Acerca de mim

A minha foto
Sintra/Miranda do Douro, Portugal
Gosto de pintar,de escrever e de fazer trabalhos manuais.Sou simples e verdadeira. Tenho que pôr paixão naquilo que faço, caso contrário fico com tédio. Ensinar, foi para mim uma paixão; escrever e pintar, continua a sê-lo. Sou sensível e sofro com as injustiças do Mundo. A minha primeira língua foi o Mirandês. Escrevo nessa língua no blog da minha aldeia Especiosa em, http://especiosameuamor.blogspot.com em Cachoneira de Letras de la Speciosa e no Froles mirandesas.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Se ao menos tu estivesses aqui!

Se ao menos estivesses aqui!

Deixaste-me uma mensagem escrita
numa folha de papiro
lá no meio do pântano.
Para mim o pântano é intransponível
e à mensagem nunca chegarei.
Chegavas tu,
porque de ousadia e força,
a natureza te dotou.
E eu o que sou?

Uma teia de aranha,
onde desenhei sonhos com toques leves
desfeita pelas bolas de granizo.
Se ao menos tu estivesses aqui
para reparares o rombo nas sedas!

Se ao menos aquela lágrima peregrina
que te desceu derradeira
tivesse caído nas minhas mãos!
Nelas passaria a língua para,
com o sal restabelecer as minhas forças.

Deixaste-me trilhos nas savanas
onde os teus pés deram ais.
O capim cresceu
e, dos teus trilhos nem sinais.

Resta-me o resto do gin,
no fundo da garrafa,
a evaporar aos poucos,
aquele que a falta de tempo nos deixou.

Resta-me a lembrança do teu olhar doce
a amenizar o trilho por entre tojos e silvas.
Se ao menos tu estivesses aqui!...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Pássaro de asas feridas II

Pássaros que andais pelas núvens
dizei-me que tempo está aí!
Muito longe ando eu
e, de tão ocupada andar
nem me dá para imaginar
que tempo estará aí!

Em voos altos subis
E eu nem chego a esvoaçar!
Tenho os pés presos no chão
e a mente a enturvar.

Dizei-me se há arco-íris,
colorido a alumiar.
Dizei-me se há gotas de orvalho
com que me possa molhar.

Dizei-me se aí haverá
uma nuvem onde me deite,
alva que nem roupa lavada,
à cora a branquear.
Tenho uma nuvem tão escura
onde,
 não sou capaz de dormir
 nem sequer descansar.

Pássaros que voais no céu
levai-me para junto de vós,
porque eu
já esqueci o voar.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Fiquei...

No orifício lacrimal
vive uma lágrima indecisa.
Não sabe se há-de cair
ou cristalizar lá dentro
por achar
que os urdidores da manta
não merecem esta lágrima,
mais esta lágrima.

Durante a noite,
recostada no seu cantinho salgado
sonhou que era uma pérola.

Pé ante pé, para não me acordar,
deslizou pelo meu peito
e foi aninhar-se na minha mão contraída,
que fechada, dormia.

A mão ao senti-la
fez-se concha
e para espanto daquela lágrima,
na minha mão floriu

um colar de pérolas
dum branco marfim.

Quando acordou do sonho,
desiludida

por nunca ter sido pérola,
fez-se em cristais de sal.
Ao lavar o rosto,
senti um sabor salgado
e senti-me entregue
a algumas pérolas
e...
às minhas lágrimas.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Boca calada, dizia o monstro!

Nadava gracioso, o peixe com suas barbatanas tanto mais coloridas quanto mais as abria, escamas brilhantes e de cores vivas, como tela montada num cavalete que aos poucos ganha céu e mar.
O mar onde nadava era verde com reflexos azuis do céu que lhe morava em cima. Nas algas buscava os verdes da natureza e, nos corais, ia buscar tons de pôr do sol, com que completava a pintura. De boquinha aberta ia cantando e, depois de concluir a melodia, fechava os lábios e, com os dentinhos, segurava os pincéis. Com as barbatanas laterais, ondulantes, dava pinceladas com movimento.
Depois, havia um monstro para fechar a boquinha ao peixe, o peixe imbecil que só fazia inutilidades, voluntarioso, o peixe que até tinha vontade e voz próprias.
Uma jamanta de barbatanas viscosas, ondulante, pegajosa, ia-se colando ao monstro como lapa em rochedo. Abanava a cabeça, sempre a concordar com tudo o que o monstro queria. Detestava a jamanta, o peixinho, a jamanta melosa, ranhosa, superficial e fútil, sempre armada aos cucos que por cima da água voavam, ainda que fosse feia como um peixe sapo. Tinha a cara como um sapo concheiro, aquela jamanta!
Quanto mais a jamanta se enrolava ao monstro mais o monstro obrigava o peixe a fechar a boca. Se não calares a boca rebento-te, disse-lhe um dia. E o peixe foi deixando de dar opiniões: doutros peixes, da cor dos corais, do cheiro das algas verdes, de Neptuno rei de todos, das leis do reino das águas, de tudo.
Mas o peixe continuou a pintar telas com as algas e os corais e nunca se submeteu à vontade do monstro. Boquinha semi-aberta, a segurar os pincéis com os dentinhos, ali ia ele até aos bancos de corais, em busca de sonhos.

Corto o vento, sugo a neblina

Há dias
em que o vento me arranca os cabelos
e o frio me reduz o pensar;
há dias
em que a neblina me confunde a visão,
me põe a mente em turbilhão,
a alma doente
e a pele a tiritar.

Há dias sim
e,
há dias infinitamente mais não.

Há dias que entristecendo-me
até ao mais ínfimo vestígio de vida em mim,
ao mesmo tempo me libertam
dum jugo
que me marca a carne,
e me atrofia o espírito.

O querer?
Não!, ninguém me tira
o querer que forte me sai em lufadas
como um tufão que em mim nasce.
O querer e também a razão.
Quando o querer e a razão me arrepanham as veias,
me esticam os tendões,
me espasmam os músculos
eu corto o vento,
sugo a neblina
e, sigo!

Sigo firme nos trilhos do meu caminho...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pássaro de asas feridas

Tem as asas feridas
o pássaro que tão bem planava.

Um vento contrário soprou-lhe
contra o corpo em suspensão,
frio vento a parecer
de tempestade de granizo
e o pássaro de grande porte
de asas brancas, corpo forte
entrou em desiquilíbrio
e estatelou-se no chão.

As penas pesaram-lhe tanto
com o granizo ensopadas
que já nem asas pareciam.
O pássaro de grande porte,
sem forças e em desnorte,
entrou em doloroso pranto
e até os céus ensurdeciam.
.

