Acerca de mim
- Adelaide Monteiro
- Sintra/Miranda do Douro, Portugal
- Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Lembranças poídas
Há as paredes negras
a lembrarem dias
noites com candeia
camuflando vincos
traçados nas vidas
Há a mão ágil
tecendo a meia
e sempre fazendo
os fios da vida
com que vai tecendo
Há o armário enfeitado
com papeis recortados
de jornais não lidos.
Amareleceu-os o tempo
o tempo e o fumo
dos manjares não servidos
Servidos na malga
e num prato
onde todos jejuavam.
Servidos nos campos
em suores amargos
com que se deleitavam
Há o lavatório
à entrada da casa
onde passam mãos
lavadas à pressa
fervendo em brasa
Há a criança
a chorar
nas costas cansadas
e há a fome a minar
em ventres meninos
há a lágrima a secar
no rosto da mãe
esticando vestidos;
e abaixa a baínha
e cose os rasgões
vira o tecido
vira o colarinho
e muda os botões
Muda, muda e troca
de vestido, a saia
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Adelaide Monteiro
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12/05/2017 10:06:00 da manhã
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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
Me perco
Vi-te ao longe quando a minha sombra era sobejamente
conhecida dos meus olhos. Eras Atlântico, verde, lindo. Inacessível também
embora agora saiba que arrastavas a areia com as tuas ondas, ali bem perto de
onde morei. Soube-o quando me passeei o ano passado na marginal de Gaia.
Na
altura nunca imaginei que tivesse o mar não muito distante. Naquele tempo tudo
parecia longínquo e inacessível. Era o tempo em que as roupas eram escassas, os
pés descalços, os sapatos caros para os gastar em caminhadas inúteis, os
automóveis, de ricos, os tostões para o autocarro, muito caros, o conhecimento
curto, o mar em imagem.
Tão perto sem que te tenha tocado, sem que me
levasses para longe no balançar das ondas, olhos famintos desejosos de
horizontes mais distantes. Ouvi o teu som num búzio encostado ao ouvido quando
visitei um parente dum marinheiro. É o murmúrio do mar, disse-me e disse-o
naquele tom de quem se sente conhecedor do mar só porque tem um búzio sobre a
mesa e porque ouviu umas histórias a um marinheiro. O som podia não ser
completamente fiel ao bater das ondas, as histórias podiam ser uma hipérbole,
mas, na verdade, aquele ancião do interior sabia muito mais de mar do que eu
sabia.
Eu sabia! Eu sabia que o meu olhar de centelha,
desejoso de outros horizontes havia de poisar nas ondas, viajar pelos
horizontes longínquos a confundirem-se com o céu no exacto ponto onde o sol se
põe, onde as águas fazem espelho e as gaivotas já nem pontos são no firmamento.
Era Índico. De manhã calmo, agitado à tarde. Às vezes
também era raivoso de manhã, mudava de humor frequentemente, umas vezes mais,
outras menos, dependendo da praia. Um dia virei-lhe as costas para fugir duma
onda; engoliu-me e vomitou-me depois. Eu engoli água, muita água, água e areia.
O grupo em grande divertimento a cortar ondas e a saltar ondas em grande
euforia não se apercebeu. Lembro-me que me senti enrolada trezentos e sessenta
graus não sei quantas vezes e depois fui trazida para a areia como concha vazia,
pela onda que me serviu de tábua de salvação. Fui forçada a tossir e a água
armazenada finalmente saiu e respirei. Sobrevivi e não mais me aventurei em
ondas traiçoeiras e, sobretudo nunca mais virei as costas ao mar. Agora
abraço-o. Do Índico tenho uma saudade infinda. Abraço o Atlântico. Fui perdendo
o trauma e aos poucos, tornei-me amante do mar. Breves incursões noutros mares
mais calmos, dorminhocos mesmo e, para dizer a verdade, é na ondulação que
gosto me sentir viva.
Lamento
ter que te confessar, Atlântico, a ti que com paixão platónica amei. És para
mim uma sombra de uma lenda que vivi num Oriente de costa, onde as águas eram
tépidas, onde as praias eram imensas onde o sol ardia não fossem as sombras dos
pinheiros que povoavam as dunas e quase se aventuravam mar dentro.
Apesar
disso, apesar de seres frio, apinhado de gente e motas de água, aprendi a
amar-te e a paixão platónica de início, transformou-se em carnal, não sendo
capaz de estar muito tempo sem te visitar.
Me perco…
Bebo-te
com as mãos
Beijo-te
com os olhos
E
acarinho-te com o corpo
Quando
por ti adentro
Entro
…
Mar
de espuma, revolto
Transparente, verde
Aroma de beijos
Força de abraços
Poltrona de seda
Onde me deito.
Mar, mar!
Mar tão imenso
Paquete de cristal feito
Que me leva a viajar…
Contigo vou
Contigo volto
Na tua brisa.
Transparente, verde
Aroma de beijos
Força de abraços
Poltrona de seda
Onde me deito.
Mar, mar!
Mar tão imenso
Paquete de cristal feito
Que me leva a viajar…
Contigo vou
Contigo volto
Na tua brisa.
No
ondulado de teu cabelo
Mar
amado, me perco...
Me perdo…
Bebo-te
cun las manos
Beiso-te cun ls uolhos
I acarino-te cun l cuorpo
Quando por ti adrento
Me meto.
Mar de scuma, rebuolto
Transparente, berde
Aroma de beisos
Fuorça de abraços
Scanho de seda
Adonde me deito.
Mar, mar!
Mar tan eimenso
Paquete de cristal feito
Que me lhieba a biajar...
Cuntigo you scapo
Cuntigo you torno
An tou airico lebe.
Nas óndias de l tou pelo
Mar amado, me perdo...
Beiso-te cun ls uolhos
I acarino-te cun l cuorpo
Quando por ti adrento
Me meto.
Mar de scuma, rebuolto
Transparente, berde
Aroma de beisos
Fuorça de abraços
Scanho de seda
Adonde me deito.
Mar, mar!
Mar tan eimenso
Paquete de cristal feito
Que me lhieba a biajar...
Cuntigo you scapo
Cuntigo you torno
An tou airico lebe.
Nas óndias de l tou pelo
Mar amado, me perdo...
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1/12/2017 06:55:00 da tarde
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sábado, 10 de dezembro de 2016
E eu...
E eu...
Já a sombra me cobre o chão.
Qual chão, qual sombra?
Como posso ver a sombra
se não há chão nem lua,
se a noite é breu e eu cega?
Caminho na vereda,
os passos dormem,
a água do ribeiro descansa,
a árvore retrai-se
com o piar do mocho
que lhe pousou em cima.
Sem ver, a árvore assustou-se,
cresceu-lhe um arrepio na raiz,
tremeu o tronco,
balançaram os ramos
e nem uma brisa corria.
Ouvi o som da queda
do gelo que os vestia.
Tive medo, tanto medo!
Ao mesmo tempo
passou-me o gelo na espinha,
o mocho rasou-me o rosto
e muito mais eu tremia.
É mau prenúncio, pensei…
O mocho rasou-me o rosto,
o gelo gelou-me a espinha…
Nem sombra, nem lua nem chão!
