Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

sábado, 19 de junho de 2010

Chega-te a nós, cidade!

Chega-te a mim cidade, tu que cravas na minha essência, golfadas de solidão.
Percorro-te em pisadas suaves como que a acariciar-te a calçada, mas indiferente, não dás por mim. Percorro-te e quanto mais avanço mais o peito me aperta, mais a multidão apressada me sufoca, mais me apresso também para não ser abalroada. Mas eis que um pé me falha, a perna perde o vigor e caio ao chão. Uma clareira se abre na minha direcção, estou de bruços, as lágrimas caiem-me face abaixo, quero erguer-me, levanto os olhos, vejo o céu azul acima dos telhados, uma nesga e vejo gente que foge, um jovem distraído pisa-me a mão. Gritei, mas o que é isto, que cidade é esta onde vivo, pois eu nem vivo e quiçá nem sobrevivo a tamanha solidão??!!
Arranjei força e ergui-me, sacudi o pó do vestido, com um lenço limpei as pernas manchadas de negro com o negro da cidade, cambaleante segui, no meio de gente igual a mim, solitária, cansada de ser gente que trabalha e nada tem, gente que quer trabalhar e nada tem, gente que já trabalhou e agora não e nada tem.
Mais à frente, debaixo das arcadas um sem abrigo areja a cama e fala com o cobertor sujo que lhe tapa as misérias dos dias, ajeita a camisa para parecer engomada e prepara-se para ir encontrar lugares de estacionamento para os carros que sabe que nunca terá, ganha uns euros para se picar, mas já nem sabe onde, está crivado, só lhe restam os testículos e sabe que um dia terá que ser, será nos testículos que irá picar para mais umas doses de alienação, quer chegar por umas horas a outra cidade onde veja estrelas, onde durma numa cama, onde tenha uma mesa cheia de iguarias, quer-se lambuzar com tudo, mas deste banquete só lhe resta uma ressaca, um papelão que lhe voa da cama, outro dia, mais lugares vazios para estacionar a puta da vida em que se meteu, quando, ainda moço e cheio de vigor se decidiu experimentar aquele pó adulterado misturado com limão, aquele dia não em que mais valia que não tivesse saído naquela noite, que lhe saiu a má sina, aquele pó que lhe lixa as veias, saído duma seringa onde partilha pobreza, desventura, doenças, solidão.
Olha para eles, cidade!...
Mais abaixo, uma mendiga de mão estendida pede esmola, tem ao colo uma criança, a outra está na barriga, numa barriga sem pão. Que história esconderão aqueles olhos de súplica, naquele corpo escanzelado, onde irá parir aquele filho, com que mão o segurará para continuar a ter uma mão estendida às misérias que lhe oferecem.
Olha para eles, cidade!
A multidão está a dispersar, seguindo diferentes rumos e, agora que estou só nesta esquina, já sinto menos solidão. A mendiga falou comigo, pediu-me esmola, ouvi uma voz que me era dirigida depois de longas horas, meti a mão na carteira, dei-lhe uma migalha de pão para o longo dia, para uma longa vida de mão estendida, para uma solidão no meio gente que corre e nunca chega a lugar nenhum.
Chega-te a nós, cidade!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Sem palavras para olhar o céu

Nem sequer tenho tido tempo para escrever o céu. Hoje olhei-o de relance e estava lindo. O fundo era azul aberto e as nuvens pareciam claras em castelo.
Tenho escrito mentalmente e, quando quero passar ao teclado surge sempre uma letra que emperra.
Quando a cabeça estiver desocupada sairá em catadupa, as palavras serão transportadas por um galgo que disputa uma corrida e lançadas contra o écran como cimento numa parede molhada. Ficarão firmes a olhar para quem passar aqui, neste mundo virtual.
Agora, as palavras estão exaustas, quero sacá-las mas não sou capaz de as demover do caminho que querem seguir. São tão teimosas as palavras, tão insolentes...
Neste momento fingem não me conhecer! É como se mais nada tivéssemos para partilhar.
Éramos confidentes, chegámos a ser muito mais que isso, chegámos a ser amantes. Agora, é como se não conhecessem o perfume do meu corpo, não recordassem o arrepio que me causavam na espinha quando me tocavam na ponta dos dedos que fosse... Bastava o toque nos dedos e eu tremia...
Partiram todas pela manhã, pé ante pé, para não me acordarem. Foi quando a porta rangeu um pouco mas como o tempo estava chuvoso e frio, pensei que era do vento que soprava. Nem uma carta, um bilhete que fosse à cabeceira ou em cima da mesa do pequeno almoço.

Nem um texto vos deixei, uma frase que fosse onde vos dissesse até logo ou até qualquer dia.
Nem tenho tido palavras para olhar o céu...
Os olhos viram-no lindo pela manhã, hoje, azul encastelado.
Vermelhão à hora de se ir...

sábado, 5 de junho de 2010

Talvez...

Se fosse no tempo em que as insónias me faziam criar, desejava-as em cada noite.
Agora, açoitam-me, lançam-me contra as paredes brancas do quarto onde não há linhas para poisarem os versos, projectam-me contra o tecto, inerte e, quando penso colori-las, repelem as tintas que lhes lanço da paleta em golfadas de desespero.
Porquê que tenho insónias?
Porquê que tenho tantas que já não há carneirinhos em número suficiente para contar?
Porquê que o registo do meu sono é marcado a vermelho, em algumas noites? Nem um segundo a azul, sempre no limite! Ao menos podia ser às bolinhas, todo a vermelho é desespero, é sangue em demasia.
Passa uma vida ociosa o aparelho que me regista o sono e me deveria permitir ter um sono mais reconfortante.
Zero registos, tudo contínuo, nem um gancho para cima, nem um sopro para baixo, tudo igual desde a uma até as sete ou oito da manhã. Porquê que não me deita da cama para fora, esse idiota preguiçoso. Se fosse profissional a sério, desejaria que o desligasse, que o mandasse executar outro trabalho, que mais não fosse, me contasse carneirinhos.
Sou eu que lhe ordeno, sim, a culpada sou eu, o meu corpo cansa-se, quer estar quieto.
Porque me queixo afinal?
Sempre insatisfeita: com as insónias, com as noites demasiado dormidas, com as telas brancas, com os versos incompletos, com as folhas cheias, com as folhas vazias, com as telas imperfeitas e com aquelas em que não lhes induzo um luar porque são excessivamente óbvias.
Porque desejo sempre criar se o acto de parir essa criação me causa tanta dor!?
Porque lanço sementes se a espera do germinar me cansa?...
Giro sobre mim mesma para construir o meu espaço, aquele onde me sinta confortável, cama de veludo, nem uma bolha que seja, como sendo o caracol em sua casa.
Giro, giro, esperneio os obstáculos, aspiro as bolhas de ar para me acomodar, para ver se mando embora as insónias.
Giro, giro, sempre a girar sobre mim própria e, por vezes sinto tonturas, outras vezes náuseas causadas pelas bolhas de ar que me comprimem a cabeça contra a carapaça...
Quando o meu corpo se ajustar ao espaço, ou o espaço ao meu corpo, sei lá,... hei-de senti-me fresca como se sente a ameijoa na concha quando, com a água salgada se abre, para beber essa frescura...
Talvez a ameijoa e o caracol nunca tenham tido insónias, vivendo na poesia do seu espaço.
Talvez me falte poesia, a poesia do espaço...

terça-feira, 1 de junho de 2010

A caminhar prossigo…

Tenho sede de tempo
Tenho fome de vida
Tenho o corpo sedento
Tenho a alma dorida.

Visto-me de sal
Do suor das searas
Enfeito-me com o toucado
Que o feno me empresta
Agarro-me às escarpas
Para não tombar ao abismo.
Troco o passo, vacilo.

Agarro-me às silvas
Agarro-me às tábuas
Salvo-me e respiro.

Tenho os pés calçados
Com os caminhos onde piso
Tenho a alma vestida
Com os frutos amargos.

Com as pontas dos dedos
Penteio os cabelos
Seguro as vaidades e
Passo a passo insisto.

Passo a passo resisto
A caminhar prossigo...

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Algarve- A 1ª Impressão

Ouve-se muitas vezes dizer, “não gosto do Algarve”. Eu própria já o disse nos finais da década de setenta, princípio dos anos oitenta.
Partimos os quatro, o meu marido, eu e os nossos dois filhos, o mais velho com quatro anos, o mais novo com dois. Partimos de Mirandela, seguindo para Lagos no outro extremo sul. Um Fiat 128 carregado com a tenda e toda a tralha necessário para o campismo e as vestes suficientes para um mês, panelas, aquelas coisas da cozinha para evitar comprar lá, porque o dinheiro era preciso esticá-lo para mal chegar.
O Ricardo tem que fazer praia por causa da rinite e da asma alérgica, dizia-nos o alergologista e, estas palavras custavam-nos uma pipa de massa. Tínhamos experimentado o norte mas era frio, muito frio, não só a água como também a noite dos parques. Havia sempre muita quantidade de roupa para lavar, porque os miúdos muito se sujavam e era mais do que natural com a terra leve e escura no meio dos pinheiros. Lembro-me, na Nazaré, ter ficado com um pulso aberto de tanta roupa lavar à mão.
Assim, decidimo-nos pelo Algarve durante o mês de Agosto. Inteirinho, de um a trinta e um sem tirar nem pôr. Saímos às dez da noite e chegámos a Lagos de manhã.
Não imaginávamos que o Algarve era tão concorrido e que no Algarve éramos tratados abaixo de cão. Assim foi connosco e o era, com quase todos os portugueses.
Tenda montada, cozinha edificada, avançado para as refeições, um fio para secar a roupa e lá estávamos nós preparados, para ficar no hotel /parque com pensão completa.
Quem fez campismo com crianças sabe perfeitamente que as compras dos víveres são diárias.
O Zé passava as manhãs nas filas para comprar o gelo para a mala térmica, peixe, legumes, pão, etc., etc… Chegava ao parque à hora de eu começar a fazer o almoço, sopa incluída, todos os dias. À tarde íamos para a praia, logo a seguir ao almoço porque nessa altura ainda não se sentiam os efeitos do buraco do ozono.
Houve um dia, pelo menos esse, em que fomos antes do almoço. Devo ter preparado qualquer coisa para meter na mala térmica para nós e para as crianças. Nunca mais me pude esquecer desse dia. Na praia ficámos vizinhos duns jovens casais do Porto, tal como nós com filhos e tal como nós, almoço na marmita. Comemos, conversamos, partilhámos os almoços sempre em amena cavaqueira. Chegou a hora do café e lá fomos ao bar/restaurante da praia. Seis cafés, pedimos ao balcão.
Só servimos cafés a quem almoça, respondeu-nos o empregado. Todos nortenhos naquele fim de mundo que afinal já não era o nosso país.
Educadamente procurámos contrapor que isso não fazia sentido e que não saímos dali sem tomarmos os cafés. Ele continuava na sua. Até que, um dos jovens do Porto com aquela pronúncia característica disse: Ou você nos serve os cafés ou bou ao carro buscar uma marriêta que lha fodo esta merda tuôda!...
O empregado, acagatado, foi falar com o patrão, e este disse-lhe que nos servisse os cafés.
Na verdade ninguém gosta de ser tratado assim e muito menos no seu próprio país. Jurei que nunca mais havia de por os boots no Algarve.
Não cumpri o juramento. Em Maio de oitenta e cinco fomos convidados para a festa de inauguração de uma casa de um casal amigo, fomos de autocarro fretado para o efeito, uma festa animadíssima. Lembro-me que o autocarro entrou em Armação de Pêra para vermos a praia e de pela primeira vez ter visto alfarrobeira, quando, na região de Silves perguneti ao meu marido o que era aquela árvore. Depois, fomos para casa deles sem que eu fizesse a mínima ideia onde se situava.
Apercebi-me à tarde, quando os quatro saímos para tomar um café e, olhando para trás num altinho, vi o mar. Que maravilha, pensei!...
Em Setembro, o casal emprestou-nos a casa para passarmos quinze dias de férias. Adorei, aliás adoramos todos, incluindo o meu pai que também estava connosco. Nunca mais deixámos de vir aqui. Sou uma transmontana que se sente aqui como se da minha terra se tratasse e, quando alguém me diz que não gosta do Algarve eu penso que já não haverá razão para não gostar, a não ser que estejam cá no mês de Agosto num daqueles sítios muito frequentados e horríveis com é por exemplo a Quarteira, Armação e muitos mais. Nós nunca passamos cá o mês de Agosto. Esse é para estar na aldeia, em Mirando do Douro.
Aqui continuamos a vir a este sítio pacato a quatro quilómetros da praia, sem confusões, sem barulho, uma paz quase semelhante à da minha Especiosa, onde da mesma forma ouço as cigarras, vejo o céu estrelado e acima de tudo contemplo o mar lindíssimo e me evado tantas vezes.
Ontem à tarde fizemos um giro pela Serra de Monchique, mesmo até a Fóia, a novecentos e vinte metros de altitude. Nunca lá tinha estado, tinha ido só até Monchique. É uma maravilha a paisagem que de lá se pode comtemplar!...
Depois irei escrever sobre isso. Adoro o Algarve.

