comecei a sentir cheiros que vinham ter comigo: de especiarias, de flores, de frutos, de maresia, de leite de coco que usávamos para um bronzeado mais castanho dourado, o mesmo sem tirar nem por que se usava para aromatizar o caril na hora de servir, exactamente igual, saído do coco fresco ralado e espremido. O Coppertone fazia pouco mais e era muito mais caro.
Vi-me com shorts e uma pequena blusa, reduzidíssima mesmo, as xanatinhas de enfiar o dedo e que ainda agora adoro calçar do mesmo tipo, pela liberdade que os meus pés sentem, a bata branca que tinha que usar na Escola nesse tempo de liberdade restrita, curta, alva, tão alva como a saiínha fresca de cetim com renda na baínha que usava por baixo, para que os alunos não me vissem o que não deviam quando eu, ao levantar o braço para escrever no quadro, a bata também levantava. Para cima era a bata a única peça de roupa que usava, de algodão puro, adequado ao calor húmido que se sentia.
Tantas, tantas lembranças!
O som da noite vindo dos batuques aos fins de semana no Chipangara, sons que me chegavam desse bairro de africanos, nas proximidades do bairro onde eu morava, extraordinariamente melodioso, ritmado e quente, tão quente como a noite tropical.

Telefonemas a seguir, emails trocados, fotos, a mesma voz, os corpos e os rostos diferentes com as marcas dos anos e dos desencontros que fazem com que se mostrem as rugas e os quilos a mais de uma vez só, sem que aos poucos nos habituemos.
Mas ah felicidade, estamos vivos!...
Estamos vivos por dentro e por fora, neste mundo global que a Internet nos proporciona e em que tudo está à distância de um clik.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Abre de par em par

Deixa que eu entre no teu silêncio,
para que no teu cerne,
desvende mistérios e descanse.
Amanheça eu aí,
encostada a uma gota de orvalho,
cristalina, reluzente,
com reflexos lilases e alaranjados
dum amanhecer de Agosto e,
lá ficarei o dia todo, a vida toda.
Abre-me o ferrolho da porta do templo,
esse, onde as gestações são eternas,
as palavras nascem espontaneamente,
as curas se fazem sem milagres e,
de onde brotam mananciais
capazes de regar estepes,
restolhos, desertos.
Abre-me os portões desse jardim de estrelas,
onde constelações são bailarinas
e a Via Láctea uma orquestra.
Abre de par em par
as portas do paraíso que tu és
à minha alma vagabunda.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Este recanto é nosso

Viajo sobre um manto branco de núvens, cama fofa onde me deito embalada pela lua que, mesmo discreta, me envia brilho com o sol a pique.
Deito-me aconchegada naquele berço e acabo por adormecer.
Em sonhos, tu estavas a meu lado e, ao acordar, os meus braços estavam a enlear o infinito, num abraço.
Ainda a sonhar, esfreguei os olhos, desviei uma nuvem e olhei para baixo.
Acenaste-me duma planura dourada; estavas em pé, em cima de um rochedo com algo na mão a agitar, fazendo-me sinais para que eu travasse o vento e a núvem me não levasse para outros mundos.
Pedi aos deuses para que o vento deixasse de soprar, para que a minha viagem terminasse e eu pudesse descer naquele apeadeiro.
Depois, consegui ouvir a tua voz que me dizia que que aquele recanto era o nosso mundo.
Desci da nuvem branca, sentei-me a teu lado e tu ofereceste-me uma folha de papel que manchei com desenhos e frases onde se contavam histórias de mouras encantadas, de gigantes rochas com suas bocas fantasmagóricas, de medos.
Ali ficámos até o dia se deitar e as estrelas virem beber a luz à lua, aquelas estrelas que dormiam enquanto eu dormia na cama suspensa, de algodão.

É um pouco disto, a sensação que tenho, quando viajo de avião acima das núvens e vislumbro as paisagens em miniatura que vão ficando para trás. O desejo de dormir naquela cama imaculada.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O professor não morre jamais

»A alegria de ensinar é um livro cujo autor, Rubem Alves, pretende deixar claro que ensinar é um exercício de imortalidade, que de alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra, sendo que, desse modo, o professor não morre jamais, estando a cada dia no pensamento daqueles a quem ele ensinou».

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Com aroma a alfazema

Sentiu-se tensa naquela tarde fria. Há dias em que nem ela sabe porquê que os músculos se retesam em espasmos, tão involuntários quanto indesejáveis. Talvez falta de potássio, quem sabe ou antes uma vida de preocupações e correrias. O corpo a dar sinais de cansaço e que nem sempre se lhe dá a devida atenção.
Chegou tarde do trabalho, às oito mais precisamente; o cuco cantou no relógio antigo que a avó lhe dera e que é uma relíquia da marca Reguladora, hora regulada na verdade, nem um segundo a mais ou menos desde que não se esqueça de lhe dar manualmente corda.
Foi deixando coisas para trás à medida que ia caminhando, afinal que diabo, não tinha que dar satisfações a ninguém desde que há um ano pedira o divórcio após mais de trinta de casamento, trinta e tal anos de tudo um pouco. A balança a dada altura pesou para o lado de querer viver sem que alguém lhe quisesse cobrar fosse o que fosse.
Tirou a chave da porta, bateu-a com força como que a desejar que tudo ficasse definitivamente no exterior. Na cozinha branca e preta deixou a caixa com o jantar, comprado ao virar da esquina, coisa pouca, como convém. Depois largou a mala, o casaco e a boina que habitualmente lhe cobre a cabeça, alternando com boné, ou chapéu. Respirou fundo e murmurou de alívio; finalmente em casa! Que dia, com a breca!...
Preparou o banho de sais e espuma com a aroma a alfazema, acendeu uma vela do mesmo aroma e pô-la junto à banheira. Foi tirando as peças de roupa lentamente, como se esse também fosse um dos truques de relaxamento e colocou-a no cadeirão do quarto. Depois deixou-se estar coberta de espuma, massajando o corpo, saboreando cada toque, respirando o aroma daquele ambiente perfumado e de luz difusa. Respirou de alívio, sentiu-se outra. Secou o corpo, massajou-o com o creme corporal, vestiu o pijama de veludo, calçou umas pantufas quentes. Depois, o roupão azul turquesa, veludo macio e quente. Passa-lhe a mão com frequência e encosta a cabeça na gola volumosa, para lhe sentir a macieza. Veludo por dentro e por fora. Adora roupas macias e bonitas para estar em casa.
O jantar na sala de estar servido num tabuleiro, acompanhado com música calma e um sumo de laranja natural, saboreando cada dentada, cada som, cada toque macio no roupão de veludo, azul turquesa.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Para que hei-de ser

Porque serei letra ou palavra
Se eu frase não sei ser
Porque balbucio os sons
Se eu nada te sei dizer

Procuro nas palavras
Uma forma de chegar
A um destino
De onde acabo por voltar

Das mãos foge-me o afago
Das veias foge a paixão
Da boca foge-me o beijo
Dos pés foge-me o chão

Para que sou eu o que sou
Se o que sou eu não sei ser
Porque me golpeio
Sabendo que vai doer

Para que hei-de ser palavra
Se palavra não sei escrever
Para que serei amanhã
Se eu o hoje não sei ter

Para que escrevo
Se nem sequer eu vou ler

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O colete de forças

São profundos os vales, são íngremes e escarpadas as encostas. A escassa brisa que tímida corre não lhe chega aos pulmões, na quantidade desejável. Nestes sítios sente-se como no Metro em hora de ponta.
Quer ver um campo aberto onde os seus olhos se espraiem, onde a luz lhe cegue os olhos, onde o céu se mostre na sua plenitude.
Sempre lhe faltou o ar nestes vales profundos. Ainda se lembra da tarde húmida em que teve a sensação de que o mundo lhe cairia em cima como um torpedo, lhe esmagaria a cabeça, naqueles lugares da ilha da Madeira que achou espantosos no cimo mas que odiou quando lá no fundo, só viu montes com uma pequena nesga de céu por cima.

Quero céu, quero terra a perder de vista no planalto ou que seja no pico mais alto do monte onde os meus olhos possam caminhar livremente. Que faço aqui eu neste fim de mundo? Quem me lançou neste inferno que abomino, perguntou Inês furiosa.

Gritou. O mais alto que as cordas vocais puderam e os pulmões lhe deram fôlego.
Nos locais fundos, a sua mente sente que o ar é rarefeito. A sua mente, sim, tudo está na sua cabeça, porque afinal o ar é cada vez mais rarefeito à medida que subimos. Como pode faltar o ar só porque se está no fundo?
Gritou e, aquele grito fez ecos e mais ecos de encontro às montanhas que, dispostas em círculo imperfeito, poderia muito bem, estar ali uma lagoa. Antes estivesse, ao menos chapinhava na água. Ecos, muitos ecos da sua voz, em ondas de som cada vez mais fraco. Gritou mais vezes, gritos espaçados de poucos segundos e, os ecos multiplicados pareciam gritos de almas que haviam sido deportadas para aquele buraco, para se redimirem dos pecados.
Tantas, tantas almas a gritar!
Não sentiu medo, antes sufoco. Arrancou da sebe um pau liso que lhe serviu de apoio para subir o monte e, sem olhar para trás, galgou-o o mais rápido que pode.
Finalmente o céu aberto, as árvores a esvoaçar livremente, o ar a entrar nos pulmões até o fundo, as cigarras a descansarem as asas, ela a livrar-se do colete de forças que lhe apertava as costelas e aos poucos a asfixiava.

