Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

ECOS ( I )

(Nada me ficou escrito nem gravado. Sabe Deus o quanto me penalizo!
Um sopro levou-te a meio duma história, das muitas histórias vividas no Sudão, uma sessão duma tarde, a última tarde.
Apenas ecos na minha fraca memória...
Em espírito, envolvo-me contigo nas tuas história reais, poucas, das muitas que contaste…Perdoa-me pelo muito que esqueci.)



Vagueio no silêncio dos meus sonhos, alma errante, por entre os teus mistérios que desperdicei com inutilidades.
Caminho descalça por trilhos de terra vermelha poeirenta que me pinta e me enche de paz.
Ousada, penetro nas matas densas onde a luz me chega filtrada e se projecta nos escassos espaços livres dum chão de capim, pontinhos luminosos que me guiam por túneis que tenho que abrir, cortando os ramos e a vegetação densa com a catana. Estou numa floresta equatorial onde nunca antes estivera mas que aprendi a conhecer pelas histórias que me contavas e pelas fotografias. Insegura, continuo caminhando, tão lentamente que cada som me parece uma eternidade. Não posso voltar para trás, seria fraqueza, irias ficar decepcionado com a minha prova iniciática na floresta do Equador, na República Centro Africana onde os elefantes são mais esguios e têm os dentes mais compridos e menos arqueados para poderem penetrar mais facilmente na floresta quase impenetrável. Também os pigmeus são habitantes dessa região, de estatura pequeníssima, adequada a essa floresta.
Uma ave grande assustada esvoaça; de susto o meu coração esvoaça também. Depois, uma clareira, um trilho seguido por um elefante que tudo demoliu com os dentes fortes para arranjar caminho onde coubesse aquele corpo gigantesco, fezes ainda a fumegar. Senti medo, muito medo. A minha espingarda era de munições pequenas, balas que nem chegariam para fazer cócegas ao animal.
Porque não me deste uma espingarda das tuas com munições capazes de abrir crateras??!! Disseste-me: É muito pesada para ti!... Porquê, se tu sabias que eu tinha força!?
Prossegui, não podia desiludir-te mas ao mesmo tempo estava chateada contigo por me teres abandonado.
Sempre foste escudo forte daqueles que te entregavam para orientar e proteger e, a mim, que afinal sempre me consideraste o teu tesouro, deixaste o teu tesouro entregue a todos os perigos daquela floresta equatorial.
Uma mamba verde injectou-me o veneno no corpo com uma picada. Estava quase morta com o veneno espalhado pelo sangue. Depois, apareceste com uma malinha de pronto socorro onde tinhas o antídoto que me injectaste sem que também tu tivesses tido tempo para desinfectar o orifício deixado pela seringa.
Choraste amargamente por não teres podido salvar. O veneno já me tinha feito um dano irreversível e o sistema nervoso central estava destruído. Morri.

Demos as mãos e partimos, vagueando por aquele paraíso que nos juntou. Deixámos a floresta equatorial e fomos para baixo, para a zona tropical, onde eu já tinha andado e onde me avivarás a memória das histórias que o tempo me esbateu.
Subimos á Serra da Gorongosa onde tu um dia encontraste fósseis de conchas enormes e ajudaste-me a procurar. Tu conhecias a minha inaptidão para encontrar achados, mas ainda assim, encontrei alguns fósseis.
Dizias tu: Vê lá que o mar já esteve aqui nesta serra! Sim, porque as conchas não são restos de piqueniques que possa ter havido aqui, são enormes e, para estarem fossilizadas, têm seguramente milhares de anos. Sempre foste curioso e muito observador, dizias que gostavas de ter estudado arqueologia.Quem me dera ter o teu sentido de observação, nisso não me saí a ti.
Andámos a percorrer os tandos de Manica e Sofala, entre manadas de búfalos e impalas saltitantes. Vimos leões e elefantes e ouvimos o canto de variados pássaros. Depois, errantes, subimos até o Zambeze onde fomos caçar crocodilos com um barco pequeno e, sendo noite, cada um de nós trazia um foco a pilhas na testa, seguro por uma correia à volta da cabeça. Enormes, com as bocas abertas mostrando os dentes sujos com restos de carne podre onde as bactérias saltavam e quase que podiam ser vistas a olho nú. Senti medo mesmo estando ao pé de ti...
Lembrei aquele episódio que me contaste em que um deles fechou as fortes mandíbulas no teu pulso quando caçavas nos isolados pântanos povoados de papiros e que só passados uns dias conseguiste de lá sair e percorrer depois os quatrocentos quilómetros de picadas e terra batida até chegar à cidade a conduzir o jeep só com um braço, carregado de febre e dores e que quase por milagre não te amputaram o braço. Ainda te estou a ver a cicatriz e ainda estou a imaginar a carne esponjosa amarelecida do braço até ao ombro. Mais umas horas e teria que te amputar o braço, disse-te o doutor Buller, teu amigo, quando chegaste à clínica de que era proprietário.
Ao imaginar esse episódio da tua vida, uma das muitas histórias que me contaste e contaste a todas as crianças com quem conviveste, os teus netos incluídos até sinto arrepios.
Sabes? Dizem-me todos quando me encontram que tu foste a pessoa mais importante no imaginário das suas meninices.
Tive medo quando o gigante com oito metros abriu a boca enorme e mordeu o barco. Pensei que iríamos naufragar e depois acabaríamos engolidos por um daqueles bichos horrendos.
Deste-lhe um tiro certeiro no centro do crânio e morreu de imediato. Depois, ataste-lhe uma corda por entre os dentes, enrolada no pescoço, ligaste o motor do barco e puxaste-o para a margem. A esse, outros se seguiram.
Deste-me a cama articulada de ferro e lona, a vinte centímetros de altura do chão, montaste um mosquiteiro por cima de mim e tu deitaste-te sobre o capim, exposto a todos os perigos e às picadas dos mosquitos.
Estávamos algures, junto à margem do Zambeze, entre Caia e Marromeu sem qualquer meio de comunicar que nos ligasse ao resto do mundo que não fosse o jeep.
Dormimos com o céu a servir-nos de tecto, a cacimba a cobrir-nos o corpo, os sons infindáveis da noite a embalar-nos o sono, as aventuras a espicaçar-nos os sonhos.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Se eu te pudesse amar

Se eu te pudesse amar
Com as dores de que padeço
Sem tino
Sem medida
Sem medo do que tu escondes
Meu mar.

Se eu te pudesse amar
Com o frio que me corre nas veias
De fogo as encheria
Para ver se no corpo corria
O sangue para em ti nadar.

Se eu te pudesse amar
Com o tempo que não tenho
Num relógio sem ponteiros
Esse tempo contaria
Para em ti navegar.

Se eu te pudesse amar
Na cama fresca que estendes
Escrevia-te poemas
Para depois tos declamar.

Porquê que eu te digo isto
Se eu te amo, mar?!

terça-feira, 30 de março de 2010

ADEUS- de Eugénio de Andrade

De um excelente poeta, um poema soberbo!...
Aqui o deixo porque adoro e, de tanto gostar, me arrepia.



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Porquê

Porquê?
Porque insisto em procurar
Aquilo que sei perdido
Porquê que teimo em lembrar
Aquilo que já foi esquecido.

Sento-me á beira da estrada
Quase a cair para a berma
Nesta busca de desespero
Que nem eu própria sei se quero
Sem travão que me detenha.

Procuro no fundo de mim
Numa cave já sem ferrolhos
Quero sempre algo e nem sei
Se o que quero não o terei
Mesmo à frente dos meus olhos.

É sempre um misto de falta
Com o excesso de procura
É sempre alegria e dor
Num misto de amor e desamor
De ventura e desventura.

Quando um dia à minha porta
Ao passares e não me sentires
Nesta minha inquietação
Toma-me o pulso e o coração
Porque decerto, estou morta.

Aprendei a amar, diz-nos ela

Com as maldades do mundo
O mar galgou, levou a areia
A lua escondeu-se toda
E deixou de ser lua cheia.

As estrelas incandescentes
Com medo do ódio humano
Fizeram-se estrelas cadentes
Mergulharam no Oceano.

Fez-se tamanho tsunami
Naquele oceano medonho
Que o povo já só gritava
Isto é obra do demónio.

Os demónios são os humanos
Isso é que é uma certeza
A destruir e a matar
Os povos e a natureza.

Até que a natureza se insurge
Rebenta abana em desvario
Apaga-se o sol e as estrelas
E a terra morrerá de frio.

Diz-nos a Terra em pedido
Triste quase a suplicar
Filhos tenham mais juízo
Tendes que aprender a amar.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Nas asas do vento

Olho através da janela
E o vento insiste em uivar.
Abana, parte, agita
E eu fico lá a sonhar.
Depois comecei a imaginar
Como seria bom ir com o vento
Em loucuras viajar.
Soltei-me
E por momentos
Eu fui uma folha a voar.
Levada nos braços do vento
Subi montanhas, sobrevoei rios.
Depois molhada pela chuva
Constipada tremi de frio
Tive arrepios.
Depressa o vento me secou
E de novo ao céu subi
O Planalto estava verde
Lindo como sempre o vi.
Já cansada pedi ao vento
Para lentamente parar
Já me chegou a aventura
Agora quero ir descansar.
Fiquei outra vez cá dentro
Lá fora, receio não ousar
É vento da Semana Santa
E vai demorar a escapar.

A Primavera por um dia

Ontem a Primavera entrou devagarinho, pé ante pé, envergonhada mesmo. Os seus braços estenderam-se pelo meu quarto, disseram-me que com a mudança da hora me atrasara para o encontro e, suavemente levantaram-me o édredon e me disseram, é hora. Sai que hoje fiz um pacto de são convívio com o sol, o céu está azul e as primaveras dos prados sacudiram as gotas da chuva, estão prontas para te sorrirem.
Obrigada Primavera, disse-lhe eu. Vou seguir campos fora agarrada aos teus braços perfumados e, ajudada, subirei montes, galgarei rochedos, saltarei riachos sem medo de cair. Mas não me soltes nem por um instante que seja, Primavera. O Inverno enregelou-me as carnes, imobilizou-me os tendões, e ao caminhar, os ossos rangem-me que nem soalhos de tábuas, velhos.
Vem, segura-te aqui, disse-me a Primavera.
Partimos as duas, sem tino nem medo, sem roupas quentes nem meias grossas. Uma camisola leve e umas calças elásticas para nos dobrarmos facilmente para apanharmos as flores e as merujas. Tão poucas, lamentei-me!...
A chuva foi muita, correram os regos da água, ensoparam os lameiros, mas de tanta e com o sol envergonhado e frio as sementes encolheram-se e com o medo foram levadas pela corrente. Deixando-se ir, quando chegaram ao ribeiro, já apodrecidas, pereceram. As mais fortes sublevaram-se contra as adversidades e aí as tens, poucas mas ainda assim fortes e verdes. Tenho pena não te poder prendar com muitas mais, como tu gostas, para que as pudesses comer, ali no cantinho da cozinha, junto à lareira.
Apressa-te não vá o cuco cantá-las; apesar do frio do Inverno usurpador dos dias que por lei me pertenciam, ele aí está há muito tempo e, de vez em quando canta; assustado mas canta. Ainda não se aventurou a por ovos, porque com tanta chuva que tem caído os ninhos que roubou aos outros pássaros inundaram-se e, como tu sabes ele é um calão. Houve dias em que até esteve constipado. Ainda lhe perguntei porquê que tinha chegado com o tempo frio. Respondeu-me que na terra onde vivia houvera um incêndio devastador e que lhe queimara o calendário. Depois, desorientado, não sabia a quantas andava e que perdeu a noção dos meses. Tudo isto me relatou a Primavera com uma expressão mista de derrota e de vergonha, por se ter deixado vencer pelo taciturno Inverno.
Cheguei cansada, com um pé a doer, mas passei um dia tão feliz na companhia da Primavera!
Fiz planos para continuar a cantar com os passarinhos, apanhar flores, fazer colares, procurar novamente o cuco para tentar posicionar-me de modo que me cantasse do lado direito, que assim dá sorte, mas quando acordei e olhei, o sol estava encoberto, a chuva começava a cair neste dia, mais um que o Inverno usurpou à Primavera.
Junto à lareira, no silêncio quebrado pelo crepitar da lenha a arder e o vento que lá fora uiva enraivecido, estou a escrever. Os dedos em nervosismo e inquietação de prisioneiros, pediram-me o teclado em deterimento do pano do pó e do aspirador.
Esses, calmos, estão aqui ao meu lado à espera. Querem desfazer as obras de arte tecidas pelas aranhas na minha ausência mas tal como eu, não têm pressa.
Assim, enquanto escrevo, continua-se a cumprir o equilíbrio da natureza permitindo às aranhas que construam as suas teias para apanharem outros bichos de que se possam alimentar. É o equilíbrio dos ecossistemas.
Os humanos cá estão para o destruírem!... Também eu irei dar mais um passo para a co-responsabilidade nessa destruição, usando detergentes ao invés da água com o tradicional sabão azul e branco, desinfectando, lavando, esfregando, gastando,perfumando, arranjando o habitat adequado ao aparecimento de alergias.
Estranhos tempos estes em que destruimos mesmo tendo consciência de que o fazemos!...
Estranhas pessoas que nós somos, estranhas e egoístas...
Estranha é também a Primavera que teima em não ficar...

