Sento-me no chão para te sentir mais perto
Descalça te caminho, com o passo certo
De nevoeiros me visto, de vestes despida
Sinto-te por drento, choro-te na despedida
Estendo os meus braços num abraço infindo
E assim fico, pensando estar contigo
Ah, se tu soubesses quanto me doi o peito
Ao partir agora, sempre deste jeito
Mas hei-de voltar, prometo-te e juro
Para ancorar em porto seguro
Dedos cruzados beijo, selando a promessa
Para que me esperes, me abraces sem pressa.
Ó terra querida se me quisesses tanto
Quanto eu te quero,e que te deixo em pranto
Prendias-me a uma laçada, na argola da vida
Não me deixavas ir e davas-me guarida
Acerca de mim
- Adelaide Monteiro
- Sintra/Miranda do Douro, Portugal
- Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
domingo, 29 de agosto de 2010
Lágrimas ocultas(Florbela Espanca)
Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
Em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
O apêndice, no corpo sábio de mulher madura
Há uma música que se me entranha no corpo e me invade esta sala com ondas de sublimação, penetra no ar, invade-me a alma, pinta de luz o tecto a combinar com o céu estrelado, ofusca a lua que já inveja a luz que daqui sai em feixes intensos. Tudo é mágico nesta madrugada e, de tanto sentir a magia, apetece-me partilhá-la com amigos noctívagos. Olho para o telefone mas depois hesito. Não, já é tarde, não ligo. E vou bebendo esta madrugada acompanhada de um whisky e de Tchaikovsky.
Tchaikovsky produz maravilhas na minha alma, o whisky apenas serve de companhia no silêncio. Quase nada, rigorosamente nada, em boa verdade. O que é uma bebida que dou ao corpo se a música clássica é antes uma bebida que estou a dar à alma, neste ermo onde até posso abrir as janelas sem que ninguém acorde, que mais não seja para fazer inveja ao céu, porque isto é mais que céu, é céu com todas as estrelas, a lua, o caminho de santiago e o sol que daqui a escassas horas despontará neste horizonte, na linha dos montes da minha infância.
Que é uma bebida e um céu estrelado, comparado com esta música que me leva para o Olimpo doutros deuses, de tantos deuses...
Que é uma lua comparada com a sinfonia que me chega a mim sozinha, só eu e a madrugada, cujos sons me fazem ganhar asas, levitar e depois poisar em núvens de algodão, lençol bordado a seda sobre cetim branco.
Agora tocam com vigor os instrumentos para logo a seguir ganharem a suavidade dos fios nos casulos espalhados pela amoreira. Depois flui como flui um rio de planície no Outono da vida.
Tudo é belo nesta madrugada que me aconchega no casulo de um pirilampo e aí eu sou luz à beira do caminho a indicar os passos aos caminhantes, na solidão das suas vidas.
Tudo é silêncio na minha alma para sorver estes sons que me chegam aqui ao lado, simples colunas e me transportam para salões com excelentes acústicas onde o som me chegue genuíno e não com os ruídos de um simples equipamento descartável de vídeo.
Ah! Mas eu sou capaz de ir longe, até ao São Carlos, a Berlim, a Londres e sou capaz de ir aos campos da minha aldeia, para ouvir os passarinhos sob a orientação do maestro rouxinol, em sessões ininterruptas.
Há no copo metade do Whisky e nem sei se o irei beber até ao fim. O que é o whisky comparado com outro CD que vou por no pequeno prato?!
Nada! Apenas o inútil apêndice, no corpo sábio de mulher madura!...
Tchaikovsky produz maravilhas na minha alma, o whisky apenas serve de companhia no silêncio. Quase nada, rigorosamente nada, em boa verdade. O que é uma bebida que dou ao corpo se a música clássica é antes uma bebida que estou a dar à alma, neste ermo onde até posso abrir as janelas sem que ninguém acorde, que mais não seja para fazer inveja ao céu, porque isto é mais que céu, é céu com todas as estrelas, a lua, o caminho de santiago e o sol que daqui a escassas horas despontará neste horizonte, na linha dos montes da minha infância.
Que é uma bebida e um céu estrelado, comparado com esta música que me leva para o Olimpo doutros deuses, de tantos deuses...
Que é uma lua comparada com a sinfonia que me chega a mim sozinha, só eu e a madrugada, cujos sons me fazem ganhar asas, levitar e depois poisar em núvens de algodão, lençol bordado a seda sobre cetim branco.
Agora tocam com vigor os instrumentos para logo a seguir ganharem a suavidade dos fios nos casulos espalhados pela amoreira. Depois flui como flui um rio de planície no Outono da vida.
Tudo é belo nesta madrugada que me aconchega no casulo de um pirilampo e aí eu sou luz à beira do caminho a indicar os passos aos caminhantes, na solidão das suas vidas.
Tudo é silêncio na minha alma para sorver estes sons que me chegam aqui ao lado, simples colunas e me transportam para salões com excelentes acústicas onde o som me chegue genuíno e não com os ruídos de um simples equipamento descartável de vídeo.
Ah! Mas eu sou capaz de ir longe, até ao São Carlos, a Berlim, a Londres e sou capaz de ir aos campos da minha aldeia, para ouvir os passarinhos sob a orientação do maestro rouxinol, em sessões ininterruptas.
Há no copo metade do Whisky e nem sei se o irei beber até ao fim. O que é o whisky comparado com outro CD que vou por no pequeno prato?!
