Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

terça-feira, 29 de março de 2016

Quando me dizes, poema


Quando me dizes mar, poema,
dizes-me vaga em mar alteroso.

Não me digas assim, poema!
Pois tu não sabes que o meu nadar 
é feito de frágeis braçadas, 
respiração descompassada, 
braços e pernas desatentos,
corpo inábil, 
na iminência de afundar.

Se me quiseres dizer, poema, 
diz-me rio, 
apressado
ou calmo, 
vadio, 
ou constante,
esticando com suas águas, 
as ervas que lhe são margens, 
ou dormindo sobre os seixos 
que lhe são leito e
no espelho beijando o céu.

Diz-me também ribeiro,
apressado, 
à beira do precipício, 
suspensa a respiração, 
arrepios na espinha, 
e o abraço a dar-se,
o remoinho a formar-se, 
uma força a sugar
toda a espuma em alvoroço 
e aí sim, 
na loucura do rio, 
eu serei vaga alterosa, 
envolvente, 
apaixonada, 
sem pé 
nem chão.

sexta-feira, 25 de março de 2016

O poema inacabado



Tento segurar  o poema inacabado
e agarro-me às silvas,
ainda que saiba que as mãos ficarão rasgadas
e as pernas trémulas do medo
da fragilidade das hastes
perante o meu peso.
Procuro numa mirada rápida um arbusto
que me sugira ser mais robusto,
mas nada vejo.
Penso: Terá que ser o silvado 
a livrar-me da queda
no chão rochoso do despenhadeiro. 
Assim,
tomo-o como um amigo verdadeiro,
aperto  com força
e ele
tudo faz para me manter o brilho na voz,
a lua no olhar
e, nas mãos
o poema continuará
por  acabar.

terça-feira, 15 de março de 2016

Habitas numa rua de olhos tristes


Habitas-me no olhar mesmo em reflexo
e ouço o barulho da bengala,
surdo, frouxo,
a bater contra as agruras do granito,
duro, incerto,
o mesmo que galopaste nos tempos,
em que no teu olhar habitavam lírios
e no teu corpo floriam girassóis.
Habitas-me no peito em imensidões,
mais do que savanas,
em cores de picadas ocres e vermelhas.
Habitas-me,
mesmo que à mesa o teu prato esteja imaculado,
muito menos que a tua voz doce,
muito menos que a bondade do teu coração,
muito menos do que tu
e muito menos que tudo a que não demos voz.
Habitas numa rua de olhos tristes…


15.03.2016

quarta-feira, 9 de março de 2016

Uma Mulher entre tantas...


Marcou-te a vida o rosto.
O trabalho as mãos
No coração
há resquícios de desgosto, 
à mistura com perdão

Menina 
foste tão pouco, 
por falta de tempo de ser... 
Trabalho, choros, canseiras, 
embrulhados em brincadeira 
que mal conseguiste ter

Mãe, 
cresceste comigo, 
dando-me a teta na ceifa, 
quente, tão quente que ardia, 
no meu corpo pequenino, 
na sombra sempre fugidia, 
do carvalho ou do freixo

Enrolas os feijoeiros 
com sonhos que desenrolaste, 
olhas e tens agora medo,
dos caminhos que trilhaste, 
Apoias-te ao meu aconchego, 
contas dias, somas dores, 
sentes ainda alguns desamores,
de injustiças que te fizeram

Está o teu olhar sereno, 
quase a esboçar um sorriso, 
estão as mãos em desassossego,
o corpo quase que ri.
Fitas-me como que a dizer, 
ainda bem que te pari!