quarta-feira, 24 de março de 2010

A caminho da raia seca

Encontrei-me com a saudade e larguei-lhe a mão com um gesto brusco.
Solta-me!
Porque hei-de caminhar contigo se mesmo o presente me cansa! Não me venhas carregar as costas com esse passado como fardo de sola rija que tinha que contrabandear pelos caminhos da fronteira a corta mato, para não cruzar com as desumanidades desferidas sobre um contrabando de mísera subsistência.
Não vez que corro o risco de ir parar à prisão por causa de um punhado de fome que carrego?
Não te lembras dos ovos que me partiram a caminho da raia seca, tão seca quanto eu, que me esvaziaram a cesta e me queriam encher a mim, em cima da gemada que no chão ficou? Canalhas, filhos da puta, antes fome para todos os dias do que eu matar a fome a alguém a troco de chegar à fronteira.
É por isso que te solto a mão com violência.
Repara no que hoje te digo porque isto eu não te irei dizer novamente. Fizeste-me desenterrar o que eu já tinha enterrado há muito tempo num buraco com sete palmos de terra em cima, para não morrer de raiva e de vergonha.
Raiva dos que me roubaram o pão dos filhos, em fardos levados, em barros partidos, em favores pedidos, em favores forçados.
Filho da puta, cabrão de merda, hei-de esmagar-te os tomates para que deles não reste semente que semeies...
Mata-me, mata-me com a espingarda que o povo pagou e que carregas em nome da lei o do bom nome dum país. Atira se tens coragem quando eu fugir, para cobardemente, me atingires as costas.
É isto que me queres atirar, saudade?
Antes também tu me atires um tiro pelas costas, do que eu caminhar contigo a relembrar o que me oprimiu.
Ainda lhe estou a ver os olhos e aquela barriga gorda a querer ficar em cima, bafo de vinho saído duma bota espanhola roubada a caminho da fronteira, o som do rasgar da saia.
Cortei-lho com o desprezo na falta de faca, cortei-lho à dentada quando queria que lhe fizesse poucas vergonhas. Cortei-lho com os dentes e com a repugnância...
Cortei-lho e exibi-o como troféu no dia em que a ditadura terminou e me fez igual.
Cortei-lho quando deixei de carregar fardos a caminho da raia seca...
Cortei-lho neste preciso momento quando te quiseste abeirar de mim...

Como eu queria ver o sol neste dia claro e quente!...
Saudade!?
Só dos dias em que o sol raiou.
Hoje vejo o sol tão escuro...

terça-feira, 23 de março de 2010

Se...

Se a Primavera me trouxesse as andorinhas
Ao meu beiral deserto de cores lentas
Com musgo de inverno frio vestido
Em tempestades envolto e em tormentas.

Se o sol me trouxesse alegria ao peito
Onde vivem Outonos amarelecidos
Em cama de neblinas onde me deito
E acordo dos meus sonhos interrompidos.

Se os campos me trouxessem muitas rosas
Espalhava-as pelos jardins dos sem ventura
Que dormem destapados, desditosos
Em pedras frias, na rua da amargura.

Eu teria andorinhas, alegria, calor
As rosas, os beirais e o sol quente
Os leitos, os jardins, a paz e o amor
De mãos abertas daria, a muita gente.

sábado, 20 de março de 2010

Escrevo-te

Escrevo-te neste dia, um dia depois do teu dia.
Quis escrever-te ontem, mas não encontrei aquele doce que te queria mandar dentro do envelope para que o saboreasses ao ler a carta. Daquele que tu gostavas e que quando sobrava o comíamos pela calada da noite, tu ou eu, conforme o que mais cedo acordasse a madrugada. Ambos de sono leve, por vezes dávamos um encontrão ao atravessar a sala e comíamos o doce a meias, outras, o último a acordar bebia um copo de água para engolir o desalento.
Queria mandar-to com o molho bem docinho como gostavas, sem me interessar com a carta. Que se manchasse a carta de castanho, que importava!
Também hoje não te mando o doce, falta-me o jeito e há ingredientes que não tenho, são cheiros que não tenho onde os colher para lhe darem o aroma e sabor a preceito.
Mas escrevo-te para te mandar a saudade que me arrasa de cansaço, para te dar o beijo que me ficou suspenso naquela tarde em que se fez noite ao meio dia.
Tenho estrelas cadentes a deslizar nas faces que se extinguem no meu peito molhado, uma chuva de estrelas cadentes das que tu vias nas noites em que só a ti aquele céu estrelado pertencia, porque ninguém como tu era capaz de o ver.
Hei-de fazer para ti um poema doce, tão doce como o doce que te fazia,... um poema que leve as cores e os aromas que ambos tão bem conhecíamos, um poema com maresia, fruta fresca, um gin tónico com a rodela de limão, um whisky com duas pedras de gelo, um café...
Havemos de o comer a meias à dentada, ora tu, ora eu...

São flores de dores e melancolia

Caminhei
com os pés dilacerados
pedras soltas pontigudas,
cortantes como cristal.
Reclamei ao vento e à areia:
o vento fechou-se em vento
e da areia nem sinal.
Perguntei à chuva:
ó chuva porque levaste
a macieza do areal?!
A chuva fechou-se em nuvens
e das nuvens em temporal.
Sem saber o que fazer
virei-me para a terra mãe:
o que foi feito do teu carinho,
tenho cortes dilacerantes
que fiz pisando o caminho?!
Cortes? Em mim?!…
O que tu vês são flores
de texturas diversas
e de muitas cores,
saídas das minhas entranhas
à custa de muitas dores.
São filhas dum Inverno vadio
que me violou e,
nessa penetração forçada,
rasgou-me as carnes lisas,
abriu ventres,
nasceram rios
taparam-se rios,
as pedras são flores.
São flores de lágrimas,
derramadas dias a fio,
sem sol, sem luar,
anémicas mas fortes,
feitas de mágoas,
arrancadas à força,
em partos com fórceps,
sem sutura e anestesia...
São flores de dores
e de melancolia.

sexta-feira, 19 de março de 2010

É agora ou nunca mais será

Salta o prateado dos cabelos,
mesmo que os pés te pesem.

Salta os medos da tua alma,
mesmo que eles te amedrontem.

Salta o tempo,
mesmo que o tempo te fuja velozmente.

É agora ou nunca mais será,
porque agora estás,
amanhã quem sabe.

Porque agora a nau
está atracada ao cais para te levar
sem tempestade.

Porque o relógio se fez morto
para que chegasses a tempo.

Porque amanhã,...
quem sabe
se haverá...

Libertação da mulher- Raizes Bíblicas

( Neste dia do pai, a todos os pais que gostam que as filhas sejam livres)

Pouco conhecida é a história de Lilith devido à perversão e perigosidade a que ela está associada.
De acordo com certas interpretações da criação humana em Génesis, no Antigo Testamento, Lilith foi a primeira mulher de Adão, criada por Deus da mesma matéria ou seja, de barro.
Lilith entendeu que por ser da mesma matéria prima, não devia ser submissa a Adão, não entendeu o sexo sem liberdade (negava-se a fazer amor sempre debaixo dele).
Eva como toda a gente sabe a história, terá nascido da costela de Adão, uma forma de inferioridade e dever de submissão.
Quando Lilith reclamou de sua condição a Deus, ele respondeu que essa era a ordem natural, a supremacia do homem sobre a mulher em todos os domínios. Contestando, abandonou o Éden.
É acusada de ser a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido, sendo vista como demónio com imensos mitos a ela ligados e, ao mesmo tempo que representava a libertação feminina também representava a castração masculina.
Nos dois últimos séculos a imagem de Lilith começou a passar por uma notável transformação em certos círculos intelectuais seculares europeus, por exemplo, na literatura e nas artes, quando os românticos valorizaram mais a imagem sensual e sedutora de Lilith, como foi representada por John Collier, no quadro exposto, pintada em 1892, em contraste à sua tradicional imagem demoníaca, nocturna, devoradora de crianças, causadora de pragas, depravação, homossexualidade e vampirismo.
Considerou que Eva e Adão cometeram adultério, na medida em que se considerava a mulher legítima de Adão e por isso amaldiçoava todas as relações ilegítimos e os frutos delas resultantes.
Corajosa e de espírito livre, foi a primeira mulher à face da terra a iniciar o movimento de libertação da mulher e a igualdade dos sexos.


quinta-feira, 18 de março de 2010

Para viver verdade

Não vês como fico
com ar indiferente!
Se queres que te responda,
fala-me de frente.

Bem nos olhos meus,
com sinceridade;
abana-me toda,
mas diz-me a verdade.

Olha-me de frente,
com integridade;
não quero mentira,
nem meia verdade.

Estarei em farrapos
e entristecida,
com a alma aos pés,
mas não serei vencida.

Partida em pedaços,
mas com dignidade,
a verdade pretendo,
para viver Verdade.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Nem sei porque te escrevo

Escrevo-te, porque aqui onde estou nada mais sou capaz de fazer, enroscada no frio que trespassa os ossos e me imobiliza os músculos; escrevo-te, porque mais nada tenho com que chame o sono ou quiçá mais não saiba fazer a esta hora.
Escrevo-te no silêncio da madrugda quandos os olhos se debatem contra os rituais contrariando o deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer, pestanejando frenéticos e estouvados que outra coisa não são, nesta teimosia de noctívagos penetrando a noite, vencendo medos, encetando conversas sob nuvens de fumo de cigarro e vapores de álcool.
Vai mais un copo, quiçá un charuto, um charro, olhos raiados de sangue e de cansaço, sôfregos de loucura e boémia, olhos que penetram na madrugadas tal qual chacais.
Escrevo-te na tertúlia dos solitários, daqueles que declamam para um grupo imaginário, ouvem, batem palmas, rasgam os poemas escritos à pressa e os deitam ao caixote dos lixo em minúsculos pedacinhos, para que, no dia seguinte deles não guardem sons, letras, rimas e deles não se envergonhem.
Escrevo-te no eco dos meus pés, quando sentada ensaio um passo de dança ao som da música e bato com eles na tejoleira e no bater seco das teclas, quando os dedos sedentos de aventura se deixam embalar neste balanceado entre letras, palavras e frases que nada dizem.
Escrevo-te porque sim ou escrevo-me a mim própria, para que eu própria sinta que aqui estou a horas mortas, em debates de vai dormir e os olhos e os dedos a desobedecerem.
Escrevo-te e nem eu mesma sei porque te escrevo, noite, madrugada...

