Lança-me às feras!
Quero ver se sou capaz de fugir
e deixar de sentir
os espasmos
que me tolhem o andar
Lança-me para o centro do tornado!
Quero que me abane por dentro
e por fora
e me leve estes nós
como quem arranca um monstro
dum ventre a rebentar
Acerca de mim
- Adelaide Monteiro
- Sintra/Miranda do Douro, Portugal
- Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
sexta-feira, 1 de junho de 2012
O programa Erasmus
http://internacional.elpais.com/internacional/2012/05/25/actualidad/1337952241_301083.html
Sociedade multicultural e gerações futuras com raízes de dois países.
Um bébé vem a caminho, meio português, meio italiano. O meu primeiro neto...
Sociedade multicultural e gerações futuras com raízes de dois países.
Um bébé vem a caminho, meio português, meio italiano. O meu primeiro neto...
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Sou cubata, sou choupana
Sou terra vermelha,
cubata que o sol fez forte
e se vires rombos na pele,
paredes derrubadas pelo tempo,
não me cuides em desnorte,
porque o vermelho é forte
e o barro seco não morre,
como vinho que se bebe,
ou em vinagre se torne
Sou barro vermelho amassado,
cozido em forno de telha,
daquela mesmo vermelha,
com o tempo escurecida
e com musgo revestida.
Sou charrua, sou arado,
por vezes trigueira tombada,
espiga dormida e não grada
Sou cubata, sou choupana
De telhados feitos de colmo
daqueles que beijam a lua,
se deixan beijar pela chuva
e têm olhos de céu.
Porta de verde e de flores
Janelas feitas d´ocasos
por onde entram os respirares
de pássaros e seus cantares.
Sou cubata, sou choupana
barro ou pedra,
pouco interessa…
(an mirandés)
Sou cubata, sou chabola
Sou tierra burmeilha,
cubata que l sol fizo fuorte
i se bires çfolhados na piel,
paredes caídas pul tiempo,
nun me cuides an znorte,
porque l burmeilho ye fuorte
i l barro cozido nun se muorre
cumo bino que se bebe
ou an binagre se quede
Sou barro burmeilho amassado,
cozido ne l forno de la teilha,
daqueila mesmo burmeilha,
cun l tiempo scurecida
i cun mofo rebestida.
Sou xarrua, sou arado,
tanta beç trigueira caída,
an beç de granada, amubida
Sou cubata, sou chabola
cun telhados feitos de cuolmo
daqueilhes que beisan la lhuna,
se déixan beisar pula chúbia
i ténen uolhos de cielo.
Puorta de berde i de flores
Jinelas de çponeres
por adonde éntran ls resfolgares
de páixaros i sous cantares
Sou cubata, sou chabola
barro ou piedra
que mais dá…
Sou cubata
Sou terra vermelha,
cubata que o sol fez forte
e se vires rombos na pele,
paredes derrubadas pelo tempo,
não me cuides em desnorte
porque o vermelho é cor forte
e o barro seco não morre
como vinho que se bebe
ou em vinagre se torne
Sou barro vermelho amassado
com as minhas próprias mãos,
cozido em forno de telha,
daquela mesmo vermelha,
com o tempo escurecida
e com musgo revestida.
Sou charrua, sou arado,
por vezes trigueira, em campo chão
Caída e de grão não grado
cubata que o sol fez forte
e se vires rombos na pele,
paredes derrubadas pelo tempo,
não me cuides em desnorte
porque o vermelho é cor forte
e o barro seco não morre
como vinho que se bebe
ou em vinagre se torne
Sou barro vermelho amassado
com as minhas próprias mãos,
cozido em forno de telha,
daquela mesmo vermelha,
com o tempo escurecida
e com musgo revestida.