Cega, a noite…
E eu…
Qual chão, qual sombra?
Como posso ver a sombra
se não há chão nem lua,
se a noite é breu e eu cega?
Caminho na vereda,
os passos dormem,
a água do ribeiro descansa,
a árvore retrai-se
com o piar do mocho
que lhe pousou em cima.
Sem ver, a árvore assustou-se,
cresceu-lhe um arrepio na raiz,
tremeu o tronco,
balançaram os ramos
e nem uma brisa corria.
Ouvi o som da queda
do gelo que os vestia.
Tive medo, tanto medo!
Ao mesmo tempo
passou-me o gelo na espinha,
o mocho rasou-me o rosto
e muito mais eu tremia.
É mau prenúncio, pensei…
O mocho rasou-me o rosto,
o gelo gelou-me a espinha…
Nem sombra, nem lua nem chão!
Cega, a noite…
E eu…
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12/10/2016 01:31:00 da tarde
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Gotas
Deslizam gotas do colo
quando te penso.
Serão lágrimas
que se feriram em quedas repentinas,
ou serão pingas de chuva,
ou serão pérolas de
orvalho?
Aí, descanso as penas,
as mãos cansadas,
as gretas que hão-de amaciar,
asperezas de vidas gastas
tempo de urgência a
passar.
Já o Outono se está a escapar…
e eu que fujo do Inverno
como o diabo da cruz!
Já os rebentos começam a dobrar,
já as vontades enfraquecem,
já o querer às vezes
entorpece,
já as forças mareiam
ao girar.
Segura os minutos às golfadas que dão a frescura!
Prende as horas para que a jornada te renda!
Aprisiona os dias para que a empreitada seja longa
mesmo que a soldada não te seja paga!
Deslizam gotas do colo
quando te penso.
Cubro de terra as sementes,
esperança de colheira
vencida que seja a invernada…
Pingas
Sgúbian-se pingas de
l rogaço
quando te penso.
Seran lhágrimas
que se scalabaçórun an caídas repentinas,
ou seran pingas de chúbia,
ou seran pérolas d´ourbalho?
Descanso ende las penas,
las manos cansadas,
grietas que hán-de
amerosar,
coscurones de bidas a
zlir,
tiempo d´ourgéncias a passar.
Yá l outonho se stá a scapar…
I you que fujo de eimbierno cumo diabo de la cruç!
Yá las fronças s´ampéçan a drobar,
yá las ganas se debélgan,
yá l querer a las
bezes s´angaramona,
yá las fuorças maréian a barimbar…
Sigura ls minutos a las golfiadas que dan l tempeiro!
Prende las horas para que la jeira te rinda!
Apeia ls dies para que l´ampreitada seia lharga
anque la soldada nun te seia paga!
Sgúbian-se pingas de l rogaço
quando te penso.
Acubro semientes,
sprança de muolo
bencida que seia l´ambernada…
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12/08/2016 05:32:00 da tarde
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quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Contigo digo-me, eu mesma!
Quando me digo contigo,
É como nadar nas águas limpas dum ribeiro,
mexer as pernas sem agitação
para que as águas não turvem,
o cantar dos pássaros não se perturbe,
os peixinhos venham em cardume às minhas mãos,
me façam cócegas
e tu língua minha,
com palavras me venhas a curar do riso.
Deitada nesse ribeiro,
sobre o céu,
Vejo o céu real por cima,
azul infinito com castelos brancos
onde vou escrevendo com tinta
que dele sorvo.
Assim fico.
Palavra atrás de palavra
que tu me vais ditando,
orquestra afinada de letras,
sensível som,
equilibrada entoação,
música de palavras que me embala
me faz dançar por dentro.
Uma nuvem está já cheia.
Passo para outra.
Uma partitura acabada.
Vira-se a folha.
Mais um violino a fingir que chora,
rouxinol na ponta dum ramo dum salgueiro,
mais sons, mais palavras,
mais cantares doutros passarinhos,
a água a correr,
o sangue a aquecer,
as palavras a nascer.
Mais peixes a espreitar o meu corpo nú,
eu escrevendo o céu,
deitada sobre o céu,
ribeiro de águas cristalinas de palavras,
contigo.
Uma brisa sacode as nuvens,
as palavras vêm voando em carreirinha,
fazem cascatas ao chegar,
ajeitam-se,
tomam o seu lugar,
juntam-se em escada,
caiem,
reorganizam-se,
umas vezes são de seda,
outras vezes de cantaria
e terra enregelada.
Contigo digo-me,
eu mesma!
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10/27/2016 10:32:00 da tarde
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sábado, 15 de outubro de 2016
Contigo
Rio Douro em Miranda do Douro- Portugal
Na quietude do teu leito
faço a cama
e descanso das rotinas
que não suporto.
Há horas
que de tão inúteis me deslaçam
e há momentos
que me tonificam os sentidos.
No correr tumultuoso das tuas águas,
a poesia agita-se,
urge correr atrás de ti,
ás vezes tropeço, outras avanço,
outras há em que me perco.
Depois,
apanho-te dianteira na corrida,
cortaram-te o caminho,
de susto espumas
mas segues depois calmo, sonolento.
Enlaçam-te as pontes,
as gaivotas saúdam-te,
o mar abraça-te e vai-te levando
e é nesse ir que eu vou...
Contigo.
Mar fora,
agitando horas mortas...
Foto de Eduardo Domingues
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10/15/2016 09:47:00 da tarde
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Voo
Sou aquela que procura paz
E que nem sempre a encontra.
Sou um puzzel onde há uma peça
Que não encaixa.
Resvalo…
A custo levanto-me e continuo a resvalar.
Em tudo resvalo
No tempo que não tenho e no tempo que me sobra
Nos caminhos tortuosos e nas alamedas perfeitas
Nos rios limpos e
Nos pisos gelados e nos caminhos secos.
Resvalo...
E embato contra mim própria.
nos lagos lamacentos
Vasculho…
Há sempre algo que não encontro
Algo que se perdeu
Numa núvem de poeira.
Os olhos procuram, lacrimejantes
Em pestanejar constante.
Fixos e ausentes deixam de pestanejar
E de repente
Algo vislumbram
Num canto esquecido, amarelecido.
Será essa a peça que procuro
Aquela que me falta encaixar?
Tento arrancá-la à força
Mas não a posso despegar.
Desvio o olhar
E não há nada.
Caminho...
Continuo a minha vida
A paisagem onde falta
Um pedacinho de azul no céu.
Voo ...
Em direcção ao azul.
A custo levanto-me e continuo a resvalar.
Em tudo resvalo
No tempo que não tenho e no tempo que me sobra
Nos caminhos tortuosos e nas alamedas perfeitas
Nos rios limpos e
Nos pisos gelados e nos caminhos secos.
Resvalo...
E embato contra mim própria.
nos lagos lamacentos
Vasculho…
Há sempre algo que não encontro
Algo que se perdeu
Numa núvem de poeira.
Os olhos procuram, lacrimejantes
Em pestanejar constante.
Fixos e ausentes deixam de pestanejar
E de repente
Algo vislumbram
Num canto esquecido, amarelecido.
Será essa a peça que procuro
Aquela que me falta encaixar?
