Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Queria ver maio


Queria olhar para ti e ver maio,
em vez dum retrato a queimar-me as retinas,
a arrepanhar-me as entranhas.

Ó maio, maio!
Porque não me disseste
que haveria flores
que eu pensava que eram flores,
doçura extrema em seu néctar
e afinal em vez de néctar,
maio,
deste-me amargo de giestas
cujo mel me envenenou
e o enxame dizimou!?


Queria olhar para ti e ver agosto,
quente, claro,
colheita farta,
celeiro cheio,
sombras de freixos frescas
a refrescar os meus pés,
mas maio quando para mim olhas,
em vez de flores vejo imagens
de besouro mal cheiroso.

Ó Agosto,!
porque nunca me segredaste
que para além dos meus pés
toda a seara me ardia,
e que à eira não chegaria!?

Quero olhar para a frente,
em direcção ao infinito,
mas os meus passos são gritos,
ecos de um tempo de uivos
dum inverno de geada.  
Maio,
porque não me trouxeste flores
que não secássem na jarra?!

Há momentos
em que d´abril eu faço maio,
de dezembro faço agosto,
para logo a seguir nem sequer ser capaz
de ouvir o rouxinol pousado
nos meus ramos,
da árvore a cobrir-me o telhado
dos meus ombros assaz gastos.

Queria olhar para ti e ver Agosto,
queria olhar para maio
sem que em abril eu ouvisse
a ave a piar desgosto.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Aleluia a qualquer hora

Quantas vezes quero criar imagens difusas
a caminhar para o esquecimento
mas a grafite
a cada passo
vinca de novo o traço
e há uma laje que se abre
ainda que não seja Páscoa.

terça-feira, 27 de março de 2012

Desce!!!

Desce
antes que o pedestral se envergonhe
da matéria com que te esculpiste!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Onde os sonhos te nascem

Deixa-te levar pelo balançar dos sonhos
sem que te lembres da secura das tuas hastes
e da tempestade
a que o país presta vassalagem.
Depressa o teu jardim será verde,
as tuas flores coloridas,
o teu oco preenchido,
a tua guerra vencida.
Basta que feches os olhos
e te deixes levar
até ao banco dos corais
onde todos os sonhos te nascem.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Não queiras!

Não queiras o teu dia, mulher!
O teu dia são todos, por mérito teu.
Rasga o dia do calendário!
Rasga os poemas dos melosos poetas
cuja pena amanhã está seca!
Desfolha a flor desse dia
e guarda as pétalas no peito
para assim lhe poderes sentir o perfume
nos restantes dias!
Guarda-as!
Amanhã podem estar murchas...
Esvazia na sarjeta
o perfume oferecido
pelo marido ou namorado que te maltrata!
Cospe no sorriso sacana
do patrão que te descrimina
só porque podes parir um filho.
Não queiras o teu dia, mulher!
O teu dia, são todos os dias.
Os que tens no calendário
e aquele que amarfanhaste
na mão de mulher inteira.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O verde de que foi tecido


Houve um campo de trigo
A fustigar-me o rosto
Dum tom aloirado
Em meu peito de estio
E o verde de que foi
O campo  tecido
É gume de foice
Noutro dia em agosto
E querendo o verde
Do campo em meu peito
Rego-o a preceito
Para que não seque
Mas o vento feroz
De tanto fustigar
Secou-lhe a garganta
Agitou-lhe as vestes
E o peito tão verde
Deixou de ser verde
Dobrou-se cansado
Daquele balançar
E levando a sede
Do campo em meu peito
Guardo-a a preceito
E comigo bebe
Bebemos a água
Que restou do estio
Segurando as folhas
Com os braços frágeis
E o campo e o peito
São agora homenagens
À vida tão verde
E o inevitável frio 
E tendo o tapete
Do campo em meu peito
Enrolo-o a preceito
E com ele aqueço



terça-feira, 6 de março de 2012

Só tu

Não te procures para além do espaço
que a tua sombra ocupa
à hora em que o sol está a pique.
Só em ti te perdes e só em ti te encontras
e, mesmo que penses
que a tua coragem te levou mais longe
muito para além do pedaço de terra
que te segura os passos
mesmo que o tua longa caminhada
te tivesse provocado cansaços
foste tu que te perdeste
sempre agarrada a ti própria.
Só tu serás capaz de te encontrar
 dentro de ti mesma
e,... tão perto
tão perto...

Haverá mais mar

Há uma imensidão de mar
entre o vermelho do crepúsculo
e o alvorecer dos sonhos
quando de olhos fechados te vejo
içando velas
endireitando o leme
levando o veleiro a um cais sereno.

Há uma imensidão de crepúsculo
dizendo adeus ao meu adeus
quando o dia me morre nos dedos
e a lembrança se atiça nas silhuetas dos montes
onde me nascem poemas
onde sinto o eco das águas
da ribeira em suicídio
nas escarpas dum vale fundo
onde um rio retrata cegonhas negras
nos seus espelhos
e o rouxinol amedrontado se fica
por sentir vertigens no soletrar
duma canção por cantar.

Haverá uma maior imensidão de mar
quando o rio se lhe lançar nos braços
e o rouxinol cantar
dentro da frescura dum salgueiro
da ribeira
que para trás ficou
e se fez lago
para se lançar ao rio
na secura do estio
e nele se desfazer em espuma