Nada! Apenas o inútil apêndice, no corpo sábio de mulher madura!...
sábado, 28 de agosto de 2010
Mesmo que seja Inverno
Ó Maio florido
Que me vais trazendo
Ano após ano
As cores do Outono
Veste-me de folhas
Que me vão aquecendo
As noites, os dias
Que me vão correndo
Veste-me de flores
Mesmo que seja Inverno!
Perfuma-me com odores
De estevas e giestas
De rosas bravas e de madressilva
Põe-me na cabeça
Uma grinalda de flores
Veste-me de Maio
Mesmo que sinta dores
Veste-me de cores
Mesmo que seja Inverno!
Que me vais trazendo
Ano após ano
As cores do Outono
Veste-me de folhas
Que me vão aquecendo
As noites, os dias
Que me vão correndo
Veste-me de flores
Mesmo que seja Inverno!
Perfuma-me com odores
De estevas e giestas
De rosas bravas e de madressilva
Põe-me na cabeça
Uma grinalda de flores
Veste-me de Maio
Mesmo que sinta dores
Veste-me de cores
Mesmo que seja Inverno!
Em silêncios
Falas-me no silêncio do teu olhar
Sentado no recanto dos teus laços.
Porque não me beijas tu
Quando desejas
Porque me deixas
Com sede dos teus abraços?!
Bebes-me em goles
Devagarinho
Eleges-me raínha
Em trono dourado.
Dizes-te por dentro o meu amado
Esboças por dentro um sorriso.
E eu vivo fora
Porque de fora sou
Exuberante como escarlate rosa
Fora ao relento sob o céu estrelado
Fora ao orvalho da doce madrugada
Dentro da lua e assim me dou.
Quero ver dentro e às vezes não posso
Quero-te abraçar e às vezes não ouso
Quero-te falar e os lábios cerram
E fico contigo como barco em porto
Enroscada aos sentires no ninho que é nosso.
Olhas-me em silêncio
Sonhas-me calado
Sonho-te dormindo
Sinto-te a meu lado.
Sentado no recanto dos teus laços.
Porque não me beijas tu
Quando desejas
Porque me deixas
Com sede dos teus abraços?!
Bebes-me em goles
Devagarinho
Eleges-me raínha
Em trono dourado.
Dizes-te por dentro o meu amado
Esboças por dentro um sorriso.
E eu vivo fora
Porque de fora sou
Exuberante como escarlate rosa
Fora ao relento sob o céu estrelado
Fora ao orvalho da doce madrugada
Dentro da lua e assim me dou.
Quero ver dentro e às vezes não posso
Quero-te abraçar e às vezes não ouso
Quero-te falar e os lábios cerram
E fico contigo como barco em porto
Enroscada aos sentires no ninho que é nosso.
Olhas-me em silêncio
Sonhas-me calado
Sonho-te dormindo
Sinto-te a meu lado.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Meu rio d´ouro
Doce rio a ti não desço
encalhado entre rochedos
olho-te de cima a tremer
eu bem te queria descer
mas no corpo brota-me o medo.
As vertigens
puxam-me tanto
que eu tenho que recuar
meu rio, meu amado
parto logo para outro lado
embora me apeteça ficar.
Um dia encher-me-ei de coragem
para descer os carreiros
salto os rochedos
e sem medo de rebolar
abraço as tuas margens
sigo contigo a viajar.
Meu rio tão sinuoso
e logo abaixo sereno
cavaste vales
desditoso
neste planalto rugoso
mas é aqui que és mais belo.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Doce rio, meu amado
Sigo-te no silêncio das arribas
Rio meu que calmo segues
Entre rochedos e zimbros
Transmitindo a paz que bebes
Ah, se eu pudesse chegar-te
E me entregar em teus braços
Mesmo que trémula eu iria
Para me receberes com abraços
Pois tu não vês que descendo
Eu nunca mais subiria
De teus braços me desprendendo
Eu subir não poderia
Vives assim heremita
Sozinho bem lá no fundo
De tuas dores já padeces
Sozinho nesse teu mundo
Ah, se eu pudesse beber-te
E em ti mitigar securas
Banhada nas tuas águas
Lavava em ti amarguras
Doce rio, meu amado
Eu hei-de alcançar-te um dia
Nas águas do mar salgado
Envoltos em maresia
Rio meu que calmo segues
Entre rochedos e zimbros
Transmitindo a paz que bebes
Ah, se eu pudesse chegar-te
E me entregar em teus braços
Mesmo que trémula eu iria
Para me receberes com abraços
Pois tu não vês que descendo
Eu nunca mais subiria
De teus braços me desprendendo
Eu subir não poderia
Vives assim heremita
Sozinho bem lá no fundo
De tuas dores já padeces
Sozinho nesse teu mundo
Ah, se eu pudesse beber-te
E em ti mitigar securas
Banhada nas tuas águas
Lavava em ti amarguras
Doce rio, meu amado
Eu hei-de alcançar-te um dia
Nas águas do mar salgado
Envoltos em maresia
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doce rio que a ti não desço,
encalhado entre rochedos
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Poema sem dono
Foi num tumulto da vida
Que me lancei na poesia
Tanto a brincar, quem diria
Hoje a escrever por terapia
Foi num dia encoberto
Que com garras me lancei
Naquilo que me parecia certo
E com poemas me encontrei
Escrevendo sem dar tréguas
A esta ânsia de dizer tanto
Em poemas também choro
Eu me esvaio em meu canto
E em pranto eu lancei
Os meus versos pelo mundo
E em rabiscos deixei
O meu sentir mais profundo
Sempre sinto nos meus dedos
Espasmos, dores e nevralgias
A pedirem-me que escreva
A toda a hora, todos os dias
É com paixão desmedida
Que semeio aos quatro ventos
A paixão que sempre bebo
Tirando risos aos tormentos
Que me lancei na poesia
Tanto a brincar, quem diria
Hoje a escrever por terapia
Foi num dia encoberto
Que com garras me lancei
Naquilo que me parecia certo
E com poemas me encontrei
Escrevendo sem dar tréguas
A esta ânsia de dizer tanto
Em poemas também choro
Eu me esvaio em meu canto
E em pranto eu lancei
Os meus versos pelo mundo
E em rabiscos deixei
O meu sentir mais profundo
Sempre sinto nos meus dedos
Espasmos, dores e nevralgias
A pedirem-me que escreva
A toda a hora, todos os dias
É com paixão desmedida
Que semeio aos quatro ventos
A paixão que sempre bebo
Tirando risos aos tormentos
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no sentir da poesia
domingo, 8 de agosto de 2010
Faltam orvalhos
Secam-se-me as palavras como se seca o Planalto neste Agosto que não nos dá noites amenas de orvalho. O vento sopra na solidão dos cabeços, seca-se a água nas fontes, esgota-se nos poços para manter frescos os pequenos oásis. Mais um balde, um cegonho que chia em seus madeiros a friccionarem-se, um motor ronca, a água brota do poço, apertada nas mangueiras. Pouco depois, engasgado com o combustível deixa de respirar, a água deixa de correr, os feijoeiros choram de sede.