Tento arrancá-la à força
Mas não a posso despegar.
Desvio o olhar
E não há nada.
Caminho...
Continuo a minha vida
A paisagem onde falta
Um pedacinho de azul no céu.
Voo ...
Em direcção ao azul.
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10/15/2016 09:40:00 da tarde
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terça-feira, 11 de outubro de 2016
Cheiro com cores de especiarias
Há dias em que a chuva chega sem bater à porta, molha as
soleiras e os parapeitos, a roupa do estendal que deixei enfeitado com cores de
roupa de verão e leveza de esvoaçantes de festas. Vem e pronto. Quando dou
conta já nada há a fazer. Aventuro-me à chuva para salvar algumas peças dos
sopros do vento e, antes de concluir o intento, já estou como um pintainho acabado
de sair da casca do ovo.
Há dias em que na cidade me faltam coisas que tenho no
campo. O contrário também é verdadeiro.
Estivesse eu na aldeia e a chuva não me fintaria desta
forma! O chão estava sequioso e, aos primeiros salpicos, despertar-me-ia os
sentidos com o cheiro forte a terra molhada. Teria corrido para o estendal e
deliciar-me-ia com o gotejar dos primeiros pingos e, passando debaixo do beiral, não
levaria ainda com os riozinhos suspensos que me encharcam a cabeça até os
miolos e me fazem arrepios nos ossos.
O cheiro a terra seca depois de ter sido salpicada levemente
pelo primeiro borrasco, traz-me a imagem
de especiarias garridas, das que se podem ver nos mercados da Grécia, de
Marrocos, da Turquia e tantos outros lugares como já vi também em Marselha num
mercado de rua. Acho que aquele cheiro, se se pudesse identificar a cor dum
cheiro, eu diria que seria vermelho, misturado com terra queimada e um pouco de
laranja, de açafrão. Quente, forte, sensual. Da cor da terra em muitos sítios de
África. Talvez a minha identificação de cor num cheiro, como muito quente, me venha mais desta terra do que propriamente das bancadas de especiarias que
já vi em diversos lugares. Aromas cor de terra. Vermeilhos alaranjados.
Há tantas coisas que na aldeia me fazem tanta falta e que a cidade me dá. Quando chego venho faminta: De cinema, de concertos de música clássica ao ar livre tão frequentes nos jardins de Lisboa e Sintra durante o Verão ou em salas a preços mais convidativos, bailados, museus.
Há tantas coisas que na aldeia me fazem tanta falta e que a cidade me dá. Quando chego venho faminta: De cinema, de concertos de música clássica ao ar livre tão frequentes nos jardins de Lisboa e Sintra durante o Verão ou em salas a preços mais convidativos, bailados, museus.
Sou um passarinho livre de campo, mas a cidade fascina-me e
faz-me falta e, o mar é ópio que me leva para além dos limites da imaginação.
Há dias em que na cidade não sinto que a chuva me deva
trazer o cheiro das cores quentes da terra quente e seca porque simplesmente a
acho linda e abençoa e há dias de chuva que me pesam sobre os ombros toneladas.
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10/11/2016 11:37:00 da tarde
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sábado, 8 de outubro de 2016
Diz-me
que te fazem acordar
com um sorriso a cheirar a alfazema;
diz-me dos sonhos
que te despertam o olhar
sem bocejos
a pedirem cafeína.
Caminho cambaleante
e passo pelo dia
sem lhe dar os bons dias.
Depois ele saúda-me
e segura a minha chávena de café
pelo aroma que me vai oferecendo
à medida que os reposteiros dos meus olhos
se vão abrindo
lentamente.
Diz-me porque adormeces
como o vento a
calar-se num sopro
e a vida a parar num momento.
Porque te enrolas na noite
como jasmim na
laranjeira
e nem em pesadelo cais no campo de alfazemas
que o romper do dia te oferece?
Bendita cafeína,
droga concentrada a
indicar-me
o invisível caminho da manhã!...
Diz-me…
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10/08/2016 10:55:00 da tarde
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terça-feira, 2 de agosto de 2016
Histórias para “nanar” A NUVEM BRANCA
Há uma nuvem branca tão linda no céu e o céu está tão azul!, dizia a menina, quando, deitada com a avó para que esta lhe contasse a história de sonhos, olhou através da janela.
Verdade, Violetta! Lindíssima!
Qual história queres que te conte?
A da nuvem branca,… respondeu.
“Na verdade, a volta ao mundo num mastro dum barco de cruzeiros não é o melhor da vida. Estou tão cansada e desejosa de ver a minha família!” Foram as primeiras palavras da gaivota logo que avistou os penhascos onde sempre tinha passado as noites, com a mãe, pai e irmãos.
Verdade, Violetta! Lindíssima!
Qual história queres que te conte?
A da nuvem branca,… respondeu.
“Na verdade, a volta ao mundo num mastro dum barco de cruzeiros não é o melhor da vida. Estou tão cansada e desejosa de ver a minha família!” Foram as primeiras palavras da gaivota logo que avistou os penhascos onde sempre tinha passado as noites, com a mãe, pai e irmãos.
Era uma nuvem branca, tão branca e tão fofa que era mais fofa que algodão e mais branca que neve. De onde em onde, uns laivos de azul e cor de rosa, dum tom desbotado.
Uma gaivota queixava-se da sua vida sem interesse: Que vida a minha nesta haste de bandeira, em barco de pescadores! É certo que apanho muito peixe, mas de que me serve andar bem alimentada se não há aventura neste modo de viver? Dizia isto como se estivesse a falar para outras gaivotas afastadas. (Uma vez, tinha decidido voar para longe, mas pouco depois, estava tão fraca!...Certa de que não estaria longe, regressou).
Nisto, a haste mexeu-se, balançou e a nuvem branca aproximou-se, perto, tão perto,… que quase as suas vestes brancas tocavam no mar. A gaivota pestanejou, curiosa… No meio da nuvem abriu-se uma brecha de onde saía uma voz que dizia: Olha, eu posso arranjar-te um barco grande!
Uma gaivota queixava-se da sua vida sem interesse: Que vida a minha nesta haste de bandeira, em barco de pescadores! É certo que apanho muito peixe, mas de que me serve andar bem alimentada se não há aventura neste modo de viver? Dizia isto como se estivesse a falar para outras gaivotas afastadas. (Uma vez, tinha decidido voar para longe, mas pouco depois, estava tão fraca!...Certa de que não estaria longe, regressou).
Nisto, a haste mexeu-se, balançou e a nuvem branca aproximou-se, perto, tão perto,… que quase as suas vestes brancas tocavam no mar. A gaivota pestanejou, curiosa… No meio da nuvem abriu-se uma brecha de onde saía uma voz que dizia: Olha, eu posso arranjar-te um barco grande!
A gaivota arregalou os olhos, deixou cair a cabeça para o lado da nuvem para se certificar se era voz de verdade ou se tinha delírios. Nisto, uma fada vestida com um vestido branco até aos pés, agitou a varinha de um lado para o outro e disse: Fada Lylly, vai trazer-te um barco de cruzeiros, aqui!...
Num instante o barco apareceu. Branco, grande e com tantas janelas como o hotel que a gaivota avista do seu penedo.