Sou charrua, sou arado,
por vezes trigueira, em campo chão
Caída e de grão não grado
sábado, 19 de maio de 2012
ANTES PELO CONTRÁRIO
DANIEL OLIVEIRA: ANTES PELO CONTRÁRIO
Um rapazola a quem calhou serprimeiro-ministro
Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
8:00 Segundafeira, 14 de maio de 2012
"Estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Despedir-se ouser despedido não tem de ser um estigma. Tem de representar também umaoportunidade para mudar de vida. Tem de representar uma livre escolha, umamobilidade da própria sociedade." Pedro Passos Coelho
Há pessoasque tiveram uma vida difícil. Por mérito próprio ou não, ela melhorou. Mas nãose esqueceram de onde vieram e por o que passaram. Sabem o que é o sofrimento enão o querem na vida dos outros. São solidárias.Há pessoas que tiveram uma vida difícil. Por mérito próprio ou não, elamelhorou. Mas ficaram para sempre endurecidas na sua incapacidade de sofrerpelos outros. São cruéis. Hápessoas que tiveram uma vida mais fácil. Mas, na educação que receberam, nãodeixaram de conhecer a vida de quem os rodeia e nunca perderam a consciência deque seus privilégios são isso mesmo: privilégios. São bem formadas. E há pessoas que tiveram afelicidade de viver sem problemas económicos e profissionais de maior e ainfelicidade de nada aprender com as dificuldades dos outros. São rapazolas.
Nãoatribuo às infantis declarações de Passos Coelho sobre o desemprego nenhumsentido político ou ideológico. Apenas a prova de que é possível chegar aos 47anos com a experiência social de umadolescente, a cargos de responsabilidade com o currículo de jotinha, a líder partidáriocom a inteligência de uma amiba, aprimeiro-ministro com a sofisticaçãointelectual de um cliente habitual do fórum TSF e a governante semnunca chegar a perceber que não é parareceberem sermões idiotas sobre a forma como vivem que os cidadãos participamem eleições. Serei insultuoso no que escrevo? Não chego aoscalcanhares de quem fala com esta leviandade das dificuldades da vida depessoas que nunca conheceram outra coisa que não fosse o "risco".
Sobre acaracterização que Passos Coelho fez, na sua intervenção, dos portugueses, quenão merecia, pela sua indigência, um segundo do tempo de ninguém se fosse feitana mesa de um café, escreverei amanhã. Hoje fico-me pelo espanto quediariamente ainda consigo sentir: comoé que este rapaz chegou a primeiro-ministro?
In Expresso.pt de 14-05-12.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
...São vampiros
São híbridos de cabra e gente
mais cabra quando trepam arranhacéus
mais tudo
quando pastam em vales férteis
de qualquer paraíso.
São vampiros!
São também...
duma mãe, filhos...
mais cabra quando trepam arranhacéus
mais tudo
quando pastam em vales férteis
de qualquer paraíso.
São vampiros!
São também...
duma mãe, filhos...
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Maio
Maio
Vieste
Em dias grandes e soalheiros
Tão quentes e namoradeiros
... Rebentando em viva cor
E embriagante odor
Recebeste-me
Quando os teus braços
Já eram fortes abraços
Fraldas que me embrulhavam
E capas que m´enfeitavam
Floriste
E eu contigo flori
Em berço de giestas cresci
Que as rosas amaciaram
Cum os aromas que deitaram
De rosa brava passei
A papoila toldeante
De risos contagiante
Cabelo escuro a esvoaçar
O que agora a branquear
Trouxe-me a neve Dezembro
Trouxe-me a lavrada Abril
Na minha pele sulcos mil
Mas depois é Maio a mandar
Para com flores tudo apagar
Agora sou flor tardia
Já em tempo de colheita
Duma vida toda feita
De flores, de espinhos e folhas
De decisões e de escolhas
E quando Maio pensando
Que nenhum més me daria flores
Rego-as como quem rega amores
Com a mão amaciados
Em todo o ano medrados
Enquanto me visitares, Maio!
Vieste
Em dias grandes e soalheiros
Tão quentes e namoradeiros
... Rebentando em viva cor
E embriagante odor
Recebeste-me
Quando os teus braços
Já eram fortes abraços
Fraldas que me embrulhavam
E capas que m´enfeitavam
Floriste
E eu contigo flori
Em berço de giestas cresci
Que as rosas amaciaram
Cum os aromas que deitaram
De rosa brava passei
A papoila toldeante
De risos contagiante
Cabelo escuro a esvoaçar
O que agora a branquear
Trouxe-me a neve Dezembro
Trouxe-me a lavrada Abril
Na minha pele sulcos mil
Mas depois é Maio a mandar
Para com flores tudo apagar
Agora sou flor tardia
Já em tempo de colheita
Duma vida toda feita
De flores, de espinhos e folhas
De decisões e de escolhas
E quando Maio pensando
Que nenhum més me daria flores
Rego-as como quem rega amores
Com a mão amaciados
Em todo o ano medrados
Enquanto me visitares, Maio!
quarta-feira, 2 de maio de 2012
A esperança
Experimenta o voo
quando o corpo te
pesa
para sair do beco
que t´aperta
Experimenta a
corrida
quando a noite
se estende pelo dia
para o dia fazeres
crescer
Experimenta o nado
para as ondas
vencer
e o mar obrigar a
amansar
Tantos becos
tantas noites
tantas preocupações
se passeiam
nos carreiros
destes tempos!
