Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

domingo, 25 de setembro de 2011

Com lágrimas mais salgadas e folhas mais ocres


É o começo do Outono, também o meu Outono,
 quando as folhas se me vão aninhando no regaço,
a pele se vai tornando mais fina, e,
 perdida a textura de seda lisa
 vai sendo engomada por aprendiz,
com vincos onde não devia.

Foi neste Outono soalheiro que te vi,
te conheci,
 tu que foste a princesa que eu não pude ser,
por causa da imensidão dum mar,
e do barco onde não me deixaram embarcar.

E assim cresci,
 como pude crescer,
 na medida em que os trabalhos de menina
 me deixaram ser,
quiçá menos menina.

Muitas vezes me questiono que pessoa seria
 noutro sítio que desconheço,
 onde os vales seriam diferentes do vale do Molinico
que me fez verter lágrimas
enclausuradas entre dois montes
e,
sem o ar que me bastasse.

Sabes?
Senti uma ponta de ciúme e de inveja,
quando me disseste que o  adoravas,
por ser doce e lindo, lindo
e te chamava princesinha.

Como eu gostava de ter sido princesa,
também eu princesa
naqueles olhos vivos cor de café!

As folhas vão-se-me soltando nesta manhã
e as lágrimas vão-me caindo peito abaixo
e molham o colchão ocre
que se aninha no meu regaço!

Agora
Já não posso ouvi-lo
E é por isso que as lágrimas me são mais salgadas
E as folhas mais ocres…

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mergulhando num abismo

Esta noite
vi que te esvaías em sofrimento
e eu
nada podia

De noite
na escuridão
quiz te tocar
com um dedo que fosse

O dedo não cresceu
a espessura dum cabelo
e esse cabelo seria o bastante

Lanço um grito que sai mudo
tento correr
tento voar

Mas ah!
pernas inertes
asas presas
para que vos quero eu!?

Porque será que o meu sono
em vez de  descanso
me faz mergulhar num abismo!?

Felizmente o sol
abriu-me a cortina
e
num instante em pestanejos
abri os olhos em bocejo
e foi mais um dia
a nascer
e uma noite que termina

No mar sereno

Talvez  to diga um dia
ou talvez não.
Olhei nos teus olhos
e vi-me no reflexo
dum mar sereno.
Lá fiquei a navegar
sem canoa
nem remos
sem cristas de ondas
nem murmúrios
para te balbuciar

Uma lágrima desperdiçada

Deslizou-me uma lágrima
peregrina
sozinha
uma lágrima a menos
dentro de mim
uma lágrima gasta
por imprópria razão.
Não gastarei mais lágrimas
por qualquer desilusão!

Limpei-a
do rosto queimado
pelo sal em cristais
e
no lenço de seda
com que a limpei
lancei-o ao vento
para não mais a ver.
Não mais verei a lágrima
de desilusão, de sofrer!




Hei-de tê-las no rosto
de riso, de alegria
e com elas orvalhar
os lábios e o peito
e
com o lenço na mão
ensopado de lágrimas
limparei a minha alma
e o meu coração.
Não mais chorarei lágrimas
de desilusão!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

No vazio


Sinto-te aqui  neste dia
Nesta hora, neste beijo
Que me sobra
Neste lençol onde a dobra
Não se desdobra
Nem a cama se desmancha
Nem se vinca
Nem desvinca
O travesseiro à espera
Desespera
E os meus braços abraçam
A cama vazia... 

domingo, 4 de setembro de 2011

Gostava...

Gostava que me viesses visitar logo pela manhã e me trouxesses um ramos de flores orvalhadas, colhidas numa horta, multicolores, crescidas ao lado dos feijoeiros e das cebolas, misturando o seu perfume com o odor forte dos tomateiros.

Sabes?!... há hortelões que são poetas e amantes do belo. E há-os também pintores.
Pintam as suas hortas como quem pinta telas em nuances frescas e coloridas. Num lado o verde esvoaçante e vivo dos feijoeiros de hastes altas, depois, um verde sépia das cebolas e das beringelas, logo a seguir, imponente, o verde escuro dos pimenteiros. Na ponta, espraia-se o verde das aboboreiras matizadas de flores amarelas, onde as abelhas laboram intensamente, e,  numa ponta qualquer, florescem cécias, flores que aqui são conhecidas por marianas.

Tal como nas hortas dos pintores, também há flores nas hortas dos poetas, só que, nestas, os legumes dançam, esvoaçam, como se fossem letras à procura da sua palavra, da sua estrofe, do seu poema. Bailam em bicos de pés para não apertarem a terra acabada de regar e para não sujarem o poema.

Gostava que passasses logo de manhã pelas hortas dos poetas e nelas colhesses um punhado de poesia.
A mim, presenteia-me com as flores orvalhadas.
A poesia, vai-a espalhando pelas aldeias, em acenares, em boas tardes, em sorrisos. É que, há hotelões nas aldeias, onde a poesia deixou de sersentida, há muito!...É que, os caminhos até à horta,  têm um piso incerto, e, os hortelões-poetas deixaram de lhes sentir a poesia dos passos firmes com que escreviam os caminhos.

domingo, 28 de agosto de 2011

Num aroma picante de gengibre

Se quiseres sentir o pulsar do meu coração e o aroma que todas as manhãs ponho na pele, em salpicos picantes de colónia de gengibre; se quiseres sentir as cores quentes a incendiar-me o rosto, vindas dum pôr de sol de fogo, segue o meu olhar...
São as cores do sol poente que me cativam, que me enlouquecem e me obrigam a partir desnuda para o outro lado do universo. Uma brisa tapa-me o corpo com lingerie de seda que tapa destapando, tapa desnudando e excitando os olhos famintos saltitando na ponta dos dedos.
Espraio o olhar sobre os cabeços a reflectirem as suas silhuetas na noite, neste planalto dourado, dunas dum mar que imagino lá longe noutro hemisfério, acácias flamejantes a reflectirem-se em espelho d´água, nuvens brancas de flamingos num voo matinal, despertos com a fragância do meu olhar.
Assim parto,… para lá das dunas, cabeços onde o planalto acaba, por lhe terem crescido seios pontiagudos, faróis na linha do horizonte...

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A Mourisca

Olhavam-se no fundo dos olhos

O terror chamava-se mourisca
uma vitela amarelada e atrevida
com quem uma menina de 6 anos
 media forças com a vida

Era de aguilhada em punho
que respondia a perseguições desatinadas
por caminhos e cerrados
a pequenita assustada
 passou a ser mourisca também

Trazia na alma o desejo de voar
caldeado ao colo da mãe
terras de mouros eram o seu sonho
e o desejo fez-se cor e vida
quando se abriram os braços do pai

Hoje a aguilhada é o bico da caneta
que verte a intensidade das emoções
É o pincel que tranforma lágrimas em tons
e  solta a rebeldia,  a força e a doçura
de mourisca do planalto

Teresa Almeida 20-08-2011

Um caminhar

Do cansaço da corrida
duma vida sempre à pressa
ficou-me
um caminhar sereno
sem horas pr´à  meta
nem  tiro
para a partida

Aroma de um olhar

Passa levemente a mão pelo rosto
não para o limpares
mas antes vincares
o aroma que te ficou
do último olhar

Abre as mãos

Abre as mãos
para que eu possa depositar
o que não quero perder

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Muito mais que palavras



Deixaste-me palavras espalhadas no ar
Que me vestem e acalentam
Quando o vento canta manso.
Beijos soltos me ficaram
Ao de leve sobre a cútis
Perfumados com lavanda.
Formei frases com as palavras
A poisarem sobre o ventre
Pulsando em saudade
Arfando em suspiros quentes.
Deixaste-me palavras
Nem sei se por esquecimento
Se para te manteres presente.
Que me importa a razão
Se de qualquer modo essas palavras
São muito mais que palavras!



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

lembra-te de mim

Lembra-te de mim
Quando a sombra que me segue
Se faz esguia
Num pôr do sol em Agosto
Seguido por olhos sedentos
Doutro e mais outro dia.

Lembra-te de mim
Quando a voz me enrouquece
Com o timbre do preso vento
E as cordas se me apertam
Com as palavras que calo
Como quem cala lamentos.

Lembra-te de mim
Quando não escrevo o que escrevo
Quando não digo o que penso
Para não dizer o que sinto
Ó céus quantas vezes minto
E tantas outras me arrependo.

Lembra-te de mim
Nos olhares da lua cheia
No frágil quarto minguante
Na pujança do crescente
Ou na nova em que me escondo
E sem me veres sigo diante.

Lembra-te de mim
Se a memória to lembrar...


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Exposição de Pintura em Sendim.

A exposição de pintura, Sons do Silêncio, treze quadros que vos convidam a entrar por eles dentro para descobrirem os vossos sons dos vossos próprios silêncios, está patente ao público na Casa da Cultura de Sendim até dia 21 de Agosto, das 14 às 18 e das 20 às 23 horas.
As fotos são da inauguração, dia 5 de Agosto.


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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Exposição de Pintura em Sendim

Bai a ser einougurada die 5 de Agosto, pulas seis de la tarde
i bai a a quedar até die 21 de l mesmo més.

sábado, 30 de julho de 2011

De mãe

Semeei-te em terra
para em terra medrares
reguei-te da fonte
para não secares.
Cresceste depressa
depressa floriste
foste-te depressa
mas sempre vieste.