Num instante o barco apareceu. Branco, grande e com tantas janelas como o hotel que a gaivota avista do seu penedo.
Agora tenho que ir! Tenho seis filhas na nuvem, a quem ando a ensinar a minha arte.
Entrou, a nuvem subiu e ficou a flutuar no céu, por cima do navio.
A gaivota poisou no mastro e, ainda antes do sol posto, deixou de ver terra e o penhasco.
A nuvem branca seguiu sempre no céu, por cima do navio...
Entrou, a nuvem subiu e ficou a flutuar no céu, por cima do navio.
A gaivota poisou no mastro e, ainda antes do sol posto, deixou de ver terra e o penhasco.
A nuvem branca seguiu sempre no céu, por cima do navio...
Nisto, a nuvem foi-se abrindo, separando, dividindo, até que se formaram sete pequenas nuvens brancas, tão brancas e fofas como era a primeira.
Uma brisa ligeira foi-as embalando,… levando…
Ao cair da noite fixaram-se parecendo coladas no céu…Sete nuvens. Suspensas do céu. A maior, a da fada Lylly.
As fadinhas dormiam cada uma em sua nuvem para se habituarem a não ser medrosas.
Uma brisa ligeira foi-as embalando,… levando…
Ao cair da noite fixaram-se parecendo coladas no céu…Sete nuvens. Suspensas do céu. A maior, a da fada Lylly.
As fadinhas dormiam cada uma em sua nuvem para se habituarem a não ser medrosas.
Ao nascer de l sol, a brisa soprava, soprava…
As nuvens voavam em direcção às outras até que se formou novamente a nuvem branca,… grande, fofa,…onde a Lylly ensinava as coisas da vida às fadinhas.
Passaram muitos dias, muitos meses. A gaivota conheceu cidades, enjoou em mares de tormentas, entrou nos salões de festas onde tudo brilhava, vestiu-se de dourado e prateado,… bailou esvoaçando, tocou guitarra, cantou….
As nuvens voavam em direcção às outras até que se formou novamente a nuvem branca,… grande, fofa,…onde a Lylly ensinava as coisas da vida às fadinhas.
Passaram muitos dias, muitos meses. A gaivota conheceu cidades, enjoou em mares de tormentas, entrou nos salões de festas onde tudo brilhava, vestiu-se de dourado e prateado,… bailou esvoaçando, tocou guitarra, cantou….
Um dia sentiu falta da sua família e ficou triste…
De onde estava, num país de longe,… muito longe… um país lindo, … muito lindo, um país chamado Sol Nascente, avistou o seu rochedo enquanto o diabo esfrega um olho…
Foi a fada Bi, vestida de cor-de-rosa claro, que, com a sua varinha mágica, lhe arranjou forma de regressar a casa, levada por um feixe de luz…
Foi a fada Bi, vestida de cor-de-rosa claro, que, com a sua varinha mágica, lhe arranjou forma de regressar a casa, levada por um feixe de luz…
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8/02/2016 03:05:00 da tarde
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quarta-feira, 27 de abril de 2016
Poemas à solta
Solto uma frase ao acaso
e ela voa ligeira.
Junta-se a outra, e mais outra,
como se a frase fosse gente,
gente que grita em revolta,
criança com fome que chora,
nasce o poema à solta,
mas sem liberdade completa.
e ela voa ligeira.
Junta-se a outra, e mais outra,
como se a frase fosse gente,
gente que grita em revolta,
criança com fome que chora,
nasce o poema à solta,
mas sem liberdade completa.
Engole o receio, o poema,
de ir parar à rua fria,
caminha livre, quiçá escravo,
esfrangalha-se todos os dias,
no bolso não tem um "chavo",
mas medo de ser despedido.
de ir parar à rua fria,
caminha livre, quiçá escravo,
esfrangalha-se todos os dias,
no bolso não tem um "chavo",
mas medo de ser despedido.
Sobram-lhe dias ao poema,
faltam letras ao jantar.
Sobra-lhe a raiva ao poema
e a vontade de gritar...
faltam letras ao jantar.
Sobra-lhe a raiva ao poema
e a vontade de gritar...
Sai do livro,
vai para a rua,
põe o cravo na lapela
e solta a voz aprisionada.
solta frases, liberta letras,
sobe ao palanque,
fala de Abril, liberdade.
Pois que culpa tem Abril
de que o mundo não avance?!
vai para a rua,
põe o cravo na lapela
e solta a voz aprisionada.
solta frases, liberta letras,
sobe ao palanque,
fala de Abril, liberdade.
Pois que culpa tem Abril
de que o mundo não avance?!
Poemas!
Poemas somos nós todos,
sejamos com rima ou sem rima!
Temos que acabar com aqueles
que comem a antologia!
A antologia e os livros,
o trabalho e a dignidade,
contra os corruptos gritemos,
por Abril, em liberdade!
Poemas somos nós todos,
sejamos com rima ou sem rima!
Temos que acabar com aqueles
que comem a antologia!
A antologia e os livros,
o trabalho e a dignidade,
contra os corruptos gritemos,
por Abril, em liberdade!
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Adelaide Monteiro
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4/27/2016 02:44:00 da tarde
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sábado, 2 de abril de 2016
Primaveras que tardam, Verões que escaldam
Segredos do Inverno aberto aos quatro ventos
entram Primavera fora e não há quem os detenha.
Esvoaça a neve sobre os rebentos dos freixos,
a neve cobre os chougarços prontos a parir.
A cerejeira encosta o ouvido à pereira e pede-lhe remédio
para segurar a brancura que está quase a assomar-se.
A pereira diz-lhe: Se quiseres que o teu vermelho
sirva de pecado a todos quantos olhos passem,
tens que suster as contracções do parto.
Há ventos que ferem os sentidos,
caiem os frutos por lhe haverem cortado o cordão,
rente ao umbigo,
neblinas que confundem os olhares das flores acabadas d´abrir,
segredos dum tempo que ninguém é capaz de descobrir.
Primaveras que tardam, Verões que escaldam.
(An mirandés)
Primaberas que tárdan,
beranos que scáldan
Segredos de l
eimbierno abierto als quatro aires
éntram primabera
afuora i nun hai quien ls detenga.
Sbolácia la gelada
anriba ls gromos de ls freixos,
la niebe cubre ls
chougarços cumpridos, prontos a parir.
La cereijeira ancosta
l´oureilha a la pereira
i percura-le por
malzina para sigurar la brancura
que stá quaije a
assomá-se.
La pereira diç-le: Se
quieres que l tou burmeilho
sirba de pecado a
quantos uolhos pássen,
tenes que sustener ls
puxos de la pariçon.
Hai aires que
scadárçan ls sentidos,
cáien ls frutos por le
habéren cortado las bides
mui rente als
ambeligos,
nubrineiros que
cunfúnden ls mirares de las flores
acabadas d´abrir,
segredos dun tiempo
que naide ye capaç de çcubrir.
Primaberas que tárdan, beranos que scáldan.
r
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Adelaide Monteiro
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4/02/2016 11:45:00 da manhã
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terça-feira, 29 de março de 2016
Quando me dizes, poema
Quando me dizes mar, poema,
dizes-me vaga em mar alteroso.
dizes-me vaga em mar alteroso.