Fez então descer as patas
para poder chegar a terra,
mas o pobre pássaro cansado
entrou em queda,
desamparado
e contra um rochedo projectado
ficou com as asas presas.

Tentou depois agitá-las
para poder reerguer-se
mas com asas assaz pesadas,
de sangue e granizo molhadas,
não foi capaz de mexer-se.

Está no alto do rochedo
o pássaro de grande porte!...
Mas um dia, o sol brilhará
 sangue e  água secará
e saindo desse degredo
voltará a ser
pássaro forte...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Contigo

Caiu a geada tão branca e tão fria
e os verdes da horta dobrados e frágeis
fizeram a vénia, ao sol que nascia.
A noite sem ti foi muito mais fria.

As lareiras lá em baixo, na aldeia envelhecida,
pedem que as aqueçam que lhes dêem vida
e aos poucos as casas são ovo a eclodir
e no cimo dos telhados, o fumo começa,
aos poucos, a subir.
O dia contigo tem outro fluir.

O sol ilumina os campos doridos
e os verdes da horta acordam e aos poucos
levantam as vestes, suas veste brancas
deslizam-lhes lágrimas, choram de alegria,
retemperam forças para a noite fria.
Dedilhando teclas, contemplo a paisagem,
e a aldeia deserta já deixa de o ser
e o dia contigo tem menos friagem.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Pequenos nadas numa noite de dezembro


Sibila o vento ao bater contra as colunas de granito. Está fria a noite e, nem sequer o nariz me atrevo a mostrar à escuridão. Quase tirito só de o ouvir.
Olho a fogueira e a chama deambula pelos troncos.Em breve serão consumidos. As fagulhas, verdadeiras batalhas, entrelaçam-se em declaração de guerra aberta. Às vezes ouve-se um estalido. Sempre me intrigaram esses estalidos e, até hoje me interrogo se é efeito da combustão ou se, qualquer verme abrigado nas fibras vegetais da madeira a debater-se pela vida. Inclino-me mais para a primeira, já que o tronco ao arder fica todo ele demasiado quente e qualquer ser lá sucumbiria  rapidamente.
Estou nostálgica e melancólica. Por vezes fico neste estado de alma, sem aparentemente ter razão para isso. Por vezes a escrita ajuda-me a sair, outras nem por isso.
A sala está quente. Na cozinha há outra lareira acesa, esta à moda antiga, sem recuperador e, se por um lado a maior parte do calor se escapa pelo gargalo da chaminé, por outro, é lá que o estalar e as batalhas das fagulhas se tornam mais audíveis.
Poderia parecer óbvio que melhor me sentiria lá, mas não! Hoje sinto uma certa tranquilidade neste cantinho onde me sentei em silêncio que nem sequer é cortado pelos sons da televisão que mantenho religiosamente desligada. Só o vento lá fora me responde com a sua voz, para além de pequenos sons que me vão chegando da fogueira, vindos de drentro do vidro do recuperador.
Aqui estou.
Em breve terei que encher de toros a caldeira, para ardérem noite dentro.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Terra lavrada, meu mar!

                                   
Quando te lavro,
 terra,
 envolves-me em  poesia.

Terra lavrada, és poesia:
 em cada erva daninha
 arrancada do teu ventre,
em cada pedra a rolar
para o sulco,
em cada promessa de fruto,
 em cada aroma de flor
que em ti há-de nascer,
em cada gota de chuva a penetrar,
em cada esperança a medrar.

Quando te lavro renasço,
 porque ao tocar-te sinto
 uma emoção
e, não minto
quando te digo
 que sempre me agrada tocar.
Terra lavrada, meu mar!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Era noite e tanto dia…



Era noite, tanta noite
era noite e o dia vinha.
Vinha o dia em tanta noite,
sempre que o  pavio ardia,
 a incendiar a noite
 com o sol que em nós fervia. 
Fervia-nos tanto a noite
 que até estrelas acendia.

E quando ao pensar que a noite
 já ficava sempre dia,
chegava então o crepúsculo
do calor que em nós descia
e chegava-nos a manhã
orvalhada em nosso corpo,
 no corpo que ainda ardia. 
Depois voltava a ser noite
 num sono que apetecia.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Faço-me mar



Em ti
me fiz ao mar,
ao mar infinito sem ondas,
planalto onde fui ancorar.

Percorri-te
sem nunca te percorrer,
mar imaginado,
na terra que me viu nascer.

Agora que melhor te conheço
e me encantas com o agitado viver
és mar com montanhas
és mar com miragens
até o infinito do meu querer.

Faço-me mar
canoa sou
frágil e ousada
navegante quero ser

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Lançamento do livro "Ls Quatro Eibangeilhos"

Aqui fica o convite para o lançamento do livro Ls Quatro Eibangeilhos, tradução para Mirandês de Amadeu Ferreira.
A obra será apresentada pelo senhor Bispo de Bragança Miranda.
O autor sentir-se-á honrado com a presença de todos quantos queiram assistir ao evento.


Para ler, clique na imagem.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

E eu

Repara como a grama
me prende!

Solta-a!
Uma haste que seja
Daquelas que se agarram à carne
E me comem a seiva.

E eu que me julgava
Capaz de voar
Sucumbo
Na fraqueza dos ramos
Na indecisão do querer
No medo do levantar.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

...São terra

Sou terra!
Daquela que pede mãos,
arenosa, fofa,
como que trazida
duma praia, no meu mar
esse mar
que tanta falta faz,
à terra com que me fiz.

Eu sou terra,
sou mãos,
sou água salgada.
Por vezes,
sou nada!

É com as mãos
que te remexo
e delas faço arado
enxada, caneta, pincel,
beijos,
e, é com as mãos
que te esculpo
fazendo delas cinzel.

E quando as mãos
acariciaram a terra
enterrando em seu ventre
a esperança  
dum verão
com sabor a morango,
os meus olhos já viam
a terra
pintada de verde
e o vermelho ao lume
na panela, brando.