sábado, 29 de maio de 2010

Surrealismo, ou nem tanto...

Prendem-se-me os versos agarrados aos dedos e não sobem com o vento.
Prendem-se as pernas agarradas aos dias e não sobem ao campanário.

Se eu tivesse desprendimento e não gostasse de usar anéis, rifava os dedos numa daquelas rifas de instituição de solidariedade em que se levam todos os trastes que não cabem nos armários das recordações. Os trastes dos meus dedos incluindo o indicador que nenhuma falta me faz que a minha mãezinha logo de pequenina me disso que é feio apontar. Até o mais pequenino ia, que agora há cotonetes para limpar a cera do ouvido. Mas ainda assim, anda por aí muita gente com os ouvidos entupidos...

Se eu tivesse pernas, ia daqui a Guimarães buscar outras mais leves, feitas das sobras da madeira dos cabos das facas, ou dos cornos que também há facas de cabo de corno, sem ofensa para ninguém, sim, porque as minhas facas ou antes as minhas pernas não são facas que cortem em seara alheia.

Pois é, já me baralhei
com facas e baldrocas,
com estas e muitas outras,
já me fizeram esquecer,
o que me trouxe aqui...

Os versos para subir ao campanário ou as pernas para subir com o vento? Ou seria antes, os versos para lançar ao vento e as pernas para subir ao campanário?
Será que o desnorte já chegou às pernas e aos versos?

Ah, pois foi!...
As letras que serviriam para fazer os versos, comeram-nas nas duas extremidades até chegar ao tutano.
Os versos? Nem um! Foram parar todos ao orçamento do livro e do livro, nem uma folha!

As pernas agarraram-se ao canastro do corpo e disseram:
Ah, pernas para que vos quero! Vamo-nos pirar daqui!... Com o que andam a tirar viramos cabos para facas!...

Arre que é demais! Não há maneira de meterem a faca no texto grande para deixarem os pobres versos em paz!

Estou cada vez mais baralhada!...

Vou voltar ao início porque, lembrei-me agora, o que eu queria era subir ao campanário a tocar os sinos a fogo que esta merda está a queimar-me os versos...
Ou serão as pernas que estão a arder?

Porquê que a palavra merda me fica sublinhada no texto, quando a escrevo?
Já sei,... o sublinhado reforça a ideia... O computador é esperto...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

...no meu firmamento

Numa noite de Verão
sentada no alpendre
fiz uma serenata à lua.
Enquanto a mirava
pousei a guitarra
e ela, indiscreta
deixou-se cair
para ver
que som era aquele
que tanto a encantava.

Pegou na guitarra
e eu peguei-lhe nos mares
e reparei que eram
camas macias
cobertas com as nuances
em tecidos de seda
flutuando com o vento.
Coberta com a brisa
ofereci-lhe guarida
no meu firmamento...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Solta a rédea


Caminhas de cabeça baixa
Desatando os nós de uma teia
Que a vida às vezes tece.

Para que perdes tempo a desatar
Se mais depressa é cortar!?

Corta tudo num repente
Com uma faca afiada
Corta rente!
Olha que o tempo
Não espera
Nunca por ti, para nada.

Acende a fogueira dentro
Com erva seca, que seja!
Corta os medos
Deixa que o vento
Te atice a tua fogueira.

Solta o grito
Que tens encarcerado
Solta a rédea do cavalo
Solta o cabelo para ir voando
E por esses montes fora
Galopa
Mas sempre saboreando...

Galopa...
Como o tempo!

terça-feira, 25 de maio de 2010

Secas...

Há nuvens negras a poente
Onde Vénus se deitou.
As flores estão cansadas
Do jardim
Dos aditivos
Dos cortes
Das fomes
E da primavera
Que não as amou.
Estão secas as flores...

Irreverentes versos

Vendi os meus versos
Ao desbarato
Numa feira em promoção.
Leiloei-os
Mas entreguei-os
Na primeira licitação.
Agora sinto pena
Paridos com tanta dor
Estão já cheios de bolor
Traça e pó
Para serem vendidos
Como antiguidade
E terem algum valor.
Mal sabe o feirante
Como eles são irreverentes...
Irão sacudir a poeira
E livrar-se do bolor
De novo as rimas farão
E a fugir gritarão
Adeus!
Vamos embora da feira!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Com os cabelos de oiro

Estava careca como nunca estivera antes, tão amarela como se fosse Outono.
Até lá, crescera como se respirasse trópicos com a voracidade de jovem a ondular a saia; de tanto desejar passou do limite, cresceu em volúpia, comeu terra alheia.
Crescia viçosa como se respirasse o Equador. Naquele crescer ultrapassou as regras, engrossou raízes, em pátios foi toupeira à procura de mais alimento.
Sem que alguma vez lhe tivesse passado pela ideia, foi-lhe cortada uma raíz da grossura de um ramo, aquela com que se aventurara a comer o que não lhe pertencia, aquela com que ao passar levantou o pavimento do pátio.
Floriu como nunca, dizia eu. Depois percebi que a quantidade das flores não aumentara o que tinha aumentado era a calvíce. Foi o declício, caiu-lhe o cabelo aos montes. Cada vez que a brisa lhe passava as mãos pelos cabelos era vê-lo a soltar-se, loiro cheio de pólen.
Um choque vitamínico foi-lhe prescrito para lhe salvar a vida.
Faz-me falta ali, ao sair da cozinha, para a ver logo que me levanto, verde, brilhante, bela. Com ela viajo para longe, respiro outros ares, deito-me em praias quentes e desertas. É por isso que a cada passo lhe ponho as vitaminas no prato para, a todo o custo a salvar.
Rebentos tenros começam a surgir, esperançados de que irão cobrir aquele tronco nú.
No diário que escreve, relativamente ao dia 7 de Outubro, lia-se. “ Hoje sofri o maior horror da minha vida e que me marcará para sempre; sofri uma mutilação atroz. Provavelmente sucumbirei a uma hemorragia ou a uma infecção e, no caso de sobreviver talvez não mais possa dar frutos.
Se não resistir ao golpe que me infringiram, levem ao menos as minhas cinzas para África, de onde nunca deveria ter saído, onde as minhas irmãs continuam a crescer livremente, sem que em cima das suas raízes lhes plantem pátios de cimento com um palmo de espessura.”
Quando acabei de ler, olhei para cima e reparei que havia já pequenos frutos de abacate a formarem-se e que as folhas começavam a encher-lhe as suas vaidades.
Talvez os frutos ainda se desprendam por tão fraca estar a mãe. Quem sabe...

Havia...

Havia uma ilha
Em teus olhos
Vegetação densa fresca
Areia dourada quente
Havia oceanos.
Os mares!
Os mares eram mãos
De carícias feitos
Postas no meu medo
Do naufrágio.
Na tua ilha
Havia um farol...

sábado, 22 de maio de 2010

E...assim ficámos

Envolvemo-nos,
eu e tu.
Eu gelada à procura de aconchego
tu quente, reluzente e audaz
envolveste-me para me aquecer.
Rolámos com loucura de apaixonados,
beijámo-nos com a sede
dos perdidos no deserto
e...
assim ficámos.
Despeitado,
lançou-se contra nós
a espumar de raiva,
sugou-nos com as suas ventosas
depois de ter arrancado tudo quanto
encontrava pelo caminho.
Até os búzios deixaram de emitir sons.
Subestimado,
feriu-me,
arrastou-me pelos cabelos
e a ti,
arrancou-te da cama quente.
Gelada,
perdi o fôlego e os sentidos
e os cabelos de tão pesados
obrigaram-me a ir ao fundo,
ao fundo
dos medos que eu julgava vencidos.
Gritou-me com o ódio do ciúme
e, com desprezo vomitou-me
emitindo um som medonho.
Foi aí que te encontrei
areia quente.
Abraçada a ti
perdi o medo, o frio,
recuperei os sentidos
e...
assim ficámos
envoltas em brisas.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Quero falar-te de silêncio




Hoje quero falar-te de silêncio,
deste silêncio do ventre
das madrugadas primaveris,
dos aromas dos jardins,
do cântico dos rouxinóis.
Quero falar-te do silêncio
que por vezes sinto
mesmo no meio de multidões.
Sabes?
Enquanto viajava na cidade,
ontem pintei o silêncio,
colorido,
pinceladas livres.
Eu diria que era incapaz
de pintar o silêncio!
Mas pintei-o!...
Pintei-o
numa carruagem cheia de gente
e eu,...
que não vi gente nenhuma.
Em silêncio parti para outro lugar;
saí num apeadeiro,
acompanhada de pincéis e uma tela.
Foi aí que pintei um silêncio,
e,
embora debaixo do solo,
foi pintado com a luz do sol.
Num percurso sem paragens
segui pintando, pintando...
Depois,
um chiar de travões
devolveu-me ao mundo
e li o nome da estação de Metro.
Estava já longe,
como no sonho
seguira...
Inverti o sentido da caminhada
entre a multidão apressada.
O sonho partiu, e eu parti
de regresso a casa.
Depois,
peguei nos pincéis
e pintei-o aqui...
no silêncio da madrugada.