Porque sou livre

Cada dia é um dia
Cada dia é uma vida
Que não podes desperdiçar
Porque cada dia é um segundo
Que tens que aproveitar.

Segue apoiado ao meu braço
Não porque te ampare
Mas porque te acompanho.
E, se eu tremer ou vacilar
Segura com força na minha mão
Envolve-me com os teus braços
Ajuda-me a caminhar.

A ti recorro, em ti me encosto
Quando com frio perco o andar
E, em meus arfares
Em ti arejo, brisa de mar.
Preciso de ti
Porque me prendes
Mas, preciso de ti
Porque sou livre!

sábado, 13 de março de 2010

Chamastes Maio



Floriram jarros a chamar Maio
Flor branca singela de erotismo feita
Tecida na brancura da seda e orvalho
Desafiaste a chuva, cresceste perfeita.

Nos teus secos pólenes abrigas amigos
Que com o frio se perderam, coitados
Entre chuva e geada a tremer sem abrigos
Em ti renasceram de amarelo pintados.

Ao florir de esperança vós chamastes Maio
O mês das flores em lameiros estendidas
Em belos jardins a preceito tratados
Ou em rochedos frios, da força nascidas.

Num rebentar cândido, trouxestes alegria
Ao meu jardim, abaixo afilados
E às minhas jarras aonde floristes
Trouxestes o calor aos dias gelados.

E com a vossa postura enfrentando o céu
Mirando de frente o sol que aquecem
Trouxestes-me a força que em mim cresceu
Contra as horas mortas que me enlouquecem.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Solta o beijo




Guardas nos lábios o beijo não dado
Daquela primavera cor de açucena
Perfume de jasmim em ti guardado
Resquício eterno da tua pobre pena.

Liberta-o dos lábios, não o catives
E de tão livre, ele será o vento
Manda-o nas palavras que não dizes
Apertadas em grande sofrimento.

Larga-o! Só se cumprirá se for liberto
Nos lábios entreabertos à sua espera
Expectantes, morando a céu aberto
Em desejos secretos, quase quimera.

Adoça-o com mel, doce colheita
Obreira incansável, gineceu em flor
Vive noite e dia de labutas feita
Guardadas no tempo, em favos de amor.

Solta o beijo, nada te amedronte
E assim liberto, ele siga o caminho
Do amor e a outra boca encontre
Para finalmente, cumprirem o destino.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Navega, barco perdido

Cada vez que te toco
Deixo o meu sinal em ti
Numa tatuagem a ferro e fogo
Que nunca arrancarás

Cada vez que te encandeio
Descubro os teus desejos
Os teus segredos mais fechados
Em baús nunca abertos

Sou a sereia que para ti canta
E te desencaminha no mar
Te faz perder o rumo, o destino
E se perde no teu navegar

Caminha nas curvas do meu corpo
Nas encruzilhadas dos caminhos
Acerca-te do navio dos meus desejos
Navega nas águas, barco perdido

Todos os dias

Libertem-nas!
Libertem-nas das amarras
Do corpo e da alma
Que não as deixam respirar

Não lhe dêem flores hoje
Dai-lhes lágrimas
Que juntas por serem tantas
Farão um imenso mar

Dai-lhes um barco
Com remos fortes
Para que com força
Saiam de lá a remar

Dai-lhes um ombro
Dai-lhes beijos
Dois olhos
Para as olhar

Dai-lhes a chave
Com que desfechem
O cadeado das correntes
Que não as deixam caminhar

sábado, 6 de março de 2010

Vestido de chita

Para que me dás brocados
Tão vistosos e pesados
Estás cansado de saber
Que o que eu gosto a valer
É dum vestido de chita.

Pode ser lisa ou com flores
Pode ter uma ou mais cores
Com riscas ou com quadrados
Pode ter rendas ou bordados
Em cima da pura chita.

Faz-me dela saia rodada
Só franzida ou pregueada
Pode cheirar a terra ou mar
Erva acabada de cortar
Na simplicidade da chita.

A condizer com o vestido
Bem feito e colorido
Põe-me um laço no cabelo
Para que nele possas vê-lo
O meu coração de chita.

Com chita serei seara
Livre ao vento se agita
Serei o mar ondulado
Serei bailarina e bailado
A esvoaçar como a chita.

Que de chita sou eu tecida
Da que o povo um dia vestiu
Daquela que livre e erguida
Em Abril um dia floriu
Craveiros simples de chita.

I had a farm in África


I had a farm in África…
É assim que o filme África Minha começa, na voz de Meryl Streep, atriz que tão bem interpreta o papel da escritora Karen Blixen, naquela que foi uma história da sua vida real em África e que tão primorosamente Sydney Pollack passou para os écrans.
Baseado nos livros, Den AfriKanske Farm e Shadows in the Grass de Karen von Blixen, sob o pseudónimo Isak Dinesen, foi para mim um filme marcante e julgo que terá sido para todos, nomeadamente para aqueles que, tal como eu, viveram na enigmática África.
Eu não tive uma fazenda em África, eu não dirigi uma plantação de café, eu não era casada com um barão molherengo, nem me apaixonei por um guia de safaris, pelo menos nesse sentido carnal. Confesso que não me importava de ter vivido essa paixão arrebatadora.
Apaixonei-me por outro caçador guia de safaris, uma paixão diferente daquela que Karen Blixen viveu, o meu pai.
Não tive a fazenda em África, tive sim um pedaço de terra atravessado por um pequeno rio, ladeado de gigantescas e frondosas árvores por onde trepavam lianas entrelaçadas e nas quais eu andava de baloiço.
Um pedaço de terra de dois ou três hectares. O meu pai requereu a concessão ao Governo, e, apesar de sucessivos requerimentos nunca lhe foi concedida. Era aquele pedaço de terra anexo à coutada de caça do poderoso Champalimaud, bem próximo da zona habitacional, onde aliás por ser tão próximo, nos deslocávamos por vezes a pé.
Éramos amigos do casal responsável pelas instalações. Dizia-me o meu pai que o Eng. Jardim teria sido o responsável para que a nossa pequena quinta fosse usufruída clandestinamente, o que aliás nunca foi problema. Nunca ninguém nos foi pedir o certificado de concessão.
Também o meu pai se relacionava muito bem com o senhor António Champalimaud, com quem caçou diversas vezes e lhe serviu de guia de caça. Também dos filhos ainda muito jovenzinhos o meu pai contava muitas histórias e por quem nutria uma grande amizade. Lembro-me da história da construção da casa em cima duma árvore e que, para crianças de nove ou dez anos foi um nascer de aventura e duma amizade muito pura; da casa que os três construíram em madeira,alta e estreita como se fosse uma torre, para expandírem os sonhos de adolescentes e que preferiam, em vez da luxuosa mansão.
Vou passar à minha pequena quinta clandestina e às minhas vivências naquilo que eu achei que seria o meu paraíso no coração de África, O Ingase. Aqui há tempos consegui mostrá-lo aos meus filhos, num plano superior ao rio, marcado a mais escuro, no Google Earth.
Um rio, uma fonte de água cristalina que o meu pai cavou, um lago que recebia a água onde patos nadavam naquela frescura da sombra das árvores.
Casas de madeira com telhado de colmo, uma delas construída no cimo dum monte feito pelas formigas e que mais parecia um farol a despontar acima das copas das árvores. Várias casinhas cada uma com a sua finalidade: Uma maior onde ficava a zona de refeições com um excelente frigorífico a petróleo, os quartos de dormir, a casa de banho lá ao fundo onde um balde com uma torneira e um crivo servia de chuveiro, a casa do ronda um homem de quem não se sabia idade e que tratava da horta e das galinhas, a casa da caça.
Soubemos que, depois do 25 de Abril a Frelimo terá utilizado o nosso pequeno paraíso, como escola e ainda bem. Ao menos teve utilidade.
Será que um dia lá conseguirei ir sem que seja em sonhos? As imagens chegam-me já muito difusas quando penso naquele sítio, acho que me faltam alguns pormenores mas, mesmo assim conseguiria identificá-lo. Guardo ainda alguns filmes em Super 8, feitos lá.
Uma plantação de ananases, um mangal, papaieiras, macacos, muitos, muitos e que viviam em cima das árvores, sobre os tectos das casas; cobras, gaselas, pássaros.
Então Ronda, as galinhas?
Xi, patrão, bicho roubou todos ela... num tem maneira, patrão!
Não havia loja onde se abastecesse e as barriguinhas das crianças pediam comida.Fazia bem o Ronda. Tem piada que nunca nos disse o nome. Para mim o nome dele era efectivamente, Ronda.
O Ronda, um homem alto e magro, sem idade mas, se a idade se lhe conhecesse seria próxima do século. Nada se lhe conhecia que não fosse aquele corpo esgui, um pouco cambaleante quando, com os braços um pouco trémulos, carregava os dois baldes de água, escadaria acima, colhida na fonte a alguns metros abaixo do nível das casas.
Vivia com a mulher jovem e duas meninas de nomes Ganhiua e Unsapo.
A mulher ausentava-se por uns tempos e a seguir a barriga crescia.
O meu pai dizia-lhe: Ronda, teu mulher anda a ponhar-te inhanga!
Xi patrão, mulher pode ponhar inhanga, mas filho é sempre nosso, respondia o ancião.
Uma alegria sempre que íamos passar lá uns dias, o meu paraíso, a minha quinta em África...
I Had a farm in África!
Eu tive uma quinta em África do tamanho duma herdade, do tamanho de uma coutada, do tamanho dum país, do tamanho do mundo, porque aquela quinta não tinha muros, nem arame farpado, tinha por limites o limite da minha imaginação.
Tinha acordares ao som dos macacos e dos pássaros, chilreios afinados.
Tinha adormeceres ao som dos risos das hienas e de toda uma infinidade de sons da noite, daquela noite quente e acolhedora de África, por baixo do mosquiteiro de rede fina.
Tinha caçadas durante o dia, espingarda pronta, os dois, não fosse aparecer subitamente um búfalo ou elefante solitários, sempre muito mais perigosos que em manada.
Tinha caçadas à noite,com um jeep sem capota nem portas. Era tudo de lona, preso em armação de ferro mas que tudo tirávamos para maior liberdade.
Os olhos do leopardo apanhados pela luz dos focos que trazíamos na cabeça e que acendíamos e lançávamos floresta adentro. Quanto mais escura a noite fosse melhor era, para que melhor dessem os olhos, para o tiro certeiro entre eles. O cheiro, o inconfundível cheiro do leopardo que deixava por onde passava,demarcando terreno e que eu tão bem identificava quando, em noites de luar, por haver mais luz nos fugiam os olhos da mira e o seguíamos pela floresta.
Tinha um pai, caçador profissional que me servia de escudo à frente dos rugidos dos leões, das manadas de elefantes e dos búfalos, e de antídoto nas mordeduras das cobras.
Tinha os búfalos nos tandos de Manica e Sofala, aos milhares e que, à noite, quando os faróis do jeep lhe batiam, parados e virados todos na nossa direcção, aquela planície se transformava em cidade iluminada com milhares de luzinhas.
Tive um pai com a sensibilidade do tamanho do universo e que, aos seus olhos tudo era belo e que me ensinou a amar a natureza e a observar uma pedra que fosse, só porque essa pedra era diferente em qualquer pormenor.
Tinha amanheceres e entardeceres com cores magníficas, trovoadas, os relâmpagos entrelaçados nas árvores, o rebentar estridente dos trovões, a chuva quente e o fumegar ao cair no solo escaldante, as queimadas, as gazelas saltitantes, as gondongas com o seu correr descoordenado.