As minhas mãos são terra,
são água a regá-la
e,  são também morango! 

domingo, 6 de novembro de 2011

Por entre os raios de sol


Passeio por entre os raios de sol à medida que eles me deixam espaço  por entre as gotículas de geada, descongeladas à pressa para o sol saciar a sede, pela manhã.
O colchão rubro e amarelo acaricia os meus passos e, o dia entra por mim adentro arrancando de mim a tristeza acumulada dos dias pardacentos.
No alto, lá no cimo do monte onde o céu me chega mais nítido, mais azul, mais brilhante e o sol  me escurece  as lentes progressivas,  eu vejo o mundo, o mundo que achava meu na infância e o único mundo que conhecia. Agora, com os óculos que escurecem na proporção da intensidade do brilho, para que os meus olhos não se envergonhem e os pés de galinha não formem sulcos, o meu mundo é outro, bem maior, mas é também  este o meu mundo e, quando subo ao monte, o mundo maior cabe neste meu mundo do tamanho de um círculo com poucos quilómetros de raio.
Lavei as dores dos últimos dias sem sol; lavei-as com as gotinhas que se formam no chão à medida que a geada se espreguiça, se recolhe por entre os fenos secos que restaram do verão quente e o veludo da erva que está nascendo após as chuvas da sementeira.
Lavei o olhar nas cores acres e rubras do planalto. Fixando melhor o olhar, consigo retirar pequenas manchas castanhas e verdes,  discretamente  verde,  e, comecei a sonhar com as searas ondulantes na Semana Santa, salpicadas de papoilas em Junho e de oiro sob o calor do coração do verão.
Lavei a alma e o coração. Lavei-os neste cenário que se me abre em leque duplo completamente aberto.  Aquela, tornou-se leve; este, reaprendeu a bater compassadamente, ao ritmo certo, com a pressão adequada, fazendo correr no corpo, a força que baste a cada circunstância.
Em pequenos goles, fui sorvendo o meu mundo, redondo, doce, e fui-o petiscando migalha a migalha, o mais lentamente possível, para que dele as papilas gustativas retirem um sabor  mais intenso e requintado.

sábado, 5 de novembro de 2011

Porquê?

Porque me lanço eu
na masmorra dos degredos
e a caneta me leva
para um silêncio de morte!?

Porquê?

Porquê que em vez de me perguntares
porque deixo a folha branca
em cima da mesa
não me pegas na mão
para que esta mão não me faça
morrer de solidão!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Nada vejo

Espraio o olhar nas folhas cansadas
nos matagais dum outono
e
em ondas flamejantes
me lanço
esbracejando nas cristas
dum mar em mim
de ocres pintados.

Espraia-se o olhar da floresta
nos meus olhos cansados
e de folhas soltas se forma
o colchão onde deito
os sonhos despertos
indiferentes à cor das pinceladas
com que vou pintando o meu corpo.

Espraia-se o olhar
nos horizontes onde um dia me quedei
e...
nada vejo.

Doem-me



Doem-me as folhas
A desprenderem-se dos galhos
Nestes dias de chuva.

O sol passa entre as nuvens
Alumia  o sofrer dos ramos
Exibindo a lingerie
Numa quase nudez de corpo.

O vento abana  a dignidade
Aos pedúnculos
Das folhas onde já só corre
Um fiozinho de paixão.

I assim abanam, abanam
Fixando os seus dedos
Aos frágeis sonhos
Que vão resguardando.

Giadas  hão-de chegar
Para com elas levar
O calor da cinza
Que lhe vai chegando.

Dói-me a primavera
Teimosa
Que não se encosta
Aos galhos que se vão amofecendo…

Tempos houve
Em que as florestas
Cantavam cantigas
Aos dançares dos rebentos.

Doem-me as cantigas
A mandarem caminhar
Por caminhos que se vão enlameando…

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O quente da cinza

Sinto mais frio
se não te sinto por perto.

Enrolada nas ausências
duma lareira mortiça,
remexo
à procura do que resta
das brasas de que foi feita,
e,
no rescaldo da fogueira
procuro o quente da cinza.

Não me tem apetecido

Há muito que não escrevia.
Coisas há que espicaçam e compelem os dedos a escrever, outras, nos petrificam, como se a força dos  dedos se tivesse transformado em mármore fria e os tornasse incapazes de um gesto ousado; a mente não passa de um monte de torpor, lixo deixado à beira da berma, carregado de fumo dos escapes.
Foi assim que fiquei, sem fôlego e em estado de choque depois de ter ouvido as medidas para equilibrar as finanças,  debitadas pelo primeiro ministro deste país combalido.

Porquê sempre nós, a classe média quase extinta? Porquê nós baixo/remediados, a viver de ordenados apertados, de reformas ratadas, nós que vivemos o pão nosso de cada dia, nós que nunca fomos capazes de amealhar nos bancos nacionais e muito menos em paraísos distantes, porque aquilo que nos pagavam era a medida certa para uma vida regrada. Nós que não roubámos nem ao Estado nem aos particulares, nós que não ganhámos com cirurgias desnecessárias feitas para aumentar o pecúlio nem fizemos  crianças nascer cirurgicamente se a mãe os pudesse parir pelo processo natural, nós que não recebemos comissões de negociatas, nós que não especulámos, nós que não entrámos em negócios sujos nem lavámos dinheiros dos mesmos. Nós, nós, nós...
Sempre o funcionário público, como se ele fosse o causador do estado deplorável em que o País caiu pelo desgoverno de governantes sucessivos.


Rais ma parta se me apetece escrever! Não apetece mesmo, nem a ponta dum corno... É com se me tivessem dado uma chicotada nos dedos e um golpe certeiro no coração e depois a minha alma de tão assombrada já não me ditasse poesia.
Na verdade, tudo o que se tem passado me aflige, não porque o trabalho me assuste, a fome me atormente. O que me atormenta, é que estas mãos já não me parecem as minhas mãos, o corpo já me doi com o puxar da agulha da costura e do tricot, com o peso da enxada e, as pernas já por vezes não me levam a colher a castanha que pinga no souto distante, e os braços me doem quando tento branquear os lençóis.

Eu sei que são os estados de crise que mais levam as pessoas a escrever, mas a mim não me tem apetecido...
Juro que não!!!!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ruga la Lhéngua Mirandesa




Mais ua ruga cun l nome la Lhéngua Mirandesa. Einouguremos-la onte an Palmela, nun bárrio de casas nuobas dua fraguesie nas fraldas de l monte adonde l castielho se chube cielo arriba mirando l mar i la sierra de l´ Arrábida i la cidade se ancarrapita pulas rugas cada béç mais yegres i cun suolo sgúbio de tantas pisagadas.
La nuossa ruga stá serena an suolo praino, antre pinhos i sobreiros. Stende-se tan feliç, cumo se stubira na tierra adonde la Lhéngua botou raízes i se fizo giente por sieclos afuora, l sou Praino, cumo se stubira acerca ls sobreiros de l Cabeço de la Trindade.
Há-de resfolgar aire puro cun ls pulmones chenos, há-de cuntar ls anhos ne ls tuoros de ls sobreiros, há-de ber la cortiça a angordar, há-de oubir las machadas quando ls dies se l cúmpran, há-de mandar ls ninos que alhá jóguen a la bola ó ánden de bicicleta para casa, nó cun las Trindades porque ls telemóbles se apréssian a tocar ls tagalhicos para l sou chequeiro, tagalhicos zanquietos cun cundiçones para bolar an cielo sien fumos i para resfolgar aire fresco de pinhos.
Há-des, ruga nubica,…prouísta,  há-des ber nacer casas nuobas, famílhias jobenes an sou nial de suonhos.  Cun l nome grabado na tabuleta d´azuleijos cun cercadura amarielha, há-des ber l tou cuorpo tapado cun alcatron nuobo an fuolha, há-des apuis ambelhecer dezindo adius a giente , a pinhos i a sobreiros i, acenhendo a quien passa, há-des dezir que an Pertual hai outra lhéngua, l mirandés, tamien oufecial i de l mesmo tiempo.