sábado, 15 de maio de 2010

Os Nús em Mirandela

Uma bomba caiu sobre Mirandela... Mais uma bomba sobre o recato daquela gente que pensa que é mais digna que os outros só porque não posaram para a Playboy ou não pintaram nús artísticos. Mais uns nús a dar que fazer a mais uma vereadora, falsa moralista...
Faço ideia de como se babaram a ver aquele corpo escultural, sim, babados os homens...
Que se preparem as legítimas que terão pela certa ceia redobrada por causa das fotos que lhes serviram de motor de arranque aos respectivos...
E as mulheres? Os professores têm que dar o exemplo de boa conduta, dizem. Mas será que essas senhoras armadas em moralistas serão mais dignas que a professora que posou para a revista em poses artísticas. Não será por inveja por não terem um corpinho escultural?
Santa ignorância!
Essa gente não sabe nem sequer imagina o que é arte. Foi essa mesma Câmara através duma vereadora da cultura que também, a pretexto de serem de nús me retirou dois quadros duma exposição.
O senhor Presidente da Câmara já deveria ter aprendido que o nú artístico é artístico e pronto, está tudo dito...
Pelos vistos, pelo facto de não se ter candidatado a vereadora a senhora que me censurou os meus quadros a equipa não é mais vanguardista.
Dizia ele referindo-se àquela vereadora num jornal: A vereadora fulana de tal agiu assim porque é uma pessoa com ideias muito retrógradas. Ó senhor presidente!!! O senhor afinal continua também a ser retrógrado ou então não manda nada... Quem é que tem calças na Câmara de Mirandela???!!!
Sabe o que lhe diria se a encontrasse, a si professora que ousou despir-se: dê a cara, apareça a defender-se porque na verdade não tem de que se envergonhar, o corpo é seu e por sinal bem bonito e é livre de fazer isso e muito mais desde que não seja no âmbito das suas funções docentes. Por acaso as fotos saíram nos livros de ponto dos alunos? Aproveite essa breve fama e olhe, vá em frente e veja se consegue enveredar por outro caminho que esse seu futuro de professora de complemento curricular com contrato feito pela Câmara não lhe vai dar estabilidade, vai continuar contratada e o que ganha nem lhe dá para comprar uma tanga erótica para fazer outra sessão de fotos e quando se der de conta está um canastrão.
Aproveite os cinco minutos de fama e os euros que lhe puseram à sua disposição e dê um salto bem alto e mande-os para a... que os pariu, cambada de moralistas bacocos e ignorantes castradores.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Quando eu partir



Quando eu partir
apaga as pegadas
que deixei na lama,
acende a fogueira
e queima a cama
onde dormi.
Que importa o cheiro
que nos lençóis ficou,
que importa o ar que sobrou,
que importam
os rabiscos desenhados,
os poemas pintados,
os sonhos despedaçados,
os ais desperdiçados.
Quando eu partir
não me vás chorar
porque as lágrimas
já não molham os meus mares
e os beijos
já não beijam as minhas brisas.
Quando eu partir
lembra os meus olhos
quando ainda te sorriam...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Divagações sobre a crise

Tudo começou com a grande crise financeira americana, essa descalabro financeiro que as agências de rating não preveniram por falta de uma análise criteriosa e atempada e que com ele arrastou outros Estados, nomeadamente da Europa, mas não só, devido aos negócios financeiros em cascata.
Essas mesmas agências de rating, que nada fizeram para prevenir a crise na América, ( são todas americanas) vêm agora dizer, e, segundo consta, com estudos feitos em cima do joelho, que Portugal e Espanha estariam com o risco igual ao da Grécia, de incobrabilidade das dívidas, quer a nível público, quer privado.
Com esta notícia o euro desceu, o dólar subiu, o que aliás interessa aos EUA, que com tudo isto o dólar saia fortalecido e, se possível o euro deixe de existir. Assim o dólar poderia voltar a ser como quase sempre foi, a moeda que ditou regras nos mercados financeiros e comerciais.
Porquê que não há agências de rating europeias? Claro que traz água no bico, só pode trazer, mas agora vou divagar por outro caminho.
A Europa arrepiou-se, os estados mais ricos, nomeadamente a Alemanha pela voz de Angela Merkel torceram o nariz à necessidade da constituir o fundo de coesão para ajudarem os Estados em dificuldades. Depois houve acordo, a União é isso mesmo.

Em parte, eu pessoalmente compreendo a Alemanha e o seu povo que se levantou dos escombros das guerras e da vergonha, sozinho, tudo devido ao seu modo de ser metódico, contido, lutador.
Os nossos eurocépticos já esfregavam as mãos perante a iminência de o euro deixar de existir, como se nós, país pequeno e encostado ao mar que pouco nos dá, pudéssemos sobreviver orgulhosamente sós…
Está na hora de arregaçarmos as mangas para sair da crise e, saindo vitoriosa a Europa, como se espera, ela sairá reforçada. Há crises que em bem chegam, para que se acorde e olhe para o porquê das coisas e, para futuramente não se repetirem os mesmos erros.
Houve já o compromisso por parte dos três Estados da adopção de medidas apertadas com vista à diminuição drástica do défice até ao fim de 2011.
No caso de Portugal a Comissão Europeia exigiu a aplicação de medidas, muito para além das que constavam do PEC.
José Sócrates reuniu com Pedro Passos Coelho que acordaram num plano para aumento de receitas.
Claro está, que no meio disto tudo quem tem que mais sofrer é o mexilhão, aqueles que sempre pagaram os impostos.
Assim, a meta é a descida do défice em 2010, para 7,3% e em 2011, para 4,6% à custa do aumento de receita.
Aumento de um ponto percentual em cada uma das taxas do IVA; uma taxa extraordinária de 2,5% sobre as empresas com um lucro tributável de IRC de ou superior a dois milhões de euros; uma redução de 5% dos salários dos políticos, gestores públicos e afins; uma taxa extraordinária de 1% para os funcionários públicos com ordenados até 2 375 euros, ou 1,5% se superiores.
A tributação das mais valias dadas pela diferença entre as mais e as menos valias com um reporte das menos valias de três anos, tenho as minhas dúvidas que vá avante, como aliás noutras situações sucedeu. Espero que desta vez sejam tributadas, caso contrário, a equidade fiscal que deveria existir ainda fica mais beliscada.
Agora, no meio disto tudo quem é que mais vai sofrer? Quem já agora, mais aperta o cinto…
Os políticos e afins podem perfeitamente com o arrombo, mas os outros?
Os bens todos mais caros, a redução nos ordenados, e , não tendo como possam fugir a este destino, são entrincheirados por causa de faltas que não cometeram. Sim, porque uma parte do défice deve-se à cobertura por parte do Estado das falcatruas de banqueiros irresponsáveis e vigaristas, valores de obras públicas que sempre derrapam, comissões, etc. etc. etc…
Quanto às empresas com lucros tributáveis de pelo menos três milhões hão-de fazer de tal modo engenharia fiscal e contabilidade criativa que não só vão pagar menos IRC por ficarem aquém daquele valor, como consequentemente não pagarão o imposto extraordinário.

Porquê que não aplicam uma taxa mais elevada aos lucros da banca? Porque se iria repercutir nos utilizadores dos serviços bancários, dizem. E então o aumento do IVA não vai repercutir-se nos preços dos bens e serviços?
Porquê que não diminuem despesas de investimento e mesmo correntes?
Porquê que a frota de automóveis dos detentores de cargos públicos em vez de ser de alta cilindrada e muitas vezes gama alta, não é um carro utilitário? Em vez de ser trocados de quatro em quatro anos que é normalmente o período de duração do contrato de leasing porquê que não se opta pela compra em vez de fazer outro contrato para novos veículos de modo a que durassem o mesmo tempo que duram os carros das pessoas normais que não vivem de aparências?
Há muito onde se possa poupar na despesa de modo a evitar entrar-se até ao fundo dos bolsos dos que já por si são sempre cumpridores em matéria fiscal.
Os faltosos crónicos serão perpetuados haja ou não crise.
Quem se trama?!!!...
Que seja ao menos para não irmos todos ao fundo do poço…




terça-feira, 11 de maio de 2010

O sonho escreverei

Sento-me na fralda dum poema
Feito serra, feito monte.
Chega ao céu, esse poema
Acima de nuvens e estrelas
Muito além do horizonte.

Apanhem-mo! Não lhe chego...
Quero ver quem o assinou
Que fazendo assim um poema
Na terra ele não cabia
E até ao céu ele chegou.

Para quê tão alto querer
Se subir não sou capaz!
Com os meus dedos trémulos
Do gelo que há no mundo
Só quero escrever um poema
De justiça, amor e paz.

Sento-me na fralda dum sonho
E pelo sonho subirei...
Poema mais alto que monte
Mais íngreme que é a serra
Porque o sonho escreverei...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Porquê rouxinol?!

Partiste sem ao menos me deixares o endereço.
Fiquei só, entregue ao o meu sonambulismo das madrugadas infinitas, sem companhia no jardim quando por lá ando.
Sinto-me desamparada, quando sem a tua presença deambulo, fintando a noite, enfrentando o escuro, escondendo nos bolsos os medos.
Acaso pensas que não tenho medos!?
Sentem-se surdos os meus ouvidos sem a melodia a que durante tanto tempo me habituaste.
Porque partiram os rouxinóis das árvores da vizinhança e que eu ouvia cantar à desgarrada?
Porque me deixastes rouxinóis, precisamente agora que preparei a terra onde há-de crescer um manto verde e tratei das roseiras. E as rosas, aquelas que agora floriram, nem as rosas vos prenderam!?
E tu rouxinol triste, tu que vivias nas traseiras do meu quintal em cima da gigantesca ameixeira, que cantavas dia e noite, umas vezes com uma profunda tristeza para logo a seguir apagares as minhas dores com o teu alegre canto!?
Porque me deixaste rouxinol!?

domingo, 2 de maio de 2010

Eu pari um filho


Eu pari um filho
Num Maio qualquer
Num qualquer dia
Neste país
Que eu nem conhecia!

Eu pari um filho
E nem pude gritar
Porque ainda mal parido
Eu fui trabalhar...

Eu pari um filho
E ninguém sabia
Que esse filho
Tinha que mamar...

Eu pari um filho
E esse filho mamava
A teta saída
De uma seara...

Escaldava o leite
O pouco que dava
E ninguém sabia
O que o filho mamava.

Até que houve um Maio
Em que pude gritar
O que ao parir
Tive que calar...

Gritei de vitória
Gritei alegremente
Eu pari um filho
Um filho que é gente!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

E, fui bebendo

Inspirei fundo, uma, duas vezes,
sei lá eu as que seriam
com a avidez de quem tudo quer respirar,
sem que uma molécula de oxigénio sobre
da doçura do aroma...
Tília florida no mês de Junho,
respirei-te o corpo e os cabelos,
as folhas, o tronco,
suguei-te o néctar doce das flores.
Bebi-te em chá no Inverno, a escaldar,
adoçado com mel,
na penumbra da lareira acesa,
produzindo uma batalha de centelhas...
Respirei fundo, uma, duas vezes,
sei lá quantas;
sustive e,
fui bebendo...

terça-feira, 27 de abril de 2010

Nos meus olhos...


Faz florir flores nos meus olhos
Faz-mas espreitar na lapela
Nos cabelos quero aos molhos
Com flores sinto-me mais bela

Quero as do campo floridas
Gosto delas, são singelas
Grinaldas de margaridas
Colares das mais amarelas

Criadas no teu jardim
Nos meus olhos, qualquer flor
Rosas,cravos ejasmim
Atadas com teu amor

Passo a passo

Passo a passo te caminho
Passo a passo sigo em frente
Passo a passo me demoro
Num passo que eu aguente

Passo a passo...
Passo a passo vou andando
Com os meus passos já débeis
Em dias que me vão voando

Passo a passo assaz pesado
O longe se fez à porta
Neste camino não andado
Onde a cozinha é a horta

Passo a passo, um passo dado
E dizê-lo não resisto
Com o passo tão apressado
Como é que cheguei a isto!?