Eu tive uma herdade em África, do tamanho do meu sonho!... I had,... I had, indeed!...

Eu tenho uma saudade imensa dos dois!...
Of course, I have!...


sexta-feira, 5 de março de 2010

Quero dormir, tanto, tanto...

O dia começa a despontar em casa de cada um. Na minha casa, no meu miserável corpo cansado por sucessivas insónias, despontou há muito tempo, demasiado tempo.
O sol está a espreguiçar-se para mais uma jornada. Resta saber se se mostrará para cá das nuvens.
A chuva já cansa, os temporais muito mais e mais do que cansar, amedrontam. O Fevereiro namoradeiro doutros anos, este ano mostrou-se frio, molhado e feroz.
Veremos Março, ele que por norma é de grande instabilidade!
Apetece sol, apetece luz, apetece passear nos paredões à beira mar sem que haja receio de apanhar com uma onda que nos leve para o fundo do Oceano.
Até o Mediterrâneo se tem mostrado feroz e imprevisível, vociferando com ondas gigantescas a inundar navios, amedrontar e matar gentes. Imagine-se, o pacato Mar Mediterrâneo!
Apetece-me passear pelo campo, ouvir o canto do cuco, o matraquear das cegonhas, apanhar flores silvestres para pôr na jarra da minha vida, para que me acompanhem os passos com a sua singeleza e o seu perfume envergonhado.
Sinto-me triste e quando assim é, não me apetece lançar-me à vida. Estou exausta.O que vale é que é momentâneo e logo depois me sacudo...
O meu sono não reconhece a noite e, durante o dia as pálpebras teimam em não se fechar. Cansam-me as noites infindáveis, pesam-me os dias de cansaço. Quero dormir, no mínimo um dia inteiro, sem intervalo para comer ou beber.
Quero dormir, tanto, tanto...

Lancei-te ao vento

Perdi-te
entre o nevoeiro da mente
e, de repente se fez
ausência.

Perdi-te
nos lapsos de memória,
escuridão do dia,
demência.

Perdi-te
nas veredas dos minutos,
segundos sinuosos,
premência.

Procurei-te
em palavras,
letras em cascata,
urgência.

Achei-te
e, de mãos abertas
te solto ao vento,
cedência...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Os teus filhos




Os teus filhos não são teus filhos,
são os filhos ou filhas da ânsia por si mesma.
Vêm através de ti, mas não de ti, e,
embora vivam contigo, não te pertencem.
Podes outorgar-lhes amor mas não os teus pensamentos,
porque eles têm os seus próprios pensamentos.
Podes abrigar os seus corpos,
mas não as suas almas,
pois as suas almas moram na mansão do amanhã
que tu não podes visitar nem mesmo em sonhos.
Podes esforçar-te a ser como eles,
mas não os podes fazer ser como tu,
porque a vida não anda para trás
e não se demora com os dis passados.
Tu és o arco
com o qual os teus filhos são arremessados
como flechas vivas
no encurvamento da mão do arqueiro.


Khalil Gibran

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

É preciso aprender


As imagens têm chegado, reais, medonhas. De um momento para outro, após umas horas de chuva intensa o que era considerado como uma pérola do Atlântico reduziu-se a um monte de pedras e lamaçal. Muitas vidas ceifadas pela força das correntes, o fruto de uma vida de trabalho que num sopro se foi.
Tantas outras imagens destas e piores, nos têm chegado recentemente doutros pontos do planeta embora esta, porque a tragédia é nossa, nos toque mais profundo.
Outras tragédias deste tipo já ocorreram recentemente, felizmente menos gravosas em prejuízos materiais e humanos porque, por um lado era em regiões de planície que sendo preocupante pelo menos a água não atinge tão elevada velocidade que nas encostas com elevado declive, e por outro lado a pluviosidade não seria tão intensa. Estou a lembrar-me de Beja em dois mil e poucos, fenómenos cíclicos que um pouco por todo o lado vão surgindo.
Pensando nestes dramas nunca é demais falar dos grandes responsáveis por essas desgraças para a lém da própria natureze: Mão humana, a eterna ganância, o compadrio e coisas do mesmo tipo, onde o dinheiro anda sempre de mão dada com o restante. Ribeiras às quais lhes foram roubados os leitos e que enraivecidas recuperam o que lhes pertenceu, levando à frente tudo quanto encontram.
Porquê?
Porque as cidades e outras localidades foram projectadas para situações normais, como se as forças da natureza se comportassem sempre duma forma normal, porque se construiu onde nunca se devia à cata do lucro.
O incumprimento das normas, quando elas existem, a troco de dinheiro ou compadrios, muitas vezes de natureza política como sucede na Madeira. O eterno problema da currupção...
É um facto que mesmo tudo feito dentro da legalidade, mesmo seguindo um plano de ordenamento do território adequado,o plano director municipal à risca, o drama havia de existir, mas incomparávelmente menor.
Será que o AJJ não retirará destes dramas alguma aprendizagem e que mais não seja se torne menos arrogante e mais justo para todos os madeirenses e os trate por igual, mesmo àqueles que não lhe dão o voto? Receio que não e infelizmente julgo que não me engano.
Assusta-me sentir o quão somos frágeis e impotentes perante as forças da Natureza e assusta-me também o facto de quem tem a obrigação de governar com seriedade a maior parte o não faça...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A medida do amor



Perguntaste-me um dia
Quanto o amor media.

Não te soube responder.
Seja lá com que for
Eu não tenho nada
Com que meça o amor.

O amor é céu.
O amor é oceano
Um verde de esperança
Em ondas tecido.

Mas também há dor
Delírio e loucura
Nas danças do amor.

A medida do amor
Eu não ta sei dar.
O que te posso dizer
É que o amor é uma flor
E para não morrer
O tens que regar.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Fico-me pela sangria



Um pouco de sal, água e vinho branco; alho e coentros para dar aroma, um pouco de aguardente para dar coragem e frontalidade, um naco.

Deixei-o cozer em fogo esperto, como convém, para não se perderem os sucos, afim de que ficasse tenro e terno.

Segui à risca a receita para que tudo saísse na perfeição para depois escrever um conto.

Tanto quiz que apurado ficasse, o cozinhado esturrou-se e na cozinha tresandou a alho e coentros.

Do álcool da aguardente nem a mais pequenina porção de vapores!
A água e o vinho secaram e o molho ficou excessivamente salgado.

É no silenço que as palavras me saiem dos poros.
O ruído do esturricar roubou-me as condições para a escrita. Além disso, julgo que de tudo isto um conto não sairia, ficando-se tão somente por um dia sem almoço.
Desisti e fiquei-me pela sangria.

...Vou merendar!
Até já.

...Caminha







Hoje,
mesmo que o dia seja triste
falo-te de esperança.
Hoje,
mesmo que o dia esteja escuro,
falo-te de confiança.
Hoje,
mesmo que no campo haja gelo,
falo-te de aconchego.
Vai!
Vai ao jardim e
lá encontrarás as magnólias,
flores sedutoras de insectos,
só elas,
amores primeiros sem rivais
que chamam a Primavera,
tempo antes das demais.
Só elas!
Serás magnólia se quiseres.
Única.
Coragem a brotar dos caules despidos,
calor sem agasalhos.
Depois, acende as centelhas
que moram nos seus olhos felinos
e, com elas,
hás-de derreter a geada dos dias,
dos insensatos dias,
das escorregadias noites.
Única,
...caminha.




Agradeceu-me com um sorriso

Descalcei-me dos medos e caminhei no escuro da noite. Gelada noite, vento a entrar-me por entre os buracos de um xaile de renda.
Tremia e a minha pele arrepiava-se. Passei as mãos pelo corpo, com força, para acalmar a sementeira de pele de galinha que se espalhava.
Por um instante parei e reflecti: Que faço aqui? Porquê que teimo e continuo enfrentando temporais gélidos se eu não tenho agasalho? Porquê que simulo descalçar-me do medo se trago o medo agarrado a botas de cano alto?
O vento sibilava cada vez mais, cada vez mais frio e o céu cada vez mais escuro. Nem uma única estrela, nada reluzia que não fosse o meu cigarro que me fez companhia em grandes bufaradas de quem travou o fumo, até o fundo dos infernos de si, pulmões negros de alcatrão, olhos raiados de sangue da tosse que asfixia.
Olhei para o cigarro que ardia quando lhe batia o vento à medida que ia gritando:
Para quê que acendi esta merda que só me faz merda cá dentro!? Quero lá saber, que se lixe o dentro e o fora, que se lixe a noite escura que me assusta, o frio que me mata. Tenho um cigarro por companhia, por agasalho, por lamparina.
Meti a mão num bolso dos buracos do xaile, de onde tirei outro cigarro. Acendi-o, aspirei-o com força para dele tirar sustento, mastiguei-lhe o fumo, como se fosse um pão que me matasse a fome.

Continuei reclamando:
Quero lá saber do cigarro, da porra do pão, do frio, do gelo das minhas entranhas, das minhas rotações descompassadas, das putas das pernas presas... Tenho um medo do caraças, do escuro, das sombras, aqui neste ermo escuro onde nem eu própria faço sombra…

Aspirei uma vez mais o cigarro para ver os dedos trémulos.

Foi por causa do cigarro aceso que me descobriste na noite.

...

Pareceu-me ouvir vozes lá fora, de alguém que falava agitada.
Abri a porta, mandei-a entrar e dei-lhe guarida. Embrulhei-a numa manta de lã para que se descongelasse ao pé da fogueira enquanto me foi contando a sua história, aquela história.
Aos poucos, ganhou brilho e força e depois dormitou.
A seguir, peguei nela, lancei-a no escuro e, com um sopro, ajudei-a a elevar-se no céu.
Quando olhei para cima, lá estava ela, cheia, resplandecente de luz e, aos poucos, a noite deixou de ser noite escura.
Fui-me deitar.

Indiscreta olhou-me através da cortina de seda, acenou-me e agradeceu com um sorriso.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Sim, eu sei!




Sim, eu sei
que depois do ocaso,
outro dia vem.

Sim, eu sei
que depois do vermelhão
com que se despede o dia,
outro dia virá,
outra luz voltará,
roxa, laranja em clarão.

Sim, eu sei…
Mas também sei que há noites
em que o corpo
me treme de frio
e tenho medo da escuridão.

Sabes sol da tarde?
Não posso contar com o luar
porque de fases é a lua.
Umas vezes doce a amar,
outras vezes dura e crua.

Por isso sol do poente,
tão vermelho de paixão,
não me deixes entregue à noite
tira-me desta escuridão.

Dizes-me
que tens pouca luz,
sol poente?


De pouca,
eu estou carente!
Amanhã,

ao amanhecer
prometo que te vou ver,
bem cedinho a nascente.


sábado, 13 de fevereiro de 2010

Docemente




Nos olhos de avelãs onde me vejo
há reflexo da sede que se sente.
Tu nos meus a beber ensejos,
para mais beberes na minha sede,
a chuva dos nossos desejos.