Há dias

Há dias em que sou tudo
Outros há
Em que não sou nada

Há dias em que o meu peito
Por tudo vibra
De tanto amar
Há dias em que desfeito
Triste
Sem jeito
É frio glaciar

Há dias sim
Há dias não

Há dias em que me olho ao espelho
E me apetece olhar
Mas outros há
Porque será
Que sendo eu a mesma
Eu me volto
Para não olhar

Há dias luminosos
Há dias escuros

Há dias em que abraço a vida
Com risos e cantares
Loucuras e ousadias
Mas ah, tenho dias
Em que a vida me sufoca
E me amordaça
Quero cantar
E quando a voz se solta
Solta-se a chorar

Há dias que são momentos
E há momentos que são dias!...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Reflicto, Haiti

Olho as nuvens espessas, distantes, escuras.
Amaldiçoo o céu porque o sol me esconde e me deixa prostrada nesta cadeira húmida, onde o baloiço se prendeu nas dobradiças.
O dia faz-me gélido o peito, o meu rosto está inexpressivo, sedento de neve, faminto de prados do planalto que sempre em sua alma brilha.
Como eu me sinto uma egoísta monstruosa!! Preocupada com a falta de sol, quando no mundo impera a escuridão...
Repouso, reflicto.
A penumbra traz-me vermelho sangue, o vento traz-me cheiro a morte, a fome, a injustiças. Olho o horizonte e vejo crianças a arrastarem-se entre os cadáveres, mortas de fome e de sede, a morrer em cima de escombros onde a morte se faz vida, por tão crua a vida ser.
Para onde olhava o mundo, antes de tudo desabar?
Para onde olhamos nós quando nos deliciamos em férias de sonho e nem sequer nos lembramos que a realização dos nossos sonhos em nada contribuem para melhores sonhos daquele povo? Para onde vão os sonhos por nós pagos?
O povo do Haiti não tem nada, os factos o têm dito; o país nada tem, as imagens têm mostrado, as notícias revelado.
Onde tem andado metida a humanidade, surda e cega?
Onde está a justiça divina?
Onde estamos todos?
Andamos entretidos com as nossas vaidades, reclamando o sol e a penumbra, o céu escuro e o estrelado, a chuva e a falta dela,... de tudo reclamando!

domingo, 17 de janeiro de 2010

Que me chegue até Dezembro

Escrevo sobre a neve que guardei, pegadas firmes no desnorte dos dias.
Caminho errante sobre essa manta branca com a certeza de quem tem uma bússola a indicar-lhe o norte e lhe traça os pontos cardeais nos seus destinos incertos.
Paro, inverto o sentido e, para não me desorientar sigo as pegadas e, para que possa sentir o fofo nos pés, ao lado eu piso.
Às vezes faço incursões por outros campos, os campos onde a neve não cai, mas depressa os meus pés retornam às outras pegadas e me levam a ti, céu cinzento de neve fofa, fábrica dos meus sonhos, orquestras de cigarras no calor escaldante do dia, de rãs e grilos à noite, filarmónica de chiares vindos de todos os caminhos e que mesmo que só em arquivos me deliciam.
Escrevo sobre o branco que guardei de um tempo, até o outro tempo que me leve a ti e me dê mais tempo de magia.
Manda-me mais branco, tempo!
Manda-me branco mágico que me chegue até Dezembro!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Comigo serás sol

Achei que não virias
Achei que a nuvem negra te tomaria nos braços
Traiçoeira nuvem que de ti me priva
Como ontem, lembras-te?
Ainda cedo, caminhei sonâmbula
Destapei o lençol que te cobria
Tirei-te as vestes.
Depois, fizeste-te luz
Acalmaste-me o corpo agitado pelo vento
Que soprou na noite fria
Acariciaste-me o rosto
E, sorrindo me pediste:
Deita-te a meu lado
Ilumina comigo o universo
Tira-me o cansaço
Das apeias que me prendem
Dias, anos, milénios
Livra-me da monotonia em que mergulho
Nesta vida onde nada me acontece
Prende-te com os meus cabelos
Fixa-te no meu calor
Fica comigo
E, os dois aqueceremos o mundo.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Cumpriu-se o desejo

Olho através dos vidros e vejo que muito mais próximo de mim do que é habitual, o céu se deixa cair sobre os carvalhos semi-despidos. Gradualmente, as manchas do arvoredo são nuances cada vez mais ténues, como que encobertas por nevoeiro cerrado, até que desaparecem naquele céu de neve feito, tão lindo, tão extraordinariamente reconfortante.
Há aqui na aldeia quem não compreenda este meu fascínio pela neve e por outras coisas sem significado para a maioria dos mortais e me tome, no mínimo, por excêntrica.
A paisagem está a ficar cada vez mais linda, mais branca. A neve cai miudinha e se o vento não tivesse deixado de soprar com força, seria daquela neve que entra por qualquer orifício e que aqui é designada por neve cisqueira.
Cada vez que deixo de escrever e levanto os olhos sinto a paisagem mais bela.
Em memórias, regresso aos anos da infância e da juventude: O frio que sentia na véspera do nevão, as casas humildes de granito a deixarem entrar o frio por todos os buracos, calafetadas com a neve que caía, o lume mais forte que o habitual, os animais que não podiam sair do estábulo alimentados a palha e grão de centeio, as correrias na neve fofa, as brincadeiras que fazíamos a jogar à bolada na rua dos Palheiros, em Miranda, em vez das aulas por encerrarem as escolas, frio, muito frio.
Sempre o fascínio pela neve. Como pode alguém admirar-se que eu manifestasse vontade de ver nevar, agora que, ainda por cima estou numa sala aquecida, confortável, com janelas amplas e portas rasgadas que me permitem ver a aldeia, os telhados cada vez mais brancos e a nuvem de farrapos brancos que se desprende do céu.
Tivesse eu ouvidos sensíveis para lhe captar a música da queda, tivesse eu pernas para correr pelos campos sem medo de me enterrar, tivesse eu arte para descrever o que sinto, pincéis para passar para uma tela gigante aquilo que me encanta, e tudo captaria nem que só um pouco fosse.
Não se consegue ter tudo ao mesmo tempo, e, o que me falta em pernas, pulmões e ouvido, sobra-me em espanto, neste sentir profundo, neste encantamento. Há coisas que só vemos quando as olhamos com o tempo propício para as ver, há coisas que só as sentimos quando temos sensibilidade bastante para as sentir. São compensações daquilo que perdemos...
Para vós, que estais numa cidade aonde este manto não chega, guardarei um punhado desta brancura, para que também possais relembrar os momentos mágicos das vossas infâncias, vividos aqui neste Planalto, tão vosso quanto meu.
Poderei guardar muito mais do que um punhado, tanta, tanta mais,... por muita a neve ser, já num manto branco, árvores a ficarem cobertas, o céu cada vez mais cinza prateado, o nevoeiro provocado pela queda das farrapos cada vez maiores, muito mais denso, a linha do horizonte cada vez mais próxima, uma noite inteira de neve a cair, prometida pelo céu.
Ponho mais uns troncos de carvalho na fogueira, enrosco-me numa manta e, aqui ficarei a vê-la cair até que a luz do sol me deixe. Depois, será manhã branca, fofo debaixo das botas, luz intensa a confundir os coelhos, a confundir-me nos caminhos que quero percorrer para sentir o som característico da neve fofa ao ser calcada pelos pés.
Aqui, num recanto de mim...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O gelo a derreter

A noite foi fria. Antes das vinte e duas horas já a água estava congelada e, onde a estrada estivesse molhada, os condutores incautos sentiam o carro a fugir-lhes; ao caminhar, os pés escorregavam levando o corpo ao chão ao mínimo descuido. Tivemos que andar com muita precaução em alguns sítios.
Acordei cedo e dirigi-me à janela para verificar se tudo estaria branco. Estava apenas junto ao chão e aparentemente o gelo era pouco. Constatei depois que a geada era medonha, não daquelas ostensivas, mas antes com o gelo acoitado na terra e que por sua causa endureceu.
O sol resplandeceu de luz e calor.
Estou com a janela escancarada para que a sala areje e ao mesmo tempo seque e aqueça, como aquece o lado direito do meu corpo aqui neste ponto onde estrategicamente me sentei. A geada mantém-se nos lugares sombrios à hora em que as badaladas no sino da torre da igreja marcaram o meio dia.
Respira-se silêncio; a betoneira calou-se à hora de almoço, os tractores estão recolhidos porque a terra está ensopada; só de vez em quando se ouve um ou outro pássaro, daqueles pássaros corajosos que enfrentam estes invernos de frio intenso.
As chaminés continuam a expelir fumo, autênticas fábricas de incinerar florestas, para que aqueça o sangue frio a correr nas veias da população idosa que aqui habita.
É altura de dar uma caminhada, o dia convida, as pernas também, para que não fiquem empedernidas precocemente. Os dias curtos têm que ser muito bem aproveitados. Antes de o sol se pôr já o frio começa a entrar no corpo, capaz de congelar qualquer lágrima que se solte e o vapor que sai do nariz, em nuvens brancas.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Não culpes as margens

Não culpes as margens, rio
Do teu correr enraivecido
E das lutas por ti travadas.
As margens e o leito
São braços que te amparam
Nas difíceis caminhadas.