Vais-te tramar comigo se por tua culpa a horta se me seca!
Puxa a corda para dar à ignição, por instantes parece que irá recomeçar, mas num desânimo de vida gasta, vai-se abaixo, os braços deixam de ter força, o motor vence. Pragueja, mas em vão.
Malvado dum raio, rebento-te esse monte de metal cinzento se me obrigas a puxar a corda do balde para tirar a água do poço para que eu continue a atender aos pedidos de socorro que a horta me está fazendo.
Faltam-me as noites húmidas que me tragam orvalho aos lameiros e neles me fiquem marcados os passos, me molhem os sapatos, me refresquem e me mostrem o caminho de regresso a casa sem que para isso outros sinais de passagem deixe que não aqueles que marcaram os pés, quando de manhãzinha antes do nascer do sol, caminho pelos campos.
Faltam-lhe as pernas que sejam capazes de seguir a vontade de caminhar, faltam-lhe os caminhos que se façam curtos, faltam-lhe as mãos fortes que ponham o motor a tirar água do poço, falta-lhe a esperança de voltar a plantar horta, faltam-lhe as melodias a aflorarem aos lábios, falta-lhe a voz para cantar as canções que vai treinando para que ao menos a letra lhe fique na memória.
Falta-me o aroma da Primavera fresca neste Outono em que, contra a minha vontade, o tempo me faz cair a folha.
Falta-me a música dos dias de festa…
Faltam-me os chilreios da longínqua infância!
Faltam-te orvalhos que te refresquem a pele seca, os olhos baços, o corpo hirto!
Vais-te tramar comigo se por tua culpa a horta se me seca!
Puxa a corda para dar à ignição, por instantes parece que irá recomeçar, mas num desânimo de vida gasta, vai-se abaixo, os braços deixam de ter força, o motor vence. Pragueja, mas em vão.
Malvado dum raio, rebento-te esse monte de metal cinzento se me obrigas a puxar a corda do balde para tirar a água do poço para que eu continue a atender aos pedidos de socorro que a horta me está fazendo.
Faltam-me as noites húmidas que me tragam orvalho aos lameiros e neles me fiquem marcados os passos, me molhem os sapatos, me refresquem e me mostrem o caminho de regresso a casa sem que para isso outros sinais de passagem deixe que não aqueles que marcaram os pés, quando de manhãzinha antes do nascer do sol, caminho pelos campos.
Faltam-lhe as pernas que sejam capazes de seguir a vontade de caminhar, faltam-lhe os caminhos que se façam curtos, faltam-lhe as mãos fortes que ponham o motor a tirar água do poço, falta-lhe a esperança de voltar a plantar horta, faltam-lhe as melodias a aflorarem aos lábios, falta-lhe a voz para cantar as canções que vai treinando para que ao menos a letra lhe fique na memória.
Falta-me o aroma da Primavera fresca neste Outono em que, contra a minha vontade, o tempo me faz cair a folha.
Falta-me a música dos dias de festa…
Faltam-me os chilreios da longínqua infância!
Faltam-te orvalhos que te refresquem a pele seca, os olhos baços, o corpo hirto!
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Cansadas...
Estão cansadas, as flores...
Há nuvens negras a poente
Onde Vénus despertou.
As flores estão cansadas
Do jardim que lhes calhou
Dos aditivos
Dos cortes
Das fomes
E da primavera
Que não as amou.
Estão tristes, as flores...
Há nuvens negras a poente
Onde Vénus despertou.
As flores estão cansadas
Do jardim que lhes calhou
Dos aditivos
Dos cortes
Das fomes
E da primavera
Que não as amou.
Estão tristes, as flores...
sábado, 24 de julho de 2010
Poeticamente...
Às vezes, antes que os meus dedos escrevam, no meu corpo eu sinto ondas de musicalidade daquilo em que penso, mesmo que não pense em palavras, não pense em frases com que possa fazer um texto, uma palavra que seja. Ondas de musicalidade a virem-me nem sei de onde, música a rimar em poemas.
Tentei desenhar letras com essa música mas as pálpebras pesaram-me até que, os cílios finalmente uniram-se em toques leves.
Dormi uma pequena sesta no sofá da sala, depois de ter fechado todas as janelas. Uma mosca insistia no seu zumbido. Odeio moscas, odeio-as tanto que era capaz de lhes infringir um assassinato colectivo. Odeio moscas e odeio muitas mais coisas, já que tenho mau feitio...