Os corpos que se juntam
na pele que sabe a mar.
Os braços que se encontram,
mãos inquietas, rodopiar
em sufoco dos nossos beijos.

Calor a fundir-se em arrepios
e as bocas em devaneios.
Dos silêncios aos gemidos,
no brotar das fontes e enleios
dum vai vem de almejos.

Os corpos a escalar ao cimo

para em queda livre virem a descer.
Nos corpos, a nudez vestida
e a tua mão a adormecer
docemente nos meus seios.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Para onde queremos caminhar?




Uns olhos negros pedem ajuda.
Lindos, expressivos numa expressão triste. Uma imensa ilha num rosto negro, corpo de menino marcado pela dor: uma alma tão inocente a sofrer, um corpo tão pequenino a gemer silêncio. Aguenta firme sem que a primeira lágrima engrosse e um rio desça cara abaixo apesar das dores que deve sentir quando, um jovem português lhe faz o penso para lhe tratar e tapar as chagas. Está só, não tem com quem partilhar as lágrimas e talvez por isso não chore. Os pais já não estão para lhas limparem.

Outro, ao colo da mãe sentada no chão da tenda transformada em hospital, chora com dignidade na dor, a de um menino que cedo se habituou a sofrer.
Pronto, já acabou, disse o jovem médico português à medida que ia dizendo à mãe que seria aconselhável fazer uma radiografia ao joelho. O rio de lágrimas evaporou-se de imediato, nem mais uma, nem mais um soluço lhe ficou no peito.
Meninos corajosos, uma coragem que lhe vem de dentro das entranhas e que cresceu como grama em solo seco, como um cacto no deserto.

Espírito de entrega, amor ao próximo, altruísmo e um sem fim de adjectivos que só podem ser usados para definir pessoas com uma formação baseada em valores que infelizmente estão em vias de extinção. Assim é esse médico que, tal como outras pessoas se entregam em doação sem que nada queiram em troca e que mais não recebem senão o sentimento de gratidão dum povo destroçado.
Será que nem catástrofes com0 esta fazem com que as pessoas reflictam quão pequenos somos, perante as forças da natureza ou perante um conflito armado sério.


Depois, comecei a pensar no terramoto e na guerra aberta que se está a travar em Portugal, onde altruísmo e espírito construtivo são coisas em desuso.
Um terramoto causado pelo homem, não um terramoto a abanar o físico, mas a abanar as mentes.
Acontecimentos a exceder os limites do razoável, pessoas a exceder os limites das suas funções... Falta de respeito pelas instituições em que bombardeamentos se cruzam em todas as direcções sem haver respeito algum pelo alvo, seja ele quem for, nem respeiro pelos cidadãos.
Os políticos a agirem levianamente, palavras e actos sem serem previamente ponderados e sem medir as consequências dos mesmos, falta de transparência e rigor, causando desilusão àqueles que os elegeram.
Uma comunicação social sem regras, tendenciosa na sua maioria que, a coberto da liberdade de imprensa comete barbaridades, como se dever público de informar fosse o pôr a nú o que é do domínio privado, atacando e acusando mesmo que nada esteja provado, num desrespeito total pelas instituições.

Em que país vivemos e o que esperamos com estas guerrilhas de emboscada?

Para onde queremos caminhar se já estamos numa situação económica tão débil, com um défice elevadíssimo, com as empresas de rating a colocarem Portugal como um país quase incapaz de honrar os seus compromissos, fazendo com que os juros pagos pelos portugueses aumentem exponencialmente?
Para onde queremos caminhar com querelas que mesmo que pertinentes, nos fazem esquecer os verdadeiros problemas do país, os problemas sociais decorrentes do desemprego, as pensões de miséria, a fragilidade das instituições de segurança social?

Não querendo ser excessivamente dramática, foi num clima semelhante ao que hoje se vive que a primeira República caiu e originou cinquenta anos de ditadura.
Também nesse tempo havia uma situação económico desastrosa, desrespeito pelos Órgãos e Instituições do Estado, desrespeito e descrédito pela Justiça, descontentamento e conflitos sociais.
Para o bem e para o mal, os acontecimentos históricos repetem-se.
A seguir, sabemos bem o que foi a falta de liberdade e a censura. Pelo menos as pessoas da minha geração sabem-no.
Era bom que toda a gente soubesse. Se assim fosse, não se levantariam de ânimo leve as vozes, pelo menos, sem que fosse provado por quem de direito.
Também em democracia tem que haver regras e essas regras têm que ser extensivas à comunicação social. A entidade reguladora da comunicação social tem que ser um organismo actuante para que a troco da liberdade de imprensa não se cometam excessos dessa liberdade. Os excessos são sempre maléficos, venham eles de que lado vierem.

Era bom que, em breve, este clima de crispação em todos os domínios terminasse e que todos arregaçássemos as mangas com vista à construção de um futuro melhor para nós e para as gerações vindouras, para que futuramente não haja meninos com sorrisos tristes.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Para quê tantas palavras?!!!

Queria escrever...
Queria escrever coisas sonantes,
que me enchessem de vitórias,
mas a tinta do tinteiro entornou-se
num terreno
sedento de protagonismo
e a minha pena
não tem fonte de glórias.
Já não tenho palavras!...
Já não quero mais palavras!...

As últimas que desenhei
entupiram-me a caneta,
em teias emaranhadas.
Não foi por censura, não foi por medo
nem em prostituição vendidas,
foram elas mesmas,… as palavras!

Desejaram no seu silêncio,
um respirar suspenso,
gritos calados,
ais sustidos,
sons não pronunciados.
Amadurecidas,
banhadas em bom senso,
passaram a ser muito mais que palavras…



num país que querem fazer com palavras...


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Numa fonte a brotar





Foste-te...
Como se fosses
Um cavalo de corrida
Em arenas sem fim
À procura de vitórias.

A galope te perdeste
Caminhando por bosques
Onde não tinhas cadeado
Para prender memórias.

Caminha...
Agarrada aos teus braços
A que um dia se segurou
Para remar em remoínhos
E em teus beijos se afundou.

Espera-te...
No colo do cansaço
Segurando nas mãos
Os sonhos que restaurou.

Espera-te...
Nas escadas da alma
Para que, degrau a degrau
Vás subindo
Em escalada verdadeira.

Não te importes pela água
Que devagarinho escapou
Pela ribeira.

Espera-te...
Numa nascente a brotar.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Mulheres:

Aos vinte, temos o mundo aos pés
Aos trinta, nas mãos
Aos quarente, em tudo
Aos cinquenta, no coração
Aos sessenta, na sabedoria

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

À distância de um clik

A Internet aproxima as pessoas e de que modo.
Amigos que algures, por algum desencontro da vida se perderam, endereços anotados e telefones que se foram com uma simples mudança de casa, o desalento, as saudades, o sentimento de culpa por não ser suficientemente organizado para que nada se perca. E perde-se, perde-se muitas vezes, o papel e o fio condutor dos encontros, para que a amizade perdure.

Aconteceu o ano passado quando por curiosidade escrevi no Google o nome de uma cidade, daquelas que nos deixam marcas indeléveis e que nunca mais visitei nem sei se um dia voltarei a pisar, o país, os sítios que sinto como berço.
À distância de um clik percorreram-se milhares e milhares de quilómetros, países e mais países, oceanos, desertos.

Os olhos brilharam perante o écran cheio, informação diversa e sites. O site, antigos alunos e professores da escola tal, espicaçou-me a curiosidade. Tinha lá sido professora, o primeiro ano de docência. Ao fim do ano lectivo, foi a separação. Um corte com poucas despedidas, os alunos que ficaram, a maioria dos amigos que não voltei a ver, os colegas que acabei por esquecer, como se, de peças de mobiliário fora de moda se tratasse.

Entrei no site. Espasmos percorreram-me o estômago e os intestinos com a ansiedade. É sempre assim, voltas e mais voltas que o nervosismo miudinho me dá nas tripas.
Listagem de pessoas, uma ou outra que conhecia, uma amiga a quem mandei uma mensagem. As mensagens podem ser lidas por toda a gente, o que de certa forma facilita os contactos e o rebuscar de afectos, já que as pessoas que ali entram têm os mesmos objectivos e ao fim ao cabo cria-se uma cadeia de solidariedade.
Uns a viver aqui em Portugal, outros fora do país, fomos chegando uns aos outros, ao todo menos que uma dúzia. Excelente, depois de mais de trinta anos!

Comecei a sentir cheiros que vinham ter comigo: de especiarias, de flores, de frutos, de maresia, de leite de coco que usávamos para um bronzeado mais castanho dourado, o mesmo sem tirar nem por que se usava para aromatizar o caril na hora de servir, exactamente igual, saído do coco fresco ralado e espremido. O Coppertone fazia pouco mais e era muito mais caro.
Vi-me com shorts e uma pequena blusa, reduzidíssima mesmo, as xanatinhas de enfiar o dedo e que ainda agora adoro calçar do mesmo tipo, pela liberdade que os meus pés sentem, a bata branca que tinha que usar na Escola nesse tempo de liberdade restrita, curta, alva, tão alva como a saiínha fresca de cetim com renda na baínha que usava por baixo, para que os alunos não me vissem o que não deviam quando eu, ao levantar o braço para escrever no quadro, a bata também levantava. Para cima era a bata a única peça de roupa que usava, de algodão puro, adequado ao calor húmido que se sentia.
Tantas, tantas lembranças!
O som da noite vindo dos batuques aos fins de semana no Chipangara, sons que me chegavam desse bairro de africanos, nas proximidades do bairro onde eu morava, extraordinariamente melodioso, ritmado e quente, tão quente como a noite tropical.

Telefonemas a seguir, emails trocados, fotos, a mesma voz, os corpos e os rostos diferentes com as marcas dos anos e dos desencontros que fazem com que se mostrem as rugas e os quilos a mais de uma vez só, sem que aos poucos nos habituemos.
Mas ah felicidade, estamos vivos!...
Estamos vivos por dentro e por fora, neste mundo global que a Internet nos proporciona e em que tudo está à distância de um clik.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Abre de par em par

Deixa que eu entre no teu silêncio,
para que no teu cerne,
desvende mistérios e descanse.
Amanheça eu aí,
encostada a uma gota de orvalho,
cristalina, reluzente,
com reflexos lilases e alaranjados
dum amanhecer de Agosto e,
lá ficarei o dia todo, a vida toda.
Abre-me o ferrolho da porta do templo,
esse, onde as gestações são eternas,
as palavras nascem espontaneamente,
as curas se fazem sem milagres e,
de onde brotam mananciais
capazes de regar estepes,
restolhos, desertos.
Abre-me os portões desse jardim de estrelas,
onde constelações são bailarinas
e a Via Láctea uma orquestra.
Abre de par em par
as portas do paraíso que tu és
à minha alma vagabunda.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Este recanto é nosso

Viajo sobre um manto branco de núvens, cama fofa onde me deito embalada pela lua que, mesmo discreta, me envia brilho com o sol a pique.
Deito-me aconchegada naquele berço e acabo por adormecer.
Em sonhos, tu estavas a meu lado e, ao acordar, os meus braços estavam a enlear o infinito, num abraço.
Ainda a sonhar, esfreguei os olhos, desviei uma nuvem e olhei para baixo.
Acenaste-me duma planura dourada; estavas em pé, em cima de um rochedo com algo na mão a agitar, fazendo-me sinais para que eu travasse o vento e a núvem me não levasse para outros mundos.
Pedi aos deuses para que o vento deixasse de soprar, para que a minha viagem terminasse e eu pudesse descer naquele apeadeiro.
Depois, consegui ouvir a tua voz que me dizia que que aquele recanto era o nosso mundo.
Desci da nuvem branca, sentei-me a teu lado e tu ofereceste-me uma folha de papel que manchei com desenhos e frases onde se contavam histórias de mouras encantadas, de gigantes rochas com suas bocas fantasmagóricas, de medos.
Ali ficámos até o dia se deitar e as estrelas virem beber a luz à lua, aquelas estrelas que dormiam enquanto eu dormia na cama suspensa, de algodão.