A ti mulher/mãe/menina
8/03/2016

domingo, 6 de março de 2016

Amizade, poemas, palavras - Apresentação do livro Gritos, Ecos e Silêncios, de Adelaide Monteiro, na CTMADL









Há dias em que uma pessoa rebenta de contentamento…
Nada é mais importante neste mundo do que a amizade, ter amigos que ao olhar-nos nos dizem: o que se passa hoje? Não estás bem; ou fica-te tão bem essa flor no cabelo! Mesmo que nos sintamos desajeitados e a ocupar demasiado espaço, as palavras dos amigos fazem com que nos sintamos umas estrelas.
No passado dia quatro, António Cangueiro apresentou o meu livro nesta casa, duma forma sábia e perfeita. No começo, quando disse umas palavras sobre Amadeu Ferreira e leu um poema da sua autoria, em mirandês, as lágrimas começaram-me a nascer.
É um poema que bem podia ter sido escrito para mim, pensei. Recordo o verso, “das rosas, guarda o perfume”.
Bem poderia ter sido escrito para mim, disse eu. O meu livro tem alguns poemas que lhe dediquei, a maioria escritos desde que adoeceu. Muito mais lhe dediquei desde que partiu, mas não estão neste livro, disse, depois de ter lido o dito poema, em português.
Senti um nó. Depois, respirei fundo duas ou três vezes e o vazio foi-se enchendo à medida que o apresentador ia falando. Uma cebola, dizia ele: umas vezes a abrir-se, casco a casco, a fazer chorar quem dela se ocupa para fazer o guisado, desencanto, raiva, revolta, para logo depois voltar ao centro da cebola: força, serenidade, amor, erotismo; outra vez, casco por casco.
Frases saídas dos poemas, umas flores a saltar dos olhos do seu dizer, a língua mirandesa a pular de contentamento por se estar a fazer ouvir, uma sala cheia, atenção redobrada para tudo entenderem, na língua que não conhecem mas minimamente entendem, pois pediram que fosse em mirandês. Uma palavra ou outra, o António repetia-a em português, por lhe faltar semelhanças.
Depois foi a minha vez de falar para os meus amigos: amizades desde a infância e da juventude, outras das “ terras do pôr do sol vermelho e trovoadas”, Moçambique; outras nascidas ao longo dos anos, no trabalho ou fora dele; outras que o mirandês fez nascer. Se por mais não fosse, valeu a pena este encontro, pois revi amigos que não via há anos. Outras amizades nasceram nessa tarde.
Em frente, a Praça de Touros transmite-nos calor através das sua cor tijolo, quente, bem precisas para o dia escuro e frio, umas vezes com pequenas abertas entre nuvens, outras, a chover.
Antes das seis as pessoas começaram a subir ao terceiro piso, degrau a degrau, daquele prédio antigo com elevador mas que só transporta quem tiver a chave que o faça mover-se.
Os carros buzinam nas ruas molhadas, e, em filas são como chichos em chouriças. Primeiro por ser hora de ponta, segundo por causa da chuva e de ser sexta-feira e para pior, molhada.
Abraços, beijinhos, conversas entre amigos e aos poucos a sala foi-se enfeitando de gente, a ocupar todos os lugares nas mesas redondas.
Elsa Moreira, responsável pela cultura, na Casa, começou por nos apresentar,
Fez-se silêncio na sala. Lá fora, os carros buzinam, a água bate nas janelas. O António começou a abrir os cascos da cebola e, mais nada se ouviu.
Eu, à medida que ia mostrando a estrutura do livro, fui lendo um poema de cada capítulo. Seguiu-se a Bina Cangueiro que com a sua pronúncia perfeita, sempre encanta, e o Leonardo. Leram ambos em mirandês. A Cremilde Esteves e a Romana, leram em português. Aplaudidos sempre.
Seguiu-se “ o Vinho do Porto” e algo mais, para que não caísse em fraqueza.
Era hora de jantar.
O Palácio Galveias, ali ao lado, não deu conta de que outra língua oficial fazia eco tão perto. Temos que oferecer livros em mirandês à sua Biblioteca, porque, seara que não se semeia, dela não se espere colher grão…
- Amisade, poemas, palabras
- Apersentaçon de Bózios, Retombos i Siléncios, na Casa de Trás ls Montes de Lisboua