Agarra a luz duma estrela
faz uma cama de nuvem
apanha cores do
arco íris
a nascente a
anunciar
chuva no dia
seguinte
e assim te anuncie
mesmo que frágeis
as manhãs
Hão de espevitar as flores
para enfeitar os
andores
destes tempos
desde que todos
espevitemos!
Outro tempo se mostrará
com mesa um pouco
mais farta
de pão
de carinhos
na serenidade de
dar as mãos
Experimenta o voo
Experimenta o voo
mesmo que te pese o voar
Experimenta a esperança
ainda que te custe
acreditar
A esperança não
morreu em maio
e havemos de fazer
colorir
os seus botões
desbotados
num campo que se
quer
para todos
a verdejar
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Queria ver maio
Queria olhar para ti e ver maio,
em vez dum retrato a queimar-me as retinas,
a arrepanhar-me as entranhas.
Ó maio, maio!
Porque não me disseste
que haveria flores
que eu pensava que eram flores,
doçura extrema em seu néctar
e afinal em vez de néctar,
maio,
deste-me amargo de giestas
cujo mel me envenenou
e o enxame dizimou!?
Queria olhar para ti e ver agosto,
quente, claro,
colheita farta,
celeiro cheio,
sombras de freixos frescas
a refrescar os meus pés,
mas maio quando para mim olhas,
em vez de flores vejo imagens
de besouro mal cheiroso.
Ó Agosto,!
porque nunca me segredaste
que para além dos meus pés
toda a seara me ardia,
e que à eira não chegaria!?
Quero olhar para a frente,
em direcção ao infinito,
mas os meus passos são gritos,
ecos de um tempo de uivos
dum inverno de geada.
Maio,
porque não me trouxeste flores
que não secássem na jarra?!
Há momentos
em que d´abril eu faço maio,
de dezembro faço agosto,
para logo a seguir nem sequer ser capaz
de ouvir o rouxinol pousado
nos meus ramos,
da árvore a cobrir-me o telhado
dos meus ombros assaz gastos.
Queria olhar para ti e ver Agosto,
queria olhar para maio
sem que em abril eu ouvisse
a ave a piar desgosto.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Aleluia a qualquer hora
Quantas vezes quero criar imagens difusas
a caminhar para o esquecimento
mas a grafite
a cada passo
vinca de novo o traço
e há uma laje que se abre
ainda que não seja Páscoa.
a caminhar para o esquecimento
mas a grafite
a cada passo
vinca de novo o traço
e há uma laje que se abre
ainda que não seja Páscoa.
terça-feira, 27 de março de 2012
quarta-feira, 14 de março de 2012
Onde os sonhos te nascem
Deixa-te levar pelo balançar dos sonhos
sem que te lembres da secura das tuas hastes
e da tempestade
a que o país presta vassalagem.
Depressa o teu jardim será verde,
as tuas flores coloridas,
o teu oco preenchido,
a tua guerra vencida.
Basta que feches os olhos
e te deixes levar
até ao banco dos corais
onde todos os sonhos te nascem.
sem que te lembres da secura das tuas hastes
e da tempestade
a que o país presta vassalagem.
Depressa o teu jardim será verde,
as tuas flores coloridas,
o teu oco preenchido,
a tua guerra vencida.
Basta que feches os olhos
e te deixes levar
até ao banco dos corais
onde todos os sonhos te nascem.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Não queiras!
Não queiras o teu dia, mulher!
O teu dia são todos, por mérito teu.
Rasga o dia do calendário!
Rasga os poemas dos melosos poetas
cuja pena amanhã está seca!
Desfolha a flor desse dia
e guarda as pétalas no peito
para assim lhe poderes sentir o perfume
nos restantes dias!
Guarda-as!