Chegaste e chegou o tempo
De lá em direcção a cá
Mas se aqui já tu chegaste
É porque o tempo, passos te dá...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Perfumes da madrugada


Nem sabes quanto te adoro Primavera, quando na madrugada te recebo no jardim orvalhado.
Chega-me a luz do candeeiro lá de fora, misturada com uma luz difusa da aurora, ténue, muito discreta, quase noite.
Caminho pelos passeios sonâmbula, daquele acordar fora de horas. Vou seguindo perfumes, reconhecendo tudo como se fosse um cego e tudo fosse tateando: Esta é a roseira de rosas vermelhas, aquela a de cor do chá, a outra ali é grená e a outra à frente cor de coral.Mal distingo as cores a esta hora.
Aproximo-me da laranjeira com suas flores de cera, cândidas, perfume doce intenso quando misturado com o jasmim de flores brancas e frágeis que por ela trepou.
Sigo os goivos e quase que me estonteio com perfume exagerado de tão intenso à noite.
As glicínias já perderam as flores e delas brotam ramos verdes, dançando com a brisa, como se fossem esmeraldas no peito de bailarina.
Tude dorme: as abelhas deram descanso às flores e, o despertador dos pardais ainda não tocou, àquela hora precisa. São eles que dão o arranque ao ruído do dia.
Onde será que dormem as abelhas? Será que têm uma colmeia por perto? Os pardais são vizinhos ali na árvore de maior copa, em frente.
Tudo dorme excepto nós, eu e os rouxinois. Eu aos ziguezagues sonambula, eles, despertos. Às vezes penso que os rouxinois não dormem; oiço-os todo o dia e, de noite quando me deito e quando acordo, mantem-se a melodia.
São três ou quatro, repartindo os sons pelo espaço, uns aqui ao lado numa árvore, outros mais distantes. Respondem aos cantares sem sobreporem as vozes como se estivessem a cantar à desgarrada.
Sento-me num banco, a cadela observa-me e mantem-se em silêncio. Junto dela sinto mais segurança nas madrugadas em que deambulo pelo jardim, quando, depois de poucas horas de descanso, acordo sempre à mesma hora, tal e qual como os pardais.
Ouço, atenta a todos os sons como se estivesse a ouvir uma orquestra filarmónica com uma infinidade de instrumentos cada um com o seu som característico.
Assim são os rouxinois, uma orquestra com vários instrumentos, uns com sons tristes, outros alegres.
Ali estou, enroscada no roupão suave de veludo. É sempre fresca a madrugada em Sintra.
Antes do dia clarear vou-me deitar, talvez o sono regresse e, em sonhos continue a ouvir os rouxinois...

Em mim imerso...

Porquê que no meu peito
se formam reservas de água,
ribeiros deslizantes face abaixo,
jorros quase a sufocar-me!!???
Ah como eu queria ser mais forte,
como eu queria
que o mar que vive em mim
se evaporasse,
se transformasse em núvens brancas,
castelos em formas diversas
para delícia das crianças,
de olhar livre,
mente ocupada
construindo histórias
a partir de nada.
Ah, eu queria ser mais liberta,
e porque não criança
para com ela subir às núvens
mesmo que não de verdade!
Mar, mar!...
Mar que em mim imerges,
e me inundas até ao topo...
Ah oceano verde,
onde em sonhos navego,
envolvido nas tuas ondas,
leva contigo o meu mar...

domingo, 25 de abril de 2010

A MULHER E A POESIA- Alfonsina Storni

Frente ao mar



Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, apodrece em tuas ondas, prisioneiro.

Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
“Piedade, piedade para o que mais ofenda”.

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.

Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria…
Ah, eu sonhava ser como tu és.

Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.

Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!… Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!

Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança…
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.

Frente Al Mar
Alfonsina Storni


Oh mar, enorme mar, corazón fiero
De ritmo desigual, corazón malo,
Yo soy más blanda que ese pobre palo
Que se pudre en tus ondas prisionero.

Oh mar, dame tu cólera tremenda,
Yo me pasé la vida perdonando,
Porque entendía, mar, yo me fui dando:
«Piedad, piedad para el que más ofenda».

Vulgaridad, vulgaridad me acosa.
Ah, me han comprado la ciudad y el hombre.
Hazme tener tu cólera sin nombre:
Ya me fatiga esta misión de rosa.

¿Ves al vulgar? Ese vulgar me apena,
Me falta el aire y donde falta quedo,
Quisiera no entender, pero no puedo:
Es la vulgaridad que me envenena.

Me empobrecí porque entender abruma,
Me empobrecí porque entender sofoca,
¡Bendecida la fuerza de la roca!
Yo tengo el corazón como la espuma.

Mar, yo soñaba ser como tú eres,
Allá en las tardes que la vida mía
Bajo las horas cálidas se abría…
Ah, yo soñaba ser como tú eres.

Mírame aquí, pequeña, miserable,
Todo dolor me vence, todo sueño;
Mar, dame, dame el inefable empeño
De tornarme soberbia, inalcanzable.

Dame tu sal, tu yodo, tu fiereza.
¡Aire de mar!… ¡Oh, tempestad! ¡Oh enojo!
Desdichada de mí, soy un abrojo,
Y muero, mar, sucumbo en mi pobreza.

Y el alma mía es como el mar, es eso,
Ah, la ciudad la pudre y la equivoca;
Pequeña vida que dolor provoca,
¡Que pueda libertarme de su peso!

Vuele mi empeño, mi esperanza vuele…
La vida mía debió ser horrible,
Debió ser una arteria incontenible
Y apenas es cicatriz que siempre duele.

Ainda sinto...

Ainda sinto...

Ainda sinto o frio
Da pobreza descalça na rua
Ainda sinto o calafrio
Daquela violência crua.

Ainda sinto o isolamento
A ignorância como bandeira
Porque o povo na ignorância
Sente a mentira verdadeira.

Ainda sinto a fome
Do pão guardado no saco
Duro que hoje ninguém come
Sem que o guarde em embaraço.

Ainda sinto as opressões
E as dores das correadas
Assim eram as educações
Sobre pessoas caladas.

Sinto no corpo um tremor
Não de frio mas de espanto
Que se esqueça um ditador
Dum povo que sofreu tanto!



Viva o 25 de Abril sempre!
Viva a força e a inteligência que o renove!

...Amortalhei-me

Não quero mais escrever!

Enrolo um grito mal parido
num poema que não devia nascer
que me há-de servir de mortalha.
Corro no fio da navalha
quase a cair para o abismo.
Deitada à pressa reparo
que, esvaída em sangue
tinha parido um poema gerado
numa relação desprotegida.
Indesejado poema,
porque te dei vida?!
Envergonhei-me
e com esse poema malfadado
depois de amarrotado
amortalhei-me...

Não quero escrever mais poemas,
hoje!!!!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Mesmo que já seja Setembro


Entra-me a Primavera pela janela
vinda do jardim pintado de verdura,
flores de glicínias, goivos, jasmim e laranjeira,
cultivadas a primor,
regadas com a chuva;
mistura de cheiros,
uns à noite mais intensos,
outros de dia.
Por eles sou levada em sonhos
para jardins longínquos,
quiçá da Babilónia
onde te encontrei
e te perdi.

Queria falar-te da Primavera,
doce, a deslizar nos peitos
com cheiro a pão quente e maresia;
e das juras de amor
dos rouxinóis
que na árvore cantam
e se beijam
prosseguindo sempre a melodia.

Queria falar-te da Primavera
que vi nascer nos olhos da gaivota
e nos corais
que abrigam peixes
como tu tímidos
quando,
naquele dia ao mirar o Oceano
eu pensei no oceano dos teus olhos.

Queria falar-te da Primavera
que um dia me nasceu em Abril
e me fez livre;
da canção
poema a cheirar a cravos
a crescer num jardim de terra e húmus;
dos sonhos que me nasceram
e rego
todos os dias.

Queria falar-te da Primavera
sugada em cada morango,
em cada nuvem encastelada
e da ânsia de a não perder
com o sentir de beija-flor
a sugar o néctar
duma flor perfumada.

Queria falar-te de Primavera
mesmo que já seja Setembro...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Mesmo o difícil de roer

Como a carne
Arrebanho o osso.
Mesmo o difícil de roer
Me satisfaz.
Como a fruta que me apraz
Largo os caroços
Menos o último
Que fica na boca a girar
E gosto
Daquele mexer de língua
A lamber, o caroço.
É como o palito, dá status...
Mas dos sapatos não gosto
Das botas é bom nem falar...
Bebo água, às vezes vinho
Às vezes embucho e,
Algumas há que engulo
Em seco e sem discurso.
Pego no osso com a mão
Aquele duro de roer
Porque mais dura é a razão
Que eu nunca quero perder...

...em mim!

Hoje procurei-me em todo o lado
e não me encontrei em nenhum lugar.
Procurei-me nos campos de trigo
da infância fugidia
sob o canto medorrento das cigarras
a morrer de sono na solidão dum ermo...
Da menina nem brincares me chegam!
Procuro-me na água de oceanos
de rios, riachos e fontes
nos cabelos soltos ao vento
nos lábios doces rosados.
Da jovem nem risadas me chegam!
Procuro-me na vida à pressa
nos partos em esperenças e em dor
nos rebentos que brotaram
e nos frutos do amor.
Da mulher nem ais me chegam!
Depois interrompo
por segundos o caminho
e em caminhada breve
me bastou o tempo
de um pertanejar
para depressa encontrar
a criança, a jovem e a mulher
numa só, dentro de mim!...

Hei-de...

Hei-de voltar
mesmo que no caminho me perca!...

Hei-de voltar à rocha lisa
onde rasguei roupas, gastei pés
livres como flores a florir Abril.
Mesmo que não te encontre,
rocha lisa do meu sonhar
hei-de escorregar por ti abaixo
e a custo voltarei a trepar.
Hei-de voltar...
Hei-de subir inocente
a resvalar-te a preceito
hei-de abraçar-te mulher
com a criança no peito.

Hei-de voltar
mesmo que no caminho me canse!...

Amigo

Podia falar-te de madrugadas que me escaparam debaixo dos pés como se o chão fosse de casca de banana e me tivesse estatelado.
Podia-te falar das guerras travadas entre os cantares constantes de grilhos e cigarras e que me ensurdeciam a infância solitária no fundo dum vale cravado de medos.
Podia falar-te das guerras que então não conhecia com o significado de guerras que hoje sei...
Só conhecia as guerras da História e, de tão distantes no tempo, para mim eram guerras de brincadeira, luta corpo a corpo como quando eu jogava à luta com as crianças da minha idade. O que ficasse por baixo e de lá náo conseguisse sair, perdia a luta.
Ao ler o livro de História, elegia o meu heroi, espicaçava-o para que vencesse. Com o decorrer da leitura às vezes o heroi era derrotado e, com essa derrota, eu sentia-me destroçada.
Depois passava para outra guerra e era mais uma desilusão ou mais uma glória, mas, fosse qual fosse o vencedor, não corria sangue nas minhas guerras.
Como eram inócuas as minhas guerras!...
Podia-te falar das guerras da minha alma na adolescência e dos tratados de paz que mais tarde assinei e das juras de desarmamento.
Podia falar-te das guerras que hoje avassalam o mundo sem que se compreendam as causas, se é que alguma vez se podem compreender as causas das guerras. Estas sim, são guerras cruéis, matando quem cálha, mesmo que esse alguém deteste a guerra e nela não estivesse a participar.
Sim, podia falar-te delas, destas guerras que já não são corpo a corpo, podia, mas não quero pelo muito que me doi!...
Ah, se eu pudesse assinar tratados de paz e obrigar a juras de desarmamento!
Desarmava a humanidade!...

sábado, 17 de abril de 2010

E, serei Primavera...