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Caminhavas

Caminhavas pelo silêncio da noite, empurrada pelo vento gelado a aligeirar-te o cansaço.
Ias sozinha, como sempre foste, como sempre irás quando o pulsar do querer se acender nas tuas veias. Carregavas na mochila a cadeira descartável para poderes abrir quando as núvens descessem e te levassem para mais perto do sol, para te sentires mais quente.
Hei-las!, disseste.
Tiraste a cadeira da mochila, e, num gesto lento, para que o vítrio braço não partisse, montaste a cadeira e sentaste-te. O gelo que te cobria o corpo estalou e os estalidos quebraram o silêncio da noite.
Dali a pouco as núvens desceram rente aos teus pés, algodão doce das feiras, e tu partiste sentada na cadeira, naquele manto de esperança, subindo, subindo.
Mais perto do sol, o teu corpo foi aquecendo e, na terra gelada e seca donde havias há instantes saído, pequenas gotas de chuva, formadas pelo choro do degelo do teu corpo foram caindo, primeiro espaçadas, depois chovendo copiosamente.
Chegou-te o odor a terra molhada, como se fosse verão, daqueles verões escaldantes que só as trovoadas refrescam.
Sim, tu sabias que era inverno. Ainda tinhas no corpo manchas roxas provocadas pelo gelo e, na ponta dos dedos a dor de teres aquecido bruscamente. Sabias que era inverno, naquele seco estio precoce sem prenúncio de primavera.
As núvens deslaçaram, agora já são rarefeitas. Tu continuavas sentada na cadeira, a olhar o sol, sol que já descia à terra e lhe levantava folhos de neblina ténue, sinal de que a secura já tinha sido engolida pela chuva.
Olhaste para baixo e viste que a primavera te acenava com as folhagens verdes e pequenos botões de flores, prontos a abrir.
Pediste às núvens que te descessem. Dobraste a cadeira, meteste-a na mochila e caminhaste em direcção à vida que lentamente começava a florir nos campos verdes.
Eu, na escuridão do quarto, aconcheguei o lençol de flanela ao rosto, dei meia volta e desliguei-me da tua caminhada.
Quando o tecido da cortina se bordou de luz, espraiei o olhar pelos campos taciturnos, cinzentos, cobertos de geada, secos. 
Ali em frente, pastavam ovelhas, a sangrar na ponta dos focinhos por tentarem colher a erva verde, escondida por baixo dos silvedos.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Rasgos

Quero rasgar as vestes que me tapam
Para me despir e vestir de novo.
Quero arrancar as linhas e os pespontos
Para que as vestes aos pés me caiam
Para que despida eu consiga ser

Queimem-se as vestes
Já que rasgá-las não ouso
Para das cinzas fazer a voz que calo
E lançá-la ao vento em estridentes gritos
Rasgos da alma em todo o meu querer

Tantas vezes quero e o querer se me tolhe
Tento rasgar e o pano não cede
Tento descoser e as mãos me tremem
Tantas vezes sou o que afinal não quero
Tantas vezes quero o que não ouso ser

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Quisera eu ter sapatos!

Quisera eu ter sapatos
para que a alma me não doesse!

Caminho pelos mesmos trilhos
dias seguidos, sem tirar nem pôr...
Porque será que há dias
que os pés se enchem de feridas
e noutros 
nem um pequeno rubor!?

Quisera ao menos ter sabrinas
já que sapatos não tenho!

Caminho pelos mesmos trilhos
ou em carreiros que invento...
Porque será que há dias
que os meus pés são lamentos
e noutros...
frescura de flor!?

Como os meus pés anda a alma
o coração e eu toda...
Em cima de calhaus pisando
e quando os pés estão sangrando
não há nada que não doa.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Semeado de papoilas

Rebentam-te primaveras
quando te lanço borboletas
a voar sobre o teu corpo
e o semeio de papoilas
com as sementes do poema
a saltarem dos meus dedos

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A fonte dos desejos


Lança-se a moeda na fonte
bem no fundo dos anseios.
Estão tantas moedas na fonte,
... tantos anseios a monte,
da gente que pede á fonte
remédio para seus receios.

Pudesse a fonte florir
no frio do vil metal!…

Escureceram as suas águas
com os metais corroídos
e agora se um justo desce
para de costas lançar
a moeda com o desejo
a fonte torce o nariz
faz trejeitos, como quem diz,
não me quero mais turvar…

E o justo mesmo assim
fazendo-se desentendido
do sentir da fonte santa,
de costas lança-lhe a moeda
para ver se com sorte pega
o vil que tanto lhe falta…

E logo o usurário
mesmo com sapatos calçados,
molhando os braços e o peito,
retira da água a eito
moedas de todas as cores,
leva dos desejos, os suores
que tanto cavaram o pão
e com o metal oxidado
sem sentir nenhuma mágoa,
cresce a pança ao comilão.

E a fonte de roubos farta,
disse para si, raios ma parta,
se não engolir toda a água!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Um sorriso emprestado

O meu peito foi salina
disse-me eu um dia,
porque nesse dia
uma lágrima recolheu
e em vez da lágrima nasceu
um sorriso
emprestado a um olhar triste

Danças no teu verde olhar

Caminhei pela manhã com o sol a beijar-me o rosto,
a brisa  a acariciar,
o azul do céu a fundir-se no mar,
inspirando o meu dia.
Olhei-te de frente mal cheguei,
bem nos olhos
como só se olha a quem se ama de verdade.
Ah! esta saudade!
Olhei a tua planície de centeio agitada pelo vento
e muito mais perto,
as tuas ondas caminhavam
e nelas me chegava a aventura de viagens.
Ao olhar-te sinto-me partir
e, enleada,
deixo-me embalar
pelo teu balançar.
Enebriada pela tua cor, alheada do mundo,
como se o mundo fosse feito
das tuas notas musicais
imagino-me noutro mundo,
um mundo sem fome,
sem injustiças, sem guerras.
Quando em ti me deito,
acabaram meus ais,
acabaram as sedes de ser livre
porque,
quando te olho,
eu sou,
livre dum mundo que me ameaça,
livre dum tempo que me amordaça,
livre dos temores que às vezes sobre mim se abatem.
Quando o meu olhar se espraia
sobre os campos de centeio da minha infância
que em ti invento,...
eu volto a ser menina,
com chitas vestida
e danço no verde do teu olhar,
mar
...e todas as dores se esbatem!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Menos doridos...

