Viajo sobre um manto branco de núvens, cama fofa onde me deito embalada pela lua que, mesmo discreta, me envia brilho com o sol a pique.
Deito-me aconchegada naquele berço e acabo por adormecer.
Em sonhos, tu estavas a meu lado e, ao acordar, os meus braços estavam a enlear o infinito, num abraço.
Ainda a sonhar, esfreguei os olhos, desviei uma nuvem e olhei para baixo.
Acenaste-me duma planura dourada; estavas em pé, em cima de um rochedo com algo na mão a agitar, fazendo-me sinais para que eu travasse o vento e a núvem me não levasse para outros mundos.
Pedi aos deuses para que o vento deixasse de soprar, para que a minha viagem terminasse e eu pudesse descer naquele apeadeiro.
Depois, consegui ouvir a tua voz que me dizia que que aquele recanto era o nosso mundo.
Desci da nuvem branca, sentei-me a teu lado e tu ofereceste-me uma folha de papel que manchei com desenhos e frases onde se contavam histórias de mouras encantadas, de gigantes rochas com suas bocas fantasmagóricas, de medos.
Ali ficámos até o dia se deitar e as estrelas virem beber a luz à lua, aquelas estrelas que dormiam enquanto eu dormia na cama suspensa, de algodão.
É um pouco disto, a sensação que tenho, quando viajo de avião acima das núvens e vislumbro as paisagens em miniatura que vão ficando para trás. O desejo de dormir naquela cama imaculada.
Acerca de mim
- Adelaide Monteiro
- Sintra/Miranda do Douro, Portugal
- Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.
domingo, 31 de janeiro de 2010
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
O professor não morre jamais
»A alegria de ensinar é um livro cujo autor, Rubem Alves, pretende deixar claro que ensinar é um exercício de imortalidade, que de alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra, sendo que, desse modo, o professor não morre jamais, estando a cada dia no pensamento daqueles a quem ele ensinou».
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Com aroma a alfazema
Sentiu-se tensa naquela tarde fria. Há dias em que nem ela sabe porquê que os músculos se retesam em espasmos, tão involuntários quanto indesejáveis. Talvez falta de potássio, quem sabe ou antes uma vida de preocupações e correrias. O corpo a dar sinais de cansaço e que nem sempre se lhe dá a devida atenção.
Chegou tarde do trabalho, às oito mais precisamente; o cuco cantou no relógio antigo que a avó lhe dera e que é uma relíquia da marca Reguladora, hora regulada na verdade, nem um segundo a mais ou menos desde que não se esqueça de lhe dar manualmente corda.
Foi deixando coisas para trás à medida que ia caminhando, afinal que diabo, não tinha que dar satisfações a ninguém desde que há um ano pedira o divórcio após mais de trinta de casamento, trinta e tal anos de tudo um pouco. A balança a dada altura pesou para o lado de querer viver sem que alguém lhe quisesse cobrar fosse o que fosse.
Tirou a chave da porta, bateu-a com força como que a desejar que tudo ficasse definitivamente no exterior. Na cozinha branca e preta deixou a caixa com o jantar, comprado ao virar da esquina, coisa pouca, como convém. Depois largou a mala, o casaco e a boina que habitualmente lhe cobre a cabeça, alternando com boné, ou chapéu. Respirou fundo e murmurou de alívio; finalmente em casa! Que dia, com a breca!...
Preparou o banho de sais e espuma com a aroma a alfazema, acendeu uma vela do mesmo aroma e pô-la junto à banheira. Foi tirando as peças de roupa lentamente, como se esse também fosse um dos truques de relaxamento e colocou-a no cadeirão do quarto. Depois deixou-se estar coberta de espuma, massajando o corpo, saboreando cada toque, respirando o aroma daquele ambiente perfumado e de luz difusa. Respirou de alívio, sentiu-se outra. Secou o corpo, massajou-o com o creme corporal, vestiu o pijama de veludo, calçou umas pantufas quentes. Depois, o roupão azul turquesa, veludo macio e quente. Passa-lhe a mão com frequência e encosta a cabeça na gola volumosa, para lhe sentir a macieza. Veludo por dentro e por fora. Adora roupas macias e bonitas para estar em casa.
O jantar na sala de estar servido num tabuleiro, acompanhado com música calma e um sumo de laranja natural, saboreando cada dentada, cada som, cada toque macio no roupão de veludo, azul turquesa.
Chegou tarde do trabalho, às oito mais precisamente; o cuco cantou no relógio antigo que a avó lhe dera e que é uma relíquia da marca Reguladora, hora regulada na verdade, nem um segundo a mais ou menos desde que não se esqueça de lhe dar manualmente corda.
Foi deixando coisas para trás à medida que ia caminhando, afinal que diabo, não tinha que dar satisfações a ninguém desde que há um ano pedira o divórcio após mais de trinta de casamento, trinta e tal anos de tudo um pouco. A balança a dada altura pesou para o lado de querer viver sem que alguém lhe quisesse cobrar fosse o que fosse.
Tirou a chave da porta, bateu-a com força como que a desejar que tudo ficasse definitivamente no exterior. Na cozinha branca e preta deixou a caixa com o jantar, comprado ao virar da esquina, coisa pouca, como convém. Depois largou a mala, o casaco e a boina que habitualmente lhe cobre a cabeça, alternando com boné, ou chapéu. Respirou fundo e murmurou de alívio; finalmente em casa! Que dia, com a breca!...
Preparou o banho de sais e espuma com a aroma a alfazema, acendeu uma vela do mesmo aroma e pô-la junto à banheira. Foi tirando as peças de roupa lentamente, como se esse também fosse um dos truques de relaxamento e colocou-a no cadeirão do quarto. Depois deixou-se estar coberta de espuma, massajando o corpo, saboreando cada toque, respirando o aroma daquele ambiente perfumado e de luz difusa. Respirou de alívio, sentiu-se outra. Secou o corpo, massajou-o com o creme corporal, vestiu o pijama de veludo, calçou umas pantufas quentes. Depois, o roupão azul turquesa, veludo macio e quente. Passa-lhe a mão com frequência e encosta a cabeça na gola volumosa, para lhe sentir a macieza. Veludo por dentro e por fora. Adora roupas macias e bonitas para estar em casa.
O jantar na sala de estar servido num tabuleiro, acompanhado com música calma e um sumo de laranja natural, saboreando cada dentada, cada som, cada toque macio no roupão de veludo, azul turquesa.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Para que hei-de ser
Porque serei letra ou palavra
Se eu frase não sei ser
Porque balbucio os sons
Se eu nada te sei dizer
Procuro nas palavras
Uma forma de chegar
A um destino
De onde acabo por voltar
Das mãos foge-me o afago
Das veias foge a paixão
Da boca foge-me o beijo
Dos pés foge-me o chão
Para que sou eu o que sou
Se o que sou eu não sei ser
Porque me golpeio
Sabendo que vai doer
Para que hei-de ser palavra
Se palavra não sei escrever
Para que serei amanhã
Se eu o hoje não sei ter
Para que escrevo
Se nem sequer eu vou ler
Se eu frase não sei ser
Porque balbucio os sons
Se eu nada te sei dizer
Procuro nas palavras
Uma forma de chegar
A um destino
De onde acabo por voltar
Das mãos foge-me o afago
Das veias foge a paixão
Da boca foge-me o beijo
Dos pés foge-me o chão
Para que sou eu o que sou
Se o que sou eu não sei ser
Porque me golpeio
Sabendo que vai doer
Para que hei-de ser palavra
Se palavra não sei escrever
Para que serei amanhã
Se eu o hoje não sei ter
Para que escrevo
Se nem sequer eu vou ler
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
O colete de forças
São profundos os vales, são íngremes e escarpadas as encostas. A escassa brisa que tímida corre não lhe chega aos pulmões, na quantidade desejável. Nestes sítios sente-se como no Metro em hora de ponta.