Entra-me em casa o perfume do jasmim
A trepar a laranjeira em flores alvas
Entra-me em casa o perfume das glicínias
Que cobrem o muro junto às malvas.
Entra-me a Primavera na alma
Através dum raio de sol que se esgueira
Por entre as nuvens que teimam em ficar
E lançam chuva, pingam goteiras.
Quero lavar-me nessa chuva de Abril
Borrascos caídos à pressa, águas mil
E perfumar-me com os odores
Que se misturam de mil flores
E, delicadamente me invadem o ar.
Áh Primavera, hei-de guardar-te
A sete chaves dentro do meu peito!
Ah odores frescos da minha quimera
Fazei-me sentir sempre Primavera!
Há-de chegar o Inverno frio e branco
Onde deitarei os ossos a doer pranto
E naquela insanidade e quimera
Hei-de sentar-me abeirada do meu berço
E serei Primavera...
No meu peito...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Das quatro Estações

Hei-de escrever enquanto é tempo
Daquela Primavera que tão cedo me fugiu
Entre sonhos e labutas
Pés descalços a brincar
Até o toque das Trindades
Refrescando os suores serôdeos.
Quero escrever mas é tanto o que não lembro!
Hei-de escrever na corrida dos minutos
Dum Verão passado em sobressaltos
A lutar contra a fuga dos segundo
Perseguindo sonhos
Recebendo sorrisos
Espalhando saberes aos quatro ventos
E recebendo-os de todos, um a um.
Quero escrever mas é tanto o que não posso!
Hei-de escrever a pacatez dos dias
Deste Outono de folhas ocres
Neve nos cabelos camuflados de carvalhos
Ao cair das folhas rubras
Num frio que às vezes me arrepia
Quero escrever tanto...
Enquanto tiver o tempo...
Quero escrever mas é tanto o que me falta!
E quando chegar o Inverno dos nevões
E olhar para trás com nostalgia
Eu quero escrever com alegria
Das quatro Estações...

ECOS ( I )

(Nada me ficou escrito nem gravado. Sabe Deus o quanto me penalizo!
Um sopro levou-te a meio duma história, das muitas histórias vividas no Sudão, uma sessão duma tarde, a última tarde.
Apenas ecos na minha fraca memória...
Em espírito, envolvo-me contigo nas tuas história reais, poucas, das muitas que contaste…Perdoa-me pelo muito que esqueci.)



Vagueio no silêncio dos meus sonhos, alma errante, por entre os teus mistérios que desperdicei com inutilidades.
Caminho descalça por trilhos de terra vermelha poeirenta que me pinta e me enche de paz.
Ousada, penetro nas matas densas onde a luz me chega filtrada e se projecta nos escassos espaços livres dum chão de capim, pontinhos luminosos que me guiam por túneis que tenho que abrir, cortando os ramos e a vegetação densa com a catana. Estou numa floresta equatorial onde nunca antes estivera mas que aprendi a conhecer pelas histórias que me contavas e pelas fotografias. Insegura, continuo caminhando, tão lentamente que cada som me parece uma eternidade. Não posso voltar para trás, seria fraqueza, irias ficar decepcionado com a minha prova iniciática na floresta do Equador, na República Centro Africana onde os elefantes são mais esguios e têm os dentes mais compridos e menos arqueados para poderem penetrar mais facilmente na floresta quase impenetrável. Também os pigmeus são habitantes dessa região, de estatura pequeníssima, adequada a essa floresta.
Uma ave grande assustada esvoaça; de susto o meu coração esvoaça também. Depois, uma clareira, um trilho seguido por um elefante que tudo demoliu com os dentes fortes para arranjar caminho onde coubesse aquele corpo gigantesco, fezes ainda a fumegar. Senti medo, muito medo. A minha espingarda era de munições pequenas, balas que nem chegariam para fazer cócegas ao animal.
Porque não me deste uma espingarda das tuas com munições capazes de abrir crateras??!! Disseste-me: É muito pesada para ti!... Porquê, se tu sabias que eu tinha força!?
Prossegui, não podia desiludir-te mas ao mesmo tempo estava chateada contigo por me teres abandonado.
Sempre foste escudo forte daqueles que te entregavam para orientar e proteger e, a mim, que afinal sempre me consideraste o teu tesouro, deixaste o teu tesouro entregue a todos os perigos daquela floresta equatorial.
Uma mamba verde injectou-me o veneno no corpo com uma picada. Estava quase morta com o veneno espalhado pelo sangue. Depois, apareceste com uma malinha de pronto socorro onde tinhas o antídoto que me injectaste sem que também tu tivesses tido tempo para desinfectar o orifício deixado pela seringa.
Choraste amargamente por não teres podido salvar. O veneno já me tinha feito um dano irreversível e o sistema nervoso central estava destruído. Morri.

Demos as mãos e partimos, vagueando por aquele paraíso que nos juntou. Deixámos a floresta equatorial e fomos para baixo, para a zona tropical, onde eu já tinha andado e onde me avivarás a memória das histórias que o tempo me esbateu.
Subimos á Serra da Gorongosa onde tu um dia encontraste fósseis de conchas enormes e ajudaste-me a procurar. Tu conhecias a minha inaptidão para encontrar achados, mas ainda assim, encontrei alguns fósseis.
Dizias tu: Vê lá que o mar já esteve aqui nesta serra! Sim, porque as conchas não são restos de piqueniques que possa ter havido aqui, são enormes e, para estarem fossilizadas, têm seguramente milhares de anos. Sempre foste curioso e muito observador, dizias que gostavas de ter estudado arqueologia.Quem me dera ter o teu sentido de observação, nisso não me saí a ti.
Andámos a percorrer os tandos de Manica e Sofala, entre manadas de búfalos e impalas saltitantes. Vimos leões e elefantes e ouvimos o canto de variados pássaros. Depois, errantes, subimos até o Zambeze onde fomos caçar crocodilos com um barco pequeno e, sendo noite, cada um de nós trazia um foco a pilhas na testa, seguro por uma correia à volta da cabeça. Enormes, com as bocas abertas mostrando os dentes sujos com restos de carne podre onde as bactérias saltavam e quase que podiam ser vistas a olho nú. Senti medo mesmo estando ao pé de ti...
Lembrei aquele episódio que me contaste em que um deles fechou as fortes mandíbulas no teu pulso quando caçavas nos isolados pântanos povoados de papiros e que só passados uns dias conseguiste de lá sair e percorrer depois os quatrocentos quilómetros de picadas e terra batida até chegar à cidade a conduzir o jeep só com um braço, carregado de febre e dores e que quase por milagre não te amputaram o braço. Ainda te estou a ver a cicatriz e ainda estou a imaginar a carne esponjosa amarelecida do braço até ao ombro. Mais umas horas e teria que te amputar o braço, disse-te o doutor Buller, teu amigo, quando chegaste à clínica de que era proprietário.
Ao imaginar esse episódio da tua vida, uma das muitas histórias que me contaste e contaste a todas as crianças com quem conviveste, os teus netos incluídos até sinto arrepios.
Sabes? Dizem-me todos quando me encontram que tu foste a pessoa mais importante no imaginário das suas meninices.
Tive medo quando o gigante com oito metros abriu a boca enorme e mordeu o barco. Pensei que iríamos naufragar e depois acabaríamos engolidos por um daqueles bichos horrendos.
Deste-lhe um tiro certeiro no centro do crânio e morreu de imediato. Depois, ataste-lhe uma corda por entre os dentes, enrolada no pescoço, ligaste o motor do barco e puxaste-o para a margem. A esse, outros se seguiram.
Deste-me a cama articulada de ferro e lona, a vinte centímetros de altura do chão, montaste um mosquiteiro por cima de mim e tu deitaste-te sobre o capim, exposto a todos os perigos e às picadas dos mosquitos.
Estávamos algures, junto à margem do Zambeze, entre Caia e Marromeu sem qualquer meio de comunicar que nos ligasse ao resto do mundo que não fosse o jeep.
Dormimos com o céu a servir-nos de tecto, a cacimba a cobrir-nos o corpo, os sons infindáveis da noite a embalar-nos o sono, as aventuras a espicaçar-nos os sonhos.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Se eu te pudesse amar

Se eu te pudesse amar
Com as dores de que padeço
Sem tino
Sem medida
Sem medo do que tu escondes
Meu mar.

Se eu te pudesse amar
Com o frio que me corre nas veias
De fogo as encheria
Para ver se no corpo corria
O sangue para em ti nadar.

Se eu te pudesse amar
Com o tempo que não tenho
Num relógio sem ponteiros
Esse tempo contaria
Para em ti navegar.

Se eu te pudesse amar
Na cama fresca que estendes
Escrevia-te poemas
Para depois tos declamar.

Porquê que eu te digo isto
Se eu te amo, mar?!

terça-feira, 30 de março de 2010

ADEUS- de Eugénio de Andrade

De um excelente poeta, um poema soberbo!...
Aqui o deixo porque adoro e, de tanto gostar, me arrepia.



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Porquê

Porquê?
Porque insisto em procurar
Aquilo que sei perdido
Porquê que teimo em lembrar
Aquilo que já foi esquecido.

Sento-me á beira da estrada
Quase a cair para a berma
Nesta busca de desespero
Que nem eu própria sei se quero
Sem travão que me detenha.

Procuro no fundo de mim
Numa cave já sem ferrolhos
Quero sempre algo e nem sei
Se o que quero não o terei
Mesmo à frente dos meus olhos.

É sempre um misto de falta
Com o excesso de procura
É sempre alegria e dor
Num misto de amor e desamor
De ventura e desventura.

Quando um dia à minha porta
Ao passares e não me sentires
Nesta minha inquietação
Toma-me o pulso e o coração
Porque decerto, estou morta.

Aprendei a amar, diz-nos ela

Com as maldades do mundo
O mar galgou, levou a areia
A lua escondeu-se toda
E deixou de ser lua cheia.

As estrelas incandescentes
Com medo do ódio humano
Fizeram-se estrelas cadentes
Mergulharam no Oceano.

Fez-se tamanho tsunami
Naquele oceano medonho
Que o povo já só gritava
Isto é obra do demónio.

Os demónios são os humanos
Isso é que é uma certeza
A destruir e a matar
Os povos e a natureza.

Até que a natureza se insurge
Rebenta abana em desvario
Apaga-se o sol e as estrelas
E a terra morrerá de frio.