Hai dies que un nien nel cabe, de tan cuntento star…
Nada ye mais amportante neste mundo que l´amisade, que tener amigos a mirar ne ls nuossos uolhos i a dezí-mos: que se passa, hoije? Nun stás bien; ou que bien te queda
essa flor ne l pelo!
Anque un se sinta que nien un aternate a acupar mais campo que debie, las palabras de ls amigos fázen cun que un se sinta ua streilha…
L atrasado die quatro, Antonho Cangueiro apersentou l miu lhibro, Bózios, Retombos i Siléncios, na Casa de Trás ls Montes de Lisboua, dua maneira tan sábia i porfeita, que ne l ampeço, quando dixo uas palabras subre Amadeu Ferreira i liu un poema del, an mirandés, las lhágrimas ampecórun-me a nacer.
Ye un poema que bien poderie tener sido screbido para mi, penso. Recordo l berso, “de las rosas, guarda l oulor”.
.Bien podie tener sido screbido a pensar an mi, dixe you. Ten l miu lhibro alguns poemas que screbi para el, l mais deilhes screbidos çque se achou malo. Muitos mais screbi, apuis que mos deixou, mas nun stán neste lhibro, dixe, apuis de haber lido l tal poema an pertués.
Senti un nuolo. Apuis resfolguei fondo dues ou trés bezes i l uoco fui-se anchendo al modo que l apresentador iba falando. Ua cebola dezie el: uas bezes a çcascá-se casco por casco, a fazer chorar quien deilha s´acupa pal guisote: zancanto, raiba, rebuolta, para lhougo apuis ir al centro de la cebola: fuorça, serenidade, amor, eirotismo; outra beç casco por casco. Frases salidas de ls poemas, uas flores a saltar ne ls uolhos de l sou dezir, la lhéngua mirandesa a poular de cuntenta por se star a fazer oubir, ua sala chena, atençon al drobo para todo oubíren na lhéngua que nun sáben mas que anténden, puis fúrun eilhes mesmos que la quejírun oubir. Ua palabra ou outra, Antonho repetie an pertués, quando, por nun tener asparecéncias cun l pertués, nun serie antendida.
Apuis fui you a falar para ls mius amigos. Amisades que yá bénen de la nineç i jubentude, alguas deilhas; outras, de las “tierras de çponeres burmeilhos, de atronadas” , Moçambique; outras, nacidas al lhargo de ls anhos, ne l trabalho i fuora del; outras que l mirandés fizo nacer.
Muitos amigos yá nun ls bie bai para un par d´anhos.Solo por isso baliu la pena haber screbido l lhibro, para star cun eilhes, pals abraçar…Outras amisades nacírun nessa tarde.
Delantre, la Praça de Touros trai-mos la calor atrabeç de las sues quelores de tejolo, calientes, bien precisas pal die scuro i friu, uas bezes cun sol a salir an racicas antre nubres, outras, a chober.
Un cacho antes de las seis de la tarde ampeçórun las pessonas a chubir al terceiro piso, scaleira a scaleira, daquel prédio antigo cun eilebador mas que só lhieba quien tenga la chabe pal fazer salir de l sítio. Ls carros nas rugas molhadas apítan i, an correlinas son que nien chichos an chouriça: a la ua, por ser hora de salir, a la outra, porque ye sesta i inda porriba, molhada.
Abraços, beisicos, cumbersas antre amigos i a pouco la sala fui-se anfeitando cun las pessonas a acupar todos ls lhugares nas mesas redondas.
Elsa Moreira, repunsable pula Cultura de la Casa, ampeçou a falar i apersentou-mos, a mi i al apresentador de l lhibro, Antonho Cangueiro. Fai-se siléncio na sala.
Fuora, ls carros apítan, l´auga bate nas jinelas. Antonho ampeçou a abrir ls cascos de la cebola i, a mais nada se dou fé.
You, al modo qu´amostrei l spinaço de l lhibro, fui lendo un poema de cada capítulo. Seguiu-se Bina Cangueiro que cun aqueilha pernúncia guapa, siempre ancanta i Lionardo, lírun an mirandés, Cremilde Estebes i Romana, an pertués. Todo mundo daba palmas.
Seguiu-se “l Bino Fino” i algo mais, para que nun caísse an fraqueza. Éran horas de ciar.
L Palácio Galveias, eilhi a la borda, nun se dou de cuonta, que outra lhéngua oufecial fazie eilhi retombo, bien acerquita… Hai que dar uns lhibricos an mirandés a la sue Biblioteca, porque, senara que nun se semeie, nun puode granar…
Adelaide Monteiro