Caminho em terra batida depois de ter cortado as raízes de plantas raivosas para que o caminho se tornasse macio para os meus pés doridos. Arranquei a grama, fertilizei os solos, cavei fundo e tentei enterrar os restos duma seara que não semeei.
De quando em vez, surjem rebentos dum tempo que quiz matar. Como se poderá matar um tempo sem que se lhe ponha uma lage de mármore em cima ou se enfie num jazigo?! Detesto pedras por cima do tempo que quero matar; detesto jazigos a enclausurar o tempo!
Assim, lancei o tempo num ermo, ostracizado, trocado pelos toques de pele de outro tempo a fornecer-me sonhos. Ando a plantá-los na terra que fertilizei. Estão a crescer verdes e tenros os sonhos, mas ainda assim, há sonhos que me ficam a olhar para trás, em direcção ao ermo...
Caminho em terra batida, serenamente, passo certo, pés firmes sobre o chão limpo e,... os pés estão menos doridos...

domingo, 15 de janeiro de 2012

Outono

Descubro o encanto do outono
nas folhas que vão caindo
onde me deito sorrindo
bem abraçada aos rebentos
do ressurgir de sentimentos
de poema ao abandono.

Perdi-te um tempo,
outono
e em inverno me senti,
precocemente gelado.
Perdeste-te de mim
nem sei como,
em mutismos disfaçado,
à distância dum lamento.

Hás-de ainda devolver-me,
eu sinto-o,
uma primavera tardia
em plenitude florida.
Saltando o inverno, virá
e do gelo me poupará
em amor fortalecida.

Abraço-me a ti outono,
fito os teus olhos dourados
e enlaçando os meus braços
aos teus braços apertados,
agarro-me às folhas
salpicadas de anseios
e os nossos braços são laços
e as folhas são nossos beijos

Que importa que os nossos ramos
fiquem em breve despidos
se das folhas do meu regaço
fizeres sempre o nosso ninho
e eu tiver o meu corpo
encostado ao teu corpo amigo!?

Outono, ouve só isto!!!
Eu não temo os invernos
se com tuas folhas vermelhas
tu me tiveres aquecido.

sábado, 14 de janeiro de 2012

O sol é manta a cobrir


Há-de vir o sol
para derreter o gelo depositado
sobre as plantas cansadas,
sobre as ervas débeis,
sobre os corações esfacelados.
O sol é amor a aconchegar
e o sol não pede a manta de volta.
Preciso de sol!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Dias voláteis

Em voláteis
eu decanto as penas...
Penas para que serão,
em escassos dias, apenas!?...
É tão curto o Outono!
Os invernos
a todos gelarão!

Não batas!

Se passares à minha porta,
não batas!
Podes acordar a calma que em mim mora!...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Destroços

Que importa o casulo
se o pirilampo não brilhar!?
Há um eyeliner na pálpebra
para esconder a tristeza do olhar;
há um sorriso forçado
para esconder os destroços da alma
e o coração a afundar.

Será que o vento...

Será que o vento que sopra
será como os meus pensares!?
Umas vezes, leves, serenos;
outras, de sieiro i gretas,
outras, serranos a gelar.

Será que o vento que sopra
será vento para ficar!?
Que fique leve e com frescura,
com ardores e sem rachar.

Será que o vento que sopra,
será brisa, a disfarçar!?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Janeiro aquece dezembro

Canta suave a represa,
canção a enlevar-me os pensares,
nesta manhã de janeiro
dum ribeiro prazenteiro.

Gelou-me dezembro,
o corpo, a alma e a mente!
Ao aquecer,
vai janeiro derretendo
a geada e o granizo
e aos poucos descubro janeiro,
como se só agora janeiro,
eu tivesse conhecido.

Passa-me o sol pela pele
desnuda-me com o olhar
doce, sabendo a mel,
em olhos, favos dourados
nunca antes encontrados
nos raios desse mirar.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Talvez um dia

Porquê?
Porquê que
armando-te em heroína de batalhas
escondes a dor que te vai nos refluxos
da tua raiva?
Mais valia que te enfrascasses
que te enraivecesses e regurgitasses
aquilo de que te sentes incapaz de digerir...

Ah!
Talvez um dia
quem sabe,
tu venhas a conseguir...

Por um desejo,
por um sonho não vivido,
por um beijo,
por um orgulho engolido,
por um amor encoberto e
incolor, ao teu lado disfarçado,
descoberto,
por um destino que nem sabes
se é candura ou pecado.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Deixa sem pressas

Deixa sem pressas
que o perdão desça à chaga aberta,
que o granizo descongele
e se deposite em aluvião na horta,
para que frescos cresçam
e lentamente floresçam os sonhos,
ainda que o tempo te meta pressa,
veloz a escapar-te das mãos.
O perdão!...
O perdão dissipa a dor,
ainda que a dor seja atroz,
atenua imagens,
ainda que as imagens não se esqueçam,
mas antes esmoreçam.
Vive o hoje sem pensares no ontem,
mesmo que o ontem tenha sido elevado,
pois que comparado,
o hoje pode parecer baixo,
e o amanhã, quem sabe!?
Espera que as lágrimas decantem a poeira,
para delas extrair apenas o sal,
branco, puro,
com  que vais temperar
o alimento para os beijos,
os abraços,
o enlevo com que irás olhar o cravo
e sentir o seu perfume
nas noites, nos dias,
na covinha do sorriso.
Depois, há-de reavivar a chama,
hão-de incendiar-se os recantos do corpo,
hão-de elevar-se os picos dos montes
a fundirem-se nas lavas do desejo,
a fazer transbordar o rio que em ti corre,
entre margens vulcânicas, apertado.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sangrar por dentro

Beijei a rosa,
toquei os espinhos,
sequei os lábios
para não sangrar.
Sangrei por dentro,
sem flor, sem espinhos,
escorri mais sangue,
sem me picar

Antes num charco

O peixinho não navega no mar a qualquer preço e em quaquer situação. Se o mar for indolente ou demasiado agitado e lhe descamar a pele, o peixe sairá dos rebentamentos e, antes perder-se no areal, dentro dos pequenos charcos formados pelas marés vivas, do que viver despido, à mercê de esmolas, dentro dum mar ingrato.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Os meus ais

Já não há ais!
O peito secou
pensando-se envolvido em pesadelo
e o real
parece que deixou de o ser,
num corpo em forma de mulher,
os choros em forma de expiação,
as abstrações
em formas de poupar o coração
.
Já não há ais digo
mas ao dizê-lo quanto minto,
ao senti-lo quanto sinto
em ais que já nem balbucio,
vazios que não posso suportar.
Será que não me sei dar!