Semeei-te em terra
forte te fizeste

Arranquei-te as ervas:
Cherinchos, ervas mouras
baldruegas, grama
paridas pela terra
tão bem amanhada
pois não faltam ervas
em terra estrumada.

Arranquei-te as ervas
sem te doer nada

Semeei-te em carinho
para te tirar o medo
em beijos e abraços
para que não tiritasses
apertaste os laços
segurando a colheita
pois que ninguém dará
o que não retenha.

Semeei-te em carinho
para que dentro te venha




Em Mirandês, o original

Acubri-te an tierra
Para an tierra medrares
Reguei-te de la fuonte
Para nun te secares
Medreste debrebe
Debrebe floriste
Fuste-te debrebe
Mas siempre beniste

Acubri-te na tierra
Fuorte te faziste

Arranquei-te las yerbas:
Cherinchos, yerbas mouras
Berdulagas, grama
Paridas pula tierra
Tan bien amanhada
Puis nun fáltan yerbas
Na tierra strecada

Arranquei-te las yerbas
Sien te doler nada

Acubri-te an carino
Para te tirar l miedo
An beisos i abraços
Para que nun tritasses
Aperteste ls lhaços
Agarrando la cemba
Puis que naide dará
L que ne l peito nun tenga

Acubri-te an carino
Para que de drento te benga!


Screbido die 26, die de ls anhos de l miu filho mais nuobo, Rui.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

E eu à nora, à procura da palavra

Rodeiam-me como que a obrigar-me a permanecer naquela sala simples onde a mesa é decorada por um computador e uma pedra esférica a servir de pisa papéis onde pintei um búzio, para homenagear e lembrar o mar onde ele cresceu e eu respirei ar fresco.
Olha para mim como se estivesse vivo, num desafio constante de me levar novamente às ondas. Olha para mim como que a suplicar-me que o deixe partir e, que vá com ele para o seu mundo, para o fundo do seu berço fresco. Respondo-lhe que ficará para depois, uns meses depois, quem sabe se Maio ou Agosto, quando os meus dedos se cansarem de amaciar as teclas, quando os meus ouvidos ensurdecerem com as conversas dos que à minha volta se sentam, me acotovelam, sempre com a ânsia de lhe dar a deixa, eu a servir de ponto quando se esquecem da palavra que deveria vir a seguir, naquele teatro de personagens abstratas a passearem pelas tábuas da minha salinha humilde.
Um pisa papéis sem papéis para pisar. Detesto papéis! Bendita era dos computadores que me retirou o papel, o pó velho a entupir-me as narinas, a fazer-me espirrar a cada tentativa de lhe dar alguma organização. Bendito teclado onde os meus dedos são bailarinas com vestidos de tules ondulantes e sabrinas brancas com atilhos de cetim.
Gosto do búzio sem papéis. Tem um porte digno e, quando me olha nos olhos, traz-me a frescura do iodo expirado por um oceano verde.
De igual modo, gosto do par de namorados abraçados na paixão dos seus corpos jovens, gestos apressados para se banharem em rios de lava e permanecerem num só corpo. Pintei-os, quando não fui capaz de os escrever com a caneta de tinta permanente a esborratar os seus corpos quentes. Ali estão em frente. Às vezes vejo-os a despirem-se com gestos apressados, outras vezes já mais além, em gemidos, numa cúpula sem tempo, de orgasmos múltiplos até à exaustão.
Gosto do búzio e do par apaixonado por não me ditarem regras, as regras foram minhas quando os criei e continuam a ser minhas, enquanto quiser.
Os outros, todos eles me rodeiam, me acotovelam, me ralham, me asfixiam e me interrompem e deixam sem a palavra certa, num desânimo de vencida nos destroços de uma batalha.
Não escrevas essa palavra, diz-me uma das actrizes! Não é essa a que expressa o meu sentimento genuíno. E eu à nora, à procura da palavra...
Essas palavras nunca foram por mim proferidas, não reflectem o meu estado de alma, diz-me aquele imbecil, meio mulher, meio sereia, sentado na minha perna direita.
Deixa-me em paz! Lá tu te lembras da tua história carregada de pó de arroz!Pois tu não vês que me tiras toda a expontaneidade!?
E eu que os ature! Uma cambada em busca de protagonismo no romance.
Depois, há outro, não menos imbecil do que outros todos juntos, um actor que quer representar o meu papel, a entrar sempre mais e mais pelos meus sentimentos, a desnudar-me ainda mais que desnudo está o par de namorados pintado no quadro e dependurado à minha frente...
E eu à nora!!!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Grama

Não me peças para ir
Ainda que por vias de cera!
O meu lugar é aqui

Não me peças para ficar
Num berço que não é meu!
O meu lugar é ali

Um alqueire para berço
Uma eira a prometer grão
Uma enxerga de palha
De suor, o pão

Não forces a grama
A soltar-se da terra!
Dividida, mais se agarra

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Há-de rir-se, o poema!

Transbordaram
os olhos e o peito
e,
nem por isso
o rio sentiu
a água a descer no leito

A alma sentiu-se vazia
e,
a vida menos vida
neste dia
em que a poesia se assoma
como que saída dum coma
cansada
triste
dorida

Outro dia virá
para de flores e risos
encher o poema
ou enfim
um momento chegue, quiçá
para que ele ria
e me empurre
para fora de mim

Deixaste-me poesia

Deixaste-me poesia
em versos que não escreveste
mas que leio
em cada galho
em cada folha de cerejeira
em cada pedra
em cada ave
em cada sombra de embondeiro
em cada sorriso de luar
em cada vereda de poeira
em cada fio
de cabelo a pratear

Deixaste-me poesia
em cada traço vincado
nas rimas soltas
duma antologia
repleta de aventuras
de esperanças
mas também desventuras
duma vida

Deixaste-me poesia
nos poros a transbordar
para em meus versos lançar
os versos que te pedia
nascidos nos poemas
duma alma peregrina
e uma mão que não os escrevia

Deixaste-me poesia
em cada canto
em cada sulco
deste peito a transbordar
duma saudade infinita

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Metade de mim

Que o sol me aqueça
para que no inverno não morra
do frio cortante a imobilizar os meus passos
Porque metade mim é vulcão
outra metade é cansaço

Que a noite me seja dia
na luz que me falta
nos dias mais escuros
e que o brilho das estrelas me oriente
quando me perco em becos inseguros.
Porque metade de mim é lua cheia
outra metade é penumbra.

Que a calçada me conte os passos inúteis
e me mostre o caminho dos passos certeiros
Porque metade de mim é no chão
outra metade é algures...
Não sei, não!

Que as lembranças de um dia
me aqueçam as noites
me lembrem o que fui
e o que um dia quiz ser
Porque metade de mim eu conheço
outra metade nunca irei conhecer.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Nem sempre

Nem sempre o mar sugará os sonhos
Nem sempre a escuridão tragará o dia.
Lancemos os sonhos ao largo
Até que a vista não alcance!
Serão canoas a dançar nas ondas
Serão luas, serão vento
Num vaivém de marés.
Pintemos a escuridão
Com as cores da aurora clara
Prenúncio de um dia quente!
Soltemos os pássaros aprisionados
Que nos povoam a alma!
Seremos brisas, seremos vento
Num vaivém de amanheceres.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Bebendo a brisa do entardecer

...


Se ao menos pudesses ouvir o canto dos suspiros
De ansiedade para ancorar no cais
Se ao menos as tuas mãos sentissem a minhas
Doridas as minhas mãos, agonizando em ais

Se ao menos tu sentisses os abraços
Guardados no silêncio dum refúgio
Se ao menos os teus passos
Seguíssem os meus passos
Sem desculpa de cansaço ou subterfúgio

Se ao menos veredas eu pudesse inventar
Para os espinhos não cortarem as palavras
Se ao menos eu pudesse segurar
O orvalho de frescas madrugadas
Deglutido por um outono a ameaçar
As mãos
Os braços
O cais em derrocadas

Se ao menos eu soubesse beber
Sorvendo
Na despedida dum sol que sempre volta
A brisa leve do entardecer...

sábado, 7 de maio de 2011

De Clarice Linspector- O português é belo

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...
------------------------------------------
Sintam a genialidade da poetisa, Leiam o poema de cima a baixo e de baixo a cima.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Eis que camões...

Eis que Camões se levantou da campa
E ao país Luso ele enfim chegou
Desiludido por ver tanta trampa
Em vez dos feitos que tão bem cantou
A história que fazeis ao mundo desencanta
Disse com emoção na voz que se lh´embargou
Vou refazer meus versos com a minha mão
Por ver o resultado da vil transformação.


Adelaide Monteiro


(Não sei quem é o autor dos versos que se seguem, mas não resisto e vou publicá-los)



As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo aquilo que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!
II
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!
III
Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que"ainda andarem à solta, só me espanta.
IV
E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!

E mais outro: Um poema da "mente", só/mente!
POEMA da "MENTE"...

Há um Ministro que mente...
Mente de corpo e alma, completa/mente.
E mente de modo tão pungente
Que a gente acha que ele mente, sincera/mente.
Mas mente, sobretudo, impune/mente...
Indecente/mente.
E mente tão habitual/mente, tão hábil/mente,
Que acha que, história afora, enquanto mente,
Nos vai enganar eterna/mente.

sábado, 30 de abril de 2011

Este céu








Hoje
Pesa-me o céu no meu peito
Dum cinzento que me abate
Porquê que às vezes o céu
Se me envolve que nem véu
Toque de sinos a rebate
Dum sonho que foi desfeito.

