Semeei-te em terra
para em terra medrares
reguei-te da fonte
para não secares.
Cresceste depressa
depressa floriste
foste-te depressa
mas sempre vieste.
Semeei-te em terra
forte te fizeste
Arranquei-te as ervas:
Cherinchos, ervas mouras
baldruegas, grama
paridas pela terra
tão bem amanhada
pois não faltam ervas
em terra estrumada.
Arranquei-te as ervas
sem te doer nada
Semeei-te em carinho
para te tirar o medo
em beijos e abraços
para que não tiritasses
apertaste os laços
segurando a colheita
pois que ninguém dará
o que não retenha.
Semeei-te em carinho
para que dentro te venha
Em Mirandês, o original
Acubri-te an tierra
Para an tierra medrares
Reguei-te de la fuonte
Para nun te secares
Medreste debrebe
Debrebe floriste
Fuste-te debrebe
Mas siempre beniste
Acubri-te na tierra
Fuorte te faziste
Arranquei-te las yerbas:
Cherinchos, yerbas mouras
Berdulagas, grama
Paridas pula tierra
Tan bien amanhada
Puis nun fáltan yerbas
Na tierra strecada
Arranquei-te las yerbas
Sien te doler nada
Acubri-te an carino
Para te tirar l miedo
An beisos i abraços
Para que nun tritasses
Aperteste ls lhaços
Agarrando la cemba
Puis que naide dará
L que ne l peito nun tenga
Acubri-te an carino
Para que de drento te benga!
Screbido die 26, die de ls anhos de l miu filho mais nuobo, Rui.
Acerca de mim
- Adelaide Monteiro
- Sintra/Miranda do Douro, Portugal
- Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.
sábado, 30 de julho de 2011
sexta-feira, 1 de julho de 2011
E eu à nora, à procura da palavra
Rodeiam-me como que a obrigar-me a permanecer naquela sala simples onde a mesa é decorada por um computador e uma pedra esférica a servir de pisa papéis onde pintei um búzio, para homenagear e lembrar o mar onde ele cresceu e eu respirei ar fresco.
Olha para mim como se estivesse vivo, num desafio constante de me levar novamente às ondas. Olha para mim como que a suplicar-me que o deixe partir e, que vá com ele para o seu mundo, para o fundo do seu berço fresco. Respondo-lhe que ficará para depois, uns meses depois, quem sabe se Maio ou Agosto, quando os meus dedos se cansarem de amaciar as teclas, quando os meus ouvidos ensurdecerem com as conversas dos que à minha volta se sentam, me acotovelam, sempre com a ânsia de lhe dar a deixa, eu a servir de ponto quando se esquecem da palavra que deveria vir a seguir, naquele teatro de personagens abstratas a passearem pelas tábuas da minha salinha humilde.
Um pisa papéis sem papéis para pisar. Detesto papéis! Bendita era dos computadores que me retirou o papel, o pó velho a entupir-me as narinas, a fazer-me espirrar a cada tentativa de lhe dar alguma organização. Bendito teclado onde os meus dedos são bailarinas com vestidos de tules ondulantes e sabrinas brancas com atilhos de cetim.
Gosto do búzio sem papéis. Tem um porte digno e, quando me olha nos olhos, traz-me a frescura do iodo expirado por um oceano verde.
De igual modo, gosto do par de namorados abraçados na paixão dos seus corpos jovens, gestos apressados para se banharem em rios de lava e permanecerem num só corpo. Pintei-os, quando não fui capaz de os escrever com a caneta de tinta permanente a esborratar os seus corpos quentes. Ali estão em frente. Às vezes vejo-os a despirem-se com gestos apressados, outras vezes já mais além, em gemidos, numa cúpula sem tempo, de orgasmos múltiplos até à exaustão.
Gosto do búzio e do par apaixonado por não me ditarem regras, as regras foram minhas quando os criei e continuam a ser minhas, enquanto quiser.
Os outros, todos eles me rodeiam, me acotovelam, me ralham, me asfixiam e me interrompem e deixam sem a palavra certa, num desânimo de vencida nos destroços de uma batalha.
Não escrevas essa palavra, diz-me uma das actrizes! Não é essa a que expressa o meu sentimento genuíno. E eu à nora, à procura da palavra...
Essas palavras nunca foram por mim proferidas, não reflectem o meu estado de alma, diz-me aquele imbecil, meio mulher, meio sereia, sentado na minha perna direita.
Deixa-me em paz! Lá tu te lembras da tua história carregada de pó de arroz!Pois tu não vês que me tiras toda a expontaneidade!?
E eu que os ature! Uma cambada em busca de protagonismo no romance.
Depois, há outro, não menos imbecil do que outros todos juntos, um actor que quer representar o meu papel, a entrar sempre mais e mais pelos meus sentimentos, a desnudar-me ainda mais que desnudo está o par de namorados pintado no quadro e dependurado à minha frente...
E eu à nora!!!
Olha para mim como se estivesse vivo, num desafio constante de me levar novamente às ondas. Olha para mim como que a suplicar-me que o deixe partir e, que vá com ele para o seu mundo, para o fundo do seu berço fresco. Respondo-lhe que ficará para depois, uns meses depois, quem sabe se Maio ou Agosto, quando os meus dedos se cansarem de amaciar as teclas, quando os meus ouvidos ensurdecerem com as conversas dos que à minha volta se sentam, me acotovelam, sempre com a ânsia de lhe dar a deixa, eu a servir de ponto quando se esquecem da palavra que deveria vir a seguir, naquele teatro de personagens abstratas a passearem pelas tábuas da minha salinha humilde.
Um pisa papéis sem papéis para pisar. Detesto papéis! Bendita era dos computadores que me retirou o papel, o pó velho a entupir-me as narinas, a fazer-me espirrar a cada tentativa de lhe dar alguma organização. Bendito teclado onde os meus dedos são bailarinas com vestidos de tules ondulantes e sabrinas brancas com atilhos de cetim.