É um pouco disto, a sensação que tenho, quando viajo de avião acima das núvens e vislumbro as paisagens em miniatura que vão ficando para trás. O desejo de dormir naquela cama imaculada.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O professor não morre jamais

»A alegria de ensinar é um livro cujo autor, Rubem Alves, pretende deixar claro que ensinar é um exercício de imortalidade, que de alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra, sendo que, desse modo, o professor não morre jamais, estando a cada dia no pensamento daqueles a quem ele ensinou».

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Com aroma a alfazema

Sentiu-se tensa naquela tarde fria. Há dias em que nem ela sabe porquê que os músculos se retesam em espasmos, tão involuntários quanto indesejáveis. Talvez falta de potássio, quem sabe ou antes uma vida de preocupações e correrias. O corpo a dar sinais de cansaço e que nem sempre se lhe dá a devida atenção.
Chegou tarde do trabalho, às oito mais precisamente; o cuco cantou no relógio antigo que a avó lhe dera e que é uma relíquia da marca Reguladora, hora regulada na verdade, nem um segundo a mais ou menos desde que não se esqueça de lhe dar manualmente corda.
Foi deixando coisas para trás à medida que ia caminhando, afinal que diabo, não tinha que dar satisfações a ninguém desde que há um ano pedira o divórcio após mais de trinta de casamento, trinta e tal anos de tudo um pouco. A balança a dada altura pesou para o lado de querer viver sem que alguém lhe quisesse cobrar fosse o que fosse.
Tirou a chave da porta, bateu-a com força como que a desejar que tudo ficasse definitivamente no exterior. Na cozinha branca e preta deixou a caixa com o jantar, comprado ao virar da esquina, coisa pouca, como convém. Depois largou a mala, o casaco e a boina que habitualmente lhe cobre a cabeça, alternando com boné, ou chapéu. Respirou fundo e murmurou de alívio; finalmente em casa! Que dia, com a breca!...
Preparou o banho de sais e espuma com a aroma a alfazema, acendeu uma vela do mesmo aroma e pô-la junto à banheira. Foi tirando as peças de roupa lentamente, como se esse também fosse um dos truques de relaxamento e colocou-a no cadeirão do quarto. Depois deixou-se estar coberta de espuma, massajando o corpo, saboreando cada toque, respirando o aroma daquele ambiente perfumado e de luz difusa. Respirou de alívio, sentiu-se outra. Secou o corpo, massajou-o com o creme corporal, vestiu o pijama de veludo, calçou umas pantufas quentes. Depois, o roupão azul turquesa, veludo macio e quente. Passa-lhe a mão com frequência e encosta a cabeça na gola volumosa, para lhe sentir a macieza. Veludo por dentro e por fora. Adora roupas macias e bonitas para estar em casa.
O jantar na sala de estar servido num tabuleiro, acompanhado com música calma e um sumo de laranja natural, saboreando cada dentada, cada som, cada toque macio no roupão de veludo, azul turquesa.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Para que hei-de ser

Porque serei letra ou palavra
Se eu frase não sei ser
Porque balbucio os sons
Se eu nada te sei dizer

Procuro nas palavras
Uma forma de chegar
A um destino
De onde acabo por voltar

Das mãos foge-me o afago
Das veias foge a paixão
Da boca foge-me o beijo
Dos pés foge-me o chão

Para que sou eu o que sou
Se o que sou eu não sei ser
Porque me golpeio
Sabendo que vai doer

Para que hei-de ser palavra
Se palavra não sei escrever
Para que serei amanhã
Se eu o hoje não sei ter

Para que escrevo
Se nem sequer eu vou ler

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O colete de forças

São profundos os vales, são íngremes e escarpadas as encostas. A escassa brisa que tímida corre não lhe chega aos pulmões, na quantidade desejável. Nestes sítios sente-se como no Metro em hora de ponta.
Quer ver um campo aberto onde os seus olhos se espraiem, onde a luz lhe cegue os olhos, onde o céu se mostre na sua plenitude.
Sempre lhe faltou o ar nestes vales profundos. Ainda se lembra da tarde húmida em que teve a sensação de que o mundo lhe cairia em cima como um torpedo, lhe esmagaria a cabeça, naqueles lugares da ilha da Madeira que achou espantosos no cimo mas que odiou quando lá no fundo, só viu montes com uma pequena nesga de céu por cima.

Quero céu, quero terra a perder de vista no planalto ou que seja no pico mais alto do monte onde os meus olhos possam caminhar livremente. Que faço aqui eu neste fim de mundo? Quem me lançou neste inferno que abomino, perguntou Inês furiosa.

Gritou. O mais alto que as cordas vocais puderam e os pulmões lhe deram fôlego.
Nos locais fundos, a sua mente sente que o ar é rarefeito. A sua mente, sim, tudo está na sua cabeça, porque afinal o ar é cada vez mais rarefeito à medida que subimos. Como pode faltar o ar só porque se está no fundo?
Gritou e, aquele grito fez ecos e mais ecos de encontro às montanhas que, dispostas em círculo imperfeito, poderia muito bem, estar ali uma lagoa. Antes estivesse, ao menos chapinhava na água. Ecos, muitos ecos da sua voz, em ondas de som cada vez mais fraco. Gritou mais vezes, gritos espaçados de poucos segundos e, os ecos multiplicados pareciam gritos de almas que haviam sido deportadas para aquele buraco, para se redimirem dos pecados.
Tantas, tantas almas a gritar!
Não sentiu medo, antes sufoco. Arrancou da sebe um pau liso que lhe serviu de apoio para subir o monte e, sem olhar para trás, galgou-o o mais rápido que pode.
Finalmente o céu aberto, as árvores a esvoaçar livremente, o ar a entrar nos pulmões até o fundo, as cigarras a descansarem as asas, ela a livrar-se do colete de forças que lhe apertava as costelas e aos poucos a asfixiava.

Há dias

Há dias em que sou tudo
Outros há
Em que não sou nada

Há dias em que o meu peito
Por tudo vibra
De tanto amar
Há dias em que desfeito
Triste
Sem jeito
É frio glaciar

Há dias sim
Há dias não

Há dias em que me olho ao espelho
E me apetece olhar
Mas outros há
Porque será
Que sendo eu a mesma
Eu me volto
Para não olhar

Há dias luminosos
Há dias escuros

Há dias em que abraço a vida
Com risos e cantares
Loucuras e ousadias
Mas ah, tenho dias
Em que a vida me sufoca
E me amordaça
Quero cantar
E quando a voz se solta
Solta-se a chorar

Há dias que são momentos
E há momentos que são dias!...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Reflicto, Haiti

Olho as nuvens espessas, distantes, escuras.
Amaldiçoo o céu porque o sol me esconde e me deixa prostrada nesta cadeira húmida, onde o baloiço se prendeu nas dobradiças.
O dia faz-me gélido o peito, o meu rosto está inexpressivo, sedento de neve, faminto de prados do planalto que sempre em sua alma brilha.
Como eu me sinto uma egoísta monstruosa!! Preocupada com a falta de sol, quando no mundo impera a escuridão...
Repouso, reflicto.
A penumbra traz-me vermelho sangue, o vento traz-me cheiro a morte, a fome, a injustiças. Olho o horizonte e vejo crianças a arrastarem-se entre os cadáveres, mortas de fome e de sede, a morrer em cima de escombros onde a morte se faz vida, por tão crua a vida ser.
Para onde olhava o mundo, antes de tudo desabar?
Para onde olhamos nós quando nos deliciamos em férias de sonho e nem sequer nos lembramos que a realização dos nossos sonhos em nada contribuem para melhores sonhos daquele povo? Para onde vão os sonhos por nós pagos?
O povo do Haiti não tem nada, os factos o têm dito; o país nada tem, as imagens têm mostrado, as notícias revelado.
Onde tem andado metida a humanidade, surda e cega?
Onde está a justiça divina?
Onde estamos todos?
Andamos entretidos com as nossas vaidades, reclamando o sol e a penumbra, o céu escuro e o estrelado, a chuva e a falta dela,... de tudo reclamando!

domingo, 17 de janeiro de 2010

Que me chegue até Dezembro

Escrevo sobre a neve que guardei, pegadas firmes no desnorte dos dias.
Caminho errante sobre essa manta branca com a certeza de quem tem uma bússola a indicar-lhe o norte e lhe traça os pontos cardeais nos seus destinos incertos.
Paro, inverto o sentido e, para não me desorientar sigo as pegadas e, para que possa sentir o fofo nos pés, ao lado eu piso.
Às vezes faço incursões por outros campos, os campos onde a neve não cai, mas depressa os meus pés retornam às outras pegadas e me levam a ti, céu cinzento de neve fofa, fábrica dos meus sonhos, orquestras de cigarras no calor escaldante do dia, de rãs e grilos à noite, filarmónica de chiares vindos de todos os caminhos e que mesmo que só em arquivos me deliciam.
Escrevo sobre o branco que guardei de um tempo, até o outro tempo que me leve a ti e me dê mais tempo de magia.
Manda-me mais branco, tempo!
Manda-me branco mágico que me chegue até Dezembro!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Comigo serás sol

Achei que não virias
Achei que a nuvem negra te tomaria nos braços
Traiçoeira nuvem que de ti me priva
Como ontem, lembras-te?
Ainda cedo, caminhei sonâmbula
Destapei o lençol que te cobria
Tirei-te as vestes.
Depois, fizeste-te luz
Acalmaste-me o corpo agitado pelo vento
Que soprou na noite fria
Acariciaste-me o rosto
E, sorrindo me pediste:
Deita-te a meu lado
Ilumina comigo o universo
Tira-me o cansaço
Das apeias que me prendem
Dias, anos, milénios
Livra-me da monotonia em que mergulho
Nesta vida onde nada me acontece
Prende-te com os meus cabelos
Fixa-te no meu calor
Fica comigo
E, os dois aqueceremos o mundo.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Cumpriu-se o desejo