Acalma!
Calmo és espelho
Onde as tuas margens
Se miram
Se penteiam
Te beijam.

Atenta rio!
As tuas margens
Que com posse tomas
Como tuas
Desgatadas e humilhadas
Um dia, largar-te-ão
E as tuas fúrias
Apenas lamaçais sujos
Serão.

...para que a saudade com elas embranqueça

Sentou-se na soleira da porta do tempo em que os ossos não diziam existir naquele corpo fresco. Agora os ossos falam-lhe numa línguagem de ranger de escadarias velhas.
Sentou-se e com as pernas flectidas cobriu o corpo com o casacão de lã. Ainda assim, sentia frio.
Olhou a neve branca que cobria o chão, respirou o ar frio que lhe gelou os pulmões, tapou as mãos com as mangas. Quiz sentir-se menina, queria brincar na neve, jogar à bolada até sentir o corpo a ferver, mãos vermelhas a escaldar. O ar gelado fez-lhe a barda, arrepiou-lhe aqueles pelos do queixo que por muito que sejam arrancados com a cera de enfrentar o tempo, o tempo teima sempre, cada vez mais persistente e forte para os fazer crescer, bicos ásperos que ressurgem dos poros, brancos como a neve que caiu à noite.
Recolheu-se. Sentiu que os seus ossos, branco cálcio rendilhado, já não suportavam o peso do nevão.
Acendeu o lume, enroscou-se numa manta e ali ficou, de olhar fixo na janelas que lhe mostrava a infância, a adolescéncia, os dias brancos, os lameiros com a erva tapada, os animais sem terem onde pastar, as casas de telha e sem forro calafetadas com a neve a desafiar o frio, na cama, as mantas pesadas a cobrir a cabeça, a luz do sol a anunciar-se para derreter a neve...
Está de olhos fixos a rezar para que o sol se vá e do céu mais neve caia, em farrapas grandes; deixará o lume, irá para a rua para que as farrapas lhe cubram o casacão escuro, para que o escuro se transforme em branco, para que a sua saudade com elas embranqueça e lhe torne brancos e leves os dias, resplandescentes as noites ...

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Para o resto dos temporais

Mar bravo, tempestade, rebentação medonha . Chuva, muita chuva, gelada, a molhar-lhe os pés descalços sobre a areia.
Sete saias a escorrer, o leite dos seios a verter, os olhos fixos no horizonte indefinido pela neblina que a chuva causava, ali estava à espera. Começou por gritar pelo Toino, depois, a blasfemar o mar, agora este grito que lhe sai em surdina, Toino, Toino, volta.
O leite a sair, as sete saias agarradas ao corpo, de tão molhadas.
Rita, vai para casa! Não vês que o Toino já foi engolido pelo mesmo mar que engoliu os nossos homens e outros, assim como engoliu o teu pai.
Agora,...tu sempre tens o dinheiro do seguro!
Invejosas, agoirentas, cambada de mulheres insensíveis. Sabem lá elas o que é um homem e a falta que o Toino me fará.
Qual seguro, que metam no cú o seguro. Eu quero o meu homem forte, aquele que depois da faina me traz o calor agarrado ao corpo de homem, me enche de beijos, me faz subir à Lua.
Invejosas,...sabem lá elas o que é um homem!
Por instantes, breves instantes, entrou em devaneio sem que se lembrasse que o seu homem estava a debater-se com as ondas.
Depois, o leite apertou, escorreu pela blusa apertada, os seios a rebentar; virou as costas ao mar, para ir dar de mamar aos gémeos, fruto de uma noite de amor depois da faina, o Toino de pele morena pelo sol, quente, ardente, barco cheio.
Soltou-se do cais rezando à Senhora da Nazaré, dos Navegantes, à Senhora dos Amantes para que lhe devolvam o Toino, o seu Toino. Senhoras, trazei-mo no dia em que ele faz trinta anos. Já tenho um bolo feito, uma garrafa de vinho à espera, uma ceia de carne fresca bem temperada.
Os gémeos choravam famintos e a eles pediu perdão pela demora da entrega daquele leite retesado. Depois, pôs a mesa para cinco, seriam sete com os gémeos, seis mais o Toino.
Qual seguro??!!! Pra merda vá o seguro, seis bocas para alimentar, pra merda vá o seguro, com a cama fria.
Sacudiu as sete saias, voltou a desafiar o mar, voltou a gritar, agora que já recuperara o fôlego.
Metade da barcaça a flutuar, gritos de mulheres, filhos agarrados às sete saias...
Dois vultos em cima dos madeiros agarrados que nem lapas à rocha molhada...
Falta um, gritavam.
Ai de nós!! Ai de nós, com esta rebentação!...
Este mar medonho da Nazaré, este temporal, este frio!
A quem tocaria a desdita desta vez!!??
Seria o seu home, ti Maria??!!
Falta, falta o seu home, são duas cabeças escuras que voltam.
Gritos, mais gritos.
O lenço vermelho do Toino a agitar-se, o bolo, a mesa à espera, os seios de Rita a encher, o sangue a correr de novo nas artérias, os gritos, o desespero, os trinta anos feitos, o alívio para Toino e Rita, um corpo que na manhã seguinte deu à costa!

A última das sete saias, negra, para o resto dos temporais...

Desta noite

Desta noite, pouco mais resta que o torpor dos meus pés arrastados pelo tempo que os impede de correr e que em mais não são capazes de se dar, que em passos lassos.
Desta noite pouco mais resta que o medo que as gentes sentem das águas que galgam pontes, destroem caminhos, inundam sonhos e suores de uma vida inteira.
Respirou leve o vento e, por agora deixou de sibilar, envergonhado pelo medo que provocou à minha cabeleira arrepiada quando, num acto de coragem tentou roubar-lhe as asas para com elas voar. Ah, mas as asas do vento, de tão violento o vento ser, perderam as penas que, voando para longe se foram acoitar nos destroços das árvores despedaçadas que fizeram diques no ribeiro. As penas das asas do vento pararam, juntamente com os escassos haveres da pobre gente e lá ficaram; em vez de asas, usou redes de aço, de nós juntos e, tudo arrancam, tudo levam.
Desta noite pouco mais resta que um leve bater do coração, um coração arritmado, desejoso de adormecer e com o seu sono, arrastar para o suicídio até às mais ínfimas partes, o corpo e a alma, para que se imolem em labaredas de fogo viperinas, num suicídio colectivo. Quer matar-se, mas matar-se por amor e a seguir renascer, sem mácula e fresco como a laranja acabada de colher, forte como o castanheiro que resistiu firme à noite de vendaval.
Desta noite pouco mais me resta que um turbilhão de sentires, agora que o vento me devolveu o silêncio, quebrado pelo tic-tac do relógio que eu desejo parado, e que eu desejo que de outro ponto da casa não me chegasse o som da televisão. É por isso que gosto de me deitar com a madrugada a caminhar para a aurora e assim dispor do silêncio pleno, apenas quebrado pelo som dos meus dedos a bater nas teclas, em melodia sincronizada com os impulsos que da minha mente se evadem, libertinos.
Desta noite, depois que as nuvens deixaram de chorar, resto eu, nesta sala aquecida, olhando o exterior através das janelas e nada vendo que não sejam imagens reflectidas nos vidros de tudo quanto na sala existe, incluindo o reflexo da minha própria imagem um pouco nostálgica, boina preta a descair para o lado direito.
Desta noite, resta a humidade fria dos lamaçais, o uivo dos lobos no monte aqui em cima, a raposa que desce à aldeia a visitar uma capoeira aonde possa entrar.
Desta noite,...não sei se eu própria resto...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Todos os dias

Dá-me de comer
antes que tenha
a mão estendida.

Dá-me um carinho
antes que uma lágrima
me ensope o peito.

Dá-me fraternidade
e distribui-me sonhos
antes que seja Natal.

Todos os dias
tenho os maxilares cerrados
a segurar o que não tenho.

Todos os dias
tenho o peito cerrado
a segurar as lágrimas
para que não sequem.

Todos os dias
tenho a alma aberta
desejando que todos os dias...
sejam dias e noites
de Dezembro

Veludo de seda de Dezembro

Já lhe mandei um sms que já terá lido em Milão onde chegou ontem, de avião, para passar o Natal em Sienna, mais precisamente em Santa Colomba, uma pequena localidade. Irá hoje de autocarro, ainda a restabelecer-se de febrões que teve no dia anterior e toda a noite. Aconselhei-o a adiar o voo por mais um dia. Mas não! Seguiu.
Seguiu para Santa Colomba, para uma casa edificada numa colina defronte a uma mata, onde pássaros cantam alegremente e onde as corsas se passeiam emitindo sons, linguagem que só elas entendem e que nos fazem companhia noite e dia. Um lugar paradisíaco daquele país que adoro.
A companheira só chega hoje ao fim da tarde, não lhes foi possível viajar no mesmo voo.
Eu não me importo por não ter a família toda reunida, uma vez que para mim o Natal não tem mais valor que qualquer outro dia. No próximo ano será na Especiosa, todos juntos, portugueses e italianos; assim esperamos.
Hoje faz trinta e quatro anos, o meu menino mais velho. Sempre meninos para a mãe...
Fui tratá-lo para que pudesse alimentar-se o melhor possível. Suspeitámos inicialmente de que se tratásse de gripe A, mas em breve nos apercebemos de que, pelos sintomas que apresentava, não seria.
São sempre meninos, os nossos meninos. Passamos a encarar as reacções das nossas mães com outros olhos depois da experiência da maternidade.
Estava sózinho, a arder em febre de quarenta graus. A companheira, a italianita, trabalha em Coimbra de onde regressa todas as semanas às quinta à noite ou sextas de manhã, para voltar na terça de manhã.
Deitei-me no sofá da sala e deitei-me preocupada, pensando que iria dormir a sono solto e não tinha com que despertar. Mas não, uma mãe não dorme a sono solto.
Qualquer movimento, o antipirético e o antibiótico a horas e, a mãe, quase que por magia, acorda sem despertador.
Voltei pelo menos trinta e quatro anos atrás, ao tempo que cheirava a bébé em casa, àquele aroma inconfundível, àquele choro ao meio da noite, o biberão, a mama dada num curto período de tempo, porque curta foi a licença de maternidade que só durou até cinco de Janeiro.
Hoje, estou de parabéns eu também, por aquela experiência fantástica, um musgo verde, veludo de seda de Dezembro.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Com macieza...