Amanhã podem estar murchas...
Esvazia na sarjeta
o perfume oferecido
pelo marido ou namorado que te maltrata!
Cospe no sorriso sacana
do patrão que te descrimina
só porque podes parir um filho.
Não queiras o teu dia, mulher!
O teu dia, são todos os dias.
Os que tens no calendário
e aquele que amarfanhaste
na mão de mulher inteira.
O teu dia são todos, por mérito teu.
Rasga o dia do calendário!
Rasga os poemas dos melosos poetas
cuja pena amanhã está seca!
Desfolha a flor desse dia
e guarda as pétalas no peito
para assim lhe poderes sentir o perfume
nos restantes dias!
Guarda-as!
Amanhã podem estar murchas...
Esvazia na sarjeta
o perfume oferecido
pelo marido ou namorado que te maltrata!
Cospe no sorriso sacana
do patrão que te descrimina
só porque podes parir um filho.
Não queiras o teu dia, mulher!
O teu dia, são todos os dias.
Os que tens no calendário
e aquele que amarfanhaste
na mão de mulher inteira.
quarta-feira, 7 de março de 2012
O verde de que foi tecido
Houve um campo de trigo
A fustigar-me o rosto
Dum tom aloirado
Em meu peito de estio
E o verde de que foi
O campo tecido
É gume de foice
Noutro dia em agosto
A fustigar-me o rosto
Dum tom aloirado
Em meu peito de estio
E o verde de que foi
O campo tecido
É gume de foice
Noutro dia em agosto
E querendo o verde
Do campo em meu peito
Rego-o a preceito
Para que não seque
Do campo em meu peito
Rego-o a preceito
Para que não seque
De tanto fustigar
Secou-lhe a garganta
Agitou-lhe as vestes
E o peito tão verde
Deixou de ser verde
Dobrou-se cansado
Daquele balançar
E levando a sede
Do campo em meu peito
Guardo-a a preceito
E comigo bebe
Do campo em meu peito
Guardo-a a preceito
E comigo bebe
Bebemos a água
Que restou do estio
Segurando as folhas
Com os braços frágeis
E o campo e o peito
São agora homenagens
À vida tão verde
E o inevitável frio
Que restou do estio
Segurando as folhas
Com os braços frágeis
E o campo e o peito
São agora homenagens
À vida tão verde
E o inevitável frio
E tendo o tapete
Do campo em meu peito
Enrolo-o a preceito
E com ele aqueço
Do campo em meu peito
Enrolo-o a preceito
E com ele aqueço
terça-feira, 6 de março de 2012
Só tu
Não te procures para além do espaço
que a tua sombra ocupa
à hora em que o sol está a pique.
Só em ti te perdes e só em ti te encontras
e, mesmo que penses
que a tua coragem te levou mais longe
muito para além do pedaço de terra
que te segura os passos
mesmo que o tua longa caminhada
te tivesse provocado cansaços
foste tu que te perdeste
sempre agarrada a ti própria.
Só tu serás capaz de te encontrar
dentro de ti mesma
e,... tão perto
tão perto...
que a tua sombra ocupa
à hora em que o sol está a pique.
Só em ti te perdes e só em ti te encontras
e, mesmo que penses
que a tua coragem te levou mais longe
muito para além do pedaço de terra
que te segura os passos
mesmo que o tua longa caminhada
te tivesse provocado cansaços
foste tu que te perdeste
sempre agarrada a ti própria.
Só tu serás capaz de te encontrar
dentro de ti mesma
e,... tão perto
tão perto...
Haverá mais mar
Há uma imensidão de mar
entre o vermelho do crepúsculo
e o alvorecer dos sonhos
quando de olhos fechados te vejo
içando velas
endireitando o leme
levando o veleiro a um cais sereno.
Há uma imensidão de crepúsculo
dizendo adeus ao meu adeus
quando o dia me morre nos dedos
e a lembrança se atiça nas silhuetas dos montes
onde me nascem poemas
onde sinto o eco das águas
da ribeira em suicídio
nas escarpas dum vale fundo
onde um rio retrata cegonhas negras
nos seus espelhos
e o rouxinol amedrontado se fica
por sentir vertigens no soletrar
duma canção por cantar.