Diz-nos a Terra em pedido
Triste quase a suplicar
Filhos tenham mais juízo
Tendes que aprender a amar.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Nas asas do vento

Olho através da janela
E o vento insiste em uivar.
Abana, parte, agita
E eu fico lá a sonhar.
Depois comecei a imaginar
Como seria bom ir com o vento
Em loucuras viajar.
Soltei-me
E por momentos
Eu fui uma folha a voar.
Levada nos braços do vento
Subi montanhas, sobrevoei rios.
Depois molhada pela chuva
Constipada tremi de frio
Tive arrepios.
Depressa o vento me secou
E de novo ao céu subi
O Planalto estava verde
Lindo como sempre o vi.
Já cansada pedi ao vento
Para lentamente parar
Já me chegou a aventura
Agora quero ir descansar.
Fiquei outra vez cá dentro
Lá fora, receio não ousar
É vento da Semana Santa
E vai demorar a escapar.

A Primavera por um dia

Ontem a Primavera entrou devagarinho, pé ante pé, envergonhada mesmo. Os seus braços estenderam-se pelo meu quarto, disseram-me que com a mudança da hora me atrasara para o encontro e, suavemente levantaram-me o édredon e me disseram, é hora. Sai que hoje fiz um pacto de são convívio com o sol, o céu está azul e as primaveras dos prados sacudiram as gotas da chuva, estão prontas para te sorrirem.
Obrigada Primavera, disse-lhe eu. Vou seguir campos fora agarrada aos teus braços perfumados e, ajudada, subirei montes, galgarei rochedos, saltarei riachos sem medo de cair. Mas não me soltes nem por um instante que seja, Primavera. O Inverno enregelou-me as carnes, imobilizou-me os tendões, e ao caminhar, os ossos rangem-me que nem soalhos de tábuas, velhos.
Vem, segura-te aqui, disse-me a Primavera.
Partimos as duas, sem tino nem medo, sem roupas quentes nem meias grossas. Uma camisola leve e umas calças elásticas para nos dobrarmos facilmente para apanharmos as flores e as merujas. Tão poucas, lamentei-me!...
A chuva foi muita, correram os regos da água, ensoparam os lameiros, mas de tanta e com o sol envergonhado e frio as sementes encolheram-se e com o medo foram levadas pela corrente. Deixando-se ir, quando chegaram ao ribeiro, já apodrecidas, pereceram. As mais fortes sublevaram-se contra as adversidades e aí as tens, poucas mas ainda assim fortes e verdes. Tenho pena não te poder prendar com muitas mais, como tu gostas, para que as pudesses comer, ali no cantinho da cozinha, junto à lareira.
Apressa-te não vá o cuco cantá-las; apesar do frio do Inverno usurpador dos dias que por lei me pertenciam, ele aí está há muito tempo e, de vez em quando canta; assustado mas canta. Ainda não se aventurou a por ovos, porque com tanta chuva que tem caído os ninhos que roubou aos outros pássaros inundaram-se e, como tu sabes ele é um calão. Houve dias em que até esteve constipado. Ainda lhe perguntei porquê que tinha chegado com o tempo frio. Respondeu-me que na terra onde vivia houvera um incêndio devastador e que lhe queimara o calendário. Depois, desorientado, não sabia a quantas andava e que perdeu a noção dos meses. Tudo isto me relatou a Primavera com uma expressão mista de derrota e de vergonha, por se ter deixado vencer pelo taciturno Inverno.
Cheguei cansada, com um pé a doer, mas passei um dia tão feliz na companhia da Primavera!
Fiz planos para continuar a cantar com os passarinhos, apanhar flores, fazer colares, procurar novamente o cuco para tentar posicionar-me de modo que me cantasse do lado direito, que assim dá sorte, mas quando acordei e olhei, o sol estava encoberto, a chuva começava a cair neste dia, mais um que o Inverno usurpou à Primavera.
Junto à lareira, no silêncio quebrado pelo crepitar da lenha a arder e o vento que lá fora uiva enraivecido, estou a escrever. Os dedos em nervosismo e inquietação de prisioneiros, pediram-me o teclado em deterimento do pano do pó e do aspirador.
Esses, calmos, estão aqui ao meu lado à espera. Querem desfazer as obras de arte tecidas pelas aranhas na minha ausência mas tal como eu, não têm pressa.
Assim, enquanto escrevo, continua-se a cumprir o equilíbrio da natureza permitindo às aranhas que construam as suas teias para apanharem outros bichos de que se possam alimentar. É o equilíbrio dos ecossistemas.
Os humanos cá estão para o destruírem!... Também eu irei dar mais um passo para a co-responsabilidade nessa destruição, usando detergentes ao invés da água com o tradicional sabão azul e branco, desinfectando, lavando, esfregando, gastando,perfumando, arranjando o habitat adequado ao aparecimento de alergias.
Estranhos tempos estes em que destruimos mesmo tendo consciência de que o fazemos!...
Estranhas pessoas que nós somos, estranhas e egoístas...
Estranha é também a Primavera que teima em não ficar...

quarta-feira, 24 de março de 2010

A caminho da raia seca

Encontrei-me com a saudade e larguei-lhe a mão com um gesto brusco.
Solta-me!
Porque hei-de caminhar contigo se mesmo o presente me cansa! Não me venhas carregar as costas com esse passado como fardo de sola rija que tinha que contrabandear pelos caminhos da fronteira a corta mato, para não cruzar com as desumanidades desferidas sobre um contrabando de mísera subsistência.
Não vez que corro o risco de ir parar à prisão por causa de um punhado de fome que carrego?
Não te lembras dos ovos que me partiram a caminho da raia seca, tão seca quanto eu, que me esvaziaram a cesta e me queriam encher a mim, em cima da gemada que no chão ficou? Canalhas, filhos da puta, antes fome para todos os dias do que eu matar a fome a alguém a troco de chegar à fronteira.
É por isso que te solto a mão com violência.
Repara no que hoje te digo porque isto eu não te irei dizer novamente. Fizeste-me desenterrar o que eu já tinha enterrado há muito tempo num buraco com sete palmos de terra em cima, para não morrer de raiva e de vergonha.
Raiva dos que me roubaram o pão dos filhos, em fardos levados, em barros partidos, em favores pedidos, em favores forçados.
Filho da puta, cabrão de merda, hei-de esmagar-te os tomates para que deles não reste semente que semeies...
Mata-me, mata-me com a espingarda que o povo pagou e que carregas em nome da lei o do bom nome dum país. Atira se tens coragem quando eu fugir, para cobardemente, me atingires as costas.
É isto que me queres atirar, saudade?
Antes também tu me atires um tiro pelas costas, do que eu caminhar contigo a relembrar o que me oprimiu.
Ainda lhe estou a ver os olhos e aquela barriga gorda a querer ficar em cima, bafo de vinho saído duma bota espanhola roubada a caminho da fronteira, o som do rasgar da saia.
Cortei-lho com o desprezo na falta de faca, cortei-lho à dentada quando queria que lhe fizesse poucas vergonhas. Cortei-lho com os dentes e com a repugnância...
Cortei-lho e exibi-o como troféu no dia em que a ditadura terminou e me fez igual.
Cortei-lho quando deixei de carregar fardos a caminho da raia seca...
Cortei-lho neste preciso momento quando te quiseste abeirar de mim...

Como eu queria ver o sol neste dia claro e quente!...
Saudade!?
Só dos dias em que o sol raiou.
Hoje vejo o sol tão escuro...

terça-feira, 23 de março de 2010

Se...

Se a Primavera me trouxesse as andorinhas
Ao meu beiral deserto de cores lentas
Com musgo de inverno frio vestido
Em tempestades envolto e em tormentas.

Se o sol me trouxesse alegria ao peito
Onde vivem Outonos amarelecidos
Em cama de neblinas onde me deito
E acordo dos meus sonhos interrompidos.

Se os campos me trouxessem muitas rosas
Espalhava-as pelos jardins dos sem ventura
Que dormem destapados, desditosos
Em pedras frias, na rua da amargura.

Eu teria andorinhas, alegria, calor
As rosas, os beirais e o sol quente
Os leitos, os jardins, a paz e o amor
De mãos abertas daria, a muita gente.

sábado, 20 de março de 2010

Escrevo-te

Escrevo-te neste dia, um dia depois do teu dia.
Quis escrever-te ontem, mas não encontrei aquele doce que te queria mandar dentro do envelope para que o saboreasses ao ler a carta. Daquele que tu gostavas e que quando sobrava o comíamos pela calada da noite, tu ou eu, conforme o que mais cedo acordasse a madrugada. Ambos de sono leve, por vezes dávamos um encontrão ao atravessar a sala e comíamos o doce a meias, outras, o último a acordar bebia um copo de água para engolir o desalento.
Queria mandar-to com o molho bem docinho como gostavas, sem me interessar com a carta. Que se manchasse a carta de castanho, que importava!
Também hoje não te mando o doce, falta-me o jeito e há ingredientes que não tenho, são cheiros que não tenho onde os colher para lhe darem o aroma e sabor a preceito.
Mas escrevo-te para te mandar a saudade que me arrasa de cansaço, para te dar o beijo que me ficou suspenso naquela tarde em que se fez noite ao meio dia.
Tenho estrelas cadentes a deslizar nas faces que se extinguem no meu peito molhado, uma chuva de estrelas cadentes das que tu vias nas noites em que só a ti aquele céu estrelado pertencia, porque ninguém como tu era capaz de o ver.
Hei-de fazer para ti um poema doce, tão doce como o doce que te fazia,... um poema que leve as cores e os aromas que ambos tão bem conhecíamos, um poema com maresia, fruta fresca, um gin tónico com a rodela de limão, um whisky com duas pedras de gelo, um café...
Havemos de o comer a meias à dentada, ora tu, ora eu...

São flores de dores e melancolia

Caminhei
com os pés dilacerados
pedras soltas pontigudas,
cortantes como cristal.
Reclamei ao vento e à areia:
o vento fechou-se em vento
e da areia nem sinal.
Perguntei à chuva:
ó chuva porque levaste
a macieza do areal?!
A chuva fechou-se em nuvens
e das nuvens em temporal.
Sem saber o que fazer
virei-me para a terra mãe:
o que foi feito do teu carinho,
tenho cortes dilacerantes
que fiz pisando o caminho?!
Cortes? Em mim?!…
O que tu vês são flores
de texturas diversas
e de muitas cores,
saídas das minhas entranhas
à custa de muitas dores.
São filhas dum Inverno vadio
que me violou e,
nessa penetração forçada,
rasgou-me as carnes lisas,
abriu ventres,
nasceram rios
taparam-se rios,
as pedras são flores.
São flores de lágrimas,
derramadas dias a fio,
sem sol, sem luar,
anémicas mas fortes,
feitas de mágoas,
arrancadas à força,
em partos com fórceps,
sem sutura e anestesia...
São flores de dores
e de melancolia.

sexta-feira, 19 de março de 2010

É agora ou nunca mais será

Salta o prateado dos cabelos,
mesmo que os pés te pesem.

Salta os medos da tua alma,
mesmo que eles te amedrontem.

Salta o tempo,
mesmo que o tempo te fuja velozmente.

É agora ou nunca mais será,
porque agora estás,
amanhã quem sabe.

Porque agora a nau
está atracada ao cais para te levar
sem tempestade.

Porque o relógio se fez morto
para que chegasses a tempo.

Porque amanhã,...
quem sabe
se haverá...