Com golpes de palavras
Sente o frio
De perdidos no deserto
Moribundos
Em dunas gélidas.
Vacila
Mete-se num casulo
Protege-se.
Reconstitui-se
Em metamorfoses
Sai
Enfrenta a noite
Vai.
Agita o corpo
E a amoreira
De que se alimenta.
Reinventa
Não esmorece
Tece
Um manto de seda.
Em macieza...
Aquece.

domingo, 13 de dezembro de 2009

A quem importará???!!!

Porque te lançaste num bote
Que sabias rebentado?
Desejo de morte
Por suicídio premeditado?
Ou pensaste
Que o bote não transbordaria
E que a água sairia?
Ao invés
Mais água entrou
Pelo rombo.
Sentiste-te perdida
Sem bússola
Sem norte
Sem bomba para esvaziar o bote.
Reflectiste
E, antes do naufrágio
Com a última réstia de coragem
Saíste
E, deixando-te levar pelas correntes
Boiaste sobre as águas
Sem ao menos saberes
A direcção do vento.
Que me importa??!!
A quem importará, pensate!!...
A mim, respondo-te
Enquanto junto os destroços
Do teu bote naufragado
E que encontrei naquela praia
Onde me fortaleço.
Trago comigo fio resistente
Para bordar a ponto de grilhão
Pontos firmes.
E trago seda
Para abrir guaritas para a alma
E bordar a ponto de crivo
Transparentes e leves
Para que possas receber o sol
Que te fortaleça
Para que recebas o canto leve das ondas
Que te restabeleça
A minha manta
Que te aqueça.
Trago comigo uma bússola
Para que orientes os teus passos
Débeis passos
E para que firme
Sigas.
Tu sabes,…

A mim importa!...


sábado, 5 de dezembro de 2009

Disse ela um dia

Chegaste no tempo dos sonhos dourados, das flores em botão, das brisas frescas...
Chegaste numa manhã de orvalho nos meus seios.
Imaginaste-me desnuda no mar fechado, concha viva que não abriste.
Nem sabes por quanto tempo senti o doce dos teus beijos nos meus lábios já dormentes, as dores nas mãos caídas que seguraram o ramo de laranjeira murcho do qual restavam apenas troncos secos, o peso do tule a sair dos cabelos negros, enegrecido pelo tempo, a vergonha pelo vestido bambo na magreza de ossos espetados.
Nem sabes a dor que senti no peito quando me deixaste plantada num vaso de flores ao lado da igreja, o padre com as hóstias no cálice, o livro das promessas na mão à tua espera, os convidados com fome do almoço, as jovens a imaginarem-se, uns e outros a imaginarem-se noivos. Eu plantada no vaso do jardim da igreja,... dá azar o noivo ver a noiva antes da chegada ao altar.
Azar tivera eu dez meses antes, quando te conheci. Tão imbecil que eu fui, irresponsável tu por teres acreditado no herói que te confessou já ter dormido comigo. Mentira, grande mentira, agora te digo, macho ignorante a cheirar a cavalo. Nem sei porque te maltrato enquanto olho para as cinzas do ramo de laranjeira esquecidas no canto do quintal, daquele ramo que ao contrário de ti, eu merecia. Queria oferecê-lo à virgem, ali no altar, todos a testemunhar a virgindade perante a Senhora Virgem.
Parva que eu fui por ter ficado plantada na vida, a chorar-te durante anos, a chorar o único amor, o primeiro amor, como se o primeiro fosse o mais intenso, o único, o único possível.
Agora te digo, nem sei porque falei hoje nisto,... que o melhor amor é o último, aquele que nos segura as mãos até um dia, até um dia qualquer...
Que já tinha dormido com outro,... referiu ela mais uma vez na carta que mentalmente lhe escreveu.
E se tivesse??!! Eras tu por acaso casto???!!

Ainda hoje...

Hoje decidi não esperar pelo o silêncio da madrugada para escrever. Hoje, sob uma atmosfera pardacenta de uma tarde de sábado, nuvens a ensombrar o sol, nevoeiro leve que me impede de ver o Palácio da Pena mas que eu imagino rodeado de árvores, numa mistura de verde e amarelo, gotas de orvalho a deslizar pelos troncos seculares, assim escrevo. Alma desnuda, como desnuda está a pereira aqui ao lado, no quintal.
Hoje sinto a quietude da madrugada nesta tarde que me convida a ficar enroscado junto à lareira, a cheirar a fumo, gato friorento da minha infância encostado à cinza aconchegada com brasas e que em breve chamuscava o pelo.
Hoje falo com a quietude de quem está de bem com o mundo, ainda que o mundo o não mereça.
Não vou falar de ódios, nem de fomes nem de prendas; não vou falar de excentricidades de quem quer ir à lua numa viagem de egocentrismo, quando ao seu lado e à sua frente há crianças sem pão, sem água, sem sabão.
Também não vou falar do Natal de hoje em dia, o Natal em que se venera um redentor carregado de opulência e consumismo, um redentor vencido pela ganância e vendido por um carro de alta cilindrada e uma conta choruda num qualquer paraíso fiscal.
Também não me cansarei com a conversa esfarrapada da urgência de que outro redentor nasça, por não acreditar que alguém seja capaz de redimir coisa nenhuma nem ninguém, senão a ele próprio, se para isso se esforçar. Acredito que o redentor deste século se tornaria corrupto em menos de nada, tão ou mais corrupto que outros...
Hoje vou falar do Natal de uma menina que, como muitos outros meninos nasceu numa cama de palha, colchão de riscas largas aberto ao meio, para que de manhã as palhas fossem remexidas e ficassem uniformemente em toda a cama, partilhada por uns quantos meninos, uns deitados para a cabeceira, outros distribuídos com as cabecitas para o lado dos pés. Telhados que permitiam que se falasse com a lua e as estrelas logo que a torcida da candeia deitasse fumo, luz que rapidamente se apagava para poupar o azeite para as batatas.
...De manhã acordava cedo e corria para ver o sapatinho que tinha deixado na lareira. Um sapatinho cheio de prendas que o Menino Jesus distribuía durante a noite a todos os meninos.
Dois rebuçados, uns figos secos, umas nozes, uns tostões em anos de menor crise.
Sonhava com ele, com ele corria pelos telhados, deslocava uma telha e entrava descendo pelas varas do fumeiro, roupas cheias de fuligem, coração repleto de alegria, saquinhos cheios de mimos para todos os meninos.
Depois, na missa do Galo beijava aquele menino e a rever o sonho mágico olhava as vestes brancas do Menino e admirava-as com as rendas impecavelmente brancas, apesar da fuligem das cozinhas.
Os seus olhos vivos de centelha fizeram filmes mágicos durante uns anos, nesses Natais passados em família, tão puros, tão ricos,... no meio daqueles nadas mas que eram tudo; eram amor, alegria, solidariedade, magia de meninos...
Num Natal, a mãe atrasara-se por qualquer motivo e quando correu para a sapatinho viu-o vazio. Pela reacção da mãe, apercebeu-se de que não seria bem assim como lhe faziam crer e que haveria outra versão da história... Foi o último Natal de magia...
Nunca mais esqueceu aquele momento de atrapalhação da mãe.
Procura viver todos os dias esse mesmo espírito de Natal.

...sentada no silêncio

Quase, quase cansada,...
neste siléncio que reconforta,
quebrado pelos sons ténues dum violino imaginário.
Sento-me no peito doce desta solidão desejada e aqui, eu sou eu, sou tu, sou tudo, sou nada.
Desejo continuar a conversar com o vazio da sala onde dedilho, teclas que pertubam esta quietude mas que ao mesmo tempo me enfeitiçam;... este som que tantas vezes desejo, este som que desesperadamente procuro, este dedilhar que me evade em asas transparentes, quando em pontas de ballet, me solto.
Tudo dorme à minha volta, o vento recolheu-se na caverna, está cansado de tanto se agitar e as folhas amarelecidas do diospireiro, quase soltas, a agarrarem-se a pequenos nada para não caírem, finalmente sossegaram, com o vento preso.
Também as folhas estão a respirar o mesmo silêncio desta madrugada fria.
Escuta, encosta-te ao lado esquerdo do meu peito, ouve o bater leve, tão leve, passarinho a dormir no ninho, enroscado.
Ouviste silêncio, ouviste o bater do meu pobre coração?
Estou quase cansada... as minhas pálpebras vão-se fechando em pestanejos, espassadamente, para que os meus olhos se deleitem em horizontes longínquos, perdidos...
Silêncio, consegues sentir??!!
Os dois estamos cansados, eu e tu!!!...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Pelo menos esta noite!