Uma imensidão




Há uma imensidão de mar
entre o vermelho do crepúsculo
e o alvorecer dos sonhos
quando de olhos fechados te vejo
içando velas,
endireitando o leme,
levando o veleiro ao cais.


Há uma imensidão de crepúsculo
dizendo adeus ao meu adeus
quando o dia me morre nos dedos
e a lembrança se me atiça
nas silhuetas dos montes
onde me nascem poemas,
onde sinto o eco das águas
da ribeira em suicídio,
nas escarpas dum vale fundo
e me chegam ecos da canção.

E mais imensidão…
A aurora a despontar…

O rio a lançar-se ao mar,
o rouxinol a cantar
o salgueiro a balançar,
a ribeira a transbordar,
a espera, o rio,
espuma, ondas,

espasmos, cio…

terça-feira, 1 de março de 2016

Às ervas que sempre ervas verdes, serão...

BILINGUE
A las yerbas
que siempre yerbas berdes,
hán-de ser…


Yerba,
flor de chougarço i temielho,
medrados ne ls granicos de puolo i tierra
cun que fazies l mundo,
paixarico cun çubiaco i a cantar,
flor a beisar.
Stan las faias de las arribas
hoije mais sgúbias;
anque nun las quejisses ber cun uolhos tristes,
slhagrimonórun pula nuite anteira.
L zimbro medrado na peinha,
a quemer puls spinos,
stá hoije algo mais drobado,
algo mais triste,
anque quando por el passabas le dezísses:
Nada nien naide te bote abaixo,
tu sós la fuorça d´ampossibles,
la fuorça de la natureza an sous lhemites!
L mesmo riu,
las tues palabras
an retombos nas arribas...
A ti, Amadeu
1-03-2016


Erva,
flor de chougarço e tomilho,
medrados nos grãos de pó e terra
com que fazias o mundo,
passarinho
a fazer ninho i a cantar,
flor a beijar.
Estão os penhascos das arribas mais molhados;
mesmo que não os quiseses ver com olhos tristes,
choraram a noite inteira.
O zimbro medrado na peinha,
a alimentar-se pelos espinhos,
está hoje um pouco mais curvado,
um pouco mais triste,
mesmo que ao passar lhe tivesses dito:
Nada nem ninguém te derrube,
tu és a força dos impossíveis,
a força da natureza em seus limites!
O mesmo rio,
as tuas palavras em ecos nas arribas...
A ti, Amadeu Ferreira, um ano depois
1/3/2016

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A tua primeira mala

(Imagem da net)

A tua primeira mala de viagem não era de cartão.
Meteste lá coisa pouca: vestuário velho, outro novo, uns sapatos de pele de bezerro feitos pelo sapateiro de Sendim, uma mão cheia de timidês, outra menos cheia de sonhos. Ninguém pode ter grandes sonhos quando os horizontes nada nos desvendam. Mesmo assim, acho que eras muito sonhadora. Os teus sonhos tinham uma passada pequena, isso sim!
Coisa pouca, cabe numa pequena mala de madeira. Era vermelha com uma ferragem forte, negra, onde encaixava a fechadura. Junto à ferragem uma asa pregada com pregos. Uma autêntica caixa de ferramentas. Pintade de vermelho, ligeiramente rectangular, linda.
As camisas de noite foram posteriormente mandadas fazer à pressa, depois de a tua mãe ter recebido o recado de que na cidade não se dormia com a combinação usada durante o dia. Chegaram tempos depois, o tempo de comprar o tecido na feira e a tia Clementina as fazer na máquina de costura. Éram de franela com flores. Duas mudas de camisas de dormir e combinações porque o inverno estava para chegar. Uma combinação igual a cada camisa, que, cortando duas peças do mesmo pano, sempre se poupavam uns centímetros de tecido que ainda poderiam dar para fazer um par ou dois de cuecas.
Chegaram quando a tua mãe arranjou portador que fosse a Miranda, num saco de retalhos, apertadas contra a fogaça de trigo, dentro duas alforjes de bolras, em cima duma burra.
Mesmo que tivesses visto aviões, aquelas pontinhas reluzentes a deitar fora riscos de fumaça, a passar entre as núvens ou a cortar o céu limpo, houve um tempo em que dizias que ias para o Brasil, com a Virgínia, na burra ruça da avó Ana. Parece-me que não te pareceu verdadeira a história àcerca dos aviões, quando te contavam que lá iam pessoas.
A Virgínia partiu, mas a burra ruça nunca se aventurou a tal viagem.
De São Paulo mandou-te, anos depois, um lenço para a cabeça, que ainda guardas como relíquia, com outras coisas que igualmente estimas, numa caixinha de cartão. Nele foste dependurando sonhos, vaidades, desilusões, alegrias.
Hoje é apenas uma relíquia onde passas a mão quando vais ver se entrou a traça na caixa. É tão macio quando o encostas aos lábios! Cada vez que o olhas e lhe dás um beijo, é um beijo que dás à Virgínia, por te ter oferecido uma vaidade tão singela, tão suave.
A Virgínia já faleceu. O lenço está lá, a contar a história