Ontem
Vi-o leve, nem sabes quanto
Desse céu que aquece e acalma
Encheu-me de luz, de ternura
Do corpo tirou a desventura
Apagou a tristeza da alma
Um céu bebedor de pranto.

Amanhã
Será azul forte ou claro
Cerúleo ou azul indigo
Um céu a forçar-me à luta
À força, à esperança, à labuta
Sempre terno, sempre amigo
Um céu companheiro amado.

Este céu onde me evado
Onde sonho, onde me elevo
Onde de manhã me lavo.








quinta-feira, 28 de abril de 2011

Com Manuel Alegre

Bendita sejas tu porque mulher
bendita sejas não porque te dás
mas porque o teu prazer é o meu prazer
e só no teu prazer encontro paz.


Correrão muitos rios mas o teu
é o que me leva às águas do baptismo
contigo em cada orgasmo eu subo ao céu
noite a noite contigo eu vejo o abismo.


Corre o Jordão e o Tigre os rios correm
contigo em cada orgasmo eu me baptismo
contigo noite a noite a dor e o riso.


Nas curvas do teu corpo os diabos morrem
bendita sejas tu porque me levas
onde a luz do prazer nasce das trevas.






Gostava de morar na tua pele
Desintegrar-me em ti e reintegrar-me
Não este exílio escrito no papel
Por não poder ser carne em tua carne.


Gostava de fazer o que tu queres
Ser alma em tua alma em um só corpo
Não o perto e o distante entre dois seres
Não este haver sempre um e sempre o outro.


Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
Tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
Seremos sempre dois sendo só um.


Por isso esta ferida que faz bem
Este prazer que dói como outro algum
E este estar-se tão dentro e sempre aquém.



Eu não sei se me salvo ou se me perco
Ou se és tu que te perdes e me salvas
Só sei que me redimo quando peco
E corpo a corpo ao céu vão nossas almas.



Manuel Alegre
Sete Sonetos e Um Quarto
Desenhos de João Cutileiro
Dom Quixote, Lx, 2005

quinta-feira, 21 de abril de 2011

“Sonidos de l Silenço” para çcubrir an Miranda anté l fin de maio

Salido ne l Jornal Nordeste l die 19 de Abril



“Sonidos de l Silenço” ye l títalo de la sposiçon de pintura que abriu l atrasado die 8 de Abril i bai a star anté l fin de Maio na Biblioteca Munecipal de Miranda de l Douro. Son arrimado a ua dezena i meia de quadros de Adelaide Monteiro, artista mirandesa nacida na Speciosa, que para alhá de pintora tamien ye poetisa, habendo publicado yá l sou purmeiro lhibro de poesie, “Antre Monas i Sbolácios”, an mirandés, la sue purmeira lhéngua.
Fui un gusto oubir a Adelaide Monteiro a apersentar ls sous quadros a las trés dezenas de pessonas persentes naquel spácio nobre de la cidade i a cumbidar todo mundo a çcubrir ls sonidos que cad’un quejir na sue obra, lhembrando que hai sonidos que solo podemos oubir ne l silenço. Para alhá de las rebelaçones subre algua de la simbelogie persente ne l quadros, l que regala l’alma ye sentir l antusiasmo i la paixon que reçuma de l sou çcurso subre ls sous quadros i l ato de pintar.
“Ye alegórica i romántica esta pintura, talbeç mais sonhadora que bisionária, chena de símbolos i referéncias a la mulhier i a ua tierra. Uas bezes porbocadora, a abanar cumbençones sociales, outras serena i nostálgica…” ye cumo Amadeu Ferreira mos apersenta la obra de Adelaide Monteiro ne l catálogo que acumpanha la sposiçon.
Anabela Torrão, bariadora de la Cultura de la Cámara de Miranda de l Douro, dixo-mos star mui cuntenta por tener l perbileijo de poder oufrecer als mirandeses registros culturales de eilebada culidade, an special estes protagonizados por filhas de la tierra, más inda quando yá stan treminadas feturas sposiçones de las obras de Balbina Mendes i de Fernando Nobre, outros eilustres artistas mirandeses.
Merece ua felicitaçon la Cámara Munecipal, por apostar ne ls mirandeses i queremos deixar eiqui ls parabienes i l nuosso muito oubrigado a Adelaide Monteiro, por alhebantar tan alto la proua de ls mirandeses. Feliç tierra que filhas destas ten.

Alfredo Cameirão

terça-feira, 19 de abril de 2011

Os meus versos

Vendi os meus versos
Ao desbarato
Numa feira, em promoção.
Leiloei-os
Mas entreguei-os
Na primeira licitação.
Agora sinto pena
Paridos com tanta dor
Estão já cheios de bolor
Traça e pó
Para serem vendidos
Como antiguidade
E terem algum valor.
Mal sabe o feirante
Como eles são irreverentes…
Irão sacudir a poeira
E livrar-se do bolor
De novo as rimas farão
E a fugir gritarão
Adeus!
Vamos embora da feira!

sábado, 16 de abril de 2011

Da minha exposição de pintura, " Sons do Silêncio"






A inauguração foi no dia oito de Abril, na Biblioteca Municipal de Miranda do Douro, na companhia de alguns amigos e da minha família.A Câmra serviu um "porto de honra" e a saborosíssima bola doce, típica da região. Poderá ser visitada até 30 de Maio.
Durante o Festival Intercéltico e até fins de Agosto, estará em Sendim.


Adelaide Monteiro é professora aposentada, da área de contabilidade e gestão, nascida em Especiosa [1949], Miranda do Douro.
À escrita e à pintura, o escape das tensões da vida citadina, paixões sem as quais já não é ela mesma, dedica-lhes o principal do seu tempo, passado entre a sua Especiosa natal e Sintra, fontes por onde jorra a sua alma insatisfeita.
Em 2010 editou o seu primeiro livro de poesia, Antre Monas i Sbolácios, escrito em Mirandês, a sua primeira língua.
Sons do Silêncio é o tema da pintura que agora apresenta, tema tão abstracto, quanto poético, nascido em cenários de viagens de sonho às suas raízes, ao seu mundo, real ou imaginário, convidando o espectador a procurar nas nuances e traços das suas pinceladas, os sons que só do silêncio podem nascer.





Texto do catálogo, escrito por Amadeu Ferreira



Sons do silêncio

Pode parecer estranho o título desta exposição – Sons do silêncio – mas ele abre-nos a porta certa para os caminhos por onde segue a pintura de Adelaide Monteiro. Nada percebo de técnicas de pintura, aqui saltando entre a espessura do traço nervoso e a leveza suave das transparências, e a pintora sabia isso quando me convidou para escrever umas palavras sobre esta exposição. Por isso, seguirei os olhos, aqui dando nota do seu espanto, das suas perguntas e das paisagens onde me levarem estes miradouros de Adelaide Monteiro.
É esta uma pintura sem rostos, mas de ideias, de sons, de um convocar os sentidos muito além da pele, poesia sem palavras, misturada nos sons que se elevam do silêncio das cores e das formas. Rostos para quê, se é uma representação onírica do real que vem ter connosco? É alegórica e romântica esta pintura, talvez mais sonhadora que visionária, repleta de simbolos e de referências à mulher e a uma terra. Por vezes provocadora, a mexer com convenções sociais, outras calma e nostálgica, mas que não há muito tempo levou a censura a mostrar o seu rosto tirânico, inculto e insensivel. AS mulheres de Adelaide Monteiro ora nos aparecem a saltar do seu corpo nu e apaixonado, ora transformadas em símbolos, feitas viola ou violoncelo, cântaro ou a imprevisível alquitara, grávida de uma aldeia branca, nevada, virgem de passos, mulheres que tanto gritam o seu erotismo, pura sedução de romã em convite grão a grão, como acolhem em seu calmo colo maternal, ou desaparecem em puro voo, muito para além de mãos e olhos, por céus onde possam ser ultrapassados todos os limites.
As imagens que Adelaide pinta apenas querem ser a porta para outros mundos, um modo de materializar ideias, sons, sentidos, sentimentos, tudo puramente imaterial, que não se deixa agarrar pelos pincéis, mas pode voar pelas cores, indecisas estas entre o escuro da dureza da vida e os brancos transparentes e azuis de luz e de futuro. Tudo isso se concretiza por vezes numa pintura um pouco enigmática, onde parece vir acima uma certa educação de que as mulheres de Adelaide fazem gala em se libertar, vingança por andarem para trás os anos e a juventude. É, portanto, uma pintura de memórias, por vezes opressivas, onde a Sé se ergue como um marco, mas também memória de tempos simples, de uma aldeia que morreu e apenas vive dentro da pintora, de um rio que nos ensinou a força dos impossíveis e nos leva com ele, ou de um cântaro cheio de searas em puro fogo, pão que o diabo amassou e um céu num outro mundo.
Por que razão olhamos para duas maçãs pintadas e não vemos apenas maçãs, entranhando-se uma na outra, em posição contrária uma à outra, aproveitando a sua vida, a sua frescura, antes que o verme, essa essência fálica reduzida ao mínimo, as deite a perder, as fertilize?
Quando mãos encavalitadas se estendem, já não sabemos muito bem se ajudam e apoiam ou se apenas procuram luz, talvez paz, fuga de um inferno ou de uma negra noite que as deixa entregues a si próprias, mãos duras, escuras e calosas.
Um dos mais emblemáticos quadros da exposição é a alquitara com a aldeia dentro, pintada como um corpo quente de mulhier grávida, que a leva no seu ventre como se fosse um filho. Quando dela sai, vem destilada pelo tempo que a nevou como se essa fosse a via para a conservar, fresca e menina, e melhor poder passear na sua rua que atravessa o mundo a meio.
Não é o mundo que Adelaide pinta, mas apenas os seus mundos, os seus sonhos, as suas aspirações, o tempo que a viu atravessar épocas e continentes. Uma pintura de interiores onde se sente que a pintora esbraceja com falta de espaço, em busca de uma serenidade que o tempo é avaro em trazer.