Haverá uma maior imensidão de mar
quando o rio se lhe lançar nos braços
e o rouxinol cantar
dentro da frescura dum salgueiro
da ribeira
que para trás ficou
e se fez lago
para se lançar ao rio
na secura do estio
e nele se desfazer em espuma
entre o vermelho do crepúsculo
e o alvorecer dos sonhos
quando de olhos fechados te vejo
içando velas
endireitando o leme
levando o veleiro a um cais sereno.
Há uma imensidão de crepúsculo
dizendo adeus ao meu adeus
quando o dia me morre nos dedos
e a lembrança se atiça nas silhuetas dos montes
onde me nascem poemas
onde sinto o eco das águas
da ribeira em suicídio
nas escarpas dum vale fundo
onde um rio retrata cegonhas negras
nos seus espelhos
e o rouxinol amedrontado se fica
por sentir vertigens no soletrar
duma canção por cantar.
Haverá uma maior imensidão de mar
quando o rio se lhe lançar nos braços
e o rouxinol cantar
dentro da frescura dum salgueiro
da ribeira
que para trás ficou
e se fez lago
para se lançar ao rio
na secura do estio
e nele se desfazer em espuma
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Caminhavas
Caminhavas pelo silêncio da noite, empurrada pelo vento gelado a aligeirar-te o cansaço.
Ias sozinha, como sempre foste, como sempre irás quando o pulsar do querer se acender nas tuas veias. Carregavas na mochila a cadeira descartável para poderes abrir quando as núvens descessem e te levassem para mais perto do sol, para te sentires mais quente.
Hei-las!, disseste.
Tiraste a cadeira da mochila, e, num gesto lento, para que o vítrio braço não partisse, montaste a cadeira e sentaste-te. O gelo que te cobria o corpo estalou e os estalidos quebraram o silêncio da noite.
Dali a pouco as núvens desceram rente aos teus pés, algodão doce das feiras, e tu partiste sentada na cadeira, naquele manto de esperança, subindo, subindo.
Mais perto do sol, o teu corpo foi aquecendo e, na terra gelada e seca donde havias há instantes saído, pequenas gotas de chuva, formadas pelo choro do degelo do teu corpo foram caindo, primeiro espaçadas, depois chovendo copiosamente.
Chegou-te o odor a terra molhada, como se fosse verão, daqueles verões escaldantes que só as trovoadas refrescam.
Sim, tu sabias que era inverno. Ainda tinhas no corpo manchas roxas provocadas pelo gelo e, na ponta dos dedos a dor de teres aquecido bruscamente. Sabias que era inverno, naquele seco estio precoce sem prenúncio de primavera.
As núvens deslaçaram, agora já são rarefeitas. Tu continuavas sentada na cadeira, a olhar o sol, sol que já descia à terra e lhe levantava folhos de neblina ténue, sinal de que a secura já tinha sido engolida pela chuva.
Olhaste para baixo e viste que a primavera te acenava com as folhagens verdes e pequenos botões de flores, prontos a abrir.
Pediste às núvens que te descessem. Dobraste a cadeira, meteste-a na mochila e caminhaste em direcção à vida que lentamente começava a florir nos campos verdes.
Eu, na escuridão do quarto, aconcheguei o lençol de flanela ao rosto, dei meia volta e desliguei-me da tua caminhada.
Quando o tecido da cortina se bordou de luz, espraiei o olhar pelos campos taciturnos, cinzentos, cobertos de geada, secos.
Ali em frente, pastavam ovelhas, a sangrar na ponta dos focinhos por tentarem colher a erva verde, escondida por baixo dos silvedos.
Ias sozinha, como sempre foste, como sempre irás quando o pulsar do querer se acender nas tuas veias. Carregavas na mochila a cadeira descartável para poderes abrir quando as núvens descessem e te levassem para mais perto do sol, para te sentires mais quente.
Hei-las!, disseste.
Tiraste a cadeira da mochila, e, num gesto lento, para que o vítrio braço não partisse, montaste a cadeira e sentaste-te. O gelo que te cobria o corpo estalou e os estalidos quebraram o silêncio da noite.
Dali a pouco as núvens desceram rente aos teus pés, algodão doce das feiras, e tu partiste sentada na cadeira, naquele manto de esperança, subindo, subindo.
Mais perto do sol, o teu corpo foi aquecendo e, na terra gelada e seca donde havias há instantes saído, pequenas gotas de chuva, formadas pelo choro do degelo do teu corpo foram caindo, primeiro espaçadas, depois chovendo copiosamente.