Não me digas assim, poema!
Pois tu não sabes que o meu nadar
é feito de frágeis braçadas,
respiração descompassada,
braços e pernas desatentos,
corpo inábil,
na iminência de afundar.
Pois tu não sabes que o meu nadar
é feito de frágeis braçadas,
respiração descompassada,
braços e pernas desatentos,
corpo inábil,
na iminência de afundar.
Se me quiseres dizer,
poema,
diz-me rio,
apressado
ou calmo,
vadio,
ou constante,
esticando com suas águas,
as ervas que lhe são margens,
ou dormindo sobre os seixos
que lhe são leito e
no espelho beijando o céu.
diz-me rio,
apressado
ou calmo,
vadio,
ou constante,
esticando com suas águas,
as ervas que lhe são margens,
ou dormindo sobre os seixos
que lhe são leito e
no espelho beijando o céu.
Diz-me também ribeiro,
apressado,
à beira do precipício,
suspensa a respiração,
arrepios na espinha,
e o abraço a dar-se,
o remoinho a formar-se,
uma força a sugar
toda a espuma em alvoroço
e aí sim,
na loucura do rio,
eu serei vaga alterosa,
envolvente,
apaixonada,
sem pé
nem chão.
apressado,
à beira do precipício,
suspensa a respiração,
arrepios na espinha,
e o abraço a dar-se,
o remoinho a formar-se,
uma força a sugar
toda a espuma em alvoroço
e aí sim,
na loucura do rio,
eu serei vaga alterosa,
envolvente,
apaixonada,
sem pé
nem chão.
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Adelaide Monteiro
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3/29/2016 07:23:00 da manhã
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Pintura a óleo s/ tela da minha autoria
sexta-feira, 25 de março de 2016
O poema inacabado
Tento segurar o poema
inacabado
e agarro-me às silvas,
ainda que saiba que as mãos ficarão rasgadas
e as pernas trémulas do medo
da fragilidade das hastes
perante o meu peso.
Procuro numa mirada rápida um arbusto
que me sugira ser mais robusto,
mas nada vejo.
Penso: Terá que ser o silvado
a livrar-me da queda
no chão rochoso do despenhadeiro.
Assim,
tomo-o como um amigo verdadeiro,
aperto com força
e ele
tudo faz para me
manter o brilho na voz,
a lua no olhar
e, nas mãos
o poema continuará
por acabar.
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3/25/2016 11:23:00 da manhã
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terça-feira, 15 de março de 2016
Habitas numa rua de olhos tristes
Habitas-me no olhar mesmo em reflexo
e ouço o barulho da bengala,
surdo, frouxo,
a bater contra as agruras do granito,
duro, incerto,
o mesmo que galopaste nos tempos,
em que no teu olhar habitavam lírios
e no teu corpo floriam girassóis.
Habitas-me no peito em imensidões,
mais do que savanas,
em cores de picadas ocres e vermelhas.
Habitas-me,
mesmo que à mesa o teu prato esteja imaculado,
muito menos que a tua voz doce,
muito menos que a bondade do teu coração,
muito menos do que tu
e muito menos que tudo a que não demos voz.
e ouço o barulho da bengala,
surdo, frouxo,
a bater contra as agruras do granito,
duro, incerto,
o mesmo que galopaste nos tempos,
em que no teu olhar habitavam lírios
e no teu corpo floriam girassóis.
Habitas-me no peito em imensidões,
mais do que savanas,
em cores de picadas ocres e vermelhas.
Habitas-me,
mesmo que à mesa o teu prato esteja imaculado,
muito menos que a tua voz doce,
muito menos que a bondade do teu coração,
muito menos do que tu
e muito menos que tudo a que não demos voz.
Habitas numa rua de olhos tristes…
15.03.2016
15.03.2016
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3/15/2016 11:38:00 da tarde
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quarta-feira, 9 de março de 2016
Uma Mulher entre tantas...
Marcou-te a vida o rosto.
O trabalho as mãos
No coração
há resquícios de desgosto,
à mistura com perdão
Menina
foste tão pouco,
por falta de tempo de ser...
Trabalho, choros, canseiras,
embrulhados em brincadeira
que mal conseguiste ter
Mãe,
cresceste comigo,
dando-me a teta na ceifa,
quente, tão quente que ardia,
no meu corpo pequenino,
na sombra sempre fugidia,
do carvalho ou do freixo
Enrolas os feijoeiros
com sonhos que desenrolaste,
olhas e tens agora medo,
dos caminhos que trilhaste,
Apoias-te ao meu aconchego,
contas dias, somas dores,
sentes ainda alguns desamores,
de injustiças que te fizeram
Está o teu olhar sereno,
quase a esboçar um sorriso,
estão as mãos em desassossego,
o corpo quase que ri.
Fitas-me como que a dizer,
ainda bem que te pari!
A ti mulher/mãe/menina
8/03/2016
Foto de Teresa Meirinhos
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3/09/2016 11:24:00 da tarde
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domingo, 6 de março de 2016
Amizade, poemas, palavras - Apresentação do livro Gritos, Ecos e Silêncios, de Adelaide Monteiro, na CTMADL
Há dias em que uma pessoa rebenta de contentamento…
Nada é mais importante neste mundo do que a amizade, ter amigos que ao olhar-nos nos dizem: o que se passa hoje? Não estás bem; ou fica-te tão bem essa flor no cabelo! Mesmo que nos sintamos desajeitados e a ocupar demasiado espaço, as palavras dos amigos fazem com que nos sintamos umas estrelas.
Nada é mais importante neste mundo do que a amizade, ter amigos que ao olhar-nos nos dizem: o que se passa hoje? Não estás bem; ou fica-te tão bem essa flor no cabelo! Mesmo que nos sintamos desajeitados e a ocupar demasiado espaço, as palavras dos amigos fazem com que nos sintamos umas estrelas.
No passado dia quatro, António Cangueiro apresentou o meu livro nesta casa, duma forma sábia e perfeita. No começo, quando disse umas palavras sobre Amadeu Ferreira e leu um poema da sua autoria, em mirandês, as lágrimas começaram-me a nascer.
É um poema que bem podia ter sido escrito para mim, pensei. Recordo o verso, “das rosas, guarda o perfume”.
Bem poderia ter sido escrito para mim, disse eu. O meu livro tem alguns poemas que lhe dediquei, a maioria escritos desde que adoeceu. Muito mais lhe dediquei desde que partiu, mas não estão neste livro, disse, depois de ter lido o dito poema, em português.
É um poema que bem podia ter sido escrito para mim, pensei. Recordo o verso, “das rosas, guarda o perfume”.
Bem poderia ter sido escrito para mim, disse eu. O meu livro tem alguns poemas que lhe dediquei, a maioria escritos desde que adoeceu. Muito mais lhe dediquei desde que partiu, mas não estão neste livro, disse, depois de ter lido o dito poema, em português.
Senti um nó. Depois, respirei fundo duas ou três vezes e o vazio foi-se enchendo à medida que o apresentador ia falando. Uma cebola, dizia ele: umas vezes a abrir-se, casco a casco, a fazer chorar quem dela se ocupa para fazer o guisado, desencanto, raiva, revolta, para logo depois voltar ao centro da cebola: força, serenidade, amor, erotismo; outra vez, casco por casco.