Amadeu Ferreira

terça-feira, 12 de abril de 2011

Tarde Mirandesa an Sintra - 17 de Abril a las 15 h. A cumbite de la Eiditora Zéfiro TARDE CULTURAL MIRANDESA Música, Palhestras, Poesie i Lhiteratura an Mirandés NA “CASA DO FAUNO”, AN SINTRA: www.casadofauno.wordpress.com www.facebook.com/casadofauno 17 Abril, 15h-18h (Demingo) - Antrada Lhibre Música tradecional mirandesa cun gaita-de-foles (José Galvão), caixa i bombo. Apresentaçon pública de la coleçon An Mirandés, cula perséncia de bários outores yá publicados nessa coleçon - cumo Alcina Pires, Adelaide Monteiro, Bina Cangueiro, Faustino Antão i Fonso Roixo - i anúncio de perspetibas feturas i nuobas obras de la coleçon. Poesie i lhiteratura mirandesas, lidas puls sous outores. Palhestra: "Lhiteratura mirandesa: passado, persente i feturo" por Amadeu Ferreira Palhestra: "L ansino (nun oufecial) de la lhénguia mirandesa" por Francisco Domingues NOTA: La CASA DO FAUNO ye la nuoba sede de la Eiditora Zéfiro i queda mesmo delantre de l coincido Palácio de la Regaleira. Aparece i lhieba un amigo a ber se fazemos ua guapa fiesta i cumbíbio.

terça-feira, 22 de março de 2011

SE TU SOUBESSES LER UMA CARTA DE AMOR... (de Maria Mulher)

Se soubesses ler uma carta de amor, meu amor, eu voltaria no tempo, só para te escrever uma.
E dir-te-ia dos pássaros, que, por amor, voam horizontes perdidos até achar a equivalência do amor, nuns olhos de voo igual. E falar-te-ia das flores, que coabitam espaços só para criar jardins. E contar-te-ia as vezes que o vento muda de norte ou se veste de brisas, só para não magoar nuvens tresmalhadas ou não desviar beijos fugazes.

Falar-te-ia da confiança com que a semente se enterra na terra, húmida e fria. E da fé nascida nos olhos, frágil e pequenina, a necessitar do amparo de mãos amorosas, para a cuidar...
Da consciência da própria individualidade, para aprender que ao nosso lado existe gente. Que também sente.

Falar-te-ia ainda, se tu soubesses ler uma carta de amor, meu amor, que o amor nasce perfeito. Que nasce nú e inocente de pecado original.

Pedir-te-ia, meu amor, - se tu soubesses ler uma carta de amor e se eu pudesse voltar no tempo, - que me amasses como quem ama uma flor. Que me cuidasses como se me tivesses amor. Que me respeitasses com se eu fosse Tua. Igual e Mulher. Companheira e Forte. Flor e Frágil.

Dir-te-ia, amor, que comeria contigo a maçã, sim. Que correria todos os riscos contigo. Que não me importaria de ser expulsa do Paraíso. Que não me importaria de me vestir, por pudor, e, tão pouco, que só tu soubesses o tom da minha pele. E que, muito para além da pele, o meu maior gosto seria ser só tua, em pensamentos, palavras e emoções... (mesmo em omissões...) por amor, tudo isso, só, só, só, por amor.

Mas eu sei que sempre soube que nunca serias capaz de ler uma carta de amor... e esse foi o meu pecado mortal: ser capaz de as escrever...

Mesmo assim, meu amor, escondi-as todas, para não te inspirar ciúmes das palavras.
E regurgitei a maçã, para me purificar por dentro.
E deixei que me marcasses, para afirmares a tua posse.
E transformei-me em mãe, para conseguir amar-te.
E amei-te, para disfarçar o medo.
E temi-te, para sobreviver.
E fui só tua... mesmo amarfanhando todas as cartas de amor que não te escrevi.



Postado por Maria Mulher no blogue Telhas Caídas.
Espero que a autora não se importe de que o partilhe com os meus leitores.

No murmúrio das ondas ( I )


Falava como quem quer espantar demónios do corpo, espiar culpas. ...
Sim, eu sei que também tenho culpa, secalhar tenho a culpa toda por me ter deixado reduzir ao ínfimo pó de trigo, esmagado pela mó do abandono.

Tu desculpa roubar-te o teu tempo e fazer com que vivas as minhas dores, passes a mão pelas nervuras das minhas folhas, em pele enrugada precocemente.

Fala amiga, fala como se estivesses numa cadeira de psicanalista. A desvantagem é, tão só, a minha especialidade não ser essa, ou quiçá lá no fundo será, se o teu desabafar te aliviar as penas....

No início dizia-me:
Os teus cabelos são espuma de mar, daquela espuma de rebentamento suave das ondas, nas minhas mãos, nos meus lábios.Os teus seios são maçãs acabadas de colher carregadas de orvalho numa manhã de Outubro. Os teus vales onde o rio corre sereno, depressa são mágma quando te toco com dedos ágeis, voracidade de quem bebe, mastiga uma iguaria com tempo, para dela tirar o sabor mais requintado. A tua pele tem sabor a mel, perfume a jasmim, frescura de linho lavado na barrela de cinza e água a ferver, metido num cortiço para que branqueie quente.

Depois, tu sabes...
O sentimento de abandono, o cumprir de rituais para defender aparências, o entusiasmo porque se está a imaginar a fazer amor com outra que algures está noutra cama, deitada em lençóis de seda e lingerie de alta classe, comprada pela lingerie que eu não tinha. Ao fim, a indiferença, quando se olha para os lençóis de todos os dias.
E fui deixando, e fui ficando sem cabelos de espuma, sem maçãs orvalhadas, sem vales que brotavam magma...
A tristeza tomou-me a alma, a revolta apoderou-se do coração, e agora, querida amiga, estou seca. Seca como bambú de cadeira de baloiço no jardim, com o sol a pique dias sem conta, anos a fio, dias de chuva a retirar-lhe o verniz da sua tez e, com o entranhar da humidade, a corroer-se aos poucos.

Agora é tarde, sinto que estou desfeita e incapaz de amar alguém.
Não, não quero mais confiar e perspectivar amanhãs...

Falava como se em pensamento estivesse a rebobinar os dias mal vividos, a sofrer com o tempo que, ingrato não tem retrocesso.

Eu acreditei, na verdade sinto que nessa altura podia acreditar, continuava.

Ouvi sem ter pronunciado um som que fosse, como se eu fosse alguém que virtualmente só lia num chat e não teclava um só caracter.
O tempo tudo cura amiga, disse-lhe por fim. O tempo tudo traz, quando, de coração aberto, nos abrimos à vida.
Acredita que terás tempo para sentir amanheceres.

segunda-feira, 21 de março de 2011

A poesia na grinalda


Hoje, dia mundial da poesia, com a Primavera a despontar nos gomos das flores, deveria escrever um poema.
Queria escrever um poema simples, de palavras lançadas ao vento, sem rima nem métrica, livre como os pássaros, a voar livremente nos céus.
Fico-me por este fragmento de mim, texto que pode ou não ter o sabor de poesia dependendo de quem o leia e da forma como o sinta.
Eu sinto-o agora, assim, assim, no peito, na alma, na ponta dos dedos. Depois lanço-o ao vento como papagaio que se solta das mãos duma criança e não mais o recordo. Só agora, prisioneiro por breves momentos, neste teclar incessante e nervoso, me pertence.
Hoje, com o sol a brilhar, a Primavera a tentar penetrar-me nos poros, seria justo que o poema me aflorásse sob a forma de grinalda de primaveras e campaínhas, a enfeitar a minha cabeça, a coroar-me raínha, igual à que, com mestria, construía em criança.
Mas não!
Hoje nada quer comigo a poesia!!!...


domingo, 20 de março de 2011

Lembro-me, e não quero!

Lembro-me do tempo em que as açucenas povoavam o meu jardim, brancas e imaculadas, pele de seda, seios a apontar o caminho, para diante, sempre para diante, a caminhar entre os dias, os segundos que queria ultrapassar para que os meus canteiros se enchéssem de rosas rubras.
Pobre açucena, varrida pelas giestas de uma vassoura de ilusão!
As rosas, quimeras, usadas em vão, de espinhos cravejadas como a coroa de Cristo.
Se ao menos o seu perfume intenso eu tivesse guardado num frasquinho de cristal!