Eilha alhá stará siempre, faga sol ó chuoba, deitada  a mirar l cielo, seia primabera ó berano, an nuites scuras ó strelhadas,  siempre a spera de dar las buonas benidas a quien chega.

Nós stubímos alhá nun die de outonho, a ceçar cun la calor cumo se fura berano. Oubimos la gaita, bimos beilar ls dançadores cun sues bestimientas de borel i lhenços floridos, pies cumpassiados, palos ciertos cun la música, cumo na qualquiera ruga de las sues aldés, a pedir pals santos de fin de berano.
La tabuleta,  apuis que l çtapórun la cara, mirou para nós i, oubindo-mos falar an mirandés, sentiu-se an sue casa,  marco a dar nome aqueilha ruga. Al fin, dou-le ua risica i la ruga sentiu-se  berdadeiramente la Ruga la Léngua Mirandesa.





Em homenagem à rua, escrevi este texto, unicamente em mirandês.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

NADA MAIS INTERESSA



 Nada mais interessa
Ao tempo
Quando as folhas lhe caem suaves
Melodias na pele descendo
Carícias de Outono sábio
Trazidas por doce vento

Nada mais interessa
Ao olhar
Quando o caminhar
Se faz contra o nevoeiro
E mais adiante o sol se ergue
Brilhando o arvalho nas silveiras


Nada mais interessa
Ao coração sedento
Quando se abre numa fonte
Dum sopro aparta o limo
Da água a mostrar-se límpida
E em pequenos goles bebe

Nada mais interessa…

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Boas vindas


Bateu-me à porta de mansinho como quem não me quer acordar mas ainda assim, não quer deixar de me ver. Vinha radiante, com um brilho muito especial no olhar.
Esfreguei os olhos, estiquei os braços bem para cima e saltei da cama.
As esplanadas estão cheias de gente, gente que toma um refresco enquanto seca o fato de banho, gente que simplesmente quer apanhar sol enquanto lê um livro eleito para aeste verão, em qualquer esplanada de café.
Os freixos dos jardins, esses coitados tentam segurar as últimas folhas, a todo o custo as seguram, na esperança de retardar o sopro de ar frio a passar-lhe no corpo nú.  No centro da avenida, as árvores continuam verdes e esvoaçantes. No jardim lá ao fundo, o ocre e o amarelo predominam, iluminados por uma luz que a cada passo lhes faz fechar os olhos e virarem-se para o lado norte, com medo de ficarem demasiado tostadas.
Chegou-me o cheiro a mosto nos cantares saídos da televisão  que me lembraram as vindimas, chegou-me  o perfume das maçãs  colhidas em cestas de vime e espalhadas no chão da velha casa, sobre as tábuas largas de madeira. Chegou-me o sabor das compotas, a lembrança dos licores a macerar na despensa para ser feito no Natal e enfrascado a preceito, em frascos de vidro transparente.
Calcei uns sapatos rasos de pele fina, vesti umas calças de licra e uma túnica de algodão, daquelas que me serviam de vestido  na altura em que ia à praia.  
Tomei o pequeno-almoço no terraço e ao fim bebi o café que não dispenso pela manhã. Peguei na trela e, depressa a minha cadela percebeu que íamos dar uma bela caminhada.
Bem vindo Outono!!!

domingo, 25 de setembro de 2011

Com lágrimas mais salgadas e folhas mais ocres


É o começo do Outono, também o meu Outono,
 quando as folhas se me vão aninhando no regaço,
a pele se vai tornando mais fina, e,
 perdida a textura de seda lisa
 vai sendo engomada por aprendiz,
com vincos onde não devia.

Foi neste Outono soalheiro que te vi,
te conheci,
 tu que foste a princesa que eu não pude ser,
por causa da imensidão dum mar,
e do barco onde não me deixaram embarcar.

E assim cresci,
 como pude crescer,
 na medida em que os trabalhos de menina
 me deixaram ser,
quiçá menos menina.

Muitas vezes me questiono que pessoa seria
 noutro sítio que desconheço,
 onde os vales seriam diferentes do vale do Molinico
que me fez verter lágrimas
enclausuradas entre dois montes
e,
sem o ar que me bastasse.

Sabes?
Senti uma ponta de ciúme e de inveja,
quando me disseste que o  adoravas,
por ser doce e lindo, lindo
e te chamava princesinha.

Como eu gostava de ter sido princesa,
também eu princesa
naqueles olhos vivos cor de café!

As folhas vão-se-me soltando nesta manhã
e as lágrimas vão-me caindo peito abaixo
e molham o colchão ocre
que se aninha no meu regaço!

Agora
Já não posso ouvi-lo
E é por isso que as lágrimas me são mais salgadas
E as folhas mais ocres…

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mergulhando num abismo

Esta noite
vi que te esvaías em sofrimento
e eu
nada podia

De noite
na escuridão
quiz te tocar
com um dedo que fosse

O dedo não cresceu
a espessura dum cabelo
e esse cabelo seria o bastante

Lanço um grito que sai mudo
tento correr
tento voar

Mas ah!
pernas inertes
asas presas
para que vos quero eu!?

Porque será que o meu sono
em vez de  descanso
me faz mergulhar num abismo!?

Felizmente o sol
abriu-me a cortina
e
num instante em pestanejos
abri os olhos em bocejo
e foi mais um dia
a nascer
e uma noite que termina

No mar sereno

Talvez  to diga um dia
ou talvez não.
Olhei nos teus olhos
e vi-me no reflexo
dum mar sereno.
Lá fiquei a navegar
sem canoa
nem remos
sem cristas de ondas
nem murmúrios
para te balbuciar

Uma lágrima desperdiçada

Deslizou-me uma lágrima
peregrina
sozinha
uma lágrima a menos
dentro de mim
uma lágrima gasta
por imprópria razão.
Não gastarei mais lágrimas
por qualquer desilusão!