Quer ver um campo aberto onde os seus olhos se espraiem, onde a luz lhe cegue os olhos, onde o céu se mostre na sua plenitude.
Sempre lhe faltou o ar nestes vales profundos. Ainda se lembra da tarde húmida em que teve a sensação de que o mundo lhe cairia em cima como um torpedo, lhe esmagaria a cabeça, naqueles lugares da ilha da Madeira que achou espantosos no cimo mas que odiou quando lá no fundo, só viu montes com uma pequena nesga de céu por cima.
Quero céu, quero terra a perder de vista no planalto ou que seja no pico mais alto do monte onde os meus olhos possam caminhar livremente. Que faço aqui eu neste fim de mundo? Quem me lançou neste inferno que abomino, perguntou Inês furiosa.
Gritou. O mais alto que as cordas vocais puderam e os pulmões lhe deram fôlego.
Nos locais fundos, a sua mente sente que o ar é rarefeito. A sua mente, sim, tudo está na sua cabeça, porque afinal o ar é cada vez mais rarefeito à medida que subimos. Como pode faltar o ar só porque se está no fundo?
Gritou e, aquele grito fez ecos e mais ecos de encontro às montanhas que, dispostas em círculo imperfeito, poderia muito bem, estar ali uma lagoa. Antes estivesse, ao menos chapinhava na água. Ecos, muitos ecos da sua voz, em ondas de som cada vez mais fraco. Gritou mais vezes, gritos espaçados de poucos segundos e, os ecos multiplicados pareciam gritos de almas que haviam sido deportadas para aquele buraco, para se redimirem dos pecados.
Tantas, tantas almas a gritar!
Não sentiu medo, antes sufoco. Arrancou da sebe um pau liso que lhe serviu de apoio para subir o monte e, sem olhar para trás, galgou-o o mais rápido que pode.
Finalmente o céu aberto, as árvores a esvoaçar livremente, o ar a entrar nos pulmões até o fundo, as cigarras a descansarem as asas, ela a livrar-se do colete de forças que lhe apertava as costelas e aos poucos a asfixiava.
Quer ver um campo aberto onde os seus olhos se espraiem, onde a luz lhe cegue os olhos, onde o céu se mostre na sua plenitude.
Sempre lhe faltou o ar nestes vales profundos. Ainda se lembra da tarde húmida em que teve a sensação de que o mundo lhe cairia em cima como um torpedo, lhe esmagaria a cabeça, naqueles lugares da ilha da Madeira que achou espantosos no cimo mas que odiou quando lá no fundo, só viu montes com uma pequena nesga de céu por cima.
Quero céu, quero terra a perder de vista no planalto ou que seja no pico mais alto do monte onde os meus olhos possam caminhar livremente. Que faço aqui eu neste fim de mundo? Quem me lançou neste inferno que abomino, perguntou Inês furiosa.
Gritou. O mais alto que as cordas vocais puderam e os pulmões lhe deram fôlego.
Nos locais fundos, a sua mente sente que o ar é rarefeito. A sua mente, sim, tudo está na sua cabeça, porque afinal o ar é cada vez mais rarefeito à medida que subimos. Como pode faltar o ar só porque se está no fundo?
Gritou e, aquele grito fez ecos e mais ecos de encontro às montanhas que, dispostas em círculo imperfeito, poderia muito bem, estar ali uma lagoa. Antes estivesse, ao menos chapinhava na água. Ecos, muitos ecos da sua voz, em ondas de som cada vez mais fraco. Gritou mais vezes, gritos espaçados de poucos segundos e, os ecos multiplicados pareciam gritos de almas que haviam sido deportadas para aquele buraco, para se redimirem dos pecados.
Tantas, tantas almas a gritar!
Não sentiu medo, antes sufoco. Arrancou da sebe um pau liso que lhe serviu de apoio para subir o monte e, sem olhar para trás, galgou-o o mais rápido que pode.
Finalmente o céu aberto, as árvores a esvoaçar livremente, o ar a entrar nos pulmões até o fundo, as cigarras a descansarem as asas, ela a livrar-se do colete de forças que lhe apertava as costelas e aos poucos a asfixiava.
Há dias
Há dias em que sou tudo
Outros há
Em que não sou nada
Há dias em que o meu peito
Por tudo vibra
De tanto amar
Há dias em que desfeito
Triste
Sem jeito
É frio glaciar
Há dias sim
Há dias não
Há dias em que me olho ao espelho
E me apetece olhar
Mas outros há
Porque será
Que sendo eu a mesma
Eu me volto
Para não olhar
Há dias luminosos
Há dias escuros
Há dias em que abraço a vida
Com risos e cantares
Loucuras e ousadias
Mas ah, tenho dias
Em que a vida me sufoca
E me amordaça
Quero cantar
E quando a voz se solta
Solta-se a chorar
Há dias que são momentos
E há momentos que são dias!...
Outros há
Em que não sou nada
Há dias em que o meu peito
Por tudo vibra
De tanto amar
Há dias em que desfeito
Triste
Sem jeito
É frio glaciar
Há dias sim
Há dias não
Há dias em que me olho ao espelho
E me apetece olhar
Mas outros há
Porque será
Que sendo eu a mesma
Eu me volto
Para não olhar
Há dias luminosos
Há dias escuros
Há dias em que abraço a vida
Com risos e cantares
Loucuras e ousadias
Mas ah, tenho dias
Em que a vida me sufoca
E me amordaça
Quero cantar
E quando a voz se solta
Solta-se a chorar
Há dias que são momentos
E há momentos que são dias!...
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Reflicto, Haiti
Olho as nuvens espessas, distantes, escuras.
Amaldiçoo o céu porque o sol me esconde e me deixa prostrada nesta cadeira húmida, onde o baloiço se prendeu nas dobradiças.
O dia faz-me gélido o peito, o meu rosto está inexpressivo, sedento de neve, faminto de prados do planalto que sempre em sua alma brilha.
Como eu me sinto uma egoísta monstruosa!! Preocupada com a falta de sol, quando no mundo impera a escuridão...
Repouso, reflicto.
A penumbra traz-me vermelho sangue, o vento traz-me cheiro a morte, a fome, a injustiças. Olho o horizonte e vejo crianças a arrastarem-se entre os cadáveres, mortas de fome e de sede, a morrer em cima de escombros onde a morte se faz vida, por tão crua a vida ser.