Gosto do búzio sem papéis. Tem um porte digno e, quando me olha nos olhos, traz-me a frescura do iodo expirado por um oceano verde.
De igual modo, gosto do par de namorados abraçados na paixão dos seus corpos jovens, gestos apressados para se banharem em rios de lava e permanecerem num só corpo. Pintei-os, quando não fui capaz de os escrever com a caneta de tinta permanente a esborratar os seus corpos quentes. Ali estão em frente. Às vezes vejo-os a despirem-se com gestos apressados, outras vezes já mais além, em gemidos, numa cúpula sem tempo, de orgasmos múltiplos até à exaustão.
Gosto do búzio e do par apaixonado por não me ditarem regras, as regras foram minhas quando os criei e continuam a ser minhas, enquanto quiser.
Os outros, todos eles me rodeiam, me acotovelam, me ralham, me asfixiam e me interrompem e deixam sem a palavra certa, num desânimo de vencida nos destroços de uma batalha.
Não escrevas essa palavra, diz-me uma das actrizes! Não é essa a que expressa o meu sentimento genuíno. E eu à nora, à procura da palavra...
Essas palavras nunca foram por mim proferidas, não reflectem o meu estado de alma, diz-me aquele imbecil, meio mulher, meio sereia, sentado na minha perna direita.
Deixa-me em paz! Lá tu te lembras da tua história carregada de pó de arroz!Pois tu não vês que me tiras toda a expontaneidade!?
E eu que os ature! Uma cambada em busca de protagonismo no romance.
Depois, há outro, não menos imbecil do que outros todos juntos, um actor que quer representar o meu papel, a entrar sempre mais e mais pelos meus sentimentos, a desnudar-me ainda mais que desnudo está o par de namorados pintado no quadro e dependurado à minha frente...
E eu à nora!!!
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Grama
Não me peças para ir
Ainda que por vias de cera!
O meu lugar é aqui
Não me peças para ficar
Num berço que não é meu!
O meu lugar é ali
Um alqueire para berço
Uma eira a prometer grão
Uma enxerga de palha
De suor, o pão
Não forces a grama
A soltar-se da terra!
Dividida, mais se agarra
Ainda que por vias de cera!
O meu lugar é aqui
Não me peças para ficar
Num berço que não é meu!
O meu lugar é ali
Um alqueire para berço
Uma eira a prometer grão
Uma enxerga de palha
De suor, o pão
Não forces a grama
A soltar-se da terra!
Dividida, mais se agarra
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Há-de rir-se, o poema!
Transbordaram
os olhos e o peito
e,
nem por isso
o rio sentiu
a água a descer no leito
A alma sentiu-se vazia
e,
a vida menos vida
neste dia
em que a poesia se assoma
como que saída dum coma
cansada
triste
dorida
Outro dia virá
para de flores e risos
encher o poema
ou enfim
um momento chegue, quiçá
para que ele ria
e me empurre
para fora de mim
os olhos e o peito
e,
nem por isso
o rio sentiu
a água a descer no leito
A alma sentiu-se vazia
e,
a vida menos vida
neste dia
em que a poesia se assoma
como que saída dum coma
cansada
triste
dorida
Outro dia virá
para de flores e risos
encher o poema
ou enfim
um momento chegue, quiçá
para que ele ria
e me empurre
para fora de mim
Deixaste-me poesia
Deixaste-me poesia
em versos que não escreveste
mas que leio
em cada galho
em cada folha de cerejeira
em cada pedra
em cada ave
em cada sombra de embondeiro
em cada sorriso de luar
em cada vereda de poeira
em cada fio
de cabelo a pratear
Deixaste-me poesia
em cada traço vincado
nas rimas soltas
duma antologia
repleta de aventuras
de esperanças
mas também desventuras
duma vida
Deixaste-me poesia
nos poros a transbordar
para em meus versos lançar
os versos que te pedia
nascidos nos poemas
duma alma peregrina
e uma mão que não os escrevia
Deixaste-me poesia
em cada canto
em cada sulco
deste peito a transbordar
duma saudade infinita
em versos que não escreveste
mas que leio
em cada galho
em cada folha de cerejeira
em cada pedra
em cada ave
em cada sombra de embondeiro
em cada sorriso de luar
em cada vereda de poeira
em cada fio
de cabelo a pratear
Deixaste-me poesia
em cada traço vincado
nas rimas soltas
duma antologia
repleta de aventuras
de esperanças
mas também desventuras
duma vida
Deixaste-me poesia
nos poros a transbordar
para em meus versos lançar
os versos que te pedia
nascidos nos poemas
duma alma peregrina
e uma mão que não os escrevia
Deixaste-me poesia
em cada canto
em cada sulco
deste peito a transbordar
duma saudade infinita
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Metade de mim
Que o sol me aqueça
para que no inverno não morra
do frio cortante a imobilizar os meus passos
Porque metade mim é vulcão
outra metade é cansaço
Que a noite me seja dia
na luz que me falta
nos dias mais escuros
e que o brilho das estrelas me oriente
quando me perco em becos inseguros.
Porque metade de mim é lua cheia
outra metade é penumbra.
Que a calçada me conte os passos inúteis
e me mostre o caminho dos passos certeiros
Porque metade de mim é no chão
outra metade é algures...
Não sei, não!
Que as lembranças de um dia
me aqueçam as noites
me lembrem o que fui
e o que um dia quiz ser
Porque metade de mim eu conheço
outra metade nunca irei conhecer.
para que no inverno não morra
do frio cortante a imobilizar os meus passos
Porque metade mim é vulcão
outra metade é cansaço
Que a noite me seja dia
na luz que me falta
nos dias mais escuros
e que o brilho das estrelas me oriente
quando me perco em becos inseguros.
Porque metade de mim é lua cheia
outra metade é penumbra.
Que a calçada me conte os passos inúteis
e me mostre o caminho dos passos certeiros
Porque metade de mim é no chão
outra metade é algures...