Olho através dos vidros e vejo que muito mais próximo de mim do que é habitual, o céu se deixa cair sobre os carvalhos semi-despidos. Gradualmente, as manchas do arvoredo são nuances cada vez mais ténues, como que encobertas por nevoeiro cerrado, até que desaparecem naquele céu de neve feito, tão lindo, tão extraordinariamente reconfortante.
Há aqui na aldeia quem não compreenda este meu fascínio pela neve e por outras coisas sem significado para a maioria dos mortais e me tome, no mínimo, por excêntrica.
A paisagem está a ficar cada vez mais linda, mais branca. A neve cai miudinha e se o vento não tivesse deixado de soprar com força, seria daquela neve que entra por qualquer orifício e que aqui é designada por neve cisqueira.
Cada vez que deixo de escrever e levanto os olhos sinto a paisagem mais bela.
Em memórias, regresso aos anos da infância e da juventude: O frio que sentia na véspera do nevão, as casas humildes de granito a deixarem entrar o frio por todos os buracos, calafetadas com a neve que caía, o lume mais forte que o habitual, os animais que não podiam sair do estábulo alimentados a palha e grão de centeio, as correrias na neve fofa, as brincadeiras que fazíamos a jogar à bolada na rua dos Palheiros, em Miranda, em vez das aulas por encerrarem as escolas, frio, muito frio.
Sempre o fascínio pela neve. Como pode alguém admirar-se que eu manifestasse vontade de ver nevar, agora que, ainda por cima estou numa sala aquecida, confortável, com janelas amplas e portas rasgadas que me permitem ver a aldeia, os telhados cada vez mais brancos e a nuvem de farrapos brancos que se desprende do céu.
Tivesse eu ouvidos sensíveis para lhe captar a música da queda, tivesse eu pernas para correr pelos campos sem medo de me enterrar, tivesse eu arte para descrever o que sinto, pincéis para passar para uma tela gigante aquilo que me encanta, e tudo captaria nem que só um pouco fosse.
Não se consegue ter tudo ao mesmo tempo, e, o que me falta em pernas, pulmões e ouvido, sobra-me em espanto, neste sentir profundo, neste encantamento. Há coisas que só vemos quando as olhamos com o tempo propício para as ver, há coisas que só as sentimos quando temos sensibilidade bastante para as sentir. São compensações daquilo que perdemos...
Para vós, que estais numa cidade aonde este manto não chega, guardarei um punhado desta brancura, para que também possais relembrar os momentos mágicos das vossas infâncias, vividos aqui neste Planalto, tão vosso quanto meu.
Poderei guardar muito mais do que um punhado, tanta, tanta mais,... por muita a neve ser, já num manto branco, árvores a ficarem cobertas, o céu cada vez mais cinza prateado, o nevoeiro provocado pela queda das farrapos cada vez maiores, muito mais denso, a linha do horizonte cada vez mais próxima, uma noite inteira de neve a cair, prometida pelo céu.
Ponho mais uns troncos de carvalho na fogueira, enrosco-me numa manta e, aqui ficarei a vê-la cair até que a luz do sol me deixe. Depois, será manhã branca, fofo debaixo das botas, luz intensa a confundir os coelhos, a confundir-me nos caminhos que quero percorrer para sentir o som característico da neve fofa ao ser calcada pelos pés.
Aqui, num recanto de mim...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O gelo a derreter

A noite foi fria. Antes das vinte e duas horas já a água estava congelada e, onde a estrada estivesse molhada, os condutores incautos sentiam o carro a fugir-lhes; ao caminhar, os pés escorregavam levando o corpo ao chão ao mínimo descuido. Tivemos que andar com muita precaução em alguns sítios.
Acordei cedo e dirigi-me à janela para verificar se tudo estaria branco. Estava apenas junto ao chão e aparentemente o gelo era pouco. Constatei depois que a geada era medonha, não daquelas ostensivas, mas antes com o gelo acoitado na terra e que por sua causa endureceu.
O sol resplandeceu de luz e calor.
Estou com a janela escancarada para que a sala areje e ao mesmo tempo seque e aqueça, como aquece o lado direito do meu corpo aqui neste ponto onde estrategicamente me sentei. A geada mantém-se nos lugares sombrios à hora em que as badaladas no sino da torre da igreja marcaram o meio dia.
Respira-se silêncio; a betoneira calou-se à hora de almoço, os tractores estão recolhidos porque a terra está ensopada; só de vez em quando se ouve um ou outro pássaro, daqueles pássaros corajosos que enfrentam estes invernos de frio intenso.
As chaminés continuam a expelir fumo, autênticas fábricas de incinerar florestas, para que aqueça o sangue frio a correr nas veias da população idosa que aqui habita.
É altura de dar uma caminhada, o dia convida, as pernas também, para que não fiquem empedernidas precocemente. Os dias curtos têm que ser muito bem aproveitados. Antes de o sol se pôr já o frio começa a entrar no corpo, capaz de congelar qualquer lágrima que se solte e o vapor que sai do nariz, em nuvens brancas.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Não culpes as margens

Não culpes as margens, rio
Do teu correr enraivecido
E das lutas por ti travadas.
As margens e o leito
São braços que te amparam
Nas difíceis caminhadas.

Acalma!
Calmo és espelho
Onde as tuas margens
Se miram
Se penteiam
Te beijam.

Atenta rio!
As tuas margens
Que com posse tomas
Como tuas
Desgatadas e humilhadas
Um dia, largar-te-ão
E as tuas fúrias
Apenas lamaçais sujos
Serão.

...para que a saudade com elas embranqueça

Sentou-se na soleira da porta do tempo em que os ossos não diziam existir naquele corpo fresco. Agora os ossos falam-lhe numa línguagem de ranger de escadarias velhas.
Sentou-se e com as pernas flectidas cobriu o corpo com o casacão de lã. Ainda assim, sentia frio.
Olhou a neve branca que cobria o chão, respirou o ar frio que lhe gelou os pulmões, tapou as mãos com as mangas. Quiz sentir-se menina, queria brincar na neve, jogar à bolada até sentir o corpo a ferver, mãos vermelhas a escaldar. O ar gelado fez-lhe a barda, arrepiou-lhe aqueles pelos do queixo que por muito que sejam arrancados com a cera de enfrentar o tempo, o tempo teima sempre, cada vez mais persistente e forte para os fazer crescer, bicos ásperos que ressurgem dos poros, brancos como a neve que caiu à noite.
Recolheu-se. Sentiu que os seus ossos, branco cálcio rendilhado, já não suportavam o peso do nevão.
Acendeu o lume, enroscou-se numa manta e ali ficou, de olhar fixo na janelas que lhe mostrava a infância, a adolescéncia, os dias brancos, os lameiros com a erva tapada, os animais sem terem onde pastar, as casas de telha e sem forro calafetadas com a neve a desafiar o frio, na cama, as mantas pesadas a cobrir a cabeça, a luz do sol a anunciar-se para derreter a neve...
Está de olhos fixos a rezar para que o sol se vá e do céu mais neve caia, em farrapas grandes; deixará o lume, irá para a rua para que as farrapas lhe cubram o casacão escuro, para que o escuro se transforme em branco, para que a sua saudade com elas embranqueça e lhe torne brancos e leves os dias, resplandescentes as noites ...

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Para o resto dos temporais

Mar bravo, tempestade, rebentação medonha . Chuva, muita chuva, gelada, a molhar-lhe os pés descalços sobre a areia.
Sete saias a escorrer, o leite dos seios a verter, os olhos fixos no horizonte indefinido pela neblina que a chuva causava, ali estava à espera. Começou por gritar pelo Toino, depois, a blasfemar o mar, agora este grito que lhe sai em surdina, Toino, Toino, volta.
O leite a sair, as sete saias agarradas ao corpo, de tão molhadas.
Rita, vai para casa! Não vês que o Toino já foi engolido pelo mesmo mar que engoliu os nossos homens e outros, assim como engoliu o teu pai.
Agora,...tu sempre tens o dinheiro do seguro!
Invejosas, agoirentas, cambada de mulheres insensíveis. Sabem lá elas o que é um homem e a falta que o Toino me fará.
Qual seguro, que metam no cú o seguro. Eu quero o meu homem forte, aquele que depois da faina me traz o calor agarrado ao corpo de homem, me enche de beijos, me faz subir à Lua.
Invejosas,...sabem lá elas o que é um homem!
Por instantes, breves instantes, entrou em devaneio sem que se lembrasse que o seu homem estava a debater-se com as ondas.
Depois, o leite apertou, escorreu pela blusa apertada, os seios a rebentar; virou as costas ao mar, para ir dar de mamar aos gémeos, fruto de uma noite de amor depois da faina, o Toino de pele morena pelo sol, quente, ardente, barco cheio.
Soltou-se do cais rezando à Senhora da Nazaré, dos Navegantes, à Senhora dos Amantes para que lhe devolvam o Toino, o seu Toino. Senhoras, trazei-mo no dia em que ele faz trinta anos. Já tenho um bolo feito, uma garrafa de vinho à espera, uma ceia de carne fresca bem temperada.
Os gémeos choravam famintos e a eles pediu perdão pela demora da entrega daquele leite retesado. Depois, pôs a mesa para cinco, seriam sete com os gémeos, seis mais o Toino.
Qual seguro??!!! Pra merda vá o seguro, seis bocas para alimentar, pra merda vá o seguro, com a cama fria.
Sacudiu as sete saias, voltou a desafiar o mar, voltou a gritar, agora que já recuperara o fôlego.
Metade da barcaça a flutuar, gritos de mulheres, filhos agarrados às sete saias...
Dois vultos em cima dos madeiros agarrados que nem lapas à rocha molhada...
Falta um, gritavam.
Ai de nós!! Ai de nós, com esta rebentação!...
Este mar medonho da Nazaré, este temporal, este frio!
A quem tocaria a desdita desta vez!!??
Seria o seu home, ti Maria??!!
Falta, falta o seu home, são duas cabeças escuras que voltam.
Gritos, mais gritos.
O lenço vermelho do Toino a agitar-se, o bolo, a mesa à espera, os seios de Rita a encher, o sangue a correr de novo nas artérias, os gritos, o desespero, os trinta anos feitos, o alívio para Toino e Rita, um corpo que na manhã seguinte deu à costa!

A última das sete saias, negra, para o resto dos temporais...

Desta noite

Desta noite, pouco mais resta que o torpor dos meus pés arrastados pelo tempo que os impede de correr e que em mais não são capazes de se dar, que em passos lassos.
Desta noite pouco mais resta que o medo que as gentes sentem das águas que galgam pontes, destroem caminhos, inundam sonhos e suores de uma vida inteira.
Respirou leve o vento e, por agora deixou de sibilar, envergonhado pelo medo que provocou à minha cabeleira arrepiada quando, num acto de coragem tentou roubar-lhe as asas para com elas voar. Ah, mas as asas do vento, de tão violento o vento ser, perderam as penas que, voando para longe se foram acoitar nos destroços das árvores despedaçadas que fizeram diques no ribeiro. As penas das asas do vento pararam, juntamente com os escassos haveres da pobre gente e lá ficaram; em vez de asas, usou redes de aço, de nós juntos e, tudo arrancam, tudo levam.
Desta noite pouco mais resta que um leve bater do coração, um coração arritmado, desejoso de adormecer e com o seu sono, arrastar para o suicídio até às mais ínfimas partes, o corpo e a alma, para que se imolem em labaredas de fogo viperinas, num suicídio colectivo. Quer matar-se, mas matar-se por amor e a seguir renascer, sem mácula e fresco como a laranja acabada de colher, forte como o castanheiro que resistiu firme à noite de vendaval.
Desta noite pouco mais me resta que um turbilhão de sentires, agora que o vento me devolveu o silêncio, quebrado pelo tic-tac do relógio que eu desejo parado, e que eu desejo que de outro ponto da casa não me chegasse o som da televisão. É por isso que gosto de me deitar com a madrugada a caminhar para a aurora e assim dispor do silêncio pleno, apenas quebrado pelo som dos meus dedos a bater nas teclas, em melodia sincronizada com os impulsos que da minha mente se evadem, libertinos.
Desta noite, depois que as nuvens deixaram de chorar, resto eu, nesta sala aquecida, olhando o exterior através das janelas e nada vendo que não sejam imagens reflectidas nos vidros de tudo quanto na sala existe, incluindo o reflexo da minha própria imagem um pouco nostálgica, boina preta a descair para o lado direito.
Desta noite, resta a humidade fria dos lamaçais, o uivo dos lobos no monte aqui em cima, a raposa que desce à aldeia a visitar uma capoeira aonde possa entrar.
Desta noite,...não sei se eu própria resto...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Todos os dias

Dá-me de comer
antes que tenha
a mão estendida.