Para onde olhava o mundo, antes de tudo desabar?
Para onde olhamos nós quando nos deliciamos em férias de sonho e nem sequer nos lembramos que a realização dos nossos sonhos em nada contribuem para melhores sonhos daquele povo? Para onde vão os sonhos por nós pagos?
O povo do Haiti não tem nada, os factos o têm dito; o país nada tem, as imagens têm mostrado, as notícias revelado.
Onde tem andado metida a humanidade, surda e cega?
Onde está a justiça divina?
Onde estamos todos?
Andamos entretidos com as nossas vaidades, reclamando o sol e a penumbra, o céu escuro e o estrelado, a chuva e a falta dela,... de tudo reclamando!
Amaldiçoo o céu porque o sol me esconde e me deixa prostrada nesta cadeira húmida, onde o baloiço se prendeu nas dobradiças.
O dia faz-me gélido o peito, o meu rosto está inexpressivo, sedento de neve, faminto de prados do planalto que sempre em sua alma brilha.
Como eu me sinto uma egoísta monstruosa!! Preocupada com a falta de sol, quando no mundo impera a escuridão...
Repouso, reflicto.
A penumbra traz-me vermelho sangue, o vento traz-me cheiro a morte, a fome, a injustiças. Olho o horizonte e vejo crianças a arrastarem-se entre os cadáveres, mortas de fome e de sede, a morrer em cima de escombros onde a morte se faz vida, por tão crua a vida ser.
Para onde olhava o mundo, antes de tudo desabar?
Para onde olhamos nós quando nos deliciamos em férias de sonho e nem sequer nos lembramos que a realização dos nossos sonhos em nada contribuem para melhores sonhos daquele povo? Para onde vão os sonhos por nós pagos?
O povo do Haiti não tem nada, os factos o têm dito; o país nada tem, as imagens têm mostrado, as notícias revelado.
Onde tem andado metida a humanidade, surda e cega?
Onde está a justiça divina?
Onde estamos todos?
Andamos entretidos com as nossas vaidades, reclamando o sol e a penumbra, o céu escuro e o estrelado, a chuva e a falta dela,... de tudo reclamando!
domingo, 17 de janeiro de 2010
Que me chegue até Dezembro
Escrevo sobre a neve que guardei, pegadas firmes no desnorte dos dias.
Caminho errante sobre essa manta branca com a certeza de quem tem uma bússola a indicar-lhe o norte e lhe traça os pontos cardeais nos seus destinos incertos.
Paro, inverto o sentido e, para não me desorientar sigo as pegadas e, para que possa sentir o fofo nos pés, ao lado eu piso.
Às vezes faço incursões por outros campos, os campos onde a neve não cai, mas depressa os meus pés retornam às outras pegadas e me levam a ti, céu cinzento de neve fofa, fábrica dos meus sonhos, orquestras de cigarras no calor escaldante do dia, de rãs e grilos à noite, filarmónica de chiares vindos de todos os caminhos e que mesmo que só em arquivos me deliciam.
Escrevo sobre o branco que guardei de um tempo, até o outro tempo que me leve a ti e me dê mais tempo de magia.
Manda-me mais branco, tempo!
Manda-me branco mágico que me chegue até Dezembro!
Caminho errante sobre essa manta branca com a certeza de quem tem uma bússola a indicar-lhe o norte e lhe traça os pontos cardeais nos seus destinos incertos.
Paro, inverto o sentido e, para não me desorientar sigo as pegadas e, para que possa sentir o fofo nos pés, ao lado eu piso.
Às vezes faço incursões por outros campos, os campos onde a neve não cai, mas depressa os meus pés retornam às outras pegadas e me levam a ti, céu cinzento de neve fofa, fábrica dos meus sonhos, orquestras de cigarras no calor escaldante do dia, de rãs e grilos à noite, filarmónica de chiares vindos de todos os caminhos e que mesmo que só em arquivos me deliciam.
Escrevo sobre o branco que guardei de um tempo, até o outro tempo que me leve a ti e me dê mais tempo de magia.
Manda-me mais branco, tempo!
Manda-me branco mágico que me chegue até Dezembro!
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Comigo serás sol
Achei que não virias
Achei que a nuvem negra te tomaria nos braços
Traiçoeira nuvem que de ti me priva
Como ontem, lembras-te?
Ainda cedo, caminhei sonâmbula
Destapei o lençol que te cobria
Tirei-te as vestes.
Depois, fizeste-te luz
Acalmaste-me o corpo agitado pelo vento
Que soprou na noite fria
Acariciaste-me o rosto
E, sorrindo me pediste:
Deita-te a meu lado
Ilumina comigo o universo
Tira-me o cansaço
Das apeias que me prendem
Dias, anos, milénios
Livra-me da monotonia em que mergulho
Nesta vida onde nada me acontece
Prende-te com os meus cabelos
Fixa-te no meu calor
Fica comigo
E, os dois aqueceremos o mundo.
Achei que a nuvem negra te tomaria nos braços
Traiçoeira nuvem que de ti me priva
Como ontem, lembras-te?
Ainda cedo, caminhei sonâmbula
Destapei o lençol que te cobria
Tirei-te as vestes.
Depois, fizeste-te luz
Acalmaste-me o corpo agitado pelo vento
Que soprou na noite fria
Acariciaste-me o rosto
E, sorrindo me pediste:
Deita-te a meu lado
Ilumina comigo o universo
Tira-me o cansaço
Das apeias que me prendem
Dias, anos, milénios
Livra-me da monotonia em que mergulho
Nesta vida onde nada me acontece
Prende-te com os meus cabelos
Fixa-te no meu calor
Fica comigo
E, os dois aqueceremos o mundo.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Cumpriu-se o desejo
Olho através dos vidros e vejo que muito mais próximo de mim do que é habitual, o céu se deixa cair sobre os carvalhos semi-despidos. Gradualmente, as manchas do arvoredo são nuances cada vez mais ténues, como que encobertas por nevoeiro cerrado, até que desaparecem naquele céu de neve feito, tão lindo, tão extraordinariamente reconfortante.
Há aqui na aldeia quem não compreenda este meu fascínio pela neve e por outras coisas sem significado para a maioria dos mortais e me tome, no mínimo, por excêntrica.
A paisagem está a ficar cada vez mais linda, mais branca. A neve cai miudinha e se o vento não tivesse deixado de soprar com força, seria daquela neve que entra por qualquer orifício e que aqui é designada por neve cisqueira.
Cada vez que deixo de escrever e levanto os olhos sinto a paisagem mais bela.
Em memórias, regresso aos anos da infância e da juventude: O frio que sentia na véspera do nevão, as casas humildes de granito a deixarem entrar o frio por todos os buracos, calafetadas com a neve que caía, o lume mais forte que o habitual, os animais que não podiam sair do estábulo alimentados a palha e grão de centeio, as correrias na neve fofa, as brincadeiras que fazíamos a jogar à bolada na rua dos Palheiros, em Miranda, em vez das aulas por encerrarem as escolas, frio, muito frio.