Lembro-me do tempo em que me dizias que o ar que eu deixava ao passar te fazia lembrar amoras silvestres e te cheirava a madressilva.
Tudo muda pela acção do tempo, ou será o tempo uma desculpa para justificar a não existência do jasmim que por mim trepava e que depois sucumbiu, jazendo no chão a meus pés. Tu sabes do que falo, sabe-lo pela chaga do punhal que ficou na carne quando tiveste que arrancar-lhe a raíz já seca, por falta de rega.
Maldito tempo a apunhalar pelas costas enquanto corremos incessantemente e nos convencemos de que somos quase eternos.
Áh, como eu gostava que ao menos uma vez, uma que fosse, voltasse a sentir a força das ondas a empurrar o casco da minha embarcação!... Fixo-me num pôr de sol quente que não tenho, contemplo o ocre do outono e, o que me vai chegando é um frio gélido a paralizar-me os ossos.
Talvez não mais me aventure numa incursão mar dentro. Talvez eu não tenha olhos para lhe ver a transparência das ondas. Olhos sim, tenho a certeza que tenho, e desejo de lá chegar também. Talvez me falte a coragem e a força. Sim a força, muito mais que a coragem é a força que me falta e me faz recear um naufrágio. Os meus braços são restos dum canavial destroçado pela passagem dum furacão, remos frágeis e impotentes para a embarcação que quero ser.
Lembro-me do tempo. Insisto em lembrá-lo e não quero. O meu tempo é hoje, este momento em que escrevo, em que te quero aqui, para que, ainda assim, me faças lembrar um pouco do rubro que me cobriu.
O meu tempo será o amanhã, sempre que a minha mão te acene.

terça-feira, 15 de março de 2011

Do último beijo

Guardo nos lábios
o orvalho do beijo,
na pele,
os pigmentos deixados
pelas tuas mãos.
Guardo na mão
o abraço perdido no tempo
e na alma
a essência dos porvires.

Amanhã será tarde

Poisa a pressa,
apaga o tempo,
desce a cortina
a enrolar o espaço.
Senta-te na cama
por mim bordada
com espirais e cornucópias.
Lança-me um olhar,
porque meu amor,
amanhã será tarde
para mim.

Tenho uma capulana


Tenho uma capulana anrolada ao corpo,
de cores quentes,
a conservar-me na pele o calor de África.
Nessa capulana
corre un rio a transbordar
o tempo das enchentes
e,
abriga um leito seco com capim alto,
quando se faz noite no meu peito.
Tenho a capulana bordada de sois vermelhos,
luares claros,
mar morno a aquecer a minha alma
quando o ar que respiro
me chega dum glaciar.
Desço a capulana até à cintura,
enrolo-lhe o tecido
à altura da minha liberdade,
e,
livre,
danço o merengue,
a marrabenta,
ritmos sensuais
a espalhárem-se pelos céus da minha cama.
Tenho uma capulana
a elevar-me até ao cume da minha imaginação.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Hoje quero estar só

Tenho necessidade de estar só, disse-te um dia.
Olhaste para mim como se tivesse dito a maior das barbaridades.

O meu espírito vagueia pelo mundo, passeia pelas ruas e não vê nada nem ninguém.
Desculpa-me mendiga que estavas na mesma esquina onde sempre te vejo e te lanço um sorriso com a moeda. Desculpa, mendiga! Por não te ver, se calhar te faltará uma moeda para o leite  que precisarás para os filhos logo pela manhã, servido na barraca fria, onde, apesar de tudo, tens electricidade para aquecer as malgas no micro ondas.

Às vezes penso se este desejo de solidão não será uma atitude de profundo egoísmo, como se fosse uma pintora de reflexos luminosos que não mostra as obras que pinta, como a poetisa que não divulga os seus estados de alma e assim, uma e outra, não ajudam outros seres a compreenderem-se, a identicarem-se com esses reflexos, essas alegrias ou a falta delas.
Hoje quero estar só, para pintar, para escrever, para me dar através dos sons do meu silêncio.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Estendo os meus passos

Estendo os meus passos
E a milímetros paro
Paro e reparo
Que me dói o andar.
Estendo os meus passos
Nas pernas cansadas
Por vezes magoadas
De tanto caminhar

Estendo os meus passos
Os passos incertos
Em medo encobertos
Que quero deixar.
Estendo os meus passos
Em braços abertos
Em sonos despertos
E sigo a sonhar

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Para adonde te cuntemple




Tengo sede de ti, mar
I quanto más te bebo
Más la sede crece
Quanto más te cuntemplo
Más me detengo a mirar.

Tamien ua fome
Para que nun hai quemida
Ye un delor que nun alebia
Ye ua soudade an crecendo
Tamanha, nacendo
Nun simpres birar.

Quando me morrir
Quiero ir
Para adonde te cuntemple,
Mar!


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Para onde te contemple

Tenho sede de ti, mar
E quanto mais te bebo
Mais a sede cresce
Quanto mais te admiro
Mais me detenho a mirar.

É uma fome que não se sacia
É uma dor que não alivia
É uma saudade em crescendo
Enorme, nascendo
Num simples virar.

Quando morrer quero ir
Para onde te contemple, mar.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Num rio

Levadas as sedas pelo tempo
Sulcada a pele que as cobria
Basta-me sem um lamento
A água a correr menos fria
No rio onde navego, leve

As margens amparam o espelho
Onde me olho tranquila
As dores seguram o leito
Fecundado pela vida
Num viver de quem se atreve

Nascem flores nas suas margens
Freixos, silvas e salgueiros
Onde seguro as imagens
De sonhos sempre primeiros
Para que em sonhos me eleve

Deixou-me o tempo o encanto
Tecido na minha essência
Deixou-me o tempo um recanto
Com um punhado de inocência
Para que a meninice preserve

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dói-me

Dói-me a saudade
Do tempo
Em que as minhas pernas
Eram rebentos
Os meus braços madressilva
O meu corpo formigueiro
A minha alma macia.
Dos teus olhos
A despirem-me
Em pleno dia

Dói-me a saudade
Do decote
Resguardando os seios
E a seda que os tecia.
Da saia interior de cetim
A refrescar o pulsar
Dum corpo que te pedia

Dói-me a saudade
Do tempo
Em que as letras da saudade
Eu nem sequer conhecia

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Oswaldo Montenegro - Metade





Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza

Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
E a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
E a outra metade não sei

Que não seja preciso mais que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é a canção

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Oswaldo Montenegro - Se Puder Sem Medo

Se Puder Sem Medo

Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava

Oswaldo Montenegro

Com o vento

Voltei com um vento agreste
a procurar o doce cheiro
que um dia me ofereceste.

Detive-me nos lameiros
nos rios e nos cabeços
e foi lá que encontrei
esse almejado cheiro.

Nunca alguém mo ofertou!
Se calhar nunca passou
com febre, de um vão delírio
ou quimera que findou.

Tenho-o impregnado na pele
procurá-lo não preciso...

É cheiro a flores
nascidas livres com a lua
É cheiro a ervas crescidas
como eu cresci na rua.

É cheiro a terra molhada
a trigo, a feno e a palha
a fome, a trabalho, a enxada
a suor
com que o campo se regava.

Chega-me agora em saudade
em retratos descorados.
Das portas chegam-me os cheiros
dos bancos abandonados.

O cheiro que me vem agora
sai de dentro da televisão
já não me chega das cozinhas
em amistoso serão.

Cheira-me a fome e a sede
sem ser de água ou de pão
cheira-me a falta de afectos,
de solidariedade e união.

Depois,
quando peço ao vento
que me transporte, ligeiro
no meu corpo
nem sempre encontro
aquele que foi o meu cheiro.

Serenidade

Quero ser pedra
polida
num rio
correndo sereno
no aluvião do leito

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Foi

Foi para ti
que rasguei o vento
roubei da chuva a frescura
sustive o ar e o tempo
superei a flor em doçura
e me perdi

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

na aridez dum leito

Sei dum rio
da sede nascido
nos vales ardentes
que quando bebiam
mais sede sentiam.
As sedes ficaram
e secaram o rio.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Na macieza

Dou-te um verso
não para que completes
o poema
mas tão só
para que nele deites
a tua mão de seda

O começo de uma viagem virtual

Faz hoje dois anos que publico poemas na internete.
O primeiro, no site Luso Poemas, precisamente no dia un de Janeiro de 2009, escrito nesse mesmo dia.
Depois criei este bloque e logo a seguir o Cuontas i Nobidades de la Speciosa.

Aqui deixo esse poema.






De azul me pintaste



De azul me pintaste
Tão forte era a tinta
Do lápis azul
Que me amordaçaste

Tão forte era o lápis
Da tinta azul
Que a minha alma vincaste
E com vincos profundos
Me transformaste

Os vincos e manchas
Com lágrimas esfreguei
Tão fortes e tantos
Em dolorosos prantos
As lágrimas esgotei

De zul me pintaste...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Pétalas

Floriu-me a rosa no peito
Floriu-me a rosa na mão
Caiu-me a rosa sem jeito
Pétalas espalhados no chão

Tirei os espinhos à rosa
Para ela não picar
Tirei o relógio ao tempo
Para o tempo não escapar

O relógio foi seguindo
E o tempo em seu andar
E a rosa desfolhada
Continuou a cheirar

E eu abracei o tempo
As pétalas, uma a uma apanhei
O tempo deu-me conselhos
Com as petalas eu medrei

Floriu-me a rosa na alma
E lancei um cravo ao vento
Cresceu-me a força no peito
Mais forte que é o tempo

E com essa força a medrar
Eu não me dou por vencida
E vendo a rosa a brotar
Eu corto os espinhos à vida

sábado, 25 de dezembro de 2010

Como me doi!!!