Dá-me um carinho
antes que uma lágrima
me ensope o peito.

Dá-me fraternidade
e distribui-me sonhos
antes que seja Natal.

Todos os dias
tenho os maxilares cerrados
a segurar o que não tenho.

Todos os dias
tenho o peito cerrado
a segurar as lágrimas
para que não sequem.

Todos os dias
tenho a alma aberta
desejando que todos os dias...
sejam dias e noites
de Dezembro

Veludo de seda de Dezembro

Já lhe mandei um sms que já terá lido em Milão onde chegou ontem, de avião, para passar o Natal em Sienna, mais precisamente em Santa Colomba, uma pequena localidade. Irá hoje de autocarro, ainda a restabelecer-se de febrões que teve no dia anterior e toda a noite. Aconselhei-o a adiar o voo por mais um dia. Mas não! Seguiu.
Seguiu para Santa Colomba, para uma casa edificada numa colina defronte a uma mata, onde pássaros cantam alegremente e onde as corsas se passeiam emitindo sons, linguagem que só elas entendem e que nos fazem companhia noite e dia. Um lugar paradisíaco daquele país que adoro.
A companheira só chega hoje ao fim da tarde, não lhes foi possível viajar no mesmo voo.
Eu não me importo por não ter a família toda reunida, uma vez que para mim o Natal não tem mais valor que qualquer outro dia. No próximo ano será na Especiosa, todos juntos, portugueses e italianos; assim esperamos.
Hoje faz trinta e quatro anos, o meu menino mais velho. Sempre meninos para a mãe...
Fui tratá-lo para que pudesse alimentar-se o melhor possível. Suspeitámos inicialmente de que se tratásse de gripe A, mas em breve nos apercebemos de que, pelos sintomas que apresentava, não seria.
São sempre meninos, os nossos meninos. Passamos a encarar as reacções das nossas mães com outros olhos depois da experiência da maternidade.
Estava sózinho, a arder em febre de quarenta graus. A companheira, a italianita, trabalha em Coimbra de onde regressa todas as semanas às quinta à noite ou sextas de manhã, para voltar na terça de manhã.
Deitei-me no sofá da sala e deitei-me preocupada, pensando que iria dormir a sono solto e não tinha com que despertar. Mas não, uma mãe não dorme a sono solto.
Qualquer movimento, o antipirético e o antibiótico a horas e, a mãe, quase que por magia, acorda sem despertador.
Voltei pelo menos trinta e quatro anos atrás, ao tempo que cheirava a bébé em casa, àquele aroma inconfundível, àquele choro ao meio da noite, o biberão, a mama dada num curto período de tempo, porque curta foi a licença de maternidade que só durou até cinco de Janeiro.
Hoje, estou de parabéns eu também, por aquela experiência fantástica, um musgo verde, veludo de seda de Dezembro.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Com macieza...

Com golpes de palavras
Sente o frio
De perdidos no deserto
Moribundos
Em dunas gélidas.
Vacila
Mete-se num casulo
Protege-se.
Reconstitui-se
Em metamorfoses
Sai
Enfrenta a noite
Vai.
Agita o corpo
E a amoreira
De que se alimenta.
Reinventa
Não esmorece
Tece
Um manto de seda.
Em macieza...
Aquece.

domingo, 13 de dezembro de 2009

A quem importará???!!!

Porque te lançaste num bote
Que sabias rebentado?
Desejo de morte
Por suicídio premeditado?
Ou pensaste
Que o bote não transbordaria
E que a água sairia?
Ao invés
Mais água entrou
Pelo rombo.
Sentiste-te perdida
Sem bússola
Sem norte
Sem bomba para esvaziar o bote.
Reflectiste
E, antes do naufrágio
Com a última réstia de coragem
Saíste
E, deixando-te levar pelas correntes
Boiaste sobre as águas
Sem ao menos saberes
A direcção do vento.
Que me importa??!!
A quem importará, pensate!!...
A mim, respondo-te
Enquanto junto os destroços
Do teu bote naufragado
E que encontrei naquela praia
Onde me fortaleço.
Trago comigo fio resistente
Para bordar a ponto de grilhão
Pontos firmes.
E trago seda
Para abrir guaritas para a alma
E bordar a ponto de crivo
Transparentes e leves
Para que possas receber o sol
Que te fortaleça
Para que recebas o canto leve das ondas
Que te restabeleça
A minha manta
Que te aqueça.
Trago comigo uma bússola
Para que orientes os teus passos
Débeis passos
E para que firme
Sigas.
Tu sabes,…

A mim importa!...


sábado, 5 de dezembro de 2009

Disse ela um dia

Chegaste no tempo dos sonhos dourados, das flores em botão, das brisas frescas...
Chegaste numa manhã de orvalho nos meus seios.
Imaginaste-me desnuda no mar fechado, concha viva que não abriste.
Nem sabes por quanto tempo senti o doce dos teus beijos nos meus lábios já dormentes, as dores nas mãos caídas que seguraram o ramo de laranjeira murcho do qual restavam apenas troncos secos, o peso do tule a sair dos cabelos negros, enegrecido pelo tempo, a vergonha pelo vestido bambo na magreza de ossos espetados.
Nem sabes a dor que senti no peito quando me deixaste plantada num vaso de flores ao lado da igreja, o padre com as hóstias no cálice, o livro das promessas na mão à tua espera, os convidados com fome do almoço, as jovens a imaginarem-se, uns e outros a imaginarem-se noivos. Eu plantada no vaso do jardim da igreja,... dá azar o noivo ver a noiva antes da chegada ao altar.
Azar tivera eu dez meses antes, quando te conheci. Tão imbecil que eu fui, irresponsável tu por teres acreditado no herói que te confessou já ter dormido comigo. Mentira, grande mentira, agora te digo, macho ignorante a cheirar a cavalo. Nem sei porque te maltrato enquanto olho para as cinzas do ramo de laranjeira esquecidas no canto do quintal, daquele ramo que ao contrário de ti, eu merecia. Queria oferecê-lo à virgem, ali no altar, todos a testemunhar a virgindade perante a Senhora Virgem.
Parva que eu fui por ter ficado plantada na vida, a chorar-te durante anos, a chorar o único amor, o primeiro amor, como se o primeiro fosse o mais intenso, o único, o único possível.
Agora te digo, nem sei porque falei hoje nisto,... que o melhor amor é o último, aquele que nos segura as mãos até um dia, até um dia qualquer...
Que já tinha dormido com outro,... referiu ela mais uma vez na carta que mentalmente lhe escreveu.
E se tivesse??!! Eras tu por acaso casto???!!

Ainda hoje...

Hoje decidi não esperar pelo o silêncio da madrugada para escrever. Hoje, sob uma atmosfera pardacenta de uma tarde de sábado, nuvens a ensombrar o sol, nevoeiro leve que me impede de ver o Palácio da Pena mas que eu imagino rodeado de árvores, numa mistura de verde e amarelo, gotas de orvalho a deslizar pelos troncos seculares, assim escrevo. Alma desnuda, como desnuda está a pereira aqui ao lado, no quintal.
Hoje sinto a quietude da madrugada nesta tarde que me convida a ficar enroscado junto à lareira, a cheirar a fumo, gato friorento da minha infância encostado à cinza aconchegada com brasas e que em breve chamuscava o pelo.
Hoje falo com a quietude de quem está de bem com o mundo, ainda que o mundo o não mereça.
Não vou falar de ódios, nem de fomes nem de prendas; não vou falar de excentricidades de quem quer ir à lua numa viagem de egocentrismo, quando ao seu lado e à sua frente há crianças sem pão, sem água, sem sabão.
Também não vou falar do Natal de hoje em dia, o Natal em que se venera um redentor carregado de opulência e consumismo, um redentor vencido pela ganância e vendido por um carro de alta cilindrada e uma conta choruda num qualquer paraíso fiscal.
Também não me cansarei com a conversa esfarrapada da urgência de que outro redentor nasça, por não acreditar que alguém seja capaz de redimir coisa nenhuma nem ninguém, senão a ele próprio, se para isso se esforçar. Acredito que o redentor deste século se tornaria corrupto em menos de nada, tão ou mais corrupto que outros...
Hoje vou falar do Natal de uma menina que, como muitos outros meninos nasceu numa cama de palha, colchão de riscas largas aberto ao meio, para que de manhã as palhas fossem remexidas e ficassem uniformemente em toda a cama, partilhada por uns quantos meninos, uns deitados para a cabeceira, outros distribuídos com as cabecitas para o lado dos pés. Telhados que permitiam que se falasse com a lua e as estrelas logo que a torcida da candeia deitasse fumo, luz que rapidamente se apagava para poupar o azeite para as batatas.
...De manhã acordava cedo e corria para ver o sapatinho que tinha deixado na lareira. Um sapatinho cheio de prendas que o Menino Jesus distribuía durante a noite a todos os meninos.
Dois rebuçados, uns figos secos, umas nozes, uns tostões em anos de menor crise.
Sonhava com ele, com ele corria pelos telhados, deslocava uma telha e entrava descendo pelas varas do fumeiro, roupas cheias de fuligem, coração repleto de alegria, saquinhos cheios de mimos para todos os meninos.
Depois, na missa do Galo beijava aquele menino e a rever o sonho mágico olhava as vestes brancas do Menino e admirava-as com as rendas impecavelmente brancas, apesar da fuligem das cozinhas.
Os seus olhos vivos de centelha fizeram filmes mágicos durante uns anos, nesses Natais passados em família, tão puros, tão ricos,... no meio daqueles nadas mas que eram tudo; eram amor, alegria, solidariedade, magia de meninos...
Num Natal, a mãe atrasara-se por qualquer motivo e quando correu para a sapatinho viu-o vazio. Pela reacção da mãe, apercebeu-se de que não seria bem assim como lhe faziam crer e que haveria outra versão da história... Foi o último Natal de magia...
Nunca mais esqueceu aquele momento de atrapalhação da mãe.
Procura viver todos os dias esse mesmo espírito de Natal.

...sentada no silêncio

Quase, quase cansada,...
neste siléncio que reconforta,
quebrado pelos sons ténues dum violino imaginário.
Sento-me no peito doce desta solidão desejada e aqui, eu sou eu, sou tu, sou tudo, sou nada.
Desejo continuar a conversar com o vazio da sala onde dedilho, teclas que pertubam esta quietude mas que ao mesmo tempo me enfeitiçam;... este som que tantas vezes desejo, este som que desesperadamente procuro, este dedilhar que me evade em asas transparentes, quando em pontas de ballet, me solto.
Tudo dorme à minha volta, o vento recolheu-se na caverna, está cansado de tanto se agitar e as folhas amarelecidas do diospireiro, quase soltas, a agarrarem-se a pequenos nada para não caírem, finalmente sossegaram, com o vento preso.
Também as folhas estão a respirar o mesmo silêncio desta madrugada fria.
Escuta, encosta-te ao lado esquerdo do meu peito, ouve o bater leve, tão leve, passarinho a dormir no ninho, enroscado.
Ouviste silêncio, ouviste o bater do meu pobre coração?
Estou quase cansada... as minhas pálpebras vão-se fechando em pestanejos, espassadamente, para que os meus olhos se deleitem em horizontes longínquos, perdidos...
Silêncio, consegues sentir??!!
Os dois estamos cansados, eu e tu!!!...

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