Não sei, não!
Que as lembranças de um dia
me aqueçam as noites
me lembrem o que fui
e o que um dia quiz ser
Porque metade de mim eu conheço
outra metade nunca irei conhecer.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Nem sempre
Nem sempre o mar sugará os sonhos
Nem sempre a escuridão tragará o dia.
Lancemos os sonhos ao largo
Até que a vista não alcance!
Serão canoas a dançar nas ondas
Serão luas, serão vento
Num vaivém de marés.
Pintemos a escuridão
Com as cores da aurora clara
Prenúncio de um dia quente!
Soltemos os pássaros aprisionados
Que nos povoam a alma!
Seremos brisas, seremos vento
Num vaivém de amanheceres.
Nem sempre a escuridão tragará o dia.
Lancemos os sonhos ao largo
Até que a vista não alcance!
Serão canoas a dançar nas ondas
Serão luas, serão vento
Num vaivém de marés.
Pintemos a escuridão
Com as cores da aurora clara
Prenúncio de um dia quente!
Soltemos os pássaros aprisionados
Que nos povoam a alma!
Seremos brisas, seremos vento
Num vaivém de amanheceres.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Bebendo a brisa do entardecer
...
Se ao menos pudesses ouvir o canto dos suspiros
De ansiedade para ancorar no cais
Se ao menos as tuas mãos sentissem a minhas
Doridas as minhas mãos, agonizando em ais
Se ao menos tu sentisses os abraços
Guardados no silêncio dum refúgio
Se ao menos os teus passos
Seguíssem os meus passos
Sem desculpa de cansaço ou subterfúgio
Se ao menos veredas eu pudesse inventar
Para os espinhos não cortarem as palavras
Se ao menos eu pudesse segurar
O orvalho de frescas madrugadas
Deglutido por um outono a ameaçar
As mãos
Os braços
O cais em derrocadas
Se ao menos eu soubesse beber
Sorvendo
Na despedida dum sol que sempre volta
A brisa leve do entardecer...
Se ao menos pudesses ouvir o canto dos suspiros
De ansiedade para ancorar no cais
Se ao menos as tuas mãos sentissem a minhas
Doridas as minhas mãos, agonizando em ais
Se ao menos tu sentisses os abraços
Guardados no silêncio dum refúgio
Se ao menos os teus passos
Seguíssem os meus passos
Sem desculpa de cansaço ou subterfúgio
Se ao menos veredas eu pudesse inventar
Para os espinhos não cortarem as palavras
Se ao menos eu pudesse segurar
O orvalho de frescas madrugadas
Deglutido por um outono a ameaçar
As mãos
Os braços
O cais em derrocadas
Se ao menos eu soubesse beber
Sorvendo
Na despedida dum sol que sempre volta
A brisa leve do entardecer...
sábado, 7 de maio de 2011
De Clarice Linspector- O português é belo
Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...
------------------------------------------
Sintam a genialidade da poetisa, Leiam o poema de cima a baixo e de baixo a cima.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...
------------------------------------------
Sintam a genialidade da poetisa, Leiam o poema de cima a baixo e de baixo a cima.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Eis que camões...
Eis que Camões se levantou da campa
E ao país Luso ele enfim chegou
Desiludido por ver tanta trampa
Em vez dos feitos que tão bem cantou
A história que fazeis ao mundo desencanta
Disse com emoção na voz que se lh´embargou
Vou refazer meus versos com a minha mão
Por ver o resultado da vil transformação.
Adelaide Monteiro
(Não sei quem é o autor dos versos que se seguem, mas não resisto e vou publicá-los)
As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo aquilo que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!
II
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!
III
Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que"ainda andarem à solta, só me espanta.
IV
E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!
E mais outro: Um poema da "mente", só/mente!
POEMA da "MENTE"...
Há um Ministro que mente...
Mente de corpo e alma, completa/mente.
E mente de modo tão pungente
Que a gente acha que ele mente, sincera/mente.
Mas mente, sobretudo, impune/mente...
Indecente/mente.
E mente tão habitual/mente, tão hábil/mente,
Que acha que, história afora, enquanto mente,
Nos vai enganar eterna/mente.
E ao país Luso ele enfim chegou
Desiludido por ver tanta trampa
Em vez dos feitos que tão bem cantou
A história que fazeis ao mundo desencanta
Disse com emoção na voz que se lh´embargou
Vou refazer meus versos com a minha mão
Por ver o resultado da vil transformação.
Adelaide Monteiro
(Não sei quem é o autor dos versos que se seguem, mas não resisto e vou publicá-los)
As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo aquilo que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!
II
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!
III
Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que"ainda andarem à solta, só me espanta.
IV
E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!
E mais outro: Um poema da "mente", só/mente!
POEMA da "MENTE"...
Há um Ministro que mente...
Mente de corpo e alma, completa/mente.
E mente de modo tão pungente
Que a gente acha que ele mente, sincera/mente.
Mas mente, sobretudo, impune/mente...
Indecente/mente.
E mente tão habitual/mente, tão hábil/mente,
Que acha que, história afora, enquanto mente,
Nos vai enganar eterna/mente.
sábado, 30 de abril de 2011
Este céu
Hoje
Pesa-me o céu no meu peito
Dum cinzento que me abate
Porquê que às vezes o céu
Se me envolve que nem véu
Toque de sinos a rebate
Dum sonho que foi desfeito.
Ontem
Vi-o leve, nem sabes quanto
Desse céu que aquece e acalma
Encheu-me de luz, de ternura
Do corpo tirou a desventura
Apagou a tristeza da alma
Um céu bebedor de pranto.
Amanhã
Será azul forte ou claro
Cerúleo ou azul indigo
Um céu a forçar-me à luta
À força, à esperança, à labuta
Sempre terno, sempre amigo
Um céu companheiro amado.
Este céu onde me evado
Onde sonho, onde me elevo
Onde de manhã me lavo.