Sinto um cansaço terrível que me tolhe os passos.
Tenho os músculos com espasmos que me contraem os tendões.
Quero caminhar, mas esta inércia de vagalume gelado prende-me, os pés estão frios, a boca dormente, a língua presa.
Quero chamar-te mas tu não olhas para trás, não ouves. É que da minha boca sai uma brisa leve, tão leve, tão gasta e o som das minhas palavras que fica retido no meu peito, não chega a ti.
Quero lançar as palavras numa folha branca para ta mandar pelo vento, mas a tinta não adere, esguicha e mancha-me o vestido, mancha-me o corpo.
Quero compor uma melodia com o som das palavras que não saem, mas a pauta ficou desfeita num vendaval e as teclas do piano estão partidas.
Como me dói esta impotência, como me dói o tempo!
O tempo, sempre o tempo!...
O tempo que não tenho, o tempo que me mata, o tempo que há-de vir, sempre o tempo.
Tenho uma nuvem de poeira branca depositada pelo tempo, em cima dos ombros, no xaile negro. Soprei a poeira para com ela te mandar, em neblina, o aroma do meu corpo. A poeira petrificou e não fez neblina e eu tenho os ombros doridos, cansados.
Onde estás, condor de asas fortes para me levares para longe?
Onde estás tu, águia de bico forte, para me partires os pedragulhos que me imobilizam o corpo?
O condor não veio, a águia também não.
Luz difusa inundou-me o quarto e acordei do pesadelo.
Abri a janela, o veda luz e saudei o sol radioso que prometia um dia quente.
Saudei a vida, saudei o tempo, cantei!

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=84776#ixzz199fxE1FC
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Bebo em ti, palavra

Se vires que deixei de escrever vem ao meu encontro e alisa-me as rugosidades dos dedos, raspa a tortura que me assola a alma, sacia a fome que me nasce no corpo e me come gulosamente as palavras.

Se vires que deixei de escrever vem tirar para trás os lençóis que se me enrolaram ao corpo, múmia inerte que mexer não posso.

Se vires que deixei de escrever, retira o dique que me travou o rio que me corre nas veias, me queima os músculos, me rebenta a lava da paixão contida das palavras.

Escrevo com a força do inocente que se quer libertar das correntes que o sufocam.

Escrevo com a fúria do leão enjaulado por lhe terem tirado o sabor doce da savana e a frescura da floresta.

Escrevo com a candura do flamingo, em bandos, levantando voo do lago.

Escrevo com a sede de perdido no deserto, em miragens de oásis frescos.

Se vires que deixei de escreverr, não te molestes. Vai seguindo sempre as marcas dos meus pés varrendo o pó do chão, perdidos de cansaço. A seguir eu escreverei, como quem come e continua faminto, quem bebe e permanece sedento, quem se liberta e aprisiona, se emancipa e se prende, se encanta e desilude.

Escrevo, porque bebo de ti, palavra,...a minha sã loucura!
Tanto correu o rio das palavras sem que eu soubesse em que rocha, em que monte, brotava a nascente desse rio!...Tantos dias, tantos anos!

Tumultuoso, largou as rédeas, saiu das margens, correu desaustinado, formando aluviões onde cresciam poemas.

Abriram-se janelas na virtualidade dos tempos e o rio perdeu o norte, correu em ziguezagues, pulou montanhas, mudou o sentido da corrente, perdeu o rumo.

Houve um ponto em que lhe fiz sinal para parar como se dum autocarro de província se tratasse para nele estrar ou tão só para lhe fazer um cumprimento, um aperto de mão, um beijo. Não sei, já nem sei o que foi. Só sei que a partir desse encontro se me mostra em deliciosas palavras e segue com a serenidade do rio de planície, lançando frescura até a foz, rio sem pressas procurando enfim un oceano balanceante e sonhador.

Vão-lhe saindo as palavras arrastadas na corrente, carregadas umas vezes de espuma branca de algodão na leveza de um soriso, outras, de detritos arrancados à força às entranhas dum leito triste...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

No dia que era noite...

No dia em que te mostar a minha alma por dentro e te disser que tenho frio, abraça-me porque o frio tolhe-me,engole-me as palavras, congela-me vogais e consoantes e em vez de poemas faz crescer glaciares.

No dia em que te mirar com os olhos tristes, afaga-me o rosto, canta-me melodias ao ouvido com as tuas doces e sábias palavras, bem junto ao ouvido para que nenhum som se evada.
Depois, olha-te no espelho que os rios tristes dos meus olhos formam. Vê-te nele, e, nele verás o motivo da minha tristeza.

No dia em que me vires junto ao despenhadeiro na iminência de saltar no vazio dos sentimentos gastos, segura-me... Não me deixes tombar no túmulo dos meus dias sem sol, das minhas noites sem estrelas.

No dia em que me vires sem ter dentro de mim as andorinhas a esvoaçar, viajantes de outro trópico, mensageiras das flores, deita sobre mim um cântaro de água da fonte para que a minha pele esverdeça e nela me nasçam novamente lírios...

No dia que era noite...
Na Primavera que era Outono...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Lançamento do livro, Antre Monas i Sbolácios, na Escola Secundária de Gama Barros- Cacém
















Foi uma festa fantástica, a do lançamento do meu livro na escola onde ensinei durante vinte e sete anos, dedicando a uma causa os melhores anos da minha vida.
Foi acima de tudo uma festa de amizade e de afectos, porque a Gama Barros sempre foi uma escola onde as carreiras profissionais não colidiam com o respeito e amizade entre as pessoas.

Valeu a pena ter aos poucos envelhecido em tão digno lugar.
Obrigada a todos: Aos presentes e aos que por uma razão ou outra não puderam estar.

Lançamento do meu livro em Mirandês

O dr. Marco Almeida, Vereador da Câmara de Sintra escreveu:

Acredite que eu é que me sinto recompensado por ter tido de oportunidade de convosco ter estado.
Fiz questão de dar conta disso no meu blogue:
http://viver-sintra.blogspot.com/2010/12/poesia-em-mirandes.html
Cumprimentos.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O barco é corcel, o barco é meu leito

O tempo é corcel
troteando a vida
em sinuosos caminhos.

Há um rombo do tempo
no barco a sangrar
e há a gaivota perdida
sem mastro a chorar.

Chora alvoradas
em que os cios das águas
despertavam marés
e sente-lhe as mágoas
a rebentar o convés.

O barco é corcel
o barco é meu leito.

E o tempo tão célere
foge-me dos horizontes
em inúteis esperas
de melhores marés
no corcel do meu peito.

O barco a afundar...
E a gaivota esvoaça
no cimo do mastro
doutro barco a passar.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sei dos esboços...

Não sei que caminho tomar para seguir-te, não sei a que vento, não sei a que calmaria, a que tempestade ou bonança encomende os meus passos.
Vivo na intemporalidade dos sonhos, na permissão dos dias, na anuência dos esboços que se me semeiam no percurso que se me vai traçando.
Não quero o ontem, vivo o hoje e, com esse viver eu traço os caminhos de amanhã em desenhos subtis que se me gravam no peito, me trespassam a alma.
Quem sabe se o futuro terá tinta na paleta!...
Há-de ter! Diz-mo o esquiço que vou fazendo na alma e que me pede mais pinceladas desse tempo que há-de ser tempo de temperança.
Não sei que caminhos tomar para chegar, abraçando tempos de solidões marcadas em traços ténues para que se vão apagando nos dias, nas noites, nos crepúsculos, nos amanheceres.
Sei dos esboços, sei do hoje em luta por um amanhã.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Chega-me...


Há um frio cortante no ar que me chega ao Planalto, vindo da Serra de Sanábria já branca, tonalidades do tempo de Natal.
Há um calor imenso que me chega da paisagem lindíssima que através dos vidros vislumbro, tons vermelhos, ocres e castanhos, paleta que tantas vezes elejo na minha pintura.
Olho para as telas dependuradas nas paredes, de tons quentes, para logo a seguir os meus olhos se espraiarem pelas matas de carvalhos com pequenas nuances verdes aqui mais próximas e, abstraindo-me dos caixilhos da porta e semicerrando as pálpebras, vejo um quadro que bem poderia ter sido eu a pintá-lo.
Chega-me o aroma a marmelo, o cheiro adocicado da marmelada feita ao pé do lume ao serão, uma mais doce, outra intermédia em doçura e para mim com pouquíssimo açúcar, já que gosto dela a saber ao marmelo.
Chega-me o som do crepitar da lenha a fazer-me companhia e a conversar comigo, neste silêncio em que gosto de permanecer depois de todos se deitarem.
Chega-me o aroma do licor de poejo, de hortelã da ribeira, verdes como o mar e de sabores com a frescura campestre e o doce amargo do de cereja silvestre, dum vermelho escuro lindíssimo. Hoje à noite outro aroma se lhes juntará, o de folha de figueira, ainda a macerar na despensa.
Chega-me o som dos sinos a indicar-me a hora marcada de deixar as correrias de infância, o recolher a casa, a comichão que as camisolas e meias de lã de ovelha que a minha mãe tricotava me causavam, mas que tinha que vestir porque eram quentes.
Chega-me a saudade antes de me ir...
Chega-me...

sábado, 6 de novembro de 2010

Vai!