Sempre o fascínio pela neve. Como pode alguém admirar-se que eu manifestasse vontade de ver nevar, agora que, ainda por cima estou numa sala aquecida, confortável, com janelas amplas e portas rasgadas que me permitem ver a aldeia, os telhados cada vez mais brancos e a nuvem de farrapos brancos que se desprende do céu.
Tivesse eu ouvidos sensíveis para lhe captar a música da queda, tivesse eu pernas para correr pelos campos sem medo de me enterrar, tivesse eu arte para descrever o que sinto, pincéis para passar para uma tela gigante aquilo que me encanta, e tudo captaria nem que só um pouco fosse.
Não se consegue ter tudo ao mesmo tempo, e, o que me falta em pernas, pulmões e ouvido, sobra-me em espanto, neste sentir profundo, neste encantamento. Há coisas que só vemos quando as olhamos com o tempo propício para as ver, há coisas que só as sentimos quando temos sensibilidade bastante para as sentir. São compensações daquilo que perdemos...
Para vós, que estais numa cidade aonde este manto não chega, guardarei um punhado desta brancura, para que também possais relembrar os momentos mágicos das vossas infâncias, vividos aqui neste Planalto, tão vosso quanto meu.
Poderei guardar muito mais do que um punhado, tanta, tanta mais,... por muita a neve ser, já num manto branco, árvores a ficarem cobertas, o céu cada vez mais cinza prateado, o nevoeiro provocado pela queda das farrapos cada vez maiores, muito mais denso, a linha do horizonte cada vez mais próxima, uma noite inteira de neve a cair, prometida pelo céu.
Ponho mais uns troncos de carvalho na fogueira, enrosco-me numa manta e, aqui ficarei a vê-la cair até que a luz do sol me deixe. Depois, será manhã branca, fofo debaixo das botas, luz intensa a confundir os coelhos, a confundir-me nos caminhos que quero percorrer para sentir o som característico da neve fofa ao ser calcada pelos pés.
Aqui, num recanto de mim...
Há aqui na aldeia quem não compreenda este meu fascínio pela neve e por outras coisas sem significado para a maioria dos mortais e me tome, no mínimo, por excêntrica.
A paisagem está a ficar cada vez mais linda, mais branca. A neve cai miudinha e se o vento não tivesse deixado de soprar com força, seria daquela neve que entra por qualquer orifício e que aqui é designada por neve cisqueira.
Cada vez que deixo de escrever e levanto os olhos sinto a paisagem mais bela.
Em memórias, regresso aos anos da infância e da juventude: O frio que sentia na véspera do nevão, as casas humildes de granito a deixarem entrar o frio por todos os buracos, calafetadas com a neve que caía, o lume mais forte que o habitual, os animais que não podiam sair do estábulo alimentados a palha e grão de centeio, as correrias na neve fofa, as brincadeiras que fazíamos a jogar à bolada na rua dos Palheiros, em Miranda, em vez das aulas por encerrarem as escolas, frio, muito frio.
Sempre o fascínio pela neve. Como pode alguém admirar-se que eu manifestasse vontade de ver nevar, agora que, ainda por cima estou numa sala aquecida, confortável, com janelas amplas e portas rasgadas que me permitem ver a aldeia, os telhados cada vez mais brancos e a nuvem de farrapos brancos que se desprende do céu.
Tivesse eu ouvidos sensíveis para lhe captar a música da queda, tivesse eu pernas para correr pelos campos sem medo de me enterrar, tivesse eu arte para descrever o que sinto, pincéis para passar para uma tela gigante aquilo que me encanta, e tudo captaria nem que só um pouco fosse.
Não se consegue ter tudo ao mesmo tempo, e, o que me falta em pernas, pulmões e ouvido, sobra-me em espanto, neste sentir profundo, neste encantamento. Há coisas que só vemos quando as olhamos com o tempo propício para as ver, há coisas que só as sentimos quando temos sensibilidade bastante para as sentir. São compensações daquilo que perdemos...
Para vós, que estais numa cidade aonde este manto não chega, guardarei um punhado desta brancura, para que também possais relembrar os momentos mágicos das vossas infâncias, vividos aqui neste Planalto, tão vosso quanto meu.
Poderei guardar muito mais do que um punhado, tanta, tanta mais,... por muita a neve ser, já num manto branco, árvores a ficarem cobertas, o céu cada vez mais cinza prateado, o nevoeiro provocado pela queda das farrapos cada vez maiores, muito mais denso, a linha do horizonte cada vez mais próxima, uma noite inteira de neve a cair, prometida pelo céu.
Ponho mais uns troncos de carvalho na fogueira, enrosco-me numa manta e, aqui ficarei a vê-la cair até que a luz do sol me deixe. Depois, será manhã branca, fofo debaixo das botas, luz intensa a confundir os coelhos, a confundir-me nos caminhos que quero percorrer para sentir o som característico da neve fofa ao ser calcada pelos pés.
Aqui, num recanto de mim...
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
O gelo a derreter
A noite foi fria. Antes das vinte e duas horas já a água estava congelada e, onde a estrada estivesse molhada, os condutores incautos sentiam o carro a fugir-lhes; ao caminhar, os pés escorregavam levando o corpo ao chão ao mínimo descuido. Tivemos que andar com muita precaução em alguns sítios.
Acordei cedo e dirigi-me à janela para verificar se tudo estaria branco. Estava apenas junto ao chão e aparentemente o gelo era pouco. Constatei depois que a geada era medonha, não daquelas ostensivas, mas antes com o gelo acoitado na terra e que por sua causa endureceu.
O sol resplandeceu de luz e calor.
Estou com a janela escancarada para que a sala areje e ao mesmo tempo seque e aqueça, como aquece o lado direito do meu corpo aqui neste ponto onde estrategicamente me sentei. A geada mantém-se nos lugares sombrios à hora em que as badaladas no sino da torre da igreja marcaram o meio dia.
Respira-se silêncio; a betoneira calou-se à hora de almoço, os tractores estão recolhidos porque a terra está ensopada; só de vez em quando se ouve um ou outro pássaro, daqueles pássaros corajosos que enfrentam estes invernos de frio intenso.
As chaminés continuam a expelir fumo, autênticas fábricas de incinerar florestas, para que aqueça o sangue frio a correr nas veias da população idosa que aqui habita.
É altura de dar uma caminhada, o dia convida, as pernas também, para que não fiquem empedernidas precocemente. Os dias curtos têm que ser muito bem aproveitados. Antes de o sol se pôr já o frio começa a entrar no corpo, capaz de congelar qualquer lágrima que se solte e o vapor que sai do nariz, em nuvens brancas.
Acordei cedo e dirigi-me à janela para verificar se tudo estaria branco. Estava apenas junto ao chão e aparentemente o gelo era pouco. Constatei depois que a geada era medonha, não daquelas ostensivas, mas antes com o gelo acoitado na terra e que por sua causa endureceu.
O sol resplandeceu de luz e calor.
Estou com a janela escancarada para que a sala areje e ao mesmo tempo seque e aqueça, como aquece o lado direito do meu corpo aqui neste ponto onde estrategicamente me sentei. A geada mantém-se nos lugares sombrios à hora em que as badaladas no sino da torre da igreja marcaram o meio dia.