Frases saídas dos poemas, umas flores a saltar dos olhos do seu dizer, a língua mirandesa a pular de contentamento por se estar a fazer ouvir, uma sala cheia, atenção redobrada para tudo entenderem, na língua que não conhecem mas minimamente entendem, pois pediram que fosse em mirandês. Uma palavra ou outra, o António repetia-a em português, por lhe faltar semelhanças.
Frases saídas dos poemas, umas flores a saltar dos olhos do seu dizer, a língua mirandesa a pular de contentamento por se estar a fazer ouvir, uma sala cheia, atenção redobrada para tudo entenderem, na língua que não conhecem mas minimamente entendem, pois pediram que fosse em mirandês. Uma palavra ou outra, o António repetia-a em português, por lhe faltar semelhanças.
Depois foi a minha vez de falar para os meus amigos: amizades desde a infância e da juventude, outras das “ terras do pôr do sol vermelho e trovoadas”, Moçambique; outras nascidas ao longo dos anos, no trabalho ou fora dele; outras que o mirandês fez nascer. Se por mais não fosse, valeu a pena este encontro, pois revi amigos que não via há anos. Outras amizades nasceram nessa tarde.
Em frente, a Praça de Touros transmite-nos calor através das sua cor tijolo, quente, bem precisas para o dia escuro e frio, umas vezes com pequenas abertas entre nuvens, outras, a chover.
Antes das seis as pessoas começaram a subir ao terceiro piso, degrau a degrau, daquele prédio antigo com elevador mas que só transporta quem tiver a chave que o faça mover-se.
Antes das seis as pessoas começaram a subir ao terceiro piso, degrau a degrau, daquele prédio antigo com elevador mas que só transporta quem tiver a chave que o faça mover-se.
Os carros buzinam nas ruas molhadas, e, em filas são como chichos em chouriças. Primeiro por ser hora de ponta, segundo por causa da chuva e de ser sexta-feira e para pior, molhada.
Abraços, beijinhos, conversas entre amigos e aos poucos a sala foi-se enfeitando de gente, a ocupar todos os lugares nas mesas redondas.
Elsa Moreira, responsável pela cultura, na Casa, começou por nos apresentar,
Fez-se silêncio na sala. Lá fora, os carros buzinam, a água bate nas janelas. O António começou a abrir os cascos da cebola e, mais nada se ouviu.
Elsa Moreira, responsável pela cultura, na Casa, começou por nos apresentar,
Fez-se silêncio na sala. Lá fora, os carros buzinam, a água bate nas janelas. O António começou a abrir os cascos da cebola e, mais nada se ouviu.
Eu, à medida que ia mostrando a estrutura do livro, fui lendo um poema de cada capítulo. Seguiu-se a Bina Cangueiro que com a sua pronúncia perfeita, sempre encanta, e o Leonardo. Leram ambos em mirandês. A Cremilde Esteves e a Romana, leram em português. Aplaudidos sempre.
Seguiu-se “ o Vinho do Porto” e algo mais, para que não caísse em fraqueza.
Era hora de jantar.
Seguiu-se “ o Vinho do Porto” e algo mais, para que não caísse em fraqueza.
Era hora de jantar.
O Palácio Galveias, ali ao lado, não deu conta de que outra língua oficial fazia eco tão perto. Temos que oferecer livros em mirandês à sua Biblioteca, porque, seara que não se semeia, dela não se espere colher grão…
- Amisade, poemas, palabras
- Apersentaçon de Bózios, Retombos i Siléncios, na Casa de Trás ls Montes de Lisboua
- Apersentaçon de Bózios, Retombos i Siléncios, na Casa de Trás ls Montes de Lisboua
Hai dies que un nien nel cabe, de tan cuntento star…
Nada ye mais amportante neste mundo que l´amisade, que tener amigos a mirar ne ls nuossos uolhos i a dezí-mos: que se passa, hoije? Nun stás bien; ou que bien te queda
essa flor ne l pelo!
Anque un se sinta que nien un aternate a acupar mais campo que debie, las palabras de ls amigos fázen cun que un se sinta ua streilha…
Nada ye mais amportante neste mundo que l´amisade, que tener amigos a mirar ne ls nuossos uolhos i a dezí-mos: que se passa, hoije? Nun stás bien; ou que bien te queda
essa flor ne l pelo!
Anque un se sinta que nien un aternate a acupar mais campo que debie, las palabras de ls amigos fázen cun que un se sinta ua streilha…
L atrasado die quatro, Antonho Cangueiro apersentou l miu lhibro, Bózios, Retombos i Siléncios, na Casa de Trás ls Montes de Lisboua, dua maneira tan sábia i porfeita, que ne l ampeço, quando dixo uas palabras subre Amadeu Ferreira i liu un poema del, an mirandés, las lhágrimas ampecórun-me a nacer.
Ye un poema que bien poderie tener sido screbido para mi, penso. Recordo l berso, “de las rosas, guarda l oulor”.
.Bien podie tener sido screbido a pensar an mi, dixe you. Ten l miu lhibro alguns poemas que screbi para el, l mais deilhes screbidos çque se achou malo. Muitos mais screbi, apuis que mos deixou, mas nun stán neste lhibro, dixe, apuis de haber lido l tal poema an pertués.
Senti un nuolo. Apuis resfolguei fondo dues ou trés bezes i l uoco fui-se anchendo al modo que l apresentador iba falando. Ua cebola dezie el: uas bezes a çcascá-se casco por casco, a fazer chorar quien deilha s´acupa pal guisote: zancanto, raiba, rebuolta, para lhougo apuis ir al centro de la cebola: fuorça, serenidade, amor, eirotismo; outra beç casco por casco. Frases salidas de ls poemas, uas flores a saltar ne ls uolhos de l sou dezir, la lhéngua mirandesa a poular de cuntenta por se star a fazer oubir, ua sala chena, atençon al drobo para todo oubíren na lhéngua que nun sáben mas que anténden, puis fúrun eilhes mesmos que la quejírun oubir. Ua palabra ou outra, Antonho repetie an pertués, quando, por nun tener asparecéncias cun l pertués, nun serie antendida.
Apuis fui you a falar para ls mius amigos. Amisades que yá bénen de la nineç i jubentude, alguas deilhas; outras, de las “tierras de çponeres burmeilhos, de atronadas” , Moçambique; outras, nacidas al lhargo de ls anhos, ne l trabalho i fuora del; outras que l mirandés fizo nacer.
Muitos amigos yá nun ls bie bai para un par d´anhos.Solo por isso baliu la pena haber screbido l lhibro, para star cun eilhes, pals abraçar…Outras amisades nacírun nessa tarde.
Ye un poema que bien poderie tener sido screbido para mi, penso. Recordo l berso, “de las rosas, guarda l oulor”.
.Bien podie tener sido screbido a pensar an mi, dixe you. Ten l miu lhibro alguns poemas que screbi para el, l mais deilhes screbidos çque se achou malo. Muitos mais screbi, apuis que mos deixou, mas nun stán neste lhibro, dixe, apuis de haber lido l tal poema an pertués.