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Cun piel de pita




Duolen-me ls dedos
a fuorça de ls querer andreitar,
cánsan-se-me las manos
de tanto las sfregar,
ancarambínan-se-me las palabras,
quédan-se coladas a la çancenhada
agarradas a la betoneira,
entra-me aire pula jabeira,
bai a salir a la camisola
i a la tabra de la chola.
Nun hai lhume
capaç de calcer esta frialdade,
nun hai risa
que me faga l peito bulhir
sou mais státua de carambelo
i la sola cousa que mexe
ye l pelo mais la çamarra
an piel de pita,
ua corriente que por mi cuorre
que quaijeque me fai tolhir
La lhuna a la nuite nada me diç,
l sol nien s´assoma para me sunrir,
l aire alhebanta-me las einaugas,
lhieba-me la gorra i l prefume,
trai-me auga i apaga l lhume,
l pouco que me restou,
de l restrolho que me quedou
dun berano que se me scapou.
Quando benirá febreiro
para me namorar a la ramalhada,
quando benirá márcio
i me medre la ferranha,
me traga la spiga abril
i que seia soalheiro,
maio me flura i me grane,
me caleça i me cunte
muitos anhos, anho a anho...
Tengo friu,
cumo yá tenerei palanho!...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Janelas




Há janelas que nos levam o olhar para
longe,
outras nos dão apenas o espaço a um pestanejar.
Há janelas que nos vestem com reposteiros,
outras nos desnudam, ...
nos levam a horizontes de infinito.

Há janelas que são lua cheia
e nos fazem sonhar.
Há janelas que apenas moram
na beleza dum olhar…

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Numa gota de orvalho

                                   
 Quando a noite desce à minha mão
e acorda os fetos
que lá nasceram com a frescura do orvalho,
cresce em mim a vontade de beijar os rebentos,
de segurar as folhas,
de fechar as portas ao frio,
de abrir os braços à Primavera. 

 
Quando desce a noite à minha mão
 e me refresca a rosa e afaga os espinhos,
me espelha a face no cetim das pétalas,
e com as folhas me encera a tez,
ferve o vulcão, aquece o tempo
e cresce em mim o desejo de ficar
e de me abrir ao novo dia.
 
 
 
Imagem da net
                                               

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Esta janela

Esta janela virada para o mundo foi aberta há sete anos. Faz hoje sete anos.

 Um dos meus primeiros quadros a óleo s/ tela. (Outra janela...)




Através dela muitos pássaros libertei,
muitas alegrias partilhei,
choros, risos,
gritos indecisos,
gritos fundos,
desejos recalcados,
libertinos,
sonhos de mulher e de menina.
Através dela,
fui mais longe,
viajei,
caí em mim e regressei,
tirei bilhete de ida e volta
no mundo da fantasia,
escrevi crónicas,
deixei voar poesia,
escrevi-me,
escrevi-te aqui e além,
tantas vezes não escrevi ninguém.