Já não tenho ais para fora do meu peito,
mas antes rebentamentos dentro de mim
que me fazem esfacelar a carne,
uma força visceral a implodir-me
como me têm feito explodir o que sinto
dito em palavras verdadeiras.

Os meus ais engoli-os
como quem engole fel
em deglutição instantânea
para na garganta não sentir a queimadura
e na boca o amargo.

Já não tenho ais!
Os ais entraram, reviraram as vísceras,
esfacelaramm o coração
e inundaram a alma.

Se ao menos
alguém pudesse ouvir os meus ais,
expressados em espasmos,
em náuseas,
em movimentos viscerais
em debelidade muscular.

Só eu!
Só eu posso ouvir os meus ais!
Mas, hei-de secá-los
nem que para isso me arraste,
me canse e me gaste
de tanto os secar
para, sem narcisismos
me continuar a amar.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Se ao menos tu estivesses aqui!

Se ao menos estivesses aqui!

Deixaste-me uma mensagem escrita
numa folha de papiro
lá no meio do pântano.
Para mim o pântano é intransponível
e à mensagem nunca chegarei.
Chegavas tu,
porque de ousadia e força,
a natureza te dotou.
E eu o que sou?

Uma teia de aranha,
onde desenhei sonhos com toques leves
desfeita pelas bolas de granizo.
Se ao menos tu estivesses aqui
para reparares o rombo nas sedas!

Se ao menos aquela lágrima peregrina
que te desceu derradeira
tivesse caído nas minhas mãos!
Nelas passaria a língua para,
com o sal restabelecer as minhas forças.

Deixaste-me trilhos nas savanas
onde os teus pés deram ais.
O capim cresceu
e, dos teus trilhos nem sinais.

Resta-me o resto do gin,
no fundo da garrafa,
a evaporar aos poucos,
aquele que a falta de tempo nos deixou.

Resta-me a lembrança do teu olhar doce
a amenizar o trilho por entre tojos e silvas.
Se ao menos tu estivesses aqui!...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Pássaro de asas feridas II

Pássaros que andais pelas núvens
dizei-me que tempo está aí!
Muito longe ando eu
e, de tão ocupada andar
nem me dá para imaginar
que tempo estará aí!

Em voos altos subis
E eu nem chego a esvoaçar!
Tenho os pés presos no chão
e a mente a enturvar.

Dizei-me se há arco-íris,
colorido a alumiar.
Dizei-me se há gotas de orvalho
com que me possa molhar.

Dizei-me se aí haverá
uma nuvem onde me deite,
alva que nem roupa lavada,
à cora a branquear.
Tenho uma nuvem tão escura
onde,
 não sou capaz de dormir
 nem sequer descansar.

Pássaros que voais no céu
levai-me para junto de vós,
porque eu
já esqueci o voar.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Fiquei...

No orifício lacrimal
vive uma lágrima indecisa.
Não sabe se há-de cair
ou cristalizar lá dentro
por achar
que os urdidores da manta
não merecem esta lágrima,
mais esta lágrima.

Durante a noite,
recostada no seu cantinho salgado
sonhou que era uma pérola.

Pé ante pé, para não me acordar,
deslizou pelo meu peito
e foi aninhar-se na minha mão contraída,
que fechada, dormia.

A mão ao senti-la
fez-se concha
e para espanto daquela lágrima,
na minha mão floriu

um colar de pérolas
dum branco marfim.

Quando acordou do sonho,
desiludida

por nunca ter sido pérola,
fez-se em cristais de sal.
Ao lavar o rosto,
senti um sabor salgado
e senti-me entregue
a algumas pérolas
e...
às minhas lágrimas.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Boca calada, dizia o monstro!

Nadava gracioso, o peixe com suas barbatanas tanto mais coloridas quanto mais as abria, escamas brilhantes e de cores vivas, como tela montada num cavalete que aos poucos ganha céu e mar.
O mar onde nadava era verde com reflexos azuis do céu que lhe morava em cima. Nas algas buscava os verdes da natureza e, nos corais, ia buscar tons de pôr do sol, com que completava a pintura. De boquinha aberta ia cantando e, depois de concluir a melodia, fechava os lábios e, com os dentinhos, segurava os pincéis. Com as barbatanas laterais, ondulantes, dava pinceladas com movimento.
Depois, havia um monstro para fechar a boquinha ao peixe, o peixe imbecil que só fazia inutilidades, voluntarioso, o peixe que até tinha vontade e voz próprias.
Uma jamanta de barbatanas viscosas, ondulante, pegajosa, ia-se colando ao monstro como lapa em rochedo. Abanava a cabeça, sempre a concordar com tudo o que o monstro queria. Detestava a jamanta, o peixinho, a jamanta melosa, ranhosa, superficial e fútil, sempre armada aos cucos que por cima da água voavam, ainda que fosse feia como um peixe sapo. Tinha a cara como um sapo concheiro, aquela jamanta!
Quanto mais a jamanta se enrolava ao monstro mais o monstro obrigava o peixe a fechar a boca. Se não calares a boca rebento-te, disse-lhe um dia. E o peixe foi deixando de dar opiniões: doutros peixes, da cor dos corais, do cheiro das algas verdes, de Neptuno rei de todos, das leis do reino das águas, de tudo.
Mas o peixe continuou a pintar telas com as algas e os corais e nunca se submeteu à vontade do monstro. Boquinha semi-aberta, a segurar os pincéis com os dentinhos, ali ia ele até aos bancos de corais, em busca de sonhos.