Pesa-me o céu no meu peito
Dum cinzento que me abate
Porquê que às vezes o céu
Se me envolve que nem véu
Toque de sinos a rebate
Dum sonho que foi desfeito.
Ontem
Vi-o leve, nem sabes quanto
Desse céu que aquece e acalma
Encheu-me de luz, de ternura
Do corpo tirou a desventura
Apagou a tristeza da alma
Um céu bebedor de pranto.
Amanhã
Será azul forte ou claro
Cerúleo ou azul indigo
Um céu a forçar-me à luta
À força, à esperança, à labuta
Sempre terno, sempre amigo
Um céu companheiro amado.
Este céu onde me evado
Onde sonho, onde me elevo
Onde de manhã me lavo.
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Com Manuel Alegre
Bendita sejas tu porque mulher
bendita sejas não porque te dás
mas porque o teu prazer é o meu prazer
e só no teu prazer encontro paz.
Correrão muitos rios mas o teu
é o que me leva às águas do baptismo
contigo em cada orgasmo eu subo ao céu
noite a noite contigo eu vejo o abismo.
Corre o Jordão e o Tigre os rios correm
contigo em cada orgasmo eu me baptismo
contigo noite a noite a dor e o riso.
Nas curvas do teu corpo os diabos morrem
bendita sejas tu porque me levas
onde a luz do prazer nasce das trevas.
Gostava de morar na tua pele
Desintegrar-me em ti e reintegrar-me
Não este exílio escrito no papel
Por não poder ser carne em tua carne.
Gostava de fazer o que tu queres
Ser alma em tua alma em um só corpo
Não o perto e o distante entre dois seres
Não este haver sempre um e sempre o outro.
Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
Tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
Seremos sempre dois sendo só um.
Por isso esta ferida que faz bem
Este prazer que dói como outro algum
E este estar-se tão dentro e sempre aquém.
Eu não sei se me salvo ou se me perco
Ou se és tu que te perdes e me salvas
Só sei que me redimo quando peco
E corpo a corpo ao céu vão nossas almas.
Manuel Alegre
Sete Sonetos e Um Quarto
Desenhos de João Cutileiro
Dom Quixote, Lx, 2005
bendita sejas não porque te dás
mas porque o teu prazer é o meu prazer
e só no teu prazer encontro paz.
Correrão muitos rios mas o teu
é o que me leva às águas do baptismo
contigo em cada orgasmo eu subo ao céu
noite a noite contigo eu vejo o abismo.
Corre o Jordão e o Tigre os rios correm
contigo em cada orgasmo eu me baptismo
contigo noite a noite a dor e o riso.
Nas curvas do teu corpo os diabos morrem
bendita sejas tu porque me levas
onde a luz do prazer nasce das trevas.
Gostava de morar na tua pele
Desintegrar-me em ti e reintegrar-me
Não este exílio escrito no papel
Por não poder ser carne em tua carne.
Gostava de fazer o que tu queres
Ser alma em tua alma em um só corpo
Não o perto e o distante entre dois seres
Não este haver sempre um e sempre o outro.
Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
Tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
Seremos sempre dois sendo só um.
Por isso esta ferida que faz bem
Este prazer que dói como outro algum
E este estar-se tão dentro e sempre aquém.
Eu não sei se me salvo ou se me perco
Ou se és tu que te perdes e me salvas
Só sei que me redimo quando peco
E corpo a corpo ao céu vão nossas almas.
Manuel Alegre
Sete Sonetos e Um Quarto
Desenhos de João Cutileiro
Dom Quixote, Lx, 2005
quinta-feira, 21 de abril de 2011
“Sonidos de l Silenço” para çcubrir an Miranda anté l fin de maio
Salido ne l Jornal Nordeste l die 19 de Abril
“Sonidos de l Silenço” ye l títalo de la sposiçon de pintura que abriu l atrasado die 8 de Abril i bai a star anté l fin de Maio na Biblioteca Munecipal de Miranda de l Douro. Son arrimado a ua dezena i meia de quadros de Adelaide Monteiro, artista mirandesa nacida na Speciosa, que para alhá de pintora tamien ye poetisa, habendo publicado yá l sou purmeiro lhibro de poesie, “Antre Monas i Sbolácios”, an mirandés, la sue purmeira lhéngua.
Fui un gusto oubir a Adelaide Monteiro a apersentar ls sous quadros a las trés dezenas de pessonas persentes naquel spácio nobre de la cidade i a cumbidar todo mundo a çcubrir ls sonidos que cad’un quejir na sue obra, lhembrando que hai sonidos que solo podemos oubir ne l silenço. Para alhá de las rebelaçones subre algua de la simbelogie persente ne l quadros, l que regala l’alma ye sentir l antusiasmo i la paixon que reçuma de l sou çcurso subre ls sous quadros i l ato de pintar.
“Ye alegórica i romántica esta pintura, talbeç mais sonhadora que bisionária, chena de símbolos i referéncias a la mulhier i a ua tierra. Uas bezes porbocadora, a abanar cumbençones sociales, outras serena i nostálgica…” ye cumo Amadeu Ferreira mos apersenta la obra de Adelaide Monteiro ne l catálogo que acumpanha la sposiçon.
Anabela Torrão, bariadora de la Cultura de la Cámara de Miranda de l Douro, dixo-mos star mui cuntenta por tener l perbileijo de poder oufrecer als mirandeses registros culturales de eilebada culidade, an special estes protagonizados por filhas de la tierra, más inda quando yá stan treminadas feturas sposiçones de las obras de Balbina Mendes i de Fernando Nobre, outros eilustres artistas mirandeses.
Merece ua felicitaçon la Cámara Munecipal, por apostar ne ls mirandeses i queremos deixar eiqui ls parabienes i l nuosso muito oubrigado a Adelaide Monteiro, por alhebantar tan alto la proua de ls mirandeses. Feliç tierra que filhas destas ten.