Senti un nuolo. Apuis resfolguei fondo dues ou trés bezes i l uoco fui-se anchendo al modo que l apresentador iba falando. Ua cebola dezie el: uas bezes a çcascá-se casco por casco, a fazer chorar quien deilha s´acupa pal guisote: zancanto, raiba, rebuolta, para lhougo apuis ir al centro de la cebola: fuorça, serenidade, amor, eirotismo; outra beç casco por casco. Frases salidas de ls poemas, uas flores a saltar ne ls uolhos de l sou dezir, la lhéngua mirandesa a poular de cuntenta por se star a fazer oubir, ua sala chena, atençon al drobo para todo oubíren na lhéngua que nun sáben mas que anténden, puis fúrun eilhes mesmos que la quejírun oubir. Ua palabra ou outra, Antonho repetie an pertués, quando, por nun tener asparecéncias cun l pertués, nun serie antendida.
Apuis fui you a falar para ls mius amigos. Amisades que yá bénen de la nineç i jubentude, alguas deilhas; outras, de las “tierras de çponeres burmeilhos, de atronadas” , Moçambique; outras, nacidas al lhargo de ls anhos, ne l trabalho i fuora del; outras que l mirandés fizo nacer.
Muitos amigos yá nun ls bie bai para un par d´anhos.Solo por isso baliu la pena haber screbido l lhibro, para star cun eilhes, pals abraçar…Outras amisades nacírun nessa tarde.
Delantre, la Praça de Touros trai-mos la calor atrabeç de las sues quelores de tejolo, calientes, bien precisas pal die scuro i friu, uas bezes cun sol a salir an racicas antre nubres, outras, a chober.
Un cacho antes de las seis de la tarde ampeçórun las pessonas a chubir al terceiro piso, scaleira a scaleira, daquel prédio antigo cun eilebador mas que só lhieba quien tenga la chabe pal fazer salir de l sítio. Ls carros nas rugas molhadas apítan i, an correlinas son que nien chichos an chouriça: a la ua, por ser hora de salir, a la outra, porque ye sesta i inda porriba, molhada.
Abraços, beisicos, cumbersas antre amigos i a pouco la sala fui-se anfeitando cun las pessonas a acupar todos ls lhugares nas mesas redondas.
Un cacho antes de las seis de la tarde ampeçórun las pessonas a chubir al terceiro piso, scaleira a scaleira, daquel prédio antigo cun eilebador mas que só lhieba quien tenga la chabe pal fazer salir de l sítio. Ls carros nas rugas molhadas apítan i, an correlinas son que nien chichos an chouriça: a la ua, por ser hora de salir, a la outra, porque ye sesta i inda porriba, molhada.
Abraços, beisicos, cumbersas antre amigos i a pouco la sala fui-se anfeitando cun las pessonas a acupar todos ls lhugares nas mesas redondas.
Elsa Moreira, repunsable pula Cultura de la Casa, ampeçou a falar i apersentou-mos, a mi i al apresentador de l lhibro, Antonho Cangueiro. Fai-se siléncio na sala.
Fuora, ls carros apítan, l´auga bate nas jinelas. Antonho ampeçou a abrir ls cascos de la cebola i, a mais nada se dou fé.
You, al modo qu´amostrei l spinaço de l lhibro, fui lendo un poema de cada capítulo. Seguiu-se Bina Cangueiro que cun aqueilha pernúncia guapa, siempre ancanta i Lionardo, lírun an mirandés, Cremilde Estebes i Romana, an pertués. Todo mundo daba palmas.
Seguiu-se “l Bino Fino” i algo mais, para que nun caísse an fraqueza. Éran horas de ciar.
L Palácio Galveias, eilhi a la borda, nun se dou de cuonta, que outra lhéngua oufecial fazie eilhi retombo, bien acerquita… Hai que dar uns lhibricos an mirandés a la sue Biblioteca, porque, senara que nun se semeie, nun puode granar…
Adelaide Monteiro
Fuora, ls carros apítan, l´auga bate nas jinelas. Antonho ampeçou a abrir ls cascos de la cebola i, a mais nada se dou fé.
You, al modo qu´amostrei l spinaço de l lhibro, fui lendo un poema de cada capítulo. Seguiu-se Bina Cangueiro que cun aqueilha pernúncia guapa, siempre ancanta i Lionardo, lírun an mirandés, Cremilde Estebes i Romana, an pertués. Todo mundo daba palmas.
Seguiu-se “l Bino Fino” i algo mais, para que nun caísse an fraqueza. Éran horas de ciar.
L Palácio Galveias, eilhi a la borda, nun se dou de cuonta, que outra lhéngua oufecial fazie eilhi retombo, bien acerquita… Hai que dar uns lhibricos an mirandés a la sue Biblioteca, porque, senara que nun se semeie, nun puode granar…
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3/06/2016 08:07:00 da tarde
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Uma imensidão
Há uma imensidão de mar
entre o vermelho do crepúsculo
e o alvorecer dos sonhos
quando de olhos fechados te vejo
içando velas,
endireitando o leme,
entre o vermelho do crepúsculo
e o alvorecer dos sonhos
quando de olhos fechados te vejo
içando velas,
endireitando o leme,
levando o veleiro ao cais.
Há uma imensidão de
crepúsculo
dizendo adeus ao meu adeus
quando o dia me morre nos dedos
e a lembrança se me atiça
dizendo adeus ao meu adeus
quando o dia me morre nos dedos
e a lembrança se me atiça
nas silhuetas dos
montes
onde me nascem poemas,
onde sinto o eco das águas
da ribeira em suicídio,
nas escarpas dum vale fundo
e me chegam ecos da canção.
onde me nascem poemas,
onde sinto o eco das águas
da ribeira em suicídio,
nas escarpas dum vale fundo
e me chegam ecos da canção.
E mais imensidão…
A aurora a
despontar…
O rio a lançar-se ao mar,
o rouxinol a cantar
o salgueiro a balançar,
a ribeira
a transbordar,
a espera,
o rio,
espuma,
ondas,
espasmos,
cio…
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Adelaide Monteiro
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3/06/2016 04:01:00 da tarde
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terça-feira, 1 de março de 2016
Às ervas que sempre ervas verdes, serão...
A las yerbas
que siempre yerbas berdes,
hán-de ser…
que siempre yerbas berdes,
hán-de ser…
Yerba,
flor de chougarço i temielho,
medrados ne ls granicos de puolo i tierra
cun que fazies l mundo,
paixarico cun çubiaco i a cantar,
flor a beisar.
Stan las faias de las arribas
hoije mais sgúbias;
anque nun las quejisses ber cun uolhos tristes,
slhagrimonórun pula nuite anteira.
L zimbro medrado na peinha,
a quemer puls spinos,
stá hoije algo mais drobado,
algo mais triste,
anque quando por el passabas le dezísses:
Nada nien naide te bote abaixo,
tu sós la fuorça d´ampossibles,
la fuorça de la natureza an sous lhemites!
L mesmo riu,
las tues palabras
an retombos nas arribas...
flor de chougarço i temielho,
medrados ne ls granicos de puolo i tierra
cun que fazies l mundo,
paixarico cun çubiaco i a cantar,
flor a beisar.