Corto o vento, sugo a neblina

Há dias
em que o vento me arranca os cabelos
e o frio me reduz o pensar;
há dias
em que a neblina me confunde a visão,
me põe a mente em turbilhão,
a alma doente
e a pele a tiritar.

Há dias sim
e,
há dias infinitamente mais não.

Há dias que entristecendo-me
até ao mais ínfimo vestígio de vida em mim,
ao mesmo tempo me libertam
dum jugo
que me marca a carne,
e me atrofia o espírito.

O querer?
Não!, ninguém me tira
o querer que forte me sai em lufadas
como um tufão que em mim nasce.
O querer e também a razão.
Quando o querer e a razão me arrepanham as veias,
me esticam os tendões,
me espasmam os músculos
eu corto o vento,
sugo a neblina
e, sigo!

Sigo firme nos trilhos do meu caminho...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pássaro de asas feridas

Tem as asas feridas
o pássaro que tão bem planava.

Um vento contrário soprou-lhe
contra o corpo em suspensão,
frio vento a parecer
de tempestade de granizo
e o pássaro de grande porte
de asas brancas, corpo forte
entrou em desiquilíbrio
e estatelou-se no chão.

As penas pesaram-lhe tanto
com o granizo ensopadas
que já nem asas pareciam.
O pássaro de grande porte,
sem forças e em desnorte,
entrou em doloroso pranto
e até os céus ensurdeciam.
.

Fez então descer as patas
para poder chegar a terra,
mas o pobre pássaro cansado
entrou em queda,
desamparado
e contra um rochedo projectado
ficou com as asas presas.

Tentou depois agitá-las
para poder reerguer-se
mas com asas assaz pesadas,
de sangue e granizo molhadas,
não foi capaz de mexer-se.

Está no alto do rochedo
o pássaro de grande porte!...
Mas um dia, o sol brilhará
 sangue e  água secará
e saindo desse degredo
voltará a ser
pássaro forte...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Contigo

Caiu a geada tão branca e tão fria
e os verdes da horta dobrados e frágeis
fizeram a vénia, ao sol que nascia.
A noite sem ti foi muito mais fria.

As lareiras lá em baixo, na aldeia envelhecida,
pedem que as aqueçam que lhes dêem vida
e aos poucos as casas são ovo a eclodir
e no cimo dos telhados, o fumo começa,
aos poucos, a subir.
O dia contigo tem outro fluir.

O sol ilumina os campos doridos
e os verdes da horta acordam e aos poucos
levantam as vestes, suas veste brancas
deslizam-lhes lágrimas, choram de alegria,
retemperam forças para a noite fria.
Dedilhando teclas, contemplo a paisagem,
e a aldeia deserta já deixa de o ser
e o dia contigo tem menos friagem.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Pequenos nadas numa noite de dezembro


Sibila o vento ao bater contra as colunas de granito. Está fria a noite e, nem sequer o nariz me atrevo a mostrar à escuridão. Quase tirito só de o ouvir.
Olho a fogueira e a chama deambula pelos troncos.Em breve serão consumidos. As fagulhas, verdadeiras batalhas, entrelaçam-se em declaração de guerra aberta. Às vezes ouve-se um estalido. Sempre me intrigaram esses estalidos e, até hoje me interrogo se é efeito da combustão ou se, qualquer verme abrigado nas fibras vegetais da madeira a debater-se pela vida. Inclino-me mais para a primeira, já que o tronco ao arder fica todo ele demasiado quente e qualquer ser lá sucumbiria  rapidamente.
Estou nostálgica e melancólica. Por vezes fico neste estado de alma, sem aparentemente ter razão para isso. Por vezes a escrita ajuda-me a sair, outras nem por isso.
A sala está quente. Na cozinha há outra lareira acesa, esta à moda antiga, sem recuperador e, se por um lado a maior parte do calor se escapa pelo gargalo da chaminé, por outro, é lá que o estalar e as batalhas das fagulhas se tornam mais audíveis.
Poderia parecer óbvio que melhor me sentiria lá, mas não! Hoje sinto uma certa tranquilidade neste cantinho onde me sentei em silêncio que nem sequer é cortado pelos sons da televisão que mantenho religiosamente desligada. Só o vento lá fora me responde com a sua voz, para além de pequenos sons que me vão chegando da fogueira, vindos de drentro do vidro do recuperador.
Aqui estou.
Em breve terei que encher de toros a caldeira, para ardérem noite dentro.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Terra lavrada, meu mar!

                                   
Quando te lavro,
 terra,
 envolves-me em  poesia.

Terra lavrada, és poesia:
 em cada erva daninha
 arrancada do teu ventre,
em cada pedra a rolar
para o sulco,
em cada promessa de fruto,
 em cada aroma de flor
que em ti há-de nascer,
em cada gota de chuva a penetrar,
em cada esperança a medrar.

Quando te lavro renasço,
 porque ao tocar-te sinto
 uma emoção
e, não minto
quando te digo
 que sempre me agrada tocar.
Terra lavrada, meu mar!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Era noite e tanto dia…



Era noite, tanta noite
era noite e o dia vinha.
Vinha o dia em tanta noite,
sempre que o  pavio ardia,
 a incendiar a noite
 com o sol que em nós fervia. 
Fervia-nos tanto a noite
 que até estrelas acendia.

E quando ao pensar que a noite
 já ficava sempre dia,
chegava então o crepúsculo
do calor que em nós descia
e chegava-nos a manhã
orvalhada em nosso corpo,
 no corpo que ainda ardia. 
Depois voltava a ser noite
 num sono que apetecia.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Faço-me mar



Em ti
me fiz ao mar,
ao mar infinito sem ondas,
planalto onde fui ancorar.

Percorri-te
sem nunca te percorrer,
mar imaginado,
na terra que me viu nascer.

Agora que melhor te conheço
e me encantas com o agitado viver
és mar com montanhas
és mar com miragens
até o infinito do meu querer.