Fui dar uma caminhada atravessando o parque da cidade, construído a jeito das pessoas amantes da natureza. Atravessado por um pequeno curso de água, relva bem cuidada, árvores viçosas, bancos de madeira pintados de castanho e com a inclinação adequada às costas, como convém. Gosto daquele sítio, onde pode dar as voltas que quiser em círculos, trinta minutos cada percurso a andar bem. Ainda há Câmaras cujos responsáveis que um dia por lá passaram, fizeram alguma coisa que não fosse atentado à saúde mental e física das pessoas e massacre da natureza em benefício do betão armado.
Apesar do dia a ameaçar chuva saí de casa. O parque era quase exclusivamente meu. Caminhei até me cansar; desci dois degraus e sentei-me no banco virado para o riacho. Na mochila tinha um livro, Istambul, de Orhan Pamuk. Não me apeteceu ler e fiquei em silêncio, de olhar distante sem que aparentemente nada visse daquilo que estava ao alcance dos meus olhos.
O relógio do tempo tirou-me treze anos, naquele preciso momento. Não são muitos, afinal o que são treze anos. Os degraus, os escassos dois degraus multiplicaram-se por dezenas e vi-me naquele preciso momento nas escadarias do Sacré Coeur que subimos duma assentada até lá acima. É certo que ao fim estavamos quase sem fôlego, mas subimos. treze anos feitos em Agosto, um Agosto quente em Paris, a viagem de carro para lhe fazer a rodagem.
Não era essa viagem que desejaria fazer, preferia uma praia onde se recuperasse do cansaço. Depois mudei de ideias e ao fim dos dez dias e de longas caminhadas, a sair aqui do metro, para entrar noutro lado, para ir ver mais isto e mais aquilo na avidez dos quase cinquenta anos, a avidez de viver quando já se sente que se passou da meia idade.
Fui à calista pédicure tratar os pés, massajar os músculos que sentia tão tensos do excesso de trabalho em correrias durante todo o ano e os exames no mês de Julho. Sempre me senti tensa em época de exames. Pensava que a idade me daria mais tranquilidade, mas não!
Comprei sandálias macias. Tenho um toque delicado e as minhas mãos grandes têm uma sensibilidade fora de comum ao toque. Os pés também e de que modo!
E lá fiquei naquele banco de madeira com o livro ao lado a reproduzir a película de há treze anos, a contemplar Paris, do Sacré Coeur. A vista magnífica sobre a cidade que já tínhamos percorrido nos dias anteriores, o jantar num restaurante indiano em Monmartre, o passeio a pé depois de jantar, até o Moulin Rouge. Os convites para entrarmos nos espectáculos porno-eróticos: Parle italiano? Spanhol? Portugais? Não sei porquê, mas na grande parte das vezes éramos considerados italianos. Os convites feitos ao meu marido através de olhares das mulheres sentadas nos bancos ao balcão, nos inúmeros bares desse bairro de prostituição, uma entrada numa sex shop.
Uma volta de carro pela cidade para ficar com ua ideia global da sua beleza nocturna, passagem pelo túnel onde dois dias depois, a Princesa Diana viria a falecer, o regresso ao hotel ali perto.
O calor durante o dia, as idas ao hotel no pico do calor, para descansar. Um banho, cama com os lençóis brancos impecavelmente feita de lavado, o convite para deitar, o amor fresco dos quarenta aos cinquenta, o filme a rebobinar nos corpos refrescados pela climatização, eu a rebobiná-lo agora.
O percurso dos Castelos do Loire, o dia passado no Futuroscópio como crianças na viagem de ida, Chartres na de regresso, com as suas ruas estreitas, os vinhos, a catedral dificilmente captada pela objectiva no retrato, de tão alta.
Decidi que naquele momento e pelo menos até a manhã seguinte teria menos treze anos.
Prometi a mim própria voltar a Paris tenha a idade que tiver, subir ao Sacré Coeur, quiçá de elevador.
Prometi isso a mim própria quando entrei no carro, ao escurecer, para ir para casa. Pelo menos esta noite, pelo menos esta noite quero ter quarenta e sete anos!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Arranca-me

Vai!
Arranca-me a lágrima do peito
Antes que cristalize em incenso
E com ele me queime
E me perca no escuro
Onde me deito.
Passeia pela minha rua
Sineta do meu corpo
Nesta noite gélida
Lagoa empedernida
Onde nem gota
A escorrer
Nem sorriso
Ou ai.
Vai!
Arranca-me um querer
Deste mar de indiferença
Onde adormeço.
Agita-me as águas
Levanta-me as ondas
Atinge-me as fendas
Parte os glaciares
Dos meus olhos
Neste mundo sem estrelas...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Ainda hoje



Inês irritava-se que assim fosse.
Porquê que havia de ser concha fechada no fundo do Oceano, bicho a hibernar à espera de crescer, para ser a delícia da gula num piquenique qualquer.
Ela era concha sim, mas de asas abertas, a esvoaçar, ela era uma borboleta colorida. Tão colorida, santo Deus!
Porquê que há-de uma borboleta ficar de asas fechadas no fundo do oceano, uma borboleta de asas fechadas ao frio, com cores esbatidas por falta de luz, uma borboleta anémica e despigmentada.
Ela tinha na alma o céu com o voo dos pássaros, nos olhos as flores com o tactear constante das borboletas, no ventre o pólen com o rodopiar das abelhas em luta renhida, no coração o néctar com o trepidar nervoso do beija-flor em busca de mel em luta de loucura a bater as asas e o bico a penetrar no gineceu das flores, até à mais íntima das entranhas.
Porque havia de ser assim, aquela castração de menina mulher poema, mulher viola em serenata, só porque qualquer cor ofuscava o negro de que se vestiam, de que se vestia todo aquele tempo!...
Porque havia de ser assim, só porque um beija-flor pudesse agitar o doce no gineceu das suas entranhas ou tocasse no botão de rosa e em sensualidade, uma rosa desabrochasse.
Um olhar, um convite para dançar...
Um olhar imenso, do tamanho do prado verde na Primavera, da doçura da calmaria das searas de trigo loiro no mês de Julho.
O olhar tremeu, o corpo muito mais, ramo agitado pelo vento.
O que faço, perguntou-se uma parte dela? Não, o que dirão!...
Estás parva, respondeu a outra metade com as pernas bambas e o coração a bater em golfadas de sangue quente, descompassado.
Envolveram-se em braços, arfares em pleno Inverno ao mínimo toque de olhares e de dedos. Mãos que tacteavam, rostos próximos a misturar os perfumes dos cabelos, perfumes bravios a carqueja e esteva, tão bravios como os seus corpos, tão docemente bravios e pungentes. Corpos entumecidos na melodia que já não ouviam, na música dos passos, os passos dos corpos em canção, corpos que tocavam, que tremiam.
Depois um olhar vigilante e uma quase vergonha de qualquer coisa que vergonha não seria á luz dos impulsos. Um braço esticado, um desapegar, um resfriar, um céu interrompido, um purgatório não merecido.
Irritava-se que assim fosse, mas tinha que ser. Porque havia de ser!?
Ainda hoje se irrita que assim tivesse sido!...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Faltas-me (de Mia Couto)

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência das águas
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.


Mia Couto

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Nun recanto do tempo

Sentada num recanto do tempo, sou tarde de temporal.
No regaço coloco as mãos frias como que a esperar que a chuva passe, o vento deixe de sibilar, as ondas alterosas deixem de me atormentar.
Ponho as mãos no regaço, perdidas, cansadas, inertes, à espera, neste cais que se desintegra, numa espera inútil, onde nenhum barco atraca, farol que não dá sinais.
De repente o crepúsculo cai, a noite fria surge, a noite de naufrágios, a minha noite. Sento-me nos destroços, as ondas rebentam aos meus pés, fortes, gigantescas e a minha alma chora ao ritmo da rebentação.
Sinto-me perdida, sem pontos cardeais, sem bússola, tentando encontrar as ruelas da madrugada que anelo, a que tenha a frescura da hortelã, o cheiro da madressilva, o gosto da amora, a brandura e a macieza do linho gasto.
A noite tapou as ranhuras à madrugada e, asfixiada pela impotência de nascer, recolheu-se atrás de nuvens densas, castelos de fumo.
Lá ao longe, um farol a mostrar-me outro rumo, um barco que se volta, o meu regaço que se inunda, as minhas mãos que submergem, o meu peito que agoniza, o cais a desintegrar-se, e eu, noite de naufrágios,... no recanto do tempo onde me sento...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Fui mulher


Eu fui silêncio!...
Por longos dias, longos anos,
eu fui silêncio:
Engolido,
vomitado
aumentado.
Eu fui perdão,
eu fui medo!...
Por longos dias, longos anos,
eu fui perdão consentido,
medo multiplicado
de insultos, dores,
humilhacão.

Como sopa engoli mágoa,
a impotência com água,
a dor com lágrimas,
parti espelhos, estilhacei sonhos,
calei palavras, sequei gestos
ganhei tiques,
construí diques...