Há um aperto que o teu olhar denuncia que não te deixa ver com nitidez o oceano onde por hábito te soltas.
Há uma lágrima a fazer dique no rio do teu sorriso.
Há um aperto na tua alma que não te deixa sonhar.
Deixa que a lágrima deslize no meu ombro, depois destila-a e com ela rega a flor que te está a murchar no regaço. Olha-a e observa os estames que de repente se carregaram de pólen. Nada é mais belo que uma flor no regaço de mulher.
Solta-te!
Solta-te, como se fosses um papagaio nas mãos duma criança que, inadvertidamente, o deixou escapar num dia de ventania.
Vai!

Queres ser papoila

Já foste papoila
Moçoila
De trigais
De caminhos
E carreiros
Dianteiros

Já foste papoila
Moça
De vermelho
Excitante
Estonteante
Aroma.

Queres ser papoila
Madura
Cor esvanecida
Vivida
Vida
Ternura.

domingo, 31 de outubro de 2010

Carl Orff: Carmina Burana

Tchaikovsky Suite do Bailado 'O Lago dos Cisnes' 1 e 2

Não sei

Não sei
se o que avanço é com os passos
que as minhas pernas autorizam
ou se, pelo contrário,
elas entraram em colapso
e caminho
com a inércia dos passos caminhados.

Esmago
a fúria contra os rochedos
dum oceano revolto,
aperto o peito,
sustenho o respirar
para que nos olhos
não cresça a raiva,
em vez de lágrimas.

Suspeito
que o mundo onde me largaste
não é o meu mundo,
o campo onde me movimento
não é o meu espaço.

Ó céus,
para quê tantas estrelas cadentes,
tantos meteoritos a incendiar a terra
e a cavar fossos
cada vez mais profundos
entre as gentes?!

Ó terra,
vendida por mercadores,
hipotecada ao futuro,
sem garantias,
com promessas de Éden,
não deixes!!

Não sei se quero avançar
neste estádio acabado,
ou antes regredir,
voltar a larva
e assim ficar.

Não sei
se caminho
para este futuro incerto
ou se paro,
semente perdida
num deserto!...

Almas gemeas

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Paleta

Às vezes
Há uma paleta a que faltam pigmentos
Cores que talvez não identifique
Não procure, ou
Procurando não encontre
Mas avanço

Há vazios
Que permanecem incolores
Onde a tinta não agarra
As palavras não dançam
A música não vibra
Tudo pára
Nada alcanço

Depois
Completo a paleta
A tela enche-se
As fontes brotam palavras
Os sons produzem melodia
E eu
Danço, danço

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Talvez um dia

Talvez um dia eu vá
como se estivesse perto,
aonde em sonhos mitigo
as sedes de longo deserto.

Talvez um dia eu encontre
o que deixei soluçando.
Talvez depois eu te conte
o que solucei deixando.

Talvez um dia eu abrace
o que ao longe eu abracei,
envolvendo-me em teus cabelos,
nas tuas águas nadei.

Talves um dia eu vá
comer da terra vermelha
como chama de alimento
para esta paixão acesa.

Talvez um dia eu entre
nos teus frondosos mangais
talvez eu escreva poemas
em papiros dos pantanais.

Este talvez é certeza
que no peito me pulsa firme
pois nunca será incerto
um querer assaz sublime.

sábado, 16 de outubro de 2010

Aconchega-me

Aconchega-me, neste Outono morno, para que o meu corpo retenha o calor que me há-de desfazer o gelo que se me agarra no Inverno.

Ampara-me o corpo para que não caia e ajuda-me, no meio destes ruídos, a destrinçar o canto do rouxinol que pousa nesta árvore cujos ramos entram pela janela da sala que me serve de refúgio aos meus dias pardacentos.
Estou cansada dos sons que me chegam do écran para onde já não ouso olhar porque só injustiça lá assoma.
Tenho estado calada, demasiado calada, pois eu sei que a este meu longo silêncio se seguirá uma tempestade de palavras com que te contarei a imensa raiva que me vai na alma por tudo aquilo a que assisto atónita, boquiaberta, impotente.

Aconchega-me, neste dia soalheiro, para que eu retenha o sol que me alumie os dias em que a alma está envolta em denso nevoeiro.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Há palavras

Ha palavras que são gelo
outras sol em glaciar
Há palavras que fazem rir
Outras que fazem chorar.

Há palavras que ficam
presas na sílaba mais profunda
e há palavras que saem
livres
sempre a saltar.

Há palavras
que são lanças
duma guerra que não querem
Há palavras que são gritos
cansadas de seu penar.

Ah,
mas há palavras que são olhos,
mãos, pele,
deleite
e doce mel
duma nascente a brotar...

sábado, 9 de outubro de 2010

Calaram-se as guitarras...

Segurámos o prato na mão, sentámo-nos no muro e degustámos o prato frio de salada variada com pequenos pedaços do peito de galinha caseira. O tempero era apenas azeite, vinagre e ervas aromáticas, colhidas no canteiro próximo da cozinha. Fomos seguindo a bola vermelha que aos poucos se ia escondendo atrás dos montes, deixando um clarão vermelho no céu que lentamente se foi dissipando, até que noite caiu.

Depois, pegámos nas guitarras e sentámo-nos sobre o banco de pedra, virado a nascente, onde uns minutos mais tarde a lua surgiu redonda, enorme e resplandecente, justamente la linha do horizonte traçada pelo monte sobranceiro.
Fomos tocando. Eu apenas deixava cair a mão nas cordas porque mais nada sei fazer, de modo a acompanhar o ritmo da canção.

De repente surgiram os sons da noite: a rãs incansáveis, os grilos às centenas aqui e acolá, com aquele cantar ininterrupto, uns muito perto, outros mais longe e, ainda mais longe, o mocho piava num ritmo certo. Os nossos dedos paralizaram e as nossas guitarras calaram-se sentindo-se impotentes, inúteis...
Os sons da noite calaram as guitarras!...
Encostámo-las a uma rocha que estava junto ao muro e ficámos em silêncio, sem darmos conta do tempo que passou. Quando por fim olhámos para a rocha já não as conseguimos distinguir, tornaram-se transparentes, quase invisíveis...

Não há orquestras que superem os sons da noite, quanto mais, simples guitarras!
Lá permaneceram na sua silhueta quase invisível até ao romper da aurora.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

dos teus olhos...

Uma vida vazia. Vinte e cinco anos de uma vida cheia de nada! Acordei de madrugada e escrevi num papel que estava na cabeceira a palavra MOTE. No dia que entraste no meu quarto para leres o romance que tinha escrito para preencher o vazio perguntaste-me o que significava. Nem mesmo passados que foram vinte e cinco anos fui capaz de to dizer.
Há vinte e cinco anos os nossos lábios estiveram quase colados quando nos mirámos a uma distância ínfima; ambos quisemos, ambos desejámos ardentemente, mas afastei-me e disse-te apenas adeus, ao mesmo tempo em que me virava para entrar na gare de onde o comboio partiria dali a escassos segundos.
Tu correste atrás ainda a tempo de encostarmos as mãos no vidro, e, pude ver as tuas lágrimas, à medida que corrias.
Vivi um casamento que não sobreviveu à recordação dessas lágrimas.
Tu, com dois filhos que adoras, vives uma relação do faz de conta. Não precisas de mo dizer, vejo nos teus olhos, uma relação sem temperos. Vinte e cinco anos vazios!
Peguei no papel e finalmente escrevi a letra que faltava e fui ao teu encontro.
AMOTE: Finalmente fui capaz de to dizer...
Finalmente, o beijo desejado!...

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Já nem sei

 
Posted by Picasa



Tanto tempo se passou, tantas canseiras, tantas ponderações, tantas asneiras, tantos desgostos, tantas alegrias, tantas marcas, tantas montanhas galgadas, tantas quedas nos vales profundos desenhadas em vincos do rosto.
AH! Primavera, quem me dera ter-te de volta para me empurrares o Outono pardacento...
Qual serenidade do Outono, qual maturidade no agir!
Falta-me a força, a paixão está a secar, a pele retesa-se, o corpo encarquilha-se, a alma desalenta-se, os passos perdem-se, o vento sibila a anunciar o Inverno...

domingo, 26 de setembro de 2010

...o espelho das tuas vaidades

Vives do charme somado no teu sorriso, fruto de markting, preciso, certeiro, tão certeiro como golpe de bisturi num corpo anestesiado.
O mundo a teus pés!!! Julgas tu, no auge da imbecilidade de que te vestes.
Fazes do horizonte o espelho das tuas vaidades sem te lembrares quão frágil é a linha que separa o céu da terra.
No auge da tua quimera, uma trovoada cairá sobre a terra, o horizonte será engolido por uma nuvem negra e, a alta temperatura dos raios fundirá o vidro do espelho...
Mostrar-se-á o monstro com o sorriso amarelo de Adamastor...

Vazia

Tenho a mão vazia
Aberta
Como pedinte
Sem esmola.
Prostrada
Inerte
Dos gestos
De despedida

Doem-me os dedos
De tão cansados
Dói-me a alma
De tão aberta
Dói-me a mão
De tão vazia...

domingo, 19 de setembro de 2010

Hei-de...

Chegas-me Outono
a saber a Setembro,
a despedir-me
dos estios grávidos de luz,
que me bronzeiam a pele desnuda.

Chegas-me Outono
em coisas perdidas,
na incerteza dos dias,
incerta a vida,
incerto o Inverno...

Sorvo-te Outono,
sôfrega,
enquanto o meu corpo é dia,
noite o meu sonho,
enquanto no meu regaço
couberem as folhas
que se me desprendem do manto.