Faço-me mar
canoa sou
frágil e ousada
navegante quero ser

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Lançamento do livro "Ls Quatro Eibangeilhos"

Aqui fica o convite para o lançamento do livro Ls Quatro Eibangeilhos, tradução para Mirandês de Amadeu Ferreira.
A obra será apresentada pelo senhor Bispo de Bragança Miranda.
O autor sentir-se-á honrado com a presença de todos quantos queiram assistir ao evento.


Para ler, clique na imagem.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

E eu

Repara como a grama
me prende!

Solta-a!
Uma haste que seja
Daquelas que se agarram à carne
E me comem a seiva.

E eu que me julgava
Capaz de voar
Sucumbo
Na fraqueza dos ramos
Na indecisão do querer
No medo do levantar.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

...São terra

Sou terra!
Daquela que pede mãos,
arenosa, fofa,
como que trazida
duma praia, no meu mar
esse mar
que tanta falta faz,
à terra com que me fiz.

Eu sou terra,
sou mãos,
sou água salgada.
Por vezes,
sou nada!

É com as mãos
que te remexo
e delas faço arado
enxada, caneta, pincel,
beijos,
e, é com as mãos
que te esculpo
fazendo delas cinzel.

E quando as mãos
acariciaram a terra
enterrando em seu ventre
a esperança  
dum verão
com sabor a morango,
os meus olhos já viam
a terra
pintada de verde
e o vermelho ao lume
na panela, brando.

As minhas mãos são terra,
são água a regá-la
e,  são também morango! 

domingo, 6 de novembro de 2011

Por entre os raios de sol


Passeio por entre os raios de sol à medida que eles me deixam espaço  por entre as gotículas de geada, descongeladas à pressa para o sol saciar a sede, pela manhã.
O colchão rubro e amarelo acaricia os meus passos e, o dia entra por mim adentro arrancando de mim a tristeza acumulada dos dias pardacentos.
No alto, lá no cimo do monte onde o céu me chega mais nítido, mais azul, mais brilhante e o sol  me escurece  as lentes progressivas,  eu vejo o mundo, o mundo que achava meu na infância e o único mundo que conhecia. Agora, com os óculos que escurecem na proporção da intensidade do brilho, para que os meus olhos não se envergonhem e os pés de galinha não formem sulcos, o meu mundo é outro, bem maior, mas é também  este o meu mundo e, quando subo ao monte, o mundo maior cabe neste meu mundo do tamanho de um círculo com poucos quilómetros de raio.
Lavei as dores dos últimos dias sem sol; lavei-as com as gotinhas que se formam no chão à medida que a geada se espreguiça, se recolhe por entre os fenos secos que restaram do verão quente e o veludo da erva que está nascendo após as chuvas da sementeira.
Lavei o olhar nas cores acres e rubras do planalto. Fixando melhor o olhar, consigo retirar pequenas manchas castanhas e verdes,  discretamente  verde,  e, comecei a sonhar com as searas ondulantes na Semana Santa, salpicadas de papoilas em Junho e de oiro sob o calor do coração do verão.
Lavei a alma e o coração. Lavei-os neste cenário que se me abre em leque duplo completamente aberto.  Aquela, tornou-se leve; este, reaprendeu a bater compassadamente, ao ritmo certo, com a pressão adequada, fazendo correr no corpo, a força que baste a cada circunstância.
Em pequenos goles, fui sorvendo o meu mundo, redondo, doce, e fui-o petiscando migalha a migalha, o mais lentamente possível, para que dele as papilas gustativas retirem um sabor  mais intenso e requintado.

sábado, 5 de novembro de 2011

Porquê?

Porque me lanço eu
na masmorra dos degredos
e a caneta me leva
para um silêncio de morte!?

Porquê?

Porquê que em vez de me perguntares
porque deixo a folha branca
em cima da mesa
não me pegas na mão
para que esta mão não me faça
morrer de solidão!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Nada vejo

Espraio o olhar nas folhas cansadas
nos matagais dum outono
e
em ondas flamejantes
me lanço
esbracejando nas cristas
dum mar em mim
de ocres pintados.

Espraia-se o olhar da floresta
nos meus olhos cansados
e de folhas soltas se forma
o colchão onde deito
os sonhos despertos
indiferentes à cor das pinceladas
com que vou pintando o meu corpo.

Espraia-se o olhar
nos horizontes onde um dia me quedei
e...
nada vejo.

Doem-me



Doem-me as folhas
A desprenderem-se dos galhos
Nestes dias de chuva.

O sol passa entre as nuvens
Alumia  o sofrer dos ramos
Exibindo a lingerie
Numa quase nudez de corpo.

O vento abana  a dignidade
Aos pedúnculos
Das folhas onde já só corre
Um fiozinho de paixão.

I assim abanam, abanam
Fixando os seus dedos
Aos frágeis sonhos
Que vão resguardando.

Giadas  hão-de chegar
Para com elas levar
O calor da cinza
Que lhe vai chegando.

Dói-me a primavera
Teimosa
Que não se encosta
Aos galhos que se vão amofecendo…

Tempos houve
Em que as florestas
Cantavam cantigas
Aos dançares dos rebentos.

Doem-me as cantigas
A mandarem caminhar
Por caminhos que se vão enlameando…

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O quente da cinza

Sinto mais frio
se não te sinto por perto.

Enrolada nas ausências
duma lareira mortiça,
remexo
à procura do que resta
das brasas de que foi feita,
e,
no rescaldo da fogueira
procuro o quente da cinza.

Não me tem apetecido

Há muito que não escrevia.
Coisas há que espicaçam e compelem os dedos a escrever, outras, nos petrificam, como se a força dos  dedos se tivesse transformado em mármore fria e os tornasse incapazes de um gesto ousado; a mente não passa de um monte de torpor, lixo deixado à beira da berma, carregado de fumo dos escapes.
Foi assim que fiquei, sem fôlego e em estado de choque depois de ter ouvido as medidas para equilibrar as finanças,  debitadas pelo primeiro ministro deste país combalido.