Respira-se silêncio; a betoneira calou-se à hora de almoço, os tractores estão recolhidos porque a terra está ensopada; só de vez em quando se ouve um ou outro pássaro, daqueles pássaros corajosos que enfrentam estes invernos de frio intenso.
As chaminés continuam a expelir fumo, autênticas fábricas de incinerar florestas, para que aqueça o sangue frio a correr nas veias da população idosa que aqui habita.
É altura de dar uma caminhada, o dia convida, as pernas também, para que não fiquem empedernidas precocemente. Os dias curtos têm que ser muito bem aproveitados. Antes de o sol se pôr já o frio começa a entrar no corpo, capaz de congelar qualquer lágrima que se solte e o vapor que sai do nariz, em nuvens brancas.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Não culpes as margens
Não culpes as margens, rio
Do teu correr enraivecido
E das lutas por ti travadas.
As margens e o leito
São braços que te amparam
Nas difíceis caminhadas.
Acalma!
Calmo és espelho
Onde as tuas margens
Se miram
Se penteiam
Te beijam.
Atenta rio!
As tuas margens
Que com posse tomas
Como tuas
Desgatadas e humilhadas
Um dia, largar-te-ão
E as tuas fúrias
Apenas lamaçais sujos
Serão.
Do teu correr enraivecido
E das lutas por ti travadas.
As margens e o leito
São braços que te amparam
Nas difíceis caminhadas.
Acalma!
Calmo és espelho
Onde as tuas margens
Se miram
Se penteiam
Te beijam.
Atenta rio!
As tuas margens
Que com posse tomas
Como tuas
Desgatadas e humilhadas
Um dia, largar-te-ão
E as tuas fúrias
Apenas lamaçais sujos
Serão.
...para que a saudade com elas embranqueça
Sentou-se na soleira da porta do tempo em que os ossos não diziam existir naquele corpo fresco. Agora os ossos falam-lhe numa línguagem de ranger de escadarias velhas.
Sentou-se e com as pernas flectidas cobriu o corpo com o casacão de lã. Ainda assim, sentia frio.
Olhou a neve branca que cobria o chão, respirou o ar frio que lhe gelou os pulmões, tapou as mãos com as mangas. Quiz sentir-se menina, queria brincar na neve, jogar à bolada até sentir o corpo a ferver, mãos vermelhas a escaldar. O ar gelado fez-lhe a barda, arrepiou-lhe aqueles pelos do queixo que por muito que sejam arrancados com a cera de enfrentar o tempo, o tempo teima sempre, cada vez mais persistente e forte para os fazer crescer, bicos ásperos que ressurgem dos poros, brancos como a neve que caiu à noite.
Recolheu-se. Sentiu que os seus ossos, branco cálcio rendilhado, já não suportavam o peso do nevão.
Acendeu o lume, enroscou-se numa manta e ali ficou, de olhar fixo na janelas que lhe mostrava a infância, a adolescéncia, os dias brancos, os lameiros com a erva tapada, os animais sem terem onde pastar, as casas de telha e sem forro calafetadas com a neve a desafiar o frio, na cama, as mantas pesadas a cobrir a cabeça, a luz do sol a anunciar-se para derreter a neve...
Está de olhos fixos a rezar para que o sol se vá e do céu mais neve caia, em farrapas grandes; deixará o lume, irá para a rua para que as farrapas lhe cubram o casacão escuro, para que o escuro se transforme em branco, para que a sua saudade com elas embranqueça e lhe torne brancos e leves os dias, resplandescentes as noites ...
Sentou-se e com as pernas flectidas cobriu o corpo com o casacão de lã. Ainda assim, sentia frio.
Olhou a neve branca que cobria o chão, respirou o ar frio que lhe gelou os pulmões, tapou as mãos com as mangas. Quiz sentir-se menina, queria brincar na neve, jogar à bolada até sentir o corpo a ferver, mãos vermelhas a escaldar. O ar gelado fez-lhe a barda, arrepiou-lhe aqueles pelos do queixo que por muito que sejam arrancados com a cera de enfrentar o tempo, o tempo teima sempre, cada vez mais persistente e forte para os fazer crescer, bicos ásperos que ressurgem dos poros, brancos como a neve que caiu à noite.
Recolheu-se. Sentiu que os seus ossos, branco cálcio rendilhado, já não suportavam o peso do nevão.
Acendeu o lume, enroscou-se numa manta e ali ficou, de olhar fixo na janelas que lhe mostrava a infância, a adolescéncia, os dias brancos, os lameiros com a erva tapada, os animais sem terem onde pastar, as casas de telha e sem forro calafetadas com a neve a desafiar o frio, na cama, as mantas pesadas a cobrir a cabeça, a luz do sol a anunciar-se para derreter a neve...
Está de olhos fixos a rezar para que o sol se vá e do céu mais neve caia, em farrapas grandes; deixará o lume, irá para a rua para que as farrapas lhe cubram o casacão escuro, para que o escuro se transforme em branco, para que a sua saudade com elas embranqueça e lhe torne brancos e leves os dias, resplandescentes as noites ...
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Para o resto dos temporais
Mar bravo, tempestade, rebentação medonha . Chuva, muita chuva, gelada, a molhar-lhe os pés descalços sobre a areia.
Sete saias a escorrer, o leite dos seios a verter, os olhos fixos no horizonte indefinido pela neblina que a chuva causava, ali estava à espera. Começou por gritar pelo Toino, depois, a blasfemar o mar, agora este grito que lhe sai em surdina, Toino, Toino, volta.
O leite a sair, as sete saias agarradas ao corpo, de tão molhadas.
Rita, vai para casa! Não vês que o Toino já foi engolido pelo mesmo mar que engoliu os nossos homens e outros, assim como engoliu o teu pai.
Agora,...tu sempre tens o dinheiro do seguro!
Invejosas, agoirentas, cambada de mulheres insensíveis. Sabem lá elas o que é um homem e a falta que o Toino me fará.
Qual seguro, que metam no cú o seguro. Eu quero o meu homem forte, aquele que depois da faina me traz o calor agarrado ao corpo de homem, me enche de beijos, me faz subir à Lua.
Invejosas,...sabem lá elas o que é um homem!
Por instantes, breves instantes, entrou em devaneio sem que se lembrasse que o seu homem estava a debater-se com as ondas.
Depois, o leite apertou, escorreu pela blusa apertada, os seios a rebentar; virou as costas ao mar, para ir dar de mamar aos gémeos, fruto de uma noite de amor depois da faina, o Toino de pele morena pelo sol, quente, ardente, barco cheio.
Soltou-se do cais rezando à Senhora da Nazaré, dos Navegantes, à Senhora dos Amantes para que lhe devolvam o Toino, o seu Toino. Senhoras, trazei-mo no dia em que ele faz trinta anos. Já tenho um bolo feito, uma garrafa de vinho à espera, uma ceia de carne fresca bem temperada.
Os gémeos choravam famintos e a eles pediu perdão pela demora da entrega daquele leite retesado. Depois, pôs a mesa para cinco, seriam sete com os gémeos, seis mais o Toino.