Limpei-a
do rosto queimado
pelo sal em cristais
e
no lenço de seda
com que a limpei
lancei-o ao vento
para não mais a ver.
Não mais verei a lágrima
de desilusão, de sofrer!




Hei-de tê-las no rosto
de riso, de alegria
e com elas orvalhar
os lábios e o peito
e
com o lenço na mão
ensopado de lágrimas
limparei a minha alma
e o meu coração.
Não mais chorarei lágrimas
de desilusão!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

No vazio


Sinto-te aqui  neste dia
Nesta hora, neste beijo
Que me sobra
Neste lençol onde a dobra
Não se desdobra
Nem a cama se desmancha
Nem se vinca
Nem desvinca
O travesseiro à espera
Desespera
E os meus braços abraçam
A cama vazia... 

domingo, 4 de setembro de 2011

Gostava...

Gostava que me viesses visitar logo pela manhã e me trouxesses um ramos de flores orvalhadas, colhidas numa horta, multicolores, crescidas ao lado dos feijoeiros e das cebolas, misturando o seu perfume com o odor forte dos tomateiros.

Sabes?!... há hortelões que são poetas e amantes do belo. E há-os também pintores.
Pintam as suas hortas como quem pinta telas em nuances frescas e coloridas. Num lado o verde esvoaçante e vivo dos feijoeiros de hastes altas, depois, um verde sépia das cebolas e das beringelas, logo a seguir, imponente, o verde escuro dos pimenteiros. Na ponta, espraia-se o verde das aboboreiras matizadas de flores amarelas, onde as abelhas laboram intensamente, e,  numa ponta qualquer, florescem cécias, flores que aqui são conhecidas por marianas.

Tal como nas hortas dos pintores, também há flores nas hortas dos poetas, só que, nestas, os legumes dançam, esvoaçam, como se fossem letras à procura da sua palavra, da sua estrofe, do seu poema. Bailam em bicos de pés para não apertarem a terra acabada de regar e para não sujarem o poema.

Gostava que passasses logo de manhã pelas hortas dos poetas e nelas colhesses um punhado de poesia.
A mim, presenteia-me com as flores orvalhadas.
A poesia, vai-a espalhando pelas aldeias, em acenares, em boas tardes, em sorrisos. É que, há hotelões nas aldeias, onde a poesia deixou de sersentida, há muito!...É que, os caminhos até à horta,  têm um piso incerto, e, os hortelões-poetas deixaram de lhes sentir a poesia dos passos firmes com que escreviam os caminhos.

domingo, 28 de agosto de 2011

Num aroma picante de gengibre

Se quiseres sentir o pulsar do meu coração e o aroma que todas as manhãs ponho na pele, em salpicos picantes de colónia de gengibre; se quiseres sentir as cores quentes a incendiar-me o rosto, vindas dum pôr de sol de fogo, segue o meu olhar...
São as cores do sol poente que me cativam, que me enlouquecem e me obrigam a partir desnuda para o outro lado do universo. Uma brisa tapa-me o corpo com lingerie de seda que tapa destapando, tapa desnudando e excitando os olhos famintos saltitando na ponta dos dedos.
Espraio o olhar sobre os cabeços a reflectirem as suas silhuetas na noite, neste planalto dourado, dunas dum mar que imagino lá longe noutro hemisfério, acácias flamejantes a reflectirem-se em espelho d´água, nuvens brancas de flamingos num voo matinal, despertos com a fragância do meu olhar.
Assim parto,… para lá das dunas, cabeços onde o planalto acaba, por lhe terem crescido seios pontiagudos, faróis na linha do horizonte...

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A Mourisca

Olhavam-se no fundo dos olhos

O terror chamava-se mourisca
uma vitela amarelada e atrevida
com quem uma menina de 6 anos
 media forças com a vida

Era de aguilhada em punho
que respondia a perseguições desatinadas
por caminhos e cerrados
a pequenita assustada
 passou a ser mourisca também

Trazia na alma o desejo de voar
caldeado ao colo da mãe
terras de mouros eram o seu sonho
e o desejo fez-se cor e vida
quando se abriram os braços do pai

Hoje a aguilhada é o bico da caneta
que verte a intensidade das emoções
É o pincel que tranforma lágrimas em tons
e  solta a rebeldia,  a força e a doçura
de mourisca do planalto

Teresa Almeida 20-08-2011

Um caminhar

Do cansaço da corrida
duma vida sempre à pressa
ficou-me
um caminhar sereno
sem horas pr´à  meta
nem  tiro
para a partida

Aroma de um olhar

Passa levemente a mão pelo rosto
não para o limpares
mas antes vincares
o aroma que te ficou
do último olhar

Abre as mãos

Abre as mãos
para que eu possa depositar
o que não quero perder

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Muito mais que palavras



Deixaste-me palavras espalhadas no ar
Que me vestem e acalentam
Quando o vento canta manso.
Beijos soltos me ficaram
Ao de leve sobre a cútis
Perfumados com lavanda.
Formei frases com as palavras
A poisarem sobre o ventre
Pulsando em saudade
Arfando em suspiros quentes.
Deixaste-me palavras
Nem sei se por esquecimento
Se para te manteres presente.
Que me importa a razão
Se de qualquer modo essas palavras
São muito mais que palavras!



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

lembra-te de mim

Lembra-te de mim
Quando a sombra que me segue
Se faz esguia
Num pôr do sol em Agosto
Seguido por olhos sedentos
Doutro e mais outro dia.

Lembra-te de mim
Quando a voz me enrouquece
Com o timbre do preso vento
E as cordas se me apertam
Com as palavras que calo
Como quem cala lamentos.

Lembra-te de mim
Quando não escrevo o que escrevo
Quando não digo o que penso
Para não dizer o que sinto
Ó céus quantas vezes minto
E tantas outras me arrependo.

Lembra-te de mim
Nos olhares da lua cheia
No frágil quarto minguante
Na pujança do crescente
Ou na nova em que me escondo
E sem me veres sigo diante.

Lembra-te de mim
Se a memória to lembrar...


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Exposição de Pintura em Sendim.

A exposição de pintura, Sons do Silêncio, treze quadros que vos convidam a entrar por eles dentro para descobrirem os vossos sons dos vossos próprios silêncios, está patente ao público na Casa da Cultura de Sendim até dia 21 de Agosto, das 14 às 18 e das 20 às 23 horas.
As fotos são da inauguração, dia 5 de Agosto.


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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Exposição de Pintura em Sendim

Bai a ser einougurada die 5 de Agosto, pulas seis de la tarde
i bai a a quedar até die 21 de l mesmo més.

sábado, 30 de julho de 2011

De mãe

Semeei-te em terra
para em terra medrares
reguei-te da fonte
para não secares.
Cresceste depressa
depressa floriste
foste-te depressa
mas sempre vieste.