Alfredo Cameirão
“Sonidos de l Silenço” ye l títalo de la sposiçon de pintura que abriu l atrasado die 8 de Abril i bai a star anté l fin de Maio na Biblioteca Munecipal de Miranda de l Douro. Son arrimado a ua dezena i meia de quadros de Adelaide Monteiro, artista mirandesa nacida na Speciosa, que para alhá de pintora tamien ye poetisa, habendo publicado yá l sou purmeiro lhibro de poesie, “Antre Monas i Sbolácios”, an mirandés, la sue purmeira lhéngua.
Fui un gusto oubir a Adelaide Monteiro a apersentar ls sous quadros a las trés dezenas de pessonas persentes naquel spácio nobre de la cidade i a cumbidar todo mundo a çcubrir ls sonidos que cad’un quejir na sue obra, lhembrando que hai sonidos que solo podemos oubir ne l silenço. Para alhá de las rebelaçones subre algua de la simbelogie persente ne l quadros, l que regala l’alma ye sentir l antusiasmo i la paixon que reçuma de l sou çcurso subre ls sous quadros i l ato de pintar.
“Ye alegórica i romántica esta pintura, talbeç mais sonhadora que bisionária, chena de símbolos i referéncias a la mulhier i a ua tierra. Uas bezes porbocadora, a abanar cumbençones sociales, outras serena i nostálgica…” ye cumo Amadeu Ferreira mos apersenta la obra de Adelaide Monteiro ne l catálogo que acumpanha la sposiçon.
Anabela Torrão, bariadora de la Cultura de la Cámara de Miranda de l Douro, dixo-mos star mui cuntenta por tener l perbileijo de poder oufrecer als mirandeses registros culturales de eilebada culidade, an special estes protagonizados por filhas de la tierra, más inda quando yá stan treminadas feturas sposiçones de las obras de Balbina Mendes i de Fernando Nobre, outros eilustres artistas mirandeses.
Merece ua felicitaçon la Cámara Munecipal, por apostar ne ls mirandeses i queremos deixar eiqui ls parabienes i l nuosso muito oubrigado a Adelaide Monteiro, por alhebantar tan alto la proua de ls mirandeses. Feliç tierra que filhas destas ten.
Alfredo Cameirão
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terça-feira, 19 de abril de 2011
Os meus versos
Vendi os meus versos
Ao desbarato
Numa feira, em promoção.
Leiloei-os
Mas entreguei-os
Na primeira licitação.
Agora sinto pena
Paridos com tanta dor
Estão já cheios de bolor
Traça e pó
Para serem vendidos
Como antiguidade
E terem algum valor.
Mal sabe o feirante
Como eles são irreverentes…
Irão sacudir a poeira
E livrar-se do bolor
De novo as rimas farão
E a fugir gritarão
Adeus!
Vamos embora da feira!
Ao desbarato
Numa feira, em promoção.
Leiloei-os
Mas entreguei-os
Na primeira licitação.
Agora sinto pena
Paridos com tanta dor
Estão já cheios de bolor
Traça e pó
Para serem vendidos
Como antiguidade
E terem algum valor.
Mal sabe o feirante
Como eles são irreverentes…
Irão sacudir a poeira
E livrar-se do bolor
De novo as rimas farão
E a fugir gritarão
Adeus!
Vamos embora da feira!
sábado, 16 de abril de 2011
Da minha exposição de pintura, " Sons do Silêncio"

A inauguração foi no dia oito de Abril, na Biblioteca Municipal de Miranda do Douro, na companhia de alguns amigos e da minha família.A Câmra serviu um "porto de honra" e a saborosíssima bola doce, típica da região. Poderá ser visitada até 30 de Maio.
Durante o Festival Intercéltico e até fins de Agosto, estará em Sendim.
Adelaide Monteiro é professora aposentada, da área de contabilidade e gestão, nascida em Especiosa [1949], Miranda do Douro.
À escrita e à pintura, o escape das tensões da vida citadina, paixões sem as quais já não é ela mesma, dedica-lhes o principal do seu tempo, passado entre a sua Especiosa natal e Sintra, fontes por onde jorra a sua alma insatisfeita.
Em 2010 editou o seu primeiro livro de poesia, Antre Monas i Sbolácios, escrito em Mirandês, a sua primeira língua.
Sons do Silêncio é o tema da pintura que agora apresenta, tema tão abstracto, quanto poético, nascido em cenários de viagens de sonho às suas raízes, ao seu mundo, real ou imaginário, convidando o espectador a procurar nas nuances e traços das suas pinceladas, os sons que só do silêncio podem nascer.
Texto do catálogo, escrito por Amadeu Ferreira
Sons do silêncio
Pode parecer estranho o título desta exposição – Sons do silêncio – mas ele abre-nos a porta certa para os caminhos por onde segue a pintura de Adelaide Monteiro. Nada percebo de técnicas de pintura, aqui saltando entre a espessura do traço nervoso e a leveza suave das transparências, e a pintora sabia isso quando me convidou para escrever umas palavras sobre esta exposição. Por isso, seguirei os olhos, aqui dando nota do seu espanto, das suas perguntas e das paisagens onde me levarem estes miradouros de Adelaide Monteiro.
É esta uma pintura sem rostos, mas de ideias, de sons, de um convocar os sentidos muito além da pele, poesia sem palavras, misturada nos sons que se elevam do silêncio das cores e das formas. Rostos para quê, se é uma representação onírica do real que vem ter connosco? É alegórica e romântica esta pintura, talvez mais sonhadora que visionária, repleta de simbolos e de referências à mulher e a uma terra. Por vezes provocadora, a mexer com convenções sociais, outras calma e nostálgica, mas que não há muito tempo levou a censura a mostrar o seu rosto tirânico, inculto e insensivel. AS mulheres de Adelaide Monteiro ora nos aparecem a saltar do seu corpo nu e apaixonado, ora transformadas em símbolos, feitas viola ou violoncelo, cântaro ou a imprevisível alquitara, grávida de uma aldeia branca, nevada, virgem de passos, mulheres que tanto gritam o seu erotismo, pura sedução de romã em convite grão a grão, como acolhem em seu calmo colo maternal, ou desaparecem em puro voo, muito para além de mãos e olhos, por céus onde possam ser ultrapassados todos os limites.