Quebrei o silêncio,
a rastejar ergui-me,...
reagi amedrontada.
Depois,
fiz-me a mulher coragem
da penumbra dos meus dias,
pássaro esmiuçado na ponta do bastão,
que indefeso cai ao chão.
E,
aos meus olhos
a noite voraz desceu
em pleno dia
e,
os meus olhos foram noite,...
na paz da noite!...

domingo, 22 de novembro de 2009

Fascínio

Um sábado de Outono com cheiro a Inverno: chuvoso, húmido, frio.
De vez em quando apetece-me ver o mar; quem lê o que escrevo, apercebe-se facilmente do fascínio que o mar exerce sobre mim. Não posso dizer que seja uma paixão embrionária, com cordão umbilical ainda por cortar. Afinal de contas só toquei a água do mar quando tinha dezanove anos. Digamos que foi uma paixão à primeira vista.
A primeira ida à praia valeu-me uma insolação. O fascínio à mistura com a falta de experiência relativamente aos perigos que a minha pele tão branca e rosada corria, chegada a Moçambique pouco tempo antes.
Perdoei-lhe a insolação e no fim de semana seguinte, lá estava eu a chapinhar na água, como uma criança.
O mesmo fascínio ainda hoje sinto, muito embora permaneça na praia pouco tempo, pelos perigos que hoje em dia se correm, incomparavelmente superiores aos de então, tudo devido à forma como temos vindo a tratar o belo planeta azul.
Hoje fiz-lhe uma visita, curta, certa de não correr o risco de insolação.
Fiz um pequeno percurso de carro, não mais que quinze quilómetros, julgo eu, até à praia de S. Julião, atravessando algumas belas e típicas aldeias de Sintra. O dia convidava à lareira, mas ainda assim preferi dar uma voltinha debaixo de uma atmosfera que se assemelhava a Natal.
O limpa pára-brisa do carro andou num rodopio. Apesar disso, fui admirando a paisagem da região saloia.
O céu era prateado, carregado de nuvens desejosas de despejarem a chuva, para logo a seguir se irem abastecer ao mar, ali tão perto.
Mal se podia vislumbrar a paisagem nitidamente para além de curta distância, devido ao manto de fino nevoeiro; as casas mostravam-se esbatidas, quais aguarelas pintadas em cores pastel muito suaves.
A estrada começou a ser em declive e com algumas curvas, sinal que o mar estava perto. Estávamos a contornar o monte que do lado do mar se transforma em falésia escarpada.
Dois bares: um junto à areia, outro, o meu preferido, lá no alto, à altura ideal para ver o mar relativamente perto, sem que se correr o risco de levar com as ondas.
O mar de Sintra, agitado, raivoso, a espumar.
Já o tenho observado em dias de Inverno, que de tão zangado, as suas ondas batem de tal forma contra os rochedos, que, em cima se cria uma chuva miudinha.
As cadeiras da parte exterior, em cor laranja e verde abacate esperam melhores dias, dias sem chuva e soalheiros. Lá dentro, a salinha com vista directa para o mar estava fria; aberta no Verão, o sistema de transformação para o tempo frio não é de todo eficaz.
Um café quente com uma queijada de Sintra, fresquíssima, diga-se, para aquecer um pouco.
Sentada estrategicamente para melhor ver a ondulação, ela vinha de encontro ao meu olhar. A quase imperceptível linha do horizonte era cinzento escuro, tão escuro como era o mar que lhe ficava perto, depois, a ondulação caminhava majestosa, a rebentar de espuma. O mar assemelhava-se a um manto gigantesco de tule branco a remexer em harmonia, tais bailarinas clássicas dançando ballet ao som das ondas.
A chuva ainda caía.
Despedi-me do mar.
Respirei fundo e levei em mim o cheiro a maresia.

sábado, 21 de novembro de 2009

Ai!!! Solta-me os nós...


Não me acorrentes!!
Quer queiras ou não, partirei.
Terás a certeza do que te digo quando olhares o mar.
Lá estarei nesse mar, na crista da onda.
Não me vês??
Estou no meio daquela espuma.
Tu não me vês!...

Fecha os olhos, abre o coração, depois… depois ver-me- ás!

Não me prendas!!
Na mesma correrei.
Olha os lameiros. Não me vês a rebolar na erva cortada de fresco, com o vestido manchado de verde? É lá que estou.
Não vês os gafanhotos a saltar à minha frente?
Não me vês!!!

Fecha os olhos, abre a alma ao sonho e vem saltar comigo no lameiro ceifado de fresco, onde as gadanhas foram orquestra, interpretando sinfonias que só serão ouvidas por alguém que alguma vez perseguiu gafanhotos num lameiro acabado de ceifar.
Solta-te…
O sonho não tem limites. Em sonho podes chegar ao que quiseres, onde quiseres.
Só tu és dono dos teus sonhos, mais ninguém. Aliás, se bem pensares, para além dos dias que já viveste, não és dono de mais nada.
Não vens?

Ai!!!

Então desata-me esses nós que me prendem ao chão!!!
Já os desataste?
O lado sonhador acaba por vencer o lado racional, e...

Adeus!!!...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Solto-me do meu cais




Solto-me do meu cais,
envolvo-me nos teus rubros e dourados,
cubro-me com as folhagens do tempo,
ausente te contemplo
e contigo sou brisa, ventania,
calor e invernada.
Às vezes sou música que te anima,
outras,
sou a solidão que cresce nos apeadeiros
duma linha sem comboios.
Contigo quero chamar-me esperança,
renhida luta,
insistente luta, feroz...
Luta com as imagens que me ocupam,
a saudade faz-se rio...
Quero uma foz para esse rio,
de modo a que o caudal não cresça...
O mar está longe
e a foz,
é uma lagoa pantanosa
onde a água,
devagar, tão devagar, vai indo...
Visto-me de folhas de carvalho e freixo
quando o vento as leva,
ao aconchego
onde me deito,
refúgio adoçado pela brisa,
onde me escondo
das neblinas dos meus dias,
e, nesse aconchego,
sou esperança, descrença,
sou ermo, multidão;
sou tudo,...
e não sou nada!...
Sou herói duma batalha;
poeiras de uma estrela cadente
que se despenha, se espalha;
um minúsculo grão de areia,
que se escapa dos demais!!!....
Visto-me de tudo e de nada,
neste cosmos,
...solta do meu cais.

Devolvo-me...


Devolvo-me...

Devolvo-me
À origem do meu ser.
Barro amassado
Estátua por modelar
Poema adiado
Palavras por rimar.

Devolvo-me...

Devolvo-me intacta
Eu mesma...
Devolvo-me à raiz
Que me segure
E forte me prenda.


Devolvo-me...

Devolvo-me à secura
Para voltar a nascer
Na frincha dum rochedo
Virado a Norte
Para ser
Uma flor
Numa mistura de violeta e cardo
Singela
Forte
Da cor do amor.


Não peço...
Ponto para teatro
Rede para equilibrismo
Cavalo para tourada
Prémios
Palmas
Nada!!...

Basta-me...
Mãos que me aqueçam
Olhos que me bebam
Corações que me amem
Almas que me completem...

Devolvo-me...
Barro
Fraga
Seda
Água
Tronco de madeira
Mas...
Devolvo-me...
Inteira!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Assim fico... Adormecida.




Aperto-me no gesto contido dum abraço, no silêncio da noite, suspensa, numa cama presa a colunas de granito.
No chão, sardinheiras com aroma acre, rubras, brancas, folhas verdes de veludo,
inebriada estou, nesta envolvência.
Luzes ao longe, quem sabe, de barcos perdidos.
A olhar as estrelas abro as mãos e lhes peço
que desçam
e partilhando a cama,
me entreguem luz, a luz resplandecente.
As estrelas fugiram, antes da madrugada intimista.
Nem uma vela acesa,
luz trémula que fosse, fumo a esvair-se,
juntamente com o fumo do cigarro
que apago com a ânsia de o ter aceso.
Mas ah, como me apetece acendê-lo, soprar o fumo em deleite, vê-lo subir!
A vela terminou, da vela resta o pavio,
na minha alma a solidão,
a solidão que tantas vezes me apetece,
nesse espaço meu onde respiro e me vejo.
Descaíram os braços,
sem que abraçassem aquele abraço.
As estrelas partiram, perseguidas pelo nevoeiro.
Vem agora abraço quente,
com o teu calor,vem condensar o nevoeiro;
tenho tanto frio!...
Quis partir ao teu encontro mas tive medo.
Tive medo que aquele abraço me arrastasse,
em vagas alterosas e me projectasse
para caminhos,
que não são os meus caminhos.
Este nevoeiro confunde-me,
os meus olhos ficam frágeis,
os meus passos lentos,
os meus braços estendidos,
cansados,
tão cansados de esperar.
Quero que a madrugada me beije,
que me abrace e me inspire
para te dizer em poema o que tenho dentro,
o frio que me gela, icebergue nos meus passos.
E, assim fico,
com a caneta na mão,
tentando escrever um poema, em gestação tardia,
neste parto difícil de que resulta,... em nada.
E assim, na rede adormeço,...
na desolação de um filho por parir
ausência de poema,
vontade daquele abraço
E assim fico....
Adormecida.

Um conto de afectos

Erguida caminho
À procura de nadas
Que no fundo são tudo
E sem parar procuro.
Vasculho na vida
O sentido
E na vida tropeço
No chão que escorrega.
Avanço
Balanço
Vacilo, não tombo
E assim avanço.

A caminhar encontro
Um conto de afectos
No horizonte perdidos
Esquecidos no conto
Que ninguém contou.
Com os dedos
Desfolho
As folhas coladas
Caladas
Esquecidas
Que ninguém desfolhou.