Chegou-te o odor a terra molhada, como se fosse verão, daqueles verões escaldantes que só as trovoadas refrescam.
Sim, tu sabias que era inverno. Ainda tinhas no corpo manchas roxas provocadas pelo gelo e, na ponta dos dedos a dor de teres aquecido bruscamente. Sabias que era inverno, naquele seco estio precoce sem prenúncio de primavera.
As núvens deslaçaram, agora já são rarefeitas. Tu continuavas sentada na cadeira, a olhar o sol, sol que já descia à terra e lhe levantava folhos de neblina ténue, sinal de que a secura já tinha sido engolida pela chuva.
Olhaste para baixo e viste que a primavera te acenava com as folhagens verdes e pequenos botões de flores, prontos a abrir.
Pediste às núvens que te descessem. Dobraste a cadeira, meteste-a na mochila e caminhaste em direcção à vida que lentamente começava a florir nos campos verdes.
Eu, na escuridão do quarto, aconcheguei o lençol de flanela ao rosto, dei meia volta e desliguei-me da tua caminhada.
Quando o tecido da cortina se bordou de luz, espraiei o olhar pelos campos taciturnos, cinzentos, cobertos de geada, secos.
Ali em frente, pastavam ovelhas, a sangrar na ponta dos focinhos por tentarem colher a erva verde, escondida por baixo dos silvedos.
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Foto de Alcides Meirinhos
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Rasgos
Quero rasgar as vestes que me tapam
Para me despir e vestir de novo.
Quero arrancar as linhas e os pespontos
Para que as vestes aos pés me caiam
Para que despida eu consiga ser
Queimem-se as vestes
Já que rasgá-las não ouso
Para das cinzas fazer a voz que calo
E lançá-la ao vento em estridentes gritos
Rasgos da alma em todo o meu querer
Tantas vezes quero e o querer se me tolhe
Tento rasgar e o pano não cede
Tento descoser e as mãos me tremem
Tantas vezes sou o que afinal não quero
Tantas vezes quero o que não ouso ser
Para me despir e vestir de novo.
Quero arrancar as linhas e os pespontos
Para que as vestes aos pés me caiam
Para que despida eu consiga ser
Queimem-se as vestes
Já que rasgá-las não ouso
Para das cinzas fazer a voz que calo
E lançá-la ao vento em estridentes gritos
Rasgos da alma em todo o meu querer
Tantas vezes quero e o querer se me tolhe
Tento rasgar e o pano não cede
Tento descoser e as mãos me tremem
Tantas vezes sou o que afinal não quero
Tantas vezes quero o que não ouso ser
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Quisera eu ter sapatos!
Quisera eu ter sapatos
para que a alma me não doesse!
Caminho pelos mesmos trilhos
dias seguidos, sem tirar nem pôr...
Porque será que há dias
que os pés se enchem de feridas
e noutros
nem um pequeno rubor!?
Quisera ao menos ter sabrinas
já que sapatos não tenho!
Caminho pelos mesmos trilhos
ou em carreiros que invento...
Porque será que há dias
que os meus pés são lamentos
e noutros...
frescura de flor!?
Como os meus pés anda a alma
o coração e eu toda...
Em cima de calhaus pisando
e quando os pés estão sangrando
não há nada que não doa.
para que a alma me não doesse!
Caminho pelos mesmos trilhos
dias seguidos, sem tirar nem pôr...
Porque será que há dias
que os pés se enchem de feridas
e noutros
nem um pequeno rubor!?
Quisera ao menos ter sabrinas
já que sapatos não tenho!
Caminho pelos mesmos trilhos
ou em carreiros que invento...
Porque será que há dias
que os meus pés são lamentos
e noutros...
frescura de flor!?
Como os meus pés anda a alma
o coração e eu toda...
Em cima de calhaus pisando
e quando os pés estão sangrando
não há nada que não doa.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Semeado de papoilas
Rebentam-te primaveras
quando te lanço borboletas
a voar sobre o teu corpo
e o semeio de papoilas
com as sementes do poema
a saltarem dos meus dedos
quando te lanço borboletas
a voar sobre o teu corpo
e o semeio de papoilas
com as sementes do poema
a saltarem dos meus dedos
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