Sete anos se passaram,
muitos sonhos nasceram,
outras voaram,
sete grãos de pó sobre o meu rosto
a alimentar as raízes que nele se fixaram,
uma flor a crescer no meu olhar
um canteiro a florir,
um jardim sem folhas
que a primavera há-de vestir,
sete palmos de terra a cobrir,
outras amizade a nascer,
tantos poemas aprisionados,
tantos escritos e libertados
sempre que esta janela se abriu
nestes sete anos.


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Num aroma picante de gengibre




Se quiseres sentir o pulsar do meu coração
e o aroma que todas as manhãs ponho na pele
em salpicos picantes de colónia de genjibre;
se quiseres sentir as cores quentes
a incendiar-me o rosto,
vindas dum pôr de sol de fogo,
segue o meu olhar...

São as cores do sol poente que me cativam,
me enlouquecem e obrigam
a partir desnuda para o outro lado do universo.
Uma brisa tapa-me o corpo,
tapa destapando,
tapa desnudando e excitando
os olhos famintos na ponta dos versos.

Espraio o olhar sobre o azul dos cabeços,
silhueta do planalto dourado,
dunas dum mar noutro hemisfério,
onde as acácias flamejantes reflectidas no espelho d´água,
as nuvens brancas de flamingos em voo matinal,
despertam com a fragancia do meu pulsar.

Assim parto!,…
estendo-me nas dunas,
adormeço com o rebentar das ondas,
voo com as gaivotas,
pouso no mastro do navio
e nele regresso.

sábado, 8 de agosto de 2015

Violetta


Constato
que nunca te escrevi um poema.
Como poderão as letras deslizar
no rio das minhas mãos,
se tu és rio,
és fonte,
és água a correr cristalina,
delta a afogar-se no mar.
Como poderia a caneta,
em branco papel deslizar,
se tu és feita de seda,
veludo,
cambraia,
linho acabado de lavar.
Como poderia eu escrever-te um poema,
se tu própria és um poema!?
No teu olhar há métrica,
cadência no teu andar,
há rima nos teus abraços,
há lua no teu brincar.
Como poderei escrever-te um poema
se tu és a minha antologia!?
8.08.2015

domingo, 2 de agosto de 2015

Secou


Passou por entre os dedos
Por entre os fios dos cabelos
Voou com a brisa
Antes que poisasse nos dias
Em que a fagulha acesa
Podia incendiar os risos
 

Calaram as pontas dos dedos
Cegaram os poemas
Secaram as fontes
Choraram os montes

 

Procuro água





Ouve o sussurro da sede
a crescer no meu peito,
logo que acordo
e quando me deito!

Não sei se os sonhos
beberão em fontes
enquanto dormem.
Mas como podem beber em fontes
se acordam com os lábios secos?!

Procuro água,
uma gota que seja,
deixada pelo orvalho
numa folha tenra.
O sol sorveu-a!

Secou o poço
no seu ventre seco,
a terra tem os pés gretados,
as vestes desbotadas,
a pele a descamar.

Procuro água,
que mais não seja
pra pôr os sonhos
a demolhar...

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Vestes que desnudam

...coro,
com os cabelos tapo o rosto,
fixo a calçada com o olhar,
nos bolsos escondo as mãos trémulas
e, escondida no meu siléncio,
proferindo palavras mudas,
cubro-me toda de vestes,
e ainda assim,...
desnuda te abraço
e a beijar-te
adormeço.




sábado, 7 de março de 2015

Haverá um dia…



Bilingue



Em cada dia
que me sinto dia
sei que é o dia
que terei
como quero e sei.

Sei lá se amanhã
será amanhã para mim
pois que no ontem
algo protelei.
Aperto os cordões ao dia
para que não tropece
e caminhe
desatando os nós à vida.

Haverá um dia
em que me sentirei noite,
mas nesse dia
não chorarei os dias
que deixei que a noite
a luz lhes roubasse
e assim os dias
não víssem o dia.


Há-de haber un die...



An cada die
que me sinto die
sei que ye l die
que tenerei
cumo quiero i sei.
Quien sabe se manhana
será manhana para mi
puis ne l onte
de algo me deixei.
Agulheto ls cordones
als dies
para que nun déian
tropicones
i camínen
çfazendo ls nuolos
a la bida.