As imagens que Adelaide pinta apenas querem ser a porta para outros mundos, um modo de materializar ideias, sons, sentidos, sentimentos, tudo puramente imaterial, que não se deixa agarrar pelos pincéis, mas pode voar pelas cores, indecisas estas entre o escuro da dureza da vida e os brancos transparentes e azuis de luz e de futuro. Tudo isso se concretiza por vezes numa pintura um pouco enigmática, onde parece vir acima uma certa educação de que as mulheres de Adelaide fazem gala em se libertar, vingança por andarem para trás os anos e a juventude. É, portanto, uma pintura de memórias, por vezes opressivas, onde a Sé se ergue como um marco, mas também memória de tempos simples, de uma aldeia que morreu e apenas vive dentro da pintora, de um rio que nos ensinou a força dos impossíveis e nos leva com ele, ou de um cântaro cheio de searas em puro fogo, pão que o diabo amassou e um céu num outro mundo.
Por que razão olhamos para duas maçãs pintadas e não vemos apenas maçãs, entranhando-se uma na outra, em posição contrária uma à outra, aproveitando a sua vida, a sua frescura, antes que o verme, essa essência fálica reduzida ao mínimo, as deite a perder, as fertilize?
Quando mãos encavalitadas se estendem, já não sabemos muito bem se ajudam e apoiam ou se apenas procuram luz, talvez paz, fuga de um inferno ou de uma negra noite que as deixa entregues a si próprias, mãos duras, escuras e calosas.
Um dos mais emblemáticos quadros da exposição é a alquitara com a aldeia dentro, pintada como um corpo quente de mulhier grávida, que a leva no seu ventre como se fosse um filho. Quando dela sai, vem destilada pelo tempo que a nevou como se essa fosse a via para a conservar, fresca e menina, e melhor poder passear na sua rua que atravessa o mundo a meio.
Não é o mundo que Adelaide pinta, mas apenas os seus mundos, os seus sonhos, as suas aspirações, o tempo que a viu atravessar épocas e continentes. Uma pintura de interiores onde se sente que a pintora esbraceja com falta de espaço, em busca de uma serenidade que o tempo é avaro em trazer.
Amadeu Ferreira
terça-feira, 12 de abril de 2011
Tarde Mirandesa an Sintra - 17 de Abril a las 15 h. A cumbite de la Eiditora Zéfiro TARDE CULTURAL MIRANDESA Música, Palhestras, Poesie i Lhiteratura an Mirandés NA “CASA DO FAUNO”, AN SINTRA: www.casadofauno.wordpress.com www.facebook.com/casadofauno 17 Abril, 15h-18h (Demingo) - Antrada Lhibre Música tradecional mirandesa cun gaita-de-foles (José Galvão), caixa i bombo. Apresentaçon pública de la coleçon An Mirandés, cula perséncia de bários outores yá publicados nessa coleçon - cumo Alcina Pires, Adelaide Monteiro, Bina Cangueiro, Faustino Antão i Fonso Roixo - i anúncio de perspetibas feturas i nuobas obras de la coleçon. Poesie i lhiteratura mirandesas, lidas puls sous outores. Palhestra: "Lhiteratura mirandesa: passado, persente i feturo" por Amadeu Ferreira Palhestra: "L ansino (nun oufecial) de la lhénguia mirandesa" por Francisco Domingues NOTA: La CASA DO FAUNO ye la nuoba sede de la Eiditora Zéfiro i queda mesmo delantre de l coincido Palácio de la Regaleira. Aparece i lhieba un amigo a ber se fazemos ua guapa fiesta i cumbíbio.
terça-feira, 22 de março de 2011
SE TU SOUBESSES LER UMA CARTA DE AMOR... (de Maria Mulher)
Se soubesses ler uma carta de amor, meu amor, eu voltaria no tempo, só para te escrever uma.
E dir-te-ia dos pássaros, que, por amor, voam horizontes perdidos até achar a equivalência do amor, nuns olhos de voo igual. E falar-te-ia das flores, que coabitam espaços só para criar jardins. E contar-te-ia as vezes que o vento muda de norte ou se veste de brisas, só para não magoar nuvens tresmalhadas ou não desviar beijos fugazes.
Falar-te-ia da confiança com que a semente se enterra na terra, húmida e fria. E da fé nascida nos olhos, frágil e pequenina, a necessitar do amparo de mãos amorosas, para a cuidar...
Da consciência da própria individualidade, para aprender que ao nosso lado existe gente. Que também sente.
Falar-te-ia ainda, se tu soubesses ler uma carta de amor, meu amor, que o amor nasce perfeito. Que nasce nú e inocente de pecado original.
Pedir-te-ia, meu amor, - se tu soubesses ler uma carta de amor e se eu pudesse voltar no tempo, - que me amasses como quem ama uma flor. Que me cuidasses como se me tivesses amor. Que me respeitasses com se eu fosse Tua. Igual e Mulher. Companheira e Forte. Flor e Frágil.
Dir-te-ia, amor, que comeria contigo a maçã, sim. Que correria todos os riscos contigo. Que não me importaria de ser expulsa do Paraíso. Que não me importaria de me vestir, por pudor, e, tão pouco, que só tu soubesses o tom da minha pele. E que, muito para além da pele, o meu maior gosto seria ser só tua, em pensamentos, palavras e emoções... (mesmo em omissões...) por amor, tudo isso, só, só, só, por amor.
Mas eu sei que sempre soube que nunca serias capaz de ler uma carta de amor... e esse foi o meu pecado mortal: ser capaz de as escrever...