Semeei-te em terra
forte te fizeste

Arranquei-te as ervas:
Cherinchos, ervas mouras
baldruegas, grama
paridas pela terra
tão bem amanhada
pois não faltam ervas
em terra estrumada.

Arranquei-te as ervas
sem te doer nada

Semeei-te em carinho
para te tirar o medo
em beijos e abraços
para que não tiritasses
apertaste os laços
segurando a colheita
pois que ninguém dará
o que não retenha.

Semeei-te em carinho
para que dentro te venha




Em Mirandês, o original

Acubri-te an tierra
Para an tierra medrares
Reguei-te de la fuonte
Para nun te secares
Medreste debrebe
Debrebe floriste
Fuste-te debrebe
Mas siempre beniste

Acubri-te na tierra
Fuorte te faziste

Arranquei-te las yerbas:
Cherinchos, yerbas mouras
Berdulagas, grama
Paridas pula tierra
Tan bien amanhada
Puis nun fáltan yerbas
Na tierra strecada

Arranquei-te las yerbas
Sien te doler nada

Acubri-te an carino
Para te tirar l miedo
An beisos i abraços
Para que nun tritasses
Aperteste ls lhaços
Agarrando la cemba
Puis que naide dará
L que ne l peito nun tenga

Acubri-te an carino
Para que de drento te benga!


Screbido die 26, die de ls anhos de l miu filho mais nuobo, Rui.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

E eu à nora, à procura da palavra

Rodeiam-me como que a obrigar-me a permanecer naquela sala simples onde a mesa é decorada por um computador e uma pedra esférica a servir de pisa papéis onde pintei um búzio, para homenagear e lembrar o mar onde ele cresceu e eu respirei ar fresco.
Olha para mim como se estivesse vivo, num desafio constante de me levar novamente às ondas. Olha para mim como que a suplicar-me que o deixe partir e, que vá com ele para o seu mundo, para o fundo do seu berço fresco. Respondo-lhe que ficará para depois, uns meses depois, quem sabe se Maio ou Agosto, quando os meus dedos se cansarem de amaciar as teclas, quando os meus ouvidos ensurdecerem com as conversas dos que à minha volta se sentam, me acotovelam, sempre com a ânsia de lhe dar a deixa, eu a servir de ponto quando se esquecem da palavra que deveria vir a seguir, naquele teatro de personagens abstratas a passearem pelas tábuas da minha salinha humilde.
Um pisa papéis sem papéis para pisar. Detesto papéis! Bendita era dos computadores que me retirou o papel, o pó velho a entupir-me as narinas, a fazer-me espirrar a cada tentativa de lhe dar alguma organização. Bendito teclado onde os meus dedos são bailarinas com vestidos de tules ondulantes e sabrinas brancas com atilhos de cetim.
Gosto do búzio sem papéis. Tem um porte digno e, quando me olha nos olhos, traz-me a frescura do iodo expirado por um oceano verde.
De igual modo, gosto do par de namorados abraçados na paixão dos seus corpos jovens, gestos apressados para se banharem em rios de lava e permanecerem num só corpo. Pintei-os, quando não fui capaz de os escrever com a caneta de tinta permanente a esborratar os seus corpos quentes. Ali estão em frente. Às vezes vejo-os a despirem-se com gestos apressados, outras vezes já mais além, em gemidos, numa cúpula sem tempo, de orgasmos múltiplos até à exaustão.
Gosto do búzio e do par apaixonado por não me ditarem regras, as regras foram minhas quando os criei e continuam a ser minhas, enquanto quiser.
Os outros, todos eles me rodeiam, me acotovelam, me ralham, me asfixiam e me interrompem e deixam sem a palavra certa, num desânimo de vencida nos destroços de uma batalha.
Não escrevas essa palavra, diz-me uma das actrizes! Não é essa a que expressa o meu sentimento genuíno. E eu à nora, à procura da palavra...
Essas palavras nunca foram por mim proferidas, não reflectem o meu estado de alma, diz-me aquele imbecil, meio mulher, meio sereia, sentado na minha perna direita.
Deixa-me em paz! Lá tu te lembras da tua história carregada de pó de arroz!Pois tu não vês que me tiras toda a expontaneidade!?
E eu que os ature! Uma cambada em busca de protagonismo no romance.
Depois, há outro, não menos imbecil do que outros todos juntos, um actor que quer representar o meu papel, a entrar sempre mais e mais pelos meus sentimentos, a desnudar-me ainda mais que desnudo está o par de namorados pintado no quadro e dependurado à minha frente...
E eu à nora!!!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Grama

Não me peças para ir
Ainda que por vias de cera!
O meu lugar é aqui

Não me peças para ficar
Num berço que não é meu!
O meu lugar é ali

Um alqueire para berço
Uma eira a prometer grão
Uma enxerga de palha
De suor, o pão

Não forces a grama
A soltar-se da terra!
Dividida, mais se agarra

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Há-de rir-se, o poema!

Transbordaram
os olhos e o peito
e,
nem por isso
o rio sentiu
a água a descer no leito

A alma sentiu-se vazia
e,
a vida menos vida
neste dia
em que a poesia se assoma
como que saída dum coma
cansada
triste
dorida

Outro dia virá
para de flores e risos
encher o poema
ou enfim
um momento chegue, quiçá
para que ele ria
e me empurre
para fora de mim

Deixaste-me poesia

Deixaste-me poesia
em versos que não escreveste
mas que leio
em cada galho
em cada folha de cerejeira
em cada pedra
em cada ave
em cada sombra de embondeiro
em cada sorriso de luar
em cada vereda de poeira
em cada fio
de cabelo a pratear

Deixaste-me poesia
em cada traço vincado
nas rimas soltas
duma antologia
repleta de aventuras
de esperanças
mas também desventuras
duma vida

Deixaste-me poesia
nos poros a transbordar
para em meus versos lançar
os versos que te pedia
nascidos nos poemas
duma alma peregrina
e uma mão que não os escrevia

Deixaste-me poesia
em cada canto
em cada sulco
deste peito a transbordar
duma saudade infinita

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Metade de mim

Que o sol me aqueça
para que no inverno não morra
do frio cortante a imobilizar os meus passos
Porque metade mim é vulcão
outra metade é cansaço

Que a noite me seja dia
na luz que me falta
nos dias mais escuros
e que o brilho das estrelas me oriente
quando me perco em becos inseguros.
Porque metade de mim é lua cheia
outra metade é penumbra.