Odiar não, acho que não odeio seja o que for, ódio não, apenas intolerância.
Há que dar musicalidade poética à vida para que a vida possa suportar as intolerâncias...
Uma das coisas é o maldito pano do pó assim como o aspirador e a vassoura. Com eles até urticária sinto nas veias. Prefiro uma enxada, mesmo que de pontas longas a furar a terra, a dobrar-me os quadris e a contrair-me as vísceras...
Olhei a mesa e, a presumível transparência do tampo de vidro que cobre um trilho (utensílio com que se debulhava o cereal), tinha uma opacidade de rocha branca. É preciso pôr as mãos à penosa obra de acabar com o pó da sala que afinal tinha sido limpa ainda havia menos de uma semana.
Peguei no objecto do meu suplício e lancei-me à mesa. Limpei-lhe o pó, depois lavei-a com um pano molhado e sequei-a com um jornal de notícias amareladas. Como que em sonho, toquei piano enquanto limpava, eu que de música nada sei. Fui tocando, tocando, acariciando teclas, voltando folhas da partitura. A mesa ficou impecavelmente limpa, primorosamente tocada pelos dedos leves do jornal cada vez mais desfeito de suas bombásticas notícias.
Os móveis são de cera, como era o pequeno móvel feito de madeira de eucalipto onde a minha infância guarda as loiças de festa. Claro por dentro e escurecido por fora à custa do tempo e do fumo que viajava por toda a casa, enquanto não existiu a humilde chaminé. O único móvel que havia para além dos escanos, esfregados com água e sabão azul e as arcas de madeira onde se guardavam as roupas de casa e de vestir. Por falta de espaço muitas coisas se atafulhavam debaixo das camas de ferro encostadas à parede e tapadas as misérias com a dianteira, um pano branco bordado e com renda que se prendia debaixo do colchão de palha e que tapava todo o recheio familiar e supria a falta de móveis.
Cera virgem de abelha lhe punha a minha avó e lhe puxava o lustro com uma meia de lã de ovelha cravejada de remendos e de buracos, tricotada pelas mãos hábeis da minha mãe. Muito próximo estava a mosqueira e dela me chegou o cheiro a toucinho, a chouriça cozida e a todas as coisas que era preciso conservar na despensa fresca, quando a electricidade descia pelos fios da candeia até ao prato.
Peguei na cera, subi ao colo da minha mãe e da minha avó Ana e esfregando o pano vezes sem conta trouxe aos móveis de antiquário, de casas doutras infâncias, um brilho e vida que seguramente nunca teriam tido, um brilho poético porque poeticamente polidos com a meia de lã de ovelha da minha memória. Um brilho de fazer inveja à velha caldeira de cobre esfregada com cinza e aos potes de ferro que trazem o brilho da areia das valetas do caminho, depois de passar a enxurrada e que cheiram a sabão em barra, azul e branco a lembrar o céu.
Poeticamente...
Poeticamente, enfeitiçando as minhas intolerâncias...
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Sob o olhar da lua em noite de Agosto
O fim da clausura
Estive este tempo todo sem internete por uma razão que ainda não descobri. É quase impossível suportar essa solidão nos tempos de hoje. Com outro computador a janela abriu-se enfim...
Fui escrevendo sem que pudesse publicar mas, não é a mesma coisa. Sinto necessidade de comunicar e, fazendo-o através dos blogues, eu sinto que falo com o mundo.
A quem me segue, as minhas desculpas e o meu obrigada.
Fui escrevendo sem que pudesse publicar mas, não é a mesma coisa. Sinto necessidade de comunicar e, fazendo-o através dos blogues, eu sinto que falo com o mundo.
A quem me segue, as minhas desculpas e o meu obrigada.
Nas constelações da minha alma
É apenas mais um lugar onde me sento,
onde pisei searas de trigo
para ser formiga
em cerejeira de tronco rugoso.
Elas doces, negras, magras
que de tão magras,
o caroço lhes saía nas costelas.
E poucas, tão poucas!...
E belas, tão belas!...
Belas, apetitosas e únicas,
como única é a infância
feita de aromas silvestres...
Não foi este o meu casulo,
o meu canto dos silêncios
mas daqui eu posso vê-lo,
lá em baixo na aldeia, meu ninho,
aonde sempre me abeiro,
de mansinho...
Daqui vejo o sol a ir-se,
bola incandescente
tocando a silhueta dos montes
onde os meus sonhos de infinito poisam.
E vejo fontanários
e vejo fontes
e cântaros no parapeito
esperando uma fala apressada.
E vejo tudo,
vejo tudo, em nada...
Quando finalmente o sol me deixa
e Vénus se me faz confidente,
apago os candeeiros da rua
E vejo candeias somente
E vejo crianças
e muita gente...
Gente que trabalha numa canseira infinda,
Esfarelando o pão com as mãos calejadas,
sente tudo,
em troca de nada...
E depois,
em cada casinha,
com sua janela discreta,
eu vejo
o nascer de uma estrela,
trémula, frágil, inquieta.
Atrás dessa, outras,
alumiando serões
e na minha aldeia eu vejo
brilhantes constelações.
A lua de tão confusa
de ver tantas estrelas na aldeia,
humildemente deixou-se
cair inteirinha,
Cheia.
E eu,
... eu vi-te
à luz da candeia!...
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Agarro-me
Agarro-me à vida
Como que a segurar esmeraldas
Dum mar imenso em mim
Grinaldas de rubis de Outono
Que me enfeitam
Onde em silêncio me entrego
Me abandono...