Mesmo assim, meu amor, escondi-as todas, para não te inspirar ciúmes das palavras.
E regurgitei a maçã, para me purificar por dentro.
E deixei que me marcasses, para afirmares a tua posse.
E transformei-me em mãe, para conseguir amar-te.
E amei-te, para disfarçar o medo.
E temi-te, para sobreviver.
E fui só tua... mesmo amarfanhando todas as cartas de amor que não te escrevi.
Postado por Maria Mulher no blogue Telhas Caídas.
Espero que a autora não se importe de que o partilhe com os meus leitores.
E dir-te-ia dos pássaros, que, por amor, voam horizontes perdidos até achar a equivalência do amor, nuns olhos de voo igual. E falar-te-ia das flores, que coabitam espaços só para criar jardins. E contar-te-ia as vezes que o vento muda de norte ou se veste de brisas, só para não magoar nuvens tresmalhadas ou não desviar beijos fugazes.
Falar-te-ia da confiança com que a semente se enterra na terra, húmida e fria. E da fé nascida nos olhos, frágil e pequenina, a necessitar do amparo de mãos amorosas, para a cuidar...
Da consciência da própria individualidade, para aprender que ao nosso lado existe gente. Que também sente.
Falar-te-ia ainda, se tu soubesses ler uma carta de amor, meu amor, que o amor nasce perfeito. Que nasce nú e inocente de pecado original.
Pedir-te-ia, meu amor, - se tu soubesses ler uma carta de amor e se eu pudesse voltar no tempo, - que me amasses como quem ama uma flor. Que me cuidasses como se me tivesses amor. Que me respeitasses com se eu fosse Tua. Igual e Mulher. Companheira e Forte. Flor e Frágil.
Dir-te-ia, amor, que comeria contigo a maçã, sim. Que correria todos os riscos contigo. Que não me importaria de ser expulsa do Paraíso. Que não me importaria de me vestir, por pudor, e, tão pouco, que só tu soubesses o tom da minha pele. E que, muito para além da pele, o meu maior gosto seria ser só tua, em pensamentos, palavras e emoções... (mesmo em omissões...) por amor, tudo isso, só, só, só, por amor.
Mas eu sei que sempre soube que nunca serias capaz de ler uma carta de amor... e esse foi o meu pecado mortal: ser capaz de as escrever...
Mesmo assim, meu amor, escondi-as todas, para não te inspirar ciúmes das palavras.
E regurgitei a maçã, para me purificar por dentro.
E deixei que me marcasses, para afirmares a tua posse.
E transformei-me em mãe, para conseguir amar-te.
E amei-te, para disfarçar o medo.
E temi-te, para sobreviver.
E fui só tua... mesmo amarfanhando todas as cartas de amor que não te escrevi.
Postado por Maria Mulher no blogue Telhas Caídas.
Espero que a autora não se importe de que o partilhe com os meus leitores.
No murmúrio das ondas ( I )

Falava como quem quer espantar demónios do corpo, espiar culpas. ...
Sim, eu sei que também tenho culpa, secalhar tenho a culpa toda por me ter deixado reduzir ao ínfimo pó de trigo, esmagado pela mó do abandono.
Tu desculpa roubar-te o teu tempo e fazer com que vivas as minhas dores, passes a mão pelas nervuras das minhas folhas, em pele enrugada precocemente.
Fala amiga, fala como se estivesses numa cadeira de psicanalista. A desvantagem é, tão só, a minha especialidade não ser essa, ou quiçá lá no fundo será, se o teu desabafar te aliviar as penas....
No início dizia-me:
Os teus cabelos são espuma de mar, daquela espuma de rebentamento suave das ondas, nas minhas mãos, nos meus lábios.Os teus seios são maçãs acabadas de colher carregadas de orvalho numa manhã de Outubro. Os teus vales onde o rio corre sereno, depressa são mágma quando te toco com dedos ágeis, voracidade de quem bebe, mastiga uma iguaria com tempo, para dela tirar o sabor mais requintado. A tua pele tem sabor a mel, perfume a jasmim, frescura de linho lavado na barrela de cinza e água a ferver, metido num cortiço para que branqueie quente.
Depois, tu sabes...
O sentimento de abandono, o cumprir de rituais para defender aparências, o entusiasmo porque se está a imaginar a fazer amor com outra que algures está noutra cama, deitada em lençóis de seda e lingerie de alta classe, comprada pela lingerie que eu não tinha. Ao fim, a indiferença, quando se olha para os lençóis de todos os dias.
E fui deixando, e fui ficando sem cabelos de espuma, sem maçãs orvalhadas, sem vales que brotavam magma...
A tristeza tomou-me a alma, a revolta apoderou-se do coração, e agora, querida amiga, estou seca. Seca como bambú de cadeira de baloiço no jardim, com o sol a pique dias sem conta, anos a fio, dias de chuva a retirar-lhe o verniz da sua tez e, com o entranhar da humidade, a corroer-se aos poucos.
Agora é tarde, sinto que estou desfeita e incapaz de amar alguém.
Não, não quero mais confiar e perspectivar amanhãs...
Falava como se em pensamento estivesse a rebobinar os dias mal vividos, a sofrer com o tempo que, ingrato não tem retrocesso.
Eu acreditei, na verdade sinto que nessa altura podia acreditar, continuava.
Ouvi sem ter pronunciado um som que fosse, como se eu fosse alguém que virtualmente só lia num chat e não teclava um só caracter.
O tempo tudo cura amiga, disse-lhe por fim. O tempo tudo traz, quando, de coração aberto, nos abrimos à vida.Acredita que terás tempo para sentir amanheceres.
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Contos no feminino
segunda-feira, 21 de março de 2011
A poesia na grinalda

Hoje, dia mundial da poesia, com a Primavera a despontar nos gomos das flores, deveria escrever um poema.
Queria escrever um poema simples, de palavras lançadas ao vento, sem rima nem métrica, livre como os pássaros, a voar livremente nos céus.