Que a calçada me conte os passos inúteis
e me mostre o caminho dos passos certeiros
Porque metade de mim é no chão
outra metade é algures...
Não sei, não!

Que as lembranças de um dia
me aqueçam as noites
me lembrem o que fui
e o que um dia quiz ser
Porque metade de mim eu conheço
outra metade nunca irei conhecer.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Nem sempre

Nem sempre o mar sugará os sonhos
Nem sempre a escuridão tragará o dia.
Lancemos os sonhos ao largo
Até que a vista não alcance!
Serão canoas a dançar nas ondas
Serão luas, serão vento
Num vaivém de marés.
Pintemos a escuridão
Com as cores da aurora clara
Prenúncio de um dia quente!
Soltemos os pássaros aprisionados
Que nos povoam a alma!
Seremos brisas, seremos vento
Num vaivém de amanheceres.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Bebendo a brisa do entardecer

...


Se ao menos pudesses ouvir o canto dos suspiros
De ansiedade para ancorar no cais
Se ao menos as tuas mãos sentissem a minhas
Doridas as minhas mãos, agonizando em ais

Se ao menos tu sentisses os abraços
Guardados no silêncio dum refúgio
Se ao menos os teus passos
Seguíssem os meus passos
Sem desculpa de cansaço ou subterfúgio

Se ao menos veredas eu pudesse inventar
Para os espinhos não cortarem as palavras
Se ao menos eu pudesse segurar
O orvalho de frescas madrugadas
Deglutido por um outono a ameaçar
As mãos
Os braços
O cais em derrocadas

Se ao menos eu soubesse beber
Sorvendo
Na despedida dum sol que sempre volta
A brisa leve do entardecer...

sábado, 7 de maio de 2011

De Clarice Linspector- O português é belo

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...
------------------------------------------
Sintam a genialidade da poetisa, Leiam o poema de cima a baixo e de baixo a cima.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Eis que camões...

Eis que Camões se levantou da campa
E ao país Luso ele enfim chegou
Desiludido por ver tanta trampa
Em vez dos feitos que tão bem cantou
A história que fazeis ao mundo desencanta
Disse com emoção na voz que se lh´embargou
Vou refazer meus versos com a minha mão
Por ver o resultado da vil transformação.


Adelaide Monteiro


(Não sei quem é o autor dos versos que se seguem, mas não resisto e vou publicá-los)



As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo aquilo que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!
II
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!
III
Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que"ainda andarem à solta, só me espanta.
IV
E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!

E mais outro: Um poema da "mente", só/mente!
POEMA da "MENTE"...

Há um Ministro que mente...
Mente de corpo e alma, completa/mente.
E mente de modo tão pungente
Que a gente acha que ele mente, sincera/mente.
Mas mente, sobretudo, impune/mente...
Indecente/mente.
E mente tão habitual/mente, tão hábil/mente,
Que acha que, história afora, enquanto mente,
Nos vai enganar eterna/mente.

sábado, 30 de abril de 2011

Este céu








Hoje
Pesa-me o céu no meu peito
Dum cinzento que me abate
Porquê que às vezes o céu
Se me envolve que nem véu
Toque de sinos a rebate
Dum sonho que foi desfeito.

Ontem
Vi-o leve, nem sabes quanto
Desse céu que aquece e acalma
Encheu-me de luz, de ternura
Do corpo tirou a desventura
Apagou a tristeza da alma
Um céu bebedor de pranto.

Amanhã
Será azul forte ou claro
Cerúleo ou azul indigo
Um céu a forçar-me à luta
À força, à esperança, à labuta
Sempre terno, sempre amigo
Um céu companheiro amado.

Este céu onde me evado
Onde sonho, onde me elevo
Onde de manhã me lavo.








quinta-feira, 28 de abril de 2011

Com Manuel Alegre

Bendita sejas tu porque mulher
bendita sejas não porque te dás
mas porque o teu prazer é o meu prazer
e só no teu prazer encontro paz.


Correrão muitos rios mas o teu
é o que me leva às águas do baptismo
contigo em cada orgasmo eu subo ao céu
noite a noite contigo eu vejo o abismo.


Corre o Jordão e o Tigre os rios correm
contigo em cada orgasmo eu me baptismo
contigo noite a noite a dor e o riso.


Nas curvas do teu corpo os diabos morrem
bendita sejas tu porque me levas
onde a luz do prazer nasce das trevas.






Gostava de morar na tua pele
Desintegrar-me em ti e reintegrar-me
Não este exílio escrito no papel
Por não poder ser carne em tua carne.


Gostava de fazer o que tu queres
Ser alma em tua alma em um só corpo
Não o perto e o distante entre dois seres
Não este haver sempre um e sempre o outro.


Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
Tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
Seremos sempre dois sendo só um.


Por isso esta ferida que faz bem
Este prazer que dói como outro algum
E este estar-se tão dentro e sempre aquém.



Eu não sei se me salvo ou se me perco
Ou se és tu que te perdes e me salvas
Só sei que me redimo quando peco
E corpo a corpo ao céu vão nossas almas.



Manuel Alegre
Sete Sonetos e Um Quarto
Desenhos de João Cutileiro
Dom Quixote, Lx, 2005

quinta-feira, 21 de abril de 2011

“Sonidos de l Silenço” para çcubrir an Miranda anté l fin de maio

Salido ne l Jornal Nordeste l die 19 de Abril



“Sonidos de l Silenço” ye l títalo de la sposiçon de pintura que abriu l atrasado die 8 de Abril i bai a star anté l fin de Maio na Biblioteca Munecipal de Miranda de l Douro. Son arrimado a ua dezena i meia de quadros de Adelaide Monteiro, artista mirandesa nacida na Speciosa, que para alhá de pintora tamien ye poetisa, habendo publicado yá l sou purmeiro lhibro de poesie, “Antre Monas i Sbolácios”, an mirandés, la sue purmeira lhéngua.
Fui un gusto oubir a Adelaide Monteiro a apersentar ls sous quadros a las trés dezenas de pessonas persentes naquel spácio nobre de la cidade i a cumbidar todo mundo a çcubrir ls sonidos que cad’un quejir na sue obra, lhembrando que hai sonidos que solo podemos oubir ne l silenço. Para alhá de las rebelaçones subre algua de la simbelogie persente ne l quadros, l que regala l’alma ye sentir l antusiasmo i la paixon que reçuma de l sou çcurso subre ls sous quadros i l ato de pintar.
“Ye alegórica i romántica esta pintura, talbeç mais sonhadora que bisionária, chena de símbolos i referéncias a la mulhier i a ua tierra. Uas bezes porbocadora, a abanar cumbençones sociales, outras serena i nostálgica…” ye cumo Amadeu Ferreira mos apersenta la obra de Adelaide Monteiro ne l catálogo que acumpanha la sposiçon.
Anabela Torrão, bariadora de la Cultura de la Cámara de Miranda de l Douro, dixo-mos star mui cuntenta por tener l perbileijo de poder oufrecer als mirandeses registros culturales de eilebada culidade, an special estes protagonizados por filhas de la tierra, más inda quando yá stan treminadas feturas sposiçones de las obras de Balbina Mendes i de Fernando Nobre, outros eilustres artistas mirandeses.
Merece ua felicitaçon la Cámara Munecipal, por apostar ne ls mirandeses i queremos deixar eiqui ls parabienes i l nuosso muito oubrigado a Adelaide Monteiro, por alhebantar tan alto la proua de ls mirandeses. Feliç tierra que filhas destas ten.