Qual seguro??!!! Pra merda vá o seguro, seis bocas para alimentar, pra merda vá o seguro, com a cama fria.
Sacudiu as sete saias, voltou a desafiar o mar, voltou a gritar, agora que já recuperara o fôlego.
Metade da barcaça a flutuar, gritos de mulheres, filhos agarrados às sete saias...
Dois vultos em cima dos madeiros agarrados que nem lapas à rocha molhada...
Falta um, gritavam.
Ai de nós!! Ai de nós, com esta rebentação!...
Este mar medonho da Nazaré, este temporal, este frio!
A quem tocaria a desdita desta vez!!??
Seria o seu home, ti Maria??!!
Falta, falta o seu home, são duas cabeças escuras que voltam.
Gritos, mais gritos.
O lenço vermelho do Toino a agitar-se, o bolo, a mesa à espera, os seios de Rita a encher, o sangue a correr de novo nas artérias, os gritos, o desespero, os trinta anos feitos, o alívio para Toino e Rita, um corpo que na manhã seguinte deu à costa!
A última das sete saias, negra, para o resto dos temporais...
Sete saias a escorrer, o leite dos seios a verter, os olhos fixos no horizonte indefinido pela neblina que a chuva causava, ali estava à espera. Começou por gritar pelo Toino, depois, a blasfemar o mar, agora este grito que lhe sai em surdina, Toino, Toino, volta.
O leite a sair, as sete saias agarradas ao corpo, de tão molhadas.
Rita, vai para casa! Não vês que o Toino já foi engolido pelo mesmo mar que engoliu os nossos homens e outros, assim como engoliu o teu pai.
Agora,...tu sempre tens o dinheiro do seguro!
Invejosas, agoirentas, cambada de mulheres insensíveis. Sabem lá elas o que é um homem e a falta que o Toino me fará.
Qual seguro, que metam no cú o seguro. Eu quero o meu homem forte, aquele que depois da faina me traz o calor agarrado ao corpo de homem, me enche de beijos, me faz subir à Lua.
Invejosas,...sabem lá elas o que é um homem!
Por instantes, breves instantes, entrou em devaneio sem que se lembrasse que o seu homem estava a debater-se com as ondas.
Depois, o leite apertou, escorreu pela blusa apertada, os seios a rebentar; virou as costas ao mar, para ir dar de mamar aos gémeos, fruto de uma noite de amor depois da faina, o Toino de pele morena pelo sol, quente, ardente, barco cheio.
Soltou-se do cais rezando à Senhora da Nazaré, dos Navegantes, à Senhora dos Amantes para que lhe devolvam o Toino, o seu Toino. Senhoras, trazei-mo no dia em que ele faz trinta anos. Já tenho um bolo feito, uma garrafa de vinho à espera, uma ceia de carne fresca bem temperada.
Os gémeos choravam famintos e a eles pediu perdão pela demora da entrega daquele leite retesado. Depois, pôs a mesa para cinco, seriam sete com os gémeos, seis mais o Toino.
Qual seguro??!!! Pra merda vá o seguro, seis bocas para alimentar, pra merda vá o seguro, com a cama fria.
Sacudiu as sete saias, voltou a desafiar o mar, voltou a gritar, agora que já recuperara o fôlego.
Metade da barcaça a flutuar, gritos de mulheres, filhos agarrados às sete saias...
Dois vultos em cima dos madeiros agarrados que nem lapas à rocha molhada...
Falta um, gritavam.
Ai de nós!! Ai de nós, com esta rebentação!...
Este mar medonho da Nazaré, este temporal, este frio!
A quem tocaria a desdita desta vez!!??
Seria o seu home, ti Maria??!!
Falta, falta o seu home, são duas cabeças escuras que voltam.
Gritos, mais gritos.
O lenço vermelho do Toino a agitar-se, o bolo, a mesa à espera, os seios de Rita a encher, o sangue a correr de novo nas artérias, os gritos, o desespero, os trinta anos feitos, o alívio para Toino e Rita, um corpo que na manhã seguinte deu à costa!
A última das sete saias, negra, para o resto dos temporais...
Etiquetas:
Contos no feminino
Desta noite
Desta noite, pouco mais resta que o torpor dos meus pés arrastados pelo tempo que os impede de correr e que em mais não são capazes de se dar, que em passos lassos.
Desta noite pouco mais resta que o medo que as gentes sentem das águas que galgam pontes, destroem caminhos, inundam sonhos e suores de uma vida inteira.
Respirou leve o vento e, por agora deixou de sibilar, envergonhado pelo medo que provocou à minha cabeleira arrepiada quando, num acto de coragem tentou roubar-lhe as asas para com elas voar. Ah, mas as asas do vento, de tão violento o vento ser, perderam as penas que, voando para longe se foram acoitar nos destroços das árvores despedaçadas que fizeram diques no ribeiro. As penas das asas do vento pararam, juntamente com os escassos haveres da pobre gente e lá ficaram; em vez de asas, usou redes de aço, de nós juntos e, tudo arrancam, tudo levam.
Desta noite pouco mais resta que um leve bater do coração, um coração arritmado, desejoso de adormecer e com o seu sono, arrastar para o suicídio até às mais ínfimas partes, o corpo e a alma, para que se imolem em labaredas de fogo viperinas, num suicídio colectivo. Quer matar-se, mas matar-se por amor e a seguir renascer, sem mácula e fresco como a laranja acabada de colher, forte como o castanheiro que resistiu firme à noite de vendaval.
Desta noite pouco mais me resta que um turbilhão de sentires, agora que o vento me devolveu o silêncio, quebrado pelo tic-tac do relógio que eu desejo parado, e que eu desejo que de outro ponto da casa não me chegasse o som da televisão. É por isso que gosto de me deitar com a madrugada a caminhar para a aurora e assim dispor do silêncio pleno, apenas quebrado pelo som dos meus dedos a bater nas teclas, em melodia sincronizada com os impulsos que da minha mente se evadem, libertinos.
Desta noite, depois que as nuvens deixaram de chorar, resto eu, nesta sala aquecida, olhando o exterior através das janelas e nada vendo que não sejam imagens reflectidas nos vidros de tudo quanto na sala existe, incluindo o reflexo da minha própria imagem um pouco nostálgica, boina preta a descair para o lado direito.
Desta noite, resta a humidade fria dos lamaçais, o uivo dos lobos no monte aqui em cima, a raposa que desce à aldeia a visitar uma capoeira aonde possa entrar.
Desta noite,...não sei se eu própria resto...
Desta noite pouco mais resta que o medo que as gentes sentem das águas que galgam pontes, destroem caminhos, inundam sonhos e suores de uma vida inteira.
Respirou leve o vento e, por agora deixou de sibilar, envergonhado pelo medo que provocou à minha cabeleira arrepiada quando, num acto de coragem tentou roubar-lhe as asas para com elas voar. Ah, mas as asas do vento, de tão violento o vento ser, perderam as penas que, voando para longe se foram acoitar nos destroços das árvores despedaçadas que fizeram diques no ribeiro. As penas das asas do vento pararam, juntamente com os escassos haveres da pobre gente e lá ficaram; em vez de asas, usou redes de aço, de nós juntos e, tudo arrancam, tudo levam.