Agarro-me à esperança
Venço as dores de que padeço
Sacudo, choro
Canto, sonho
E em ti adormeço.
Acordo em ti
Abraço-te
Agradeço...
Como que a segurar esmeraldas
Dum mar imenso em mim
Grinaldas de rubis de Outono
Que me enfeitam
Onde em silêncio me entrego
Me abandono...
Agarro-me à esperança
Venço as dores de que padeço
Sacudo, choro
Canto, sonho
E em ti adormeço.
Acordo em ti
Abraço-te
Agradeço...
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Hoje sinto-me a ave fria, de luto
No último texto que escrevi, falava eu da cotovia que morreu de sede e de pranto por lhe terem tirado a pedra, onde, bem no centro, na covinha, fazia o sumo de amora e bebia com a palhinha de centeio.
Nem de propósito eu poderia ter escrito um texto tão oportuno! A cotovia poderia ter morrido também, se acaso tivesse ressuscitado...
Nasci numa casinha de pedra. Encostada à casa eram os estábulos e o palheiro da tia Chica Barriguita. Depois era mais um pedaço de casa onde me lembro de ver grandes arcas, estendendo-se em L a oficina de Ferreiro do meu avô fechando a seguir com a pocilga dos porcos em redondo. Mais tarde adquiriram as lojas da tia Chica ficando assim um pátio fechado não tivesse o meu avô derrubado o muro e o portão, ambos altos, porque a ruela contígua, a um nível mais baixo, era demasiado estreita e não havia largueza desejável para passarem os carros de bois das pessoas que ali moravam ou lá tinham os estábulos.
O tio Avelino, meu avô, não era capaz de negar um favor e assim, muro e portão foram abaixo, quando a minha mãe era criança, conta ela. Só me lembro do pedaço de muro, exactamente naquele ponto da ruela, abrindo-se mais desafogada em frente a estábulos, já não precisava do terreno de cima. A terra num nível superior foi caindo com o efeito do tempo e da chuva, alargando cada vez mais a ruela. Viam-se perfeitamente no chão as marcas dos limites, porque a estreita rua era de pedra, um calcetamento que se via tinha sido feito com muita sensibilidade e bom gosto, pedra ao lado de pedra, umas mais lisas e de maiores dimensões, outras arredondadas. Aquelas pedras guardavam história e muitas brincadeiras de crianças que, até ao toque das trindades corriam como pássaros. A rua empedrada terá surgido no tempo em que aldeia surgiu ali, quando, dizia-me a minha avó, a aldeia teve que sair do sítio de S. Lourenço por causa das formigas. Na falta de insecticidas para as combaterem, tiveram que mudar a aldeia. Resta lá a cruz da capela a vigiar a minha casa, construída recentemente naquele lugar.
Dói-me a alma só de pensar na escuridão do alcatrão e sinto calor aqui bem longe, como se lá estivesse, só de pensar o quão viscoso o sol o tornará no estio rigoroso do nordeste.
Hoje sou cotovia triste, mais uma vez, porque mais uma vez apagaram as marcas da história dos meus antepassados e desta vez, má sorte, com pazadas de alcatrão que detesto.
Tivesse ao menos feito uma despedida digna quando pela última vez há um mês e picos te vi!
Quem me dera ter sabido e olhar-te-ia longamente na derradeira vez. Iria seguir e sempre olhando como uma mãe a despedir-se dum filho condenado à morte.
Sou de novo cotovia, ou ave fria, de luto, triste e fria, como frias são as mentes que nada preservam.
Que haja progresso mas que esse progresso não se faça à custa do desmantelamento dos vestígios dos nossos antepassados.
Calçada linda que me miraste em todos os acordares, adeus!
Nem de propósito eu poderia ter escrito um texto tão oportuno! A cotovia poderia ter morrido também, se acaso tivesse ressuscitado...
Nasci numa casinha de pedra. Encostada à casa eram os estábulos e o palheiro da tia Chica Barriguita. Depois era mais um pedaço de casa onde me lembro de ver grandes arcas, estendendo-se em L a oficina de Ferreiro do meu avô fechando a seguir com a pocilga dos porcos em redondo. Mais tarde adquiriram as lojas da tia Chica ficando assim um pátio fechado não tivesse o meu avô derrubado o muro e o portão, ambos altos, porque a ruela contígua, a um nível mais baixo, era demasiado estreita e não havia largueza desejável para passarem os carros de bois das pessoas que ali moravam ou lá tinham os estábulos.
O tio Avelino, meu avô, não era capaz de negar um favor e assim, muro e portão foram abaixo, quando a minha mãe era criança, conta ela. Só me lembro do pedaço de muro, exactamente naquele ponto da ruela, abrindo-se mais desafogada em frente a estábulos, já não precisava do terreno de cima. A terra num nível superior foi caindo com o efeito do tempo e da chuva, alargando cada vez mais a ruela. Viam-se perfeitamente no chão as marcas dos limites, porque a estreita rua era de pedra, um calcetamento que se via tinha sido feito com muita sensibilidade e bom gosto, pedra ao lado de pedra, umas mais lisas e de maiores dimensões, outras arredondadas. Aquelas pedras guardavam história e muitas brincadeiras de crianças que, até ao toque das trindades corriam como pássaros. A rua empedrada terá surgido no tempo em que aldeia surgiu ali, quando, dizia-me a minha avó, a aldeia teve que sair do sítio de S. Lourenço por causa das formigas. Na falta de insecticidas para as combaterem, tiveram que mudar a aldeia. Resta lá a cruz da capela a vigiar a minha casa, construída recentemente naquele lugar.