Hei-de deleitar-me
com as aves últimas,
sobreviventes à queda da folha,
molhadas pelas primeiras chuvas
e resistindo aos crepúsculos.

Hei-de aconchegar-me ao Inverno,
sentindo as cores do Outono...

sábado, 18 de setembro de 2010

Sien tropicones,...siempre!

Ontem comemorou-se o dia da língua mirandesa. Em homenagem à minha primeira língua deixo aqui este texto.



Calhórun-se ls paixaros, las águilas de las arribas parórun sou bolo ne l alto de l cielo, l´auga de l riu parou de correr, las árboles cerrórun sues fronças, ls grilhos i ls ranacalhos çquecírun sous cantos, l sol scundiu-se atrás de nubres, la lhuna deitou-se cedo, las streilhas cerrórun ls uolhos ne cielo húmado...

Todo parou para que se acendíssen belas i se cumemorásse l die an que ua lhéngua zorra fui aporfelhada por sou pai.
Naquel die, eimocionou-se cun l pormeiro abraço...

Tamien onte l caírun lhágrimas cara abaixo cun ls poemas que l dedicórun, las cantigas que l cantórun, cun las risas, cun ls sonidos que yá eran de la sue giente, cun ls recoincimientos feitos a quien por eilha perdiu nuites i dies i anhos...

Eimocionou-se quando un fidalgo que nunca l´habie falado, la arremedou an sou çcurso…
I que bien la arremedou, i que afouto fui an sou ampeço de fala al pie de tanta giente que siempre la falou i agora la scribe...
I falou de ti, siempre de ti i de todos ls porjetos que naçírun para que tu medres…

Calhou-se l Praino, les reloijos parórun naquel ouditório, calhou-se la nuite para oubir la música que saliu de tues antranhas atrabeç la çanfona, la rabeca, la gaita de foles, la fraita, l bombo, l rialeijo, la caixa.
Cantórun ls moços i,... ancantórun.
Cantórun ls ninos cun l feturo, afinados.

Apuis, acendimos-te mais uns fachucos para que camines sien tropicones,… siempre!...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

DÓCIL NAUFRÁGIO (Poema de Stérea)

Salga-me a carne o mar que navego,
Caustica-me a alma o vento à deriva
E gaivotas gementes mergulham-me os olhos,
Perdidos na linha onde pesco horizontes...

E as vagas embalam-me,
E o barco é meu berço,
Entrego-me, esqueço...

Salpicam-me os olhos gotas de tormenta,
Fustiga-me a esperança a vela rasgada,
E os risos disformes das nuvens em ânsia
Agitam o ventre do silêncio incontido...

E as vagas embalam-me,
E o barco é meu berço,
Entrego-me, esqueço..

Cerra-me o círculo uma praia sem terra,
Atinge-me o golpe do naufrágio que mina
As areias dóceis do meu abandono,
E as gaivotas pousam, em preces aladas..

Aladas de branco,
Aladas de paz,
Que a espuma, de raiva, desfaz...

E as vagas embalam-me,
E o barco é meu berço,
Entrego-me, esqueço...


Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=119819#ixzz0zXaQZXwc
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

A planta da amizade

Visitei-te envolta em saudade
A ti amiga de longas batalhas
Que construíram a amizade
Em alicerces de fortes muralhas.
Hoje
Ao separa-nos
Prometemos não estar
Tanto tempo sem nos ver
Para que mais vezes
Os nossos olhos reguem
A planta da amizade...
Cumpramos a promessa,
A pretexto dum café
E um copo d´água talvez
Bebidos sem pressa...

.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Na insustentabilidade…

Poderia dizer-vos quem fui, quem quero ser, mas nesta hora, neste momento em que escrevo, existe o agora e agora nada mais sou que as letras que aqui deixo, neste canto de casa, nesta esquina de folha branca transformada num écran frio e incapaz de vos fazer chegar o meu perfume, de vos mostrar as lágrimas nas manchas marcadas pela tinta esborratada no papel, de vos fazer sentir a macieza do papel de seda, de vos fazer chegar o som das folhas a passar entre os dedos, uma atrás da outra, com as letras voltadas para a mão esquerda porque só assim ficarão organizadas para meter no envelope.
Aqui, neste grão de areia onda me sento, sou o que ficou do poema que o poeta me dedicou. Li-o e reli-o, virei-o e virei-me do avesso e a ele de pernas para o ar, para ver se lhe interpretava todas as metáforas. Parei na última... e não consegui!...
Com as mãos a tremer deixei cair o poema ao rio, lá em baixo, na parte em que as escarpas são intransponíveis. Lá se foi o poema com a metáfora virgem onde a minha alma não foi capaz de entrar.
Fugiu-me com o que resta de mim, metido numa metáfora que a água do rio esborratou e que jaz algures no fundo do mar, envolto em algas verdes, embalado por cada balancear das ondulações até que um dia saia, agarrado a um remo de um pescador.
Hei-de deter-me na insustentabilidade da derradeira metáfora, sentada numa sílaba do poema!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Quem sabe!!!

“Aceno com a mão frágil do meu destino. Aceno ao embaixador para os refugiados, um homem que há-de fazer com que eu dia seja médico. Hei-de ser, juro que hei-de ser...
É um homem bom, só pode ser um homem bom, aquele que vem a este fim do mundo, mundo de guerra, de violações, de sangue. Assim ele pudesse levar-me daqui... Eu sei que não verei a minha mãe, o meu pai, os meus irmãos, não, não verei ninguém. As balas trespassaram os seus corpos famintos, eu vi, e eu fingi que não via, para que também eu parecesse morto e uma bala bão me entrasse no corpo.
Depois trouxeram-me para este campo onde a violência espreita em cada esquina, nesta escuridão da noite interminável, porque a noite aqui se prolonga pelo dia, noite escura de violações feita, de sangue tecida.
Hei-se ser médico, eu sei. Agora que a luz me chega ao meu canto durante umas horas sempre que eu pique o ponto na escola, já posso estudar todos os dias até altas horas.
Hei-de ser médico! Agora que a luz eléctrica me entra pela noite eu juro que serei…”

Poderá ser isto o sentimento daquele menino do Sudão, um menino desta realidade macabra, onde Darfur é mais um lugar do mundo onde há milhares de órfãos com sonhos, eu diria, na sua maioria utopias, milhares sem eles sequer, onde nem há certezas quanto à sua sobrevivência.
Todos os dias cresce o número de meninos a precisar de um médico e dum bocadinho de amor e dignidade...
Que se cumpra o sonho!
Tocou-me este menino com toda aquela capacidade de sonhar, apesar de viver em condições hostis, fugido duma guerra fraticida e vivendo noutra não menos guerra...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O verde orvalhado



Rumo ao mar no verde dos teus olhos
e lá me detenho sem dar conta
de que o mundo freneticamente corre.
Lá vejo ondas que me massajam os sentidos,
apanho búzios para os pôr nos ouvidos
quando longe eu te quero,
encostando ao rosto as carícias bejes de madrepérola.
À vezes pressinto nos teus olhos cardumes tristes,
perdidos no labirintos das algas,
a fugir da luz
para se esconderem nas profundezas dos corais.
E lá ficam,
a mirrar de fome e sede,
nesse mar de flor de sal,
reluzente como mica.
Depois,
olhas-me com a leveza das flores,
com a profundidade dos veios das montanhas,
e brotas na nascente
a tremer de pressa...
O verde dos teus olhos é de erva orvalhada
no lameiro dos meus desejos...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Isto doi!!!

Preciso que os passos que caminho superem aqueles em que fico estática.
O meu espírito agita-se, trabalha constantemente, cria, cria tanto! Ah, se estas mãos inertes e este corpo cansado pelo cair da folha me acompanhassem o espírito, então a minha casa seria um museu de arte contemporânea e um celeiro atafulhado de letras.
Porque será que as pessoas se enganam tanto quando dizem da sorte dos outros quando vêm o fruto da sua criação??!!
“Que sortuda que tu és que passas o tempo a fazer aquilo que gostas!!!”
Se soubesses meu amigo o quanto custa parir este monstro que ando a gerar em imaginação, dias sem conta!
Se esta mente que me cansa de tanto se agitar desse ordens aos braços e às mãos para que se agitassem e se desfizessem em ritmos esquizofrénicos de pincéis e tintas, numa explosão de cor e poesia, então eu não teria casa ou rua ou bairro, onde coubessem as minhas suadas loucuras.
Espasmos, ameaças de aborto, desejo de suspender a gravidez, vontade de ter gémeos, desejo ardente de fecundar arte num antro de pecado,… tudo isto já sentiu quem alguma vez ousou criar.

Mas a dilatação é tão dolorosa!...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Partida

Sento-me no chão para te sentir mais perto
Descalça te caminho, com o passo certo
De nevoeiros me visto, de vestes despida
Sinto-te por drento, choro-te na despedida

Estendo os meus braços num abraço infindo
E assim fico, pensando estar contigo
Ah, se tu soubesses quanto me doi o peito
Ao partir agora, sempre deste jeito

Mas hei-de voltar, prometo-te e juro
Para ancorar em porto seguro
Dedos cruzados beijo, selando a promessa
Para que me esperes, me abraces sem pressa.

Ó terra querida se me quisesses tanto
Quanto eu te quero,e que te deixo em pranto
Prendias-me a uma laçada, na argola da vida
Não me deixavas ir e davas-me guarida

domingo, 29 de agosto de 2010

Lágrimas ocultas(Florbela Espanca)

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

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