Desta noite pouco mais resta que um leve bater do coração, um coração arritmado, desejoso de adormecer e com o seu sono, arrastar para o suicídio até às mais ínfimas partes, o corpo e a alma, para que se imolem em labaredas de fogo viperinas, num suicídio colectivo. Quer matar-se, mas matar-se por amor e a seguir renascer, sem mácula e fresco como a laranja acabada de colher, forte como o castanheiro que resistiu firme à noite de vendaval.
Desta noite pouco mais me resta que um turbilhão de sentires, agora que o vento me devolveu o silêncio, quebrado pelo tic-tac do relógio que eu desejo parado, e que eu desejo que de outro ponto da casa não me chegasse o som da televisão. É por isso que gosto de me deitar com a madrugada a caminhar para a aurora e assim dispor do silêncio pleno, apenas quebrado pelo som dos meus dedos a bater nas teclas, em melodia sincronizada com os impulsos que da minha mente se evadem, libertinos.
Desta noite, depois que as nuvens deixaram de chorar, resto eu, nesta sala aquecida, olhando o exterior através das janelas e nada vendo que não sejam imagens reflectidas nos vidros de tudo quanto na sala existe, incluindo o reflexo da minha própria imagem um pouco nostálgica, boina preta a descair para o lado direito.
Desta noite, resta a humidade fria dos lamaçais, o uivo dos lobos no monte aqui em cima, a raposa que desce à aldeia a visitar uma capoeira aonde possa entrar.
Desta noite,...não sei se eu própria resto...
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Todos os dias
Dá-me de comer
antes que tenha
a mão estendida.
Dá-me um carinho
antes que uma lágrima
me ensope o peito.
Dá-me fraternidade
e distribui-me sonhos
antes que seja Natal.
Todos os dias
tenho os maxilares cerrados
a segurar o que não tenho.
Todos os dias
tenho o peito cerrado
a segurar as lágrimas
para que não sequem.
Todos os dias
tenho a alma aberta
desejando que todos os dias...
sejam dias e noites
de Dezembro
antes que tenha
a mão estendida.
Dá-me um carinho
antes que uma lágrima
me ensope o peito.
Dá-me fraternidade
e distribui-me sonhos
antes que seja Natal.
Todos os dias
tenho os maxilares cerrados
a segurar o que não tenho.
Todos os dias
tenho o peito cerrado
a segurar as lágrimas
para que não sequem.
Todos os dias
tenho a alma aberta
desejando que todos os dias...
sejam dias e noites
de Dezembro
Veludo de seda de Dezembro
Já lhe mandei um sms que já terá lido em Milão onde chegou ontem, de avião, para passar o Natal em Sienna, mais precisamente em Santa Colomba, uma pequena localidade. Irá hoje de autocarro, ainda a restabelecer-se de febrões que teve no dia anterior e toda a noite. Aconselhei-o a adiar o voo por mais um dia. Mas não! Seguiu.
Seguiu para Santa Colomba, para uma casa edificada numa colina defronte a uma mata, onde pássaros cantam alegremente e onde as corsas se passeiam emitindo sons, linguagem que só elas entendem e que nos fazem companhia noite e dia. Um lugar paradisíaco daquele país que adoro.
A companheira só chega hoje ao fim da tarde, não lhes foi possível viajar no mesmo voo.
Eu não me importo por não ter a família toda reunida, uma vez que para mim o Natal não tem mais valor que qualquer outro dia. No próximo ano será na Especiosa, todos juntos, portugueses e italianos; assim esperamos.
Hoje faz trinta e quatro anos, o meu menino mais velho. Sempre meninos para a mãe...
Fui tratá-lo para que pudesse alimentar-se o melhor possível. Suspeitámos inicialmente de que se tratásse de gripe A, mas em breve nos apercebemos de que, pelos sintomas que apresentava, não seria.
São sempre meninos, os nossos meninos. Passamos a encarar as reacções das nossas mães com outros olhos depois da experiência da maternidade.
Estava sózinho, a arder em febre de quarenta graus. A companheira, a italianita, trabalha em Coimbra de onde regressa todas as semanas às quinta à noite ou sextas de manhã, para voltar na terça de manhã.
Deitei-me no sofá da sala e deitei-me preocupada, pensando que iria dormir a sono solto e não tinha com que despertar. Mas não, uma mãe não dorme a sono solto.
Qualquer movimento, o antipirético e o antibiótico a horas e, a mãe, quase que por magia, acorda sem despertador.
Voltei pelo menos trinta e quatro anos atrás, ao tempo que cheirava a bébé em casa, àquele aroma inconfundível, àquele choro ao meio da noite, o biberão, a mama dada num curto período de tempo, porque curta foi a licença de maternidade que só durou até cinco de Janeiro.
Hoje, estou de parabéns eu também, por aquela experiência fantástica, um musgo verde, veludo de seda de Dezembro.
Seguiu para Santa Colomba, para uma casa edificada numa colina defronte a uma mata, onde pássaros cantam alegremente e onde as corsas se passeiam emitindo sons, linguagem que só elas entendem e que nos fazem companhia noite e dia. Um lugar paradisíaco daquele país que adoro.
A companheira só chega hoje ao fim da tarde, não lhes foi possível viajar no mesmo voo.
Eu não me importo por não ter a família toda reunida, uma vez que para mim o Natal não tem mais valor que qualquer outro dia. No próximo ano será na Especiosa, todos juntos, portugueses e italianos; assim esperamos.
Hoje faz trinta e quatro anos, o meu menino mais velho. Sempre meninos para a mãe...
Fui tratá-lo para que pudesse alimentar-se o melhor possível. Suspeitámos inicialmente de que se tratásse de gripe A, mas em breve nos apercebemos de que, pelos sintomas que apresentava, não seria.
São sempre meninos, os nossos meninos. Passamos a encarar as reacções das nossas mães com outros olhos depois da experiência da maternidade.
Estava sózinho, a arder em febre de quarenta graus. A companheira, a italianita, trabalha em Coimbra de onde regressa todas as semanas às quinta à noite ou sextas de manhã, para voltar na terça de manhã.
Deitei-me no sofá da sala e deitei-me preocupada, pensando que iria dormir a sono solto e não tinha com que despertar. Mas não, uma mãe não dorme a sono solto.
Qualquer movimento, o antipirético e o antibiótico a horas e, a mãe, quase que por magia, acorda sem despertador.
Voltei pelo menos trinta e quatro anos atrás, ao tempo que cheirava a bébé em casa, àquele aroma inconfundível, àquele choro ao meio da noite, o biberão, a mama dada num curto período de tempo, porque curta foi a licença de maternidade que só durou até cinco de Janeiro.
Hoje, estou de parabéns eu também, por aquela experiência fantástica, um musgo verde, veludo de seda de Dezembro.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Com macieza...
Com golpes de palavras
Sente o frio
De perdidos no deserto
Moribundos
Em dunas gélidas.
Vacila
Mete-se num casulo
Protege-se.
Reconstitui-se
Em metamorfoses
Sai
Enfrenta a noite
Vai.