Dói-me a alma só de pensar na escuridão do alcatrão e sinto calor aqui bem longe, como se lá estivesse, só de pensar o quão viscoso o sol o tornará no estio rigoroso do nordeste.
Hoje sou cotovia triste, mais uma vez, porque mais uma vez apagaram as marcas da história dos meus antepassados e desta vez, má sorte, com pazadas de alcatrão que detesto.
Tivesse ao menos feito uma despedida digna quando pela última vez há um mês e picos te vi!
Quem me dera ter sabido e olhar-te-ia longamente na derradeira vez. Iria seguir e sempre olhando como uma mãe a despedir-se dum filho condenado à morte.
Sou de novo cotovia, ou ave fria, de luto, triste e fria, como frias são as mentes que nada preservam.
Que haja progresso mas que esse progresso não se faça à custa do desmantelamento dos vestígios dos nossos antepassados.
Calçada linda que me miraste em todos os acordares, adeus!
domingo, 4 de julho de 2010
Em mim...
Vive em mim uma andorinha, aquela que quando dei o primeiro grito para experimentar a eficácia dos pulmões e a partir do qual fui eu inteira, poisou no parapeito da pequena janela vestida de vidro riscado do quarto que me serviu de maternidade, sem marquesa, sem médico ou enfermeira e onde de cócoras a minha mãe me lançou nas mãos da minha avó, ali bem junto ao sobrado de tábuas esfregadas com escova e sabão azul.
Era Maio. Não me lembro que tempo fazia. Presumo que seria bom tempo e que as andorinhas esvoaçassem para retocar os ninhos com o barro arrancado ao ribeiro ou ao buraco escavado na terra vermelha donde antes as gentes sacavam o barro para moldar as telhas que seriam cozidas no forno. O forno da Fontásia ainda me lembro sempre que por lá passo e vejo o buraco atafulhado de lixo e silvados.
Há uma andorinha em mim, aparentemente exuberante mas no fundo discreta como uma flor silvestre, uma violeta da beira do caminho, sequiosa de aventura e de mundo.
Há uma andorinha em mim a transportar o barro vermelho com que construa as telhas tão poeticamente belas para refazer os telhados da minha infância que uma moda de novo riquismo as extinguiu para deixar os telhados altivos, vestidos com telhas de diferentes cores que graciosamente descascam em cada inverno sempre que as geadas lhes congelam os pigmentos.
Há telhas em mim, também há telhas, daquelas de barro sepultadas num fosso de esquecimento! Daquelas de vermelho acastanhado, cobertas de história e musgo onde passarinhos poetas saltitavam para ver o céu mais perto, e a lua e com ela fazerem poemas.
Há uma andorinha em mim. Às vezes sim, outras não! Já não sei!...
Outras, há cotovia de cantar triste, tão triste que faz chorar a pedra onde fazia o vinho de amoras, ali debaixo da amoreira, na covinha bem no centro e que depois sugava aquele vermelho de lábios virgens, com uma palhinha de centeio. A cotovia do meu coração triste já não tem onde beber o sumo de amora, porque a pedra, aquela que lá está é cinzelada, lisa de painel de vidro de novos ricos.
A cotovia que havia em mim morreu de sede e de pranto!
Desisto de ter em mim o que quer que seja… mas quero tão só, estar em cada andorinha, em cada cotovia ou cuco, gaivota, rouxinol ou albatroz e agarrada às suas asas voar, voar cantando!
Era Maio. Não me lembro que tempo fazia. Presumo que seria bom tempo e que as andorinhas esvoaçassem para retocar os ninhos com o barro arrancado ao ribeiro ou ao buraco escavado na terra vermelha donde antes as gentes sacavam o barro para moldar as telhas que seriam cozidas no forno. O forno da Fontásia ainda me lembro sempre que por lá passo e vejo o buraco atafulhado de lixo e silvados.
Há uma andorinha em mim, aparentemente exuberante mas no fundo discreta como uma flor silvestre, uma violeta da beira do caminho, sequiosa de aventura e de mundo.
Há uma andorinha em mim a transportar o barro vermelho com que construa as telhas tão poeticamente belas para refazer os telhados da minha infância que uma moda de novo riquismo as extinguiu para deixar os telhados altivos, vestidos com telhas de diferentes cores que graciosamente descascam em cada inverno sempre que as geadas lhes congelam os pigmentos.
Há telhas em mim, também há telhas, daquelas de barro sepultadas num fosso de esquecimento! Daquelas de vermelho acastanhado, cobertas de história e musgo onde passarinhos poetas saltitavam para ver o céu mais perto, e a lua e com ela fazerem poemas.
Há uma andorinha em mim. Às vezes sim, outras não! Já não sei!...
Outras, há cotovia de cantar triste, tão triste que faz chorar a pedra onde fazia o vinho de amoras, ali debaixo da amoreira, na covinha bem no centro e que depois sugava aquele vermelho de lábios virgens, com uma palhinha de centeio. A cotovia do meu coração triste já não tem onde beber o sumo de amora, porque a pedra, aquela que lá está é cinzelada, lisa de painel de vidro de novos ricos.
A cotovia que havia em mim morreu de sede e de pranto!
Desisto de ter em mim o que quer que seja… mas quero tão só, estar em cada andorinha, em cada cotovia ou cuco, gaivota, rouxinol ou albatroz e agarrada às suas asas voar, voar cantando!
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Em relógios de lua
Desde que experimentei o verdadeiro silêncio,
deixei de temer a morte.
Que mais pode ser a morte
que um silêncio prolongado...
Aquele silêncio
em que o relógio que o pode marcar
é o relógio solar
ponteiro dirigido ao céu,
sem tic-tac.