Libertação da mulher- Raizes Bíblicas

( Neste dia do pai, a todos os pais que gostam que as filhas sejam livres)

Pouco conhecida é a história de Lilith devido à perversão e perigosidade a que ela está associada.
De acordo com certas interpretações da criação humana em Génesis, no Antigo Testamento, Lilith foi a primeira mulher de Adão, criada por Deus da mesma matéria ou seja, de barro.
Lilith entendeu que por ser da mesma matéria prima, não devia ser submissa a Adão, não entendeu o sexo sem liberdade (negava-se a fazer amor sempre debaixo dele).
Eva como toda a gente sabe a história, terá nascido da costela de Adão, uma forma de inferioridade e dever de submissão.
Quando Lilith reclamou de sua condição a Deus, ele respondeu que essa era a ordem natural, a supremacia do homem sobre a mulher em todos os domínios. Contestando, abandonou o Éden.
É acusada de ser a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido, sendo vista como demónio com imensos mitos a ela ligados e, ao mesmo tempo que representava a libertação feminina também representava a castração masculina.
Nos dois últimos séculos a imagem de Lilith começou a passar por uma notável transformação em certos círculos intelectuais seculares europeus, por exemplo, na literatura e nas artes, quando os românticos valorizaram mais a imagem sensual e sedutora de Lilith, como foi representada por John Collier, no quadro exposto, pintada em 1892, em contraste à sua tradicional imagem demoníaca, nocturna, devoradora de crianças, causadora de pragas, depravação, homossexualidade e vampirismo.
Considerou que Eva e Adão cometeram adultério, na medida em que se considerava a mulher legítima de Adão e por isso amaldiçoava todas as relações ilegítimos e os frutos delas resultantes.
Corajosa e de espírito livre, foi a primeira mulher à face da terra a iniciar o movimento de libertação da mulher e a igualdade dos sexos.


quinta-feira, 18 de março de 2010

Para viver verdade

Não vês como fico
com ar indiferente!
Se queres que te responda,
fala-me de frente.

Bem nos olhos meus,
com sinceridade;
abana-me toda,
mas diz-me a verdade.

Olha-me de frente,
com integridade;
não quero mentira,
nem meia verdade.

Estarei em farrapos
e entristecida,
com a alma aos pés,
mas não serei vencida.

Partida em pedaços,
mas com dignidade,
a verdade pretendo,
para viver Verdade.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Nem sei porque te escrevo

Escrevo-te, porque aqui onde estou nada mais sou capaz de fazer, enroscada no frio que trespassa os ossos e me imobiliza os músculos; escrevo-te, porque mais nada tenho com que chame o sono ou quiçá mais não saiba fazer a esta hora.
Escrevo-te no silêncio da madrugda quandos os olhos se debatem contra os rituais contrariando o deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer, pestanejando frenéticos e estouvados que outra coisa não são, nesta teimosia de noctívagos penetrando a noite, vencendo medos, encetando conversas sob nuvens de fumo de cigarro e vapores de álcool.
Vai mais un copo, quiçá un charuto, um charro, olhos raiados de sangue e de cansaço, sôfregos de loucura e boémia, olhos que penetram na madrugadas tal qual chacais.
Escrevo-te na tertúlia dos solitários, daqueles que declamam para um grupo imaginário, ouvem, batem palmas, rasgam os poemas escritos à pressa e os deitam ao caixote dos lixo em minúsculos pedacinhos, para que, no dia seguinte deles não guardem sons, letras, rimas e deles não se envergonhem.
Escrevo-te no eco dos meus pés, quando sentada ensaio um passo de dança ao som da música e bato com eles na tejoleira e no bater seco das teclas, quando os dedos sedentos de aventura se deixam embalar neste balanceado entre letras, palavras e frases que nada dizem.
Escrevo-te porque sim ou escrevo-me a mim própria, para que eu própria sinta que aqui estou a horas mortas, em debates de vai dormir e os olhos e os dedos a desobedecerem.
Escrevo-te e nem eu mesma sei porque te escrevo, noite, madrugada...

Porque sou livre

Cada dia é um dia
Cada dia é uma vida
Que não podes desperdiçar
Porque cada dia é um segundo
Que tens que aproveitar.

Segue apoiado ao meu braço
Não porque te ampare
Mas porque te acompanho.
E, se eu tremer ou vacilar
Segura com força na minha mão
Envolve-me com os teus braços
Ajuda-me a caminhar.

A ti recorro, em ti me encosto
Quando com frio perco o andar
E, em meus arfares
Em ti arejo, brisa de mar.
Preciso de ti
Porque me prendes
Mas, preciso de ti
Porque sou livre!

sábado, 13 de março de 2010

Chamastes Maio



Floriram jarros a chamar Maio
Flor branca singela de erotismo feita
Tecida na brancura da seda e orvalho
Desafiaste a chuva, cresceste perfeita.

Nos teus secos pólenes abrigas amigos
Que com o frio se perderam, coitados
Entre chuva e geada a tremer sem abrigos
Em ti renasceram de amarelo pintados.

Ao florir de esperança vós chamastes Maio
O mês das flores em lameiros estendidas
Em belos jardins a preceito tratados
Ou em rochedos frios, da força nascidas.

Num rebentar cândido, trouxestes alegria
Ao meu jardim, abaixo afilados
E às minhas jarras aonde floristes
Trouxestes o calor aos dias gelados.

E com a vossa postura enfrentando o céu
Mirando de frente o sol que aquecem
Trouxestes-me a força que em mim cresceu
Contra as horas mortas que me enlouquecem.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Solta o beijo




Guardas nos lábios o beijo não dado
Daquela primavera cor de açucena
Perfume de jasmim em ti guardado
Resquício eterno da tua pobre pena.

Liberta-o dos lábios, não o catives
E de tão livre, ele será o vento
Manda-o nas palavras que não dizes
Apertadas em grande sofrimento.

Larga-o! Só se cumprirá se for liberto
Nos lábios entreabertos à sua espera
Expectantes, morando a céu aberto
Em desejos secretos, quase quimera.

Adoça-o com mel, doce colheita
Obreira incansável, gineceu em flor
Vive noite e dia de labutas feita
Guardadas no tempo, em favos de amor.

Solta o beijo, nada te amedronte
E assim liberto, ele siga o caminho
Do amor e a outra boca encontre
Para finalmente, cumprirem o destino.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Navega, barco perdido

Cada vez que te toco
Deixo o meu sinal em ti
Numa tatuagem a ferro e fogo
Que nunca arrancarás

Cada vez que te encandeio
Descubro os teus desejos
Os teus segredos mais fechados
Em baús nunca abertos

Sou a sereia que para ti canta
E te desencaminha no mar
Te faz perder o rumo, o destino
E se perde no teu navegar

Caminha nas curvas do meu corpo
Nas encruzilhadas dos caminhos
Acerca-te do navio dos meus desejos
Navega nas águas, barco perdido

Todos os dias

Libertem-nas!
Libertem-nas das amarras
Do corpo e da alma
Que não as deixam respirar

Não lhe dêem flores hoje
Dai-lhes lágrimas
Que juntas por serem tantas
Farão um imenso mar

Dai-lhes um barco
Com remos fortes
Para que com força
Saiam de lá a remar

Dai-lhes um ombro
Dai-lhes beijos
Dois olhos
Para as olhar

Dai-lhes a chave
Com que desfechem
O cadeado das correntes
Que não as deixam caminhar

sábado, 6 de março de 2010

Vestido de chita

Para que me dás brocados
Tão vistosos e pesados
Estás cansado de saber
Que o que eu gosto a valer
É dum vestido de chita.

Pode ser lisa ou com flores
Pode ter uma ou mais cores
Com riscas ou com quadrados
Pode ter rendas ou bordados
Em cima da pura chita.

Faz-me dela saia rodada
Só franzida ou pregueada
Pode cheirar a terra ou mar
Erva acabada de cortar
Na simplicidade da chita.

A condizer com o vestido
Bem feito e colorido
Põe-me um laço no cabelo
Para que nele possas vê-lo
O meu coração de chita.

Com chita serei seara
Livre ao vento se agita
Serei o mar ondulado
Serei bailarina e bailado
A esvoaçar como a chita.

Que de chita sou eu tecida
Da que o povo um dia vestiu
Daquela que livre e erguida
Em Abril um dia floriu
Craveiros simples de chita.