Agita o corpo
E a amoreira
De que se alimenta.
Reinventa
Não esmorece
Tece
Um manto de seda.
Em macieza...
Aquece.
Sente o frio
De perdidos no deserto
Moribundos
Em dunas gélidas.
Vacila
Mete-se num casulo
Protege-se.
Reconstitui-se
Em metamorfoses
Sai
Enfrenta a noite
Vai.
Agita o corpo
E a amoreira
De que se alimenta.
Reinventa
Não esmorece
Tece
Um manto de seda.
Em macieza...
Aquece.
domingo, 13 de dezembro de 2009
A quem importará???!!!
Porque te lançaste num bote
Que sabias rebentado?
Desejo de morte
Por suicídio premeditado?
Ou pensaste
Que o bote não transbordaria
E que a água sairia?
Ao invés
Mais água entrou
Pelo rombo.
Sentiste-te perdida
Sem bússola
Sem norte
Sem bomba para esvaziar o bote.
Reflectiste
E, antes do naufrágio
Com a última réstia de coragem
Saíste
E, deixando-te levar pelas correntes
Boiaste sobre as águas
Sem ao menos saberes
A direcção do vento.
Que me importa??!!
A quem importará, pensate!!...
A mim, respondo-te
Enquanto junto os destroços
Do teu bote naufragado
E que encontrei naquela praia
Onde me fortaleço.
Trago comigo fio resistente
Para bordar a ponto de grilhão
Pontos firmes.
E trago seda
Para abrir guaritas para a alma
E bordar a ponto de crivo
Transparentes e leves
Para que possas receber o sol
Que te fortaleça
Para que recebas o canto leve das ondas
Que te restabeleça
A minha manta
Que te aqueça.
Trago comigo uma bússola
Para que orientes os teus passos
Débeis passos
E para que firme
Sigas.
Tu sabes,…
A mim importa!...
Que sabias rebentado?
Desejo de morte
Por suicídio premeditado?
Ou pensaste
Que o bote não transbordaria
E que a água sairia?
Ao invés
Mais água entrou
Pelo rombo.
Sentiste-te perdida
Sem bússola
Sem norte
Sem bomba para esvaziar o bote.
Reflectiste
E, antes do naufrágio
Com a última réstia de coragem
Saíste
E, deixando-te levar pelas correntes
Boiaste sobre as águas
Sem ao menos saberes
A direcção do vento.
Que me importa??!!
A quem importará, pensate!!...
A mim, respondo-te
Enquanto junto os destroços
Do teu bote naufragado
E que encontrei naquela praia
Onde me fortaleço.
Trago comigo fio resistente
Para bordar a ponto de grilhão
Pontos firmes.
E trago seda
Para abrir guaritas para a alma
E bordar a ponto de crivo
Transparentes e leves
Para que possas receber o sol
Que te fortaleça
Para que recebas o canto leve das ondas
Que te restabeleça
A minha manta
Que te aqueça.
Trago comigo uma bússola
Para que orientes os teus passos
Débeis passos
E para que firme
Sigas.
Tu sabes,…
A mim importa!...
sábado, 5 de dezembro de 2009
Disse ela um dia
Chegaste no tempo dos sonhos dourados, das flores em botão, das brisas frescas...
Chegaste numa manhã de orvalho nos meus seios.
Imaginaste-me desnuda no mar fechado, concha viva que não abriste.
Nem sabes por quanto tempo senti o doce dos teus beijos nos meus lábios já dormentes, as dores nas mãos caídas que seguraram o ramo de laranjeira murcho do qual restavam apenas troncos secos, o peso do tule a sair dos cabelos negros, enegrecido pelo tempo, a vergonha pelo vestido bambo na magreza de ossos espetados.
Nem sabes a dor que senti no peito quando me deixaste plantada num vaso de flores ao lado da igreja, o padre com as hóstias no cálice, o livro das promessas na mão à tua espera, os convidados com fome do almoço, as jovens a imaginarem-se, uns e outros a imaginarem-se noivos. Eu plantada no vaso do jardim da igreja,... dá azar o noivo ver a noiva antes da chegada ao altar.
Azar tivera eu dez meses antes, quando te conheci. Tão imbecil que eu fui, irresponsável tu por teres acreditado no herói que te confessou já ter dormido comigo. Mentira, grande mentira, agora te digo, macho ignorante a cheirar a cavalo. Nem sei porque te maltrato enquanto olho para as cinzas do ramo de laranjeira esquecidas no canto do quintal, daquele ramo que ao contrário de ti, eu merecia. Queria oferecê-lo à virgem, ali no altar, todos a testemunhar a virgindade perante a Senhora Virgem.
Parva que eu fui por ter ficado plantada na vida, a chorar-te durante anos, a chorar o único amor, o primeiro amor, como se o primeiro fosse o mais intenso, o único, o único possível.
Agora te digo, nem sei porque falei hoje nisto,... que o melhor amor é o último, aquele que nos segura as mãos até um dia, até um dia qualquer...
Que já tinha dormido com outro,... referiu ela mais uma vez na carta que mentalmente lhe escreveu.
E se tivesse??!! Eras tu por acaso casto???!!
Chegaste numa manhã de orvalho nos meus seios.
Imaginaste-me desnuda no mar fechado, concha viva que não abriste.
Nem sabes por quanto tempo senti o doce dos teus beijos nos meus lábios já dormentes, as dores nas mãos caídas que seguraram o ramo de laranjeira murcho do qual restavam apenas troncos secos, o peso do tule a sair dos cabelos negros, enegrecido pelo tempo, a vergonha pelo vestido bambo na magreza de ossos espetados.
Nem sabes a dor que senti no peito quando me deixaste plantada num vaso de flores ao lado da igreja, o padre com as hóstias no cálice, o livro das promessas na mão à tua espera, os convidados com fome do almoço, as jovens a imaginarem-se, uns e outros a imaginarem-se noivos. Eu plantada no vaso do jardim da igreja,... dá azar o noivo ver a noiva antes da chegada ao altar.
Azar tivera eu dez meses antes, quando te conheci. Tão imbecil que eu fui, irresponsável tu por teres acreditado no herói que te confessou já ter dormido comigo. Mentira, grande mentira, agora te digo, macho ignorante a cheirar a cavalo. Nem sei porque te maltrato enquanto olho para as cinzas do ramo de laranjeira esquecidas no canto do quintal, daquele ramo que ao contrário de ti, eu merecia. Queria oferecê-lo à virgem, ali no altar, todos a testemunhar a virgindade perante a Senhora Virgem.
Parva que eu fui por ter ficado plantada na vida, a chorar-te durante anos, a chorar o único amor, o primeiro amor, como se o primeiro fosse o mais intenso, o único, o único possível.
Agora te digo, nem sei porque falei hoje nisto,... que o melhor amor é o último, aquele que nos segura as mãos até um dia, até um dia qualquer...
Que já tinha dormido com outro,... referiu ela mais uma vez na carta que mentalmente lhe escreveu.
E se tivesse??!! Eras tu por acaso casto???!!
Etiquetas:
Contos no feminino
Subscrever:
Comentários (Atom)