Desde que conheci o verdadeiro silêncio,
deixei de ter medo da vida,
da vida que come o silêncio...
Conto-me no relógio de areia,
uma a uma
se deixa tombar,
a contar os segundos,
sem ruído de ponteiros,
nem cucos a espreitar.
É nesse marcar de tempo
sem tic-tac de solidões
que me nascem orquestras de silêncios
em ondas a levarem-me ao céu
como que na derradeira viagem,
com o tempo contado
em relógios de lua...
Que mais será a morte
que um silêncio,
onde o compasso não vem da areia,
nem do sol,
mas tão só da lua,
donde mire o mundo com poesia,
donde continuarei a fazer-te poesia,
calma, serena,
a minha,
viva...
gravada pelo vento
nas dunas do meu silêncio...
deixei de temer a morte.
Que mais pode ser a morte
que um silêncio prolongado...
Aquele silêncio
em que o relógio que o pode marcar
é o relógio solar
ponteiro dirigido ao céu,
sem tic-tac.
Desde que conheci o verdadeiro silêncio,
deixei de ter medo da vida,
da vida que come o silêncio...
Conto-me no relógio de areia,
uma a uma
se deixa tombar,
a contar os segundos,
sem ruído de ponteiros,
nem cucos a espreitar.
É nesse marcar de tempo
sem tic-tac de solidões
que me nascem orquestras de silêncios
em ondas a levarem-me ao céu
como que na derradeira viagem,
com o tempo contado
em relógios de lua...
Que mais será a morte
que um silêncio,
onde o compasso não vem da areia,
nem do sol,
mas tão só da lua,
donde mire o mundo com poesia,
donde continuarei a fazer-te poesia,
calma, serena,
a minha,
viva...
gravada pelo vento
nas dunas do meu silêncio...
terça-feira, 29 de junho de 2010
Em ondas de planuras
Toco-te
Nesse rosto que entre brumas
Me chega sereno
Como colcha acabada de tecer
Como seara ondulada pelo vento
Nas planuras da minha infância.
Toco-te
Quando te olho
Na urgência de te ter
Neste querer sem distância.
Tenho-te
De olhos fechados
Com o corpo e com a alma
Quando deitada em frente
À tua voz, adormeço.
Tens-me
Tocas-me
Quando me abraças
Com ondas alterosas
E em ti estremeço.
Cansada, regresso.
Nesse rosto que entre brumas
Me chega sereno
Como colcha acabada de tecer
Como seara ondulada pelo vento
Nas planuras da minha infância.
Toco-te
Quando te olho
Na urgência de te ter
Neste querer sem distância.
Tenho-te
De olhos fechados
Com o corpo e com a alma
Quando deitada em frente
À tua voz, adormeço.
Tens-me
Tocas-me
Quando me abraças
Com ondas alterosas
E em ti estremeço.
Cansada, regresso.
Mágico Oceano
Vi-te ao longe, que de tão longe, em ti não identifiquei mais que a cor. Achei-te belo, tão belo que nunca mais esqueci o mágico azul que me estendeste num prolongamento de céu.
Vi-te pela primeira vez quando o comboio que também a ele vi pela primeira vez em Duas Igrejas, a última estação da linha do Sabor, me levou para estudar no Porto.
Pela primeira vez também vi o rio Douro num vale em que se podia espraiar lânguido, sem o aperto dos fraguedos. Segui atentamente o seu percurso de lá de cima dos carris, numa viagem que sorvi em golfadas, olhos esbugalhados e boca aberta de espanto.
Vi-te Oceano Índico de águas mornas, por vezes agradavelmente mais frescas em correntes que de súbito, tenuemente me refrescavam. Entrei em ti pela primeira vez numa manhã escaldante de Fevereiro, sol quase a pique, corpo tenro e branco de veludo, em breve tostado quando, como criança mergulhava numa lagoa que as ondas tinham deixado na areia e cuja água quente ferveu no meu corpo.
Pura magia! Amor à primeira vista, paixão para além do Verão!
Visitei-te apaixonadamente, umas vezes entrando em ti, outras, passeando na extensa marginal ao volante do Datsun branco ou o jeep Toyota descapotável, ambos com volante à direita por se tratar de condução em Moçambique, influenciado pela Rodésia, seu nome na época.
Depois mar, quiseste-me levar embalada numa onda gigantesca. Bebi-te mais que alguma vez pensei beber água de mar, numa altura em que treinava os passos para dançar contigo. Tive medo, perdi os passos de dança e levei estes anos todos para os readquirir. No ano passado já ousei entrar mais por ti adentro mas quando dava conta que não tinha areia debaixo dos pés, dava aos braços até sair, Atlântico igualmente sedutor.
Libertei-me dos meus medos e agora tenho o respeito que qualquer pessoa que como eu, sem uma técnica apurada de natação deve ter, quando em ti entra.
Libertei-me na tua frescura, larguei as dores que me acompanhavam da ponta dos pés até à cabeça, e, sem que o corpo me pese, em ti deslizo olhando o céu ou, com a cabeça dentro das tuas águas verdes, vejo o fundo, as conchas, os meus pés, os cardumes que às nove da manhã se aproximam sem medo da única pessoa a visitá-los àquela hora. É tão fantástica a praia às nove da manhã!
O nadador salvador prepara os toldos, a massagista tailandesa as toalhas e as essências, as mães prudentes passeiam os bebés debaixo dum boné e duma blusa e eu, também prudentemente me preparo para mais uma manhã de sol e mar.