Porquê sempre nós, a classe média quase extinta? Porquê nós baixo/remediados, a viver de ordenados apertados, de reformas ratadas, nós que vivemos o pão nosso de cada dia, nós que nunca fomos capazes de amealhar nos bancos nacionais e muito menos em paraísos distantes, porque aquilo que nos pagavam era a medida certa para uma vida regrada. Nós que não roubámos nem ao Estado nem aos particulares, nós que não ganhámos com cirurgias desnecessárias feitas para aumentar o pecúlio nem fizemos  crianças nascer cirurgicamente se a mãe os pudesse parir pelo processo natural, nós que não recebemos comissões de negociatas, nós que não especulámos, nós que não entrámos em negócios sujos nem lavámos dinheiros dos mesmos. Nós, nós, nós...
Sempre o funcionário público, como se ele fosse o causador do estado deplorável em que o País caiu pelo desgoverno de governantes sucessivos.


Rais ma parta se me apetece escrever! Não apetece mesmo, nem a ponta dum corno... É com se me tivessem dado uma chicotada nos dedos e um golpe certeiro no coração e depois a minha alma de tão assombrada já não me ditasse poesia.
Na verdade, tudo o que se tem passado me aflige, não porque o trabalho me assuste, a fome me atormente. O que me atormenta, é que estas mãos já não me parecem as minhas mãos, o corpo já me doi com o puxar da agulha da costura e do tricot, com o peso da enxada e, as pernas já por vezes não me levam a colher a castanha que pinga no souto distante, e os braços me doem quando tento branquear os lençóis.

Eu sei que são os estados de crise que mais levam as pessoas a escrever, mas a mim não me tem apetecido...
Juro que não!!!!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ruga la Lhéngua Mirandesa




Mais ua ruga cun l nome la Lhéngua Mirandesa. Einouguremos-la onte an Palmela, nun bárrio de casas nuobas dua fraguesie nas fraldas de l monte adonde l castielho se chube cielo arriba mirando l mar i la sierra de l´ Arrábida i la cidade se ancarrapita pulas rugas cada béç mais yegres i cun suolo sgúbio de tantas pisagadas.
La nuossa ruga stá serena an suolo praino, antre pinhos i sobreiros. Stende-se tan feliç, cumo se stubira na tierra adonde la Lhéngua botou raízes i se fizo giente por sieclos afuora, l sou Praino, cumo se stubira acerca ls sobreiros de l Cabeço de la Trindade.
Há-de resfolgar aire puro cun ls pulmones chenos, há-de cuntar ls anhos ne ls tuoros de ls sobreiros, há-de ber la cortiça a angordar, há-de oubir las machadas quando ls dies se l cúmpran, há-de mandar ls ninos que alhá jóguen a la bola ó ánden de bicicleta para casa, nó cun las Trindades porque ls telemóbles se apréssian a tocar ls tagalhicos para l sou chequeiro, tagalhicos zanquietos cun cundiçones para bolar an cielo sien fumos i para resfolgar aire fresco de pinhos.
Há-des, ruga nubica,…prouísta,  há-des ber nacer casas nuobas, famílhias jobenes an sou nial de suonhos.  Cun l nome grabado na tabuleta d´azuleijos cun cercadura amarielha, há-des ber l tou cuorpo tapado cun alcatron nuobo an fuolha, há-des apuis ambelhecer dezindo adius a giente , a pinhos i a sobreiros i, acenhendo a quien passa, há-des dezir que an Pertual hai outra lhéngua, l mirandés, tamien oufecial i de l mesmo tiempo.

Eilha alhá stará siempre, faga sol ó chuoba, deitada  a mirar l cielo, seia primabera ó berano, an nuites scuras ó strelhadas,  siempre a spera de dar las buonas benidas a quien chega.

Nós stubímos alhá nun die de outonho, a ceçar cun la calor cumo se fura berano. Oubimos la gaita, bimos beilar ls dançadores cun sues bestimientas de borel i lhenços floridos, pies cumpassiados, palos ciertos cun la música, cumo na qualquiera ruga de las sues aldés, a pedir pals santos de fin de berano.
La tabuleta,  apuis que l çtapórun la cara, mirou para nós i, oubindo-mos falar an mirandés, sentiu-se an sue casa,  marco a dar nome aqueilha ruga. Al fin, dou-le ua risica i la ruga sentiu-se  berdadeiramente la Ruga la Léngua Mirandesa.





Em homenagem à rua, escrevi este texto, unicamente em mirandês.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

NADA MAIS INTERESSA



 Nada mais interessa
Ao tempo
Quando as folhas lhe caem suaves
Melodias na pele descendo
Carícias de Outono sábio
Trazidas por doce vento

Nada mais interessa
Ao olhar
Quando o caminhar
Se faz contra o nevoeiro
E mais adiante o sol se ergue
Brilhando o arvalho nas silveiras


Nada mais interessa
Ao coração sedento
Quando se abre numa fonte
Dum sopro aparta o limo
Da água a mostrar-se límpida
E em pequenos goles bebe

Nada mais interessa…

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Boas vindas


Bateu-me à porta de mansinho como quem não me quer acordar mas ainda assim, não quer deixar de me ver. Vinha radiante, com um brilho muito especial no olhar.
Esfreguei os olhos, estiquei os braços bem para cima e saltei da cama.
As esplanadas estão cheias de gente, gente que toma um refresco enquanto seca o fato de banho, gente que simplesmente quer apanhar sol enquanto lê um livro eleito para aeste verão, em qualquer esplanada de café.
Os freixos dos jardins, esses coitados tentam segurar as últimas folhas, a todo o custo as seguram, na esperança de retardar o sopro de ar frio a passar-lhe no corpo nú.  No centro da avenida, as árvores continuam verdes e esvoaçantes. No jardim lá ao fundo, o ocre e o amarelo predominam, iluminados por uma luz que a cada passo lhes faz fechar os olhos e virarem-se para o lado norte, com medo de ficarem demasiado tostadas.
Chegou-me o cheiro a mosto nos cantares saídos da televisão  que me lembraram as vindimas, chegou-me  o perfume das maçãs  colhidas em cestas de vime e espalhadas no chão da velha casa, sobre as tábuas largas de madeira. Chegou-me o sabor das compotas, a lembrança dos licores a macerar na despensa para ser feito no Natal e enfrascado a preceito, em frascos de vidro transparente.
Calcei uns sapatos rasos de pele fina, vesti umas calças de licra e uma túnica de algodão, daquelas que me serviam de vestido  na altura em que ia à praia.  
Tomei o pequeno-almoço no terraço e ao fim bebi o café que não dispenso pela manhã. Peguei na trela e, depressa a minha cadela percebeu que íamos dar uma bela caminhada.
Bem vindo Outono!!!