Há-de haber un die
que me sentirei nuite
mas nesse die
nun chorarei ls dies
que deixei que la nuite
la lhuç le roubasse
i assi ls dies
nun bíssen l die.

 

quinta-feira, 5 de março de 2015

Bi la tue risa

A Amadeu, adonde steia!



(Bilingue)

Quien sticará l die madrugada afuora,
quando l siléncio nace na cidade?
Quien será farol na aldé
apuis que las bumbielhas de la ruga
se apáguen?
Quien será cumpanha
apuis que ls delores apérten?
Quien será beneiro
por adonde mánen las palabras?
Quien será nino
a sigurar la boladeira de ls suonhos?

Na preça de casa
deixabas colgado un cerron
cun la lhéngua
cun que nunca t´aquestumeste a sonhar.

Apuis que cerrabas la puorta,
outra s´ancarrapitaba por ti
i te fazie cumpanha na spertina.
Çque la cidade ardie
cun l nerbioso de formigueiros a botar gente,
cargabas ne ls ombros la cerrona
para amanhar modo de remendar ls buracos
que outros fazien an muitas bidas.

Quien mirará pal sien abrigo
para ber se se lhabou
ou s´inda ten la camisa
toda cagada, de la biespura?!

Hoije a la pormanhanica,
quando bi ua flor acabada de salir
i a mirar para mi cun un sunriso abierto,
bi nessa flor la tua risa…


Vi o teu sorriso


Quem prolongará o dia
madrugada fora
quando o silêncio nasce na cidade?
Quem será farol na aldeia
quando as luzes da rua se apagam?
Quem será companhia
quando as dores apertam?
Quem será veio
por onde brotem as palavras?
Quem será criança
para segurar o papagaio dos sonhos?

Na entrada de casa
deixavas dependurado um saco
com a língua
com que nunca te habituaste a sonhar.
Depois fechavas a porta
e outra se enleava em ti
e te fazia companhia até a desoras.

Logo que a cidade ardesse
com o nervoso de formigueiros a deitar gente,
carregavas nos ombros a sacola
para conseguires remendar os buracos
nas roupas que outros faziam
nas vidas de muitas pessoas.

Quem olhará o sem abrigo
para ver se tomou banho
ou se está ainda a usar
a camisa suja da véspera?

Hoje de manhazinha,
quando uma flor acabada de abrir
me sorriu com um sorriso aberto,
vi nessa flor o teu sorriso...




Adelaide Monteiro
5/3/2015

segunda-feira, 2 de março de 2015

Hai buracos piores que galatones


 
Quedou un buraco i nun haberá aire
que para el puolo arrastre,
nien anxurrada que l´encha cun nata.
 Hai buracos  piores que galatones!...
 Fondos  i cun ls lhados ásparos,
 guincharros a ferir la raíç de las palabras.

 Solo ua árbole agarrada a chano firme,
 cun raízes fuortes,chena de ganas de bibir
deixa un buraco fondo,
porque arrincada por ua airaçada
a la falsa fé.
 
 Las outras,
aqueilhas que se ban deixando morrer
porque la fuorça le bai faltando,
 ls anhos le pésan ne ls tuoros carunchosos,
ou siempre bibírun maribundas,
essas, an menos de nada, cáien-se
anque cun un airico lebe.
Apuis apodrécen spandeiradas
i deilhas naceran setas, ne l tuoro pocho. 

Ah! Mas hai-las, anque cun malina,
nun se déixan secar,
 lhuítan  i cuntínan-le tuoros a medrar,

énchen-se de fuolhas i flores
 i dan fruto l anho anteiro. 

Apuis hai un bendabal
que a la falsa fé las arrinca,
le stronca las raízes na tierra biolada,
cuscorones nácen,
guincharros quédan a doler,
la tierra sufre mas nun se queixa
porque mais árboles ténen que nacer
d´ua alma que se fui
ou cumo querie, eiqui se quedou
para nacer bida,
ua singela flor que séia… 

Hai buracos
que son piores que galatones
i só las palabras deixadas,
le fazerán quecuolho!…

 

1 de Março de 2015 , l die  que Amadeu Ferreira mos deixou

 Adelaide Monteiro

 

Seguidores

Arquivo do blogue