I had a farm in África


I had a farm in África…
É assim que o filme África Minha começa, na voz de Meryl Streep, atriz que tão bem interpreta o papel da escritora Karen Blixen, naquela que foi uma história da sua vida real em África e que tão primorosamente Sydney Pollack passou para os écrans.
Baseado nos livros, Den AfriKanske Farm e Shadows in the Grass de Karen von Blixen, sob o pseudónimo Isak Dinesen, foi para mim um filme marcante e julgo que terá sido para todos, nomeadamente para aqueles que, tal como eu, viveram na enigmática África.
Eu não tive uma fazenda em África, eu não dirigi uma plantação de café, eu não era casada com um barão molherengo, nem me apaixonei por um guia de safaris, pelo menos nesse sentido carnal. Confesso que não me importava de ter vivido essa paixão arrebatadora.
Apaixonei-me por outro caçador guia de safaris, uma paixão diferente daquela que Karen Blixen viveu, o meu pai.
Não tive a fazenda em África, tive sim um pedaço de terra atravessado por um pequeno rio, ladeado de gigantescas e frondosas árvores por onde trepavam lianas entrelaçadas e nas quais eu andava de baloiço.
Um pedaço de terra de dois ou três hectares. O meu pai requereu a concessão ao Governo, e, apesar de sucessivos requerimentos nunca lhe foi concedida. Era aquele pedaço de terra anexo à coutada de caça do poderoso Champalimaud, bem próximo da zona habitacional, onde aliás por ser tão próximo, nos deslocávamos por vezes a pé.
Éramos amigos do casal responsável pelas instalações. Dizia-me o meu pai que o Eng. Jardim teria sido o responsável para que a nossa pequena quinta fosse usufruída clandestinamente, o que aliás nunca foi problema. Nunca ninguém nos foi pedir o certificado de concessão.
Também o meu pai se relacionava muito bem com o senhor António Champalimaud, com quem caçou diversas vezes e lhe serviu de guia de caça. Também dos filhos ainda muito jovenzinhos o meu pai contava muitas histórias e por quem nutria uma grande amizade. Lembro-me da história da construção da casa em cima duma árvore e que, para crianças de nove ou dez anos foi um nascer de aventura e duma amizade muito pura; da casa que os três construíram em madeira,alta e estreita como se fosse uma torre, para expandírem os sonhos de adolescentes e que preferiam, em vez da luxuosa mansão.
Vou passar à minha pequena quinta clandestina e às minhas vivências naquilo que eu achei que seria o meu paraíso no coração de África, O Ingase. Aqui há tempos consegui mostrá-lo aos meus filhos, num plano superior ao rio, marcado a mais escuro, no Google Earth.
Um rio, uma fonte de água cristalina que o meu pai cavou, um lago que recebia a água onde patos nadavam naquela frescura da sombra das árvores.
Casas de madeira com telhado de colmo, uma delas construída no cimo dum monte feito pelas formigas e que mais parecia um farol a despontar acima das copas das árvores. Várias casinhas cada uma com a sua finalidade: Uma maior onde ficava a zona de refeições com um excelente frigorífico a petróleo, os quartos de dormir, a casa de banho lá ao fundo onde um balde com uma torneira e um crivo servia de chuveiro, a casa do ronda um homem de quem não se sabia idade e que tratava da horta e das galinhas, a casa da caça.
Soubemos que, depois do 25 de Abril a Frelimo terá utilizado o nosso pequeno paraíso, como escola e ainda bem. Ao menos teve utilidade.
Será que um dia lá conseguirei ir sem que seja em sonhos? As imagens chegam-me já muito difusas quando penso naquele sítio, acho que me faltam alguns pormenores mas, mesmo assim conseguiria identificá-lo. Guardo ainda alguns filmes em Super 8, feitos lá.
Uma plantação de ananases, um mangal, papaieiras, macacos, muitos, muitos e que viviam em cima das árvores, sobre os tectos das casas; cobras, gaselas, pássaros.
Então Ronda, as galinhas?
Xi, patrão, bicho roubou todos ela... num tem maneira, patrão!
Não havia loja onde se abastecesse e as barriguinhas das crianças pediam comida.Fazia bem o Ronda. Tem piada que nunca nos disse o nome. Para mim o nome dele era efectivamente, Ronda.
O Ronda, um homem alto e magro, sem idade mas, se a idade se lhe conhecesse seria próxima do século. Nada se lhe conhecia que não fosse aquele corpo esgui, um pouco cambaleante quando, com os braços um pouco trémulos, carregava os dois baldes de água, escadaria acima, colhida na fonte a alguns metros abaixo do nível das casas.
Vivia com a mulher jovem e duas meninas de nomes Ganhiua e Unsapo.
A mulher ausentava-se por uns tempos e a seguir a barriga crescia.
O meu pai dizia-lhe: Ronda, teu mulher anda a ponhar-te inhanga!
Xi patrão, mulher pode ponhar inhanga, mas filho é sempre nosso, respondia o ancião.
Uma alegria sempre que íamos passar lá uns dias, o meu paraíso, a minha quinta em África...
I Had a farm in África!
Eu tive uma quinta em África do tamanho duma herdade, do tamanho de uma coutada, do tamanho dum país, do tamanho do mundo, porque aquela quinta não tinha muros, nem arame farpado, tinha por limites o limite da minha imaginação.
Tinha acordares ao som dos macacos e dos pássaros, chilreios afinados.
Tinha adormeceres ao som dos risos das hienas e de toda uma infinidade de sons da noite, daquela noite quente e acolhedora de África, por baixo do mosquiteiro de rede fina.
Tinha caçadas durante o dia, espingarda pronta, os dois, não fosse aparecer subitamente um búfalo ou elefante solitários, sempre muito mais perigosos que em manada.
Tinha caçadas à noite,com um jeep sem capota nem portas. Era tudo de lona, preso em armação de ferro mas que tudo tirávamos para maior liberdade.
Os olhos do leopardo apanhados pela luz dos focos que trazíamos na cabeça e que acendíamos e lançávamos floresta adentro. Quanto mais escura a noite fosse melhor era, para que melhor dessem os olhos, para o tiro certeiro entre eles. O cheiro, o inconfundível cheiro do leopardo que deixava por onde passava,demarcando terreno e que eu tão bem identificava quando, em noites de luar, por haver mais luz nos fugiam os olhos da mira e o seguíamos pela floresta.
Tinha um pai, caçador profissional que me servia de escudo à frente dos rugidos dos leões, das manadas de elefantes e dos búfalos, e de antídoto nas mordeduras das cobras.
Tinha os búfalos nos tandos de Manica e Sofala, aos milhares e que, à noite, quando os faróis do jeep lhe batiam, parados e virados todos na nossa direcção, aquela planície se transformava em cidade iluminada com milhares de luzinhas.
Tive um pai com a sensibilidade do tamanho do universo e que, aos seus olhos tudo era belo e que me ensinou a amar a natureza e a observar uma pedra que fosse, só porque essa pedra era diferente em qualquer pormenor.
Tinha amanheceres e entardeceres com cores magníficas, trovoadas, os relâmpagos entrelaçados nas árvores, o rebentar estridente dos trovões, a chuva quente e o fumegar ao cair no solo escaldante, as queimadas, as gazelas saltitantes, as gondongas com o seu correr descoordenado.

Eu tive uma herdade em África, do tamanho do meu sonho!... I had,... I had, indeed!...

Eu tenho uma saudade imensa dos dois!...
Of course, I have!...


sexta-feira, 5 de março de 2010

Quero dormir, tanto, tanto...

O dia começa a despontar em casa de cada um. Na minha casa, no meu miserável corpo cansado por sucessivas insónias, despontou há muito tempo, demasiado tempo.
O sol está a espreguiçar-se para mais uma jornada. Resta saber se se mostrará para cá das nuvens.
A chuva já cansa, os temporais muito mais e mais do que cansar, amedrontam. O Fevereiro namoradeiro doutros anos, este ano mostrou-se frio, molhado e feroz.
Veremos Março, ele que por norma é de grande instabilidade!
Apetece sol, apetece luz, apetece passear nos paredões à beira mar sem que haja receio de apanhar com uma onda que nos leve para o fundo do Oceano.
Até o Mediterrâneo se tem mostrado feroz e imprevisível, vociferando com ondas gigantescas a inundar navios, amedrontar e matar gentes. Imagine-se, o pacato Mar Mediterrâneo!
Apetece-me passear pelo campo, ouvir o canto do cuco, o matraquear das cegonhas, apanhar flores silvestres para pôr na jarra da minha vida, para que me acompanhem os passos com a sua singeleza e o seu perfume envergonhado.
Sinto-me triste e quando assim é, não me apetece lançar-me à vida. Estou exausta.O que vale é que é momentâneo e logo depois me sacudo...
O meu sono não reconhece a noite e, durante o dia as pálpebras teimam em não se fechar. Cansam-me as noites infindáveis, pesam-me os dias de cansaço. Quero dormir, no mínimo um dia inteiro, sem intervalo para comer ou beber.
Quero dormir, tanto, tanto...

Lancei-te ao vento

Perdi-te
entre o nevoeiro da mente
e, de repente se fez
ausência.

Perdi-te
nos lapsos de memória,
escuridão do dia,
demência.

Perdi-te
nas veredas dos minutos,
segundos sinuosos,
premência.

Procurei-te
em palavras,
letras em cascata,
urgência.

Achei-te
e, de mãos abertas
te solto ao vento,
cedência...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Os teus filhos




Os teus filhos não são teus filhos,
são os filhos ou filhas da ânsia por si mesma.
Vêm através de ti, mas não de ti, e,
embora vivam contigo, não te pertencem.
Podes outorgar-lhes amor mas não os teus pensamentos,
porque eles têm os seus próprios pensamentos.
Podes abrigar os seus corpos,
mas não as suas almas,
pois as suas almas moram na mansão do amanhã
que tu não podes visitar nem mesmo em sonhos.
Podes esforçar-te a ser como eles,
mas não os podes fazer ser como tu,
porque a vida não anda para trás
e não se demora com os dis passados.
Tu és o arco
com o qual os teus filhos são arremessados
como flechas vivas
no encurvamento da mão do arqueiro.


Khalil Gibran

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

É preciso aprender


As imagens têm chegado, reais, medonhas. De um momento para outro, após umas horas de chuva intensa o que era considerado como uma pérola do Atlântico reduziu-se a um monte de pedras e lamaçal. Muitas vidas ceifadas pela força das correntes, o fruto de uma vida de trabalho que num sopro se foi.
Tantas outras imagens destas e piores, nos têm chegado recentemente doutros pontos do planeta embora esta, porque a tragédia é nossa, nos toque mais profundo.
Outras tragédias deste tipo já ocorreram recentemente, felizmente menos gravosas em prejuízos materiais e humanos porque, por um lado era em regiões de planície que sendo preocupante pelo menos a água não atinge tão elevada velocidade que nas encostas com elevado declive, e por outro lado a pluviosidade não seria tão intensa. Estou a lembrar-me de Beja em dois mil e poucos, fenómenos cíclicos que um pouco por todo o lado vão surgindo.
Pensando nestes dramas nunca é demais falar dos grandes responsáveis por essas desgraças para a lém da própria natureze: Mão humana, a eterna ganância, o compadrio e coisas do mesmo tipo, onde o dinheiro anda sempre de mão dada com o restante. Ribeiras às quais lhes foram roubados os leitos e que enraivecidas recuperam o que lhes pertenceu, levando à frente tudo quanto encontram.
Porquê?
Porque as cidades e outras localidades foram projectadas para situações normais, como se as forças da natureza se comportassem sempre duma forma normal, porque se construiu onde nunca se devia à cata do lucro.
O incumprimento das normas, quando elas existem, a troco de dinheiro ou compadrios, muitas vezes de natureza política como sucede na Madeira. O eterno problema da currupção...
É um facto que mesmo tudo feito dentro da legalidade, mesmo seguindo um plano de ordenamento do território adequado,o plano director municipal à risca, o drama havia de existir, mas incomparávelmente menor.
Será que o AJJ não retirará destes dramas alguma aprendizagem e que mais não seja se torne menos arrogante e mais justo para todos os madeirenses e os trate por igual, mesmo àqueles que não lhe dão o voto? Receio que não e infelizmente julgo que não me engano.
Assusta-me sentir o quão somos frágeis e impotentes perante as forças da Natureza e assusta-me também o facto de quem tem a obrigação de governar com seriedade a maior parte o não faça...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A medida do amor



Perguntaste-me um dia
Quanto o amor media.

Não te soube responder.
Seja lá com que for
Eu não tenho nada
Com que meça o amor.

O amor é céu.
O amor é oceano
Um verde de esperança
Em ondas tecido.

Mas também há dor
Delírio e loucura
Nas danças do amor.

A medida do amor
Eu não ta sei dar.
O que te posso dizer
É que o amor é uma flor
E para não morrer
O tens que regar.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Fico-me pela sangria



Um pouco de sal, água e vinho branco; alho e coentros para dar aroma, um pouco de aguardente para dar coragem e frontalidade, um naco.

Deixei-o cozer em fogo esperto, como convém, para não se perderem os sucos, afim de que ficasse tenro e terno.

Segui à risca a receita para que tudo saísse na perfeição para depois escrever um conto.

Tanto quiz que apurado ficasse, o cozinhado esturrou-se e na cozinha tresandou a alho e coentros.

Do álcool da aguardente nem a mais pequenina porção de vapores!
A água e o vinho secaram e o molho ficou excessivamente salgado.

É no silenço que as palavras me saiem dos poros.
O ruído do esturricar roubou-me as condições para a escrita. Além disso, julgo que de tudo isto um conto não sairia, ficando-se tão somente por um dia sem almoço.
Desisti e fiquei-me pela sangria.

...Vou merendar!
Até já.

...Caminha







Hoje,
mesmo que o dia seja triste
falo-te de esperança.
Hoje,
mesmo que o dia esteja escuro,
falo-te de confiança.
Hoje,
mesmo que no campo haja gelo,
falo-te de aconchego.
Vai!
Vai ao jardim e
lá encontrarás as magnólias,
flores sedutoras de insectos,
só elas,
amores primeiros sem rivais
que chamam a Primavera,
tempo antes das demais.
Só elas!
Serás magnólia se quiseres.
Única.
Coragem a brotar dos caules despidos,
calor sem agasalhos.
Depois, acende as centelhas
que moram nos seus olhos felinos
e, com elas,
hás-de derreter a geada dos dias,
dos insensatos dias,
das escorregadias noites.
Única,
...caminha.




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