Fico-me por este fragmento de mim, texto que pode ou não ter o sabor de poesia dependendo de quem o leia e da forma como o sinta.
Eu sinto-o agora, assim, assim, no peito, na alma, na ponta dos dedos. Depois lanço-o ao vento como papagaio que se solta das mãos duma criança e não mais o recordo. Só agora, prisioneiro por breves momentos, neste teclar incessante e nervoso, me pertence.
Hoje, com o sol a brilhar, a Primavera a tentar penetrar-me nos poros, seria justo que o poema me aflorásse sob a forma de grinalda de primaveras e campaínhas, a enfeitar a minha cabeça, a coroar-me raínha, igual à que, com mestria, construía em criança.
Mas não!
Hoje nada quer comigo a poesia!!!...
Queria escrever um poema simples, de palavras lançadas ao vento, sem rima nem métrica, livre como os pássaros, a voar livremente nos céus.
Fico-me por este fragmento de mim, texto que pode ou não ter o sabor de poesia dependendo de quem o leia e da forma como o sinta.
Eu sinto-o agora, assim, assim, no peito, na alma, na ponta dos dedos. Depois lanço-o ao vento como papagaio que se solta das mãos duma criança e não mais o recordo. Só agora, prisioneiro por breves momentos, neste teclar incessante e nervoso, me pertence.
Hoje, com o sol a brilhar, a Primavera a tentar penetrar-me nos poros, seria justo que o poema me aflorásse sob a forma de grinalda de primaveras e campaínhas, a enfeitar a minha cabeça, a coroar-me raínha, igual à que, com mestria, construía em criança.
Mas não!
Hoje nada quer comigo a poesia!!!...
domingo, 20 de março de 2011
Lembro-me, e não quero!
Lembro-me do tempo em que as açucenas povoavam o meu jardim, brancas e imaculadas, pele de seda, seios a apontar o caminho, para diante, sempre para diante, a caminhar entre os dias, os segundos que queria ultrapassar para que os meus canteiros se enchéssem de rosas rubras.
Pobre açucena, varrida pelas giestas de uma vassoura de ilusão!
As rosas, quimeras, usadas em vão, de espinhos cravejadas como a coroa de Cristo.
Se ao menos o seu perfume intenso eu tivesse guardado num frasquinho de cristal!
Lembro-me do tempo em que me dizias que o ar que eu deixava ao passar te fazia lembrar amoras silvestres e te cheirava a madressilva.
Tudo muda pela acção do tempo, ou será o tempo uma desculpa para justificar a não existência do jasmim que por mim trepava e que depois sucumbiu, jazendo no chão a meus pés. Tu sabes do que falo, sabe-lo pela chaga do punhal que ficou na carne quando tiveste que arrancar-lhe a raíz já seca, por falta de rega.
Maldito tempo a apunhalar pelas costas enquanto corremos incessantemente e nos convencemos de que somos quase eternos.
Áh, como eu gostava que ao menos uma vez, uma que fosse, voltasse a sentir a força das ondas a empurrar o casco da minha embarcação!... Fixo-me num pôr de sol quente que não tenho, contemplo o ocre do outono e, o que me vai chegando é um frio gélido a paralizar-me os ossos.
Talvez não mais me aventure numa incursão mar dentro. Talvez eu não tenha olhos para lhe ver a transparência das ondas. Olhos sim, tenho a certeza que tenho, e desejo de lá chegar também. Talvez me falte a coragem e a força. Sim a força, muito mais que a coragem é a força que me falta e me faz recear um naufrágio. Os meus braços são restos dum canavial destroçado pela passagem dum furacão, remos frágeis e impotentes para a embarcação que quero ser.
Lembro-me do tempo. Insisto em lembrá-lo e não quero. O meu tempo é hoje, este momento em que escrevo, em que te quero aqui, para que, ainda assim, me faças lembrar um pouco do rubro que me cobriu.
O meu tempo será o amanhã, sempre que a minha mão te acene.
Pobre açucena, varrida pelas giestas de uma vassoura de ilusão!
As rosas, quimeras, usadas em vão, de espinhos cravejadas como a coroa de Cristo.
Se ao menos o seu perfume intenso eu tivesse guardado num frasquinho de cristal!
Lembro-me do tempo em que me dizias que o ar que eu deixava ao passar te fazia lembrar amoras silvestres e te cheirava a madressilva.
Tudo muda pela acção do tempo, ou será o tempo uma desculpa para justificar a não existência do jasmim que por mim trepava e que depois sucumbiu, jazendo no chão a meus pés. Tu sabes do que falo, sabe-lo pela chaga do punhal que ficou na carne quando tiveste que arrancar-lhe a raíz já seca, por falta de rega.
Maldito tempo a apunhalar pelas costas enquanto corremos incessantemente e nos convencemos de que somos quase eternos.
Áh, como eu gostava que ao menos uma vez, uma que fosse, voltasse a sentir a força das ondas a empurrar o casco da minha embarcação!... Fixo-me num pôr de sol quente que não tenho, contemplo o ocre do outono e, o que me vai chegando é um frio gélido a paralizar-me os ossos.
Talvez não mais me aventure numa incursão mar dentro. Talvez eu não tenha olhos para lhe ver a transparência das ondas. Olhos sim, tenho a certeza que tenho, e desejo de lá chegar também. Talvez me falte a coragem e a força. Sim a força, muito mais que a coragem é a força que me falta e me faz recear um naufrágio. Os meus braços são restos dum canavial destroçado pela passagem dum furacão, remos frágeis e impotentes para a embarcação que quero ser.
Lembro-me do tempo. Insisto em lembrá-lo e não quero. O meu tempo é hoje, este momento em que escrevo, em que te quero aqui, para que, ainda assim, me faças lembrar um pouco do rubro que me cobriu.
O meu tempo será o amanhã, sempre que a minha mão te acene.
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