Ao meio dia é o regresso a casa. Regresso fresca, revigorada, restabelecida das marcas que um Inverno húmido deixou no meu corpo. Até logo mar! Até às cinco ou seis da tarde para ver reflectido nas tuas águas o sol que todas as tardes se despede atrás das escarpas.
Vi-te pela primeira vez quando o comboio que também a ele vi pela primeira vez em Duas Igrejas, a última estação da linha do Sabor, me levou para estudar no Porto.
Pela primeira vez também vi o rio Douro num vale em que se podia espraiar lânguido, sem o aperto dos fraguedos. Segui atentamente o seu percurso de lá de cima dos carris, numa viagem que sorvi em golfadas, olhos esbugalhados e boca aberta de espanto.
Vi-te Oceano Índico de águas mornas, por vezes agradavelmente mais frescas em correntes que de súbito, tenuemente me refrescavam. Entrei em ti pela primeira vez numa manhã escaldante de Fevereiro, sol quase a pique, corpo tenro e branco de veludo, em breve tostado quando, como criança mergulhava numa lagoa que as ondas tinham deixado na areia e cuja água quente ferveu no meu corpo.
Pura magia! Amor à primeira vista, paixão para além do Verão!
Visitei-te apaixonadamente, umas vezes entrando em ti, outras, passeando na extensa marginal ao volante do Datsun branco ou o jeep Toyota descapotável, ambos com volante à direita por se tratar de condução em Moçambique, influenciado pela Rodésia, seu nome na época.
Depois mar, quiseste-me levar embalada numa onda gigantesca. Bebi-te mais que alguma vez pensei beber água de mar, numa altura em que treinava os passos para dançar contigo. Tive medo, perdi os passos de dança e levei estes anos todos para os readquirir. No ano passado já ousei entrar mais por ti adentro mas quando dava conta que não tinha areia debaixo dos pés, dava aos braços até sair, Atlântico igualmente sedutor.
Libertei-me dos meus medos e agora tenho o respeito que qualquer pessoa que como eu, sem uma técnica apurada de natação deve ter, quando em ti entra.
Libertei-me na tua frescura, larguei as dores que me acompanhavam da ponta dos pés até à cabeça, e, sem que o corpo me pese, em ti deslizo olhando o céu ou, com a cabeça dentro das tuas águas verdes, vejo o fundo, as conchas, os meus pés, os cardumes que às nove da manhã se aproximam sem medo da única pessoa a visitá-los àquela hora. É tão fantástica a praia às nove da manhã!
O nadador salvador prepara os toldos, a massagista tailandesa as toalhas e as essências, as mães prudentes passeiam os bebés debaixo dum boné e duma blusa e eu, também prudentemente me preparo para mais uma manhã de sol e mar.
Ao meio dia é o regresso a casa. Regresso fresca, revigorada, restabelecida das marcas que um Inverno húmido deixou no meu corpo. Até logo mar! Até às cinco ou seis da tarde para ver reflectido nas tuas águas o sol que todas as tardes se despede atrás das escarpas.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Os giraprincipes
Penetro na floresta à procura de húmus para fertilizar as orlas dos caminhos por onde passa. Quero que veja lá crescer os girapríncipes, flores que enfeitiçou e que por isso o seguem. Todos virados, sempre a olhá-lo nos olhos.
Girapríncipes de caule grosso e nem por isso deixam de se virar. Quando chega o fim do verão as suas flores já lhes pesam, de tão carregadas de sementes. Fazem-lhe uma vénia e deixando-as cair na orla do caminho, dobrados, sucumbem num entardecer.
Quando a primavera volta e o sol aquece, pedem-me de mansinho o húmus para se fazerem fortes. E repete-se, repete-se, por verões seguidos, anos, muitos anos...
Até que houve um ano em que o caminho deixou de ter luz para os girapríncipes. O Príncipe foi para outro reino.
Fertilizei-lhes a terra, pedi às nuvens água para que refrescassem e crescessem.
Fecharam as pétalas, murcharam as folhas e até as sementes a começar a formarem-se, se queriam soltar...
Depois disse-lhes que olhassem sempre para o sol que um dia o seu Príncipe chegaria de trás daquela luz.
Assim fizeram os girapríncipes. Sempre a olhar para o sol.
É por isso que se chamam girassóis, perguntou o menino a bocejar,... porque giram com o sol?
Sim, foi a partir desse dia...
Aconcheguei os lençóis e pus húmus nos beijos para que aquela flor crescesse forte...
... todas as noites!
Girapríncipes de caule grosso e nem por isso deixam de se virar. Quando chega o fim do verão as suas flores já lhes pesam, de tão carregadas de sementes. Fazem-lhe uma vénia e deixando-as cair na orla do caminho, dobrados, sucumbem num entardecer.
Quando a primavera volta e o sol aquece, pedem-me de mansinho o húmus para se fazerem fortes. E repete-se, repete-se, por verões seguidos, anos, muitos anos...
Até que houve um ano em que o caminho deixou de ter luz para os girapríncipes. O Príncipe foi para outro reino.
Fertilizei-lhes a terra, pedi às nuvens água para que refrescassem e crescessem.
Fecharam as pétalas, murcharam as folhas e até as sementes a começar a formarem-se, se queriam soltar...
Depois disse-lhes que olhassem sempre para o sol que um dia o seu Príncipe chegaria de trás daquela luz.
Assim fizeram os girapríncipes. Sempre a olhar para o sol.
É por isso que se chamam girassóis, perguntou o menino a bocejar,... porque giram com o sol?
Sim, foi a partir desse dia...
Aconcheguei os lençóis e pus húmus nos beijos para que aquela flor crescesse forte...
... todas as noites!
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