domingo, 25 de setembro de 2011

Com lágrimas mais salgadas e folhas mais ocres


É o começo do Outono, também o meu Outono,
 quando as folhas se me vão aninhando no regaço,
a pele se vai tornando mais fina, e,
 perdida a textura de seda lisa
 vai sendo engomada por aprendiz,
com vincos onde não devia.

Foi neste Outono soalheiro que te vi,
te conheci,
 tu que foste a princesa que eu não pude ser,
por causa da imensidão dum mar,
e do barco onde não me deixaram embarcar.

E assim cresci,
 como pude crescer,
 na medida em que os trabalhos de menina
 me deixaram ser,
quiçá menos menina.

Muitas vezes me questiono que pessoa seria
 noutro sítio que desconheço,
 onde os vales seriam diferentes do vale do Molinico
que me fez verter lágrimas
enclausuradas entre dois montes
e,
sem o ar que me bastasse.

Sabes?
Senti uma ponta de ciúme e de inveja,
quando me disseste que o  adoravas,
por ser doce e lindo, lindo
e te chamava princesinha.

Como eu gostava de ter sido princesa,
também eu princesa
naqueles olhos vivos cor de café!

As folhas vão-se-me soltando nesta manhã
e as lágrimas vão-me caindo peito abaixo
e molham o colchão ocre
que se aninha no meu regaço!

Agora
Já não posso ouvi-lo
E é por isso que as lágrimas me são mais salgadas
E as folhas mais ocres…

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mergulhando num abismo

Esta noite
vi que te esvaías em sofrimento
e eu
nada podia

De noite
na escuridão
quiz te tocar
com um dedo que fosse

O dedo não cresceu
a espessura dum cabelo
e esse cabelo seria o bastante

Lanço um grito que sai mudo
tento correr
tento voar

Mas ah!
pernas inertes
asas presas
para que vos quero eu!?

Porque será que o meu sono
em vez de  descanso
me faz mergulhar num abismo!?

Felizmente o sol
abriu-me a cortina
e
num instante em pestanejos
abri os olhos em bocejo
e foi mais um dia
a nascer
e uma noite que termina

No mar sereno

Talvez  to diga um dia
ou talvez não.
Olhei nos teus olhos
e vi-me no reflexo
dum mar sereno.
Lá fiquei a navegar
sem canoa
nem remos
sem cristas de ondas
nem murmúrios
para te balbuciar

Uma lágrima desperdiçada

Deslizou-me uma lágrima
peregrina
sozinha
uma lágrima a menos
dentro de mim
uma lágrima gasta
por imprópria razão.
Não gastarei mais lágrimas
por qualquer desilusão!

Limpei-a
do rosto queimado
pelo sal em cristais
e
no lenço de seda
com que a limpei
lancei-o ao vento
para não mais a ver.
Não mais verei a lágrima
de desilusão, de sofrer!




Hei-de tê-las no rosto
de riso, de alegria
e com elas orvalhar
os lábios e o peito
e
com o lenço na mão
ensopado de lágrimas
limparei a minha alma
e o meu coração.
Não mais chorarei lágrimas
de desilusão!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

No vazio


Sinto-te aqui  neste dia
Nesta hora, neste beijo
Que me sobra
Neste lençol onde a dobra
Não se desdobra
Nem a cama se desmancha
Nem se vinca
Nem desvinca
O travesseiro à espera
Desespera
E os meus braços abraçam
A cama vazia... 

domingo, 4 de setembro de 2011

Gostava...

Gostava que me viesses visitar logo pela manhã e me trouxesses um ramos de flores orvalhadas, colhidas numa horta, multicolores, crescidas ao lado dos feijoeiros e das cebolas, misturando o seu perfume com o odor forte dos tomateiros.

Sabes?!... há hortelões que são poetas e amantes do belo. E há-os também pintores.
Pintam as suas hortas como quem pinta telas em nuances frescas e coloridas. Num lado o verde esvoaçante e vivo dos feijoeiros de hastes altas, depois, um verde sépia das cebolas e das beringelas, logo a seguir, imponente, o verde escuro dos pimenteiros. Na ponta, espraia-se o verde das aboboreiras matizadas de flores amarelas, onde as abelhas laboram intensamente, e,  numa ponta qualquer, florescem cécias, flores que aqui são conhecidas por marianas.

Tal como nas hortas dos pintores, também há flores nas hortas dos poetas, só que, nestas, os legumes dançam, esvoaçam, como se fossem letras à procura da sua palavra, da sua estrofe, do seu poema. Bailam em bicos de pés para não apertarem a terra acabada de regar e para não sujarem o poema.

Gostava que passasses logo de manhã pelas hortas dos poetas e nelas colhesses um punhado de poesia.
A mim, presenteia-me com as flores orvalhadas.
A poesia, vai-a espalhando pelas aldeias, em acenares, em boas tardes, em sorrisos. É que, há hotelões nas aldeias, onde a poesia deixou de sersentida, há muito!...É que, os caminhos até à horta,  têm um piso incerto, e, os hortelões-poetas deixaram de lhes sentir a poesia dos passos firmes com que escreviam os caminhos.

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