Onde estão os afectos
Os afectos do conto!?
Os que não foram dados
Os desperdiçados
Os não recebidos
Os não merecidos.

Arranquei ao conto
A ferida dorida
E de tão dorida
Começou a sangrar;
Apertei-a com força
Para o sangue estancar.
Restaurei o conto
Retirei-lhe a brandura
Lancei-a ao mundo
Para lhe dar doçura

domingo, 15 de novembro de 2009

Sim, sei bem(...)
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.”


Fernando Pessoa

Na brisa



Achei que estarias perto.
Não preciso telefone, nem carta, nem sinal.
Tu sabes que te reconheço à distância,
na brisa que perfumas.
A flor de jasmim fechou as pétalas,
tão inodora se sentiu, quando por ela passaste.
O ramo da madressilva florida,
que tão decidida trepara o beiral,
envergonhada, deixou-se cair.
O cheiro a tomilho e framboesas que transportas,
neutraliza tudo quanto no ar exista;
bom ou mau, acredita.
É por isso que te digo, meu amor,
que tu és o bálsamo que perfuma os meus dias,
o ar que dá alento à minha vida.
Caminha!
Apressa mais o passo.
Quero rapidamente ver surgir a tua silhueta,
lá ao longe, sombra ténue,
como que desenhada pela linha imaginária
do movimento dos meus dedos,
quando ávidos te percorrem.
Os meus dedos,
tão famintos dedos!...
Vem!
Quero sentir o aroma mais intenso,
o aroma do teu corpo
a misturar-se no meu, em profundo enlace.
Caminha!
Vou partir ao teu encontro,
para que os meus braços,
mais depressa te abracem.

sábado, 14 de novembro de 2009

Te canto...


Cantavas-me...
Com a voz doce
Melodias.
Cantavas...
Mas a tua voz estava cansada
As tuas cordas gastas
E cantar já não podias.
Tentaste tocar violino
Pois sabias que gostava.
Mas há, destino!
O violino não tocava.

Caminhavas...
Por caminhos
Que eu contigo caminhava.
Caminhavas...
Com os teus sapatos rotos
Com os teus pés doridos
Persistente, tentavas.
Coseste-os com a esperança
Que um dia te sobrou.
Mas ah, má sorte!
A esperança não chegou.

Sorrias...
E sorrias
Com um sorriso triste
Como quem ri
Para não chorar.
Lágrimas deslizaram
Pelo rosto, peregrinas
E, com elas sorrias
Sorrias para mim.
Mas ah, má sina!
As lágrima secaram.

Escrevo-te...

Com esta mão cansada
Como quem chora
Te escrevo
E neste escrever pranto
Te vejo, te sinto
Te abraço
Caminho
Te canto...

Noite...



Sento-me à espera, na soleira do meu aconchego e ali me despeço do vermelho do poente, quente.
Com os meus sonhos e com a minha solidão, despeço-me da luz que me deixa aos poucos, lentamente, como que a embalar-me e a levar-me para um sonho.
Lentamente apaga-se, interruptor dos dias, faísca das noites.
Aos poucos vais surgindo e contigo vem a brisa, fresca, orvalhada, que me refresca o corpo e sensualmente me arrepia.
Depois, noite enigmática, noite mágica, trazes-me novamente a luz, a luz difusa, prateada, com que me enamoras, noite,...
...a noite dos meus delírios.
Submeto-me à tua vontade e neste não lutar, deixo-me ficar na soleira, sentada, submetida a ti, serena.
Ofereces-me a lua, sorrio e, feiticeira, a lua sorri.
Fixo os olhos, balanço o corpo dançando, dançando ao som de uma melodia que vem de dentro de mim, e danço em rodopio, balanço.
Balanço,... balanço com o vento, suspensa.
Projectas a minha sombra no chão como se fosse num espelho.
Vejo-a, admiro-a, adoro-a como a uma deusa, a sombra fugaz, argéntia, a minha sombra,... a sombra do meu voar.
Continuo suspensa, sentada na soleira, ouvindo os sons da noite, doces, ardentes, melodias ternas de entrega, quentes, sons de paz e harmonia, sons de amor, de alegria, sons de paixão e volúpia.
Depois noite, entrego-me a ti em orgasmos de letras, e com elas me desnudo, faço retratos de sentires, me entrego em orgias de palavras que me saiem da alma, me relaxam os músculos, me fazem ir além de mim, para lá dos meus horizontes, dos meus limites.
Nessa entrega, em ti permaneço, a ti pertenço , noite, desde o crepúsculo dos meus sentidos, até o ocaso das minhas pálpebras e em ti me dou em alvoradas de palavras, repletas de sentires, afectos, raivas, paixões, desilusões, sonhos, esperança.
Em ti renasço,
aterro, levito,
resisto, cedo,
incendeio, apago
morro, ressuscito,...
simplesmente em palavras.
Noite!...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

De mais nada

Não sou dona de nada
Nem sequer dona de mim.
Não sou dona
Dos meus dedos errantes
Da minha mente peregrina
Do meu coração liberto
Da minha alma libertina.
Não sou dona dos meus passos
Que me comandam os pés.
Se me perguntares quem sou
A resposta que te dou
É que unicamente sou
O que a vida me ensinou.
Mais nada posso ser!
De mais nada quero ser
Dona.

É longe e perto

É tão longe o tempo
Que de tão longe
Eu não sei se chego.
É longe o mar
É mar revolto
Revolto, envolto
Em desassossego.

É longe o tempo
Em que foi o tempo
Que de tão longe
Nele me perdi.
É longe o prado
Onde me liberto
Florido, amado
Que eu não esqueci.

É longe o mar
O mar sereno
E sendo longe
Se faz tão perto.
Dispo-me do tempo e,
Coberta de espuma
Nas tuas vagas navego
Aqueço a pele
Sob um sol ameno.

É longe o tempo
Que de tão longe
Ele está tão perto.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

... ou o que seria

Tinhas tanta sede
e com a água aí
tão perto!
Gastaste as unhas a cavar,
feriste a ponta dos dedos,
mas a água não brotou
e nela não pudeste molhar,
os teus lábios
que de tão secos,
se gretaram, a sangrar.

Caminhavas por caminhos
que tão bem tu conhecias.
Núvens baixas te mostravam
o céu que tu bem vias,
mas nunca os dedos o tocavam.
Desdita, impotência, má sina,
destino, ou o que seria;
tu nunca chegaste ao céu
e mesmo estando o céu em ti,
nunca esse céu te cobria...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Depois do pequeno almoço

Inês é uma mulher como tantas outras da sua geração: Livre, espírito irreverente, pés bem assentos no chão. Ás vezes não pareçe, dado o seu ar sonhador e ausente, mas tem. Os pés tão assentes no chão tanto quanto o espírito, num misto de sonho e racionalidade.
Caminhava na Avenida 5 de Outubro em Lisboa, numa manhã outonal de meados de Novembro. Vestia uma capa para se protejer da chuva que ameaçava cair, cinzento prateado, de modelo moderno que caía em ligeiro godés sobre calças pretas e a túnica de seda com motivos pretos, bejes, castanhos e roxos. À volta do pescoço, um cachecol de algodão do mesmo tom de roxo. Nos pés, meias arrendadas do mesmo tom do cachecol que os sapatos pretos decotados, de salto alto, deixavam ver. Vestida com chitas ou cetins, para ela, o sentido de estética na combinação das cores, prevalece em relação à qualidade dos materiais e dos preços.
Caminhava com um livro volumoso que aproveita para ler em todos os minutos livres, um romance com seiscentas e onze páginas, escrito por José Rodrigues dos Santos, de leitura fácil. Lê-se duma assentada, diz. Tinha lido outros em que muitas vezes tinha que voltar atrás para melhor entender a linguagem do autor e agora apeteceu-lhe ler algo mais leve e óbvio.
Caminhava com ele na mão esquerda, encostado ao peito; na mão direita, uma carteira pequena, tipo pochete. O som do pisar firme no passo apressado ouvia-se nitidamente, o que é uma característica sua e que denota o seu temperamento firme e seguro, tanto como as rochas que a viram nascer.
Sentiu-se observada.
Um homem com sentido de estética repara para a combinação das cores que uso, pensou.
Constatou que o motivo não era esse, quando ouviu um “desculpe”. Olhou para ele intrigada e parou na continuação da mesa da esplanada que ocupa parte da largura do passeio da avenida.
Teria mais ou menos a mesma idade que ela, sessenta e alguns anos, alto, bem apessoado, com uns olhos transparentes verde esmeralda, do mesmo tom da camisa que usava, impecavelmente engomada. Os olhos, um perfeito mar sereno envolto em pálpebras.
Gosta de ler, perguntou.
Sim, a avaliar pelo volume do livro que estou a ler, claro que sim, respondeu Inês. É que sabe, aconselharam-me este livro, um amigo, um amigo intelectual aconselhou-mo mas acho-o demasiado maçudo, muitos pormenores que quanto a mim não ajudam em nada à história que conta; está a faltar-me paciência.
Inês olhou para o livro que estava em cima da mesa e de relance pensou, em fracção de segundo, o tempo entre dois pestanejares:
Quê que este gajo quer de mim!!? Engatar-me e galar-me, ou foi a um vendedor de livros em segunda mão e quer impingir-me o livro mais caro!!?
Continuou em pé a olhar e, no tempo de outro pestanejo, a pensar que poderia estar a fazer figura de ursa ao pé de um engatatão de meia tijela,sobejamente conhecido como tal no café. Ainda assim, continuou, até porque só é enrolado quem quer, pensou.
Este também é muito pormenorizado disse ela.
Sim, mas esse está cheio de pormenores ligados à história; desculpe, estou a roubar-lhe o seu tempo.
Não, não faz mal, não tenho pressa, disse Inês.
Logo a seguir seguiu-se um sinal com a mão, e o convite para se sentar na cadeira em frente, para conversarem sobre livros e autores que apreciassem. Inês não aceitou, claro.
Não, obrigada; o meu tempo..., mas,...quer que lhe compre o livro?
Não, não! Ofereço-lho.
Foi nesse instante que Inês olhou para a mesa com atenção para ver o autor e o título. Não conhecia.
É espanhol, perguntou.
Não. É chileno. Foi-me aconselhado, mas não me apetece lê-lo. Também não gosto da escrita de Saramago, disse.
Eu também não, respondeu Inês. Comprei o último livro dele, Caim, mais por causa da polémica, para ter uma opinião. Lê-lo-ei logo que acabe este. Pode ser que mude de opinião.
Naqueles escassíssimos momentos chegaram à conclusão que gostavam da escrita de Lobo Antunes.
Li há muitos anos os primeiros livros da sua carreira como escritor, emprestei-os, já não sei a quem e nunca mos devolveram, referiu ela. Depois, seguiram-se outros e agora vou comprar o último, estou curiosa. Ele tem aquele ar de lunático, mas é só ar.
Ah sim, sim, concordou ele. Viu a entrevista dele com a Judite de Sousa?
Inês tinha já na sua mão esquerda os dois volumes encostados ao peito.
Quando endireitou um pouco o corpo para seguir o seu caminho, olhou com mais atenção para a mesa. Um maço de cigarros, um isqueiro em cima, uma chávena com restos de café com leite do pequeno almoço, o espaço vazio do livro e com ar despachado disse-lhe:
Obrigada pelo livro e olhe, deixe de fumar, ...eu já deixei.
Sou um tonto, um parvo! Às vezes fazemos destas coisas.
Deixe e pronto. O fumo faz-lhe mal aos seus bonitos olhos.
Quando acabou a última sílaba, já estava a dar o segundo ou o terceiro passo e não esperou pela resposta. Continuou com o seu pisar firme, como sempre.
Pode ser que um dia o encontre e lhe diga se gostou ou não do livro, se tiver coragem para ler as mil e trinta páginas do romance 2666.
Há coisas,...pensou ela, quando, já sentada no comboio de regresso a casa, acabou de ler as capas e contracapas do livro de Roberto Bolanho.
Alguma vez eu imaginei que um desconhecido me iria oferecer um livro, ainda que fosse um livro rejeitado!
Há coisas!...