Stan las faias de las arribas
hoije mais sgúbias;
anque nun las quejisses ber cun uolhos tristes,
slhagrimonórun pula nuite anteira.
L zimbro medrado na peinha,
a quemer puls spinos,
stá hoije algo mais drobado,
algo mais triste,
anque quando por el passabas le dezísses:
Nada nien naide te bote abaixo,
tu sós la fuorça d´ampossibles,
la fuorça de la natureza an sous lhemites!
L mesmo riu,
las tues palabras
an retombos nas arribas...
A ti, Amadeu
1-03-2016
Erva,
flor de chougarço e tomilho,
medrados nos grãos de pó e terra
com que fazias o mundo,
passarinho
a fazer ninho i a cantar,
flor a beijar.
Estão os penhascos das arribas mais molhados;
mesmo que não os quiseses ver com olhos tristes,
choraram a noite inteira.
O zimbro medrado na peinha,
a alimentar-se pelos espinhos,
está hoje um pouco mais curvado,
um pouco mais triste,
mesmo que ao passar lhe tivesses dito:
Nada nem ninguém te derrube,
tu és a força dos impossíveis,
a força da natureza em seus limites!
flor de chougarço e tomilho,
medrados nos grãos de pó e terra
com que fazias o mundo,
passarinho
a fazer ninho i a cantar,
flor a beijar.
Estão os penhascos das arribas mais molhados;
mesmo que não os quiseses ver com olhos tristes,
choraram a noite inteira.
O zimbro medrado na peinha,
a alimentar-se pelos espinhos,
está hoje um pouco mais curvado,
um pouco mais triste,
mesmo que ao passar lhe tivesses dito:
Nada nem ninguém te derrube,
tu és a força dos impossíveis,
a força da natureza em seus limites!
O mesmo rio,
as tuas palavras em ecos nas arribas...
as tuas palavras em ecos nas arribas...
A ti, Amadeu Ferreira, um ano depois
1/3/2016
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
A tua primeira mala
(Imagem da net)
A tua primeira mala de viagem não era de cartão.
Meteste lá coisa pouca: vestuário velho, outro novo, uns sapatos de pele de bezerro feitos pelo sapateiro de Sendim, uma mão cheia de timidês, outra menos cheia de sonhos. Ninguém pode ter grandes sonhos quando os horizontes nada nos desvendam. Mesmo assim, acho que eras muito sonhadora. Os teus sonhos tinham uma passada pequena, isso sim!
Coisa pouca, cabe numa pequena mala de madeira. Era vermelha com uma ferragem forte, negra, onde encaixava a fechadura. Junto à ferragem uma asa pregada com pregos. Uma autêntica caixa de ferramentas. Pintade de vermelho, ligeiramente rectangular, linda.
As camisas de noite foram posteriormente mandadas fazer à pressa, depois de a tua mãe ter recebido o recado de que na cidade não se dormia com a combinação usada durante o dia. Chegaram tempos depois, o tempo de comprar o tecido na feira e a tia Clementina as fazer na máquina de costura. Éram de franela com flores. Duas mudas de camisas de dormir e combinações porque o inverno estava para chegar. Uma combinação igual a cada camisa, que, cortando duas peças do mesmo pano, sempre se poupavam uns centímetros de tecido que ainda poderiam dar para fazer um par ou dois de cuecas.
Chegaram quando a tua mãe arranjou portador que fosse a Miranda, num saco de retalhos, apertadas contra a fogaça de trigo, dentro duas alforjes de bolras, em cima duma burra.
Mesmo que tivesses visto aviões, aquelas pontinhas reluzentes a deitar fora riscos de fumaça, a passar entre as núvens ou a cortar o céu limpo, houve um tempo em que dizias que ias para o Brasil, com a Virgínia, na burra ruça da avó Ana. Parece-me que não te pareceu verdadeira a história àcerca dos aviões, quando te contavam que lá iam pessoas.
A Virgínia partiu, mas a burra ruça nunca se aventurou a tal viagem.
De São Paulo mandou-te, anos depois, um lenço para a cabeça, que ainda guardas como relíquia, com outras coisas que igualmente estimas, numa caixinha de cartão. Nele foste dependurando sonhos, vaidades, desilusões, alegrias.
Hoje é apenas uma relíquia onde passas a mão quando vais ver se entrou a traça na caixa. É tão macio quando o encostas aos lábios! Cada vez que o olhas e lhe dás um beijo, é um beijo que dás à Virgínia, por te ter oferecido uma vaidade tão singela, tão suave.
A Virgínia já faleceu. O lenço está lá, a contar a história
A tua primeira mala de viagem não era de cartão.
Meteste lá coisa pouca: vestuário velho, outro novo, uns sapatos de pele de bezerro feitos pelo sapateiro de Sendim, uma mão cheia de timidês, outra menos cheia de sonhos. Ninguém pode ter grandes sonhos quando os horizontes nada nos desvendam. Mesmo assim, acho que eras muito sonhadora. Os teus sonhos tinham uma passada pequena, isso sim!
Coisa pouca, cabe numa pequena mala de madeira. Era vermelha com uma ferragem forte, negra, onde encaixava a fechadura. Junto à ferragem uma asa pregada com pregos. Uma autêntica caixa de ferramentas. Pintade de vermelho, ligeiramente rectangular, linda.
As camisas de noite foram posteriormente mandadas fazer à pressa, depois de a tua mãe ter recebido o recado de que na cidade não se dormia com a combinação usada durante o dia. Chegaram tempos depois, o tempo de comprar o tecido na feira e a tia Clementina as fazer na máquina de costura. Éram de franela com flores. Duas mudas de camisas de dormir e combinações porque o inverno estava para chegar. Uma combinação igual a cada camisa, que, cortando duas peças do mesmo pano, sempre se poupavam uns centímetros de tecido que ainda poderiam dar para fazer um par ou dois de cuecas.
Chegaram quando a tua mãe arranjou portador que fosse a Miranda, num saco de retalhos, apertadas contra a fogaça de trigo, dentro duas alforjes de bolras, em cima duma burra.
Mesmo que tivesses visto aviões, aquelas pontinhas reluzentes a deitar fora riscos de fumaça, a passar entre as núvens ou a cortar o céu limpo, houve um tempo em que dizias que ias para o Brasil, com a Virgínia, na burra ruça da avó Ana. Parece-me que não te pareceu verdadeira a história àcerca dos aviões, quando te contavam que lá iam pessoas.
A Virgínia partiu, mas a burra ruça nunca se aventurou a tal viagem.
De São Paulo mandou-te, anos depois, um lenço para a cabeça, que ainda guardas como relíquia, com outras coisas que igualmente estimas, numa caixinha de cartão. Nele foste dependurando sonhos, vaidades, desilusões, alegrias.
Hoje é apenas uma relíquia onde passas a mão quando vais ver se entrou a traça na caixa. É tão macio quando o encostas aos lábios! Cada vez que o olhas e lhe dás um beijo, é um beijo que dás à Virgínia, por te ter oferecido uma vaidade tão singela, tão suave.
A Virgínia já faleceu. O lenço está lá, a contar a história
Publicada por
Adelaide Monteiro
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2/22/2016 06:34:00 da tarde
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