Alfredo Cameirão

terça-feira, 19 de abril de 2011

Os meus versos

Vendi os meus versos
Ao desbarato
Numa feira, em promoção.
Leiloei-os
Mas entreguei-os
Na primeira licitação.
Agora sinto pena
Paridos com tanta dor
Estão já cheios de bolor
Traça e pó
Para serem vendidos
Como antiguidade
E terem algum valor.
Mal sabe o feirante
Como eles são irreverentes…
Irão sacudir a poeira
E livrar-se do bolor
De novo as rimas farão
E a fugir gritarão
Adeus!
Vamos embora da feira!

sábado, 16 de abril de 2011

Da minha exposição de pintura, " Sons do Silêncio"






A inauguração foi no dia oito de Abril, na Biblioteca Municipal de Miranda do Douro, na companhia de alguns amigos e da minha família.A Câmra serviu um "porto de honra" e a saborosíssima bola doce, típica da região. Poderá ser visitada até 30 de Maio.
Durante o Festival Intercéltico e até fins de Agosto, estará em Sendim.


Adelaide Monteiro é professora aposentada, da área de contabilidade e gestão, nascida em Especiosa [1949], Miranda do Douro.
À escrita e à pintura, o escape das tensões da vida citadina, paixões sem as quais já não é ela mesma, dedica-lhes o principal do seu tempo, passado entre a sua Especiosa natal e Sintra, fontes por onde jorra a sua alma insatisfeita.
Em 2010 editou o seu primeiro livro de poesia, Antre Monas i Sbolácios, escrito em Mirandês, a sua primeira língua.
Sons do Silêncio é o tema da pintura que agora apresenta, tema tão abstracto, quanto poético, nascido em cenários de viagens de sonho às suas raízes, ao seu mundo, real ou imaginário, convidando o espectador a procurar nas nuances e traços das suas pinceladas, os sons que só do silêncio podem nascer.





Texto do catálogo, escrito por Amadeu Ferreira



Sons do silêncio

Pode parecer estranho o título desta exposição – Sons do silêncio – mas ele abre-nos a porta certa para os caminhos por onde segue a pintura de Adelaide Monteiro. Nada percebo de técnicas de pintura, aqui saltando entre a espessura do traço nervoso e a leveza suave das transparências, e a pintora sabia isso quando me convidou para escrever umas palavras sobre esta exposição. Por isso, seguirei os olhos, aqui dando nota do seu espanto, das suas perguntas e das paisagens onde me levarem estes miradouros de Adelaide Monteiro.
É esta uma pintura sem rostos, mas de ideias, de sons, de um convocar os sentidos muito além da pele, poesia sem palavras, misturada nos sons que se elevam do silêncio das cores e das formas. Rostos para quê, se é uma representação onírica do real que vem ter connosco? É alegórica e romântica esta pintura, talvez mais sonhadora que visionária, repleta de simbolos e de referências à mulher e a uma terra. Por vezes provocadora, a mexer com convenções sociais, outras calma e nostálgica, mas que não há muito tempo levou a censura a mostrar o seu rosto tirânico, inculto e insensivel. AS mulheres de Adelaide Monteiro ora nos aparecem a saltar do seu corpo nu e apaixonado, ora transformadas em símbolos, feitas viola ou violoncelo, cântaro ou a imprevisível alquitara, grávida de uma aldeia branca, nevada, virgem de passos, mulheres que tanto gritam o seu erotismo, pura sedução de romã em convite grão a grão, como acolhem em seu calmo colo maternal, ou desaparecem em puro voo, muito para além de mãos e olhos, por céus onde possam ser ultrapassados todos os limites.
As imagens que Adelaide pinta apenas querem ser a porta para outros mundos, um modo de materializar ideias, sons, sentidos, sentimentos, tudo puramente imaterial, que não se deixa agarrar pelos pincéis, mas pode voar pelas cores, indecisas estas entre o escuro da dureza da vida e os brancos transparentes e azuis de luz e de futuro. Tudo isso se concretiza por vezes numa pintura um pouco enigmática, onde parece vir acima uma certa educação de que as mulheres de Adelaide fazem gala em se libertar, vingança por andarem para trás os anos e a juventude. É, portanto, uma pintura de memórias, por vezes opressivas, onde a Sé se ergue como um marco, mas também memória de tempos simples, de uma aldeia que morreu e apenas vive dentro da pintora, de um rio que nos ensinou a força dos impossíveis e nos leva com ele, ou de um cântaro cheio de searas em puro fogo, pão que o diabo amassou e um céu num outro mundo.
Por que razão olhamos para duas maçãs pintadas e não vemos apenas maçãs, entranhando-se uma na outra, em posição contrária uma à outra, aproveitando a sua vida, a sua frescura, antes que o verme, essa essência fálica reduzida ao mínimo, as deite a perder, as fertilize?
Quando mãos encavalitadas se estendem, já não sabemos muito bem se ajudam e apoiam ou se apenas procuram luz, talvez paz, fuga de um inferno ou de uma negra noite que as deixa entregues a si próprias, mãos duras, escuras e calosas.
Um dos mais emblemáticos quadros da exposição é a alquitara com a aldeia dentro, pintada como um corpo quente de mulhier grávida, que a leva no seu ventre como se fosse um filho. Quando dela sai, vem destilada pelo tempo que a nevou como se essa fosse a via para a conservar, fresca e menina, e melhor poder passear na sua rua que atravessa o mundo a meio.
Não é o mundo que Adelaide pinta, mas apenas os seus mundos, os seus sonhos, as suas aspirações, o tempo que a viu atravessar épocas e continentes. Uma pintura de interiores onde se sente que a pintora esbraceja com falta de espaço, em busca de uma serenidade que o tempo é avaro em trazer.

Amadeu Ferreira

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