domingo, 8 de novembro de 2009

Um Domingo cinzento

Acordei com o dia já cinzento, mas nem por isso fiquei triste como era o dia.
O ar húmido que apanho, quando pelo quintal deambulo antes da chegada da chuva, encaracola-me os cabelos, conferindo-lhes um ar de maior rebeldia.

Um almoço a dois. Os filhos hoje não puderam. Um almoço adequado ao dia húmido, um tanto frio, acompanhado com uma salada de azedas, das dos paredões do Douro e que já se habituaram ao clima do quintal, em Sintra; uma outra tacinha de alface e rúcula também do quintal, para que a refeição se tornasse mais leve, pela mistura biológica do verde das saladas e os olhos se sentissem mais fácilmente saciados, com a paleta de cores verdes.

Um fantástico documentário sobre Berlim, na Sic,(quem diria) obrigou-me a mudar de lugar à mesa para que a pudesse acompanhar sem que a cervical me doesse, por olhar para o écran de esguelha.
Excelente! Nos meus olhos formaram-se cortinas de gotículas, diversas vezes, pela emoção. Não é difícil, confesso, mas neste caso justificadas. Berlim destroçada pela guerra, a divisão da cidade, a construção do muro,a polícia Stasi, a separação das famílas por vinte e oito anos em apenas uma noite, finalmente a queda.
Ainda sinto o coração apertado, como aliás já tinha sentido quando visitei a cidade há três ou quaro anos e imaginei o sentir daquela gente. Aquele rectângulo quase perfeito na cidade, que passou a ser a parte ocidental, em mil novecentos e sessenta e um, com arame farpado e apertada vigilância e depois com betão sólido, uma aba saliente ao cimo e algumas partes por um canal.
Morte para quem ousasse tentar transpô-lo.
O Muro da Vergonha! Um dos muros da vergonha, infelizmente, dir-se-á.
No dia nove de Novembro de mil novecentos e oitenta e nove, passados vinte e oito anos fez-se a demolição, a alegria estampada no rosto, o reencontro; o ficar boquiaberto com as coisas ocidentais por mais corriqueiras que fossem.
Dizia-nos uma jovem nascida na parte oriental, criança na altura do derrube: "Fiquei maravilhada com o papel higiénico colorido, só o conhecia branco".

A reportagem fez-me relembrar a cidade que calcorreei durante uma semana, onde pisei várias vezes as marcas do muro no chão.
Uma cidade completa, magnífica e culturalmente imponente, nomeadamente do lado oriental.

Há por todo o lado, nas imediações do que foi o muro e das partes que deixaram intactas,divulgação completa da história, para que a história não se repita...
Assim o desejo.

A seguir à reportagem, a chuva. O convite para ficar em casa.
Não, não vou desta vez obedecer à chuva, mesmo que o som das goteiras seja reconfortante...
Tenho que sair, caso contrário, arriscar-me-ei a ficar melancólica...

sábado, 7 de novembro de 2009

...Faz de mim árvore de Outono
que lentamente perde as vestes.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

E,... prossigo


Viajo em cima das palavras
a descansar do tempo que me pesa.
Deambulo por sinuosas veredas
para me encontrar com o que fui,
embrenho-me em florestas densas,
em bosques perfumados,
a mendigar frescura para os meus passos.
Viajo sonâmbula,
por entre giestas e espinheiros
que me tolhem os movimentos,
me confundem o destino,
me estonteiam com o odor forte,
me cravam espinhos na carne
que me dilaceram a alma.
Quero encontrar uma fonte com água fresca
que me mate a secura dos meus sonhos,
que me hidrate a pele franzida.
Quero sair desta secura imensa
que me esgota o rio das palavras brancas
e me impele para becos sem saída.
Viajo em palavras e assim me reeencontro
e me embalo em ondas leves
de mares serenos.
O que fui,
que interessa!!?
O que serei,
quem sabe!!?
Desço das palavras
e, revigorada,
escalo torres de marfim,
lanço um olhar sobre o mundo hostil,
espreito as artérias do rio
onde o meu sangue pulsa, doce...
e,... prossigo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Caíste num poema




Caíste num poema
e foi lá que te achei.
Com hipérbole o enfeitaste
e disseste que gostaste,
mas eu não acreditei.

Saltitaste em vogais e consoantes.
Descobriste as palavras,
entre metáforas escondidas.
Paraste um pouco nas vírgulas,
hesitaste no ponto e vírgula,
partiste no ponto final.
Declamaste-o
e não te saíste mal.

Leste partes com calor,
outras percorreram-te a espinha.
Outras causaram-te dor,
num céu de neblina.

Caíste no poema
mas não o levaste contigo.
As metáforas extravasaram
do rio onde nasceram.
As vogais e consoantes
choraram de tristeza,
solitárias, sem abrigo.

O poeta partiu.
O poeta é errante.
É o seu destino
e vai.
Vai para outro poema,
a sonhar com outro tema.

O poema ficou.
Sozinho chorou.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Tudo ao contrário


Não!
Que engano!
Porque te peço para sorrir e contemplar uma flor,
se há tantas crianças sem amor.
Porque te peço para olhares o veleiro a balançar no mar,
se há tanta gente sem cais.
Por que te digo para fixares a lua, a Via Látea,
se há tanta gente sem luz em suas vidas,
cegos de esperança.
Vai lua!
Vai alumiar quem deves,
lua selectiva, sempre a olhar quem te contempla,
quem de ti quer inspiração para escrever sonhos.
Vai lua e alumia
e aclara os sonhos medonhos.
E tu estrela do céu!
Porquê que o teu cintilar não penetra
nas mentes obscuras daqueles
que maltratam, que violam,
dos governantes tiranos,
em vez de inspirares poetas.
Ó céus, até o céu anda às avessas!...
Ó mundo, o mundo gira ao contrário!...
Ó homens, distribuam bem o pão,
a fome, a miséria, a desdita,
para que a sina bendita,
não seja sempre dos mesmos!...
Homem,... abre o coração!

Acordo, ressuscito!


Sou flor hipnotizada e,
Por momentos morro.
Ressuscito
E vejo o beija flor a sorver-me o néctar,
O nectar todo.
Ressuscito do torpor com violéncia.
Dos meus olhos jorram rios
Dos meus poros enxurradas
No meu peito pulsa o mar.
Ondas gigantes percorrem-me
Em vai-vem
Nun arredar para ganhar balanço.
O meu sangue recua
E ao contrário das ondas,
Recua sem avanço.
Estremeço
Empalideço
Descanço...
Acordo do pesadelo
Ressuscito
Troco a almofada
Molhada
Limpo os poros
Seco os rios
Esqueço...
E sigo.


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